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A Inconcebível Jerusalém (Blog Estadão)

07 Dezembro 2017 | 09h52

(…)vi a circulação de meu escuro sangue, vi a engrenagem do amor e a modificação da morte, vi o Aleph, de todos os pontos, vi no Aleph a terra, e na terra outra vez o Aleph, e no Aleph a terra, vi meu rosto e minhas vísceras, vi teu rosto e senti vertigem e chorei, porque meus olhos haviam visto esse objeto secreto e conjetura) cujo nome usurpam os homens, mas que nenhum homem olhou: o inconcebível universo”

Jorge Luis Borges, O Aleph

Tradução Flávio José Cardozo

Não se trata de profecia, nem das miríades de referencias que citam a cidade. E não é só que ela não pode ser monopolizada, seria impossível faze-lo. Destarte é a capital, a Capital de Israel. Cidade Capital para a fronteira das culturas. Hoje um pertencimento foi reconhecido. Não se trata de fulanizar, tanto faz se foi esse Donald ou um outro. É o ato político que se revela interessante. Independentemente do estatuto político, Jerusalém, sempre foi um porto de significados. E para além dos simbolismos atribuídos, ela é, no imaginário dos povos, um dos centros do mundo. O que importa portanto não é a mudança de embaixada, não são as trincheiras, mas observar a convivência entre as tribos. Como morada de pontos múltiplos foi fundada sobre uma pedra. E se sua paz não é feita de pedaços, nem suas muralhas construídas por sedimentos, seu ponto sagrado não se reduz aos últimos vestígios do Templo, no Muro ou no Domo. Todo núcleo está em seus habitantes.

Jerusalém, o ponto mais conflagrado da história humana transcende seus traçados arqueológicos. Jerusalém urbe, contém a vitalidade de um ponto entre todos os pontos, e, como no Aleph de Borges acumula os mundos que ainda não estão descritos. É preciso ter a experiência, vivência e o tato empírico para poder opinar. Não é preciso acreditar, quem caminhar entre suas pedras constata. Suas inflexões são judaicas, mas também drusas, armênias, muçulmanas, cristãs, beduínas e etíopes. Difícil ver um espalhamento tão amplo, uma difusão tão díspar, uma incoerência tão organizada.  Jerusalém é um parque sem homogeneidades. Nunca a cidadania teve um viés tão naturalmente cosmopolita. Um retrato das subdivisões e das uniões instáveis. Um instantâneo eterno de guerra e paz, e principalmente, paradoxo a céu aberto.

E mesmo que não tivessem a amplitude que insistimos em atribuir a ela, sua autodeterminação como território antecede conflitos, colonizações e invasões. Jerusalém, a cidade mais destruída e reconstruída da cartografia, foi também a inspiração da poesia de Isaías e Ezequiel, Torquato Tasso e Willian Blake.

Ao contrário dos alardeamentos jornalísticos das agencias internacionais não será Jerusalém reconhecida como capital a barreira à paz. Ela a personifica. Modular o convívio e superar o vício da disputa é deixar-se levar, através das moradas e dos encontros. Seculares e religiosos, árabes ou judeus, cientistas e místicos, ímpios ou santos. A legislação é passageira, a vida que circula nas ruas, definitiva. Pois quem vive ali?

Não são os capacetes azuis da ONU, os diplomatas, ou os adidos militares. A literatura e a história ali concentrada transcende Washington e Moscou. E, infelizmente, compromissos, culpas e desafios pecuniários ainda não permitiram que se conceba os direitos de Israel a não ser com salvaguardas imorais.

Do ponto de vista estético, nada se compara em densidade e variedades cromáticas.

Quem frequentou seus mercados e testemunhou seu trafego caótico?

Em meio à omissão geral e o silêncio dos jornais a intolerância que cresce contra as minorias pode encontrar respostas mais criativas do que preservar um status quo que já se revelou moribundo. A mudança de uma embaixada tem valor para além do simbólico. Trata-se, antes, de uma exortação para vislumbrar a saída. Conteste-se, mas admita-se: é a renovação que saúda a novidade. Um lance que força a resolução do impasse. O estatuto final da cidade poderá ser sempre incerto, mas ela, a cidade, decerto, nos sobreviverá. A decisão autocrática não é mágica, apenas move uma peça do tabuleiro viciado, bem melhor do que esperar que os dados resolvam dar as caras.

