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Resenha de “Céu Subterrâneo” no Jornal da USP
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Busca por identidade e fuga do anonimato são temas de romance

“Céu Subterrâneo”, de Paulo Rosenbaum, retrata a angústia existencial de um professor universitário aposentado compulsoriamente

Por – Editorias: Cultura
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Paulo Rosenbaum - Foto: Cecília Bastos/USP Imagens
Paulo Rosenbaum, autor de Céu Subterrâneo – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

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Desde a Antiguidade, o homem se questiona sobre sua origem, seu propósito e sua vocação. A angústia dessas dúvidas sufoca aqueles que aspiram a ser lembrados pela história, mas estão à mercê da trivialidade. Adam Mondale, protagonista do romance Céu Subterrâneo, segunda obra do médico Paulo Rosenbaum, começa a se incomodar com essa angustiante possibilidade após se aposentar compulsoriamente da vida acadêmica.

Depois de dedicar sua carreira ao estudo do comportamento de animais e ter exercido o cargo de diretor do Instituto de Psicologia (IP) da USP, a personagem fictícia se vê fadada ao esquecimento, à mediocridade do anonimato. Superficialmente impulsionado pela ambição, Mondale decide dar uma reviravolta em sua vida e garantir seu lugar ao sol.

Ao encontrar um misterioso e danificado negativo de polaroide em sua viagem a Israel, o acadêmico judeu acredita que seu achado pode ressignificar a história da humanidade que conhecemos. A imagem fracamente projetada pelo negativo mostra uma gruta intocada, com escritos em diferentes línguas e um pé muito maior do que o de qualquer outro hominídeo.

Além da aventura arqueológica, ao longo dos capítulos Rosenbaum apresenta ao leitor flashbacks de Mondale que revelaram que suas questões superam a mera vaidade. “No fundo, a busca é por identidade”, diz Rosenbaum. “Mondale é um professor que viveu a vida inteira para a Universidade e perdeu isso. O que que ele vai fazer agora? O que ele vai buscar? Por ser judeu, ainda que laico, ele vai atrás de suas tradições. Ele vai buscar aquilo com que ele possa se identificar. Esse é o motor dele, aquilo que move o sujeito no mundo.”

Processo criativo

Para produzir seu segundo romance, Rosenbaum viajou até Israel com o apoio de uma bolsa literária cedida pela Fundação Mamash. No país, o autor se hospedou na cidade de Hebrom, especialmente marcada pelo conflito israelo-palestino pelo controle do Túmulo dos Patriarcas, onde estariam enterrados os casais Adão e Eva, Abraão e Sara, Isaac e Rita e Jacó e Lia.
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Paulo Rosenbaum - Foto: Cecília Bastos/USP Imagens
Paulo Rosenbaum conversou com grandes nomes da literatura israelense – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

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Por muitos séculos, o túmulo esteve sob poder dos árabes. Somente após a Guerra dos Seis Dias, em 1967, os judeus retomaram o controle sobre o território. Na época, foi realizada uma missão arqueológica israelense à região, que inspirou a trama do romance: a fim de desvendar o que havia na gruta do túmulo, uma garota de 12 anos, filha de um dos militares que coordenava a escavação, adentrou a caverna milenar por um buraco estreito, pelo qual mais ninguém conseguiria passar. A menina reportou aos militares e cientistas o que encontrara, mas a missão foi abafada pelos governantes para evitar confrontos ideológicos acerca da “invasão” aos túmulos sagrados. A partir dessa história, Rosenbaum criou o enredo da polaroide, que seria um vestígio dos fantásticos e intocáveis segredos que a garota vira.

Durante a viagem, o autor também teve a oportunidade de conversar com grandes nomes da literatura israelense, como Amos Oz e Amalia Kahana-Carmon. Trechos das entrevistas estão diluídos na ficção, que revela ao leitor traços da personalidade de cada escritor e suas relações ímpares com o fazer literário.

Foto: Reprodução
O novo livro de Rosenbaum – Foto: Reprodução

Além dos contatos privilegiados, Rosenbaum também se aproximou do cotidiano popular de Hebrom. “Quis ficar num lugar central, perto dos mercados, onde está a vida do povo. Não queria uma vida turística”, explica. “É ali que você acha o modo prático de como as pessoas vivem e se relacionam. Não na universidade, no meio político ou no Exército. É no meio das relações interpessoais que você encontra a verdade de um povo. Foi o que eu tentei captar. O grande desafio é transformar isso em algo literário.”

