Diário do apartamento 6 – O risco da esperança (Blog Estadão)

Destacado

Ilustração – Nilda Raw – O.s.t 2018 “Tree of life”

O asteroide de 15 kilometros de diâmetro que há 66 milhões de anos atingiu a península de Yucatan no México extinguiu os dinossauros e quase toda a vida na superfície do Planeta. Segundo muitos, estamos aos 0,6 do início da segunda maior ameaça a vida, desta vez é a humanidade que será apagada. Até os não negacionistas sabem, que voltar ao trabalho não é uma escolha. É pedir muito voltar a aceitar uma condição que se remonta ao Gênesis e nos impôs que o sustento deveria ser obtido através do esforço? Ontem foi inevitável voltar a ter uma rotina fora de casa. Busquei disfarçar e tive que conter a satisfação enquanto caminhava até o escritório. Estava chegando no prédio quando fui interpelado por uma moça toda encapotada: — E essa cara feliz? Pego de surpresa, teria uma estranha capturado alguma euforia ignorada? –Pois é, estou retomando a rotina, primeiro dia. E até consegui esboçar um sorriso amistoso. –Ah, voltando a trabalhar? Ela aplicou um leve tom de censura à pergunta. — Uma hora teria que acontecer, minimizei. — Olha. Não sei não! E ela franziu as sobrancelhas. — O que é que você não sabe? E depois de ter me ensopado de álcool gelatinoso, já com o antebraço enfiado na porta de entrada, reflui dando um passo atrás. — Sei lá, o Sr. não é mais nenhum jovem, é grupo de risco, não acha que é muita ousadia? — Amiga, é aceitar o jogo e ir em frente, nos proteger, e, como dizem os ingleses, “espere pelo melhor”. E virei para seguir minha jornada. Ela não desistiu. — Está brincando? Neste caos no qual estamos metidos? É sério que você acha que vale a pena se arriscar? Eu se fosse você… Pois é. Ela não era eu, portanto não respondi e determinado, entrei no prédio para subir e começar a atender as pessoas que já estavam a minha espera. Pensei na facilidade com que a interpeladora me abordou para fazer observações não solicitadas. E cheguei a conclusão de que faz parte de uma mentalidade que tem virado epidêmica, todos devem estar disponíveis todo o tempo, todos são devassáveis, todos podem ser julgados e interpretados. Sabe-se que a palavra otimismo vem assumindo uma conotação pejorativa. O termo tem variado muito de significado, entre “ingênuo” e “cândido” e evoluiu rapidamente à “trouxa” e “imbecil”, podendo sempre descer mais, quando palavras menos nobres serão utilizadas. Chegamos a pensar seriamente que compreendíamos para onde caminhávamos. Mas, por pura incompetência, cessaram as fantasias de que seríamos reféns da tecnologia. E olhem que não esbarramos nos limites das órbitas distantes, na temível singularidade dos buracos negros, nem nas dimensões de estrelas que pelo tamanho escapam de toda estimativa matemática: a história registrará que entramos num estado de animação suspensa diante de um animalículo. O vírus (do latim,veneno) não se contentou em ser só mais um fenômeno da natureza. Transformou-se numa escatologia programada. Mas, antes, deu descomunal poder a quem nunca soube usa-lo da única forma que tornaria uma democracia realmente sustentável: benevolência e genuíno interesse pelos governados. Como disse em março o ex-juiz da Suprema Corte do Reino Unido, Sir Lord Jonathan Sumption, referindo-se a um evento que reprimiu pessoas que desafiaram o lockdown: “Eis a aparência de um Estado Policial”. No mundo todo o fato é que para mostrar serviço quando os governos não sabiam qual serviço mostrar, o poder e seus agentes impuseram, tergiversaram, emitiram versões paradoxais, criaram regras marciais, prenderam críticos e soltaram criminosos, aturdiram, espalharam desconhecimento, desorganizaram os incautos, mudaram leis, transformaram a medicina em armamento ideológico, e, finalmente, respaldados por extrapolações epidemiológicas a toque de caixa estão na iminência de prescrever soluções mágicas, apelidadas de experimentais. E o principal: deixaram quem mais precisava relegados a um lockdown espiritual intermitente. Aqueles que vem acusando o poder de promover bullyings de Estado contra os cidadãos podem ser etiquecados como desejarem , mas, sem dúvida é deles a coragem que falta às instituições. Acham exagero denunciar o drama? Tanto quanto transformar uma moléstia em mito e espalhar o pavor. No lugar da mínima responsabilidade testemunhamos o autoritarismo sendo aperfeiçoado usando o slogan do risco. Isto tudo sob a licenciosidade das mídias que, se livres, escolheram ser sócias voluntárias dos governantes contra os governados e a opinião pública. Ouviu-se mais de um ancora de TV cochichar nos bastidores a mesmíssima frase “tem mais é que apavorar mesmo”. Sob a indecência das mordaças psicológicas, com a previsível corrosão da linguagem, não foi difícil imaginar por que é que todos fomos calados, sem que nenhuma boca se insurgisse. De fato, insurreições foram registradas, sempre por causas parasitas, periféricas, sublevações secundárias, motins autoritários, fúteis e até engraçados diante da superficialidade das reivindicações. Então surgiram os “anti”, aqueles que só se importam com a vida de alguns — e ocasionalmente defendem suprimir as demais se for para melhor testar suas teses. E, finalmente, emergiram aqueles que usaram as múltiplas fantasias conspiratórias para desconstruir as verdadeiras ameaças. Não sou otimista nem pessimista. É que as vezes sou tomado por uma estranha credulidade: cultuo a alegria imotivada. Soa imperdoável? Para desespero de muitos hoje a pandemia — assim como seus instrumentadores — está saindo de foco. A pressão evolutiva sobre o vírus está resultando em menos mortes, ele ainda se espalha, mas a gravidade da doença se arrefece e não só porque hoje já há alguns tratamentos eficientes. Recorro ao sempre presente Professor Titular de Patologia Walter E. Maffei: “o vírus não quer matar o paciente”, precisa se propagar. Mas há uma analogia pedagógica merece ser mencionada: o veneno, assim como parte significativa dos políticos, também aprendeu a fórmula para permanecer entre nós: vão continuar nos dando dor de cabeça sem nos aniquilar completamente. E como num zoom out, as piores cenas, ainda bem, vão ficando cada vez mais distantes. Sob as usinas de lives, as telas com poluição visual de rostos justapostos vinham criando uma estética mortificadora. O único sinal externo de que a anormalidade insiste em tornar-se normativa são as máscaras e as fantasias por trás de cada uma delas. Afinal, quem ordenou tudo isso? E quem foi que nos acusou de não estamos gratos por continuar vivos? Podemos estar solidários com quem sofreu e ao mesmo tempo declarar emancipação das políticas governamentais. Nossa sobrevivência não pode ser mais creditada ao Estado provedor, aos populistas confessos ou aos saqueadores da subjetividade à espreita da próxima crise. A desumanização começa com a uniformização e termina com a arte e cultura reféns da ideologia. Quando superarmos esta fase será graças aos esforços individuais, ao sacrifício silencioso das maiorias torturadas pela tirania de ofício. Infelizmente nem mesmo o rodízio no poder, a última salvaguarda para a democracia, parece ter deixado claro o que precisamos. O que os bem pensantes nunca imaginariam — e detestam a sensação, pois é um território que não conseguem entender — é que eles perderam a hegemonia. Se há um risco que vale a pena correr — em oposição ao determinismo dos cultores do apocalipse — é precisamente o risco da esperança. — É que na tradição judaica — eu deveria ter tentado explicar à moça encapotada — a árvore que nos habita abriga mais de um tipo de papiro, com fibras que misturam prudência com ousadia. Propositalmente artesanal, o papel é temperado para que a tinta do Único sele, carimbe e nos inscreva no livro da vida.  

https://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/diario-do-apartamento-6-o-risco-da-esperanca/

Por uma Medicina Antropológica (Blog Estadão)

Paulo Rosenbaum

“É previamente necessário tentar uma gradação quando se trata de determinar a essência da medicina antropológica. O primeiro grau seria a psicanálise; o segundo a medicina psicossomática; e o terceiro seria a medicina antropológica”

Viktor von Weizsäcker (1886–1957)

Em meio a polêmica da ideologização das condutas terapêuticas e da perplexidade da opinião pública com a confusão gerada por orientações contraditórias apresentadas durante a pandemia, pode-se afirmar que há, no mínimo, um problema sério de comunicação entre a ciência e a sociedade. Ela é consequência das dificuldades que os divulgadores da ciência e as autoridades sanitárias tem tido para dar respostas satisfatórias à SarsCov2?

A tentação seria responder que sim, mas é evidente que o problema não está limitado ao momento atual. Ele se apresenta ciclicamente, mostrando que a complexidade é mais ampla e longeva. De qualquer modo a polêmica veio para ficar. Palavras e termos como “RT-PCR”, “imunidade de rebanho”…

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Por uma Medicina Antropológica (Blog Estadão)

“É previamente necessário tentar uma gradação quando se trata de determinar a essência da medicina antropológica. O primeiro grau seria a psicanálise; o segundo a  medicina psicossomática; e o terceiro seria a medicina antropológica”

Viktor von Weizsäcker (1886–1957)

Em meio a polêmica da ideologização das condutas terapêuticas e da perplexidade da opinião pública com a confusão gerada por orientações contraditórias apresentadas durante a pandemia, pode-se afirmar que há, no mínimo, um problema sério de comunicação entre a ciência e a sociedade. Ela é consequência das dificuldades que os divulgadores da ciência e as autoridades sanitárias tem tido para dar respostas satisfatórias à SarsCov2?

A tentação seria responder que sim, mas é evidente que o problema não está limitado ao momento atual. Ele se apresenta ciclicamente, mostrando que a complexidade é mais ampla e longeva. De qualquer modo a polêmica veio para ficar. Palavras e termos como “RT-PCR”, “imunidade de rebanho”, “testes sorológicos IgG e IgM”, “quarentena” “lockdowns” e até “reação vacinal” ficaram, subitamente, populares e hoje são debatidos nas redes sociais, dos laboratórios aos cafés.

