• Uma entrevista sobre Verdades e Solos
  • Resenha de “Céu Subterrâneo” no Jornal da USP
  • A verdade lançada ao solo, de Paulo Rosenbaum. Rio de Janeiro: Editora Record, 2010. Por Regina Igel / University of Maryland, College Park
  • Resenha de “Céu Subterrâneo” por Reuven Faingold (Estadão)
  • Escritor de deserto – Céu Subterrâneo (Estadão)
  • A inconcebível Jerusalém (Estadão)
  • O midrash brasileiro “Céu subterrâneo”[1], o sefer de “A Verdade ao Solo” e o reino das diáforas de “A Pele que nos Divide”.(Blog Estadão)

Paulo Rosenbaum

~ Escritor e Médico Writer and physician

Paulo Rosenbaum

Arquivos do Autor: Paulo Rosenbaum

P-O livro está repleto de anagramas, pequenos segredos e labirintos. O que pode nos falar sobre eles?

17 segunda-feira jan 2011

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Obviamente posso falar pouco.

Os segredos e labirintos — parte integrante da linguagem romanesca — têm várias funções: manter o leitor atento (pois deve estar consciente que a desatenção ou a leitura muito fugaz pode depois lhe custar atenção dobrada) e trazer a hesitação e o suspense como eixos importantes da narrativa.  

Não acho que seria benéfico adiantar os enigmas que busquei plantar na trama mas posso antecipar (isso já é muito e espero não ser repreendido) que eles se distribuem homogenamente pelo texto.

Por favor leitores: avisem se descobrirem.

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P- Yan e Sibelius escolhem uma montanha nos Alpes para fazer a escalada. Pode nos explicar o contexto desta escolha?

16 domingo jan 2011

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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As montanhas sempre traduziram metáforas de buscas. Colinas, topos e montanhas — além do perigo progressivo — prometem o ar que se renova e a rarefação, o perigo da digressão mística e o ambiente que desloca as pessoas da visão crônica de vales e planícies.  

Na literatura, as escaladas sempre tiveram papel importante.  Por motivos diferentes médico e paciente (Yan e Sibelius) queriam escapar do Brasil. Não seria a mesma coisa um temporada numa praia do sul da Bahia ou uma aventura no pantanal matogrossense. Primeiro porque estavam saturados de seus contextos pessoais e ligavam a surmenage ao país. Não aguentavam mais o ambiente político, acadêmico ou existencial.

Sibelius estava à  exaustão, Como professor universitário semi banido e ex-dependente químico queria ver se uma temporada de férias separado de seu ambiente, pudesse trazer de volta a paz perdida.

Mas não era só isso.

Sibelius pensava que uma aventura radical como escalar uma montanha alpina trouxesse para ele a inspiração perdida, a regeneração que não mais enxergava da planície. Cogitou montanhas andinas mas descartou-as porque só a aclimatação para subir o Acongagua, por exemplo, demoraria dois meses. As montanhas suissas, por sua vez, estavam muito mais acessíveis com as sucessivas crises européias e o esvaziamento progressivo do forum econômico em Davos. Enfim surgiu a oportunidade.

Outro fator que colaborou para que Sibelius escolhesse a localização para a  subida era verificar in loco as “vantagens do degelo”. Este era o slogan da empresa de ecoturismo que tentava  vender o pacote depois que áreas inacessiveis de vários topos europeus ficaram mais exploráveis.  Yan por sua vez estava se despedindo da vida  acadêmica e precisava aliviar a tensão que acumulava como médico. A apresentação de seu trabalho “Falha de Instinto” em Berna foi abolutamente providencial. O paper tinha causado  tumulto no Brasil e tinha sido aceito por “pares” em revistas científicas com reserva editorial.  Yan sabia que era um trabalho polêmico. Mas isso é que o deixava mais motivado. Depois que voltou a uma vida simples e abandonou suas pretensões acadêmicas queria alcançar a paz despretenciosa. Mas só isso já era uma enorme pretensão.  Estava muito impressionado também pela experiência que teve com o grego que invadiu seu plantão trazendo informações que desestabilizariam qualquer um.  Yan foi abalado.

