Ensaios contra a inércia da repetição e da neutralidade diante da Shoah* Paulo Rosenbaum** Publicado no Arquivo Maaravi

NASCIMENTO, Lyslei. Despertar para a noite e outros ensaios. Belo Horizonte: Quixote-Do, 2018. 178p.

Ensaios contra a inércia da repetição e da neutralidade diante da Shoah*

 

Paulo Rosenbaum**

São Paulo, Brasil – rosenbau@usp.br

 

Em Despertar para a noite e outros ensaios, Lyslei Nascimento realiza uma abordagem multifacetada sobre a Shoah, também conhecido por Holocausto. Como é notório, mas nunca inoportuno frisar, trata-se do exterminio sistemático de judeus como Politica de Estado, levada a cabo pelo regime nacional socialista alemão com apoio e omissão de outros povos e Estados Nacionais. Ao mesmo tempo, a coletânea lança um facho de esclarecimento sobre o contra-intuitivo retorno – ou o fim de uma curta e hesitante hibernação – do antissemitismo em nossos dias.

De acordo com Wander Melo Miranda, que prefacia o livro, “na forma de vestigios, rastros ou residuos, a reminiscencia se constitui no intervalo entre o não contar para esquecer e o narrar para sobreviver”.1

 

Talvez porque estejamos diante de uma violência tão inimaginável que a linguagem não consiga abarcá-la por completo. A partir desse ponto de vista, a situação-limite da Shoah é sombria. No entanto, não estamos num vazio, mas entre fragmentos, ruínas e cinzas, “coisas” em estado de dicionário, como queria Carlos Drummond de Andrade, que parecem trazer de longe, ou de não tão longe na história, “entre o ser e as coisas”, vozes que não podem ser apagadas.

(Lyslei Nascimento)

 

Ao se dedicar a estudar livros e filmes, portanto, aspectos iconograficos e literarios, Nascimento atravessa um vertiginoso painel de autores e cenas que não só impressionam pela amplitude e pela erudição, como tambem, e principalmente, por trazer à vida uma literatura não solicitada. Isto é, a pesquisadora retoma as vozes não audiveis, as escassas, aquelas ainda — e para sempre – indiziveis, que – numa era na qual, erroneamente, considerava-se sepultado o espectro de intolerancia etnico-racial – não encontram mais lugar para testemunhar. Esse restauro das vozes adquire especial importância ao testemunharmos a onda em curso que procura reescrever com penas revisionistas a historia. Como se a aplicação de tintas mutantes resolvessem o problema produz-se, sob a alegação de cunho vergonhosamente ideológico, neo-ideologias justificacionistas.

Como afirma a ensaista no capitulo em que evoca, muito oportunamente, dois poetas brasileiros que também se ocuparam do tema da Shoah, Vinicius de Moraes e Jorge Amado:

A imperiosa necessidade de se revisitar o episodio da Shoah, delinea-se, para o escritor e para o leitor, como um empreendimento impossível de ser apreendido e contornado, mas nunca soterrado”.2

Isso significa que a escavação se processa em camadas e, assim como o arqueólogo, autor e leitor devem recolher, por intermédio do paradigma indiciário daquele que foi um dos mais abomináveis eventos da história ocidental, fragmentos e ruinas, para, enfim, reconstituir aquilo que o pesquisador italiano Carlo Ginzburg chamou de micro-historia. Para o autor de Mitos, emblemas e sinais, o exame da história pode obter outra abrangencia ao incorporar os aspectos qualitativos e individuais dos grandes eventos cronologicos. Trata-se de uma investigação que procura se apropriar e inspecionar as particularidades quase idiossincrasicas dos fenomenos históricos.

É com esse enfoque epistemológico que a autora esmiuça – por intermédio do cuidadoso levantamento literário-iconográfico – os arquivos culturais produzidos pelos vários enfoques hermenêuticos inspirados pela Shoah e afiança que nela ficou evidente a igualdade da condição humana, independente de quaisquer fatores culturais ou religiosos.

Sendo assim, para a ensaista:

 

Nascimento passeia com destreza no seu campo de analise que é o da literatura comparada e consegue, por meio das muitas referências culturais e historiográficas, situar o leitor para além do campo da indignação pura e da perplexidade paralisante. Ela nos faz pensar nos múltiplos aspectos da Shoah, investindo, de um lado na “voz dos vencidos” e, de outro, situando a catástrofe no campo de uma fenomenologia ainda – ou perpetuamente – incompreensível. Ao mesmo tempo, a pesquisadora não cai na armadilha do “fato histórico” como inexorabilidades inexplicáveis. Ela investe seu esforço na resposta vigorosa que a arte e a cultura se esforçaram para reparar o indizível.

A autora oferece, desse modo, uma síntese de seu trabalho: a Shoah, apesar do vasto e importante material produzido pela história, pelo cinema, pela literatura e artes em geral, ainda sofre reveses de discursos revisionistas e negacionistas. No mundo e, infelizmente, também no Brasil. Nesse sentido, o critério para a seleção desses ensaios foi estudar alguns escritores e artistas que, a contrapelo dessa tentativa de esquecimento e de soterramento contemporâneos, produzem suas obras como alertas à valorização e ao respeito à vida.

