Vitalismo: A Arte a céu aberto (Blog Estadão)

Na vigência da era da digitalização, dos códigos, mensagens, informações e sinais por que a academia voltaria a se interessar por uma ideia que foi considerada ultrapassada? Pois parece ser o caso do vitalismo. Uma filosofia médica e biológica, que é, também, uma leitura e um modo de estar no mundo. Segundo Nordenskiöld (1942), em sua história da biologia, uma das mais conceituadas do século XX, o vitalismo é uma das teorias mais fecundas e qualquer biologia séria deveria levá-la em consideração. Trata-se de uma abordagem que afirma que os fenômenos exibidos pelos organismos vivos obedecem a leis diferentes/modificadas daquelas que regem os seres inanimados. Parece óbvio, mas não é. Não há, assim, interpretação da parte sem a compreensão do todo, e não há compreensão do todo que não esteja baseado na interpretação da correlação dessas partes. Aqui entra um outro elemento fundamental para operar o raciocínio hermenêutico: a aplicatio, ou aplicação. É sempre de uma necessidade prática vivida, portanto de uma aplicação, que buscamos nos apropriar de uma certa tradição que, então, devemos fazer com que ela “fale de novo”.

O “falar de novo” significa uma comunicação que rompa (ou apresente potencial para) com a repetição, que surpreenda pelo sentido de reinterpretar uma situação específica e datada. No caso da biologia, os sentidos e os órgãos operam como unidades vivas, ao mesmo tempo integradas e autônomas. Integradas porque falar, ouvir e escutar dependem de um outro, o interlocutor, que recebe a informação emitida. O ato da comunicação, por sua vez, pressupõe que o receptor esteja disponível para ser impactado com as impressões recebidas. O resgate dos órgãos e suas funções recupera, para a arte, a perspectiva sinestésica. Isto é, reconduz a percepção de qualquer estimulo a um corpo extenso, que não se limita a interpelar a mente do observador. No lugar de apenas repetir o pensamento encontra-se livre para recriar, trata-se portanto de um novíssimo. E ele pode ser aplicado das artes médicas às artes plásticas.

Uma neo ruptura.

Exaltar o relevo, ou evidenciar uma perspectiva, não é tudo em matéria das artes. Seria necessário explorar outra dimensão dos acontecimentos de um fenômeno. A proposta de Camila Sposati de exploração de outros sentidos — com seu duplo sentido — talvez reitere as possibilidades ilimitadas da criação artística e, de algum modo, inverte o sinal da obra em si, para o sujeito que a percebe.

A cultura só pode ser melhor aproveitada, de qualquer forma instrumentalizada, se uma intensa troca e reciclagem dos sentidos for colocada em prática. Não seria exagero dizer que temos que voltar a enxergar, indo para além do ver como dadiva sensorial inata. Assim, não são só os órgãos que precisam de exploração mas todos os sentidos, visão, audição, olfato, tato, paladar e o sentido oculto do equilíbrio merecem ser treinados, expandidos, e observados. Não exatamente como meta, desenvolvimento da atividade artística, mas como uma exploração dos instrumentos que fazem a mediação entre o objeto e seus arredores, incluindo aquele que o examinará com atenção.

Falaremos tendo como base uma das obras mais canonicas da medicina, trata-se da coleção “De Humani Corporis Fábrica” publicada em sete volumes em 1543, de autoria do belga Andreas Vesalius. Sua pesquisa promoveu uma das rupturas mais extraordinárias na história da medicina: ali, pela primeira vez, o professor desce do palanque. Isto significa que Vesalius privilegiou o estudo da forma humana. Ao promover este salto qualitativo, a medicina finalmente locomoveu-se em dois terrenos: do plano bidimensional (imagens sem perspectiva) ao tridimensional, da representação humana e do modelo animal para o humano. O tutor, rompendo com o galenismo, participa ativamente da dissecção dos cadáveres, observando, tocando e cheirando os órgãos, explorando os tecidos, analisando o organismo exposto. Neste sentido é que seu trabalho promoveu uma quebra do pensamento. Os sentidos e a experiência sensorial operam na direção de cooptar o expectador para viver uma situação análoga ao que foi nomeado como teatro anatômico.

No caso de Vesalius — ponto de partida, não de chegada — se a cátedra oferecia e favorecia a distância, a erudição livresca e o convite à especulação, a descida do professor ao centro da cena, postando-se ao lado de onde o cadáver estava estabelecido, quebra não só o protocolo, como desmancha a maneira como até então se educava os sentidos.

O “desmanche” induzido aconteceu porque o anatomista notou que a vida, ela mesma, acostuma e habitua os sentidos a um certo ordenamento. Vale dizer, adestramento. As vezes, uma customização negativa: evitar determinados cheiros, desviar o olhar, não chegar perto, ou, simplesmente, não tocar. Destarte é a experiência — que Samuel Hahnemann e depois Claude Bernard irão consolidar quase três séculos depois — que deveria ser a base do conhecimento. Por outro lado, sob Vesalius o saber não estava só sendo tirado das mãos da abrangência metafisica, inacessível e avessa ao mundo prático, mas colocado na observação, da atenção dos sentidos, da recuperação da importância de um juízo a posteriori, obtido a partir dos órgãos de relação.

