Reavaliando preconceitos e aversões, celebridades têm mesmo seu valor. A atriz Angelina Jolie expandiu drasticamente sua fama com a notícia da mastectomia total bilateral à qual se submeteu depois de detectar, através de exames genéticos, alto risco de desenvolver neoplasia maligna na mama.

A decisão provocou corrida aos exames genéticos e intermináveis polêmicas, mas, pelo que se lê e ouve, estamos distantes de qualquer consenso, sequer de um debate racional. Como sempre, alvoroços opinativos se transformam em posturas sectárias e apriorísticas: “eu também faria, tem toda a razão” ou “que absurdo, ela deve ter tido razões ocultas para tomar essa decisão”. Assim é que não se vai muito longe. A verdade é que exames de mapeamento heredo-genético ainda estão em fase de pesquisas. Neste estado embrionário, bem poucas cidadãs podem se esclarecer ouvindo e lendo as discussões travadas na mídia.

Vamos voltar um pouco para tentar reconstituir as razões, o contexto e os parâmetros científicos que costumam nortear decisões terapêuticas.

Toda a ideia da epidemiologia clínica sempre foi tentar esclarecer e distinguir os fatores que expõem (com potencial para impactar negativamente a saúde) daqueles que protegem o sujeito (deixar o organismo menos vulnerável). Como saber? Tenta-se estabelece-se uma linha de risco. O risco é uma fronteira subjetiva, ainda que possa ser transformado em índice matemático sob dados estatísticos. A saber, existem procedimentos clínicos, nutritivos, hábitos de vida, e ambientais que protegem a pessoa, assim como aqueles que a tornam mais vulnerável.

Então de onde emerge a subjetividade e toda a assim chamada “arte” em medicina?

A medicina não é ciência stricto sensu, no máxima ciência operativa como alguns epistemólogos ousaram classificar. A arte mencionada se deriva da necessidade de ponderar cada caso em seu devido contexto de individualidade e peculiaridade. Isso torna as regras clínicas mais flexíveis. Alguns reclamam deste caráter relativizador que a medicina adota. Ainda bem que ele existe! Na verdade, trata-se de um importante esteio de segurança para que a pessoa enferma não seja reduzida a mero protocolo.

Em outras palavras, todas as decisões terapêuticas: do parto via cesariana ao transplante cardíaco, dependem pois de criteriosa avaliação do médico, dos cuidadores, da família, da história pregressa, das condições e contextos da pessoa enferma.

Se Angelina têm mais chances de desenvolver a doença neoplasia mamária, e há um exame que detecta esta predisposição e ponderadas todas as variáveis, ela junto com o marido, médicos, agentes da saúde e família, tomou a decisão, esta deve ter sido acertada. Isso não significa que outra pessoa, nas mesmíssimas circunstâncias e com o idêntico exame em mãos, deva ou possa reproduzir o que a atriz acaba de fazer. Por que não?

Exatamente porque a análise de risco envolve aspectos que estão para além da medicina e, às vezes, o que vale para um pode não valer para outro. Quanto a mulher pode suportar a idéia da mutilação? Quais os impactos psíquicos?  Com que tipo de companheiro/família ela poderá contar na fase que se chama convalescença? Ela sabe que resta uma chance de 10% de que mesmo tendo se submetido ao procedimento pode desenvolver o câncer? Sabe que podem haver complicações cirúrgicas, como aderências, má cicatrização e infecções? Qual será a influência da cirurgia no seu futuro, nos projetos que desenvolve, nas atividades profissionais? E, por último, decerto o mais importante, como lidará com a informação de que haviam chances de jamais desenvolver o tumor maligno?

Para compreender isso melhor será importante recuperar os esquecidos e quase abandonados conceitos de predisposição e susceptibilidade. Não seria má idéia que o público tivesse acesso aos textos do pai da medicina para entender isso melhor. Sim senhores, uma medicina “antiga” como a hipocrática ainda pode nos indicar caminhos e evitar trilhar nos desastres dos excessos de diagnósticos.

