Diário do apartamento 4 – Do sentido das carpas (Blog Estadão)

Sexagésimo segundo dia. Resolvi arriscar, fui adiante visitar uma praça do bairro. Andei por 25 minutos. Os músculos não respondem, mas eu os ordeno. É evidente que a quarentena deixou de ser só uma medida sanitária. Trata-se, concluo, de um novo tabu. Um confisco subjetivo da vontade individual. Também aprendi que não é um tema que valha a pena ser discutido em público. Só o faço por obrigação moral. Vivemos dias perigosos. Corre-se o risco de virar um alvo para depois alguém sacar uma jurisprudência qualquer contra você. Tocada sob a hermenêutica expressa. Ditada pela urgência, hoje qualquer um pode ser vítima dos juízes. Que dias, que dias! Os regulamentos do contrato social de repente sumiram sob as canetadas de quem precisava mostrar ação, mas perdeu a compassividade. E nunca teve a capacidade de imaginar. “Amparar  aqueles que dependem do Estado.” Lembro então do folheto que herdei de uma biblioteca perdida: “O Código Penal Fascista” de um autor italiano que combateu o verdadeiro fascismo, e que em 1942 precisou se exilar no México: Francesco Frola. Lá está no original, conforme foi criado, o artigo 213, a figura da “pessoa socialmente perigosa”. É o vago, é a imprecisão da linguagem que guia a mente totalitária. Ao avaliar a ignorância que levou o senso comum a pasteurizar a palavra “fascismo”, com suas hostes prós e anti, penso ter me tornado uma espécie de artigo 213 ambulante.  Não por ser violento, certamente não por ser destrutivo. E decerto não, sob o álibi da luta antirracista, por ter-me transformado num discriminador seletivo. Mas apenas por duvidar das regras de autoridades que perderam a autoridade. O arbítrio sempre será justificado pela ideologia. É o ganha-pão do pensamento único. Ninguém pode nos acusar de não termos multilateralismos: todos eles de pensamentos únicos, disfarçados de pluralidades, de denúncia do ódio alheio, de cinismo diplomático.

Esqueço que digressões não são mais perdoadas. Volto à minha jornada. Esqueço as lamúrias e acelero o passo. Noto que os transeuntes estão cabisbaixos. Alguns passeiam com animais. Um ambulante empurra seu carrinho desabastecido. Pipoca ou bijou? Vai saber. Ninguém compra, ninguém vende. A lei de oferta e procura? Suspensa por decreto governamental. Nem capitalismo de Estado temos. O sujeito olha a procura de clientes e enxuga o suor do rosto percebendo que fracassará.

Vejo um pequeno lago artificial e constato, mais uma vez, que as carpas também flutuam indiferentes ao mundo. É repetitivo eu sei,  mas assumo, neste momento a redundância é mais do que necessária. Além de ser a mais pura expressão da verdade: os animais e os objetos não vivem a aflição do mundo, a não ser como nossas projeções. Mas a alienação de tudo que não vem dos humanos diz muito mais de nós mesmos do que gostaríamos de admitir: por que compramos tanta angústia na banca das mídias? Quem está nos informando sobre o mundo externo? Com qual qualidade somos comunicados? Com que filtro analisam a realidade? E por que sempre como prescrição do que é a boa escola, o bom partido, os verdadeiros democratas, os cidadãos que, de um púlpito imaginário, sabem o que é melhor para todos? E sei lá em qual porcentagem, mas sei que são sempre os mesmos disfarçados de “grande frente”.

Observo então os arredores. Pessoas sem expressão. Será que as máscaras tiraram a espontaneidade? Estará a mímica ocluída pela vestimenta, a qual também funciona como mordaça? É indecifrável, e não tem nada de novo normal. Me parece que a evocação do neo realismo não passa de uma forma de escavar algo duro com as unhas, em terra batida, até que se ache algum sentido. Mas e se não tiver sentido algum? Tremo pela constatação que acabei de fazer. Mas, e se poucas coisas fizerem sentido?

A esta altura fica claro que o espaço para desafiar as normas vem se estreitando. Por que uma moléstia pode determinar a restrição da liberdade? Só eu acho isso grave? Enfim, pisei na área livre da grama do parque. Cheguei ao centro da praça, uma criança sem máscara me observa com estranheza. Sua mãe ou babá, difícil dizer, o arrasta para longe pela mão, censurando sua aproximação. Ela o puxa até um balaço enquanto consulta o celular. Me aproximo da agua de uma fonte que jorra da boca de uma escultura de um sol vermelho estilizado. Espalham-se os íons negativos. Ali, dizem os físicos, estamos no reino da negantropia: perdemos menos matéria, poderíamos até nos recompor. Será este o grande segredo das carpas longevas?

A criança ainda me observa enquanto acompanho os peixes que sobem à superfície. Imaginam que trago migalhas?

Proibido de entrar na área, o ambulante estaciona seu carrinho e me acena com a mão.  A praça se esvazia aos poucos. Será seguro respirar? Puxo a máscara e arrisco um sorriso. Só a criança, ainda atenta, sorri de volta sem imaginar a distância que nos une.

Hora de zarpar.

Desta vez, os músculos obedecem. Noto que a fisiologia é rebelde à tirania. O ânimo é o único que vale a pena ser cultivado. Sigo andando. A permanência da vida tem uma estranha autonomia. As carpas tem toda razão.

https://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/diario-de-apartamento-4-o-sentido-das-carpas/

Contos minimalistas -Dos totalitários benévolos. (Blog Estadão)

Conto minimalista 1 – Justiça

Primeiro, eles vieram e deram o veredito.

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Conto minimalista 2 – Atos

Uma multidão gritava “longa vida os atos antidemocráticos” e eis que, imediatamente, uma voz, grave, ecoou do alto:

–É “live”?

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Conto minimalista 3 – A história

Reuniram-se, e, quando estavam prontos para reescrever a história, a tinta acabou.

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Conto minimalista 4 – Nunca fomos dogmáticos

–Dogmático!

–De forma peremptória afirmo: não sou, quer cara mais aberto ao contraditório do que eu? A prova é que vou te dar uma lição da verdade última e definitiva: e essa você nunca mais vai esquecer.

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Conto minimalista 5 – Dos totalitarismos benévolos
Certa vez, alguém, evocando o marco civilizatório, conclamou grupos para destruir estátuas. Combinaram os mobs  e começaram a incendiar monumentos nas cidades.
Vendo a destruição, um desavisado passante perguntou:
–Podem me dizer como vocês elegem quais serão as peças do patrimônio público que vão marretar?
–Tudo que oprime será derrubado e triturado, e chispa, você está com pinta de fascista.
— Espera, estou te oprimindo?
–Muito pior. Está ousando duvidar da inquestionável dignidade do nosso movimento? Sabia que agora “atos antidemocráticos” como o seu dão cana direto? Nem passa mais pela segunda instância.
–Quer mais público? Tenho sugestões. O nome que vocês escolheram está errado. Que tal chamar o movimento de vocês de T.B., totalitarismo benévolo?
–Tá tirando?
— Não, totalitarismo do bem, não soa melhor? Estou só tentando encaixar. Tem que se questionar. Por exemplo, a qual ramo pacifista internacional vocês pertencem? Jihadismo laico? Marxistas da combustão? Weberianos da pesada? Furiosos da Kombi? Truculência dialética organizada? Invocados de Ghandi? Civilização ou morte?
–Ah, olhem só colegas, viram? Eis a prova, um legítimo defensor da ditadura.  Seu burguês, brutamontes, descortes, incivilizado, casca grossa, chambão, javardo, lanzudo, inurbano.
–Isso é preconceito irmão. Não julgue pelas aparências. Quero colaborar. Deixe que eu me apresente.  Trabalho com marketing político, olha, aqui tem meu cartão. E estende um, sacado do terno já todo amarrotado.
–Vocês, ele continua, ainda não sabem, mas somos nós, os marquetólogos, quem ganhamos as eleições contemporâneas. Pode nomear: situação ou oposição, esquerda ou direita. Só não pegamos centro, falta material humano e massa critica, me entende? Pode consultar o Lattes, fui eu quem criei os slogans dos últimos governos.
O passante então se viu cercado por forças de enfurecidos democratas iconoclastas seletivos, e, sentindo o perigo, levantou as mãos para atalhar:
–Calma. Total apoio a vocês. Minha proposta é que vocês ampliem o movimento. Já venho matutando isso faz um tempinho. Sugiro fortemente, por exemplo, que vocês passem a se chamar de S.A.I. A esta altura estava quase sufocando com a gravata que um antifascista estava lhe aplicado.
–Espertinho, vem com malandragem, vem. E o que é que isso ai quer dizer?
–S.A.I. é a sigla para “Só a Anomia Importa”. Percebe? Soa melhor, é mais amplo. Vai angariar mais apoio, incorporará mais gente, agregará os órfãos do anarco-sindicalismo nativo e ainda fica mais charmoso, já que vai encampar o que está bombando pelo mundo: o multilateralismo-étnico-racial-unívoco.  Veja, é assumir a coisa. Honestidade aparente é tudo na propaganda política.
Fez-se um silêncio entre os prosélitos da agressão esclarecida.
–Será que daria para afrouxar a gravata, amigo? Ele deu uns tapinhas amigáveis no braço musculoso do homem que espremia sua traqueia e vestia a camisa com a estampa “Aqui é Marco Civilizatório”.
–Taí, parece simpático. Gostei. Larguem ele, o cara é um dos nossos. Falou o líder, enquanto foi empurrando para o lado aqueles que o estrangulavam pelo pescoço.
O passante tenta se recompor, livra o corpo para ensaiar uma despedida.
–Agradeço a compreensão. Sempre digo, tolerância é a base de tudo. E ergueu o punho para mostrar solidariedade enquanto pigarreava e massageava a garganta recém esmagada.
–Vai Anomia, e gritou, conclamando, a nova palavra de ordem.
–Valeu brother. Respondeu o líder, seguido de discretos uivos comemorativos do grupo.
Enquanto se afastava pensou “Ah,  como é emocionante contar com todo este excesso de civilização”

Um golpe chamado democracia (Blog Estadão) 2015

As regras do jogo vão ficando cada vez mais curiosas, e abstratas. O juízo pode não ser justo, a República se torna um partido, e os apoiadores do regime unidos aos  poucos intelectuais equivocados e a maior parte guarnecidos com subsídios federais, podem se dar ao luxo de abandonar toda critica. São dois mundos. O poder, separado da plateia. Como numa ópera agitada, o escândalo dos sopranos amordaça os ouvintes. O sonho dobra-se à calamidade. Normalmente, se você comete um deslize paga pelos erros. Se alguma vez tua musica desafinou, acontece, perderás audiência. Se tua carta é infantil o desgaste será inevitável. Paga-se multa por quitar a divida em atraso. E a inadimplência segue a mesma lógica. Ninguém pode ter a prerrogativa de justificar crimes pela lógica das circunstâncias. Sanções não são perseguições individuais, nem encrenca com a singularidade. Normas civilizam, e minimizam o inevitável desgoverno das complexas sociedades contemporâneas.

