Home

Redução de dano e homeostasia (analogias entre política e medicina) Blog Estadão

 

Redução de dano e homeostasia (analogias entre política e medicina) – http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/reducao-de-dano-e-homeostasia-analogias-entre-politica-e-medicina/

Redução de dano e homeostasia (analogias entre política e medicina)

Paulo Rosenbaum

24 Maio 2017 | 09h40

Ninguém sabe qual será o desfecho para mais um episódio de anomia institucional. No entanto existem aspectos clínico epidemiológicos que ajudam a compreender o processo político nativo e esta quadra maligna a qual hoje tentamos atravessar.

Um deles é o conceito de redução de dano. O viciado em heroína — uma droga elaborada a partir da resina das sementes da papoula e que provoca adição das mais cruéis e letais — não pode ser privado abruptamente de toda droga sob o risco de apresentar um quadro dramático conhecido como síndrome de abstinência. Pode levar o sujeito à euforia, depressão, sintomas graves, podendo até progredir ao colapso, distúrbios neurológicos, cárdio-circulatórios incluindo um não desprezível risco de morte.

O que se faz nestes casos? Tenta-se substituir a heroína por outra substância, a  metadona, Também um poderoso opiáceo, igualmente narcótica, porém com repercussões clinicas muito menos graves e que permite, em alguns casos, manejar a situação por algum período. Quando bem sucedido, será possível retirar gradativamente ou diminuir de forma significativa a droga.

Antes de julgar e apenar este texto como maniqueísta ou pró partidário, a leitura atenta deve provar exatamente o contrário. Trata-se de fria análise diante de um quadro clínico grave onde toda decisão será difícil e até mesmo constrangedora, pois se trata, não mais das facilidades binárias de escolher entre o bom e o ruim, mas distinguir entre o mal e o péssimo.

Pois bem, o atual governo equivaleria à metadona em inicio de tratamento, enquanto a administração lulo-petista atuava e vem atuando de modo similar à heroína, e caso persistisse, mataria o paciente por overdose.

Isso precisaria ser amplamente compreendido pelos promotores e juízes sob pena de condenar o paciente, a nossa “Republica Federativa” à morte ou a uma prisão perpétua à revelia.

Outro conceito médico pertinente aqueles que querem sabotar as garantias constitucionais para fazer justiça é o aforismo herdado do hipocratismo “primun non nocere” cuja tradução seria “em primeiro lugar, não causar dano”, provavelmente ignorados pela procuradoria. Ainda outro aspecto clínico que os doutores em questão desconhecem é que nem sempre deve-se buscar a máxima imunidade, as patologias autoimunes estão aí para demonstrar isto, já que “máxima” pode significar desregular pelo excesso. Não tenhamos ilusões, o Estado clinico da República é de máxima gravidade, de UTI mesmo, e seja lá qual for o entorpecente, estamos todos intoxicados com as imagens, áudios maquiados e o exercício de uma hermenêutica de qualidade duvidosa, mazelas às quais estamos sendo impiedosamente expostos. Merecemos ou não algum tipo de salário adicional de insalubridade?

Pode-se recorrer à medicina mais uma vez para construir outra analogia. A homeostase é um fenômeno  clínico   insinuado pelo fundador da homeopatia Samuel Hahnemann, comprovado pelo pai da medicina  experimental Claude Bernard ,e finalmente desenvolvido como tese pelo médico norte americano Walter Cannon, o qual cunhou o termo que em conjunto com suas pesquisas lhe rendeu um premio Nobel de medicina. Este fenômeno se presta a explicar as condições estáveis que o organismo precisa ter para conseguir manter o equilíbrio das funções corporais. Ele é quase equivalente à saúde e seus mecanismos adaptativos que executam muitas diante de um meio altamente instável, uma admirável atividade com a finalidade de preservar a harmonia entre aparelhos e sistemas orgânicos.

Isso significa que, mesmo num momento de alta turbulência, a sociedade também pode ser comparável aos sistemas orgânicos e deve encontrará meios de reagir/adaptar-se às turbulências naturais (moléstias e epidemias)  ou artificiais (armadilhas frutos de messianismo jurídico) . Os mecanismos de defesa podem sobrevir através de crises febris, eliminações violentas, sintomas agudos ou insidiosos. Alguns sintomas amedrontam, mas eles significam resposta, vale dizer, que o paciente está imunologicamente hígido e em plena mobilização das forças da sua vitalidade.  Mesmo assim, pode não ser suficiente, ele pode precisar de novo impulso para sair do estado defensivo e enfrentar aqueles agentes agressores, ou no caso da nossa analogia  pessoas ou partidos que desrespeitem a constituição. Como sempre, existem os piores que — aqueles que por exemplo sequer a assinaram — como é o caso do governo anterior e de seus partidos terceirizados.