Recentemente, sob o manto da acusação de que são todas práticas “pseudocientíficas” ou “não testadas”, que organizações midiáticas e pessoas por elas contratadas tem articulado ataques  irresponsáveis contra outras formas de atuação em medicina prejudicando diretamente aqueles que se encontram em tratamento.

E é sob o mesmo disfarce que os ataques também passaram a abranger as psicoterapias, yoga, práticas de relaxamento, meditação, hidroterapia e uma infinidade de outras formas de tratar e cuidar das pessoas. No Brasil, este recente incomodo parece ter sua origem comum em  lobbies de Brasília, profundamente incomodados com a introdução das medicina integrativas no SUS, através da PNPICS (política nacional de práticas integrativas e complementares no Sistema único de saúde, um plano suprapartidário e transgovernamental). É evidente que é preciso um discernimento do que são as práticas que tem um suporte racional, com embasamento teórico-prático e programa de pesquisas, distinguindo-as das demais.

No entanto, a atitude, de inspiração neo-inquisitorial, parte, ironicamente, de uma mui devota “associação de céticos profissionais” que agora hostilizam — com táticas de ética duvidosa  — aqueles que acreditam e vivenciaram eficácia em outras formas de conceber e praticar a arte de cuidar. Agressões que incluem os pacientes que fizeram escolhas por estas áreas.

Uma das questões centrais da medicina tem sido subestimada e parece propositalmente ausente de boa parte das discussões epistemológicas contemporâneas. O avanço da tecno-ciência na produção de insumos farmacêuticos associada à crescente — e bem-vinda — sofisticação dos diagnósticos, produziu um efeito colateral danoso: deslocou da medicina quase todas as questões ligadas ao sofrimento mental e à individualização dos sintomas. Isto colocado perguntamos, como as práticas médicas podem incorporar e lidar com a subjetividade de cada pessoa doente?

Via de regra, a saída tem sido remeter estes pacientes ao uso sistemático de drogas psiquiátricas. Mas a solução pode não estar em treinar clínicos gerais para administrar psicofármacos. O encaminhamento para o eufemismo chamado de “re-humanização da medicina” pode estar em dar um outro enfoque como resgatar uma perspectiva antropológica para a medicina.

Faço então algumas perguntas: no que a medicina é, por exemplo, distinta da ciência veterinária? Quais as distinções nas pesquisas clínicas realizadas em homens e nos animais? Quais as diferenças metodológicas de apreensão dos sintomas nas duas especialidades? E quanto à terapêutica? De que forma se investigam novas formas de drogas? Qual é a metodologia científica aplicada para investigar o efeito das substâncias medicinais?

Recorre-se a um velho argumento de que a diferença entre humanos e animais está na irracionalidade dos últimos porém há um erro quando se investiga a origem dessa informação. Por um lapso de tradução de copistas da Idade Média, a hipótese do filósofo Aristóteles de que o homem é um animal racional em contraposição aos “animais irracionais” foi mantida por mais de dois milênios. Na verdade, Aristóteles, em seu Historia Animalum escreveu que os animais usam apenas uma outra forma de lógica.

Outra distinção pode ser encontrada em uma das primeiros registros da civilização. Na axiologia judaica a primeira referencia ao ser humano na Torá, a “Bíblia hebraica”, é a palavra hebraica “medaber”, cujo significado é “falante”. O correto seria dizer que o realmente distintivo entre homens e animais seria a capacidade de verbalizar, a faculdade da fala.

Esta peculiaridade, única nos seres humanos, é que nos transforma em  seres singulares, que conseguem produzir narrativas. Voltando ao filósofo grego, segundo ele o que também nos diferencia dos animais além da linguagem falada é a capacidade de evocar espontaneamente a memória. Assim, como seres que se expressam pela fala e que conseguem evocar a memória de acordo com a vontade é que podemos nos considerar sujeitos.

Que tal examinar onde estes conceitos impactam a medicina?

Foi o fundador da medicina técnica, o médico grego da ilha de Cós, Hipócrates, quem inventou a história clinica e foram médicos que seguiram essa tradição vitalista que defendiam que a medicina deve se ocupar da totalidade dos sujeitos, e não apenas limitar-se a abordar suas mazelas físicas já que elas invariavelmente vem junto com alterações do humor e da disposição mental.  Segundo Charles Lichtenthaeler[1], “a história da medicina poderia ser resumida como retornos sucessivos a Hipócrates”. Essa inquietante síntese já é em si um importante aforismo, que merece reflexão especialmente por ter um componente verdadeiro.

De fato, se pensarmos na revalorização do saber empírico, na capacidade observacional e na sistematização adquirida para narrar o que pode ser constatado a partir das evidências clínicas produzidas ou testemunhadas, tudo isso amplia sua consistência. O “retorno sucessivo a Hipócrates” se dá não porque há um desejo nostálgico de reviver suas obras, mas porque ele parece resumir, notavelmente, o “fazer” da arte médica. Como afirmou Galeno “Não acredito, como habitualmente, nos testemunhos de Hipócrates,  acredito porque vejo que suas demonstrações são consistentes; é esta a minha razão para louvá-lo.”

A história da medicina também nos ajuda a lembrar que médicos como Xavier Bichat, Van Helmont, Thomas Sydenham, e o alemão Samuel Hahnemann (1755-1843) já haviam sugerido uma forma de capturar nos estudos experimentais o resultado da ação dos medicamentos quando as pessoas são a eles expostos: frisando exatamente o aspecto da narrativa como uma das metodologias possíveis para compreender o sofrimento e a patologia dos sujeitos enfermos, e,  portanto decidir quais eram as melhores alternativas terapêuticas.

É portanto ainda o espaço generoso da anamnese (cuja etimologia significa “recordar de novo”) um instrumento maravilhoso, que pode nos trazer os sintomas (cuja etimologia significa “algo a mais”) que junto com os sinais obtidos através do exame físico e a análise dos exames subsidiários, guiam o médico naquilo que é o aspecto mais importante para fundamentar sua atuação e posterior avaliação dos resultados.

Mas quais resultados?

Muitas funções, catárticas e não catárticas entram em operação quando alguém chega para durante uma consulta relatar o que sente e como sofre. A função sossegadora ou catártica é uma função da fala descrita por Muller-Freienfels (Entralgo, 1950). Trata-se de um tipo de função notificadora, pois na intimidade daquele que notifica há nivelação afetiva e, quiçá, sossego. Conforme o historiador da medicina Pedro Lain Entralgo apontou, “a elocução adequada tem, sempre, ainda que em quantidades muito variáveis, um efeito catártico.”

Trata-se de aspecto tão importante para o constructo relacional entre paciente e médico, que Entralgo ainda divide catarsis ex ore (produzida pela elocução ativa) e catarsis ex auditu determinada pelo fato de se ouvir adequadamente e conclui, afirmando: “Não é possível construir uma doutrina psicoterápica sem discutir a fundo estas duas formas da catarse verbal.”.

Esta capacidade de extrair uma história clínica capturando não só todos os sintomas, mas também extrair os aspectos biopatográficos requer uma reformulação da educação nas ciências da saúde.  E vai contra o modo como habitualmente os profissionais são ensinados na maioria das escolas médicas. E portanto, deve decorrer de um treino permanente. Às vezes, vale dizer, exige um destreino.

Por que?

O neurologista espanhol Ramón Sarró em sua introdução do livro de antropologia médica de Viktor von Weizsäecker fez uma interessante comparação na perspectiva da Medicina Antropológica: “Cada caso é respeitado em sua individualidade e sempre fica uma margem de indeterminação e até de mistério. Em Weizsäcker, diferentemente de Freud, respeita-se o mistério no homem e o divino no homem, e em nenhum momento se considera que ele é um ser inteiramente elucidado, nem sequer elucidável em sua integridade.”*

Weizsäcker reitera que “todas as células do organismo são susceptíveis de adquirir uma função expressiva”. Mas apesar desta função simbólica e expressiva dos sintomas ser uma realidade clínica, segundo ele, não devemos confundir expressividade de uma função com sua tradução em termos semiológicos”.

E reitera:

“Não se vence o pretenso materialismo complementando simplesmente a ciência do corpo com o estudo da alma. Só mediante a introdução do sujeito no objeto daremos um passo com o qual conseguiremos afastar o perigo da mera objetividade. A partir deste ponto começa a antropologia médica.” **

As escolas de Medicina, mesmo as melhores, geralmente concentram-se  a ensinar os médicos na disciplina de Propedêutica e Semiologia, em como fazer uma anamnese, buscar os sintomas objetivos, cataloga-los,  tudo para que se possa ser capaz de formar um quadro diagnóstico plausível da patologia a ser tratada, e estabelecer a terapêutica e um prognóstico mais adequado e eficaz.

O objetivo deste direcionamento é compreensível. Precisamos achar os sintomas, identifica-los e encaixa-los em árvores nosológicas cada vez mais complexas, e assim estabelecer um nome correto para a moléstia. No entanto, estabelecer o diagnóstico nosológico e dispensar os medicamentos e condutas corretas será suficiente para determinar qual a melhor terapêutica e encaminhamento quando se trata de uma medicina que está baseada em sujeitos? Charles Richet, o médico-pesquisador que descreveu o fenômeno da anafilaxia, escreveu “Quando aprofundarmos a fisiologia geral e a fisiologia das espécies, poderemos abordar a fisiologia dos indivíduos, aquela que todavia ainda não foi esboçada”.

Como se vê não nos referimos  exclusivamente às chamadas medicinas integrativas. Falamos sim da medicina lato sensu. Se a medicina deseja recuperar para si a tradição humanista que foi cedendo lugar à hipertrofia da biotecnologia aplicada às ciências da saúde, o resgate começa com a recuperação da linguagem e o significado do sofrimento para cada um. Uma vez que cada pessoa tem uma modo muito particular de adoecer e também uma forma muito particular de estar sã.