Todo juiz é, deveria ser, servo de uma consciência que não lhe pertence, não completamente. Ao nos desviar da educação e troca-la por slogans com as bênçãos do marketing político, sofremos com outros sintomas do atalho equivocado, em particular na economia que falece sem espernear. Que declina junto com empregos e renda. Trata-se de um asfixia brutal, ainda que não mecânica. O nem tão gradual declive é derivado de um erro crônico,  calculado, mas nunca assumido.  Sem autocrítica, o mal feito continuado é encarado sem drama, como ponto pacifico de um sistema que passou a se considerar acima das leis por estar respaldado pelos votos.  Tudo isso já seria o bastante, mas há algo bem pior. O estrangulamento dos centros do saber, quando a educação foi sendo substituída por adestramento de militâncias. A decadência de editoras, o sumiço dos leitores e, por fim, a agonia do livro, são evidencias simbólicas. O rebaixamento cultural é um embolo que ejeta a razão para nos inocular estagnação. É o melancólico final de um ciclo de experiências nos empurraram para um novo e decrescente estatuto da cidadania.

Quem ainda presta atenção à realidade sabe que vivemos um “não é possível” todos os dias. Um apuro por dia, com a marca perversa do desprezo pela opinião pública. O fato mais impressionante, dentre todos aos quais assistimos, é a persistência de uma dialética tosca, insuficiente, mal composta. As brigas, incêndios de escolas e vandalismo parlamentar são detalhes. Quem quer contestar a legitimidade do impedimento de quem foi eleito, precisa antes responder: como quem não foi eleito, mas nomeado por outro poder, pode ter o poder de julgar representantes votados? Foram essas alianças fracas que estornaram o saldo para decretar o destino imprevisível.

Mas nem sempre destoamos desde o principio. Houve um breve interregno, no qual algum diálogo era plausível. Não mais. Os tensionamentos voaram para bem além das palavras.  A nova casta de beneficiados pelo regime são partidários do impasse. Não que as instituições não funcionem, elas só parecem ter perdido a memória de sua função: trazer conforto e segurança para a maioria. Vivemos numa não declarada sociedade de posicionamentos antecipados, onde o argumento anda valendo muito pouco. Quando desceram aos álibis para satisfazer o imediatismo de suas convicções, desprezaram a democracia. Para quem obstaculiza a constituição, democracia é golpe. Ficamos solitários e sem ninguém. A solidão é um rastilho, o sem ninguém, a pólvora. Restou-nos o nosocomio no qual se transformou uma política repleta de eleitos sem vocação para Estadistas.

Uma América ao sul continua retida. Um território que não se reconquista sem mudanças. Pode e deve haver mais de uma porta de emergência. No entanto, todas elas exigem destrancamento corajoso. Mesmo tendo receio de que este não é o caminho ideal, mesmo que os cientistas políticos oscilem, e mesmo que grupos tentem sabota-lo, ele já é irreversível. É que a ameaça costuma redobrar a determinação. Quando um império desfavorável tenta colocar ferrolhos e liminares no fim do túnel, nós, os reféns da claustrofobia inventada, intuímos: é agora ou nunca. Precisamos sair. E sair a pé. E aos milhões. Afinal, domingo parece ter sido feito para isso.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/um-golpe-chamado-democracia/

Diário do apartamento 4 – O sentido das carpas (Blog Estadão)

Sexagésimo segundo dia. Resolvi arriscar, fui adiante visitar uma praça do bairro. Andei por 25 minutos. Os músculos não respondem mas eu os ordeno. É evidente que a quarentena deixou de ser só uma medida sanitária. Trata-se, concluo, de um novo tabu. Um confisco subjetivo da vontade individual. Também aprendi que não é um tema que valha a pena ser discutido em público. Só o faço por obrigação moral. Vivemos dias perigosos. Corre-se o risco de virar um alvo para depois alguém sacar uma jurisprudência qualquer contra você. Tocada sob a hermenêutica expressa. Ditada pela urgência, hoje qualquer um pode ser vítima dos juízes. Que dias, que dias! Os regulamentos do contrato social de repente sumiram sob as canetadas de quem precisava mostrar ação, mas perdeu a compassividade. E nunca teve a capacidade de imaginar. “Amparar  aqueles que dependem do Estado.” Lembro então do folheto que herdei de uma biblioteca perdida: “O Código Penal Fascista” de um autor italiano que combateu o verdadeiro fascismo e que em 1942 precisou se exilar no México: Francesco Frola. Lá está no original, conforme foi criado, o artigo 213, a figura da “pessoa socialmente perigosa”. É o vago, é a imprecisão da linguagem que guia a mente totalitária. Ao avaliar a ignorância que levou o senso comum a pasteurizar a palavra “fascismo” como suas hostes prós e anti, penso ter me tornado uma espécie de artigo 213 ambulante.  Não por ser violento, certamente não por ser destrutivo. E decerto não, sob o álibi da luta antirracista, por ter-me transformado num discriminador seletivo. Mas apenas por duvidar das regras de autoridades que perderam a autoridade. O arbítrio sempre será justificado pela ideologia. É o ganha-pão do pensamento único. Ninguém pode nos acusar de não termos multilateralismo: todos eles de pensamentos únicos, disfarçados de pluralidades, de denúncia do ódio alheio, de cinismo diplomático.

Esqueço que digressões não são mais perdoadas. Volto à minha jornada. Esqueço as lamúrias e acelero o passo. Noto que os transeuntes estão cabisbaixos. Alguns passeiam com animais. Um ambulante empurra seu carrinho desabastecido. Pipoca ou bijou? Vai saber. Ninguém compra, ninguém vende. A lei de oferta e procura? Suspensa por decreto governamental. Nem capitalismo de Estado temos. O sujeito olha a procura de clientes e enxuga o suor do rosto percebendo que fracassará.

Vejo um pequeno lago artificial e constato, mais uma vez, que as carpas também flutuam indiferentes ao mundo. É repetitivo eu sei,  mas assumo, neste momento a redundância é mais do que necessária. Além de ser a mais pura expressão da verdade: os animais e os objetos não vivem a aflição do mundo, a não ser como nossas projeções. Mas a alienação de tudo que não vem dos humanos diz muito de nós mesmos do que gostaríamos de admitir: por que compramos tanta angústia na banca das mídias? Quem está nos informando sobre o mundo externo? Com qual qualidade somos comunicados? Com que filtro analisam a realidade? E por que sempre como prescrição do que é a boa escola, o bom partido, os verdadeiros democratas, os cidadãos que, de um púlpito imaginário, sabem o que é melhor para todos? E sei lá em qual porcentagem, mas sei que são sempre os mesmos disfarçados de “grande frente”.

Observo então os arredores. Pessoas sem expressão. Será que as máscaras tiraram a espontaneidade? Estará a mímica ocluída pela vestimenta que também funciona como mordaça? É indecifrável, e não tem nada de novo normal. Me parece que a evocação do neo realismo não passa de uma forma de escavar algo duro com as unhas, em terra batida, até que se ache algum sentido. Mas e se não tiver sentido algum? Tremo pela constatação que acabei de fazer. Mas, e se poucas coisas fizerem sentido?

A esta altura fica claro que o espaço para desafiar as normas vem se estreitando. Por que uma moléstia pode determinar a restrição da liberdade? Só eu acho isso grave? Enfim, pisei na área livre da grama do parque. Cheguei ao centro da praça, uma criança sem máscara me observa com estranheza. Sua mãe ou babá, difícil dizer, o arrasta para longe pela mão, censurando sua aproximação. Ela o puxa até um balaço enquanto consulta o celular. Me aproximo da agua de uma fonte que jorra da boca de uma escultura de um sol vermelho estilizado. Espalham-se os íons negativos. Ali, dizem os físicos, estamos no reino da negantropia: perdemos menos matéria, poderíamos até nos recompor. Será este o grande segredo das carpas longevas?

A criança ainda me observa enquanto acompanho os peixes que sobem à superfície. Imaginam que trago migalhas?

Proibido de entrar na área, o ambulante estaciona seu carrinho e me acena com a mão.  A praça se esvazia aos poucos. Será seguro respirar? Puxo a máscara e arrisco um sorriso. Só a criança, ainda atenta, sorri de volta sem imaginar a distância que nos une.

Hora de zarpar de volta.

Desta vez, os músculos obedecem. Noto que a fisiologia é rebelde à tirania. O ânimo é o único que vale a pena ser cultivado. Sigo andando. A permanência da vida tem uma estranha autonomia. As carpas tem toda razão.

 

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Nós? Nunca! (Blog Estadão)

O que estamos esperando?

Sem cerrar fileiras, a inação é iminente

Serão todos contra todos

Onde as tábuas de salvação flutuam

Os lados e seus fronts, posicionados

E teus soldados, estarão preparados?

A selva, armada?

Nos impuseram silêncios

Os inertes, convocados, desertaram

O centro migrou

E seus membros (que já não eram grande coisa)

Caíram, ainda vivos, na obsolescência

E onde fica o sujeito na guerra das porcentagens ?

Somos seres analógicos, coagidos ao digital

Por que haveríamos de sumir?

Oprimidos entre a seletividade dos discriminadores

E a violência dos anti

Entre supremacistas do bem

E o monopólio de redatores néscios

O que estamos esperando? Eles vão chegar.

Os déspotas disputam troféus com seus antípodas

Que insistem em nos ensinar:

“Quem somos nós?”

E quem são vocês para perguntar “quem somos nós?”

Os tribunos prosperam, contando tributos

Ocupados com intervenções jamais requisitadas

Enquanto os juízes, desvencilham-se do juízo,

Promulgam o veredito uníssono: perpétua

O subtexto está lá: o poder imanta o pior

E neste isolamento sem fim, em sua insípida dissipação

Que a vida foi pulverizada

Em vez de descentralização, acúmulo de força

O que estamos esperando? Eles chegarão.