Polêmica mas cabível, é a tese desenvolvida pelo médico americano Gilbert Welch “Overdiagnosed”, livro que traz críticas razoavelmente fundamentadas aos incontáveis abusos de técnicas da propedêutica armada (exames laboratoriais).  Welch, não descarta o valor do diagnóstico ou propõe modelos alternativos para a saúde, mas enfatiza o questionamento à indústria das doenças que o excesso de tecnologia costuma construir.

Em uma sociedade com características patofóbicas (pathos – paixão ou doença, phobos – medo) e alarmável por tudo, agravado pela velocidade on-line de informações impossíveis de seres processadas, nossa tendência é consumir procedimentos e seguir acriticamente o que se noticia como in e up-to-date.  Há uma moda em saúde também.

Para desenvolver uma moléstia (complexo de alterações funcionais e morfológicas, de caráterevolutivo, que se manifestam no indivíduo submetido à ação de causas estranhas, contra as quais ele reage) é preciso “poder” desenvolve-la. Em termos práticos isso significa que só se existe um terreno genético há chances de desenvolvimento da patologia. Chances não significam certeza. São dados condicionais, não mandatórios. Se soubéssemos de todas as nossas chances de adoecer, viveríamos melhor? Para que alguém adoeça, devem se mesclar condições suficientes, necessárias, sobretudo fatores desencadeantes. Em geral são multifatoriais.

Exemplo: uma crise de bronquite alérgica pode afetar alguns sob três condições simultâneas: verão, muita umidade e abuso no consumo de chocolate. Em outros (considerando que o sujeito tenha a mesma predisposição genética e a mesmíssima patologia) só desenvolverá seu potencial no outono, ar seco e a noite. Ainda há aqueles que só precisam da decepção financeira para desencadear broncoespasmos. É esta ampla, quase imponderável variabilidade que torna a medicina um campo curiosamente inexato.

Voltando ao caso Jolie, é necessário prudência, responsabilidade e cuidado. O risco é que, sem todos os dados, o cenário se torne corredor de direção única, como aliás têm sido a epidemia de cirurgias plásticas e bariátricas. Isso é particularmente importante neste caso, e, por isso, trago o tema à tona. Questão de saúde pública. A tendência dos colonizados é agir por cópia e a cópia costuma ser um equívoco. O que serve para Jolie pode não servir para as outras mulheres e vice versa.

Qualquer decisão que envolva este grau de radicalidade e intervenção, merece esmiuçamento e seria aconselhável estar clinicamente amparada, de preferência, por duas opiniões de equipes médicas e transdisciplinares.

Uma vez formulada a decisão, aposte que essa foi a melhor dentre todas as possibilidades sem esquecer que nada é inexorável.

Sobre o autor:
Paulo Rosenbaum é médico e escritor. Mestre e PhD em ciências, é pós-doutor em medicina preventiva (USP). É autor de “A Verdade Lançada ao Solo” (editora Record). Tem uma coluna semanal em “Coisas de Política”, do Jornal do Brasil.

Os benefícios das práticas integrativas (Jornal da Usp)

06 a 12 de mar�o de 2006 ano XXI no.753
sa�de
Os benefícios das práticas integrativas
Livro lançado pelo médico Paulo Rosenbaum mostra as contribuições da homeopatia para a medicina tradicional

CRISTIANE CAPUCHINO, DO USPONLINE

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O
crescente avanço da homeopatia e o grande número de dúvidas sobre suas práticas são algumas das razões para ler o livro Homeopatia – Medicina sob medida, que acaba de ser lançado pelo médico Paulo Rosenbaum.

Médico homeopata, Rosenbaum é graduado pela Faculdade de Medicina da USP. Seu doutoramento, defendido no final de 2005, também na Faculdade de Medicina da USP, tem como tema o conceito de “medicina do sujeito”, que é a terapia centrada no paciente de forma holística, e não apenas nos sintomas de maneira generalizada. Essas são, segundo o autor, características do tratamento homeopático.

