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A extinção (blog Estadão)

A última a falar no Congresso, Yelena Simia, afirmou que já fazia quase 70 anos que um deles havia sido avistado em ambiente doméstico, portanto mais de uma geração separava a data da inauguração do Museu, do período da grande extinção.

— As vezes é muito natural que todas nós nos perguntemos: e se eles ainda estivessem por aqui? O que seria do mundo? Como seriam nossas vidas?

Yelena ouviu vaias ao fundo, fez uma pausa rápida, para, em seguida, dar continuidade à palestra

— Talvez vocês não entendam, mas não faz tanto tempo assim, minha bisavó, imagine, minha bisavó, chegou a ter um em casa. Na época era normal.

As vaias diminuem.

–Eu sei, sei perfeitamente, hoje temos consciência do quanto eles são desnecessários, mas parece que nem todas eram infelizes com eles por perto. Em nossos dias fica bastante claro que depois que desapareceram, o mundo ficou melhor. As guerras estancaram, a violência e a desigualdade diminuíram, ninguém mais precisa suportar desmandos ou ideias dogmáticas fora das Universidades, barbas que espetam, arrogância cabotina, topetes loiros, cavanhaques ridículos, maus hábitos e convenhamos, os banheiros agora são definitivamente lugares limpos. Tanto os acervos fotográficos como todas as evidencias coletadas mostram que todos nasciam com deficiências genéticas de higiene e especula-se, um invencível complexo de superioridade.

Os aplausos começaram a dividir o fundo da sala de conferencias.

— Foi a história natural, e não nós, quem decidiu que eles já tinham cumprido seu ciclo. Quando os casos de autofecundação começaram a surgir e vingar no mundo todo, os cientistas honestos já previam, só poderia haver um desfecho. Os papers estampavam “quando some a função, o futuro é a extinção”.  Escreveram que 50 anos bastavam para que tudo estivesse consumado, foram necessários quase 100.

Aplausos se intensificam

–Vamos recordar a sequencia dos fatos. Nosso gênero conquistou cargos políticos. Passamos a ocupar o núcleo do poder. Em menos de 40 anos tornamo-nos hegemônicas. No início, reagiram com elegância. Diziam-se constrangidos pelos milênios de opressão. Depois, ficaram incrédulos com nossa eficácia na gestão do mundo. Claro que parecia inverossímil, mas me mostrem pelo um dos dinossauros que esperava pelo fim? Trouxe alguns dos jornais daquele período para que vocês todas reflitam. Vejam, por exemplo, esta manchete de março de 2032:

“Os machos agonizam, merecem a extinção?”.

E leiam essa outra, projetada ai no telão

“O masculino em vias de desaparecer?”

Aplausos seguido de gargalhadas. Yelena pede calma.

— Mas foi só quando, inexplicavelmente, os alfa começaram a ficar inférteis que tudo piorou. O golpe mortal foi no orgulho. Reagiram mal e nos ameaçaram com boicotes e sanções. Foi quando passamos a gerar sozinhas, dispensando todo seu provimento e patrimônio genético. Os biólogos logo constataram: somente fêmeas eram viáveis. O que nunca souberam é que nós jamais desejávamos isso, nem mesmo fizemos força para que entrassem em extinção.  Eu confesso, em caráter pessoal, alguma curiosidade em saber como seria ter um exemplar em casa em nossos dias.

Murmúrios azedos.

–Já imaginaram? Como seria dividir com eles a criação das famílias? Mesmo porque, pelo que tudo indica, parece que esse não era bem o forte deles. Amigas, nós nunca quisemos fundar aquilo que foi designado muito recentemente como “Feministão”. Natureza e evolução fizeram seu trabalho, e, depois de milhões de anos escolheu quem deveria sumir para dar lugar ao gênero que poderia viver para fazer o planeta sobreviver.  Como bem definiu Aristóteles “a natureza faz, não faz nada em vão, só faz, sem instrução,  aquilo que é necessário”. Vamos aceitar este presente e louvar nossa emancipação, sem culpa ou remorso.

— Ao mesmo tempo, é com orgulho que inauguramos nesta data, o Museu do Gênero Desaparecido, que abriga o maior acervo iconográfico, espécimes reais embalsamadas, e uma curadoria especial com os objetos de culto. Só não conseguimos espaço para coleções de álbuns de futebol com figuras carimbadas  da Copa e os carrões potentes. O intuito é mostrar que reconhecemos o quanto eles foram importantes em etapas prévias da humanidade. Sabendo que o tempo não desfaz seus erros nada mais justo prestar esse tributo aos saudosos machos, nossos parentes extintos, e reafirmar como somos reconhecidas por tudo que fizeram.