Sem conseguir a estabilidade homeostasica, o prognóstico é mais ou menos previsível, desceremos a um quadro séptico generalizado, a tal infecção sistêmica.

Ninguém é ingênuo o suficiente para atribuir a vastidão da crise como responsabilidade única de Lula, PT e seus apoiadores, mas é evidente que, sob o discurso ideológico populista estes ativamente fermentaram o imbróglio, para que a massa danosa crescesse de forma descontrolada. Para, enfim, criar um banquete corrupto de proporções épicas, talvez sem parâmetros comparativos com outros escândalos da história política-policial mundial. Cálculos grosseiros indicam mais dinheiro desviado do povo brasileiro nos últimos 13 anos do que aquele empregado, por exemplo, no plano Marshall para reconstrução da Europa no pós  guerra.

Ninguém está mais digerindo o ativismo jurídico ou a lentidão voluntária com que os impasses estão sendo cozidos no vapor do caos. Antes que o grande vomito jorre até a boca e a anomia torne-se a política oficial, seria desejável costurar uma união cívica também sem precedentes. Agora é chegada a hora da legitima defesa e o único consenso possível que resta em nossa débil resistência é encurralar aqueles (incluindo instituições aparelhadas) que dominaram o Estado para desmonta-lo. Ou será melhor esperar a incineração sentados?

Resenha de “Céu Subterrâneo” no Jornal da USP
»

Home > Cultura > Busca por identidade e fuga do anonimato são temas de romance

Busca por identidade e fuga do anonimato são temas de romance

“Céu Subterrâneo”, de Paulo Rosenbaum, retrata a angústia existencial de um professor universitário aposentado compulsoriamente

Por – Editorias: Cultura
Compartilhar no FacebookCompartilhar no Google+Tweet about this on TwitterImprimir esta páginaEnviar por e-mail

Paulo Rosenbaum - Foto: Cecília Bastos/USP Imagens
Paulo Rosenbaum, autor de Céu Subterrâneo – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

.
Desde a Antiguidade, o homem se questiona sobre sua origem, seu propósito e sua vocação. A angústia dessas dúvidas sufoca aqueles que aspiram a ser lembrados pela história, mas estão à mercê da trivialidade. Adam Mondale, protagonista do romance Céu Subterrâneo, segunda obra do médico Paulo Rosenbaum, começa a se incomodar com essa angustiante possibilidade após se aposentar compulsoriamente da vida acadêmica.

Depois de dedicar sua carreira ao estudo do comportamento de animais e ter exercido o cargo de diretor do Instituto de Psicologia (IP) da USP, a personagem fictícia se vê fadada ao esquecimento, à mediocridade do anonimato. Superficialmente impulsionado pela ambição, Mondale decide dar uma reviravolta em sua vida e garantir seu lugar ao sol.

Ao encontrar um misterioso e danificado negativo de polaroide em sua viagem a Israel, o acadêmico judeu acredita que seu achado pode ressignificar a história da humanidade que conhecemos. A imagem fracamente projetada pelo negativo mostra uma gruta intocada, com escritos em diferentes línguas e um pé muito maior do que o de qualquer outro hominídeo.

Além da aventura arqueológica, ao longo dos capítulos Rosenbaum apresenta ao leitor flashbacks de Mondale que revelaram que suas questões superam a mera vaidade. “No fundo, a busca é por identidade”, diz Rosenbaum. “Mondale é um professor que viveu a vida inteira para a Universidade e perdeu isso. O que que ele vai fazer agora? O que ele vai buscar? Por ser judeu, ainda que laico, ele vai atrás de suas tradições. Ele vai buscar aquilo com que ele possa se identificar. Esse é o motor dele, aquilo que move o sujeito no mundo.”

Processo criativo

Para produzir seu segundo romance, Rosenbaum viajou até Israel com o apoio de uma bolsa literária cedida pela Fundação Mamash. No país, o autor se hospedou na cidade de Hebrom, especialmente marcada pelo conflito israelo-palestino pelo controle do Túmulo dos Patriarcas, onde estariam enterrados os casais Adão e Eva, Abraão e Sara, Isaac e Rita e Jacó e Lia.
.