E como explicou a psicanalista francesa Elizabeth Roudinesco, sempre que surgem novas doenças a medicina também sempre encontra novos tratamentos. Mas, ao mesmo tempo, quando some uma patologia ela cede lugar a outra “quando a sífilis foi controlada apareceu a AIDS, quando a psicoterapia encontrou uma forma de tratar a histeria, testemunhamos uma epidemia de depressão”.

Há aqueles que argumentam que uma divisão de trabalho foi estabelecida entre médicos e profissionais da área psi e a expertise deve ser respeitada. Ou seja, experts devem resolver isoladamente os problemas: a mente e o corpo, devem estar, mais uma vez, didaticamente separados.

Isso também significa que um médico deve se ocupar do tratamento tendo em vista a especificidade da queixa clínica e da moléstia diagnosticada. Ora, essa observação poderia ser uma saída, se, e somente se não houvesse uma crise batendo na porta dos sistemas de saúde. Se a OMS estiver certa naquilo que previu o relatório de uma reunião feita em Geneva, no ano de 1988, de que neste nosso século XXI teremos prevalência dos distúrbios psíquicos. Afinal estaríamos entrando naquilo que o texto nomeou como o “século da depressão”.

Há, portanto, um dilema na medicina preventiva que alerta, por um lado para o custo excessivo para manter os recursos médico-hospitalares direcionados para doenças já estabelecidas, e, de outro, a extrema insatisfação (estudos multicêntricos indicam que ela é mundial) com os serviços de saúde mundo afora. Este aspecto piorou muito durante a recente pandemia em função de múltiplos fatores: isolamento social, crise socioeconômica sem precedentes, aumento da vulnerabilidade dos assim chamados grupos de risco e a enorme pressão exercida sobre crianças e adolescentes durante as medidas de isolamento social, afinal elas foram amplamente nomeadas como “as principais transmissoras assintomáticas do vírus” .

Já em 2018 a então primeira ministra do Reino Unido apontou uma Ministra de Saúde extra só para estudar e encaminhar ações para a prevenção do suicídio, pois só no ano de 2017 houve um alerta dada uma epidemia de suicídios onde 4.500 pessoas tiraram a própria vida. não sabemos ainda a extensão dos dano psíquicos que a política de saúde de isolamento social sistemático — a a fobia induzida — causará na população, todavia estudos preliminares já indicam que os índices de depressão e perturbações mentais de toda ordem cresceram de forma assustadora.

Outro aspecto que merece atenção é investigar melhor como ocorrem as curas. Pesquisadores notaram que a maior parte dos estudos epidemiológicos são destinados a compreender como as doenças surgem e evoluem, mas são bem mais raros aqueles que tentam apreender como elas são curadas.

Muito recentemente, pesquisadores israelenses estão tentando — enquanto pesquisas mundiais de três décadas pesquisam uma vacina eficaz — estudar como acontecem curas espontâneas por exemplo, de AIDS, em países africanos. Pois eles acabaram descobrindo aspectos muito peculiares sobre o auto reciclagem do sistema imune frente às informações recebidas pela agressão viral.

Voltando ao nosso tema central, por que então a insistência em retomar uma medicina do falante, onde a tecnologia jamais será excluída, mas entra apenas como subsidiária e acessória que é o lugar ao qual sempre deveria ter pertencido? Anacronismo? Nostalgia? Recusa em aceitar a certificação conferida pelos ensaios clínicos controlados? Que tal apostar que é porque existe uma demanda por um outro tipo de cuidado e escuta?  Que é porque assim a sociedade exige? Porque as pessoas precisam se expressar como se sentem e não acham suficiente apenas ser fonte de pesquisa de sintomas para formulação de um diagnóstico e respectivo tratamento.

Portanto, ao chegar neste ponto precisamos aceitar que a medicina especificamente humana é de fato, uma medicina do falante. De um precioso espaço onde o enfermo pode expressar a modalidade das suas queixas e sofrimentos, com contexto e características individuais sem que isso seja excludente da linha de medicina adotada.

A medicina antropológica está portanto acima da curiosa divisão ideológica contemporânea entre céticos e crentes, entre progressistas e conservadores, medicina pública e privada,  e especialmente entre medicina standard e integrativa. A medicina antropológica é a medicina do especificamente humano e segue a diretriz da recomendação contida no aforismo do poeta Alexander Pope, “o estudo apropriado para a humanidade é o homem”.

[1].      Charles Lichtenthaeler, La médecine hippocratique: méthode expérimentale et méthode hippocratique – étude comparée préliminaire, Lausanne, Lês Frères Gonin, 1948.

* Cf.  Weizsäcker, “El Hombre Enfermo, uma Introdução a Antropologia Médica” op.  cit. pág. XX.

** Id. ibidem, pág. 183

Seminário Internacional de Literatura Judaica Brasileira (Blog Estadão)