Com o lançamento, Rosenbaum, que também é docente da Escola de Homeopatia, pretende acabar com mitos e esclarecer a terapia homeopática. Na entrevista a seguir, o médico fala sobre as dificuldades para a aceitação da homeopatia no meio científico e os preconceitos ainda existentes. Ele também explica o que é a “medicina do sujeito” e a contribuição da homeopatia para outros campos da medicina. “A homeopatia é uma forma de operacionalizar a interdisciplinaridade, tão falada e tão pouco realizada. Esse é o nosso método de trabalho”, diz o médico.


JORNAL DA USP
– Por que a homeopatia foi considerada, durante muito tempo, um tipo de curandeirismo?
Paulo Rosenbaum – Existem motivos que são de ordem cultural e outros de ordem socioinstitucional e política. A homeopatia nunca conseguiu se institucionalizar dentro da universidade. Por falta de organização dos próprios homeopatas, por um certo belicismo existente entre os próprios homeopatas e dificuldades de comprovação do seu saber. Essas dificuldades persistem até hoje.JUSP – Como o senhor reage à crítica de que não há comprovação científica dos efeitos da homeopatia?
Rosenbaum – Ainda não se conseguiu provar o modo de atuação da homeopatia. Mas, ainda que não se saiba como acontece, existe a comprovação empírica de que a homeopatia dá resultados, tanto in vitro (em laboratório), como in vivo (em pacientes). Não se sabe como isso se dá, já que são doses muito diluídas, abaixo do limite da matéria. Acredita-se que o efeito esteja em uma informação de natureza eletromagnética, o que é muito provável.

JUSP – As indústrias farmacêuticas tradicionais são um obstáculo para o uso dos remédios homeopáticos?
Rosenbaum – Há barragens que não são propriamente científicas. Existe um bloqueio do mercado tradicional, mas o mercado homeopático é um mercado emergente. E já movimenta algo em torno de várias centenas de milhões de dólares. E isso incomoda as indústrias farmacêuticas. Muitas delas estão entrando nesse mercado, investindo em fitoterapia, percebendo a evolução, o que era impensável há 20 anos.

JUSP – Ainda existe preconceito contra a homeopatia entre os médicos ?
Rosenbaum – É necessário que se diga que diminuiu muito. A homeopatia vem crescendo tanto na Europa como nos Estados Unidos e mesmo no Brasil. Está conseguindo sua inserção nas universidades. E também uma inserção social. No dia 15 de dezembro passado, por exemplo, foi aprovada uma lei (a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares) permitindo trazer para o Sistema Único de Saúde (SUS) práticas não-convencionais, como a acupuntura e a homeopatia.

JUSP – Mas chamar de práticas “não-convencionais” já não evidencia uma certa implicância?
Rosenbaum – Sim. A recomendação é que passe a se chamar esse tipo de intervenção de “medicinas integrativas”, caracterizando-o como um pool interdisciplinar, de práticas que trabalham com diversas áreas.

JUSP – No livro, o senhor aponta essa como a grande virtude da homeopatia.
Rosenbaum – Essa é a idéia de nós realmente operacionalizarmos a interdisciplinaridade, tão falada e tão pouco realizada. Na homeopatia esse é o método de trabalho. A homeopatia tem que necessariamente conversar com a antropologia, com a psicologia e com as práticas médicas convencionais, para melhor atender o paciente como sujeito.

JUSP – O que é a “medicina do sujeito” de que o senhor fala no livro?
Rosenbaum – Existe uma área emergente na medicina, que é a medicina centrada no paciente. Uma outra prática é a medicina baseada em narrativas. Essa é a base de trabalho da homeopatia: a história do sujeito. É através dela que você pode compreender a doença ou a enfermidade. O meu doutoramento é sobre a medicina do sujeito, e ela está para além da homeopatia, é a incorporação de outras coisas além dos sintomas simples usados tradicionalmente.