O senso comum da envelhecida diplomacia ainda não percebeu. De todos ou de ninguém ela só deve ser cuidada por quem enaltece o acúmulo de culturas.  Quiçá os homens consigam sentir o Aleph e, para além das ruínas, enxergar o extraordinário universo da cidade fincada entre Ocidente e o Oriente, a inconcebível Jerusalém.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/a-inconcebivel-jerusalem/

A razão que nos destrói (blog Estadão)

Há um metabolismo que nos percorre as artérias por fora. Paralelo aos corpos. Há um modo de ver as coisas que não é discutível. Que nos impõe seu fluxo pelo ritmo aflitivo com que anda. Pela dor que vem em salvas. Pelo eclipse das passagens. E para que? O alcance da vida sem mundo interno vinga-se das certezas precárias. Por isso, e só por isso, o dia precisa de deslizes, de pequenas amnésias, de traumas curativos, de excentricidades regulares. E não, não são só as ofensas da irracionalidade que precisam de combate. Há uma razão que nos destrói. As avalanches psíquicas da Terra não justificam o encolhimento das impressões. Nem a hipertrofia do mundo objetivo contra a arte e os artistas. Ou a síntese da matéria contra o análise dos romances.   Seria isso se o senso comum não tivesse a priori definido o que devemos ou não sentir, se a ordenação prática não tivesse imposto limites à imaginação. Estamos sem  horizonte e não é só por falta de lideres. Nem porque esta safra de estadistas não nos diz mais nada. Ou porque os magistrados nos mostraram dosimetrias maniqueístas. Estamos sós, mas não é essa a dificuldade. O trágico é não conseguir assumir que nos isolamos das responsabilidades, pelos atalhos que nos enfiamos, pelos desvios que nunca enfrentamos. A culpa, não é da nossa civilização, nem da cultura que forjamos. Se há uma, culpa, deve ser exclusiva e intransigentemente individual. Mas sonhamos acordados com um principio do prazer assoprando: isso nunca acabará. É só ao outro que podemos contar nossas histórias.  Só um outro para poder ouvir que não temos direito à paralisia. Nem nos é dado ficar à mercê dos governos, dos tiranos ou das prisões de antanho. Exigiríamos mais de nós mesmos se soubéssemos que tudo termina, já, agora, neste instante? Se o varejo das relações sumir teremos só atestado mais um isolamento. Nossa vida impregnada com a obsessão terminal. Nosso impacto mínimo na galáxia. Nossa irrelevante missão no cosmos em qualquer coletivo que se imagine. Mas, e se antes soubermos que há uma fala, um argumento e uma mão que nos desfragmenta? Que nos segura e sustenta sobre o abismo e seus resumos? Que nos apoia quando nem sonhávamos com amparo. Seremos sempre atentos aquelas sombras que nos iludiram, mas não aprendemos a reconhecer a escuridão que as escondia. Por isso há um dedo que dirige – invisível que seja — os apontamentos dos destinos. As desatenções com que singramos os caminhos. O esquecimento do fim e da morte com vinho. Estamos a um só passo de saber que nosso lugar nunca foi este, e mesmo assim, contra tudo e contra todas as evidencias, persistimos na esperança.  Esperança de que tanto a salvação como o completo extravio não nos expulse da condição humana. E que, perder-se no afeto, não é muito distinto que encontrar-se com a redenção. Alguma delas.

Nação em transe e o risco de acertar (blog Estadão)

Nação em transe e o risco de acertar

Paulo Rosenbaum

06 Outubro 2017 | 10h11

 

Qual é o significado de estar à deriva? Quais as analogias possíveis entre um transatlântico e o Brasil? Um barco pode ir adiante, ceder ao extravio. Uma belonave, encontrar o Rochedo, o Farol ou encalhar numa praia deserta sem nunca aportar. O que faremos com um País que parece não se encontrar em lugar algum? De um Estado que age à revelia das pessoas? Que humilha a opinião publica. Será um problema de identidade ou de escrúpulos? De orfandade política ou submissão aos critérios malucos? Seremos uma sociedade inauditavel? Foi a economia que nos cegou para todo o resto? Que nau é essa, que ruma acéfala? Qual tipo de embarcação transita com passageiros apavorados e que sonham apenas com dias menos sobressaltados? E dai que a bolsa subiu se os dividendos morais desceram ao inconcebível? Não é que um País de mandatários inidôneos — ativos ou passivos — pode ser governado adequadamente. Acontece que agora a náusea fina e o enjoo permanente vem assolando incessantemente. Estamos à beira do brejo, com um Paranoá de vantagem, mas calma, ainda não transitou em julgado. Eis que vemos a justiça como uma miragem deformada, com cadeiras elétricas no pedestal.