Outro aspecto que unia o interesse dos dois  era a forte amizade que se estabelecera entre eles durante os anos em que Sibelius esteve em tratamento.

Os dois eram fascinados pelo gelo e pela neve. A neve havia inspirado Yan muitas vezes em poemas que as vezes permaneciam em estado de oficina por dez, vinte anos. Sibelius tinha menos atração pelo frio mas já não aguentava mais ficar passar os verões em pousadas baratas “pé na praia”. Estava já com a pele torrada e ali o vício era muito mais tentador e acessível. Em crise com a última namorada e mais uma vez sob risco de ser cassado na Universidade quis se afastar de tudo que conhecia.  

E foi numa tarde cheia de lentidão que decidiram fazer a empreitada que poderia ser só mais uma extensão das férias. Idealizaram a montanha mágica e não perceberam o potencial de insanidade que as aventuras exigem de quem quer se arriscar.

Nunca poderiam imaginar que as circunstâncias mudariam dramaticamente e que, menos de alguns dias depois do desembarque em Zurique, estariam lutando para sobreviver. Contando milgalhas, espremendo-se para ganhar calor, especulando sobre a morte próxima.   

A jornada de Yan e Sibelius tem a marca apagada de uma verosimilitude que pode, e deve, ser sentida na pele.

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P – Há um público específico para o livro?

13 quinta-feira jan 2011

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Não.

Ainda que ele parta de uma aldeia judaica do século XIX e a desenvoltura da trama esteja sempre ligada a esta trajetória ele é, continua sendo um romance. E numa estrutura de romance o enredo pode levar o leitor a muitos lugares. E portanto não acho que o livro se destine a um nicho único nem a um público especifico. 

Sem querer voltar à sinopse (sempre importante, porém sempre reducionista) “A Verdade Lançada ao Solo” buscou ter a abrangência de um romance filosófico usando os elementos ficcionais para conduzir o leitor a lançar suas próprias conclusões, se é que elas ainda sejam necessárias.  Até certo ponto, pois o livro, especialmente a parte III, é bastante aberto, e as reações a essa abertura têm surpreendido o autor.

Como já me disseram os leitores– alguns enxergando nessa tendência uma beleza extra na trama toda enquanto outros reclamavam — as vezes o fluxo em flash backs torna o livro mais instigante do que trabalhoso.

Como autor, sinceramente, espero que ele esteja conseguindo isso: despertar reações e tirar as pessoas do lugar.

Cada personagem carrega uma fração de todos os outros. Isso significa também que podemos ver representados e nos fazer representar em cada um deles. Claro que o livro foi escrito por um judeu, que, rigorosamente parte de sua condição para narrar o mundo de acordo com suas perspectivas e vivencias.

E, neste sentido talvez os leitores estranhem especialmente se constratarem com outros autores, como por exemplo, escritores onde usa-se a tradição como pano de fundo para uma trama policial. No meu caso, a tradição vem dizer coisas novas sem que ela precise ser reformulada ou descaracterizada como conhecimento espiritual (a ponto de ser reduzida à cultura) traz uma questão problemática e, até certo ponto, insolúvel, que é a questão da assimilação (deixo para comentar depois em uma sequencia de posts).

Mas é claro que as vivencias que os personagem protagonizam — se partem de uma perspectiva existencial etnica — são depois arrastadas à universalização na medida em que vão entrando no mundo, saindo do exilio e abandonando os guetos.

Nesse sentido pensei em trazer fatos concretos (usando um terceiro narrador) para que as pessoas pudessem se familiarizar um pouco mais com uma cultura que tem quase seis milenios. Os tais “fatos” vão desde os anos e locais nos quais as perseguições anteriores ao holocausto ocorriam até eventos que, precariamente interpretados, levaram aos mais diversos preconceitos, cujo exemplo mais comum é o antisemitismo. 

