Se partirmos do pressuposto que a Criação é um mistério ( se não compartilhamos disso não podemos duvidar de nada pois teriamos que aceitar um universo que, apenas jogando dados, fez o que fez) e que esse mistério quis ser caprichoso o suficiente para não deixar autoevidente que dependemos dele para viver, há uma bondade e há um sentido nisso.

Quando criamos um texto ou qualquer coisa, “do nada”,vale dizer do “aparente nada”  estamos imitando, simbolicamente, o Criador.

Na criação de uma poesia ela virá da contração da já mencionada pressão por expressão com captura de imagens. Este é uma pequena amostra de uma “chochma” , um lampejo que se processa como ideia. Entretanto este casamento prossegue numa ebulição fina e chuvosa que, em geral, termina com um poema organizado (nem que entre toques e retoques leve 20 anos).  Ao mesmo tempo a permanente busca do escritor em modelar o texto (nao me satisfaz nem um pouco a ideia de polimento tipo ouvires, prefiro a brutalidade da martelada violenta do escultor quando depara com um bloco enorme ou do traçamento instintivo — e não menos trabalhoso — das medições a olho, do golpe de vista, da descarga primitiva com que as ideias esparramadas que ou se se ajeitam ou escorrem como um liquido na superfície lisa) e trabalhosa.  

Isso para dizer que há sorte também. Mas esta sorte não vem de lugar qualquer.  É preciso talento, formação, paciencia, tato, suor, mas também — em doses simétricas ? — esta sorte que nos faz, por um faro metafisico, saber o que pode e o que deve estar ou não estar. Não, não é para agradar o leitor e também não se trata de deleite narcisista puro. Trata-se antes de estabelecer sentidos.  

Faz sentido que todos queiram que outros escutem, veja, sintam e respirem suas necessidades de expressão. Neste aspecto, compreende-se que, mesmo sem qualquer aptidão para as letras tenha havido uma megaexplosão de blogs e de “escritores”. Mas, como na terapia artística, a função destes espaços é prioritariamente, se não exclusivamente, contemplar a necessidade de autoexpressão e não de organizar vernissages.  As redes sociais na net que até hoje, por fobia social ou aversão estética  tenho resistido (até quando?) parecem ter confundido ainda mais as pessoas.

Claro que muitos podem, ai, descobrir que tem a vocação para a arte. Algum tipo de arte, decerto. A recente leva de novos escritores brasileiros e internacionais prova isso.

Mas há uma confusão. E ela está associada à dificuldade contemporânea em distinguir/estabelecer o que é um trabalho de qualidade literária/artística de uma obra que, a título de aliviar o autor da eliminação, termina gerando a explosão de obras e livros de má qualidade artística/literária que, de forma efêmera, descansam ou são comercializadas nas prateleiras das livrarias e galerias.

O dolo evidente, é que apesar da qualidade precária, da inconsistência e graças a uma aptidão pessoal ao business, aliado ao poder econômico do marketing e aos lobbies literários-politicos, economico-administrativos e  editoriais-empresariais, o autor/criador pode mesmo chegar a alcançar fama, prestígio e dinheiro, muito dinheiro.

Schopenhauer bem sabia.