Sobre o autor

Céu Subterrâneo (Perspectiva, 2016) é o segundo romance de Paulo Rosenbaum, médico que há décadas concilia os consultórios com a veia literária. Seu romance de estreia foi A Verdade Lançada ao Solo (Record, 2010). Antes disso, aos 20 anos, publicou seu primeiro livro, Impreciso Emigrar, uma coletânea de poesias editada por Massao Ohno, em 1979. Nessa época, estudava Filosofia, curso que não chegou a concluir por trocar pela Medicina.

Fez mestrado, doutorado e pós-doutorado na Faculdade de Medicina (FM) da USP e publicou 12 livros nas áreas de medicina preventiva e epistemologia da medicina.

Céu Subterrâneo, de Paulo Rosenbaum, Editora Perspectiva, 254 páginas, R$ 49,00.

Pessach para todos os êxodos do mundo (Blog Estadão)

O apego ao território pode ser doloroso. Transitar entre fronteiras nunca foi fácil. Um dia, pode ser preciso deixar tudo. Da tarde para a noite. Se o desterro é involuntário, o abandono pode ser voluntário. É o momento no qual todas as identidades são julgadas como uma só. Sabe-se da nebulosidade dos dias deixados para trás, da atmosfera que está adiante sem que ninguém possa prever nada. Renunciar às ancestrais marcas gravadas é deixar um inconfundível rastro de descontinuidade. O sonhos dos imigrantes não é similar aqueles dos nativos. O sonho do imigrante é abrigar-se da insuportável pressão que risca o solo.  Quem vai e quem fica? Sair de uma terra que não é sua é vagar na inconstância, não reconhecer as encostas, estranhar as margens, e num último passo, romper com as barreiras sanguíneas para estranhar as familiaridades. Desconhecer-se em lugares estrangeiros é migrar ao desconforto. Estranha-se o solo, cambia-se de margem e o mar fixa-se como a miragem ultrapassada. O percurso requer milagres, da natureza, dos outros homens, de um Deus que, mesmo invisível, costuma ser convocado para ações concretas. O primeiro Êxodo, já se intuía, não seria o último.

Vagar, parece, é errar em particularidades, o avesso das estabilidades. E o destino é um nômade sem líder.  Aquele que faz extraviar com o sorriso da convicção. Arriscar a sorte é rebelar-se contra o império do senso comum. É passar ao largo das opiniões formais, é destituir a eloquência, que, pasteurizada, muda o tom sem imaginação. O deserto te parece hostil? A areia te desmancha o passo? Este é o ponto em que se pode aceitar que, talvez, não haja mesmo escolha. É provável que toda trilha de vida contenha ao menos um êxodo. E a marcha dos milhões deslocados recomeça todos os dias. Ainda que nunca tenha havido uma cronologia para o exílio o que está garantido é a fração de um outro tempo. Quem é expulso precisa de refugio? Encontraremos uma trajetória até que cada um alcance uma Canaã pessoal? A terra prometida do singular? O mundo é um lugar tenso e nunca se sabe bem qual será a rotação das birutas. Mesmo assim, sob o chicote do tempo inacabado, continuamos na migração possível. Num parque que não nos informará a distância até o fim. Só os escravizados conhecem a opressão. E, mesmo eles, não detectam a tirania ou a mão que costuma redigir e escrever os decretos que revogam a liberdade.

Reféns da guerra autorenovada, estamos sendo substituídos por máquinas programadas para não sentir o tempo. O Oriente recusa-se a aceitar os artifícios de uma era que sonha apagar os pertencimentos. Como se todos os registros pudessem ser obsoletos. É então que as emancipações são canceladas. Viraríamos, resignados, coleções que jamais comportariam singularidades. A política mudaria para o acaso, e o afirmativo geraria simulacros de tolerância. Ou, a renúncia cansativa pelas derrotas ininterruptas. Por isso e para isso, a evolução nos impôs a memória. Genética ou não, eis a única força com potencial regenerador. Ai poderia estar a importância da mesa posta com lembranças.

O menu histórico é constituído por reais de sujeitos. Histórias com desdobramentos que, se implausíveis, preservariam a beleza do mundo. O convívio. O primeiro Êxodo, o do Egito, depois repetido no Shoah, apreciado de longe, deve funcionar hoje como inspiração para os povos forçados a atravessar desertos inacabados. Hoje, diante de gerações expostas a mais um ciclo de nebulosidade venenosa, restaria pedir perdão. Nem isso faremos. Estes amanhãs de erros antigos que os não Estadistas nos reservam como herança, podem requerer novas exigências antropológicas. O convívio precisará encontrar um novo significado.