Essa seletividade, a eleição qualitativa do que se deseja perceber e o que não merece visibilidade, opera sob uma seleção. E esta escolha não deixa de ser uma ordenação cultural, uma imposição do código social dominante. Ao romper com um determinado modo de perceber coisas, objetos e pessoas, a percepção do educando se modifica. Descola-se do corpus teórico acumulado para se abrir ao que pode ser descoberto à “céu aberto”. Ao vastíssimo e até então pouco explorado campo da apreensão mediada pelo corpo e suas funções cria um monumento escrito à passagem da medicina moderna, captura esta necessidade e abandona publicamente o modelo anatomomorfológico animal.

A obra “Teatro Anatômico” serviu, na obra de Vesalius, para que a inversão da ordem obedecesse esse pressuposto, vale dizer, modificar o curso de uma prática. Prática que seguia uma lógica. Nesta, incluía-se uma nova ideia de natureza: como Entralgo observou em sua obra “A Historia Clinica”: “Só o estudo da arquitetura do corpo pode amadurecer a mudança”. E esse foi um dos deslocamentos que determinou uma nova ordem para a concepção do organismo. Vesalius, que lecionou nas Universidades de Bolonha e Pádua, passou a viver em Madri, como médico da corte de Charles V. Condenado à morte pela inquisição sob a acusação de ter dissecado um corpo humano — trangressão punível com a pena capital –, teve a pena comutada para uma peregrinação forçada, Vesalius morreu alguns anos depois, em 1564.

Foi assim, que, séculos adiante, veríamos nascer a fisiologia e a primazia do estudo da função. É, portanto, da experiência associada ao estudo sistemático que nasceu uma nova compreensão científica. Eis a chave para a passagem para um mundo de perguntas que habitualmente não nos fazemos. Como propunha Henri Bergson, o trabalho do artista é análogo ao da filosofia: inverter a ordem natural do pensamento. A natureza deste sinal invertido é insistir no contra-pensamento, e navegar na instabilidade do contra intuitivo. Afinal, como Edgar Morin (1984) sintetizou, “em ciência nunca se encontra o que se procura, mas exatamente o contrário”.

O que o estudante faz — e particularmente aquele que se encontra nas áreas das ciências da vida — é receber as informações e usá-las de acordo com suas habilidades. No entanto, é quase improvável que a percepção seja constitutiva. Isso é, ninguém possui um corpo de percepções acabado. Ele há de ser modelado, remodelado, aperfeiçoado e refinado para que o sujeito possa dispor dele da forma como melhor lhe aprouver. Isso significa que a educação dos sentidos torna-se prioridade em qualquer área do saber.

Elementos para o Vitalismo

Aquele que desperta, aguça inibe ou exalta determinadas idiossincrasias do observador. O artista vive (sobrevive) desta demanda. Uma obra preenche hiatos que estão à meia distancia entre sua existência e a percepção do apreciador. Neste sentido, o processo interativo é a chave para a compreensão do impacto ou resistência que uma peça promove em quem assiste sua existência.

Para além da arte conceitual, a exibição, o colocar à mostra é o que define a vida de um objeto artístico. Colocado de outro modo, o caráter material da existência de algo tem um significado único, ou depende exclusivamente da função que atribuímos a ele? Do material pronto à plasticidade forjada o artista faz despertar uma potência ignota. Ao modo do processo alquímico, ainda que muitas vezes extraviando-se de seu sentido mítico, o criador é, essencialmente, um remanejador de elementos. Um reagrupador de formas e ideias. Daí a originalidade consistente ser uma meta, senão impossível, raríssima de ser observada nos contemporâneos. Quando alguém se torna exceção a esta regra inscreveu seu nome na história — ainda que muitas vezes ele mesmo e o marchand/mercado ignore isso.

A análise da vitalidade, entendida como a eficiência do conjunto de funções do organismo individual, apesar dos limites intrínsecos de cada constituição particular, deve ser destacada, entre as pesquisas contemporâneas, por ser potencialmente capaz de trazer subsídios para uma aproximação mais integral e preocupada com os aspectos subjetivos da vida e da saúde.

Nessa direção, a arte pode talvez refundar-se numa outra revolução romântica, quando o centro das tramas pode voltar-se para dentro do próprio sujeito. O artista age analogamente à uma enzima que promove a interação entre o do observador e a obra. E é neste contexto que a evocação da “A Prosa do Mundo”, de Merlau-Ponty, se faz imprescindível, quando ressalta a pergunta central no capítulo “A linguagem Indireta”:

“Toda a pintura moderna supõe essa ideia de uma ideia de uma comunicação direta entre o pintor e seu público através da evidência das coisas. O problema moderno de saber como a intenção do pintor renascerá naqueles que olham seu quadros, não é sequer colocado na pintura clássica, que confia, para assegurar a comunicação, no aparelho de percepção considerado meio de comunicação entre os homens. Não temos todos olhos que funcionam mais ou menos da mesma maneira, e, se o pintor soube descobrir signos suficientes de profundidade ou do veludo, não teremos todos, ao olhar seu quadro, o mesmo espetáculo, dotado da mesma espécie de evidencia que pertence às coisas percebidas?”