Assim busquei resgatar elementos históricos reais para colocá-los a serviço da compreensão do contexto. Mesmo assim, isso não basta para caracterizar o livro como romance histórico.  Isso porque a ficção ainda é o elemento predominante no enredo.

Sempre foi mais fácil demonizar genericamente uma raça, uma etnia e, eventualmente, toda cultura, que compreender sua trajetória histórica. Neste sentido, o livro tráz mesmo uma dupla defesa:  não só os judeus mas outras minorias podem e devem viver suas peculiaridades etnicas, linguísticas e espirituais sem precisar sentir que estão em débito, ou com crédito, diante da maioria.  Não que a maioria fique passiva, pois, por força da inércia da homogeneidade seria melhor se todos fôssemos quase indiferenciados, pertencentes ao rebanho sem identidade.  

Portanto, para escapar tanto do enaltecimento como da depreciação era necessário mostrar as condições históricas que os judeus sempre enfrentaram, e, para isso, recorri aos fatos.

Por exemplo, as muralhas do gueto italiano de Roma na Idade Média eram uma maquete tenebrosamente perfeita para o posterior confinamento sistemático dos judeus em guetos durante a escalada nazi-fascista na Europa.

Esta “preparação de terreno” foi muito mais ampla do que apenas eventos isolados. Os “libelos de sangue” que ocorreram da Inglaterra à França durante a Alta Idade Média foram eventos que também configuraram uma antecipação macabra para que a “solução final” ganhasse terreno — portanto consistencia — no imaginário dos povos europeus. Mas essa análise não poderia, nem deveria, ser somente histórica; ela deveria estar inserida no contexto da trama.

Por que?

Porque era preciso mostrar que a essencia da atitude existencial não esteve só, como querem fazer crer as tendencias seculares quando se debruçam sobre as religiões, na cultura e nos hábitos tradicionais.

Havia uma essencia, uma qualidade devocional que fazia o amor entre pessoas e o amor delas por Deus ser manifesta e importante, senão vital, na vida cotidiana. Era uma espécie de primeiro sentido para que os homens adorassem o Criador.

E esse era recuperar a alegria simples. Bastava viver. Um direito nem sempre respeitado.  

Se esse sentido primeiro extraviou-se ou foi extraviado dos homens será necessário recupera-lo, sempre. Esse é o oficio humano.

Nesse sentido, e nesse mais do que em qualquer outro, o livro não é mais uma ficção.

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As Três partes (III)

02 domingo jan 2011

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Deus, judaísmo, livro

Além das partes articuladas a vitalidade não é só mais outro item a ser considerado. Ela é essencial na vida e no composto em que se transforma o texto uma vez que ele começa a viver como uma unidade. O livro tem uma natureza que transcende o autor porque — como as obras de arte e as missões individuais — deixam pegadas. Os rastreadores tentam segui-las enquanto ousamos interpretar.

Voltando ao texto do livro: a terceira parte foi a que tomou mais tempo. Primeiro  porque foi a que sofreu mais mudanças, não só como final. As mudanças vieram para tomar a hesitação e a tensão acumulada nas outras partes e despeja-las em final que surpreende. Surpreende pelo sinal aberto que tenta manter, e ao mesmo tempo mostrar que há um fechamento para as tres partes.

O aparecimento de Antiocus Apsev na trama dá o tom de perplexidade  ao texto. Ele ameaça a coerencia da parte II, ele é um desafio para o médico. O grego que vem trazer a mensagem vaga veicula uma duvida que só quem tiver persistencia resolverá. O oculto depende de empenho. O mistério, se existe, é para que ninguém fique completamente tranquilo, assim é que se muda a ilusão do conforto. Ninguém pode ficar indiferente ao que não domina.

A chamada é sempre indireta, fugidia, imperfeita, mas ela existe. Antiocus é um desafio ao médico e um desafio ao ceticismo como ideologia. A palavra que ele traz é um parametro indiciário, vale dizer uma evidencia indireta, de que o mundo transcendente não é ficção. Ele existe e tem pulso. Precisamos senti-lo.