Sem ceder ao obscurantismo e tal qual a metodologia das discussões talmúdicas, a ensaísta se recusa ao reducionismo: não existe uma à guisa de conclusão”, nem mesmo uma insinuação de desfecho. Assim como em outros genocídios quando “o homem é o lobo do homem” não há sinal de término, nenhum indicio de que aporias éticas possam ser elucidadas por meio e uma racionalidade asséptica. Quando se trata de holocausto, o predomínio é de uma razão exaurida, ainda que jamais vencida. Por isso, não será exagero afirmar que o livro tem um tônus desbravador na luta contra a inércia da repetição e da neutralidade.

As exortações vem de comunicações pessoais da própria autora. Nesse sentido, mesmo sabendo que não conseguirá tudo, o escritor, o artista, e nós, os leitores, devemos ser incansáveis e equilibrar-se, portanto, entre o sono (o sonho) e a vigilia é fundamental. Vivemos num tempo de monumentos estéreis, nesse sentido, os pequenos relatos que escapam à grandiloquência devem ser trazidos á  luz, sem mistificações.

 

“Cercar o fato historico em sua barbárie e contorná-lo pela palavra ou pela arte, costurando textos e registros infames, é sobretudo, lançar-se numa tarefa que, de antemão, já se anuncia como incompleta, residual, barbara”. 3

 

A extensão da terra devastada do que, tambem, já foi chamado de “o maior drama da história ocidental” e as repercussões transgeracionais do genocidio organizado pelos nazistas sempre impedirão qualquer sintese e, provavelmente, obnubilarão a tentação da explicação única, cabal.

É desse espanto e dessa impossibilidade de reduzir o evento que nasceram as mais variadas explorações que a pesquisadora escrutiniza nestes ensaios.

Para quem tem dúvidas de que se trata de um livro com vocação canônica, basta atentar ao sumário. Ele já desvela, desde o início, a extensão e a abrangência da pesquisa de Lyslei Nascimento: “Despertar para a noite: a memória da Shoah”; “Jorge Luis Borges contra o nazismo”; “Poetas em tempos sombrios: Vinicius de Moraes e Jorge Amado”; “A miniaturização do mundo em A Guerra no Bom Fim, de Moacyr Scliar”; “Ver: Shoah: o romance e a enciclopédia em David Grossman”; “Crime no gueto: Os anagramas de Varsóvia, de Richard Zimler”; “Humor e Shoah: O trem da vida, de Radu Mihaileanu”; “O tango e o tango dos Rashevski” e “Arquivos possíveis: Sob céus estranhos, de Daniel Blaufuks”.

Em cada um desses tópicos, o leitor atravessará um universo de perspectivas incomuns. A autora poderia limitar-se à análise sociológica da literatura, mas, sem a abandonar, ela arrisca-se para compreender a dimensão poética dos textos. E é precisamente essa originalidade que, ao percorrer as péginas, o leitor não deixará de notar uma das caracteristicas marcantes no texto: a ousadia não alinhada, o raro traço da independência intelectual.

Um livro essencial, sólido, concebido e escrito em um período histórico no qual até a busca pela verdade tornou-se estéril e rarefeita.


1 MIRANDA, 2018, p. 13-17. 2 NASCIMENTO, 2018, p. 77.

2
Arquivo Maaravi: Revista Digital de Estudos Judaicos da UFMG. Belo Horizonte, v. 13, n. 24, maio 2019. ISSN: 1982-3053.

 

3

NASCIMENTO, 2018, p. 77.

Recebido em: 30/03/2019. Aprovado em: 10/04/2019.

* Uma versão desta resenha foi publicada no jornal O Estado de São Paulo (São Paulo, 4 jan. 2019), disponível em: https://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de- noticia/despertar-para-a-noite/.
** Medico e Doutor em Ciencias pela Universidade de São Paulo, poeta e romancista.

 

Inquietude de si ou Epimeleia (Blog Estadão)

Um experiente professor de Medicina sugeria — o tempo não pode ser administrado intuitivamente — que deveríamos organizar a duração da existencia da seguinte forma:

33% dizima periódica: família,

33% dizima periodica trabalho

33% dízima periódica, questões pessoais.

A pergunta fundamental é como preservar o espaço reservado para as idiossincrasias pessoais geralmente esmagado pelas outras demandas. Estudos mostram que quanto mais integrados em redes sociais, virtuais ou não, a sensação de isolamento e solidão é relatada com cada vez mais frequente. A psiquiatra engendrou como patológicas as categorias “anti-social”, “fobia social” e “misantropia” portanto nosologias dignas da tentação de preconizar terapêuticas medicamentosas. Porém é muito difícil afirmar se e quando estas situações requerem a aplicação de psicofármacos sem uma munuciosa investigação. Uma investigação existencial. Infelizmente nem sempre esta etapa ocorre. E ela não pode ser feita só através de exames laboratoriais. Avaliar a subjetividade e fazer os diagnósticos diferenciais pode exigir bem mais do que uma boa anamnese.

Categorias nosológicas da psique podem ser confundidas com características pessoais tais como de sujeitos reservados, com desejo de solidão, hábitos melancólicos, isolamento reflexivo, apartamentos regulares visando estados meditativos. Não é impróprio dizer que graças a elas, criatividade e imaginação fertilizam o mundo. Também é redundante lembrar que boa parte da literatura e obras artísticas icônicas não teriam vindo à luz sem o respeito à estas naturezas.