O término de algum processo?

Uma grande ordem:  “finda a doença?”

O que esperamos? Eles vão chegar.

O adiamento do perigo?

Idealizar a invulnerabilidade?

As moléstias vivem se substituindo

E a extinção, parte do corpo biológico

O que estamos esperando? Eles estão chegando.

Quem induz fobia colhe terras devastadas

Onde nada cresce

Quando chegarem, nem os dóceis permanecerão trancados

Casa lacradas ou prisão domiciliar? Nem ouse gritar

A incitação à liberdade foi tipificada

Inimputabilidade só para aqueles a quem a causa convier

O que estamos esperando? Eles chegarão.

A autorização do saneador geral?

De onde virá a cura?

A saúde é patrimônio individual

Toda conivência política com a doença é um ardil

O detalhe é, o inadiável chegou.

Agora pode ser uma escolha. Agora.

Enfrentaremos o risco ou seguiremos produzindo álibis?

O que estamos esperando?

Eles já chegaram?

Sempre estiveram aqui.

Nós? Nunca!

 

 

 

 

 

Medicina do Falante ( Blog Estadão)

Subestimada pelas investigações epistemológicas, uma das questões centrais da medicina não tem sido objeto de um estudo essencial: no que a medicina é, por exemplo, distinta da ciência veterinária? Quais as diferenças metodológicas de apreensão dos sintomas nas duas especialidades? E a terapêutica? De que forma as indústrias farmacêuticas investigam novas drogas? Qual é a metodologia aplicada para avaliar o efeito das substâncias medicinais nos homens e como compara-las aos testes clínicos conduzidos usando animais?

O velho argumento de que a diferença está na irracionalidade dos animais pode ser facilmente derrubada quando se vai até a origem desta informação. Por um erro de tradução a hipótese do filósofo Aristóteles de que o homem é um animal racional em contraposição aos “animais irracionais” foi mantida por mais de dois milênios.

Este filósofo grego, o primeiro a descrever em detalhes o aparelho fonético, escreveu, em sua obra Historia Animalum que os animais apenas usam outra forma de lógica.  Na axiologia judaica o homem é aquele que veio da terra (adamá = terra), uma alusão à sílica. Destarte, o realmente distintivo entre homens e animais repousa em sua capacidade de falar.  Um dos primeiros registros desta especificidade pode ser encontrado na Bíblia Hebraica.  Ao se referir pela primeira vez ao homem, o texto mosaico da Torá, menciona a palavra “medaber”, o falante.

E o que nos torna falantes?

Não é apenas a presença do aparelho fonador, com a laringe e suas conexões neurológicas, pois a maior parte dos mamíferos superiores compartilha de estruturas análogas. Por exemplo, com um aparelho fonador quase idêntico ao nosso por que é que os chimpanzés não relatam sintomas ao médico veterinário? Os sons que emitem, decerto denotam uma linguagem. Junto com as modificações mímicas e corporais pode ser decodificada. O alfabeto de alguns tipos de aves tem sido objeto de estudiosos dos cientistas que já detectaram dezenas de sons que funcionam como uma comunicação de alta especificidade, que significam por exemplo, evocar acasalamento, alerta de perigo, “palavras” de guerra, pedidos de ajuda por saúde e até reclamar de abandono. Sem esquecer dos ultrassons e mensagens subsônicas que várias espécies de insetos estabelecem em suas relativamente curtas jornadas existenciais.

É no entanto, uma pequena, porém decisiva inclinação da cartilagem crico-laríngea que tem lugar nos meses finais da gestação, o que  permite que a articulação dos sons se transforme em palavras – mudança, que, por exemplo, mesmo a maioria dos mamíferos superiores como os símios não apresentam. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5219873/

Esta particularidade associada à maturidade do sistema neurológico que nos conferiu a capacidade de expressão através da linguagem falada. A peculiaridade é que nos transforma em animais produtores de narrativas. E voltando ao estagirita, para ele, o outro elemento que nos diferencia dos animais, além da linguagem falada, é a capacidade de evocar, por um ato de vontade, a memória. Assim, como seres que se expressam pela fala e que conseguem evocar a memória voluntariamente é que podemos dizer que pertencemos ao reino único dos falantes. Superado o reducionismo vamos agora examinar onde estes conceitos podem impactar a medicina.

Se Hipócrates e o Corpus Hipocraticum, seu legado, inventaram a história clinica e, portanto, a medicina técnica, foi Samuel Hahnemann quem sugeriu – meio século antes de Claude Bernard — uma forma de capturar nos estudos experimentais o resultado da ação dos medicamentos quando as pessoas são a eles expostos.

Mas quais resultados?

Trata-se daquilo que o médico de Lyon, Benoit Mure, introdutor da homeopatia no Brasil,  chamou certa vez de “processo verbal”. Pois é destas narrativas capturadas pelas experimentações de medicamentos sobre o homem são, as chamadas patogenesias, que conseguimos obter as sensações, sintomas e vivências do sujeito. Apesar de Hahnemann ter sido glorificado por outras aspectos de sua capacidade científica e criatividade, sem a qual o cientista é apenas um robô compilador de metanálises, sua descoberta de que seria preciso registrar toda a narrativa vivenciada pelo experimentador – assim como a do paciente – passou quase despercebida. Seu livro Fragmenta de Viribus Sive in Sano Corporis Observatis foi no mínimo, subdimensionado. Pois é este registro — comparar os processos verbais induzidos pelas substâncias medicinais aqueles relatados pelos pacientes — permitiria aproximarmo-nos da exatidão das “ciências matemáticas” conforme Hahnemann escreveu em seu texto “Medicina da Experiência”.

Muitas funções, catárticas e não catárticas entram em operação quando alguém chega para relatar o que sente e como sofre. Esta capacidade de extrair uma história clínica com todos os sintomas, a anamnese, não só não é simples, como desafia o modo como os médicos tem sido ensinados nas escolas médicas, especialmente quando se aplica uma pedagogia hiperpragmática.

A ação sossegadora ou catártica é uma função da fala descrita por Muller-Freienfels (Entralgo, 1950). Trata-se de um tipo de função notificadora, pois na intimidade daquele que notifica há nivelação afetiva e, quiçá, sossego. Conforme Pedro Lain Entralgo apontou, “a elocução adequada tem, sempre, ainda que em quantidades muito variáveis, um efeito catártico.”

Trata-se de aspecto tão importante para o constructo relacional que Entralgo ainda divide catarsis ex ore (produzida pela elocução ativa) e catarsis ex auditu determinada pelo fato de se ouvir adequadamente e conclui, afirmando: “Não é possível construir uma doutrina psicoterápica sem discutir a fundo estas duas formas da catarse verbal.”

E, portanto, qualquer aperfeiçoamento deve decorrer de um treino permanente. Vale dizer, trata-se de um destreino, vale dizer, de uma verdadeira reabilitação semiológica.

Por que?

A pedagogia médica limitou-se a ensinar como se captura os sintomas objetivos, capazes de nos oferecer um quadro diagnóstico plausível da patologia. O propósito é essencial, achar e identificar os sintomas em determinada árvore nosológica para que se possa estabelecer o nome correto da moléstia. Em nossos dias, programas e robôs que já podem substituir médicos nesta tarefa de definir o nome da moléstia. E há quem defenda até terminais onde os médicos prescreveriam de centros à distância, dispensando a clássica “medicina feita à cabeceira do enfermo”. Importante que o leitor note que não se trata de anacrônico saudosismo. Com ou sem o apoio da tecno-ciência o diagnóstico nosológico torna-se, isoladamente, insuficiente para determinar qual a melhor terapêutica quando se trata de uma medicina baseada em sujeitos.

Não me refiro exclusivamente à uma medicina específica. Falo sim da medicina lato sensu. Se a medicina de fato deseja recuperar para si a tradição humanista que foi perdendo — e que é clamada pelas sociedades ao redor do mundo como reação à hipertrofia da biotecnologia aplicada às ciências da saúde, precisa deslocar-se do eixo no qual confortavelmente se instalou. E o resgate começaria com a recuperação da linguagem para elucidar o significado do sofrimento de cada um. É preciso recuperar a perspectiva de captar o patognomônico do sujeito, aquilo que o individualiza.

Há aqueles que argumentam que uma divisão de trabalho foi estabelecida e que a mesma deve ser portanto respeitada. Mente e o corpo separados resolveriam um grande problema epistemológico. Neste caso, psiquiatras seriam responsáveis pela primeira parte e os médicos clínicos se encarregariam do monopólio dos transtornos corporais.

Isso também significa que um médico deve se ocupar do tratamento tendo em vista a especificidade da queixa clínica e da moléstia diagnosticada. Ora, essa observação poderia ser uma saída, se, e somente se não houvesse uma crise entrando pela porta da frente da Medicina. De um lado, o dilema preventivista da epidemiologia e da saúde coletiva nos alertando para os custos excessivos na manutenção dos recursos médicos direcionados para as doenças crônicas já estabelecidas, e, de outro, a extrema insatisfação (questionários e estudos multicêntricos indicam que ela é mundial) com os serviços de saúde mundo afora.

A primeira ministra da Grã Bretanha Thereza May, acaba de designar uma tarefa inédita para a Ministra da Saúde, Jackie Doyle-Price: com um orçamento exclusivo de 1.8 milhao de libras, estudar e estabelecer um plano de ação para a prevenção do suicídio. Só no passado houve um alerta dada a epidemia de 4.500 pessoas que ceifaram a própria vida no Reino Unido. A epidemia de depressão e de distúrbios psíquicos havia sido antecipada 30 anos antes. O relatório da OMS publicado em Geneva em 1988, já previa: a maior parte das buscas por atendimento médico até a metade do século XXI não seria por problemas clínicos físicos, mas por queixas relacionadas aos distúrbios funcionais e um difuso mal estar psíquico. Parafraseando o famoso texto de Sigmund Freud deparamos, mais uma vez, com um evidente mal estar na cultura, e na civilização.

A primeira teoria médica adotada era a tóxica: o veneno que vinha de fora era o principal responsável pelo adoecimento. Pois mesmo num ambiente como o que hora vivemos aqui no Brasil não poder ser descartada a hipótese de que uma peçonha psíquica externa esteja sendo injetada no ar, neste momento exato, através das redes sociais,  no ciberespaço e também fora dele. Nada de novo. O psiquiatra alemão Wilhelm Reich já diagnosticara a existência de uma espécie de peste presente no “éter”. Esta “praga” psíquica foi apelidada de peste emocional e ela é tão ou mais nociva que uma epidemia de peste bubônica, tifo ou febre amarela.