Paulo Rosenbaum - Foto: Cecília Bastos/USP Imagens
Paulo Rosenbaum conversou com grandes nomes da literatura israelense – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

.

Por muitos séculos, o túmulo esteve sob poder dos árabes. Somente após a Guerra dos Seis Dias, em 1967, os judeus retomaram o controle sobre o território. Na época, foi realizada uma missão arqueológica israelense à região, que inspirou a trama do romance: a fim de desvendar o que havia na gruta do túmulo, uma garota de 12 anos, filha de um dos militares que coordenava a escavação, adentrou a caverna milenar por um buraco estreito, pelo qual mais ninguém conseguiria passar. A menina reportou aos militares e cientistas o que encontrara, mas a missão foi abafada pelos governantes para evitar confrontos ideológicos acerca da “invasão” aos túmulos sagrados. A partir dessa história, Rosenbaum criou o enredo da polaroide, que seria um vestígio dos fantásticos e intocáveis segredos que a garota vira.

Durante a viagem, o autor também teve a oportunidade de conversar com grandes nomes da literatura israelense, como Amos Oz e Amalia Kahana-Carmon. Trechos das entrevistas estão diluídos na ficção, que revela ao leitor traços da personalidade de cada escritor e suas relações ímpares com o fazer literário.

Foto: Reprodução
O novo livro de Rosenbaum – Foto: Reprodução

Além dos contatos privilegiados, Rosenbaum também se aproximou do cotidiano popular de Hebrom. “Quis ficar num lugar central, perto dos mercados, onde está a vida do povo. Não queria uma vida turística”, explica. “É ali que você acha o modo prático de como as pessoas vivem e se relacionam. Não na universidade, no meio político ou no Exército. É no meio das relações interpessoais que você encontra a verdade de um povo. Foi o que eu tentei captar. O grande desafio é transformar isso em algo literário.”

Sobre o autor

Céu Subterrâneo (Perspectiva, 2016) é o segundo romance de Paulo Rosenbaum, médico que há décadas concilia os consultórios com a veia literária. Seu romance de estreia foi A Verdade Lançada ao Solo (Record, 2010). Antes disso, aos 20 anos, publicou seu primeiro livro, Impreciso Emigrar, uma coletânea de poesias editada por Massao Ohno, em 1979. Nessa época, estudava Filosofia, curso que não chegou a concluir por trocar pela Medicina.

Fez mestrado, doutorado e pós-doutorado na Faculdade de Medicina (FM) da USP e publicou 12 livros nas áreas de medicina preventiva e epistemologia da medicina.

Céu Subterrâneo, de Paulo Rosenbaum, Editora Perspectiva, 254 páginas, R$ 49,00.

Pessach para todos os êxodos do mundo (Blog Estadão)

O apego ao território pode ser doloroso. Transitar entre fronteiras nunca foi fácil. Um dia, pode ser preciso deixar tudo. Da tarde para a noite. Se o desterro é involuntário, o abandono pode ser voluntário. É o momento no qual todas as identidades são julgadas como uma só. Sabe-se da nebulosidade dos dias deixados para trás, da atmosfera que está adiante sem que ninguém possa prever nada. Renunciar às ancestrais marcas gravadas é deixar um inconfundível rastro de descontinuidade. O sonhos dos imigrantes não é similar aqueles dos nativos. O sonho do imigrante é abrigar-se da insuportável pressão que risca o solo.  Quem vai e quem fica? Sair de uma terra que não é sua é vagar na inconstância, não reconhecer as encostas, estranhar as margens, e num último passo, romper com as barreiras sanguíneas para estranhar as familiaridades. Desconhecer-se em lugares estrangeiros é migrar ao desconforto. Estranha-se o solo, cambia-se de margem e o mar fixa-se como a miragem ultrapassada. O percurso requer milagres, da natureza, dos outros homens, de um Deus que, mesmo invisível, costuma ser convocado para ações concretas. O primeiro Êxodo, já se intuía, não seria o último.