Yelena termina ovacionada, desce as escadas do palanque agradecendo o entusiasmo com as mãos.

Ao chegar ao camarim, disfarça a nostalgia. “A mãe natureza pode até fazer o que é necessário, alguém precisa avisa-la que não estamos obrigadas a aplaudir”

Certificando-se que a porta está trancada, retira o porta retrato, aproxima-o e chora. Em seguida aperta a fotografia contra o peito.

A extinção

Derrota na Cultura do Êxito (Blog Estadão)

Admito, fui ver uma sessão de atletismo dos jogos olímpicos. Precisava testemunhar e sobretudo arriscar uma interpretação para um fascínio o qual a princípio me sensibiliza mais pela perplexidade que pelo encantamento. Um aspecto que merece atenção neste revival repaginado do antigo ritualismo grego: quais as finalidades e significados destas reuniões? Supremacia do corpo? Filosofia da superação? Justo numa fase na qual os aspectos estéticos convencionais, os critérios éticos e a própria cultura apolínea estão oscilantes ou sob suspeita?

Destarte, o mais incrível e não menos determinante, parece ser a imaginação dos atletas. Observem como as moças  do salto em altura simulam os voos antes do impulso para superar marcas improváveis. Os nadadores encaram as raias das piscinas como ímãs unidirecionais. Os lançadores antecipam a rota e as vibrações do disco e do martelo. As esgrimistas cogitam esquivas radicais e estocadas clarividentes. Os lutadores derrubam oponentes, muito antes do desenrolar da contenda. As tenistas empurram mentalmente a bola em linhas diagonais ou paralelas em simulações permanentes. Frequentemente balançam as cabeças para torcer ou intuir trajetórias possíveis, fazem gestos repetitivos, obedecem suas superstições, emulam confiança, sonham com o palanque absoluto.

E quanto a derrota? É preciso analisar o símbolo e sua fisiologia. É fundamental penetrar na fenomenologia para bem além da representação dos estados nacionais e do aparente pretexto para exercitar o assim chamado espírito olímpico. Ninguém mais pode aderir incondicionalmente ao ideário de que o que importa é competir independentemente do resultado. A dor e a humilhação, o esforço invencível, o suor que marca a exaustão, este conjunto de trabalho e esforço impõem-se como símbolos majoritários. O orgulho e a hubris reservados para uma minúscula elite de heróis hipertrofiados, ultra-habilidosos, ou talentos da resistência psico-fisica.

Essas categorias já estão auto consagradas na cultura do êxito. O que realmente interessa esmiuçar é o valor inverso. O perdedor. Aquele que se contunde. A derrota é que é o grande tabu. A desonra reservada aos sofredores  sem medalhas que serão ultrapassados. Aqueles que, superados, fracassam. A competição que esmaga os que foram menos treinados e financiados. Ou aqueles que encontram-se dopados para alavancar propagandas político-comerciais. Decerto existe algo mais grave e me limito a mencionar : a naturalização do conceito de que, para alguns, não haverá equidade. Como foram os casos que testemunhei, isolados, mas contundentes. Um atleta negro foi ofendido,  um judoca egípcio recusou-se dar a mão ao seu adversário judeu. O constrangedor silêncio do COI significa que alguns podem ser discriminados sem maiores consequencias para a honra do esporte e em benefício dos patrocinadores.

Todos sabem que o esporte profissional tem um lado obscuro, mas o que interessa mesmo é o apelo à perfeição, o triunfo indiscriminado da performance.

Ainda assim quem poderá negar que é belo, notável e admirável.? A duvida não deveria recair sobre outro aspecto? Será bom? Uma prioridade? Os músculos exatos, a massa magra, a oxigenação extra podem não significar exatamente o que o senso comum imagina. Como já previa Hipócrates (aforismo 3, primeira seção) os maratonistas ou hiper-atletas, por exemplo, estão mais sujeitos à morte súbita que os não atletas. Aforismo comprovado só muito recentemente pela medicina contemporânea

Performances e records não valem saúde, nem super treinamento significa, necessariamente, boa forma e longevidade. Mesmo assim, e apesar de tudo, quem controla nosso potencial de envolvimento? O saldo final vai contra a intuição. Permanecemos emocionados com essa vertigem coletiva hipnótica chamada Olimpíada.

Resenha de “Céu Subterrâneo” no Jornal do Nordeste

Uma jornada com destino às origens

Tendo como contexto o universo judaico, Paulo Rosenbaum apresenta um “herói acidental” em busca de suas raízes

Jerusalém é o lugar onde o personagem central de “Céu Subterrâneo” busca suas origens

No duelo entre tradição e tecnologias, eclodem ao ser contemporâneo a imersão em dilemas como a integridade da memória e até mesmo o armazenamento destas pegadas, destas manchas espalhadas entre as gerações. Diante do infortúnio de pouco equilibrar tais dados sobre a próprias origem, resta a alternativa de investigar o passado. Uma busca com ares de incansável e cega jornada.