E o que aprendemos com a tradição vitalista? Que a susceptibilidade é o aspecto mais determinante – ainda que não o único — para desencadear o adoecimento. Que a primeira perturbação detectável pela natureza do cérebro e do sistema nervoso central se reflete primeiramente no estado anímico das pessoas. A primeiríssima afecção acontece na disposição física e no estado psíquico e isso é particularmente notável em crianças. Em geral, traduz-se por sensações pouco objetivas e, às vezes, de difícil detecção semiológica.

Dai a semiologia que aprendida em faculdades de medicina e ciências da saúde ser rigorosamente insuficiente para diagnosticar o mal estar sub clinico (illness) que antecede o aparecimento e desenvolvimento da própria moléstia (disease). E é precisamente neste momento que as medicinas integrativas — como uma modalidade de medicina preventiva — poderiam ajudar imensamente as pessoas e impedir a hiper concentração em atendimento terciário em hospitais e clínicas de especialidades. O atendimento de alta complexidade ficaria para a maior parte dos casos agudos e emergências, e assim sobrariam recursos humanos e capacidade para intervir e cuidar das moléstias crônicas.

Outro aspecto crítico que as ciências da saúde deve reconhecer é que apesar da fala e da narrativa se mostrarem como elementos semiológicos pertinentes e úteis existe uma enorme dificuldade para que os clínicos reaprendam a valorizar o que apreendem destas narrativas. Para que saber qual lado do corpo é mais atingido? Qual a finalidade de registrar sonhos? O que significam as sensações fugazes como “sensação de corpo desmanchando” “cabeça leve”, “do meu ouvido direito sai um vento” “a insônia piora depois das 3 horas da madrugada” “dor de cabeça como se alguém estivesse rosqueando um parafuso na testa” “se como chocolate é como se meu rosto desaparecesse” “sinto tontura quando ouço barulhos altos” ou “quando vejo noticiário político minha boca espuma”. Fora este último, todos os outros foram extraídos de narrativas reais, de experimentadores que expuseram seus sintomas a quem conduziu as experimentações. São as chamadas idiossincrasias, aquelas que mais individualizam os problemas clínicos das pessoas.

Estavam inventando? Não. Exageraram? Não importa, pois não existe mentira na clínica. Mesmo se uma criança diga que ela não gosta de peixe e sua mãe, espantada, afirma que quase muito raramente este alimento é oferecido em casa. A aversão ao peixe deve ser levada em consideração, já que a linguagem expressa o imaginário. E ele possui uma realidade em si. Independentemente da checagem dos fatos.

No entanto, estes elementos, aparentemente parasitas, são importantes não somente para fazer valer o poderoso efeito catártico da consulta, mas também para adensar o conhecimento da pessoa enferma. Samuel Hahnemann muito tempo antes do médico alemão  Otto Schwartz em seu “Psicogênese dos sintomas corporais” já fazia as devidas correlações entre as emoções e as perturbações na saúde.

Mas isso valeria, também, para avaliar o contexto do aparecimento dos sintomas. E tudo isso depende de que? Da linguagem, dos sintomas comunicados através da fala. Outro aspecto que precisa ser desenvolvido é investigar melhor como ocorrem as curas. Pesquisadores notaram que a maior parte dos estudos epidemiológicos são destinados a compreender como as doenças surgem e evoluem, mas são bem mais raros investigações científicas que tentam apreender como elas são curadas.

Pesquisadores israelenses estudando curas espontâneas de AIDS, em países africanos, acabaram descobrindo novas substâncias por elucidar aspectos muito peculiares sobre o auto reciclagem do sistema imune frente à agressão de microrganismos.

Por que então a insistência em retomar uma medicina do falante, onde a tecnologia entra apenas como subsidiária, acessória? Porque a necessidade é premente. Porque as pessoas precisam se expressar como se sentem e não apenas serem fonte de pesquisa de sintomas para formação de um diagnóstico.

Portanto, ao chegar neste ponto, precisamos aceitar que a medicina especificamente humana é a medicina do falante. De quem pode expressar a modalidade das suas queixas e sofrimentos, com contexto e características individuais. Eis a provável origem que Hahnemann atribui aos sintomas particulares e peculiares em detrimento dos sintomas gerais e comuns. E aqui, transcende-se as medicinas integrativas.

Que ganho extraordinário para toda a semiologia médica se os médicos apenas pudessem reconhecer de que não há uniformidade absoluta na apresentação de sintomas quando o foco não é exclusivamente a doença, mas o sujeito com seus sintomas, perturbações e sensações.

Além disso, seria um ganho adicional a qualquer semiologia médica caso os sintomas não servissem somente para prover uma classificação e encaixe em alguma árvore nosológica, mas sim, exaltar a compreensão da própria pessoa. Esta semiologia generosa, mediada pelas palavras, teria potencial para regenerar o rapport, a tão desgastada relação médico-paciente, com a grande vantagem de estar baseado em um encontro. Num contato interhumano solidário e afetuoso, que viria a calhar como uma espécie de lugar neutro, um oásis em meio a tanta hostilidade, turbulência e mal estar.

*Conferência proferida no Congresso Brasileiro de Homeopatia, Curitiba, outubro de 2018

Crítica do livro “Céu Subterrâneo” – autor Flavio Goldberg – Advogado e mestre em direito.

O Céu subterrâneo.

Vício ou virtude de ótica profissional leio, interpreto e julgo um livro nas figuras do Autor e de seus personagens.

As vezes na defesa, outras como promotor e na última instância como juiz.

Pois é assim que venho, volume atrás de volume, primeiro colecionando para uma biblioteca interminável, daquelas descritas em papiros, memórias, recados, correspondências, enfim provas documentais e testemunhais de vidas e mortes.

Este é um tribunal que compartilho talvez à moda do que fez Isaac Bashevis Singer, quando viaja pelas franjas da Côrte rabínica de seu pai.

Nada mais a propósito do que aconteceu quando caiu e, literalmente, trata-se de queda, nas minhas mãos o livro do Paulo Rosenbaum, “O Céu subterrâneo”.

Sim, da queda para a escalada foi um salto só. Conhecia o autor como médico heterodoxo, audacioso em fronteiras humanísticas no campo da doença, nesta visão absolutamente, poética que é a homeopatia. E na abrangência a sedutora pratica da medicina integrativa que suave e liricamente põe o corpo na sinfonia do Espirito, na busca da homeostase ou Céu, extase de bem-estar sem machucado, sem dor, sem sofrimento, ou no subterrâneo, com todas as aflições anestesiadas pelas emoções que o Divino propõe na jornada labiríntica de Adam Kadmom este peregrino que, talvez, eu pudesse enquadrar no antigo código da vadiagem, enquanto crime.

A crise permanente de identidade, suas peripécias pelos caminhos da subjetividade, aquilo que oscila entre uma epopeia, saga ou “conversa fiada”, de um ordenamento místico por Sion, Israel, a Terra Prometida, de leite e mel recuperando o Paraíso Perdido.

O livro de Rosenbaum me remete à Travessia, o percurso literário de Carlos Heitor Cony e também a Dionelio Machado, um gênio da literatura gaúcha que se perde e se acha para se perder numa infindável caminhada que nas páginas deste livro põe de ponta-cabeça a equação filosófica do pecado original.

Afinal para começar o Céu não é o que nos protege das alturas, a morada do Deus-pai e o subterrâneo, o debaixo da terra, aonde se esconde o clandestino, o transgressor, o culpado, mas também o tesouro, tudo, placas tectônicas que o Autor desenha às vezes em traços sutis, às vezes de forma impiedosa.

A leitura se faz pesada, angustiante embora as cenas possam seduzir pelo inesperado que é o fio condutor do romance, esotérico e, paradoxalmente, obvio como um roteiro cinematográfico.

Me dou por satisfeito diante daquilo que pode ser também um processo judicial, em termos do clássico de Franz Kafka.

A sentença fica por conta do leitor, por aqui fico com o relatório do ocorrido. De minha parte, condeno. A eterna condenação de Sisifo, Paulo ou Saulo de Tarsis.

Haverá outro código para a Medicina? (Blog Estadão)

Haverá outro código para a Medicina ?*

10 de abril – data de nascimento de Samuel Hahnemann

O que é um código? Pode ser uma coleção metódica e sistemática de leis, uma coleção de regras sistemáticas de procedimento e conduta, ou um sistema de sinais secretos ou convencionais usados no comércio e na literatura. O título deste livro (agora artigo) insinua que pode haver mais de uma compreensão para a medicina, pode haver mais de um código de procedimento e conduta para compreender saúde e enfermidade. E um não exclui necessariamente o outro. Vários códigos podem conviver e ser simultaneamente usados, sem que um tenha supremacia sobre o outro.

O público que consome livros científicos conhece pouco de medicina preventiva e tem noções muito vagas sobre as medicinas integrativas.  O conceito popular é de que a prevenção não é solução e de que uma medicina menos invasiva como as técnicas das medicinas integrativas pairam aspectos polêmicos. A verdade é que a grande maioria deste público as conhecem apenas superficialmente. Poucos a conhecem como uma medicina que cuida de sujeitos. Outros, não têm a menor ideia de sua abrangente capacidade de atuação que vai dos doentes com patologias severas às pessoas com problemas clínicos sem diagnóstico definido. Enfim que a prevenção pode atuar no indefinível estado chamado de “mal estar”. Este “mal estar” (illness) indevidamente pouco valorizado, também é muito importante na medicina pois aparece muito antes de que a patologia (disease), a doença propriamente dita se organize e apareça na forma de sinais e sintomas. O que menos gente sabe ainda é que a homeopatia interfere em todas estas áreas levando em consideração também o estado de saúde.

E por que o grande público sabe tão pouco sobre ela ou a conhece de forma tão estereotipada?

A homeopatia por exemplo é uma medicina sobrevivente. As provas são sua longa permanência na adversidade e sua lenta, porém sustentada expansão. As referências são escassas em todo tipo de mídia, especialmente quanto aos seus aspectos efetivamente mais interessantes. A omissão crônica do verdadeiro alcance da homeopatia e das outras medicinas integrativas também explica e justifica sua baixa visibilidade.