Paradoxalmente, ao enxergar a fumaça que sopra contra a máscara da humanidade, poderemos antever outras conjugações. Desde que contenha o sopro que desloca os vícios da compreensão. Só a criatividade pode rodar a Terra para propor outras formas de vir a ser. Um novíssimo lugar para entender o valor do êxodo, de todos os êxodos do mundo.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/pessach-para-todos-os-exodos-do-mundo/

Resenha do livro ” Céu Subterrâneo” no Jornal da USP

http://jornal.usp.br/cultura/busca-por-identidade-e-fuga-do-anonimato-e-tema-de-romance/

 

Busca por identidade e fuga do anonimato são temas de romance

“Céu Subterrâneo”, de Paulo Rosenbaum, retrata a angústia existencial de um professor universitário aposentado compulsoriamente

Por – Editorias: Cultura
Paulo Rosenbaum - Foto: Cecília Bastos/USP Imagens
Paulo Rosenbaum, autor de Céu Subterrâneo – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

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Desde a Antiguidade, o homem se questiona sobre sua origem, seu propósito e sua vocação. A angústia dessas dúvidas sufoca aqueles que aspiram a ser lembrados pela história, mas estão à mercê da trivialidade. Adam Mondale, protagonista do romance Céu Subterrâneo, segunda obra do médico Paulo Rosenbaum, começa a se incomodar com essa angustiante possibilidade após se aposentar compulsoriamente da vida acadêmica.

Depois de dedicar sua carreira ao estudo do comportamento de animais e ter exercido o cargo de diretor do Instituto de Psicologia (IP) da USP, a personagem fictícia se vê fadada ao esquecimento, à mediocridade do anonimato. Superficialmente impulsionado pela ambição, Mondale decide dar uma reviravolta em sua vida e garantir seu lugar ao sol.

Ao encontrar um misterioso e danificado negativo de polaroide em sua viagem a Israel, o acadêmico judeu acredita que seu achado pode ressignificar a história da humanidade que conhecemos. A imagem fracamente projetada pelo negativo mostra uma gruta intocada, com escritos em diferentes línguas e um pé muito maior do que o de qualquer outro hominídeo.

Além da aventura arqueológica, ao longo dos capítulos Rosenbaum apresenta ao leitor flashbacks de Mondale que revelaram que suas questões superam a mera vaidade. “No fundo, a busca é por identidade”, diz Rosenbaum. “Mondale é um professor que viveu a vida inteira para a Universidade e perdeu isso. O que que ele vai fazer agora? O que ele vai buscar? Por ser judeu, ainda que laico, ele vai atrás de suas tradições. Ele vai buscar aquilo com que ele possa se identificar. Esse é o motor dele, aquilo que move o sujeito no mundo.”

Processo criativo

Para produzir seu segundo romance, Rosenbaum viajou até Israel com o apoio de uma bolsa literária cedida pela Fundação Mamash. No país, o autor se hospedou na cidade de Hebrom, especialmente marcada pelo conflito israelo-palestino pelo controle do Túmulo dos Patriarcas, onde estariam enterrados os casais Adão e Eva, Abraão e Sara, Isaac e Rita e Jacó e Lia.
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Paulo Rosenbaum - Foto: Cecília Bastos/USP Imagens
Paulo Rosenbaum conversou com grandes nomes da literatura israelense – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

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Por muitos séculos, o túmulo esteve sob poder dos árabes. Somente após a Guerra dos Seis Dias, em 1967, os judeus retomaram o controle sobre o território. Na época, foi realizada uma missão arqueológica israelense à região, que inspirou a trama do romance: a fim de desvendar o que havia na gruta do túmulo, uma garota de 12 anos, filha de um dos militares que coordenava a escavação, adentrou a caverna milenar por um buraco estreito, pelo qual mais ninguém conseguiria passar. A menina reportou aos militares e cientistas o que encontrara, mas a missão foi abafada pelos governantes para evitar confrontos ideológicos acerca da “invasão” aos túmulos sagrados. A partir dessa história, Rosenbaum criou o enredo da polaroide, que seria um vestígio dos fantásticos e intocáveis segredos que a garota vira.

Durante a viagem, o autor também teve a oportunidade de conversar com grandes nomes da literatura israelense, como Amos Oz e Amalia Kahana-Carmon. Trechos das entrevistas estão diluídos na ficção, que revela ao leitor traços da personalidade de cada escritor e suas relações ímpares com o fazer literário.