Os introspectivos, aliás, tem sido alvos de uma prática terapeutica selvagem. São casos de overdiagnosed e bullyings voluntários ou involuntários carreados pelos esteriótipos alardeados pelas mídias e reproduzidos nas salas de aula, escritório e espaços de convivência. Eles seriam, até prova em contrário, seres incomodos, potencialmente perigosos ao conjunto social. Uma acusação que se confunde com o risco. Como ousam? O crime? Recusar-se a pertencer às tribos e egregoras sociais.

São territórios inconfundivelmente distintos: casos graves merecem tratamento clínico medicamentoso, especialmente quando há sofrimento e angústia pela incapacidade de participação e integração. Por outro lado existem características que não podem ser etiquetadas com tanta facilidade. Trata-se não de moléstia, mas de atos da vontade humana. Alguns nascem com uma sensibilidade especial: o discernimento mais fino entre o eu os outros.  Há quem escolha, por vezes, cultuar a invisibilidade.  Entre a integração com a massa de sujeitos indiscerníveis ou orientarem-se ao si mesmo, alguns consideram mais aprazível experimentar emancipar-se dos conglomerados. Podem sofrer, mas ainda assim reafirmam seu direito de exercer as características pessoais.

Boa parte dos casos de individuos assim chamados outsiders não são mórbidos. Entretanto nao é incomum que suas preferências tendam a imputar-lhes diagnósticos preconceituosos, muitas vezes injustos. Não se pode esquecer da manipulação ideológica. A gravíssima investida política contra a liberdade quando o sistema de saúde soviético instruía rotular dissidentes políticos como “refusiniks” então considerada por lá uma doença mental.

Agora invertarmos o raciocínio: qual levantamento estatístico não se renderia a quantidade de pessoas perfeitamente normais e socialmente adaptadas que cometem crimes bárbaros e atos cruéis? Sabidamente há individuos perfeitamente integrados em comunidades cuja ideologia coletiva de doutrinação de sujeitos  — dos jihadismo aos supremacistas — com ideias e comportamentos incomparavelmente mais deletérios do que os vilipendiados nerds, que, por sua vez, apenas gostariam de ser deixados em paz.

Sua inadequação, antes, refere-se a um padrão construído por uma normatização que nasceu das estatísticas, de consensos psiquiátricos e de critérios vulgarizados pelo senso comum. O freak, o esquisitão, o excentrico, o zoado, o podado, o caladão, é, enfim aquele que foge do desvio padrão estatístico.

Da mesma forma pouco se pondera o quanto as multidões são melancólicas. A força que ela emana está no efêmero, nas exuberâncias dissipáveis, na transcendência horizontal, como sagazmente apontou Aldous Huxley. Dificil para a maioria inverter o trabalho do pensamento e perceber que sempre que o sujeito desaparece atrás das médias é você quem está sendo apagado. Por instantes cogite: e se a aparente instabilidade da solidão revelar um mérito oculto? E se as pessoas que decidem viver mais isoladas desenvolvessem mais sonhos e inspirações do que agrupamentos eufóricos pouco criativos?

As coletividades tendem a impor a decisão de como deves viver. A ética que deves obedecer. O comportamento que deves adotar. Se este é o preço do convívio é preciso responder: sacrificas tuas idiossincrasias pelo que?

Normalmente sacrifícios envolvem uma decisão heróica: construir a abstinência construtiva, aceitar um retiro que emancipa, ou aderir à renúncia que elege o bem comum como prioridade. Destarte, nenhum altruísmo deveria impedir o exercício das particularidades de cada sujeito.

Para os adeptos da solidão voluntária a vida social compulsória é apenas um desvio de função. Isso é, para quem sente assim, a obrigatoriedade ao convívio grupal é um substitutivo, uma tortura que ocupa o lugar da vida interior pois compete com a prioridade vital: ocupar-se de si mesmo. Para os gregos essa busca pode ser sintetizada através do termo epimeleia. Inquietude de si, ou “ocupar-se de si mesmo” e com suas próprias coisas não significa desinteressar-se pelos demais, tampouco mergulho narcisista, mas achar uma justa medida num acerto mais generoso consigo mesmo.

E o mais comum — em todas as épocas — é que o espaço de quem dá preferencia para dar voz ao espaço interior seja expulso pela vida artificial, engolido pelo excesso de arredores. Em nossos dias a agudização se dá pela falsa percepção de que estamos sempre acompanhados por algum tipo mágico de algoritmo solidário e do elogio do compartilhamento como um mérito per se.

Sociólogos afirmam que os espaços de privacidade tal como a conhecemos estão com os dias contados. Numa sociedade que vive conclamando tolerância à diversidade que tal prezar a introspecção. E enaltecer o “ocupar-se de si mesmo?”

Sua fração ideal de 33% e quebrados agradece.