E adiante:

“No entanto, se a pintura clássica deu-se como meta a representação da natureza e da natureza humana, o fato é que esses pintores eram pintores, e nenhuma pintura legítima jamais consistiu em representar simplesmente. Malraux indica com frequência que a concepção moderna da pintura como expressão criadora foi uma novidade para o público muito mais do para os próprios pintores, os quais sempre a praticaram mesmo que não tivesse consciência dela e não teorizassem sobre ela, os quais, pela mesma razão, muitas vezes anteciparam a pintura que praticamos, e permanecem os intercessores mais indicados de toda iniciação à pintura.”

É então que o autor elucida que foi a perspectiva como pertencente à “ordem de cultura” que revolucionou o espaço artístico e não exatamente a representação (apenas uma forma que o homem inventou para projetar o mundo diante dele) e frisa sua distinção de uma cópia, de um modelo: afinal, ela, a representação, “não é um decalque do mundo”. Pode-se dizer que as coisas “disputam” nossa atenção, e a arte demonstrará, ou melhor, chamará o observador e convocará sua percepção, não só para o objeto exibido mas para a perspectiva que ele quer induzir em nós. Para ele, busca-se “um ponto de fuga de uma certa linha do horizonte” e enquanto alguma perspectiva entra em foco outras são subtraídas.

Neste cenário, a “obra” em si some, deforma-se, retorce-se, e o que passa a importar são os efeitos residuais, a metabolização, ou no dizer de Merleau-Ponty, o acionamento do “sistema de ressonadores que convém”. Isso significa que há uma vivência equivoca intrínseca em cada um de nós. Nada é menos inequívoca que a arte. Ocorre processo e reprocessamento permanente, dentro e ao redor de quem sofreu a experiência. Trata-se de um laboratório dinâmico — que não se encerra quando a exposição, performance ou intervenção ocorre — onde a única ciência é detectar, imediata e prospectivamente, o que e como cada um realizou a interação.

O subsolo, e portanto é o que está distribuído pela terra e abaixo dela, nela está contido tudo que é nosso, é enfim “nosso elemento”. Trata-se de uma outra perspectiva. Na qual o horizonte, abstraído, encontrou-se com o subsolo. E a terra não é homogênea e continua. O subsolo é repleto de fissuras, o mundo abaixo da superfície é rico em hiatos, infiltrações, lacunas. As vezes ele se apresenta oco como nas grutas e cavernas.

Foi afinal a sílica, o elemento químico na areia, cuja terminologia hebraica “adama”, a terra, modelou o homem primevo para que o Criador lhe insuflasse um sopro de vida. Neste sentido, toda base orgânica para a vida está/sempre esteve na terra. O ponto vivente emergiu do barro, foi portanto ele que determinou nossa existência.

Faz todo sentido que nos voltemos à ela, como recuperação, como terapêutica, como regeneração, de qualquer forma, como destino. Do artista ao médico, nossa função comum — a fusão do ético com o estético — é o restabelecimento de elos. Reparar funções e preencher lacunas de uma falta essencial. Como propõe Merleau–Ponty, “há significação quando submetemos os dados do mundo à uma deformação coerente”. Não é só um mundo ressignificado que surge: é um novo mundo.

A reeducação dos sentidos, o desenvolvimento da sensibilidade (a partir inclusive da irritação, do movimento, da pressão, da ansiedade) e portanto dos órgãos que lhes correspondam, é somente um aspecto desta longa tarefa. O outro é um objetivo — para além da arte aplicada. Pictórica ou não, a arte aspira mudar o enfoque de quem interage. Mudar, no sentido de transformar, produzir em quem entra em contato com o que é oferecido um certo deslocamento, um desvio de rota, de qualquer forma, um estranhamento. Palavra-chave, o estranhamento talvez seja o movimento mais importante para empurrar quem quer se aproximar do que se têm para comunicar.

Uma transformação pressupõe um desvio de percurso e o agente desta interferência pode ser o artista. Neste sentido, uma obra sobrevive com mais ou menos intensidade a depender ou graças aos efeitos que produz. Tudo para compreender seus efeitos. Para nos compreendermos como seus efeitos. Para fazer continuar sua história por seus efeitos. Quando vamos interpretar um texto, uma prática, uma expressão qualquer de nossa cultura, — uma obra de arte, instalação ou escultura — saímos do que está dado e mergulhamos na história que levou aquele efeito.