Encerrado neste contexto, o personagem Adam Mondale parte para este encontro pessoal e único. É pelos caminhos e passos de sua perspectiva ácida e atenta que “Céu Subterrâneo”, novo romance do médico e escritor Paulo Rosenbaum se enovela.

A cria fictícia de Rosenbaum aponta um psicólogo, judeu laico e desfilhado (e abstraído) de qualquer origem. Após perder o cargo de diretor em uma conceituada instituição brasileira, Mondale embarca no último voo para Jerusalém. Diante da personalidade plural e do interesse particular, o brasileiro é regido pelos mistérios que envolvem um antigo e irrecuperável negativo fotográfico.

Na mala do viajante e, consequentemente, leitores, estão digressões narrativas baseadas em episódios familiares: a esposa, os pais sobreviventes ao holocausto, a abominável Ditadura Militar brasileira, o desejo de ser escritor e a aposentadoria precoce responsável pela pausa estratégica no cotidiano.

Travessia

Porém, um fator dramático é adicionado à viagem optada por Mondale. Diagnosticado com uma córnea defectiva, o aspirante a investigador corre contra o tempo. A visão, por vezes comprometida, simboliza a descida do protagonista por um corredor de mistérios. Todos, em maior ou menor grau, sempre estaremos cegos ante o desconhecido.

É preciso bravura durante a hospedagem por um território obscuro. Para o também colecionador de câmeras antigas cada detalhe esmiuçado é uma vitória.

A investida individualíssima de Mondale é premiada com a presença de um interlocutor, o amigo Assis Beiras. Entre Brasil e Israel, em meio ao futuro que se demora e um passado cada vez mais distante, a jornada construída por Rosenbaum dispensa o auxílio de uma cronologia uniforme na narrativa. O romance começa com a inesperada visita de policiais israelenses que imediatamente confiscam o passaporte do viajante.

Em seguida, somos jogados dentro de um taxi em direção ao laboratório fotográfico capaz de revelar a misteriosa imagem do negativo. Nesse intervalo, eventos comuns a não nativos como a dificuldade de transporte, comunicação e até mesmo precárias condições do ponto de estadia permeiam a trama. Grande parte desse material resulta da experiência do autor em solo israelense, adquirida após bolsa literária de pesquisa.

Mondale, assim, se perde pelos segredos da gruta da “Makhpelá”. A pretensão é saber se existe realmente no local o “Túmulo dos Patriarcas”, e também do primeiro homem ou de seu protótipo, o “Adam Kadmon” (curiosamente o mesmo nome do protagonista). Estas são chaves pouco precisas colocadas na mesa para o leitor.

“Céu Subterrâneo”, de Paulo Rosenbaum, se destina ao mais profundo mistério que, sem findar, revela a verdade que diz respeito a todos. Muitas vezes, os dilemas tem origem em caminhos mal traçados. Nessa perspectiva, perder-se faz bem.

http://diariodonordeste.verdesmares.com.br/cadernos/caderno-3/uma-jornada-com-destino-as-origens-1.1596916

Livro

Céu Subterrâneo

Paulo Rosenbaum

Perspectiva

2016, 254 páginas

R$ 49

Resenha Crítica de Céu subterrâneo Por Cíntia Moscovith – Jornal Zero Hora

Cíntia Moscovich: Debaixo da terra

A colunista escreve quinzenalmente no 2° caderno

01/08/2016 – 06h04min | Atualizada em 01/08/2016 – 06h04min

Protagonizado por Adam Mondale, um autor em crise que ganha uma bolsa para viajar a Israel e escrever um romance, a trama se escora nos mistérios que envolvem a gruta de Makhpelá, o Túmulo dos Patriarcas da tradição judaica – daí o “céu subterrâneo” do título –, local que Abraão teria comprado para sepultar Sara e onde estariam enterrados o próprio Abraão, Isaac, Rebeca, Jacó e Lia.

Veja também:
Cíntia Moscovich: Vade retro
Cíntia Moscovich: A rotina do artista

De posse de um velho negativo de máquina polaroide, com o aluguel de um apartamento feito pela Internet, Mondale chega a Jerusalém numa madrugada fria e chuvosa. Ao procurar o endereço, se descobre enganado – e essa é a primeira peripécia da história. A partir daí, o livro se desenvolve em três planos: a aventura em Israel, a construção do romance e o descobrimento pessoal do personagem – inclusive de um misticismo rechaçado mas inescapável. Com tons kafkianos e metalinguísticos, a trama se apresenta com a cronologia alterada, cabendo ao leitor organizar a sucessão dos fatos no tempo.