Foto: Reprodução
O novo livro de Rosenbaum – Foto: Reprodução

Além dos contatos privilegiados, Rosenbaum também se aproximou do cotidiano popular de Hebrom. “Quis ficar num lugar central, perto dos mercados, onde está a vida do povo. Não queria uma vida turística”, explica. “É ali que você acha o modo prático de como as pessoas vivem e se relacionam. Não na universidade, no meio político ou no Exército. É no meio das relações interpessoais que você encontra a verdade de um povo. Foi o que eu tentei captar. O grande desafio é transformar isso em algo literário.”

Sobre o autor

Céu Subterrâneo (Perspectiva, 2016) é o segundo romance de Paulo Rosenbaum, médico que há décadas concilia os consultórios com a veia literária. Seu romance de estreia foi A Verdade Lançada ao Solo (Record, 2010). Antes disso, aos 20 anos, publicou seu primeiro livro, Impreciso Emigrar, uma coletânea de poesias editada por Massao Ohno, em 1979. Nessa época, estudava Filosofia, curso que não chegou a concluir por trocar pela Medicina.

Fez mestrado, doutorado e pós-doutorado na Faculdade de Medicina (FM) da USP e publicou 12 livros nas áreas de medicina preventiva e epistemologia da medicina.

Céu Subterrâneo, de Paulo Rosenbaum, Editora Perspectiva, 254 páginas, R$ 49,00.

Meditativas 1 – (Blog Estadão)

O Presente instante,

recusa adiantes
Desafio de principiante,
A constância da presença

Demanda expressa insistência

Estar já, aqui,

pressupõe reter o momento
negar o automático

Livrar-se da primazia do acabado
Move o sentido, atento

É o nada anterior, flutuante
Mescla fresca de sensações

Absorve do murmúrio interior
O conjunto de fixações,
As percepções Ambulantes

Suspender juízos,
Selecionar imagens
Voos seletivos,
Paradas, instantes
Comandos ignorados

de costumes desconhecidos

E dominantes

Representar-se, intenso

renegar a pressa
Para aqui, inteiros
Lançados na luta,

a principio, perdida

conter a dispersão permanente

recusar a condição persistente

aquietar-nos os murmúrios

Até a resposta do Mergulho:

silencio ou barulho?
Preso no sonho
Das gaiolas imanentes
No forro da memória
Sopra, agora
Oscila, impermanente
Modula, afora

Embora o mundo
Imponha incondicional rendição
Que se fixe atenção
No existir sem imposição
Na Negação do estilo:

Notar, enfim, a distinção

colossal e discreta

entre efêmero e efemérides.

Processos e meta.

A Mentalidade Preventivista (blog Estadão)

Era para ser um texto em homenagem ao aniversário desta cidade. Não deu. Pois lá se vão quatro anos do incêndio da boate Kiss e a tarda justiça ainda continua fazendo vítimas em série. Em homenagem às famílias, aos que não podem mais se defender da inépcia do Estado e para que — em algum futuro tremendamente remoto — tragédias anunciadas, disfarçadas de fatalidade, não voltem a ocorrer republico no blog, excepcionalmente, o texto “A Dor merece nosso Constrangimento”. Decerto que o imponderável, o imprognosticável,  a  incerteza e o absurdo são tanto perturbadores, como onipresentes na condição humana. Porém, isso não tem nada a ver com pane seca, falta de extintores, erros de cálculos em pontes e viadutos, falha na inteligência, justiça leniente, leis anacrônicas, cárceres inimagináveis, descaso com áreas de risco, e, finalmente, déficit de vigilância para cuidar que as instituições não sejam escravas das corporações.

Que a mentalidade preventivista se infiltre em quem governa. E, se não, — que as consequências desta falta crônica desabem sobre os omissos, mostrando que quem quer gozar do Poder, quem precisa do Poder, quem está obcecado por ele, tem a obrigação, moral ou criminal, pouco importa, de planejar e, sobretudo, a responsabilidade de antecipar acontecimentos.

 

A dor merece nosso constrangimento

 

Devo estar cultivando a insensibilidade, já que não me comoveu o choro nem a circunspeção dos políticos nos funerais. Além disso, temos que suportar o horroroso espetáculo dos apresentadores explorando a biografia das vítimas ou especialistas explicando como os alvéolos são destroçados pela inalação de fumaça. Nesse campo de batalha, só cabem urros, uivos, ritos de contrição. A dor merece nosso constrangimento.