Vagar, parece, é errar em particularidades, o avesso das estabilidades. E o destino é um nômade sem líder.  Aquele que faz extraviar com o sorriso da convicção. Arriscar a sorte é rebelar-se contra o império do senso comum. É passar ao largo das opiniões formais, é destituir a eloquência, que, pasteurizada, muda o tom sem imaginação. O deserto te parece hostil? A areia te desmancha o passo? Este é o ponto em que se pode aceitar que, talvez, não haja mesmo escolha. É provável que toda trilha de vida contenha ao menos um êxodo. E a marcha dos milhões deslocados recomeça todos os dias. Ainda que nunca tenha havido uma cronologia para o exílio o que está garantido é a fração de um outro tempo. Quem é expulso precisa de refugio? Encontraremos uma trajetória até que cada um alcance uma Canaã pessoal? A terra prometida do singular? O mundo é um lugar tenso e nunca se sabe bem qual será a rotação das birutas. Mesmo assim, sob o chicote do tempo inacabado, continuamos na migração possível. Num parque que não nos informará a distância até o fim. Só os escravizados conhecem a opressão. E, mesmo eles, não detectam a tirania ou a mão que costuma redigir e escrever os decretos que revogam a liberdade.

Reféns da guerra autorenovada, estamos sendo substituídos por máquinas programadas para não sentir o tempo. O Oriente recusa-se a aceitar os artifícios de uma era que sonha apagar os pertencimentos. Como se todos os registros pudessem ser obsoletos. É então que as emancipações são canceladas. Viraríamos, resignados, coleções que jamais comportariam singularidades. A política mudaria para o acaso, e o afirmativo geraria simulacros de tolerância. Ou, a renúncia cansativa pelas derrotas ininterruptas. Por isso e para isso, a evolução nos impôs a memória. Genética ou não, eis a única força com potencial regenerador. Ai poderia estar a importância da mesa posta com lembranças.

O menu histórico é constituído por reais de sujeitos. Histórias com desdobramentos que, se implausíveis, preservariam a beleza do mundo. O convívio. O primeiro Êxodo, o do Egito, depois repetido no Shoah, apreciado de longe, deve funcionar hoje como inspiração para os povos forçados a atravessar desertos inacabados. Hoje, diante de gerações expostas a mais um ciclo de nebulosidade venenosa, restaria pedir perdão. Nem isso faremos. Estes amanhãs de erros antigos que os não Estadistas nos reservam como herança, podem requerer novas exigências antropológicas. O convívio precisará encontrar um novo significado.

Paradoxalmente, ao enxergar a fumaça que sopra contra a máscara da humanidade, poderemos antever outras conjugações. Desde que contenha o sopro que desloca os vícios da compreensão. Só a criatividade pode rodar a Terra para propor outras formas de vir a ser. Um novíssimo lugar para entender o valor do êxodo, de todos os êxodos do mundo.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/pessach-para-todos-os-exodos-do-mundo/

Resenha do livro ” Céu Subterrâneo” no Jornal da USP

http://jornal.usp.br/cultura/busca-por-identidade-e-fuga-do-anonimato-e-tema-de-romance/

 

Busca por identidade e fuga do anonimato são temas de romance

“Céu Subterrâneo”, de Paulo Rosenbaum, retrata a angústia existencial de um professor universitário aposentado compulsoriamente

Por – Editorias: Cultura
Paulo Rosenbaum - Foto: Cecília Bastos/USP Imagens
Paulo Rosenbaum, autor de Céu Subterrâneo – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

.
Desde a Antiguidade, o homem se questiona sobre sua origem, seu propósito e sua vocação. A angústia dessas dúvidas sufoca aqueles que aspiram a ser lembrados pela história, mas estão à mercê da trivialidade. Adam Mondale, protagonista do romance Céu Subterrâneo, segunda obra do médico Paulo Rosenbaum, começa a se incomodar com essa angustiante possibilidade após se aposentar compulsoriamente da vida acadêmica.

Depois de dedicar sua carreira ao estudo do comportamento de animais e ter exercido o cargo de diretor do Instituto de Psicologia (IP) da USP, a personagem fictícia se vê fadada ao esquecimento, à mediocridade do anonimato. Superficialmente impulsionado pela ambição, Mondale decide dar uma reviravolta em sua vida e garantir seu lugar ao sol.

Ao encontrar um misterioso e danificado negativo de polaroide em sua viagem a Israel, o acadêmico judeu acredita que seu achado pode ressignificar a história da humanidade que conhecemos. A imagem fracamente projetada pelo negativo mostra uma gruta intocada, com escritos em diferentes línguas e um pé muito maior do que o de qualquer outro hominídeo.

Além da aventura arqueológica, ao longo dos capítulos Rosenbaum apresenta ao leitor flashbacks de Mondale que revelaram que suas questões superam a mera vaidade. “No fundo, a busca é por identidade”, diz Rosenbaum. “Mondale é um professor que viveu a vida inteira para a Universidade e perdeu isso. O que que ele vai fazer agora? O que ele vai buscar? Por ser judeu, ainda que laico, ele vai atrás de suas tradições. Ele vai buscar aquilo com que ele possa se identificar. Esse é o motor dele, aquilo que move o sujeito no mundo.”