Estes sinais acessórios através de que Deus fala emudece a descrença; ela se torna vazia.

Porque o que não sabemos excede tudo.

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As três partes (II)

30 quinta-feira dez 2010

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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a linguagem poético como o devir da libertação, a pedagogia do desespero, discurso acadêmico anti-romântico, verosemelhança e ficção, vitalidade de um romance

A ideia em um romance é que ele tenha a vitalidade de um organismo. Isso significa que ele deve ter, além de consistência, autonomia e movimentação. Para que tenha a movimentação as partes devem vir articuladas. Claro que não exatamente como uma tese, mas pelo menos o organograma mínimo da construção deve estar claro. No início. Friso o “no início” porque esta previsão será decerto modificada pela força do texto e dos personagens.

Muitos me avisam coisas contraditórias, paradoxais sobre suas impressões do livro. Zult é o personagem forte e o eixo sobre o qual o livro corre, sempre. No entanto a parte II é um must para as passagens que virão. A “Balada” de Yan e Sibelius tem momentos mesmo inverossímeis mas como já afirmaram gênios da literatura “a ficção é obrigada a se ater as possibilidades, a realidade não”. Então os diálogos filosóficos em cima da montanha só poderiam acontecer ali. Acho que o artificialismo pode ter sido suplantado pela impossibilidade de que revelações que se fazem numa situação extrema não poderem ocorrer em nenhuma outra situação. A proximidade da morte desenrola a língua. Isso é uma realidade. O discurso acadêmico é anti-romântico por natureza. A paixão deve ser toda enxugada, o rigor metodológico suprime a liberdade no ato de criar. Esta “camisa de força” do pensar está em mim. Visto ela todos os dias e quando tento tirar sinto dores articulares. Isso significa que o estuturalismo me impregnou com seus limites.  Tudo em nome da ciencia e do conhecimento.

No entanto, veio a reação e os momentos de tensão e emoção foram aparecendo pelo inusitado, pela tensão da situação dos personagens: famintos, congelados, torturados  pelos erros cometidos, por uma vida meio desperdiçada, e enfim pela descoberta da libertação. As amarras intelectuais podem — e devem — ser destroçadas. A mola auxiliar desta empreitada foi, sem duvida, a poesia e sua linguagem. 

Assim se Yan e Sibelius travam dialogos longos e aparentemente sem obedecer a verossimilitude , na outra ponta estão abertos — é uma condição imperativa — para o mundo espiritual. Para algumas pessoas só na exaustão, na falta de esperança e no mais materialista dos destinos a alma pode voltar a falar. Esta ideia (a de alma que busca o Criador) obseda não porque faz parte de uma perturbação psiquica crônica da humanidade. 

Ela é necessária.   

Assim a parte II é um rito que permite que nossa tradição (independentemente de qual ela seja) possa voltar a ser acesa.  No claro.

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As três partes – I

27 segunda-feira dez 2010

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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O livro originalmente deveria ser em três tomos. Foi conversando com as editoras Luciana Villas Boas e Magda Tebet que ficou claro para mim: não faria sentido os três tomos como livros separados. Mas talvez para isso precisaríamos de uma costura, foi o que imaginei.

Incomodava saber que a tal “costura”  envolvesse algum artificialismo, uma ação cosmética que, de algum modo, preparasse o livro para ser um só. Mas, em meio a uma das suas 109.729 palavras deparo com a consistência. Estava tudo ali, já arranjado. O livro não precisava ser dividido em tomos (apesar do medo, ainda presente, de que os leitores possam fugir de um livro com 588 páginas). Mas ali estava: ele era um só desde o início.

Como o livro se inicia com uma jornada épica de Zult Talb  — junto com as referencias históricas e das idas e vindas no tempo —  sua desenvoltura depende muito desta primeira parte.  Mas não completamente. Como já disse em algum outro post do blog, um amigo chamou minha atenção ao me contar que começou da parte II.  Mesmo tendo sentido necessidade de voltar à parte I, para poder penetrar melhor no texto.