A justiça que deveria coincidir conosco ainda não examinou as necessidades elementares da sociedade. A justiça prescinde do povo e ao que ele aspira. Compreende-se o desprezo, afinal qual Estado precisa de seu povo passado o período eleitoral? A justiça perdeu-se na forma da norma. E o sentido, mais uma vez, teve que ser sacrificado pelo juízo.
Recém descobrimos que foi lá, na fábrica de heróis, que os vilões foram faturados. Heróis especializados na reforma alheia. Olímpicos ou ordinários trata-se de política de terra espoliada. E, mais uma vez, e de novo, voltamos à lentidão seletiva da justiça. Por sua vez, é ela, a justiça, que guarda potencial para incendiar os cidadãos com a coragem. Daqueles que não temem se expor para sustar a sangria provocada pela facas da inércia. Da vida doada por outrem. Da honra que se esfacelou contra postes indicados. Que tomaram o poder com aval do capital. Dos litigantes mudos que desistiram dos ressarcimentos. Da cassação da voz dos assassinados a sangue frio. Ressentimentos incoesos vem e vão enquanto a sessão senado vai sendo reprisada à tortura. Jagunços veementes em suas retóricas dedicadas ao despiste. Está é uma Nação em transe?

Era.

O crime não compensa, só foi sendo assimilado como tradição. É natural que as organizações criminosas sejam autorreferentes. As regras valem pelo fio da navalha. Hoje vigente, amanha quem sabe, diferente? Duram um átimo, conforme a balança adulterada, o empréstimo estatal subsidiado, o imposto desviado. Não é consolo, mas eles ainda não acordaram para o pesadelo que os espera. Não há nenhuma chance de viver e ser agraciado enquanto teu irmão está cercado por fuzis ou milícias. Enquanto crianças habitam celas de perversos, e seguranças descontentes incineram creches. Se a missão das víboras tem sido produzir veneno, a única ação digna será buscar antídotos.

Eles trabalham com mandingas, nós exigimos ciência. E agora, o que me dizem? Que estamos todos cansados de tudo? De que estaríamos reduzidos a duas soluções: banho de ditadores ou juízes legisladores. Quem sabe um tirano avulso que saiba tratar as ratazanas? Que estamos no fim da estrada e o estado policial nos agraciará com suas mordaças e sombras? Essa é a pior hora para descansar. É o momento para escândalos públicos. De urrar forte contra a tentação da censura. É o timing para convocar ruas que esvaziem palácios. É verdade que, as vezes, temos que nos resignar com o maniqueísmo: a escolha simples entre o beneficio da duvida e os malefícios (reais) das certezas. Se há mesmo um lado bom da polarização, do entrechoque permanente, das colisões frequentes é que, sem alarde, nota-se que brota um subproduto inesperado: uma população de pragmáticos e não ideológicos independentes.

Um autor contemporâneo acaba de propor : basta de eleições – para ele estatisticamente a fonte de quase toda desgraça e corrupção – que tal escolher através de sorteio, as pessoas que nos governam? Para ele, teríamos mais chances. É claro que gera desconfiança mas há pelo menos uma vantagem: colocar toda culpa no lance dos dados. Imagino que, teimosos, insistiremos mais um tanto nesse empirismo eleitoral inventado pelos gregos — ir errando até correr o risco de, um dia, acertar.

Um aiatolá nuclear em SP (blog Estadão)

Eis que um evento patrocinado pelo Pt e associados na figura melancólica do vereador, o veterano Matarazo Suplicy, traz como estrela um aiatolá nuclear iraniano. Já soaria peculiar que um País que depara com uma crise político financeira monstruosa tenha tempo e recursos — públicos e privados — para subsidiar um membro da elite teocrática do Irã. As redes sociais — e os detratores profissionais — usaram a presença da guarda cerimonial paulista para insinuar que havia o apoio do governo paulista ao evento. Quem solicitou a guarda e tratamento de chefe de Estado ao aiatolá foi o vereador supra citado.

E como se não bastasse usando o know how da antiga URSS, instalaram uma foto de discurso de posse do governador com o mesmo guarda do cerimonial para emular sua participação no evento. O lulopetismo e radicais de porta de facebook, aproveitando a maquiagem de desavisados espalhou a notícia criando, como é rotina, um falso alarme de péssima qualidade jornalística.

Mas a suprema ironia foi ter por aqui um amigo da organização terrorista Hezbollah que veio supostamente falar — notem, falar, não debater — sobre “radicalismo e terrorismo”. Ora, seria compreensível se não desafiasse a lógica mais elementar. O senhor em questão concedeu uma entrevista a um jornalista do Estadão onde evoca com grande naturalidade que as profecias (sic) já anteciparam que o Estado de Israel deve desaparecer, não uma, mas duas vezes. Compreende-se até o wishful thinking de um regime proto -terrorista que não se preocupa mais em disfarçar que sua aspiração nuclear pacífica convive com o sonho de erradicar o Estado judaico da Terra. Tergiversando, e sem entrar no mérito de porque seu País tem instigado e financiado sistematicamente milícias e organizações do terror pelo mundo, o aitolá prudentemente também se calou sobre as perseguições políticas e religiosas que ocorrem como rotina na República Islâmica. Nem mencionou, tampouco, a violação sistemática dos direitos humanos contras as minorias e as mulheres em sua terra natal. Mas foi pródigo em fazer acusações vagas e pouco consistentes contra seus inimigos “satânicos”. Em franca beatitude, este santo homem mostrou em poucas palavras o significado profundo da tolerância.