Em mais uma notável iniciativa, e rompendo as amarras do vício de cancelar, o Centro Cultural Brasileiro-Tel Aviv, órgão ligado à Embaixada do Brasil em Israel com o Núcleo de Estudos Judaicos da UFMG (Brasil) e apoio do Programa de Pós-Graduação em Letras da UFMG & do Department of Spanish and Latin American Studies at the Hebrew University – Jerusalém, criaram o “Seminário Internacional de Literatura Judaica Brasileira”.
O evento contou com a organização da Profa. Lyslei Nascimento (Pós-Lit/UFMG) & da Profa. Raquel Yehezkel (CCB-Tel Aviv), que juntas pensaram e cuidaram com carinho desta reunião, que tem por objetivo principal a divulgação de escritores judeus brasileiros e de suas obras em Israel.
Tanto o NEJ/UFMG (http://www.letras.ufmg.br/nucleos/nej/) quanto o CCB-Tel Aviv (https://centro-cultural-brasileiro-brazilian-cultural.business.site/) possuem programações e projetos voltados ao levantamento, ao estudo e à divulgação da excepcional — e paradoxalmente pouco divulgada — produção dos escritores judeus brasileiros. Para isso, no NEJ, além de seminários, palestras e cursos locais, criou-se um banco de dados disponível em seu site para consulta. No CCB-Tel Aviv, a série de eventos põe em relevo o variado e rico painel da cena cultural e artística brasileira para o público israelense, agora abrindo perspectivas para promover a internacionalização da literatura.
Este seminário, composto por uma conferência de abertura e outra de encerramento, vídeos com escritores lendo trechos de suas obras, pesquisadores analisando temas e obras, bem como uma oportunidade de interação com os participantes respondendo, a posteriori, a perguntas ou a comentários do público, pretende consolidar o esforço das duas entidades na promoção cultural a que se destinam.
Haverá uma “mesa redonda” formada pela professora de literatura Sandra Almada, a socióloga Lucia Barnea, a historiadora Debi Chaimovich, a professora Norma Rosenberg Cohen, com a mediação da diretora do CCB, Raquel Yehezkel, conduzindo um bate-papo sobre “Os Escritores” convidados para este Seminário.
Modalidade: programação on-line (com links para os vídeos a partir de 27 de agosto de 2020) e exibição presencial para convidados no CCB-Tel Aviv, observando-se as normas da quarentena. O Centro é parte integrante da Diplomacia do Itamarati e está ligado à Embaixada do Brasil em Israel.
Pode-se argumentar, com razão, que o modelo andava desgastado, mas nada deverá substituir uma feira literária com seus encontros — e desencontros — ao vivo. Porém, não deixa de ser interessante a proeza desta iniciativa de encontro virtual que conseguiu colher e reunir depoimentos de várias tendências da literatura judaica brasileira. Tendências, pois a diversidade que as organizadoras lograram conseguir não é somente de múltiplas filiações de estilos e gêneros literários, mas, também, a apresentação das heterogeneidades regionais com seus dialetos e particularidades linguísticas. Isso sem contar com o rigor e vigor dos pesquisadores que tem se dedicado a esmiuçar, bisbilhotar e jogar luz sobre o trabalho destes autores.
Esta feliz escolha de um duplo caminho hermenêutico — do autor ao pesquisador e vice-versa — só poderá ser interpretada como mais uma prova de que — apesar das barreiras da linguagem — a aproximação de povos sempre foi factível, assim como a urgência dos esforços para conquistar a interlocução.
Afinal, este seminário será também um teste de hipótese: mostrar que o Oriente Médio pode sediar uma ponte distinta, na qual os trópicos já soam menos exóticos. É que perderam um pouco do terreno melancólico para uma prosa cada vez mais universal, sem prejuízo das idiossincrasias de cada texto.
O evento é gratuito e para quem desejar fazer a inscrição eis os links de acesso:
CCB Tel Aviv: Centro Cultural da Embaixada do Brasil em Israel
Segue a programação completa do evento com os devidos créditos:
Modalidade: programação on-line (com links para os vídeos a partir de 27/08/2020) e exibição presencial para convidados no CCB-Tel Aviv, observando-se as normas da quarentena.
Inscrição (ouvinte):
Programação: os links estarão disponíveis a partir do dia 27/08/2020:
Abertura: Raquel Yehezkel (CCB-Tel Aviv) e Lyslei Nascimento (NEJ/UFMG)
Conferência de abertura: “Leila Danziger ou a tarefa de ‘anarquivar’ os escombros da judeidade na diáspora”, com o Prof. Dr. Márcio Seligmann-Silva (UNICAMP)
Escritores convidados
• Ana Cecília Carvalho (Belo Horizonte/MG)
• Cíntia Moscovich (Porto Alegre/RS)
• Fábio Weintraub (São Paulo/SP)
• Leila Danziger (Rio de Janeiro/RJ)
• Halina Grynberg (Rio de Janeiro/RJ)
• Leonor Scliar-Cabral (Porto Alegre/RS)
• Luana Chnaiderman (São Paulo/SP)
• Noemi Jaffe (São Paulo/SP)
• Paulo Rosenbaum (São Paulo/SP)
• Ronaldo Wrobel (Rio de Janeiro/RJ)
• Juliano Klevanskis (Belo Horizonte/MG)
• Luís Sérgio Krausz (São Paulo/SP)
Palestras e palestrantes convidados
1. Escritores sefarditas na Amazônia – Profa. Dra. Alessandra Conde da Silva (UFPA) – Resumo: Os escritores Sultana Levy Rosenblatt, Marcos Serruya, Leão Pacífico Esaguy e Paulo Jacob nasceram na Amazônia e, em suas obras, entretecem a tradição judaica com a rica cultura amazônica. Busco, nesta palestra, analisar em que consiste a inscrição judaica, tomando como análise: Uma grande mancha de sol, 1951, e Barracão, 1963, de Rosenblatt; Chuva branca, 1967, e Um pedaço de lua caía na mata, 1990, de Jacob; Contos amazonenses, 1981, e Enxuga as lágrimas e segue caminho que te determinaste, 1999, de Esaguy; e O cabalista, 2010, e Cabelos de fogo, 2010, de Serruya.
2. O Tribunal do Santo Ofício nas óperas de Antônio José da Silva, O Judeu – Kenia Maria de Almeida Pereira (UFU) – Resumo: O dramaturgo luso-brasileiro Antônio José da Silva, mais conhecido pelo apelido, o Judeu, levou aos palcos de Lisboa oito peças cômicas, classificadas como óperas joco-sérias. Nelas, ele dialoga de forma paródica, ora com a mitologia grega, como, por exemplo, em Anfitrião ou Júpiter e Alcmena, Os Encantos de Medeia e Labirinto de Creta; ora com narrativas canônicas da Literatura Ocidental, como se lê em A vida do Grande Dom Quixote de La Mancha e do Gordo Sancho Pança. Vítima da Inquisição portuguesa do século 18, o Judeu, por meio de simbologias e metáforas, registrou em seus textos, os excessos do poder monárquico e eclesiástico, durante o reinado do Tribunal do Santo Ofício.
3. Lições práticas do Manual de Judaísmo Carioca segundo Paulo Blank – Profa. Dra. Nancy Rozenchan (USP) – Resumo: O romance Mentch, a arte de criar um homem, 2016, de Paulo Blank, propõe-se a dar conta da formação do pequeno carioca Paulo em todas as virtudes e vicissitudes de ser judeu no Rio de Janeiro nos anos 1950, assim como as vivências típicas da cidade de então. Passível de ser abordado sob outras categorias, como romance da maturidade travestido de roupagem de Bildungroman ou como obra típica da cultura judaica, a apreciação do romance se presta a desentranhar aspectos do instigante universo judaico do Rio de Janeiro daquela época.
4. Identidade e testemunho em – Relato de uma busca, de Bernardo Kucinski – Ricardo Augusto Garro (UFMG) – Resumo: O romance K. – Relato de uma busca, de Bernardo Kucinski, publicado em 2014, inicia-se com cartas recebidas pelo narrador direcionadas à sua irmã desaparecida durante a ditadura que governou o Brasil entre 1964 e 1985. Esse episódio resgata e põe em relevo uma memória dolorosa de perdas e irreparáveis danos. O desaparecimento, debitado pelo narrador à ação de agentes policiais ligados ao Estado, assume, desde o início, o tom trágico de um crime não redimido pela ação da Justiça, ao mesmo tempo em que articula o presente da narrativa à história recente do Brasil. Esta comunicação analisa a capacidade da ficção de reescrever, em alguma medida, a história, além disso, espero avaliar a conexão da biografia do escritor com narrador do romance.
5. A comida e as dores da memória na obra de Halina Grynberg – Profa. Dra. Sandra Almada (UNIFOR/MG) – Resumo: Halina Grynberg, no romance Mameloshn: memória em carne viva, 2004, trata da dor imposta por lembranças e dos traumas que atravessam gerações passando, certamente, pela alimentação. Nesse relato, a narrativa transporta o leitor para memórias afetivas que antes inquietam que confortam. De forma semelhante, em O padeiro polonês, 2005, a escritora articula a memória sofrida à preparação da chalá o pão trançado, feito pelo pai da narradora. Percebe-se que a comida, nesses dois romances autobiográficos, possui uma linguagem temperada com lágrimas e múltiplas significações.
6. O “estranho” na obra de Samuel Rawet – Prof. Dr. Saul Kirschbaum (USP) – Resumo: A partir da análise da novela Viagens de Ahasverus à terra alheia em busca de um passado que não existe porque é futuro e de um futuro que já passou porque sonhado, de Samuel Rawet, publicada em 1970, esta comunicação abordará a forma com que o escritor – nas palavras de Gilles Deleuze e Felix Guattari, que cunharam a expressão “literatura menor” – representa, em seus escritos, a população hegemônica. Noutras palavras, como a minoria é representada na obra de Rawet. Dessa forma, procuro entender a radicalidade do próprio estranhamento vivenciado por grupos minoritários, em sua manifestação literária.
Comunicações
1. Vidas e memórias entrelaçadas em As águas do mesmo rio, Giselda Leirner – Ana Cláudia Rufino: (Graduada em Letras da FALE/UFMG) – Resumo: A Shoah marca de forma permanente os judeus e seus descendentes. Suas histórias que atravessaram rios e oceanos, também estão presentes na literatura brasileira. Giselda Leirner cria em Nas águas do mesmo rio, publicado em 2005, um relato em vários níveis, com as histórias impactantes de três mulheres marcadas pela catástrofe. Imagens de um passado traumático são, assim, revisitadas em um presente conturbado, e o destino dessas personagens convida o leitor a refletir sobre transformações, desejadas e possíveis.
2. Memórias indecifráveis em Írizs: as Orquídeas, de Noemi Jaffe – André de Souza Pinto (Doutorando em Letras do Pós-Lit/UFMG) – Resumo: No romance Írisz: as orquídeas, de Noemi Jaffe, publicado em 2015, uma imigrante húngara que se muda para o Brasil, abandonando, nesse movimento, sua terra natal, sua mãe e um companheiro. Em São Paulo, no Jardim Botânico, a narradora dedica-se ao estudo das orquídeas, flores que serão metáfora dessa personagem flutuante e exilada, cujas raízes aéreas e parasitárias caracterizam o seu caráter errático. Além disso, aliado à mutabilidade da protagonista, que evita enraizar-se nos lugares, o seu estudo sobre as orquídeas traduz uma análise da língua, um traço que parece marcar a narrativa de Írisz. Desse modo, esta comunicação analisará, a partir das orquídeas, a ficcionalização de uma história familiar e a elaboração de memórias fragmentadas, dispersas e indecifráveis.
3. Ser judeu e estar no Brasil no século 20 em Moacyr Scliar e Clarice Lispector – Debi Chaimovitch-Yehoshafat (Mestre em Letras pela Universidade Ben Gurión) – Resumo: Na primeira metade do século 20, o Brasil recebeu imigrantes, oriundos dos mais variados países, o que, sem dúvida, marcou o desenvolvimento de sua sociedade e de sua cultura. No primeiro momento, o imigrante, e sua bagagem cultural, ainda conservou seus costumes tentando, ao mesmo tempo, adaptar-se à nova sociedade. Entre os imigrantes que chegaram ao Brasil, encontram- se os judeus provindos da Europa e Oriente Médio. Muitas vezes, a imigração é sinônimo de deslocamento, deixar um lugar e não pertencer a lugar nenhum. Esse sentimento está expresso em A guerra do Bom Fim, de 1972, de Moacyr Scliar, e em A hora da estrela, publicado em 1977, por Clarice Lispector. Esta comunicação estudará essa condição imigratório nos dois romances, considerando que o processo de imigração inclui etapas de adaptação, integração e assimilação.
4. O cotidiano, o corriqueiro e o efêmero nos contos de Cíntia Moscovich em Essa coisa brilhante que é a chuva – Filipe Menezes (Doutorando em Letras do Pós-Lit/UFMG) – Resumo: Sempre renovada e brilhante, a obra de Cíntia Moscovich apresenta o cotidiano, o corriqueiro e o efêmero em suas, aparentemente, simples narrativas. Na coletânea de contos Essa coisa brilhante que é a chuva, 2012, a escritora compila pequenas histórias, reúne narrativas que se entrelaçam e colocam o leitor diante de um mundo, às vezes, curioso ou cruelmente descrito em sua singeleza.
5. O alfabeto poético de Leonor Scliar-Cabral e Noemi Jaffe – Késia Oliveira (Doutoranda em Letras do Pós-Lit/UFMG) – Resumo: De Sagração do alfabeto, 2009, de Leonor Scliar-Cabral, a A verdadeira história do alfabeto e alguns verbetes de um dicionário, 2012, de Noemi Jaffe, a letra constitui um acervo de possibilidades poéticas e narrativas. Ao conceberem a letra como uma unidade mínima de sentido, as escritoras se inscrevem numa tradição de autores que veem no micro, as grandezas do múltiplo. Scliar-Cabral extrai do alfabeto hebraico inúmeras reverberações líricas, transformando letra em poesia, escandindo o sentido do único ao ampliar as conotações das letras. Jaffe, por sua vez, em prosa, redefine o significado da noção de história ao propor para cada letra do alfabeto latino uma inusitada linearidade. no contexto das textualidades judaicas contemporâneas.
6. A guerra em surdina de Boris Schnaiderman: entre memória e ficção – Katryn de Souza (Graduanda da FALE/UFMG) – Resumo: Em Guerra em surdina: histórias do Brasil na Segunda Guerra Mundial, publicado em 1964, Boris Schnaiderman é, o que poderíamos chamar de um intérprete de si e de mais de 20 mil homens da Força Expedicionária Brasileira (FEB) que, assim como ele, foram convocados em 1944 para lutar, no conflito, ao lado dos aliados. A partir do que vivenciou como pracinha numa Itália destruída, o escritor constrói uma narrativa entre o relato factual e a ficção.
7. A presença de midrashim em crônicas de Natal de Clarice Lispector – Laís Maria Rosal Botler (Doutoranda em Estudos Latino-Americanos na Universidade Hebraica de Jerusalém e Rodrigo Baumworcel (Mestrando em Educação Judaica na Universidade Hebraica de Jerusalém) – Resumo: O judaísmo nunca aparece de maneira explícita na literatura de Clarice Lispector. No entanto, como demonstram Gilda Szklo (1989), Nelson Vieira (1989) e Berta Waldman (2011; 2014), a influência judaica pode ser percebida de diferentes formas na escrita de Clarice. Neste trabalho, analisaremos a presença de midrashim na representação do Natal nas crônicas “Anunciação”, “A virgem em todas as mulheres”, “Ele seria alegre” e “A humildade de São José”.
8. Moacyr Scliar: Fazedor de Golems – Márcio Pereira (Mestre em Letras pelo Pós-Lit/UFMG) – Resumo: O judaísmo e a tradição judaica, a revisão histórica, o discurso da ciência, as Escrituras, a memória e a identidade latino-americana, são algumas das linhas temáticas que conformam trama e novelo da obra multifacetada de Moacyr Scliar. A integração de todos esses discursos no jogo infinito da ficção revela a sofisticada teia literária tecida pelo escritor. Não seria diferente quando o autor lida com um mito tão cheio de nuances, como o Golem. Esta comunicação analisará a retomada desse mito, explicitamente, em dois livros de Scliar. De forma literal no romance Cenas da vida minúscula, publicado em 2003, e, obliquamente, em Manual da paixão solitária, de 2008.
Conferência de encerramento: “O direito ao corpo nos romances de Bernardo Kucinski e Julián Fuks”, com a Profa. Dra. Maria Zilda Ferreira Cury (Pós-Lit/UFMG)
Encerramento: Lyslei Nascimento & Raquel Yehezkel
Realização e Apoio
APOIO PÓS-LIT/CAPES/PROEX