Processo criativo

Para produzir seu segundo romance, Rosenbaum viajou até Israel com o apoio de uma bolsa literária cedida pela Fundação Mamash. No país, o autor se hospedou na cidade de Hebrom, especialmente marcada pelo conflito israelo-palestino pelo controle do Túmulo dos Patriarcas, onde estariam enterrados os casais Adão e Eva, Abraão e Sara, Isaac e Rita e Jacó e Lia.
.

Paulo Rosenbaum - Foto: Cecília Bastos/USP Imagens
Paulo Rosenbaum conversou com grandes nomes da literatura israelense – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

.

Por muitos séculos, o túmulo esteve sob poder dos árabes. Somente após a Guerra dos Seis Dias, em 1967, os judeus retomaram o controle sobre o território. Na época, foi realizada uma missão arqueológica israelense à região, que inspirou a trama do romance: a fim de desvendar o que havia na gruta do túmulo, uma garota de 12 anos, filha de um dos militares que coordenava a escavação, adentrou a caverna milenar por um buraco estreito, pelo qual mais ninguém conseguiria passar. A menina reportou aos militares e cientistas o que encontrara, mas a missão foi abafada pelos governantes para evitar confrontos ideológicos acerca da “invasão” aos túmulos sagrados. A partir dessa história, Rosenbaum criou o enredo da polaroide, que seria um vestígio dos fantásticos e intocáveis segredos que a garota vira.

Durante a viagem, o autor também teve a oportunidade de conversar com grandes nomes da literatura israelense, como Amos Oz e Amalia Kahana-Carmon. Trechos das entrevistas estão diluídos na ficção, que revela ao leitor traços da personalidade de cada escritor e suas relações ímpares com o fazer literário.

Foto: Reprodução
O novo livro de Rosenbaum – Foto: Reprodução

Além dos contatos privilegiados, Rosenbaum também se aproximou do cotidiano popular de Hebrom. “Quis ficar num lugar central, perto dos mercados, onde está a vida do povo. Não queria uma vida turística”, explica. “É ali que você acha o modo prático de como as pessoas vivem e se relacionam. Não na universidade, no meio político ou no Exército. É no meio das relações interpessoais que você encontra a verdade de um povo. Foi o que eu tentei captar. O grande desafio é transformar isso em algo literário.”

Sobre o autor

Céu Subterrâneo (Perspectiva, 2016) é o segundo romance de Paulo Rosenbaum, médico que há décadas concilia os consultórios com a veia literária. Seu romance de estreia foi A Verdade Lançada ao Solo (Record, 2010). Antes disso, aos 20 anos, publicou seu primeiro livro, Impreciso Emigrar, uma coletânea de poesias editada por Massao Ohno, em 1979. Nessa época, estudava Filosofia, curso que não chegou a concluir por trocar pela Medicina.

Fez mestrado, doutorado e pós-doutorado na Faculdade de Medicina (FM) da USP e publicou 12 livros nas áreas de medicina preventiva e epistemologia da medicina.

Céu Subterrâneo, de Paulo Rosenbaum, Editora Perspectiva, 254 páginas, R$ 49,00.

Meditativas 1 – (Blog Estadão)

O Presente instante,

recusa adiantes
Desafio de principiante,
A constância da presença

Demanda expressa insistência

Estar já, aqui,

pressupõe reter o momento
negar o automático

Livrar-se da primazia do acabado
Move o sentido, atento

É o nada anterior, flutuante
Mescla fresca de sensações

Absorve do murmúrio interior
O conjunto de fixações,
As percepções Ambulantes

Suspender juízos,
Selecionar imagens
Voos seletivos,
Paradas, instantes
Comandos ignorados

de costumes desconhecidos

E dominantes

Representar-se, intenso

renegar a pressa
Para aqui, inteiros
Lançados na luta,

a principio, perdida

conter a dispersão permanente

recusar a condição persistente

aquietar-nos os murmúrios

Até a resposta do Mergulho:

silencio ou barulho?
Preso no sonho
Das gaiolas imanentes
No forro da memória
Sopra, agora
Oscila, impermanente
Modula, afora

Embora o mundo
Imponha incondicional rendição
Que se fixe atenção
No existir sem imposição
Na Negação do estilo:

Notar, enfim, a distinção

colossal e discreta

entre efêmero e efemérides.

Processos e meta.