JUSP – Qual é a contribuição da homeopatia para outros ramos da medicina?
Rosenbaum – A homeopatia tem uma forma muito particular de fazer a anamnese (conhecimento do histórico do paciente). Faz-se uma entrevista longa, bastante detalhada, que evoca não só a patografia, mas também a biografia. Como o paciente é, qual seu temperamento, quais são seus hábitos. Hoje se fala da humanização da medicina. A homeopatia tem essa performance já incorporada na prática. Você acolhe o discurso, traz o sujeito de volta à cena. Mantém a medicina como o contato entre humanos.

JUSP – Então a homeopatia não se pretende única?
Rosenbaum – A homeopatia não é contra a biomedicina, é um modo diferente de conhecer o corpo. Ela dialoga com a medicina porque o paciente precisa manter os tratamentos de todos os lados. Qualquer tipo de benefício, sobretudo em enfermidades graves, é bem-vindo. Hoje um dos programas mais importantes da área de saúde do governo é o médico da família. Seu sucesso não se dá apenas por levar o médico até as regiões mais distantes. É a idéia do médico individual, que acaba conhecendo o paciente, sabendo de traços da sua vida. Esse médico tem como interferir de maneira mais eficaz.

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O Jornal da USP é um órgão da Universidade de São Paulo, publicado pela Divisão de Mídias Impressas da Coordenadoria de Comunicação Social da USP.
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Paulo Rosenbaum apresenta sua literatura ligada à temática das tradições (Rádio Cultura)

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Paulo Rosenbaum apresenta sua literatura ligada à temática das tradições

O médico e romancista participa da coluna ‘Com a palavra, o livro’ e divulga seu novo projeto, que ainda busca uma editora para publicação

Literatura

16/06/14 16:21 – Atualizado em 23/06/14 11:59

O médico, poeta e romancista Paulo Rosenbaum teve seu primeiro romance, intitulado A verdade lançada ao solo, lançado em 2010. O livro publicado pela Editora Record marcou sua estreia na ficção. A temática é a tradição judaica e o questionamento do lugar do homem na Terra, aplicando judaísmo e filosofia a fatos históricos.

Com a boa repercussão de sua primeira obra de ficção, ele ganhou uma bolsa literária para escrever em Israel, que resultou em uma experiência única com autores locais. Lá, buscou capturar o estado das coisas no país. Após escrever o texto, está em busca de uma editora que apoie seu novo projeto e o publique.

“É uma discussão sobre a ressignificação da tradição. Sou judeu e tive essa vivência de retornar as raízes, e eu queria entender melhor a minha própria experiência”, diz o médico e escritor em entrevista no De volta ‘pra’ casa.

“Acabei fazendo um livro que remete à tradição do primeiro homem. Os corpos de Adão e Eva estão enterrados em uma cidade conflituosa de Israel. E acabei indo para lá e tendo vivências curiosas”, conta. Como sugestão para a coluna Com a palavra, o livro, ele deixou duas referências que o marcaram: , de Joseph Roth, e A queda, de Albert Camus.

Entrevista Fictícia com o Dr. Mure, o divulgador da Homeopatia no Brasil

quarta-feira, 3 de março de 2010

Entrevista Fictícia com o Dr. Mure, o divulgador da Homeopatia no Brasil – Paulo Rosenbaum