Adin Steinsaltz (1937-2020) (Blog Estadão)

Is that an obituary?

–What do you think?

The Jewish habit of answering one question with another is not just a stereotype. It is a symbol, a way of life, an existential mark that is imprinted, both in the genotype and in the cultural tradition.

“Question, oh Israel!” it has been a motto of this people.

This is what Adin Steinsaltz, a chemist, rabbi, Talmudist, sociologist, educator, philosopher and many other attributes, tried to leave as a legacy.

Many would be impressed by its worldwide notoriety. Time magazine once classified him as “a scholar who is born every millennium” (in free translation). About 30 years ago, a dear close uncle pointed me to a newspaper article that commented on that article by the late “Jornal da Tarde” to draw attention to the importance of the phenomenon. Careless, I didn’t pay much attention.

In addition to photographic memory, translating – or, borrowing, the expression of Haroldo de Campos, ” transcribing ” – or turning the Talmud into contemporary Hebrew was considered an impossible task. And, for some, heretical. That’s what he was willing to do for 45 years. And this can be an indication of a spirit that transcends common scholarship: it is an obsessive intellectual perseverance.

We always think that encounters with people are long-lasting. Now I find that they don’t last. The duration can be of uncomfortable brevity, and is generally insufficient. And only retrospectively can we assess the density, quality and meaning of an interlocution. How many do not pass before us without the memory taking the trouble to fix the conversation, the presence, or both. In the extensive succession of moments of a lifetime only a few deserve recording. It happened in the four times that I had the privilege of meeting and interviewing Adin Steinsaltz , thanks to the help of my great friend Isaac Michaan .

Someone has already called him a Renaissance man. This definition probably makes more sense, since Adin naturally and spontaneously gathered several fields of knowledge without worrying about reaffirming an expertise in any of them. In fact, it was sharp when it came to criticizing the limits of super specialized knowledge .

“Science works because it is limited to a small group of subjects. There is no capitalized science. Some of the scientists who deal with the big questions are accused by colleagues of practicing philosophy. I respect them and my original training is in chemistry, not in the humanities. I am much more happy to talk about a test tube and laboratory tests than philosophical subjects, but science is part of the insanity. It is part of the insanity when you assume that the issues are much bigger than they really are. When you talk to a scientist, you ask yourself questions, which if you are sincere you will answer: how can I know by God? Do you ask me about the fate of humanity? I wouldn’t know how to answer. If you ask me what will happen in two days, how will I know? I can answer about the few things I know now. I don’t try to make science a kind of pagan god. And in doing this, I’m doing science well because that’s what it is. When the sun is a god, it is a dangerous god, when the sun is just a star in the sky it is much easier to deal with. ”

His intelligence, unpredictable and analog, intrigued the interlocutors. And, at the same time, it boosted his own curiosity.

His way of looking into the minds of the men and women he spoke to was someone who started out of nowhere. It was in the open that he started his exploration. In the meetings I had, I could feel his investigative gaze, not exactly like that of a scientist, but that of someone who, even in the face of an intense intellectual life, did not lose the ability to be surprised.

He looked at me, as he repeatedly lit the smoke from the almost extinguished fire. And it was this fire, almost always extinguished, that kept it burning. It was more than a metaphor the ember he tried to keep in evidence.

When I remembered the lighter that pulled the flame to the center of the pipe, and the hiss that accompanied the aspiration of Dutch tobacco, it took me almost a decade to notice that his uninterrupted research was aimed at finding some trace of novelty in people. My impression is that he searched the haystack in search of the sparks that are scattered, he knew that it was necessary to collect them, but without unifying them. If they must be together, they can only exist as separate entities. For this reason, he always insisted on the scriptures that praised the action.

“I do” he insisted.

In some interviews, which can be found on YouTube and through its foundation the ” Aleph Society , it is possible to evaluate the myriad of subjects that he dominated and traveled with ease: from mystique to medicine, artificial intelligence and cloning, to the most delicate subjects of politics and philosophy.

My impression, listening to my recorded conversations with him, was that I sought to capture one or more nutrients that could be used to ask questions never asked before. He used the method to test the method. Not as a ready and crystallized instrument, but to find new ways to operate it. After all, this was his leitmotiv , as he expressed in several interviews when trying to justify his insistence and predilection for the book that compiled the oral tradition of Judaism:

“The Talmud is a unique book, there is nothing like it, it is a book of discussions, which does not teach sanity, but creates sanity”.

Why ? For the ability to instigate the continuous asking of questions. In this sense, it might seem like an anticipation of the modern scientific method of empirical induction , but it is not. It is not only that. There is, in the generous understanding that Adin brought – and anyone who can understand the unique expression that his eyes conveyed knows what I speak – an ultimate purpose, a teleology that generates the future, that improves discernment, that has the power to make people better than they are.

His conference at Oxford University a few years ago, as well as many other lectures he gave around the world, worked as a warning, optimistic, but still a warning, the same unified message that was in the title of the book he published in the 1960s: ” The sociology of ignorance “.

Making the world better is also demystifying it, and that is what contemporary civilization lacks in the end, where paganism and fanaticism nullify efforts to promote tikun olam , “fix the world”. And to fix it, you need to bewilder it. This does not mean to abolish symbols or individual mysticism itself, but to take special care not to make substitute gods holders.

–And the question that you do not want to answer?

–Adin, can you answer?

https://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/adin-steinsaltz-qual-e-a-pergunta-que-nunca-cala1937-2020/

Adin Steinsaltz: qual é a pergunta que nunca cala?(1937-2020) (Blog Estadão)

–Isso é um obituário?

–O que você acha?

O hábito dos judeus de responder uma pergunta com outra não é só um estereotipo. É um símbolo, um modo de viver, uma marca existencial que está impressa, tanto no genótipo como na tradição cultural.

“Pergunta, oh Israel!” tem sido um motto deste povo.

Pois é isso que Adin Steinsaltz químico, rabino, talmudista, sociólogo, educador, filósofo entre outros tantos atributos tentou deixar como legado.

Muitos ficariam impressionados com sua notoriedade mundial. A revista “Time” certa vez o classificou como “um erudito que nasce a cada milênio” (em livre tradução). Faz mais ou menos uns 30 anos que um querido tio próximo apontou-me uma matéria de jornal que comentava aquela reportagem do saudoso “Jornal da Tarde” para chamar atenção para a importância do fenômeno. Displicente, não prestei muita atenção.

Além da memória fotográfica, traduzir — ou, emprestando, a expressão do Haroldo de Campos, “transcriar” — ou verter o Talmud  ao hebraico contemporâneo era tido como uma tarefa impossível. E, para alguns, herética. Pois foi o que, durante 45 anos, ele se dispôs a fazer. E isso pode ser um indício de um espírito que transcende a erudição comum: trata-se de uma perseverança intelectual obsessiva.

Sempre achamos que os encontros com as pessoas são duradouros. Agora descubro que não duram. A duração pode ser de uma brevidade incomoda, e, é, geralmente, insuficiente. E só retrospectivamente conseguimos avaliar a densidade, a qualidade e o significado de uma interlocução. Quantos não passam diante de nós sem que a memória dê-se ao trabalho de fixar a conversa, a presença, ou ambos. Na extensa sucessão de momentos de uma vida só alguns merecem gravação. Foi o que aconteceu nas quatro vezes que tive o privilégio de encontrar e entrevistar Adin Steinsaltz, graças a ajuda do grande amigo Isaac Michaan.

Alguém já o chamou de um homem da Renascença. Provavelmente esta definição faça mais sentido, já que Adin reunia, natural e espontaneamente, vários campos do saber sem se preocupar em reafirmar uma expertise em nenhum deles. Aliás, era afiado quando se tratava de criticar os limites do saber super especializado.