Eis que chegamos ao ponto de contato do epistêmico com o ético. Quando nos reapropriamos de algo que nos interessa como humanos e perguntamos pela história descrita por seus efeitos e pelos efeitos que podem ter, somos forçados a definir muito claramente que somos nós, e nossas produções, os agentes e eventos que se inscrevem na história.

Diz-se que a única força constante é a gravidade. E é dela que dependemos para nos manter em equilíbrio, o sexto sentido. São os pequenos ossos do ouvido interno — num complexo sistema também chamado de vestibular — que detectam nossa posição e orientação espaço-temporal. É assim que sabemos a posição de nosso corpo em relação aos outros, a nós mesmos e ao mundo. Trata-se de uma referência. Em nossa jornada adaptativa, tivemos que ser capazes de nos manter razoavelmente estáveis em um mundo altamente instável. O médico e fisiologista norte americano Cannon pode ter descrito esta notável estabilidade em meio oscilante como homeostasia, raiz mesma de nossa permanência como seres biologicamente viáveis. No entanto e paradoxalmente, talvez sejam as oscilações e a própria instabilidade as responsáveis pelas mudanças favoráveis que sofremos. Vale dizer, somente o desequilíbrio é capaz de gerar um novo equilíbrio, no qual o sujeito sofre as mudanças vitais que dão suporte à vida.

Na síntese do filósofo pré-socrático, Filolau de Crótona, “a harmonia consiste na unidade da composição e na eurritmia das discordâncias”. O ceticismo (do grego skeptomai — examino) é um pressuposto e de fato: nada podemos conhecer com certeza, e portanto deve-se decidir pela dúvida e pela suspensão do juízo. No entanto, nossa sensibilidade pode nos apresentar frações de uma compreensão que transcende o objeto imediatamente conhecido/examinado.

Uma arte vitalista pode ser bem mais do que a grafia cinética das linhas sulcadas ou pintadas nas telas, esculpidas na pedra, modeladas na argila ou pulverizadas nas telas digitais, e é provavelmente mais do que o concretismo aplicado às formas. Chegaríamos à transcendência de um objeto mirando a re-subjetivação que ele pode proporcionar. Para além do experimento estético, penetrar no subsolo pode ser o que fará toda diferença. Este aterramento nos resgataria de uma vida epidérmica e nos devolveria à riqueza e ao inusitado de uma vida experimental. Nos resgataria do mecanicismo para nos despejar num projeto de reinvenção inacabado para sempre; a vida agora.

*Trechos do texto publicado como Capítulo do livro “Teatro da Pedra” de Camila Sposati, Ed. Iluminuras, 2017

 

 

https://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/a-arte-sob-o-vitalismo/

Cremação da memória

Paulo Rosenbaum

03 de setembro de 2018 | 00h22

Museu: chave analógica, reunião-dispersão. Foco, ponto de convergência, gregário. Conservatório, galeria, tesouro.

Fatalidade: Vontade-necessidade. Não ter direito à escolha, estar à merce de, só ter uma saída, ser levado à parede, não depender do alvedrio de ninguém, demitir de si a vontade. Os seus dias estão contados. O que for, soará. Isto é dos livros.

Não irei escrever — o que competentes articulistas especializados decerto farão — sobre os 20 milhões de ítens históricos que evaporaram e subiram como cinzas sob o distraído céu que hoje paira sobre o rio de janeiro. Nem sobre os esforços de D. Pedro II em arregimentar e zelar pelo patrimônio histórico material e imaterial do País. Também evitarei mencionar os 470 mil volumes os quais, junto com as peças históricas, quase foram incinerados no altar da amnésia anunciada. Não sobra muito para dizer a não ser reduzir tudo à solenidade do silêncio. Lamentar a falta de dignidade de uma luta invisível que está sendo travada no Brasil. Luta que está, simbolicamente, representada neste incêndio.

Começarei invertendo a ordem: não é que há perigo nos museus. É que museus são perigosos. Especialmente quando vivos. Quando longe das mãos sectárias e censoras. De gestões sob os aparelhamentos que dominaram o País. Afinal, é lá que a cultura fenece sem sequer ter sido devidamente apreciada. Todo museu é crítico. O museu é, talvez, a mais perfeita representação do inconsciente. Nos força, através dos sonhos, mas também fora deles, a rever o que preferimos ignorar.  E entender o que preferíamos ter despejado. Nos mapas e livros rasurados pelo inferno das inquisições. Nas fotos que congelavam paisagens que já nem existiam. Em pinturas e esculturas jamais catalogadas. Em múmias que aguardavam o despertar das novas gerações. Em acervos drenados em ralos sem manutenção. Em meteoritos gigantes que viajaram anos-luz para vir ter à Terra para provar da nossa incompetência. Entre fios sem capa. Em mangueiras furadas, em hidrantes vazios.

Hoje, neste dia 02 de setembro, os habitantes atuais e futuros foram privados para sempre de saber o que os antecedeu. Quem já não escutou o desafio dos eternos neófitos: para que o passado?  Os beócios ocultos que aparecem durante as votações. Afinal o que significa um museu quando existem outras prioridades?