O verdadeiramente incompreensível, neste caso, é a ausência absoluta de percepção de autoridades dos três níveis em aceitar um evento grotesco, onde um apoiador ideológico confesso da estratégia terrorista venha fazer — a titulo de colaborar com a promoção da paz e da tolerância entre os povos — uma palestra sobre o tema.

As disparidades não se restringem às incoerências auto-evidentes, mas à falta de autocrítica associada a uma passividade patológica, que parece estar caracterizando nossa opinião publica. O status quo desta alienação inconsequente tem permitido que cenas perturbadoras tenham lugar como se fossem eventos normais. A naturalização do esdrúxulo parece estar sendo a tônica deste nosso momento histórico. Se, de um lado, um ex presidente e sua parafernália assalariada com dinheiro publico desviado desafiam abertamente as instituições sem que as mesmas deem uma resposta adequada, de outro, reproduzimos os mais tristes estereótipos da República.

As instituições podem estar funcionando, mas muitos aquém da eficácia exigida num momento dramático como o que vivemos. Um núcleo suprapartidário e não ideológico precisa retomar com urgência as rédeas da política exterior brasileira que tem seguido — numa perigosa continuidade inercial — as diretrizes da desastrosa política externa preconizadas pelas últimas gestões. É preciso esclarecer quem participou do evento, quem o sustentou e qual o propósito de uma visita que ilustra mais um capítulo de nossa República anômica.

Infelizmente esta mentalidade deturpada já contaminou boa parte de nosso mundo acadêmico e de instituições culturais com uma percepção mais do que tendenciosa sobre um conflito do qual eles não têm a menor base para julgar.  Suas análises não consideram os motivos essenciais que definiram a situação vigente no Oriente Médio, notadamente em Israel e na Palestina.

Escrito em parceria com Floriano Pesaro, Deputado Federal (PSDB- SP) e Secretario do Desenvolvimento Social do Governo do Estado de São Paulo

Viver a Remo (blog Estadão)

Crédito foto – Sergio Prieto (que com sua equipe Samu – hexacampeã brasileira e vice campeã mundial categoria sprint RIO 2014)

Onze kilometros, remando. Remar é sobre-impulsionar, deslocar-se em ritmo, selecionar aguas e intuir a derrota final da inércia. Os remos transformam a percepção do tempo, revelam a variedade das pás instintivas, e, num momento, eles já se tornaram os únicos instrumentos disponíveis para alterar toda direção. Desviar a rota é mover-se em lemes improvisados. Em seis com ou doze sem, uma canoa é desafio para flutuadores. A embarcação que nos move numa adaptação vigorosa e imprecisa. O destino está bem ali para nos dissolver a resistência.  Cada margem é a ultrapassagem do que deixamos para trás. Quem rema sabe que o sinal da eficácia está no movimentos dos corpos, na equipe que vaga junta. Colaboração autonômica e instintiva. Um time vertebral que age como organismo. Sem o conjunto nada seria assim. A marcha, regida como orquestra cadencia a alternância das águas, mini marés, propulsões seguidas de relaxamento. A progressão deixa seu rastro fantasma na superfície. Um fio dissipável. Fibras exatas de carbono se alternam com remadas precisas com madeiras empunhadas. Se o pulso é individual, o pulsar, pertence ao grupo. O reino dos deslocamentos é um império de ondas passadas. De ultrapassagens simbólicas e emparelhamentos sem cronômetros. Quanto aos corações, é a união de bombas ativas que constroem fins comum. O treino sob o sol desrepresa a represa.  Torna-a uma só continuidade com a cidade ao fundo. A liberdade é um atributo indistinguível, só reconhecida sob o peso dos céus abertos e dos espaços sem fronteiras e delimitações. A canoa, uma arca de sobreviventes, deslizou sobre o terreno e a instabilidade fez seu serviço. Contra o estado estável, o universo poderia ser dividido entre as atividades que rivalizam com o mundo e aquelas que o complementam sem grandes pretensões.

Se houvesse uma síntese, a experiência com a canoa viria, unida a todas as embarcações — aquáticas terrestres e áreas — seria nos devolver à esperança de viver sob a natureza em espaços abertos. Remando.

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