“A ciência funciona porque se limita a um grupo pequeno de assuntos. Não há ciência com letra maiúscula. Alguns dos cientistas que lidam com as grandes questões são acusados pelos colegas de praticar filosofia. Eu os respeito e minha formação original é em química, não em ciências humanas. Tenho muito mais prazer em falar sobre um tubo de ensaio e testes laboratoriais do que de assuntos filosóficos, mas a ciência faz parte da insanidade. É parte da insanidade quando assume que os assuntos são muito maiores do que eles realmente são. Quando se fala com um cientista, perguntam-se coisas, que se você for sincero responderá: como por Deus eu vou saber? Você me pergunta sobre o destino da humanidade? Eu não saberia responder. Se você me perguntar o que vai acontecer daqui dois dias, como vou saber? Eu posso responder sobre as poucas coisas que eu sei agora. Eu não tento fazer da ciência uma espécie de deus pagão. E ao fazer isto, eu estou fazendo bem à ciência porque é isso que ela é. Quando o sol é um deus, é um deus perigoso, quando o sol é apenas uma estrela no céu é muito mais fácil lidar com ele.”

Sua inteligência, imprevisível e analógica, intrigava os interlocutores. E, ao mesmo tempo, impulsionava sua própria curiosidade.

Sua forma de perscrutar a mente dos homens e mulheres com quem conversava era de alguém que partia do nada. Era a céu aberto que ele iniciava sua exploração. Nos encontros que tive pude sentir seu olhar investigador, não exatamente como o de um cientista, mas o de alguém que, mesmo diante de uma vida intelectual das mais intensas não perdia a capacidade de se surpreender.

Ele me olhava, enquanto acendia, reiteradamente, o fumo do fogo quase extinto. E era este fogo quase sempre quase extinto que o mantinha aceso. Era mais do que uma metáfora a brasa que ele tentava manter em evidência.

Ao lembrar do isqueiro que puxava a chama para o centro do cachimbo, e o chiado que acompanhava a aspiração do tabaco holandês, demorei quase uma década para notar que sua pesquisa ininterrupta era direcionada a encontrar nas pessoas algum traço de novidade. Minha impressão é que ele vasculhava no palheiro em busca das fagulhas que encontram-se espalhadas, sabia que era preciso reuni-las, mas sem unifica-las. Se devem estar juntas, só podem existir como entidades separadas. Por isso, ele sempre insistiu nos trechos das escrituras que enalteciam a ação.

“Eu faço” ele insistia.

Em algumas entrevistas, que podem ser encontradas no YouTube e através da sua fundação a  “Aleph Society,  é possível avaliar a miríade de assuntos que ele dominava e trafegava com desenvoltura: de mística à medicina, inteligência artificial e clonagem, aos assuntos mais delicados da política e da filosofia.

Minha impressão, ouvindo minhas conversas gravadas com ele é que buscava capturar um ou vários nutrientes que poderiam ser usados para formular perguntas nunca antes formuladas. Usava o método para testar o método. Não como um instrumento pronto e cristalizado, mas para achar novas maneiras de opera-lo. Afinal, esse era seu leitmotiv, conforme expressou em várias entrevistas quando tentava justificar sua insistência e predileção pelo livro que compilou a tradição oral do judaísmo:

“O Talmud é um livro único, não há nada parecido, é um livro de discussões, que não ensina sanidade, mas cria sanidade”.

Por que? Pela capacidade de instigar a ininterrupta formulação de perguntas. Neste sentido, poderia parecer uma antecipação do método científico moderno de indução empírica, mas não é. Não é somente isso. Há, na compreensão generosa que Adin trouxe — e quem pode entender a expressão única que seus olhos transmitiam sabe do que falo —  uma finalidade última, uma teleologia geradora de futuro, que aperfeiçoa o discernimento, que tem a potencia para tornar as pessoas melhores do que elas são.

Sua conferência na Universidade de Oxford há alguns anos, assim como em muitas outras palestras que concedeu pelo mundo funcionava como um aviso, otimista, mas ainda assim uma advertência, a mesma mensagem unificada que estava no título do livro que publicou nos anos 60: “A sociologia da ignorância”.

Tornar o mundo melhor é, também, desmistifica-lo, e é disso que afinal a civilização contemporânea carece, onde paganismo e fanatismo anulam os esforços para promover o tikun olam, “o conserto o mundo”. E, para conserta-lo, é preciso desconcerta-lo. Isso não significa abolir os símbolos ou o próprio misticismo individual, mas um especial cuidado para não tornar deuses substitutos em titulares.

–E a pergunta que não quer calar?

–Adin, pode responder?

Diário do apartamento 5 – O velho anormal (Blog Estadão)

Lá se vão 136 dias em estado de animação suspensa. Trata-se de um momento fronteiriço. não sou de desperdiçar riscos, mas pensei em enfrenta-los. Decidido a ver os pais idosos, sai ainda impactado pela leitura de um recente artigo científico de autoria de dois psicólogos franceses que fizeram um sério alerta sobre o vírus e seu potencial para criar estados mentais patológicos*. Fora o rastro de destruição da economia, organização social e fobias suplementares, os efeitos colaterais da pandemia vem espalhando distúrbios que se assemelham às perturbações psicóticas. Desta vez considerei o tempo relativo dos confinados absolutos. Gente do chamado “altíssimo risco”. Para eles, um dia, uma semana e meses significaram nada mais, nada menos, do que uma brevidade maior de vida. Brevidade de vida ao ar livre. Brevidade de tempo relacional.

Mas, qualquer menção crítica à abordagem oficial dos governos é antecipadamente rebatida pela milícia jornalística uniforme dos meios de comunicação.  Enquanto nós e a opinião pública, como bons niilistas, recusamos a ver as benesses das evidentes mensagens dos dois RNAs. Recusamos o simbolismo opressor de um ser, que nem sequer temos consenso se é vivo.

Mais uma vez assumi os riscos, nunca precisamente calculado. Os idosos podem estar protegidos da ameaça infecciosa, mas decerto ainda são as vítimas preferenciais. É que o tempo, para eles, tem um escoamento mais célere, a renda encurta, as perspectivas afunilam, e o tédio vigora. Alguém considerou o impacto da melancolia e das saudades sobre os isolados? É muito fácil dizer para os outros “ao menos tu estás vivo”, porém, muito mais honesto, seria perguntar:

— Como tens vivido?

Mas quem tem coragem?

E quem pode dizer que não foi afetado? Não, faz tempo que não se trata mais da pandemia. Como dizia o sábio médico italiano Giambattisti Morgagni “cessam as causas, não cessam os efeitos”.

Mas os idólatras do fim insistem: quem ainda não enxergou que a vida como tínhamos acabou para sempre?  Quem se recusa a assistir webinares com o biólogo que desfila diariamente toda sua escatologia bibliográfica? Quando foi que nos transformamos em seres tão negacionistas? E principalmente, como um bando de não experts ousa discordar diante de evidencias tão colossais?

Pois descobri que sou um deles.

Já na porta do prédio dos idosos, tive um causal desencontro com um destes filósofos do arbítrio esclarecido, um escritor famoso que fez, por encomenda, biografias benévolas de caudilhos e ditadores:

–Tudo bem? Há quanto tempo!

–Tudo bem. (no esforço simulei a simpatia que não tinha) Fora o dióxido de carbono inalado dentro destas máscaras, reclamei.

— Pois é, um mal necessário.

Concordei com a cabeça, até que ele

–Mas tudo isso é para um bem muito maior….

— Como assim? Interrompi o passo no meio, e voltei-me ao tipo, já seguro que era para desperdiçar meu tempo.

–Essa doença é sofrimento, mas vai mudar tudo, vamos todos ficar de ponta cabeça. A natureza agradece. E, no final, a sociedade será reinventada, e a isonomia prevalecerá. E se deu por satisfeito ao  concluir sua tese de meio-fio.

–Isonomia? A sociedade será reinventada?

–Meu caro: é o novo normal.

Céus! Meu prognóstico para aquele desencontro desceu ao impensável. Era o que mais temia, mas jamais imaginaria que uma síntese estúpida se transformasse num slogan do senso comum.

— Espere um pouquinho mais e verás, respondi.

–O que? E ele esticou a corda que enforcava seu cachorro.

–Logo teremos o bom e velho anormal. Adeus, e, passe bem.

Deixei-o vociferando, enquanto virei as costas para o meu encontro com os derradeiros confinados.

A metapandemia está entre nós, para enlouquecer, matar e morrer. Os saqueadores subjetivos aproveitaram para impor suas agendas, exato, aquelas que ninguém pediu. E o festival de slogans anti estéticos contaminam: e “novo normal” é o mais detestável dentre todos. O novo normal dos prosélitos hegemônicos é uma mistura de wishful thinking com maniqueísmo instrumental.

A sociedade ideal, aquela que se assemelha aos sonhos dos ludopatas, aquele que insistem em regimes políticos totalitários que uma vez, em algum dia,  dará certo, é o vício incurável do “quase acerto”. A sociedade só pode ser aquela que eles imaginam, senão não faz o menor sentido. Melhor aliás seria que não existisse se não seguir o mapa da supremacia virtuosa. Pois o vírus tem sido usado sob esta diretriz e bandeira.

Uma agenda forrada de infecções ideológicas, de contaminação de ideias, e, principalmente, de uma hegemonia disfarçada de diversidade. É disso que se trata. Por qual outro motivo teríamos uma polarização nunca vista sobre eficácia de drogas, procedimentos preventivos, ações para conter o contágio? O sistema vem usando a máquina epidemiológica para triturar o que vê pela frente.

E, ao mesmo tempo, a mídia tornou-se uma voz unívoca, ventríloquos de sujeitos ocultos.

E é esta homogeneidade que prevalece contra todos, não importa se os cidadãos foram consultados, ou se a revolução da nova normalidade degradar a cultura, revisar a história e extinguir os monumentos, símbolos e valores.

Pois esta tese acaba de micar.