Dia da Homeopatia

No dia 21 de novembro, comemora-se o dia da Homeopatia, uma data que propicia um momento
de reflexão sobre a terapêutica criada por Samuel Hahnemann e introduzida no Brasil pelo médico Benoit Jules Mure. Numa fictícia entrevista como Dr. Mure, o Dr. Paulo Rosenbaum levanta algumas questões que, do seu ponto de vista, são importantes para o atual momento da Homeopatia.
Mais um dia da homeopatia no Brasil e não é difícil reconhecer a desmotivação generalizada. Mas haverá alguma explicação razoável para ela?
O médico Benoit Jules Mure tinha muitas preocupações em mente. A ampliação do horizonte de atuação da
medicina era uma delas. Um projeto generoso e compatível com os desejos da sociedade que pedia, e continua pedindo, compartilhamento, diálogo, ética e solidariedade, seja lá qual for a medicina utilizada. Para discutir este e outros temas conseguimos conversar com o Dr. Mure em Lyon, França:
Dr. Mure, Neste dia que comemoramos a introdução da homeopatiano Brasil, há o que celebrar?
O Sr.Sempre defendeu que a homeopatia desempenhasse um papel social bem mais amplo. Que pretensão era essa? Qual sociólogo ou filósofo concedeu esta liberdade para a medicina?
BM – Não estamos pedindo lugar junto às sociedades alopáticas e levantamos sem temor bandeira após bandeira, escola após escola. Os homens religiosos tomam o partido da medicina do sacrifício e espiritualismo, contra a da matéria e do egoísmo. Nossas preces nos sustentam os sonhos, nossos TDeum, nossos triunfos (Carta de Mure: Bulletin de la Societé Hahnemanienne de Paris, 1847, t. 2, 310)
Por favor, sabemos que faz tempo, mas poderia fazer um rápido balanço da época de sua passagem pelo
Brasil?
BM – Nós contávamos com um processo de conversão em massa. Apenas um décimo da população ainda se atinha aos sistemas antigos, enquanto todo o restante adotava com convicção a reforma médica. Os bancos da Faculdade estavam praticamente desertos e, dos doutores que produzia, a metade abraçava a Homeopatia… Tínhamos um segundo ministério abalado e modificado por conta da questão médica que varria o Brasil inteiro, desde os inspetores de polícia até o Conselho de Estado e as Câmaras. A luta era
aberta, ardente, declarada… Mas como você sabe deixei o Brasil em 1848, nãosei bem como a coisa andou nestes últimos 159 anos.
Sei que o Sr. tem saudades do Brasil, se voltasse, o que faria hoje? (Mure olha em volta, tira os óculos, e nostálgico deixa sua voz combativa de lado, meio inconformado):
BM- Mas, justo agora… agora que chegamos tão perto, onde é que foram parar todos?
Neste momento, mostro a ele a portaria 971 que deveria regulamentar a prática de medicinas integrativas. E
explico ao Dr. Mure – alguém tinha que o fazer – que em nossos dias a homeopatia, assim como toda a medicina, deixou de ser uma causa com corte ideológico, que ela hoje em dia se encaixa apenas como mais uma técnica dentre outras. Mure fica em silêncio, pensativo, olhando o pedaço de papel.
O que você me diz disso, Dr. Benoit?
BM – Fizemos nossa parte na divulgação da Homeopatia, tanto na Europa como na América, podemos reivindicar a fundação de três institutos e de cinqüenta dispensários… a conversão de cem médicos, a instrução de quinhentos alunos, a redução da mortalidade em nações inteiras, numerosas obras escritas em italiano, português, francês e árabe, dois mil artigos em jornais, viagens por todas as latitudes, o desmonte
de epidemias e contágios, o desencadear de paixões odiosas, a indiferença, perseguições, inveja, calúnias, derrotas ou empates, o tempo, o trabalho e o dinheiro perdidos para sempre.
Dizem por ai que a homeopatia como conhecemos pelo menos está desaparecendo. Qual mensagem
deixaria aos médicos homeopatas de hoje que estão um tanto atônitos pelo mundo?
BM – Se a Providência evidentemente nos sustentou durante uma prova superior às nossas forças, fomos merecedores desse favor praticando, antes de tudo, a máxima salutar: “Ajuda-te que o céu te ajudará” (Cf Mure, B. Patogenesia Brasileira, Ed. Roca, São Paulo, 1999 e Benoît Mure”, Ch. Janot – Homeopathie
Moderne, 15 de fevereiro de 1933). ■

Dr. Paulo Rosenbaum, médico e escritor.
http://aph.org.br/images/stories/informativo/aph_101nov-09.pdf

Ponha-se no lugar do paciente

Ponha-se no lugar do paciente

Faz tempo. Numa manhã de pouco sol alguém lia Ponha-se no lugar do médico dizia a enorme placa de acrílico numa moldura dourada ligeiramente mal esquadrinhada. Havia algum orgulho já que diariamente centenas de pessoas afluíam aos consultórios e aos ambulatórios públicos que coordenava. As queixas eram diversas para não dizer surpreendentes. A notícia importante não era a descoberta de uma cura espetacular, nem de um achado científico sobre uma nova droga. E sua inovação mudou a medicina. Pensou em dar um nome para o método, mas mesmo depois de anos lidando com sua descoberta todos os nomes que achava não resistiam. Nenhum fazia juz ao invento. Para entender o sucesso do Dr. Dalton Now Caravelas será preciso retroceder até à época em que ele era só mais um estudante de medicina.