A segunda parte  que narra a Balada que Yan e Sibelius — junto com os pactos implícitos e explícitos da jornada e rumo ao alto de uma montanha alpina — servem como guia condutor para que o leitor possa entender (calma, mais ao final) porque um corte de quase duas gerações foi necessário. Para muito além da relação médico-paciente, desenvolvem uma amizade rara, dessas que não se vê mais por ai. São, vale dizer, tornam-se confidentes. Um pacto masculino que reafirmará seu padrão em várias ocasiões dentro dos diálogos. Em situações de risco as conversas podem ficar mais nítidas. Mas o que vão descobrir não serão só surpresas, nem  solidariedade. Na trilha dos sobreviventes há muita angustia, e principalmente, testes. Estes testes involuntários que o contingente (há mesmo contingencias?)  prega nas pessoas, respondendo no aparecimento dos imprevistos. E então a amizade, os valores e principalmente as crenças individuais são confrontadas numa tensão exagerada. A pergunta — que se via falsamente resolvidas nas palavras da modernidade e repisadas como refrões pelo mundo contemporâneo que afinal era mais afirmação que indagação — “a aspiração à transcendencia está morta?”  não só não foi respondida como é uma das teses que foram ressucitadas depois que o fim das ideologias políticas enxergou que o colapso sobreveria. Logo.

Depois : mais partes um, dois e três.

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Processo criativo (V) – um romance

23 quinta-feira dez 2010

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Se partirmos do pressuposto que a Criação é um mistério ( se não compartilhamos disso não podemos duvidar de nada pois teriamos que aceitar um universo que, apenas jogando dados, fez o que fez) e que esse mistério quis ser caprichoso o suficiente para não deixar autoevidente que dependemos dele para viver, há uma bondade e há um sentido nisso.

Quando criamos um texto ou qualquer coisa, “do nada”,vale dizer do “aparente nada”  estamos imitando, simbolicamente, o Criador.

Na criação de uma poesia ela virá da contração da já mencionada pressão por expressão com captura de imagens. Este é uma pequena amostra de uma “chochma” , um lampejo que se processa como ideia. Entretanto este casamento prossegue numa ebulição fina e chuvosa que, em geral, termina com um poema organizado (nem que entre toques e retoques leve 20 anos).  Ao mesmo tempo a permanente busca do escritor em modelar o texto (nao me satisfaz nem um pouco a ideia de polimento tipo ouvires, prefiro a brutalidade da martelada violenta do escultor quando depara com um bloco enorme ou do traçamento instintivo — e não menos trabalhoso — das medições a olho, do golpe de vista, da descarga primitiva com que as ideias esparramadas que ou se se ajeitam ou escorrem como um liquido na superfície lisa) e trabalhosa.  

Isso para dizer que há sorte também. Mas esta sorte não vem de lugar qualquer.  É preciso talento, formação, paciencia, tato, suor, mas também — em doses simétricas ? — esta sorte que nos faz, por um faro metafisico, saber o que pode e o que deve estar ou não estar. Não, não é para agradar o leitor e também não se trata de deleite narcisista puro. Trata-se antes de estabelecer sentidos.  

Faz sentido que todos queiram que outros escutem, veja, sintam e respirem suas necessidades de expressão. Neste aspecto, compreende-se que, mesmo sem qualquer aptidão para as letras tenha havido uma megaexplosão de blogs e de “escritores”. Mas, como na terapia artística, a função destes espaços é prioritariamente, se não exclusivamente, contemplar a necessidade de autoexpressão e não de organizar vernissages.  As redes sociais na net que até hoje, por fobia social ou aversão estética  tenho resistido (até quando?) parecem ter confundido ainda mais as pessoas.

Claro que muitos podem, ai, descobrir que tem a vocação para a arte. Algum tipo de arte, decerto. A recente leva de novos escritores brasileiros e internacionais prova isso.