Há progressistas pelo fim da imprensa livre e conservadores reivindicando liberdade de expressão. Há guardiões constitucionais que querem impedir excessos sem sequer colocar o conceito de “excesso” para ser debatido. Há conservadores que gritam contra a usurpação do estado de direito. E é cada vez mais fácil saber porque a opinião pública não deve ser levada em conta: os bem pensantes superaram-se na arte auto congratulatória. Enxergam bem longe e acima da média para prospectar o futuro melhor do que ninguém. São eles os auto proclamados líderes, os únicos a poder nos ditar o que entendem ser o melhor para todos.

Finalmente entendi: o esforço para a normatização de um outro status quo é nos fazer ficar à mercê de novíssimas arbitrariedades. Fake news é só um contraditório selvagem que precisa de uma boa mordaça.

Sai do prédio e o filósofo ainda estava lá fumando e ostentando seu rottweiler estrangulado na coleira de couro. Ele então levantou a máscara para me olhar com cara feia e foi então que mostrou a língua.

Nem tudo é tragédia. Eu já sabia, de velho anormal eu entendo.

*https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S176546292030074X?fbclid=IwAR0l_3xY1CgwfUthYMl5GuB4E2WAO4BaseKMu9VLE1PZMaUsuj-5sJCsF-o

https://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/diario-do-apartamento-5-o-velho-anormal/

 

Fera Avistada na Mantiqueira

 

 

 

 

F7FBF8DA-B686-4124-91B3-8533C2522609_1_201_aFera avistada na Mantiqueira.*

Onça parda, matreira, quase extinta, ligeira.

Como gato, que, pardo, à noite é furta-cor.

Fulminou a câmera de lado, e, arrepiada, olhar luminescente, encarou.

Euforia: animal errante, fugidio.

Chegou ao portão, elegante, arredio.

Reciclagem da natureza, aparição oportuna?

Voltam pelos mananciais preservados,

O selvagem reintegrado?

Ou o vigor da floresta na escuridão gatuna?

Festa, o imaginário ressignificado.

Em meio à solidão, um cenário sob mutação.

Seria um jaguaruni, arisco?

Um gato mourisco?

De qualquer modo, aura felina onipresente.

Esquiva, cautelosa, imponente.

A ciência, provocada, cogitou:

Gato, selvagem, onça, pantera, jaguaruni?

E o que importa? Não nos basta contempla-los aqui?

 

*(Inspirado em uma história um tanto irreal)

 

 

Insignificâncias do mal (Blog Estadão)

https://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/insignificancias-do-mal/

 

 

Hannah Arendt, vista por sua criadora 

A Coragem moral de Hannah Arendt

‘Hannah Arendt’, o filme de Von Trotta

        

                 

Insignificâncias do mal

Dezenas de artigos, análises e conversas de rua depois, o filme de Margarethe Von Trotta sobre a filósofa Hannah Arendt, ainda não foi devidamente esmiuçado. O filme é cinematograficamente bom sob a presença cênica de Barbara Sukowa impecável no papel principal. O acerto está também na inserção de trechos originais dos debates que representaram uma das batalhas jurídicas essenciais para a compreensão do século XX. Mesmo assim, as vicissitudes superam as virtudes deste longa metragem.

A impressão que fica é que não se executou uma obra da sétima arte, mas defesa de tese com recursos filmográficos. A diretora e a roteirista, Pam Katz, parecem ter privilegiado um enfoque que, além de vez por outra lançar condenações veladas ao sionismo, buscaram expurgar a ansiedade de consciência que ainda paira sobre o papel coletivo dos alemães durante o III Reich.

E se da arte não se deve esperar completude, pode-se sim exigir honestidade intelectual no trato das ideias.

Um dos mais comandantes do alto escalão nazista, Adolf Eichmann, foi capturado em Buenos Aires em 1960 pelo serviço secreto israelense. Ironicamente, quem casualmente o identificou na capital argentina foi um judeu alemão idoso e cego, ele mesmo vítima sobrevivente da juventude hitlerista. A pauta central do filme é o julgamento em Jerusalém do homem que teria arquitetado a “solução final” – o projeto de eliminação sistemática dos judeus europeus.

Determinada na defesa das ideias contidas em seu “As Origens do Totalitarismo” a filósofa decidiu assistir o julgamento de Eichmann como correspondente do New York Times e redigiu artigos para publicação na revista da casa, aNew Yorker.

Para ela, toda cúpula nazista não era, necessariamente, composta por monstros, pervertidos ou aberrações da psicopatologia e o depoimento mecânico e sonso de Eichmann aos juízes israelenses pode ter ajudado a ludibria-la quanto à natureza de alguém, que em uma entrevista em 1957 a um ex-companheiro, já se definia como “um idealista”. Contrariamente às acusações da época, em momento algum Arendt o absolve, investe na relativização da grandiosidade autoral do criminoso. O teórico nazista era apenas um caso fortuito de mediocridade existencial, venial, sediço, frívolo, anódino, ridículo. Este tipo de insignificância era chamada por aqui, nos séculos precedentes, de “dez réis de mel coado”. Dessa perspectiva, o gerenciamento do mal poderia ser exercido por qualquer um contra qualquer um. A verdade empírica é de que não foi qualquer um, nem contra qualquer um. O extermínio foi ditado por sujeitos contra sujeitos. Antes do despejos nas valas tinham nomes, identidade, vida.

Pela ocasião da publicação do livro “Eichmann em Jerusalém” que Arendt concebeu o subtítulo “banalidade do mal”. Sua perspectiva original, ampliar o debate e desmontar a retórica maniqueísta que simplificava a luta entre o bem e o mal. Para ela, não havia nada grandioso ou extraordinário. A verdade psicológica, a energia motriz que esteve todo tempo por trás do genocídio que teve curso entre 1939 e 1945 era fundamentada numa mesquinharia. Enxergar massacres entre os quais o maior infanticídio já registrado como reflexo de uma atitude que banalizava o mal, foi uma ideia revolucionária e hoje sua tese parece ter sido assimilada como uma das ideias consistentes para a compreensão do período. Contudo, no afã de tentar reduzir o mentor intelectual dos assassinatos em grande escala a um paspalho dotado de semi-consciência de seus atos, abusou das ilações e conclusões a partir do material casual que conseguiu reunir.

O filme pesa a mão para construir Arendt como paladina do racionalismo imparcial que ela mesma resumia como “pensar sem corrimões”. A escada, no entanto, costuma ser mais sinuosa, escorregadia e íngreme; as vezes termina em parede.

O roteiro ainda faz uso subliminar da ideia de que por ser judia, a escritora seria porta-voz de insuspeita imunidade intelectual.  Foi assim que Arendt reuniu coragem suficiente para abordar o tema considerado tabu e, abusando do aval, concedeu-se revirar a índole das vítimas. Senão o que significaria a perigosíssima generalização de que as lideranças judaicas, os chamados “conselhos judaicos” eram colaboracionistas? Para tentar aliviar a tensão o filme deixa no ar a possibilidade de que tenha sido um colaboracionismo involuntário.  Em vão. Entre milhões de dramas que em que se constituiu a micro história de cada pessoa, milhões de famílias, cidades e comunidades inteiras seria impossível construir uma grande teoria unificada que explicasse a complexidade dos eventos daqueles anos.

Além disso, a realidade de solo não correspondeu exatamente aquela que Arendt colheu das pesquisas bibliográficas e dos autos do processo que acompanhou pessoalmente em Jerusalém. Neste caso, teria sido vital cuidado acadêmico e  tenacidade filosófica para conduzir entrevistas qualitativas em profundidade. A missão de quem pesquisa é capturar a realidade com mais acurácia antes de formular uma teoria tão compreensiva. Especialmente, se o drama tiver redes e raízes e que se estenderão através da história.

Não só o filme “Shoah” de Claude Lanzmann, mas muitos relatos de sobreviventes do holocausto – alguns deles por mim ouvidos em detalhadas narrativas —  afirmaram que o processo de seleção que os nazistas operavam nas vilas, cidades, e pequenos guetos de toda a Europa, particularmente nos países do leste europeu, caracterizava-se primeiro pelo domínio dos territórios. Em seguida, varreduras em arquivos públicos em busca dos “não arianos”. O passo seguinte, identificar líderes locais (políticos, médicos, rabinos, professores e qualquer que tivesse alguma função de organização) para enfim os reunir e os fuzilar ou queima-los vivos.

Por mais esforços atenuadores e indulgentes que os bem pensantes contemporâneos possam fazer, sempre será incontestável que o país com reputação de primor da civilização iluminista ocidental tenha dado à luz, um dos períodos mais obscurantistas da história.

Assistam, mas saibam que, para alívio dos espectadores, o verdadeiramente perturbador foi providencialmente deixado do lado de fora da película.

 

 

http://www.observatoriodaimprensa.com.br/ciencia/o-preco-da-diversidade/ o preço da diversidade.

A série jornalística sobre a homeopatia na Rede Globo de Televisão terminou. Não se pode ficar impassível diante de alguns aspectos levantados pelo programa Fantástico. Pudemos constatar uma série de afirmações seriadas, em que pesquisadores, um mágico e médicos falaram contra e a favor da homeopatia. Tivemos que suportar o clima caricaturesco do programa em forma de duelo, até que no domingo anunciou-se o previsível veredicto de que a homeopatia falhara no teste proposto pela BBC, que incluía o mago James Randy no ‘corpo de jurados’.

A redação final era que não se poderia falar que funciona nem que não funciona. Se funciona, não é pelo que se supõe que seja.

O que foi insuportável não foi a Globo abordar um assunto com este potencial de interesse, nem ter monitorado a reportagem – nada de novo – desde o início, para ao final deixar como legado as seguintes impressões explicitas ou subliminares:

1) Que tudo que não tem uma explicação cabalmente demonstrável pelo monopólio metodológico não pode ser possível, sob nenhuma outra metodologia ou circunstâncias. Tudo isto reduzido à máxima: tudo que não pode ser explicado não acontece.