São poucas ou muitas as palavras que podem descrever acuradamente o absurdo. Absurdo é pouco, estultilóquio, limitado, dislate, distante. Precisava de um vocábulo sem precedentes. Pois “galimatias” revela um glossário analógico apropriado para o desastre gaúcho: um acervo de heresias e incoerências disparatadas, coxia de desconchavos, parvoíce chapada, um amontoado de cacaborradas, aranzel, inépcia, chocarrice. Para contornar registros menos recomendáveis ao grande público, cada um deles pode indicar o repertório que se passa pelas nossas cabeças quando tragédias completamente evitáveis parecem inevitáveis.

A falta de decência não é só fazer as coisas sem pensar que outros podem se ferir ou sair lesados. Paira no ar um senso de desproporção, tocado pelo culto ao único mito invicto de nossa era: grana.

Há uma máxima que deveria vir instantaneamente à cabeça de qualquer um: “Tratarei todo filho como se fosse meu”. Passa longe do sentimento predominante. Que dizer dos donos do lugar e dos homens da segurança? Inicialmente, sem perceber a eminente tragédia, impediram pessoas de sair do inferno. Quais as regras a serem seguidas e quais merecem desobediência civil já?

Não sei quantos mais poderiam ter sido salvos da asfixia, da carbonização. Uma vida poupada teria feito toda diferença. Mas havia a barreira do execrável pedágio, a pirotecnia fora de lugar, o entupimento das salas, as formigas espremidas na armadilha.

Não vem ao caso apontar para a banda ou para os proprietários como alvos óbvios de punição e responsabilização criminal. Já que pais e mães tiveram seus futuros cassados, e as vítimas ardem na sombra, seria preferível acompanhar o que o poder público tem a dizer.

Em geral, fiscais são bons burocratas e, raramente, têm consciência de seu papel vital na prevenção dos desastres. Prevenção, lugar-comum, baixa visibilidade, antipopular, mas a única palavra-chave para não termos que ouvir a esfarrapada desculpa “fatalidade”. Isso não é um se, está acontecendo agora. Nas enchentes, na calamidade absoluta que é a segurança pública do país, na incapacidade organizacional para gerir o dia a dia das cidades. A verdade é que, se ainda vivemos ilesos, é por sorte e apesar do Estado. E não se trata de apontar para um único partido. Todos comungam deste mínimo múltiplo comum, a incapacidade de enxergar que toda matéria política caberia numa sentença: governo é para o povo. Submergidos no populismo ignorante, cosmético e estelionatário, quanto dinheiro ainda será arrecadado nas miríades de impostos pagos para fiscalizar e manter as bocas de lobo, as escolas, o passeio publico, a segurança, a defesa civil? E como isso será gasto? Não sabemos e ninguém sabe.

Mark Twain escreveu: “O governo é meramente um servo, meramente um servo temporário: não pode ser sua prerrogativa determinar o que está certo e o que está errado, e decidir quem é um patriota e quem não é. Sua função é obedecer a ordens, não originá-las”.

Só quando os administradores forem imputáveis e sentirem nos bolsos e na privação de liberdade que, se falharem em prevenir o prevenivel sofrerão consequências pesadas, talvez tenham mudanças efetivas no dislate que é o planejamento público no Brasil. Só quando a opinião pública exigir que as apurações não se limitem a dois ou três bodes expiatórios, mas, a quem, de fato, permitiu a vigência do absurdo. Talvez ai, calçados na educação solidária, o respeito aos cidadãos conquistará status de lei.

Na hora dos massacres, a solidariedade autêntica vem das pessoas desvinculadas do poder. Emerge pura da nossa emoção, premida pelo nada, esvaziada de sentido, e lapidada pela voz rouca do abandono. Um sobrevivente do incêndio descreveu “Vi o monte de corpos empilhados uns em cima dos outros, como os judeus no Holocausto”. Ainda que o cenário justifique a analogia, a outra semelhança é a gratuidade com que essas vidas foram incineradas.

Todos nós, civilizados desde o berço, podemos enxergar tragédias como inerentes à condição humana. Rachaduras na placa continental, asteroides, furacões e terremotos são eventos inevitáveis, às vezes inexoráveis. Crematórios, não. A dor merece nosso constrangimento, assim ao menos sofreremos todos juntos. Não entendo bem por que, mas parece que precisamos nos derreter para nos unirem.

Paulo Rosenbaum é médico e escritor. É autor de “A Verdade Lançada ao Solo” (Ed. Record) e “Céu Subterrâneo” (Ed. Perspectiva)

paulorosenbaum.wordpress

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/a-mentalidade-preventivista/

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