Aos 18, Dalton ingressou na faculdade de medicina sem a menor idéia do que esperar. Afinal a medicina não é uma área das ciências humanas, mas usa humanidades, não é biologia, mas estuda organismos vivos. Quando lhe perguntavam sobre sua opção respondia o que muitos pensam que sabem sobre o motivo da escolha da profissão: salvar vidas seguida da clássica gosto de ajudar pessoas . Às vezes ouvia a contrapartida, também comum, ora, então vá ser bombeiro ou voluntário em entidades filantrópicas . Mas não era nada disso. Dalton estava convencido que queria ser médico ainda que não tivesse noção do que isso significava. Mais que médico, já tinha escolhido uma área cirúrgica. Mas a experiência com sangue, enorme esforço físico e o repouso anestésico dos pacientes o desesperavam e foi demais para ele. Abandonou rapidamente a idéia de ser operador. No meio do segundo ano percebeu que a medicina não era o que tinha imaginado. O atendimento no serviço de dermatologia num serviço ambulatorial do público do interior do estado nem em sonho era o que tinha imaginado.

Quando viu que teria que suprimir tudo que aparecia na superfície da pele, enfrentar a burocracia diária, se submeter aos chefes poucos simpáticos e aturar gente sem a menor paciência de esperar horas na fila, mudou para obstetrícia. Partos, essa era a solução. Foi nova decepção. Ninguém mais tem paciência especialmente os administradores hospitalares para esperar por um parto natural. A encantada rotina dos parteiros se transformou numa monótona linha de produção de embriões e bebes.

Dalton viu-se em apuros. Já estava no quinto ano do internato dava alguns plantões. Perguntava-se todos os dias sobre seus talentos. Poderia ter sido cartunista. Tinha bom humor e desenhava bem. Notou que poderia ter sido um ótimo advogado, um defensor público. Também não faltavam capacidades manuais para o artesanato. Imaginou-se hábil com as palavras e então seria escritor de biografias. Mas também gostava de ouvir pessoas nas consultas. Isso bastava para continuar na medicina? Concluiu ser um pouco tarde demais para desistir ou migrar de área. Pensou na decepção dos pais, e dos amigos. A renúncia seria a derrota, a ambigüidade a depressão. Deprimido, entrou para o grupo de teatro da faculdade. Percebeu que, a exemplo da taxa de baixa mobilização de nossa capacidade cerebral, a medicina usava muito mal as informações que eram colhidas nas consultas.

Mas tudo isso para que mesmo? Chegar ao final de cada consulta e carimbar seu número de CRM? Reproduzir um monte de frases feitas? Ameaçar com cifras de mortalidade, discursar sobre taxas estatísticas ou ser taxativo sobre os riscos que pesam sobre cada um? Impor, num piscar de olhos, as últimas modas farmacêuticas? Ser médico tinha que ser coisa bem diferente.

Terminou a graduação determinado em buscar novas experiências. Foi se convencendo que a raiz do fracasso de muitos tratamentos era, por exemplo, o fato do médico nem imaginar como o doente realmente se sentia durante as consultas. Dalton começou sua carreira de inventor experimentando inverter os papéis durante as consultas em um ambulatório público de clínica médica: sentava-se na cadeira destinada aos pacientes, oferecendo seu assento. Da nova posição pedia para eles orientações e conselhos. Em vão médicos veteranos tentavam desmotivá-lo. Contemporâneos de Aristóteles já tinham usado este recurso. Freud percebeu a vitalidade desta relação e o psicodrama inventado pelo médico Jacob Levy Moreno mobilizava forças parecidas. Outro colega insinuou que ele deveria estar com algum desbalanço nos neutrotransmissores e ofereceu o antidepressivo que usava. Dalton declinou. Psicoterapeutas e antigos colegas passaram a insultá-lo. Os primeiros o acusavam de prática primitiva. Os últimos achavam aquela idéia patética. Inevitáveis piadas surgiram.