Mas, e se memória fosse o único bem político real? E se sua preservação assegurasse que os erros antigos fossem cada vez menos frequentes? E se a história, representada pelos objetos que hoje se extraviaram no descaso do infinito, resumisse a única lição significativa? Aquela que permanece a despeito da tentativas de sufoca-la? A única reminiscência que sossobra das aulas enquanto os relógios ainda contam as sequencias cronológicas? Como pudemos permitir que o tempo fosse invadido por aqueles que se acostumaram a negar a história? E da história que insiste em ser desconsiderada por aqueles que preferem ignora-la? Ou, soterra-la nos escombros do prgamatismo. Já se perguntaram o que querem eles? Sim, pois eles continuam a desfilar o discurso sem conteúdo, a narrativa que todos nós já conhecemos na tortura diária em rádio e Tv. Para além do que se convencionou chamar “horário eleitorial gratuito para políticos”, um verdadeiro ônus para todos os demais. É que a conspiração não deixa de existir só porque parece urdir paranoias. E, em geral, mimetiza a palavra mágica sacada pelos legisladores em ocasiões como essa: fatalidade.

Claro: Fatalidade prevista. Fatalidade profetizada. Fatalidade recheada de prenúncios. Como a incêndio da Boite Kiss. Como as passarelas que desabam, viadutos que desmancham, enchentes que arrastam, barragens que estouram, edifícios que desmoronam, violência ampla geral e irrestrita que não cede, como as filas de pacientes sem leito empilhados nos corredores, como os impostos financiando regalias e tribunais que alimentam a insegurança jurídica com bônus especulativo.

Decerto, todos signos da mesmíssima fatalidade. Desta fatalidade que só não é muito mais fatalidade do que não poder prever o óbvio. Fatalidade que surge no improviso e é o álibi do despreparo. Da imperícia de agentes que, públicos, não sabem o valor daquilo pelo qual deveriam zelar. De gente, que prefere que o esquecimento vença o conhecimento. O simbólico do atraso é precisamente escolher a borracha para corrigir o que foi grafado pelas tintas acusatórias do passado. Um passado que, mais do que nunca, reafirmaria a verdade em suas múltiplas perspectivas dialógicas. Os museus são particularmente perigosos para os autocratas. Pois eles são, afinal, o conjunto de um inventário do que já fizemos. Eles guardam o que produzimos e as lacunas que ainda precisavam ser preenchidas. Que para cada museu interditado, destruído ou queimado faça surgir, em cada esquina, um museu de ressarcimento.

Quiça o luto de acervo, essa voluntária cremação da memória, sirva para refazer o vazio. E funcione como inusitado fator de união.

Altamente improvável, mas como certa vez o filósofo deixou grafado “só o improvável tem alguma chance de ser possível”.

 

Médico discute fundamentos da homeopatia em livro “Entre Arte e Ciência”

12/11/2006 – 16h35

Médico discute fundamentos da homeopatia em livro “Entre Arte e Ciência”

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da Folha Online

Especialista em homeopatia, o médico Paulo Rosenbaum lança agora “Entre Arte e Ciência – Fundamentos Hermenêuticos da Medicina Homeopática” (ed. Hucitec), livro que propõe discutir a “re-significação” da homeopatia. Ele também é autor de “Homeopatia – Medicina sob Medida” (Publifolha), que traz uma introdução sobre o assunto para o público interessado em medicina e saúde.

Em “Entre Arte e Ciência”, o autor fala sobre como a nova abordagem dessa prática tão tradicional a coloca em contato com as principais correntes do pensamento contemporâneo, da epidemiologia à filosofia. Rosenbaum discute os fundamentos hermenêuticos da medicina homeopática, destacando o papel da linguagem e o uso dos recursos discursivos e simbólicos no processo semiológico-terapêutico.

Para quem se interessa pelo tema e deseja conhecer os princípios básicos dessa tradição, “Homeopatia – Medicina sob Medida” traz explicações, a história e as perspectivas que a homeopatia oferece. Dividido em nove capítulos, o livro aborda as preocupações do paciente, auto-observação, tratamento, tecnologia e ciência, entre outros temas.

Graduado em Medicina pela PUC-SP, Rosenbaum é especialista em homeopatia, além de mestre em medicina preventiva e doutor em ciências pela Faculdade de Medicina da USP. Atualmente, é chefe do Departamento Científico do Instituto de Cultura Homeopática, membro do grupo de Racionalidades Médicas (IMS-UERJ). Ele é também editor da revista “Cultura Homeopática”.

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Cartilha prática para caudilhos populistas latino-americanos

Cartilha prática para caudilhos populistas latino-americanos

Jornal do Brasil PAULO ROSENBAUM 

Nossa América do Sul assiste a um momento realmente glorioso e contagiante. A União dos Caudilhos da América Latina tem orgulho de anunciar o lançamento de sua cartilha oficial: Caudilho —  Origem etimológica na palavra coudel, capitão de cavalaria, mas também em sentido figurativo, manda-chuva.