2) Que os ensaios in vitro, isto é, os ensaios das reações testadas com tubos inertes, podem ser arbitrariamente extrapolados para testes in vivo ou seja, no ser vivo.

3) Que todos os que se tratam parecem estar seduzidos pela ação pitiática, ou seja, sob o domínio da sugestão, não importa quão curiosa e inusitada pareça a evolução clínica favorável. Isto inclui os animais.

Outra forma de medicina

Afinal, sabe-se que milhões de seres humanos se tratam pelo método homeopático no Brasil, e 21% da população européia também. O verdadeiramente insuportável foi terem desprezado o mainframe da pesquisa homeopática no mundo e sob o manto da superficialidade terem introduzido mais preconceitos do que informações, mais ceticismo do que esclarecimento, e por último, e pior, terem mostrado que há de fato um fundamentalismo cientificista – tão obtuso quando seus correlatos políticos ou religiosos –, que opera na base do ‘acredito ou não’, ‘gosto ou detesto’, típicos, portanto, de uma crença monológica que caracteriza a velha ciência.

A boa notícia é que, apesar de tudo e de todos eles, uma nova ordem científica está em curso. Nela, o novo e o inexplicável podem ser investigados com liberdade e julgados pelas pessoas, já que a ciência é, ou deveria ser, para elas.

Por uma questão de coerência espero ter preservado meu direito de opinar.

Passado portanto o primeiro impacto da exposição da Globo, os desdobramentos já merecem ser provisoriamente avaliados. Alguns aspectos se destacam e o mais evidente deles é a repercussão social imediata. O Fantástico é um programa exibido aos domingos em horário ‘nobre’, concentrando boa parte dos telespectadores. É, além de tudo, o sucedâneo da novela. Como as pessoas precisam descansar delas um dia dos enredos circulares, montam-se outros, também fictícios.

O impacto social e na imagem da homeopatia foi razoável e funcionou como uma epidemia, com contágio de opiniões desencontradas.

Vejam alguns trechos de depoimentos coletados nas últimas semanas:

‘Fui gozado no trabalho porque eu me trato por homeopatia. O meu patrão me disse: veja se começa a tomar remédios de verdade, garoto!’

Um jornalista – que se trata por homeopatia – foi interpelado na redação por um colega que lhe disse: ‘Olha, se você precisar de substitutos para seus medicamentos homeopáticos eu conheço um website que vende de tudo!’

Uma senhora cujo filho foi curado pela homeopatia por uma bronquite crônica entra chorando na Associação de Moradores do seu bairro porque lhe disseram que ela arriscou a saúde do menino.

Para falar as coisas de uma forma mais clara e objetiva: a homeopatia é uma forma de fazer a medicina. Uma outra forma. Ela é feita – em nosso país – por médicos que passam por toda a formação normal e somente depois é que podem ser treinados em escolas e institutos apropriados para poder exercer a prática clínica homeopática. A homeopatia foi por muito tempo chamada de uma ‘recaída’ romântica da medicina. Por quê?

‘Amizade médica’

O que dizer, em tempos de ditadura da eficácia e da produção sob a batuta do relógio, de uma medicina que ouve pacientemente toda a narração que o paciente têm para fazer? Mas, ora, em medicina isto se chama anamnese (do grego recordar, relembrar). E todos sabem que um bom clínico, homeopata ou não, deve estar sempre atento a este aspecto. Toda consulta deve ser longa e minuciosa. Uma boa anamnese, diziam acertadamente nossos professores, equivale a uma boa chance de fazer um bom diagnóstico, afinar o olho clínico e proporcionar um bom tratamento. É, portanto, desejável que qualquer médico faça desta forma.

A homeopatia, por recomendação de Samuel Hahnemann (1755-1843), vai um pouco além disto. Como Hahnemann achava que precisávamos traçar a história biográfica do doente – e não somente a história das doenças – e da relação com suas enfermidades. Os médicos homeopatas portanto se excederam voluntariamente na já referida anamnese em busca de detalhes, pistas de contextos e circunstâncias da vida das pessoas. Buscam significados pessoais para cada aspecto do sujeito. Mas não se trata de psicoterapia strictu senso – que os homeopatas não fazem, salvo aqueles que se especializaram nesta área –, e sim de conhecer cada individualidade, cada particularidade da pessoa. Isto faz parte da estrutura íntima do seu modelo científico.

O leitor poderá se perguntar: mas como isto pode ser útil? O objetivo da medicina não é o de detectar e destruir as doenças? Não é conhecer o comum de cada doença?

É fato que precisamos também saber o nome da doença, mas isto de forma nenhuma circunscreve ou delimita o campo de atuação de qualquer médico. Vide o clássico juramento hipocrático. A ação médica excede isto, a ponto dos gregos terem pensado o termo ‘amizade médica’ como a empatia (transferência, diria Freud) necessária entre dois seres humanos para que o proceder médico seja feito com esmero.

Impacto na qualidade de vida

Tudo isto está certo, e para o historiador da medicina Henry Sigerist na boa medicina, seja ela de qualquer tendência ou filiação, estão colocados não um, mas vários objetivos simultâneos: compreender a relação que o doente tem com sua doença, avaliar qualidade de vida, pesquisar as motivações e percepções individuais, prevenir, promover a saúde, reabilitar, reduzir danos, diminuir riscos, aplacar sofrimentos e curar. A epidemiologia tem considerado isto, as ciências humanas que examinam a saúde, também. A homeopatia tem uma lógica histórica de lutas em saúde e conservou, para o bem de toda medicina e dos pacientes, sua peculiar forma de tratar pessoas.

Neste último programa afirmou-se que a homeopatia ‘funciona’ por três razões, não necessariamente científicas. Passemos em revista cada um deles:

1) A história natural da doença se encarregaria de corrigir o distúrbio.

De fato, uma grande porcentagem de patologias cura-se espontaneamente graças a um sistema imunológico integro que coloca em marcha a os mecanismos para devolver a homeostasia (o equilíbrio orgânico). Mas faltou complementar que este é um fenômeno universal e serve para quaisquer terapêuticas examinadas. Agora ou no futuro. Basta que se consulte a ‘bíblia’ da farmacologia clínica mundial dos autores Goodman e Gilman. No entanto, em patologias como doenças crônicas, a que mais atormenta nossa era, esta explicação não cabe, pois o sujeito não consegue debelar a doença a não ser cronificando-a. Assim como o chamado ‘decurso de prazo’ não é um argumento pertinente para desqualifica-la uma vez que a homeopatia tem resultados muito favoráveis em muitos destes casos. Não em todos, mas quem os tem?

2) O efeito placebo, ou seja a ação medicamentosa, é pura sugestão.

O remédio não é um detalhe. O medicamento é encontrado a partir de todos estes dados. E ele age de forma muito rápida e muitas vezes surpreendente. Pode ser o efeito placebo? Pode ser. O efeito placebo é poderoso e pode – ao contrário do que o senso comum apregoa – ser observado inclusive em animais. Mas há um detalhe fundamental habilmente omitido: o efeito placebo é universal. Sabe-se que ele ocorre em todo ato terapêutico, vale dizer faltou dizer que ele não é uma propriedade exclusiva da medicina homeopática. O uso de placebo nas experimentações homeopáticas registrada em seres humanos têm exatamente esta função: distinguir o que é uma simples sugestão do que é a ação de um medicamento verdadeiro. E as análises mostram e demarcam bem as diferenças.

3) As consultas aprofundadas é que geram as melhoras relatadas.

Segundo alguns pesquisadores boa parte das pessoas sente-se melhor pelo simples ato de uma consulta médica (homeopática ou não) e é a mais pura verdade que a homeopatia também está entre as práticas que se beneficiam deste efeito colateral positivo. Mas o que dizer do fato de que ela também produz impacto sobre a qualidade de vida das pessoas, retarda crises e cura quadros considerados complexos ou difíceis pela biomedicina, como patologias auto-imunes, imunodeficiências, hipertensões, dependências químicas, intoxicações, depressões e toda sorte de enfermidades metabólicas. Quem dera que todos fizessem as consultas aprofundadas que os homeopatas fazem. Conjeturando, se as consultas pudessem produzir um efeito placebo duradouro do teor imaginado por alguns dos pesquisadores entrevistados, a anamnese homeopática deveria ser hegemonicamente adotada, pois boa parte dos problemas clínicos sanar-se-iam sem qualquer necessidade de remédios.

A saúde para cada um

O que é impressionante é que de novo o programa não discutiu as questões vitais da tecnologia que envolve a homeopatia. E uma vez que se optou novamente pelo superficial, incumbimo-nos de dar uma ajuda no mergulho necessário.

Esta tecnologia sobrevivente de 200 anos tem levado organismos como OPAS e OMS a recomendarem formalmente que a homeopatia seja assimilada como uma forma válida e oficial para cuidar das pessoas.

Falamos da questão fármaco-econômica e econômica: a redução de custos que a homeopatia produz é impressionante. Impressiona qualquer administrador público responsável. Dados preliminares indicam relação custo-eficácia muito favorável ao tratamento homeopático tanto na ponta do custo dos medicamentos (cerca de U$ 3 por dose) quanto no de racionalizar os custos com os exames laboratoriais e a propedêutica armada.

Referimo-nos também à questão de atendimento primário em saúde, pois sendo o clínico homeopata antes de tudo um clínico geral, sua capacidade de acolher as queixas e tratá-las sem necessariamente encaminhar é algo digno de menção. Ainda, por último, mas não menos importante, me refiro à capacidade de gerar redes de benefícios sociais com um posicionamento menos intervencionista, ordenador e às vezes orientador na vida das pessoas sob tratamento.

A homeopatia é enfim popular porque, acolhendo a diversidade, coloca questões antropológicas, socioambientais e culturais que vão bem além de mera ação medicalizadora da vida: entra na questão do que é a saúde para cada um de nós. E isto não tem preço, ou prêmio.