Inquietude de si ou Epimeleia

O papelão antissemita do NYT (Estadão)

A charge antissemita publicada ontem pelo jornal norte New York Times é um divisor de águas em vários sentidos. Não somente pelo mau gosto, prerrogativa de escolhas estéticas equivocadas, mas pela provocação, o espírito que adora espalhar impensáveis malidiscências. Aprovado pela editoria, a insinuação grotesca retrata um dos vícios mais recorrentes que é universalizar a imagem do judeu como cão submisso à um presidente cego usando solidéu. Uma imagem que oscila entre a velhacaria e a manipulação.

Sim, o NYT já fez a autocritica. Sim, vieram os indevidos — pois trata-se da velha e indesculpável repetição dos dicurso de ódio travestido de coisa espirituosa progressista — pedidos de desculpas, mas depois da editoria ter aprovado a “charge” e a divulgado macicamente em mais de 100 países. Vale dizer, o perdão é tardio quando o gênio mefistotélico já deixou a garrafa. E ainda é possível ler comentários pouco iluministas classificando o recuo como obra do “lobbie judaico”, versão de antanho da orquestração de domínio do mundo. Pseudo argumento eclético usado conforme convém pela esquerda e pela direita.

O antitrumpismo e a mídia que o representa, numa espécie de associação à revelia com a extrema direita e a extrema esquerda (não muito distinto do que acontece entre nós) associa-se sem pudor à perseguição e à generalização para demonizar Israel e os judeus.

É de fato muito perturbador observar como tornou-se facil e confortável naturalizar a intolerância seletiva. Quando promovem-se campanhas desqualificadoras atacacando a associação entre minorias mais impunenemente criticáveis e os governos que acordaram e passaram a denunciar o clarísismo viés antissionista e portanto predominantemente antijudaico das mídias.

Pois sim, existem aquelas “minorias” como por exemplo o jihadismo islâmico que seguem quase intocáveis pelo estranho medo de incorrer na igualmente erronea generalizacão islamofóbica. Apenas imaginem a repercussão — e os desdobramentos de violência — se  chargistas e editores  escolhessem outros personagens para representar.

Como recentemente afirmou o filósofo judeu francês Alain Finkielkraut a propósito da perseguição sistemática que tem sofrido por parte da extrema esquerda:

“O engajamento vampiriza o jornalista”

E é muito mais do que isso, retira o sangue da informação decente. Trata-se de uma anemia covarde e que merece diuturna denuncia. Quem vai dando voz à cizania tem que assumir a responsabilidade: será condenado a recolher os cacos. Por sua vez, dentro de todo democrata ressentido há um sabotador. São aqueles que, por princípio. não aceitam o resultado de eleições livres a não ser que a vitória de seus preferidos esteja assegurada. Como os gregos não previram tudo, será necessário repensar e transformar a própria democracia.

Só haverá uma resposta à altura deste ato ignominioso como o que promoveu desta feita o NYT. O antes promotor de causas humanistas e intransigente defensor dos valores como justiça e equidade precisará descer da sua supremacia ideológica e da sempre infundada soberba intelectual para reaprender que a função jornalistica é nobre demais para “costurar” versões hostis para desqualificar oponentes. Muito menos promulga-las como se estivesse no escopo da ética e da decência defender causas corretas contra povos, governos ou instituições que lhes desagradem.

Algumas publicações nacionais e espanholas poderiam também pegar carona na reciclagem. Recentemente surgiu o curso “Dessensibilização catártica para jornalistas ressentidos: o segredo de como voltar a fazer um jornalismo não instrumental”. O curso começa em duas semanas e é semi presencial.

Obs- Ainda não há turma formada.

O papelão de almanaque do NYT

Citação

Poesia para a política — Paulo Rosenbaum

Poesia para a política Em joules, quanta energia torramos nos últimos tempos com desvios de verbas, corrupção, favorecimentos, informações privilegiadas, fraudes, impostos escorchantes, uso político da máquina, mentiras prudentes, juros campeões do mundo? Não creio que seja possível mensurar em joules ou em qualquer outra escala física o tamanho da hemorragia que todas estas forças, […]

via Poesia para a política — Paulo Rosenbaum

A Travessia de Moisés III – Epílogo (Estadão)

XupUpzrEQCa6ZtwctJbM9g

Moisés e Josué no alto da montanha observam, perplexos, um cenário confuso na planície

Ao ver o povo recém libertado adorando ídolos. conversam:

Mas o que significa tudo isso?
Balbúrdia mestre, balbúrdia
Depois de todo esforço? Depois do que Ele fez para organizar tudo? Mas o que eles querem?
Um lider, mestre, exigem um grande líder
E o que sou eu?
O Melhor dos melhores mestre!
Sem puxação, por favor
Não é isso mestre é que…
Fale logo homem
Eles querem um tipo específico de líder.

“Tipo específico”?

Sim Mestre, um populista
Perdão, significa que?
O senhor deu muitas regras, ordens, estabeleceu marcos civilizatórios

E…?

Eles não estão interessados em responsabilidades

Notei.

Preferem gente que prometa tudo.

Não pedi para vir até aqui, o que fiz foi inspirado pelo Altíssimo para fazer justiça

Pssiu fale baixo, imploro mestre.

Por que? Agora não se pode mais nem mencionar a palavra justiça?

(Varios anciões que estavam reunidos em assembléia permanente imitaram Josué pedindo silêncio a Moisés)

Então explique, o que é que está acontecendo? Levando as mãos à cabeça.