A maioria de nós cresceu em meio à insatisfação popular com a condução da economia e com o desmantelamento das instituições. O caudilho moderno não precisa necessariamente ter viés ideológico. Em caso de pressão sempre se pode encomendar uma nova ideologia (que será batizada com seu nome). A alternativa mais em conta é provar que correm em seu sangue traços de DNA de algum libertador nacionalista.

Para discursos públicos procure não ultrapassar sete horas e apresente oratória tosca.  Em caso de lapso levante os dedos e gesticule fazendo ameaças vagas. Importante: quando vierem aplausos dê a entender que você não os merece. A qualquer acusação mais acintosa peça tempo e diga que irá apurar com rigor – acrescente “doa a quem doer” para dar mais veracidade – ou diga apenas que não sabia de nada.

Quando conceder coletiva passe a impressão de ser vítima da grande imprensa. Despache assessores para redigir artigos nas revistas que recebem publicidade oficial. Nunca perca a oportunidade de converter o vácuo de liderança em culto à sua personalidade. É só uma questão de tempo até ser reconhecido como a única solução da pátria. Se possível, anuncie que os avanços sociais começaram em seu governo. Produza fatos e defenda a população da agressão ianque, mas mantenha o fluxo comercial intacto. Se a commodity for petróleo, faça agrados dando abatimento no preço do barril. Promova privatizações em leilões confusos e, quando algo der errado, coloque a culpa na democracia liberal. Insista na tese de que ela está defasada em relação aos anseios populares (nunca os nomeie com precisão). Se houver espaço, afirme que o sistema eleitoral representativo faliu e precisa de uma grande limpeza. Quando alguém perguntar quem se incumbirá, anuncie, relutante, que aceita a missão de ser o faxineiro-mor!

Em caso de resistência à revisão da Carta constitucional que garanta mais autocracia, ataque o sistema capitalista e associe a democracia a fantasias colonialistas espúrias. Se houver reação da opinião pública, não se abale. Conte com o apoio da burguesia arrependida e dos ideólogos do partido.  Não tenha medo de adaptar discursos para cada plateia e, sempre que defender os pobres, aproveite para, de leve, fomentar o ódio entre classes sociais. Líderes companheiros do Equador ao cone subantártico devem ser unidos e solidários. Associe-se a países que têm ditadores confiáveis. Se cobrado por essas associações, afirme que questões como violação dos direitos humanos, massacres e fraudes eleitorais em outros países são “problemas internos”.

Em caso de emergência interna, aperte o botão de desvio de foco  e, se houver ameaça grave ao controle, declare guerra ou provoque incidente bélico com alguma superpotência. Sem pudor apoie-se no grande capital. Não há instabilidade quando o assunto são negócios e megaempreendimentos com o Estado. Recorde-se que é o dinheiro que financia as promessas que você não cumprirá. E quem é que precisa de coerência? Se precisar escolher um alvo, sempre mire na classe média ou nas minorias. Costuma dar certo! Promova pesado assistencialismo de Estado em troca de apoio político e governe com coalizações. Se a avidez por cargos sair do controle, faça a divisão superestimando as concessões e use laranjas para vazar dossiês incriminadores. De vez em quando finja moralismo e diga que as questões éticas são inegociáveis e apadrinhamentos não serão tolerados. Se houver falha no sistema de mordaças, embargue o papel (se for um jornal impresso) ou acione o sistema jurídico (qualquer coudel bem sucedido sempre soube transformá-lo num apêndice legitimador do regime) e deixe que ele se encarregue de deter ou processar insatisfeitos.

Cumpridas estas condições, a América está garantida.

* Paulo Rosenbaum é médico e escritor. – paulorosenbaum.wordpress.com

Reavaliando preconceitos e aversões, celebridades têm mesmo seu valor. A atriz Angelina Jolie expandiu drasticamente sua fama com a notícia da mastectomia total bilateral à qual se submeteu depois de detectar, através de exames genéticos, alto risco de desenvolver neoplasia maligna na mama.

A decisão provocou corrida aos exames genéticos e intermináveis polêmicas, mas, pelo que se lê e ouve, estamos distantes de qualquer consenso, sequer de um debate racional. Como sempre, alvoroços opinativos se transformam em posturas sectárias e apriorísticas: “eu também faria, tem toda a razão” ou “que absurdo, ela deve ter tido razões ocultas para tomar essa decisão”. Assim é que não se vai muito longe. A verdade é que exames de mapeamento heredo-genético ainda estão em fase de pesquisas. Neste estado embrionário, bem poucas cidadãs podem se esclarecer ouvindo e lendo as discussões travadas na mídia.

Vamos voltar um pouco para tentar reconstituir as razões, o contexto e os parâmetros científicos que costumam nortear decisões terapêuticas.