Dono de uma prosa envolvente, embasada num extenso conhecimento da matéria, Rosenbaum, que é também autor de A verdade lançada ao solo (2010), cria um clima labiríntico, no qual a tensão é alimentada por cortes precisos e informações que surgem em momentos cruciais da narrativa.

Ademais das virtudes inerentes, Céu subterrâneo tem ainda a chancela de uma das respeitadas casas editoriais do país, que completa 50 anos sob o comando de Jacó e Gita Ginsburg. Responsável pela coleção Debates, a Perspectiva publica uma vastíssima gama de assuntos, tendo participado diretamente na formação intelectual (e afetiva) de todos os brasileiros que se debruçam sobre as humanidades. O selo é certeza de edições de qualidade – como é, sem dúvida, o caso de Céu subterrâneo.

http://zh.clicrbs.com.br/rs/entretenimento/noticia/2016/08/cintia-moscovich-debaixo-da-terra-7040569.html#

 

Maiêutica e o Vício em Doutrinar (blog Estadão)

“Maiêutica – Do grego “maieutitké” – relativo ao parto. Processo utilizado por Sócrates para ajudar a pessoa a trazer ao nível da consciência as concepções latentes em sua mente” Dicionário Etimológico. Antonio Geraldo da Cunha.

Em tempos de cultura pop, enquanto a histeria progride. Reduz tudo à posições políticas cartográficas. Vira mania, enquanto a arte pedagógica vital foi relegada. A proposta de ensino socrática conhecida por maiêutica não foi só desprezada. Deformada, hoje ela está a serviço do vício em doutrinar. Das cátedras às redes sociais, das redações aos programas de auditório, um perturbador ruído de fundo constrange o pensamento. A independência intelectual virou artigo inalcançável. Ao sequestrar o exercício da reflexão trocado por engajamentos doutrinários, a vida parece ficar mais fácil enquanto a educação mingua à sombra de torcidas dispersas. No jogo viciado, leva a melhor quem for mais ruidoso ou cooptar mais público. Nem sempre foi assim. Sem nostalgia, é importante observar que estamos enredados na defensiva. A trincheira está cada vez mais a mão, ainda assim o antônimo desejável de politicamente correto não é o politicamente incorreto, como se tornou comum propagar sem cerimônia ou autocensura. Talvez seja uma outra coisa. Bem menos previsível. Muito mais empírica para estes tempos de legiões de lobos avulsos, onde conspirações secretas de primeira página parecem ser as únicas confluências possíveis. Onde a omissão permissiva vale mais do que a explicitação dolorosa. Será preciso investigar usando todos os serviços de inteligência do mundo porque o establishment faz uso seletivo das palavras, cuidadoso falseamento da ciência e da realidade. A negação permanente desprotege todos. Ninguém ainda lamentou suficientemente o aparelhamento de uma década. Seria o fundamento da critica. O primeiro da lista. Ao obstar o fluxo de pensamento para o substituir pela ordenha mecânica de vozes eleitas por grupos afins, o convívio foi aniquilado. O novo populismo saído diretamente da causa do saber. De onde nunca emergiu muita coisa além de slogans circulares, discursos peremptórios que mimetizam uma filosofia. O saber não é causa emancipada, que sobrevive sem interpretação. Ocorre que, por acaso, ainda pode-se escolher quem será convocado para executa-la. Se os eleitos forem afilhados locais, nepotismo intelectual. Se escolhidos através da mesma meia dúzia de referencias bibliográficas, monopsismo cultural. A redução é clara: não se sabe se a escola deve ser dominada por uma linha partidária ou submeter-se à todas. Essa é a verdadeira dúvida, traduzida na linguagem da polêmica irrelevante. Talvez o conhecimento não merecesse destino tão recortado. Nem as instituições tratamento tão afoito. O medo de enfrentar o extremo, é, no fundo, a compensação neurótica de quem não conseguiu encarar o que chegou até nós. A tocha de brilho fosco. Não a olímpica. Mas a mecha do aposto. A aposta no enunciado de um bem único. De uma unificação impensada, porque impossível. Da ética de monopólio. De opiniões respaldadas em círculos fechados. O que foi a mutação da política senão um consenso cozido entre gabinetes herméticos? Não se espantem se testemunharmos os extremos do pavio se desgarrarem em filiais violentas emancipadas da matriz. Democracias mitômanas e autocracias cínicas são espelhos da mesma atuação. Sairemos do enredo circular quando o dialógico aprender a recusar mentiras prudentes.

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