O senhor andou distante mestre aqui acima do planalto. É compreensível que esteja um pouco alienado da situação lá na planície.

Prossiga, por que não posso nem falar “aquela palavra”.

Estamos todos muito preocupados com essa palavra e o senhor hoje em dia as montanhas tem ouvidos mestre
(Aponta com os olhos para um grupo suspeito)

Corrija-me, entendi que há algum tipo de censura, entre nós. É isso? Mas onde estão aqueles que protestam contra os ataques à liver expressão?

Os progressistas, mestre?

Estes. Todos aqueles que sempre lutaram contra a tirania, a opressão, numca aceitaram ditadura venha de onde vier?

Como direi? gagueja o assistente.  É que a situação hoje é um tanto mais complexa. Eles agora parecem que nao acham a censura tão ruim assim.

Não? Oh Altíssimo, Supremo dos Exércitos.

(Intensificam-se pedidos de silêncio, agora em coro)

Moisés, por favor, menos, menos.

Vai dizer que também não posso invocar o Onipotente?

Não é isso, é aquela outra palavra.

Pois bem,se não é censura é o que então?

À boca pequena estão chamando de mordaça seletiva do contraditório.

Sei. Sofisticado. Eis um mundo mais do que maluco. E aquele pessoal mais tradicional, então são eles que agora defendem as liberdades?

Ah senhor (constrangimento na voz) Tampouco mestre, muitos querem outra ditadura.

Está bem, não esta mais aqui quem falou.

Josué apresenta um jornal antigo com trechos do “Lusíadas” de Camões.

Sim, conheço, excelente épico. Hoje é fácil falar, mas esse jornal mostrou coragem.

Josué faz uma mimica colocando a mão na boca indicando mordaça.

Entendi. Voce dizia que eles todos ali embaixo esperam progresso sem sacrifícios?

Isso. É mais ou menos isso mestre.

Então traduza por obséquio: o que afinal eles querem?

Mestre, na verdade eles não sabem o que querem.

É uma ilusão de ótica? Ou é o que estou mesmo vendo? E aquele bezerro? O que é que está fazendo ali? Por que estão se prostrando diante dele? São veganos radicais?

Pois é, na sua vacância do cargo…

“Vacância” Céus. Eu estava jejuando e pedindo por eles diretamente ao Todo Poderoso.

Eu sei mestre, mas esse pessoal tem aquela amnésia, sabe? Eles chamam de dissociativa.

Aqui não se pode nem piscar

Verdade mestre.

E para de me chamar de Mestre.

Certo Moisés.

E para de me chamar pelo nome egipcio, use o nome hebraico.

De acordo Mestre. Continuando, é que lá os líderes partiram para aumento de impostos, queriam fazer essa vaquinha

Vaquinha para fazer bezerro?

Pois é, meio engraçado, não é mesmo?

Só se for humor negro. Deixe-me recapitular então, eles estão doando, espontaneamente, para construir essa coisa grotesca com ouro.

Não é bem espontâneo senhor, tem também o fisco já cobrando impostos.

Aqueles confiscatórios?

Exato mestre, aqueles

Céus! Não aprendem nada nunca?

Eles se dizem cansados de esperar.

“E nem imaginam que serão décadas”

E por que um grupo está atacando o outro? Daqui de cima parece que ninguém se entende.

Daqui de cima? O senhor não faz ideia da situação lá de baixo. Aarão está tentando apaziguar as famílias, mas está dificil.

Mas por que lutam tanto entre si?

Hoje eles chamam de teoria “todos contra todos”

Não é muito esperto.

Não é.

(Moisés silencia e entra em meditação para consultar o Criador)

O assistente inquieto quer uma resposta ignorando o transe de Moisés:

O que podemos fazer para acalmar a situação?

Não seria má ideia gerar emprego e renda.

O tal milagre economico?

Caro, milagres é outro departamento. Aqui nós trabalhamos com o que temos. Trouxe aqui embaixo do braço uma nova constituição. Mais enxuta, menos confusa. Tudo isso eu recebi diretamente Dele. O que tem por ai, centenas de páginas de fios soltos, decretos sem sentido, leis anacrônicas e abuso de poder. Tudo isso é o resultado da má hermenêutica.

O que mais o mestre recebeu lá de cima?

Pode convocar quantas eleições gerais quiser, se as regras não estiverem claras, nada feito.

Mas mestre, abrimos as urnas há pouquíssmo tempo.

Que respeitem o resultado, parece que tem gente que não sabe interpretar o que está escrito.Tem algumas coisas sagradas lá e cá: voto é uma delas.

Estamos tentando, mas é que tem um pessoal meio ressentido, dizem que são “a resistencia”.

Tá de brincadeira, eu fui um dos que organizei a resistencia do Gueto de Varsóvia, eu inspirei pessoalmente a resiência francesa contra os nazistas. Quanta heresia. Convoque a assembléia, vamos fazer a ampla coalizão, mas só com quem quer ir adiante.

É para já Yekuziel.

Ah lembrou do meu nome. Mazal Tov.

Grato Mestre.

E, Josué?

Sim Mestre.

Não queremos velharias: vete os nostágicos dos dois lados.

Certo. Vamos montar uma chapa? Como vai se chamar?