Toda a ideia da epidemiologia clínica sempre foi tentar esclarecer e distinguir os fatores que expõem (com potencial para impactar negativamente a saúde) daqueles que protegem o sujeito (deixar o organismo menos vulnerável). Como saber? Tenta-se estabelece-se uma linha de risco. O risco é uma fronteira subjetiva, ainda que possa ser transformado em índice matemático sob dados estatísticos. A saber, existem procedimentos clínicos, nutritivos, hábitos de vida, e ambientais que protegem a pessoa, assim como aqueles que a tornam mais vulnerável.

Então de onde emerge a subjetividade e toda a assim chamada “arte” em medicina?

A medicina não é ciência stricto sensu, no máxima ciência operativa como alguns epistemólogos ousaram classificar. A arte mencionada se deriva da necessidade de ponderar cada caso em seu devido contexto de individualidade e peculiaridade. Isso torna as regras clínicas mais flexíveis. Alguns reclamam deste caráter relativizador que a medicina adota. Ainda bem que ele existe! Na verdade, trata-se de um importante esteio de segurança para que a pessoa enferma não seja reduzida a mero protocolo.

Em outras palavras, todas as decisões terapêuticas: do parto via cesariana ao transplante cardíaco, dependem pois de criteriosa avaliação do médico, dos cuidadores, da família, da história pregressa, das condições e contextos da pessoa enferma.

Se Angelina têm mais chances de desenvolver a doença neoplasia mamária, e há um exame que detecta esta predisposição e ponderadas todas as variáveis, ela junto com o marido, médicos, agentes da saúde e família, tomou a decisão, esta deve ter sido acertada. Isso não significa que outra pessoa, nas mesmíssimas circunstâncias e com o idêntico exame em mãos, deva ou possa reproduzir o que a atriz acaba de fazer. Por que não?

Exatamente porque a análise de risco envolve aspectos que estão para além da medicina e, às vezes, o que vale para um pode não valer para outro. Quanto a mulher pode suportar a idéia da mutilação? Quais os impactos psíquicos?  Com que tipo de companheiro/família ela poderá contar na fase que se chama convalescença? Ela sabe que resta uma chance de 10% de que mesmo tendo se submetido ao procedimento pode desenvolver o câncer? Sabe que podem haver complicações cirúrgicas, como aderências, má cicatrização e infecções? Qual será a influência da cirurgia no seu futuro, nos projetos que desenvolve, nas atividades profissionais? E, por último, decerto o mais importante, como lidará com a informação de que haviam chances de jamais desenvolver o tumor maligno?

Para compreender isso melhor será importante recuperar os esquecidos e quase abandonados conceitos de predisposição e susceptibilidade. Não seria má idéia que o público tivesse acesso aos textos do pai da medicina para entender isso melhor. Sim senhores, uma medicina “antiga” como a hipocrática ainda pode nos indicar caminhos e evitar trilhar nos desastres dos excessos de diagnósticos.

Polêmica mas cabível, é a tese desenvolvida pelo médico americano Gilbert Welch “Overdiagnosed”, livro que traz críticas razoavelmente fundamentadas aos incontáveis abusos de técnicas da propedêutica armada (exames laboratoriais).  Welch, não descarta o valor do diagnóstico ou propõe modelos alternativos para a saúde, mas enfatiza o questionamento à indústria das doenças que o excesso de tecnologia costuma construir.

Em uma sociedade com características patofóbicas (pathos – paixão ou doença, phobos – medo) e alarmável por tudo, agravado pela velocidade on-line de informações impossíveis de seres processadas, nossa tendência é consumir procedimentos e seguir acriticamente o que se noticia como in e up-to-date.  Há uma moda em saúde também.

Para desenvolver uma moléstia (complexo de alterações funcionais e morfológicas, de caráterevolutivo, que se manifestam no indivíduo submetido à ação de causas estranhas, contra as quais ele reage) é preciso “poder” desenvolve-la. Em termos práticos isso significa que só se existe um terreno genético há chances de desenvolvimento da patologia. Chances não significam certeza. São dados condicionais, não mandatórios. Se soubéssemos de todas as nossas chances de adoecer, viveríamos melhor? Para que alguém adoeça, devem se mesclar condições suficientes, necessárias, sobretudo fatores desencadeantes. Em geral são multifatoriais.

Exemplo: uma crise de bronquite alérgica pode afetar alguns sob três condições simultâneas: verão, muita umidade e abuso no consumo de chocolate. Em outros (considerando que o sujeito tenha a mesma predisposição genética e a mesmíssima patologia) só desenvolverá seu potencial no outono, ar seco e a noite. Ainda há aqueles que só precisam da decepção financeira para desencadear broncoespasmos. É esta ampla, quase imponderável variabilidade que torna a medicina um campo curiosamente inexato.

Voltando ao caso Jolie, é necessário prudência, responsabilidade e cuidado. O risco é que, sem todos os dados, o cenário se torne corredor de direção única, como aliás têm sido a epidemia de cirurgias plásticas e bariátricas. Isso é particularmente importante neste caso, e, por isso, trago o tema à tona. Questão de saúde pública. A tendência dos colonizados é agir por cópia e a cópia costuma ser um equívoco. O que serve para Jolie pode não servir para as outras mulheres e vice versa.