A homeopatia pode ser definida como um sistema terapêutico de interferência médica baseada em similitude e observação clínica que usa a individualização dos sintomas como sua principal fonte de conhecimento. Trata-se de uma prática médica que ouve histórias, acolhe narrativas e interpreta biografias. Não é fortuito que estejam nascendo movimentos como “Medicina Baseada em Narrativas”, “Medicina sem Pressa”, “Medicina Baseada em Empatia”, “Hermenêutica Médica”

Em “Céu Subterrâneo”,  (romance publicado em 2016 pela editora Perspectiva) trago uma referencia do clássico de Aristóteles o tratado “História dos Animais”. Numa determinada passagem ele escreve sobre a memória. Por um erro de interpretação conhecemos a famosa versão de que o homem seria racional em oposição aos animais que estariam descritos como irracionais. Para o filósofo, no entanto, a verdadeira distinção seria outra, e está em outra passagem deste mesmo livro: o que nos diferencia dos outros animais não seria a possibilidade de raciocinar pois é evidente que os animais também o fazem. Para o pensador, a grande distinção estaria na capacidade humana para evocar a memória conforme sua vontade. E narra-la.

Cito isso para lembrar que Prof. Walter E. Maffei, importante pesquisador e neuropatologista brasileiro e um dos meus principais mestres. Maffei ilustrava uma de suas aulas na Faculdade de Medicina projetando imagens de gatos. Por que? Afirmava, com razão, que aqueles que tinham as predisposições alérgicas despertada por alguma idiossincrasia, poderiam apresenta-las apenas com a “lembrança” desta experiência. Não seria necessária a presença física de um gato, poderia bastar imaginar à exposição a algum alérgeno que não estivesse presente para “excitar” instantaneamente um quadro alérgico. A lembrança de alguém que apresenta sensibilidade ao pelo deste animal poderia desencadear um início de manifestação alérgica. Esse exemplo evidencia pelos menos duas coisas, a incrível e abrangente sensibilidade do psiquismo e o papel da memória em nossa saúde.

Muitos aspectos permanecem misteriosos na clínica. Não é incomum que os pacientes desenvolvam estranhas e desconhecidas sensibilidades aos produtos farmacêuticos e alimentícios mais comuns. Ou sujeitos que sentem súbito mal estar quando terremotos estavam para ocorrer a milhares de quilômetros dali. Sabemos que muitas pessoas tem perturbações cardio-circulatórias e respiratórias antes e durante os fenômenos climáticos. Existem vários relatos de pressentimentos e sintomas inexplicáveis que normalmente não seriam relevantes para uma aplicação da técnica de tratamento, mas extremamente importantes para compreensão da história clínica de alguns individuos.

Não se trata de um fenomeno religioso ou de uma mistificação. Temos que recordar que, para a genuína investigação científica sempre existirão mais perguntas do que respostas.

O homem não é mero contemplador de seu habitat ou do sistema de tratamento médico que escolhe. Como todo ser vivo pertence ao ecossistema. O tempo todo age sobre ele, e ao mesmo tempo sofre múltiplas influências do meio no qual habita. A meteorobiologia, hoje uma disciplina, nos ensina o poder das meiopragias sobre os seres. Quando aumentam as manchas solares ocorrem ciclos epidêmicos de doenças na Terra, as influências climáticas, barométricas e da poluição atmosférica sobre os estados de saúde são clinicamente evidentes. A despeito de toda tecnociência e da propedêutica armada o clínico experiente ainda pode observar a incidência maior de crises de gota no outono e de hemorragias na primavera.

Também não é infrequente que médicos sejam pegos de surpresa com o que aprendem das experiências pessoais dos pacientes, de suas sensibilidades e características individuais. Estar atento a estes aspectos não se limita a quem pratica qualquer modalidade de terapêutica integrativa, mas a todos que se dedicam a tarefa de cuidar da saúde dos seres humanos e dos animais.

Costumamos dizer que não há mentira em clínica. O que um paciente sente não pode ser julgado no campo estrito da verdade ou da mentira. Para atestar se um sintoma é falso ou verdadeiro não basta fazer uma investigação clínica que confirme ou não a patologia. Todos os sintomas são, de uma forma ou de outra, verdadeiros, pois mesmo as fantasias, delírios e as interpretações ( incluindo as hipocondríacas) fazem parte integrante dos problemas dos sujeitos enfermos.

É importante que médicos, ou qualquer profissional das práticas de saúde sejam treinados para acolher o que cada pessoa percebe de anômalo ou estranho no funcionamento de seus órgãos e em sua própria vida. Tudo que o paciente informa deveria ser relevante para o medico cuidador, independentemente da correlação que este estabeleça com alguma enfermidade específica. Isso vale para o generalista e o especialista, para o clínico ou cirurgião.

No mundo todo cresce uma tendência científica: passa a ser cada vez mais importante individualizar as doenças. Como toda uma tradição médica vitalista pensava, incluindo o próprio Samuel Hahnemann, é preciso saber como cada doença impacta a saúde de cada pessoa, pois cada um tem uma forma particular de desenvolve-la e de voltar a ficar saudável. Esta diretriz, preocupação constante de muitos médicos vitalistas na história da medicina, pode fazer toda a diferença.

E não só nos resultados diretos, mas em todo processo de adoecimento, convalescença e recuperação. Como lidar com o desconforto? As vezes, um tratamento pode ser dolorido e provocar sofrimento. Para a pessoa enferma é muito importante a assistência, o suporte e a presença de quem cuida. Portanto, um aspecto vital de qualquer tratamento, é a qualidade do cuidado que o profissional dispensa ao enfermo.

Pode-se encontrar referencias bibliográficas sobre todas estas informações. Estas reflexões são fruto de décadas de observação e testemunhos da clínica médica nos últimos 30 anos. O presente texto que o leitor tem nas mãos, ou na tela, é uma condensação de um livro, hoje esgotado, que transformei em e-book sob o título “O outro código da medicina”.

As vezes, as pessoas perguntam por que — diante de sua eficácia e abrangência clinica — especialmente na atenção primária à saúde e na prevenção e tratamento das moléstias crônicas —  a homeopatia nunca tenha se universalizado como forma de atendimento? Há décadas a Organização Mundial de Saúde recomenda as medicinas tradicionais. Uma publicação recente da Escola de Saúde Pública da Universidade de Harvard[1] recomendou o uso de homeopatia nos sistemas de atenção primária à saúde. No Brasil, o SUS teve várias tentativas de ampliar o uso de práticas integrativas. Recentemente, a Suiça organizou uma consulta popular e a homeopatia finalmente entrou como opção terapeutica no sistema público de saúde. Sabe-se que ela já foi reintroduzida no currículo de escolas de medicina nos EUA. Na Alemanha, além de popular, a homeopatia e as medicinas integrativas tem larga aceitação pelos médicos e também é usada por grande porcentagem de clínicos e especialistas como tratamento complementar. Entretanto o fato persiste: qual é o obstáculo para nunca conseguirem se universalizar como práticas médicas? É importante tentar entender.

São muitos fatores concorrendo simultaneamente. O primeiro e decerto o mais significativo  é a dificuldade para estabelecer núcleos de pesquisa que sejam financiados pelo Estado e independentes da pressão dos poderosos lobbies que comandam a indústria farmacêutica. Sem prover centros autônomos de pesquisa com recursos e capacidade política para determinar a prioridade das pesquisas todo avanço farmacotécnico em medicina fica sujeito à lógica dos dividendos das fábricas e sob o controle de oligopolios farmaco-industriais conforme sugeriu ainda no início do século XX o historiador da medicina Henri Sigerist.

Não há nenhuma ingênua tese conspiratória ou anti-capitalista nesta observação, apenas elementar constatação de fatos. É importante reconhecer os muitos avanços das tecnologias médicas e o papel da indústria farmacêutica, ainda que isso não a transforme em um símbolo de benemerência. E é também justo que se pergunte: por que a indústria não investiria em um ramo tão promissor e potencialmente lucrativo como a dos medicamentos homeopáticos e fitoterápicos que já conta com centenas de milhões de consumidores?

Um dos problemas para os interesses mercantis na produção de medicamentos está no fato de que, por exemplo, as substâncias medicinais homeopáticas não têm patente, isso é, constituem um bem público. Trata-se portanto de um conjunto de medicamentos que foram incorporados ao patrimonio da humanidade, já que nenhuma indústria ou indivíduo detém os direitos de propriedade dessas substâncias. Isso significa que sobre estes fármacos não incidem royalties. Exatamente isso que você acaba de ler: nenhuma substância usada nos fármacos empregados na homeopatia possui domínio de patente. Isso explica seu relativo baixo custo. E também explica a quantidade desproporcional de ataques dirigidos contra ela e sua relativa incapacidade de responder a eles com pesquisas subsidiadas.

Evidentemente existem outras dificuldades: a natureza sectária de parte do establishment das medicinas integrativas. Numa compreensível atitude defensiva que emergiu contra as décadas de acusações de ineficácia das doses ultra diluídas, existe neste meio relutância em fazer a autocrítica necessária para se antecipar e apontar suas próprias deficiências, lacunas e limites de atuação.

Existem praticantes que insistem numa lógica autossuficiente que clama para a medicina integrativa uma emancipação total das demais racionalidades. E também existem aqueles que aceitam abrir mão da teoria que organiza e confere alguma consistência teórica para o método. Porém para qualquer medicina de inspiração vitalista não se pode resumir os benefícios apenas ao “resultado clinico pontual”, e sim ao conjunto de potenciais benefícios para a totalidade da pessoa enferma.

O dilema é compreensível: se por um lado ela se apresenta como uma outra lógica médica, por outro, ela precisa em parte assimilar-se à cultura científica corrente se quiser ser levada a sério. Isso significa que a medicina integrativa acaba falhando em se estabelecer, tanto na prática privada como no setor publico, pois não consegue nem evidenciar claramente sua performance clínica, nem se fazer entender pela linguagem contemporânea. Um impasse, que no caso específico da homeopatia, dura quase dois séculos.

O erro fundamental está numa certa recusa inconsciente destas correntes em aceitar que de uma forma ou de outra a única saída para que uma tese seja aceita nas sociedades contemporâneas é sua penetração na cultura através das pesquisas acadêmicas e da discussão com a sociedade. Somente esse pertencimento à cultura garantiria a permanência de uma formulação sofisticada como é a proposta de uma terapêutica pautada no uso dos semelhantes.