Que tal Paz e Trabalho?

Desculpe, mas é meio batido Mestre. Achei que haveria uma fórmula mais original sabe, criativa?.

Filho, não tem mistério, slogans nunca resolveram nada e ainda não inventaram nada mais criativo do que o diálogo político.

Mas admita mestre, isso é a democracia? Não virou uma grande bagunça?

É verdade, mas não é melhor do que o tal todos contra todos?

Pode me falar, só aqui entre nós, o que o Criador cochichou para o mestre?

Assunto privado.

Mestre? Eu imploro.

Fica entre nós?

Claro mestre, sigilo absoluto, nunca vazo informação, nem para a imprensa, blogs pagos, mídias alternativas etc.

E Ele não cochichou, gritou. O que ouvi Dele foi: chega de firula, assuma, vá lá e governe.

(De chofre o céu que estava turvo se clareou e a cortina de fumaça que pairava sobre o acampamento sumiu)

Milagre Senhor, Milagre.

Não amigo esse é o grande presente do Altíssimo para a humanidade:  o divino discernimento.

Bom Pessach e Boa Páscoa

A Travessia de Moisés III – Epílogo

Para que servem os ciclos? (Estadão)

g

31.dezembro.2013

                                       Para que servem os ciclos, uma retrospectiva focal                                                                                     

 Nas várias civilizações o ano novo é um construção cultural. Observando a natureza, tudo tem ritmo e duração. Existe uma infinidade de ciclos: biológicos, meteorológicos, psicológicos e espirituais. Neste sentido, o tempo é uma espécie de régua que mensura e avaliza a duração, enquanto a intensidade impõe a cadencia. Esta característica do tempo é análoga à natureza dupla da luz, onda e partícula. Nosso organismo é um exemplo de que somos devedores de uma certa anarquia que se autocontrola. Funcionamos graças aos sistemas de retroalimentação que operam os ritmos do corpo. Os chamados biofeedbacks determinam a homeostase (estado saudável) ou a falta dela nos sujeitos. No final das contas, os ciclos são uma disritmia “controlada” responsável pela auto-regulação como já intuia o pré socrático Filolau de Crótona.

 

Isso vale para o bioma, o clima, os organismos e também para a política. Este foi um ano em que um ciclo de governo e de gerenciamento político pode estar chegando ao término. Ainda que o executivo e o legislativo tenham repetido sua habitual e decepcionante inércia histórica.

 

De que outro modo qualificar o dislate quando o chefe de uma das casas legislativas ressarçe a União como se fizesse grande favor? Que a linguagem do executivo, auto-eloquente e triunfalista, sirva para ocultar a gravidade da situação da economia? Por outro lado o julgamento do mensalão mostrou um vigor contracorrente.  A última e única com alguma autonomia frente a um poder que nem renega mais a sanha partisã e totalitária. As manifestações de junho de 2013 foram, de longe, o acontecimento impactante das últimas décadas. Fenômeno que mereceria monopolizar qualquer retrospectiva. Com sorte, teremos alguns minutos nas agendas televisivas contra o dobro para campeões do automobilismo.

 

No caso das juninas, a perplexidade inicial dos analistas revelou-se diretamente proporcional à surpreendente capacidade com que a sociedade é capaz de reagir sob situações transbordantes. Não eram só os R$ 0,20, nem os 51 bi dos estádios, nem a cascata de desmandos do poder central. O verdadeiro caldo? O péssimo gerenciamento ao qual os cidadãos estão sendo submetidos. Por sua vez, as redes sociais e o tempo real acabaram com o mito da mansidão bovina dos trópicos. A docilidade nunca existiu e sequer era inata. Era um fim de ciclo, e como todo término, uma morte simbólica. É que algo precisa desaparecer para acomodar o novo. E alguém  duvida dos transbordamentos que nos aguardam? Se tudo tem uma finalidade não seria diferente na teleologia dos ciclos.

 

Uma das funções do ciclo é evitar o colapso. Assim como alguém com muita dor “desliga” seus sistemas biológicos para preservar a vida, o ano de 2013 será apagado para que possamos entrar com fôlego e vida na nova fase: que seja sem os traumas da morte, nem as dificuldades dos recomeços.

Para comentar utilize o link do Blog

http://blogs.estadao.com.br/conto-de-noticia/para-que-servem-os-ciclos-uma-retrospectiva-focal/

Constatações contra-intuitivas (Estadão)

Constatações contra-intuitivas

                      Constatações contra-intuitivasPT de Dilma e PSB de Campos abrem guerra virtual na disputa pelo Planalto

 