Mas há uma confusão. E ela está associada à dificuldade contemporânea em distinguir/estabelecer o que é um trabalho de qualidade literária/artística de uma obra que, a título de aliviar o autor da eliminação, termina gerando a explosão de obras e livros de má qualidade artística/literária que, de forma efêmera, descansam ou são comercializadas nas prateleiras das livrarias e galerias.

O dolo evidente, é que apesar da qualidade precária, da inconsistência e graças a uma aptidão pessoal ao business, aliado ao poder econômico do marketing e aos lobbies literários-politicos, economico-administrativos e  editoriais-empresariais, o autor/criador pode mesmo chegar a alcançar fama, prestígio e dinheiro, muito dinheiro.

Schopenhauer bem sabia.

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Processo criativo (IV) – A literatura é mística

23 quinta-feira dez 2010

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Claro que compreendo porque muitos não gostam de ler alguém com razoável discernimento científico e até filosófico falar sobre “a mística da literatura” ou como Deus é importante no processo criativo.

Céus, o que está acontecendo?

Estão todos embebidos d´náusea! Drogados pela paixão em que se transformou o ceticismo-resistencia como contraponto à crença-establishment.

Mas eis uma discussão que não diz nada fora do ambiente da literatura. Por isso, correndo, voltemos a ela.

Isso quer dizer, e reafirmar, a literatura é mística!

Em miudos, significa que a leitura ainda é uma forma de acesso profético ao mundo. Que o delírio cético pode se igualar ao delírio místico, onde ambos estão anulados como teoremas ou teses filosóficas. 

O que sobra?

O espírito! Sim o espírito com suas  aspirações e suas prisões que cortam todas as carnes.

Vivemos para viver. Se pararmos (não pensarmos) um pouco, veremos: só isso temos.

Não quero mais ver filmes que reiterem o cotidiano. Estou saturado com favelas retratadas em ensaios burlescos intensificando a realidade como padrão. Não preciso e não quero saber de tudo que se passa no mundo ao mesmo tempo. Não quero responder — ainda que me sinto obrigado a, e frequentemente o faça — aos e-mails e os torpedos com presteza neurótica. Não quero viver sob a tutela do estado, da sociedade, dos mestres, da civilidade (principalmente porque é falsa). 

É eu sei, caro Sr, nossa liberdade depende de todas estas obrigações.

Mas pensem por um segundo! Se a liberdade fosse um atributo absoluto e voce não dependesse da KGB psíquica nem da Stasi espiritual para poder viver tranquilo. Se voce pudesse conviver com o que voce é, sem precisar recorrer à tal demencia racionalizadora que coloniza o mundo. Se seus preconceitos pudessem ser vividos sem esmagar ninguém.

A literatura é mística porque ela é um outro possível. Ela nos faz respirar o que, de outro modo, não respiraríamos. A literatura é mística porque produz um transe que nenhum outro é capaz (talvez o cinema, mas pelo que se ve, cada vez menos): podemos conversar e ver conversas.

Isso está acabando.

Na era em que os adolescentes tem cifose precoce por se curvarem demais para responder em seus blackberries  e a vida virtual é mais valorizada que a intimidade em carne e osso, sabemos, intuimos, pelo menos pressentimos, que isso não é aquilo.

Façam um favor a voces mesmos, por alguns instantes durante o dia, recusem a realidade. Voces ouvirão o ruído de fundo caminhando devagar, ele assumirá parte do controle e assim voce poderá, enfim, se descontrolar.

                                                                                      “atestar o total descontrole”

Deus pode falar, assim como as ideias podem viver de novo.

E, por isso, todos nós também.

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Processo criativo (III) – A mística da literatura, um segundo

20 segunda-feira dez 2010

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Talvez eu devesse ter dividido o texto em três: mística da literatura, literatura mística e o místico na literatura. Mas não o fiz ainda.

Por enquanto, continuarei falando da mística da literatura para tentar compreender como o processo de criação acontece em mim.