Menos de duas décadas depois se falava que seu método era genial.

Em uma de suas últimas entrevistas Dr. Dalton contou o segredo de sua reforma médica que 30 anos depois revolucionara completamente o ensino médico. Começou como num laboratório de teatro para ver como eles se sentiam na minha pele e eu na deles. Tudo aconteceu depois que vários pacientes repetiram uma frase que todos os médicos deparam: se estivesse no meu lugar o que faria? Percebi que por mais que me esforçasse não conseguia me transportar para o lugar deles. E eu deveria ser capaz. Mas não conseguia, simplesmente era incapaz de me deslocar. Mesmo assim minha visão das consultas foi mudando completamente. Foi aí que decidi me entregar mesmo à experiência de estar na pele do paciente. Vi que a própria consulta poderia ser ótima ferramenta terapêutica. Para que esperar? No início era para treinar médicos, mas a experiência apresentou resultados que foram muito além da minha intuição. Percebi que a transferência de responsabilidade também mudava a cabeça destes pacientes. Produzia insights quase instantâneos e muitas pessoas subitamente compreendiam o que fazer em relação as suas próprias doenças e limitações. Diminui drasticamente a necessidade de usar remédios. Mas tudo isso só se descobria ali, graças aquela brincadeira da inversão dos papéis. Hoje não é mais necessário que os pacientes sentem na minha cadeira, apenas pergunto, em um certo momento da consulta, se eles desejam fazer um jogo que pode beneficiar o tratamento. Em geral inicio sugerindo que se imagine como médico e eu como paciente. Daí em diante as surpresas são tão interessantes que qualquer resumo seria descartável, empobreceria a realidade, entende? Mobilizar a imaginação das pessoas, mais que seus argumentos racionais, é um poderoso recurso que amplia horizontes. E tudo ali, na hora .

Não deixo de me impressionar como não percebemos a importância disso antes. Dalton fica meio aéreo, olha em volta com quem decide enxergar detalhes em um jardim árido. Claro que não isso não resolveu a crise humanista pela qual passa a medicina. E para o esclarecimento geral, ao contrário do que espalham, deixo claro que é apenas uma intervenção temporária e que, se for o caso, quem formulará todas as receitas será o médico. Se fosse apenas ficção poderia parecer um pouco absurda, mas que posso fazer se na realidade deu certo. Catarses podem ser usadas para que as pessoas se expressem sem ter pela frente anos, as vezes passando de uma clínica de especialidades para outra. O sistema que tive a sorte de sugerir pode ser usado por qualquer médico. Não tem segredo pelo seguinte: a raiz do seu sucesso é só um melhor aproveitamento do espaço da própria consulta. Não é depois, é ali, na hora .

Dalton explicou como foi ampliando a aplicação até chegar a conclusão de que médicos que se imaginam pacientes mudam suas cabeças, aprendem a fundir melhor suas expectativas com os que precisam de sua ajuda. Hoje o sistema do Dr. Dalton é amplamente usado. Nos consultórios, ambulatórios e em quase todos os lugares do país como instrumento de ensino nas faculdades. Recentemente recebeu adeptos pelo mundo. Por uma decisão do parlamento europeu a União Européia adotou oficialmente o método como parte do treinamento médico.

O fato de ter instaurado uma pequena revolução na medicina fez com que considerasse parte da missão cumprida. Hoje, Dr. Dalton, 92 anos, é paciente e desenha charges para um jornal de bairro em Cosme Velho, onde mora desde que se aposentou para a medicina.

Dr. Paulo Rosenbaum é especialista em homeopatia, Mestre em Medicina Preventiva e doutor em Ciências, ambos pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

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