Quer dizer que estamos no meio de uma guerra psicológica? Não pegaria melhor guerrilha cultural? Vê-se de tudo na internet, a principal mídia e a mais extensa rede de notícias do mundo. Dentre as miríades de versões, boatos, ataques anônimos, tudo passa a ser cada vez menos verificável. Já faz tempos que a verdade se descolou da realidade. Depende de onde se lê, da fonte que subsidia a publicação. O que se sugere, com alguma plausibilidade, é que tudo é uma  questão de interpretação.Na novíssima guerra fria nacional, urbana e rural, o que de fato importa é quem conta as vantagens que o eleitor quer ouvir e quem omite o que as agências classificadoras de riscos prefeririam ignorar. A simplificação soa viável no mundo virtual. Parece que etiquetar os outros com alinhamentos políticos — para a vanguarda fundamentalista, esse atraso que não passa, só existe direita e esquerda — nos alivia da tarefa de pensar. Tarefa, eu disse? Mudemos para encargo. Não somos nem Venezuela nem Argentina, talvez nem mesmo América Latina. No parlamento a céu aberto do espaço cibernético, líderes e populares alucinam livremente na linguagem.Mas eis que, se ainda somos uma democracia representativa, teoricamente estaríamos submetidos às regras do jogo. Não deveria haver responsabilidade fiscal, alternância de governo, poderes equânimes e justiça isonômica? Exerçamos pois, por alguns minutos, a auto restrição que os cientistas se obrigam para fazer pesquisas: atitude neutra. É que para que uma pesquisa seja autentica temos que respeitar os achados contra intuitivos, vale dizer, lutar contra as expectativas que temos sobre seus resultados.Conseguiram?Abram de novo os olhos e vejam. Como tudo ficou? Parece claro, não?Ao final, nada sobra nada que seja contra-intuitivo. É que na maior parte das vezes a intuição têm recados úteis. Pode demorar, mas a realidade costuma triunfar sobre a ideologia. Não há golpistas da grande mídia, tergiversadores profissionais, nem inimigos dos governos populares. Aliás pode haver, mas sua força está superestimada pela necessidade de insuflar monstros. A inflação de fato voltou. Gastos superam entradas. Endividados estamos. Há quem diga que a solução seja parlamentarismo. O problema tampouco está na demonização de um único partido, destarte alguns sejam efetivamente mais perigosos que outros. Em especial aqueles que se comportam como seitas e que ameaçam o sistema do qual se beneficiam para, ao final, dar cabo dele.Em artigo publicado neste mesmo “O Estado de São Paulo”, o Prof. Roberto Romano já afirmava: é urgente a descentralização dos impostos. Só assim, e talvez nem mesmo assim, desarmaremos a bomba retrógrada programada para depois do esbanjamento desportivo e eleitoral. É que o volume de concentração tarifária endossa a bagunça dolosa. Faz adensar o poder num Estado inchado, inábil, esbanjador, que prefere sacrificar todos à largar o osso. Duplo estrago: enquanto estrangulam os capilares de nossos paupérrimos municípios, desconstroem a ideia de República federativa. Daí é só um pulo para a tentação totalitária e a banalização dos desvios. A arma não é secreta. É a facilidade com que o arrecadador concentra tudo e, principalmente, da potencia que experimenta ao perceber sua capacidade de gerar dependência e perpetuar o beija mão por esmolas orçamentárias. Não sei se a solução é resistência pacifica. Quem sabe jejum de impostos? A abstinência e a descentralização, num severo regime alimentar forçado, faria muito bem à arrogância fiscal e à gula por hegemonia.  Não há garantia de cura, mas testemunhar o regime emagrecer às nossas custas poderia nos dar algum alento, e, principalmente, renovar a esperança na vida democrática.

 http://blogs.estadao.com.br/conto-de-noticia/pequena-lista-de-constatacoes-contra-intuitivas/

Sharon: conquistador sem paz (Estadão)

Conto de Notícia, Paulo Rosenbaum

13.janeiro.2014 14:05:55

Sharon: conquistador sem paz

Antes de enterro, Israel homenageia Ariel Sharon em funeral de Estado

Salvo raras exceções, a vida e a morte de Ariel Sharon foi estampada na mídia mundial sob a velha discussão simplória e maniqueísta. O julgamento póstumo de uma liderança polêmica sempre tenta matematizar a índole do sujeito para apresentar a fatura estanque junto ao veredito. Seria ele gênio militar ou vilão? Estadista patriota ou traidor de colonos, quando devolveu a faixa de Gaza aos palestinos? Muito provavelmente Sharon era uma mistura destes vários elementos contraditórios que caracterizariam sua vida e história pessoal. Exímio estrategista e de lendária bravura, era sobretudo um pragmático. Destemido provocador enfrentou fúrias de fanáticos, atravessou o inferno astral por seu envolvimento passivo nos massacres de Sabra e Chatila, além dos desafios externos (como as  ameaças de processos em Cortes Internacionais que pairavam sobre ele) com a mesma determinação com que se defendeu no plano interno quando formalmente acusado de omissão pela Suprema Corte de Israel.

Mas então cabe perguntar por que a tendência para apresenta-lo exclusivamente sob a legenda de carrasco? A vilania nunca é elementar, neste caso e em nenhum outro. Na verdade, condenar alguém à execração pública é uma forma de despistar o foco analítico e perder de vista o que está por trás do vício de informação.

O que explica o respeito que Ariel adquiriu dentro e fora de seu País, é que, diferentemente de maioria esmagadora das nações contemporâneas Israel ainda precisa  continuar a luta por seu direito de existir, e e é imperioso que isso seja incluído na balança dos julgamentos políticos.