O processo inicial de uma poesia por exemplo, leva pouco menos que um segundo. (atenção: a percepção vêm, a elaboração circulará anos até qualquer desfecho). Ela se faz e se desfaz com a mesma velocidade. Como os sonhos dos quais podemos regastar vestígios — e anotados podem nos fazer “puxar”o enredo todo durante o dia — o processo criativo passa por imagens primordiais. Estas imagens as vezes são palavras puras, imagens internas, e, as vezes, na maioria delas, a captura de uma imagem do mundo sensível.

Ontem vi um “chorão”e a árvore estava parcialmente iluminada pelo sol que descia. Ouvia Eric Satie enquanto dirigia. Aquilo produziu em mim um desejo de transformar aquele conjunto de percepções e sensações em uma poesia. Não o fiz, paguei o preço. A impossibilidade de expressão machuca e como um espinho incapaz de ser localizado, incomoda muito.

Só sei que a poesia do “chorão” traria uma imagem :

fosca exaustão de um sol em tiras,

que se retirava, lentamente,

para que o pingo,

qual folha,

gotejasse no poente avesso.

Não existem outras palavras para a poesia, ela é arbitrária, insensível à critica e não se trata de um capricho de autor, sucesso de estima, nem de poeta refratário mas de sua própria natureza. Uma tirania que, se fosse somente estética, acabaria logo ali.

Espero que dure.

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Processo criativo (II) – Mística da Literatura

19 domingo dez 2010

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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O que acabo de entitular como “mística da literatura” tanto chocará como provavelmente passará como um texto semi-invisível, quase anônimo, já que este autor apenas fez a estréia em um romance, não é acadêmico de Letras ou jornalista e atualmente não conta com networks. 

Mesmo assim, ou por isso mesmo, é necessário deixar registrado que a criação é, também, um procedimento místico. Que razão, estilo e método entram como ingredientes coadjuvantes da intuição e da percepção mística. A mística não se refere só a uma vulgata de estados extáticos, e portanto alienados, mas à compreensão que coloca o interno — o inner felling — como origem e vida da inspiração e da motivação. Isso significa que criar é ficar devendo ao fogo, ao fogo do espirito. Significa que para criar não só temos que ter algo a dizer, mas esse dizer deve trazer o espírito mais suavemente, mais apaziguadamente e mais claramente para uma área de mudança.

Que ninguém confunda e fica aqui reiterado: a criação se processa com dor, sob agonia. Torça-se o nariz para esta exortação mas isso não a torna menos veraz.  

A mística portanto têm um caráter polissêmico e audaz. Polissêmico porque têm muitas inserções possíveis: age sobre a mente e o corpo por pressão e torna o autor suscetível o suficiente para formular e trazer as ideias (que geralmente começam com imagens, como Aristóteles pensava) para as letras. Audaz porque é preciso muita coragem para dizer o que viemos para dizer. Parece simples? Não, não é nada simples. E as letras vem sob pressão (sempre pressão, sim, escrever é ser acuado por voce mesmo) dos fonemas. Os sons obedecem parte desta mística que se processa na criação porque é onde estamos mais próximos Dele. Ninguém precisa crer em nada mas isso não significa que não exista.  

Talvez minha enorme fração, predominantente fração decerto, de poeta, ajude ou pelo menos intensifique esse aspecto musical com que as palavras precisam, insistem e se acotovelam para se encaixar nas sentenças.

Como disse em outro lugar, quando surge uma palavra (há quem use a critica para destruir o uso da livre associação como critério literário, mas para dar crédito a esta objeção, teríamos que negar pelo menos boa parte da psicologia — talvez menos a psiconeurologia)  se não atribuíssemos a ela o papel lampejador que ela efetivamente tem, ao menos como primeiro motor. Ela nos coloniza, embaralha a mente, até que seja usada, expelida.  

A mística da literatura, quando se trata do processo criativo, não  está encolhida nem ocupa lugar secundário:  é uma das raras prioridades.

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Entrevista sobre o Livro

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