Sofisticada, porque pretende, inclusive, retomar um assunto dos mais importantes, e, ao mesmo tempo uma das questões científicas mais negligenciadas da medicina: ainda são raras e escassas pesquisas sobre o como as pessoas se curam.

Notem que hoje já existem núcleos de pesquisa médica que discutem criticamente a validade dos protocolos padrões. O cálculo de risco para alguns procedimentos terapêuticos tem sofrido questionamentos. E uma boa parcela dos pesquisadores já leva cada vez mais a sério o fenômeno chamado super-diagnóstico[2].

As medicinas integrativas devem ser apresentadas não só como alternativas – com todas as suas conotações contra-culturais — mas como um processo que dialoga ao mesmo tempo com a ciências naturais como com as várias áreas das humanidades como a antropologia, filosofia e psicologia. Ao mesmo tempo, precisa ser mais enfática em sua proposta: estabelecer bases teóricas próprias para uma medicina do sujeito emancipada, por exemplo, das teorias psicanalíticas e das mistificações. Portanto, ela deveria ocupar o centro da discussão das ciências humanas com as ciências biológicas.

Temos tempo. Sejamos todos pacientes, a discussão está apenas começando.

[1]A Escola de Saúde Pública de Harvard e o Hospital Beth Israel, afiliado à Faculdade de Medicina de Harvard publicaram recentemente os resultados de um estudo conduzido por Michelle Dossett, MD, PhD e colaboradores incluindo o expert em placebo  Ted Kaptchuk, OMD onde concluem que os estudos conduzidos usando a homeopatia “sugerem potencial beneficio para a saúde publica como redução de uso desnecessário de antibioticoterapia, redução de custos para tratar de algumas doenças do trato respiratório melhora nas depressões relacionadas ao período do pós menopausa, melhora os resultados na saúde de indivíduos com moléstias crônicas e controle de doenças epidêmicas como por exemplo a epidemia de leptospirose em Cuba”

Homeopathy Use by US Adults: Results of a National Survey. Dossett ML, Davis RB, Kaptchuk TJ, Yeh GY. Homeopathy Use by US Adults: Results of a National Survey. Am J Public Health. 2016 Apr; 106(4):743-5.

*O outro Código da Medicina (e-book kindle)

[2] Overdiagnosed – cuja tradução poderia se aproximar de “superdiagnosticado”. Caracteriza-se em valorizar excessivamente os exames subsidiarios e atribuir importância exagerada aos distúrbios clínicos que talvez não merecessem tratamento, pois seriam patologias inofensivas ou “amigáveis”. O custo orgânico e psíquico de determinados procedimentos terapêuticos são simplesmente elevados demais para os pacientes.

 

O ofício do escritor: cumplicidade com o leitor* (Arquivo Maaravi: Revista Digital de Estudos Judaicos da UFMG)

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O ofício do escritor: cumplicidade com o leitor*

 Paulo Rosenbaum**

Universidade de São Paulo (USP) | São Paulo, Brasil  rosenbau@usp.br

Na tradição teológica judaica, especialmente na tradição talmúdica, a interpretação não pretende delimitar um sentido unívoco e definitivo; ao contrário, o respeito pela origem divina do texto impede sua cristalização e sua redução a um sentido único. Assim, o comentário tem antes por objetivo mostrar a profundidade ilimitada da palavra divina e preparar sua leitura infinita, para gerar sempre novas camadas de sentido até então ignoradas.” Essa observação foi por mim verificada. Só assim o autor consegue sentir o impacto na realidade dos leitores, os quais fizeram juízos muito distintos do texto. Aspecto que só enfatiza a recusa dos textos à fixação em uma única interpretação. Ao contrário, quanto mais o autor ouve mais ele enxerga a polissemia involuntária que provocou.

(Berta Waldman)

 

1 Céu subterrâneo

No caso do romance Céu subterrâneo[1] esse aspecto se refletiu em várias camadas do texto:

  1. na fonética: quando cada leitor pronuncia, com distintas sonoridades, o nome dos personagens;
  2. na leitura do sentido do que significa “revelação”: fotográfico, metafísico, transparência real e as inumeráveis outras interpretações para a representação da imagem;

 

* Este texto foi apresentado no Congresso BRASA (Brazilian Studies) na PUC-Rio, em 27 de julho de 2018.

** Médico e Doutor em Ciências pela Universidade de São Paulo, escritor, poeta e romancista.

  1. na busca de identidade e de sentido: a luta entre a consciência e o ignorado e entre o ceticismo e a recuperação de algum lugar para uma religiosidade não canônica, segundo a etimologia de religação;
  2. na análise política: qual seria o impacto do consenso em uma origem comunal para todos os povos? Israel e seus habitantes em sua multiplicidade e diversidade?
  3. na natureza do milagre: que se traduziria em uma realização da própria imanência ou símbolo da transcendência?
  4. no amor: em seus distintos planos de interferência nas relações;
  5. na metáfora do Paraíso: do penitencial ao redentor;
  6. na cronologia: os movimentos do tempo e a imposição de uma arqueologia que permita a investigação dos sentidos. As diferenças entre a cronologia e katastasis (a sequência) no analógico e no digital;
  7. No papel: complementar ou vital, da imaginação de quem interage com o texto;
  8. Na ideia de bloquear o excesso de protagonismo: a fim de buscar originalidade, além do estranhamento, é preciso abandonar a identidade e deixar-se orientar pelo ocasional.

1.1 Solidão, processo criativo

Viajar é enfrentar fechos e desfechos desconhecidos. A experiência em Israel pode ser classificada de muitas maneiras: eclética, abrupta, estranha e milagrosa. Eclética, porque foi feita por intermédio de um roteiro errático, quase impulsivo. Fora o roteiro mínimo, viajei ao sabor da vontade (e) dos eventos. À minha revelia. experimentei o antiterapêutico. Com o perdão dos psicanalistas, abandonei-me para, por um período, deixar de ser mais o sujeito da própria história. É sempre preciso reafirmar que a solidão, a improvisação e a migração errática são fatores chaves, pode-se mesmo dizer, condicionais para qualquer empreendimento literário.

O leitor tem um papel quase messiânico: é o único que pode assim preencher a incompletude do autor. Vale dizer, modelar as lacunas voluntárias e involuntárias que o escritor vai “perdendo” pelo trajeto. Lyslei Nascimento enxergou, no romance, referências cruzadas com a obra de Walter Benjamin: escavar é escavar-se.[2] Ou seja, Israel é um espaço do mundo que comporta vários extratos no plano cultural e arqueológico. Quem recentemente visitou as escavações ao largo do Kotel (o Muro Ocidental) em Jerusalém pode testemunhar que hoje Israel é um país com vasta exploração do subsolo, e o foco não é o petróleo. A auto-escavação que se organiza de dentro para fora, e também no sentido inverso, apresenta na região uma incidência incomum. O acaso é o outro tema importante. Na axiologia judaica, ele é uma espécie de disfarce elegante para alcançar uma finalidade não aparente, pré concebida e, às vezes, indecifrável, que nos impulsiona em direção à compreensão dos destinos individuais. A trama criada em minha segunda ficção tem no negativo da polaroide achada por Adam Mondale um de seus eixos. Desse modo, um instantâneo realça o momento e que, ao mesmo tempo, tem o poder de nos conduzir à uma outra realidade.

O registro da imagem também funciona como um indício de que algo do inteligível subsiste somente no original e que, muito provavelmente, pode não estar presente nas cópias. Só os originais conteriam aquilo que as múltiplas interpretações das interpretações recusam. Isso não significa desprezo pelos comentaristas, como se pode constatar na rica tradição das mischnaiots nos textos canônicos e suas anotações marginais. Mas como acessar o original?

Portanto, interpretar o interpretado tem um valor hermenêutico muito distinto de esmiuçar o texto inaugural. Dependemos desse auto-esclarecimento para sentir que estamos nos completando ou identificando, já que, por natureza, somos seres que precisam evocar a memória que nunca passa e que nos compõe como seres históricos.

Aristóteles, em seu Historia animallium,[3] ao definir os seres humanos na notável distinção entre humanos e animais, escreveu que era esse o aspecto central daquilo que nos diferenciava dos assim chamados “animais irracionais”. Tratava-se, contudo, de um equívoco histórico, apenas parcialmente corrigido. E ele ocorreu em função de um incrível erro de tradução do copista. Foram necessários mais de dois milênios para que algum filólogo curioso se debruçasse sobre o texto e notificasse a humanidade do engano, vale dizer, a má acepção com que a palavra grega foi tomada. Na novíssima leitura, o que nos diferenciaria das outras espécies não seria a falta de racionalidade ou razão, mas a capacidade de evocar, à nossa vontade, todas as lembranças e ainda contar com a capacidade para verbalizá-las.

Aristóteles atribuiu outro gênero de inteligência aos animais, muito diferente do consagrado “irracional”. A grande distinção entre animais e humanos era outra: “Muitos animais têm memória e são passíveis de instrução; mas nenhuma outra criatura, exceto o homem, pode evocar o passado através da vontade”.

O domínio da memória e o tempo é que fundamentam a criação em um romance. Adam, não esqueçamos, é, segundo a cultura judaica o idish kait, o primeiro falante ou simplesmente o “falante” (medaber). E a ele é quem foi conferida a missão de nomear as coisas do mundo.

 

1.2 Para que(m) escrever?

Fedra, o senso comum versus a literatura.

Como especulava Emanuel Swedenborg, todo homem pode ser muitas coisas ao mesmo tempo. Na literatura idem. Por que tantos jornalistas entram na literatura? Talvez a facilidade inicial de acesso à linguagem tenha o papel preponderante nessa escolha (os médicos também entram certamente por alguma outra facilidade), mas fica evidente que a formulação da linguagem, no caso dos jornalistas e dos críticos de literatura, precisa ser ressignificada se desejam arriscar-se na ousadia criativa. E o ensaio é a prova de que a literatura se opõe à filosofia, vale dizer, enquanto a memória criativa dá o tônus da primeira, a reflexão epistemológica sobre a existência orienta a segunda. Não é infrequente que o crítico e o jornalista se debrucem sobre a literatura muitas vezes sob o sistema de notação da filosofia. O resultado costumar ser endosso ou recusa, de acordo com valores mais axiológicos do que literários. Também pode ocorrer o reverso: quando o é o próprio romancista ou o poeta transformam a literatura em apologéticas narrativas políticas do quotidiano.