Com ou sem ele, o barril de pólvora continua perigosamente ativo. Com Hamas, Hezbollah, safafistas, jihadistas, além dos braços varejistas do Irã na região, ninguém são pode prever uma bonança prolongada. O princípio terrorista destas organizações – tratados com condescendência especialmente pela mídia européia  — não é interpretativo: em suas constituições vigora a cláusula pétrea que vota pelo fim do estado judaico.

Não é difícil prever que as ondas de antissemitismo — que mais uma vez se espalham pelo velho continente –  guardem uma relação direta com a demonização sistemática do Estado de Israel.  Uma vez que se tornou impossível continuar sendo racionalizada como preconceito de raça ou etnia a hostilidade contra judeus – como afirmou Jonathan Sacks em recente entrevista à revista Veja  – agora apresenta-se em sua novíssima face:  judeofóbicos tentam se legitimar ao identificar seu ódio à terra de Israel.

São contextos específicos que dificultam qualquer análise externa da situação real do país hebreu.  Sempre prefiro a paz e os humanistas às estratégias militares. Uma negociação radical com os realistas do Fatah pouparia vidas e sofrimento para todas as partes. Mas ninguém pode botar fé na autodestruição. Enaltecer o pacifismo ingênuo, numa região minada, pré radioativa e instável funcionaria ao modo de imolação voluntária.

Na linha do que Amós Oz recentemente enunciou quando recebeu o prêmio Kafka de literatura, vamos, de uma vez por todas, abandonar a ingenuidade e assumir que o casamento acabou. E já que não deu certo que seja um Estado binacional “não mais um casamento, mas um divórcio justo”.

Impossível precisar se o misterioso coma prolongado do militar teve a ver com os rumos atuais de Israel, mas é certo que Sharon tenha ficado inquieto com um porvir, especialmente a aquisição máxima de um Estadista para um povo e que nunca esteve ao seu alcance: a conquista da paz!

Ele e outros ícones militares pregressos e atuais da terra santa permanecerão cultuados. Não porque foram santos ou líderes imaculados, mas porque as pessoas podem sentir o cenário:  não parece estar disponível uma saída pacifica à vista e a sobrevivência precede outras necessidades. Pelo menos não há vislumbre de trégua  com adversários com demandas exóticas como aquelas que exigem que você morra antes de assinar acordos.

http://blogs.estadao.com.br/conto-de-noticia/sharon-e-a-paz/

 

Das férias e do Ócio (Estadão)

               Turista enfrenta fila de 5h para chegar a Ilhabela, no litoral de São Paulo

Livros médicos do século XIX,  costumavam anunciar: “férias – quando as pessoas se afastam completamente de suas atividades usuais por um período não inferior a sessenta dias”.

 

A palavra negócio significa etimologicamente negação do ócio. Sempre pensamos que o descanso fosse uma meta, uma espécie de recompensa pelo déficit de lazer, uma resposta à precariedade do descanso. Se o homem é um ser industrioso, e se até os corpos são entidades que produzem, não nos escandalizemos com a pressão que nos fazemos mesmo quando se trata das esperadas férias remuneradas.

Na incapacidade de relaxar estamos praticamente convocados, obrigados, compulsoriamente obrigados à diversão.

 

A categoria “remunerada” pois, não é detalhe e a mensagem, auto evidente. Nossa sociedade é pródiga em lembrar que precisamos atender demandas da vida prática. Só que elas são inquietantemente infinitas.

 

A vida produtiva se impõe, seja sob o disfarce dos artesãos em Arembepe ou para os que escolheram empreender com quisoques de coco verde em Natal. Lá ou acolá, estamos submissos à mesma lógica das máquinas eficientes. A última atenuação é que a vida alternativa dos homens contemporâneos precisa incluir algum contato com a natureza. Num País vasto como este, ainda subsistem regiões pouco exploradas. Mas quem não visitava uma cidade litorânea ou turística há 20 anos, testemunhará a extensão do massacre.

 

O boom de construções e a ocupação desordenada praticamente eliminou possibilidades de contato com áreas livres. Os negócios vão, lentamente, dando cabo das últimas áreas ociosas, assim como, lá atrás, acabaram com a perspectiva de vida calma e segura nas metrópoles.  Vigora uma tensão natural e permanente entre desenvolvimento e contemplação. E a palavra “sustentável” não parece ser a solução.

 

O que então significa hoje o ócio, para além do direito de não trabalhar?  Parece ter perdido significado numa sociedade que hipervaloriza o privado que merecia ser público. Além disso, ninguém mais parece se importar com o que deveria permanecer radicalmente privado, como o direito à alienação política e à liberdade de expressão.

http://blogs.estadao.com.br/conto-de-noticia/das-ferias-e-do-ocio/

Não foi preciso esperar o pregão das bolsas. Faz tempo que já estava decidido: depreciem o homem lúdico frente ao homem fábrica.

 

O agravante é não assumir que somos, ou viramos, uma espécie de promessa reversa, aquela que nunca se cumpre. Não se olvidem que estamos às vésperas de um ano eleitoral com Copa. Com tamanha maquiagem, vivemos fingindo não perceber que estamos em plena pulverização de recursos, enquanto a América Latina fervilha em sua insolvência.

 

O pior de tudo nunca foi a indolência do bom selvagem terceiro mundista. O realmente deplorável foram as falsificações sucessivas que nos conduziram ao marco zero do blefe central de que já éramos primeiro mundo.