Em oposição a Fedro, de Platão,[4] James Joyce enxerga a literatura de forma quase prescritiva (pharmakon). Sua oposição pode se resumir à famosa objeção socrática de que tudo que não se atém à filosofia acaba sendo doxa. Se para Sócrates a literatura é a alienação à lógica que favorece a dispersão reflexiva, portanto política, para Joyce é a linguagem, instrumentalizada pela imaginação, que permite impactar, sobressaltar, mudar, enfim elevar a tensão e o contraste, à harmonia e a um estado de exasperação ao sujeito. O processo de elaboração obriga o escritor a ter mais tempo para se estudar.

E enfim a pergunta científica que vem perturbando a psicanálise: a literatura cura?

Talvez não, talvez nada. Mas, e se ela trouxesse elementos de cuidado? De cuidado que misturasse componentes e, ao aportar identificações artificiais, de narradores, criadores e criaturas – criasse percepções que escapassem do esmagamento promovido pelo senso comum? E se ela gerasse um painel tão diverso dos estados humanos que introduzisse interferências?

1.3 A escrita como estado idiossincrásico de consciência

Existe no processo do autor uma vontade, uma espécie de predisposição subjetiva que faz com que se incorpore um modo muito particular ou idiossincrásico de interpretar o mundo. Porém, essa hermenêutica não está ajustada a nenhuma lógica particular, e, apesar de todos os esforços racionalizadores, muito menos à adesão as correntes teóricas. Antes, vincula-se a um momento de abstração, aquele que faz emergir uma forma de analisar o mundo.

Um jornaleiro inquieto em sua banca.

O som timpânico da terra descendo sobre o caixão num sepultamento.

Uma nuvem única que obstaculiza o sol.

E onde estaria, afinal, a genealogia do fluxo de consciência? Sobre o qual se sabe tão pouco? Concordando com Henri Bergson, a potência criativa não pode ser reduzida aos processos atuais de mapeamento das áreas neurofisiológicas. Para o filósofo, a unidade neurológica seria apenas o buffer acumulador, encarregado de exonerar os processos, jamais sua origem exclusiva. A poesia é, pois, condutora da prosa.

Há um aspecto do processo criativo que gostaria de explicitar. Para o poeta, a criação de um poema emerge de um snapshot, “o primeiro ponto vivente”, a totalidade síntese, o resumo do abismo, aquele instante com potencial para emular uma ficção.

2 A verdade lançada ao solo[5]

A prosa pode, assim, nascer de um verso. Vale dizer, em um poema podem aparecer aspectos embrionários para o futuro desenvolvimento da prosa. O momento de síntese faz emergir um conjunto de imagens que pode ou não dar vida a um texto mais longo, poesia, crônica, prosa (conto ou uma ficção extensa). A imagem, aliás, pode ser o ponto zero que antecede inclusive a confecção de um texto.

3 A pele que nos divide[6] O que é um escritor?

Alguém que aspira a imortalidade e que, de antemão, sabe que a continuidade indefinida nunca esteve ao seu alcance. Um escritor é, portanto, um discriminador.  Aquele que escolhe – ou está condenado – viver discriminando palavras, condenado a sacrificar algumas em detrimento de outras. Trata-se de um processo sôfrego. Não há glamour no processo, ainda que o produto final possa gerar prazer. Então, o deleite é estético? Provavelmente, é narcísico. A vaidade de ter logrado a correta justaposição, o encaixe da palavra certa. Para Paul Ricoeur, “só há um jeito certo de dizer as coisas”,[7] mas o escritor não as elege por necessidade ou imposição. A eleição não passa de um capricho. No meu caso específico aprendi a duvidar de todas as identidades. Vale dizer, precisei de reconstruir-me por intermédio de identidades emprestadas: ids alheios, egos em processos de diluição, e neutralização de superegos desfocados. Nem ousem pensar em harmonia. Todo reino de palavras de quem escreve encontra-se empilhado. Desequilibrado. Soldado por um único pino. E a pilha é bem mais alta do que gostaríamos de admitir.

A crise é dos narradores ou da qualidade das narrativas? Como reconstituir uma história? Ninguém precisa ser erudito em letras para executar um romance. Seria aconselhável ter sido um bom leitor. Ou um cinéfilo, um colecionador ou simplesmente alguém que valorize um ready-made. Na verdade, seria um grande aborrecimento para os leitores se, em algum momento, todos os escritores fossem grandes teóricos ou “expertocratas” em literatura. Precisa-se, antes, ser alguém que desmonte e monte a realidade em faixas dimensionais superpostas, porém distintas. Ainda que uma efeméride possa ser motivação para um poema, ela pode não ser suficiente para a construção ficcional. Alguns pensam em algo trivial, outros no arrebatador, eu só penso que o texto é que construirá as ideias.

A crise do narrador é, sobretudo, a confusão entre narrativa e imaginação. A saber: uma narração está no contexto de uma saga descritiva, o romance no retorno à subjetividade, o sujeito no centro da história, a realidade subscrita pelo contexto dos processos imaginários, da memória a serviço da invenção, não o contrário.

Seria agora o momento propício para esclarecer a qual escola pertenço? Quando se sabe essa resposta o leitmotiv para criar pode já estar cindido. Sei por experiência que a cizânia que o autor comporta, foi/está erigida sobre dor. A dor de saber que jamais se reagrupará, sob pena de perder sua liberdade criadora. O escritor em seu complexo de onipotência, mesmo desconfiando, acaba dando fé e até incorporando a onisciência de seus personagens. O problema é que eles são crítica e, paradoxalmente, incompletos. Desumanamente parciais. O contraste é evidente: o personagem protagonista de uma ficção deve fazer o leitor entender que não existe uma totalidade totalizante. Nem um único átimo da vida de um sujeito foi jamais integralmente capturado pelas letras.

É nesse sentido que o escritor que tem aspirações universais e se vê as voltas com os limites interpostos. Dos obstáculos na linguagem ao cerceamento de temas da pauta imposto por demandas externas que acabam enquadrando suas pretensões. O escritor deseja imortalidade pensando em obter eternidade. É desse blefe, dessa impossibilidade e dessa natureza improvável que se alimenta a verve literária. Mas a casta que a atual safra produziu está mais concentrada em roteiros do que em texto ou palavras. E os critérios de beleza encontram-se em ampla dissipação. Enquanto isso o vídeo substitui trágica e lentamente a tradição da escuta. Por isso, talvez, hoje, faria sentido que a literatura se aproximasse mais da música do que do cinema. Entretanto, apontar para tantas debilidades só fortalece a necessidade de que o escritor faça prevalecer o mundo interior, e ali, obrigar-se a exercitar sua perplexidade e seu espanto.

4 O momento zero: estranhar-se

O primeiro momento de um escritor é estranhar-se. Não é só assumir o quanto você oscila ou hesita. Estranhar-se no sentido curioso do termo: impressionar-se com o desconhecido do si mesmo. Entender, como na ciência, que o mais vasto em você mesmo é o que mais se desconhece. O desconhecido que não é nem autoconsciente nem dominável. Isso significa que escrever exige expor-se às imprevisibilidades. Com o absurdo quotidiano que nos embebe contra tudo e todos é preciso recriar hipóteses contra-intuitivas. Escrever é sobretudo um ato antissocial. E essa liturgia desnecessária só é possível num registro que se oponha a uma certa concepção de cultura e lógica social. Tanto faz no que o escritor acredita, na causa que milita, se apoia um conservador truculento ou é adepto de um autentico pseudo-altruísta, o que importa é o grau de compromisso que ele tem com o que escreve. As concessões eventuais de qualquer escritor não estão no sistema de notação que ele adota, nem mesmo em sua filiação à uma escola de pensamento, mas na capacidade de levar o leitor a ter, sob o domínio do texto, suas experiências.

A hermenêutica filosófica define bem: conhecer o processo por meio do qual você conhece o mundo. A militância dos escritores é tão reducionista e desimportante quanto, por exemplo, sua preferência por alienação. Isaac Bashevis Singer escreveu em Amor e exilio: memórias[8] que se houvesse uma síntese para a missão do escritor seria criar suspense por meio da hesitação. O escritor afirma, assim, com insistência, que a mobilização do leitor se dá pela tensão e, nas palavras de James Wood, Milan Kundera reforça a perspectiva da hesitação. O significado analógico tanto de “suspense” quanto de “hesitação” recai na palavra “curiosidade”.

Pelas acepções do Etymological Oxford Dictionary: inquisitive, curious, busy.[9] Do latim curious, careful. Francis Bacon usa curiosidade no sentido de “trabalho elaborado”.  A arte de cativar o leitor, não mais para seduzi-lo à determinada visão de mundo, mas para cooptá-lo para a clínica da trama. A hesitação responde por uma perplexidade induzida: despertar a curiosidade por intermédio do afastamento das repetitivas mensagens do senso comum. Essa cumplicidade, porém, não poderia ser construída pela fortuna crítica, pelos prêmios angariados, pelo estilo, ou pela simplicidade com que o autor se expressa, mas pela marca idiossincrásica presente no fluxo de consciência, a manifestação muito particular que migra da mente do escritor diretamente para a mente do leitor.

5 O anti senso comum

Escrever também pressupõe o abandono das auto-evidências. Isso é, romper com as expectativas emprestadas do senso comum. Tchekhov pregava como técnica para o conto deixar pontas abertas, pistas sem seguimento, indícios soltos sem perspectivas conclusivas. Isso significa mudar sistematicamente a perspectiva com o qual se constrói, por exemplo, a narrativa jornalística. Milan Kundera em A arte do romance explica: “[…] a razão cartesiana corroía um após outro os valores herdados da Idade Média. Mas, no momento da vitória parcial da razão é o irracional puro (a força querendo apenas o seu querer) que se apossará do cenário do mundo, porque não haverá mais nenhum sistema de valores comumente admitido que possa lhes fazer obstáculo”.[10]

É nesse vácuo e só nesse nada hegemônico hiato que o processo criativo pode trazer uma contribuição inesperada.

6 O personagem

Apesar das críticas à ingenuidade dessa hipótese, sim, eles podem não ter, mas exigem uma vida quase emancipada do autor, e isso é uma constatação empírica. Significa que o apartamento da literatura dela mesma exige que os escritores abandonem seus domicílios fixos e passem a migrar como ramblers, caminhantes. Nesse sentido, faria bem a todo personagem encarnar fragmentos do mito do “judeu errante”.

Para mim, a força de um romance atual põe em evidência, portanto duas máximas: a história que corre paralela ao real, isso é a história que a história nunca pode registrar, pois é aquela que faz parte da chave inconsciente das microhistórias subjetivas individuais (e relacionais). Para esta não é suficiente fazer amplas varreduras enciclopédicas. A outra máxima, mas não menos importante, é a assunção de que os personagens – para adquirir uma existência fora do texto – precisam de algum modo aniquilar/neutralizar as idiossincrasias do autor. Isso significa que há uma luta entre as características com o qual o autor tentar modelar seus personagens e a existência autodeterminada do personagem – que paradoxalmente não é externa – a qual exige uma vida independente, e de uma autoria única.

Despertar o senso de intriga é, necessariamente, atrair o leitor para uma armadilha benévola. Nem sempre o arrebatador é belo. A raiz etimológica vem de arrepitare, roubar, resgatar, tomar a força. Ofertar a isca até o lugar mais apropriado para alcançar o destinatário final. Tomar de assalto o leitor.  Isso pode – e frequentemente é – confundido com fazer concessões. Agradar o leitor valha-me, é visto com desdém. Para além do valor estético da concessão, existem de fato aquelas que rebaixam o nível do escritor em vez de oferecer alguma ascese.

7 Insano Joyce

É sempre perturbadora a pergunta de Jacques Lacan: afinal “Joyce era louco?”[11] A depender de qual área psicológica se apropriasse da pergunta ela seria afirmativa.

Mas, num sentido distinto daquele que o senso comum e a psiquiatria atribuem à loucura. Joyce emulava a loucura para escrever. Empresta sua pena à demanda errática (mas com rigoroso controle do timing) aos seus inquilinos provisórios. A transitória esquizofrenia auto-induzida de um escritor é a única razão para justificar sua liberdade. E, também, sua única motivação para a migração da energia psíquica à capacidade criativa, isto é, sua volição redirecionada à imaginação.

Usar padrões de sua força imaginária é também instrumentalizar recursos como a ansiedade e a angústia em uma direção. Seria a literatura uma arte correlata da sublimação? Para alguns possivelmente. O texto de ficção é uma garantia de que estamos atentos aos sinais do mundo, seus signos e significados, mas não necessariamente submissos a ele. Essa distinção é vital para que o autor não seja reduzido a um porta voz dos panfletos políticos de sua época.

Exemplo claro disso é a execração das tradições religiosas, dos elementos místicos (que impregnam indiscriminadamente o dia a dia tanto do crente quanto do agnóstico), e até mesmo de qualquer tradição lato sensu. Eis que o culto ao cotidiano e dos problemas sociais se tornaram o único tema digno de figurar na literatura. Entretanto, só a hesitação produz conflito. E só a curiosidade intrusiva é capaz de construir a densidade que estrutura os enredos ficcionais. Tudo depende dela, mas não só dela, para tornar o romance um símbolo das ações do homem. Um ofício que, nesta mais do que esgotada pós-modernidade, pede, implora, urge: o restabelecimento de sentidos, de preferência, novíssimos.

Três poemas de A pele que nos divide:

Talvez não fosse má ideia imaginar que nossos olhos se cruzassem dentro de um livro

Talvez não fosse má ideia imaginar que nossos olhos se cruzassem num livro

Talvez tudo não estivesse assim se tua sombra estivesse alerta ao zênite

Talvez nossos sonhos fossem suposições exatas sobre o que é mundo

Talvez         o         mundo           não     estivesse        crepuscular   se        nos incensássemos

Talvez nosso aturdimento fosse descartado se nossos olhos fossem letras

Talvez a leitura fosse automática se os poros fossem papéis

Talvez o império de convenções ruísse se falasses

Talvez fôssemos de outro mundo se a realidade jorrasse

Talvez nossa sede fosse genial se ocupássemos desertos

Talvez a Amazônia sobrevivesse se a floresta parasse

Talvez não pairássemos sobre outros se fôssemos íntimos

Talvez tua boca estivesse sobre mim se não fosses loquaz Talvez o esférico não te atordoasse se fosses pleno

Procura-se desejo de leitores

Para lentes atenciosas não bastam apreciadores nem rimas exatas

Progressão, ritmo álgebras para desfechos Aqui estamos, amarrados na fixação

Grafa-se, como alternativa

Grafa-se,

A esmo, na distância do não narrável

Grafa-se,

Na altitude profana da matéria

Grafa-se,

Como nascimento

Grafa-se,

No lento torneamento

Grafa-se,

Em mímicas abduzidas

Grafa-se,

Sobre tinteiros abandonados

Grafa-se,

No XIX como no XX

Grafa-se,

No tempo, ornamentos

Grafam-se,

Apocrifamente e sem dó Grafa-se, durante borrascas

E, no gráfico das composições desaparece o grafado: e fica o ponto como criação.

Montevidéu

Dentro dos olhos dos que leem

Dentro dos que leem, Percebe-se o reflexo do papel:

e não, (como se supõe) a imagem indeformável do escrito.

Toda leitura é involuntária traição,

tração temporária que apaga traços críticos para emular intérpretes

Saberíamos da casualidade  que reuniu civilizações em torno  d´uma mesma tocha.

só nestas bocas ocorrem gênios, parecidos com D-us.

E eis que estamos aqui, sós, nus, suspensos  aos pés da informação essencial.

Até que toda redução seja detalhe, e a vocação do livro Reapareça.

—–

Recebido em: 03/02/2020.

Aprovado em: 13/03/2020.

[1] ROSENBAUM, Paulo. Céu subterrâneo. São Paulo: Perspectiva, 2016.

[2] NASCIMENTO, Lyslei. Uma poética da arqueologia no romance Céu subterrâneo, de Paulo Rosenbaum. Romanistisches Jahrbuch, v. 68, Issue 1, p. 338-347, Berlim, 2017. (Edited by DUFTER, Andreas; GERNERT, Folke; JACOB, Daniel; NELTING, David; SCHMITT, Christian; SELIG, Maria; ZEPP, Susanne).

[3] ARISTOTLE. Historia animallium. Trad. D’arcy Wentworth Thompson. In: SMITH, J. A.; ROSS, W. D. (Ed.). The Works of Aristotle. Oxford: At the Claredon Press, 1910.

[4] PLATAO. Fedro (ou do Belo). Trad. Edson Bini. Cambuci: Edipro, 2017.

[5] ROSENBAUM, Paulo. A verdade lançada ao solo. Rio de Janeiro: Record, 2010.

[6] ROSENBAUM, Paulo. A pele que nos divide. Belo Horizonte: Quixote+Do, 2018.

[7] RICOUER, Paul. Hermenêutica e ideologias. Trad. Hilson Japiassu. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1990.

[8] SINGER, Isaac Bashevis. Amor e exílio: memórias. Trad. Lya Luft. Porto Alegre:

L&PM, 2005.

[9] ETYMOLOGICAL OXFORD DICTIONARY. Oxford: Oxford University Press, 1994.

[10] KUNDERA, Milan. A arte do romance. Trad. Teresa Bulhões da Fonseca e Vera Mourão. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1988. p. 15.

[11] LACAN, Jacques. O seminário. Livro 23. O sintoma. Trad. Sergio Laia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007. p. 75.

 

A música no arquivo da tradição judaica (Arquivo Maaravi: Revista Digital de Estudos Judaicos da UFMG)

A música no arquivo da tradição judaica

Apresentação

Lyslei Nascimento & Susanne Zepp

Neste número, a revista Arquivo Maaravi: Revista Digital de Estudos Judaicos da UFMG apresenta artigos que tratam da música na cultura e na tradição judaica desde os salmos até as canções que aparecem no Êxodo, como no artigo “Shemot: os cânticos do Êxodo”, de Nancy Rozenchan. Um estudo sobre o Hino de Israel, com um arranjo original para a composição, foi elaborado no artigo “Hatikvah: considerações sobre a esperança para a terra de Sion e Jerusalém”, por Mauro de Chantal Santos e Patrícia de Oliveira, e a presença de refranes e instrumentos musicais na literatura são analisados por Filipe Menezes em “Música e tradição cultural em Sobre os rios que vão, de Maria José de Queiroz. Kênia Pereira, em “O carnaval na ópera joco-séria de Antônio José da Silva, o Judeu: uma leitura de Guerras do Alecrim e Manjerona”, reflete sobre a música, o humor e o teatro; Saul Kirschbaum, no artigo “Os judeus e a música na Idade Média ibérica”, traça um vasto panorama sobre a produção judaica medieval, e Berta Waldman, por sua vez, analisa, na MPB e em marchinhas de carnaval, a referência da guerra e de seus personagens no artigo “A Segunda Guerra Mundial cantada: MPB e Carnaval”. Susana Skura e Luís Fizsman, no artigo “Juegos de lenguaje/juegos por dinero en tres canciones de Max Perlman”, contemplam a herança ídiche em músicas argentinas; já Aline Silveira e Sônia Kramer analisam, em “Infância, experiência e rememoração: encontros com a música Yiddish”, a memória e a infância. Vinícius Mariano de Carvalho, no artigo “Restaging Brundibár: an Exercise in Resistance and an Antidote to Intolerance”, relata sua experiência como regente no Projeto Brundibár, em Juiz de Fora, Minas Gerais. Além destes importantes textos, Abraham Shemesh, com “The Magic Tumbler for the Plague: Alicorn and its Medical-Occult Uses in 16th-17th Century Jewish Literature, Alessandra Conde com “Escritores sefarditas na Amazônia” e Filipe Silva Carmo com “Breves considerações sobre حِكمَة (ḥikma) para a leitura do gênero literário sapiencial na Bíblia Hebraica”, compõem os artigos desta edição. Publica-se, também: dois contos de I. L. Peretz; as crônicas de Ernest Ilisca, Marilia Levi Freidenson e Uri Lam; um precioso depoimento sobre o ofício do escritor por Paulo Rosembaum; poemas de Carlos Morales e de Raquel Yehezkel; resenhas de Heloísa Pait e de Lyslei Nascimento; bem como uma deliciosa peça literária do escritor israelense Etgar Kéret. Além da arte de Vlad Eugen Poenaru, este número traz, ainda, o humor refinado de Adam Grzybowski e Luis Goldman.

Sumário

Arte

Artigo-Dossiê

Conto

Depoimento

Estante Maaravi

Humor

Poema

Tradução