Qualquer decisão que envolva este grau de radicalidade e intervenção, merece esmiuçamento e seria aconselhável estar clinicamente amparada, de preferência, por duas opiniões de equipes médicas e transdisciplinares.

Uma vez formulada a decisão, aposte que essa foi a melhor dentre todas as possibilidades sem esquecer que nada é inexorável.

Sobre o autor:
Paulo Rosenbaum é médico e escritor. Mestre e PhD em ciências, é pós-doutor em medicina preventiva (USP). É autor de “A Verdade Lançada ao Solo” (editora Record). Tem uma coluna semanal em “Coisas de Política”, do Jornal do Brasil.

Os benefícios das práticas integrativas (Jornal da Usp)

06 a 12 de mar�o de 2006 ano XXI no.753
sa�de
Os benefícios das práticas integrativas
Livro lançado pelo médico Paulo Rosenbaum mostra as contribuições da homeopatia para a medicina tradicional

CRISTIANE CAPUCHINO, DO USPONLINE

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O
crescente avanço da homeopatia e o grande número de dúvidas sobre suas práticas são algumas das razões para ler o livro Homeopatia – Medicina sob medida, que acaba de ser lançado pelo médico Paulo Rosenbaum.

Médico homeopata, Rosenbaum é graduado pela Faculdade de Medicina da USP. Seu doutoramento, defendido no final de 2005, também na Faculdade de Medicina da USP, tem como tema o conceito de “medicina do sujeito”, que é a terapia centrada no paciente de forma holística, e não apenas nos sintomas de maneira generalizada. Essas são, segundo o autor, características do tratamento homeopático.

Com o lançamento, Rosenbaum, que também é docente da Escola de Homeopatia, pretende acabar com mitos e esclarecer a terapia homeopática. Na entrevista a seguir, o médico fala sobre as dificuldades para a aceitação da homeopatia no meio científico e os preconceitos ainda existentes. Ele também explica o que é a “medicina do sujeito” e a contribuição da homeopatia para outros campos da medicina. “A homeopatia é uma forma de operacionalizar a interdisciplinaridade, tão falada e tão pouco realizada. Esse é o nosso método de trabalho”, diz o médico.


JORNAL DA USP
– Por que a homeopatia foi considerada, durante muito tempo, um tipo de curandeirismo?
Paulo Rosenbaum – Existem motivos que são de ordem cultural e outros de ordem socioinstitucional e política. A homeopatia nunca conseguiu se institucionalizar dentro da universidade. Por falta de organização dos próprios homeopatas, por um certo belicismo existente entre os próprios homeopatas e dificuldades de comprovação do seu saber. Essas dificuldades persistem até hoje.JUSP – Como o senhor reage à crítica de que não há comprovação científica dos efeitos da homeopatia?
Rosenbaum – Ainda não se conseguiu provar o modo de atuação da homeopatia. Mas, ainda que não se saiba como acontece, existe a comprovação empírica de que a homeopatia dá resultados, tanto in vitro (em laboratório), como in vivo (em pacientes). Não se sabe como isso se dá, já que são doses muito diluídas, abaixo do limite da matéria. Acredita-se que o efeito esteja em uma informação de natureza eletromagnética, o que é muito provável.

JUSP – As indústrias farmacêuticas tradicionais são um obstáculo para o uso dos remédios homeopáticos?
Rosenbaum – Há barragens que não são propriamente científicas. Existe um bloqueio do mercado tradicional, mas o mercado homeopático é um mercado emergente. E já movimenta algo em torno de várias centenas de milhões de dólares. E isso incomoda as indústrias farmacêuticas. Muitas delas estão entrando nesse mercado, investindo em fitoterapia, percebendo a evolução, o que era impensável há 20 anos.

JUSP – Ainda existe preconceito contra a homeopatia entre os médicos ?
Rosenbaum – É necessário que se diga que diminuiu muito. A homeopatia vem crescendo tanto na Europa como nos Estados Unidos e mesmo no Brasil. Está conseguindo sua inserção nas universidades. E também uma inserção social. No dia 15 de dezembro passado, por exemplo, foi aprovada uma lei (a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares) permitindo trazer para o Sistema Único de Saúde (SUS) práticas não-convencionais, como a acupuntura e a homeopatia.

JUSP – Mas chamar de práticas “não-convencionais” já não evidencia uma certa implicância?
Rosenbaum – Sim. A recomendação é que passe a se chamar esse tipo de intervenção de “medicinas integrativas”, caracterizando-o como um pool interdisciplinar, de práticas que trabalham com diversas áreas.

JUSP – No livro, o senhor aponta essa como a grande virtude da homeopatia.
Rosenbaum – Essa é a idéia de nós realmente operacionalizarmos a interdisciplinaridade, tão falada e tão pouco realizada. Na homeopatia esse é o método de trabalho. A homeopatia tem que necessariamente conversar com a antropologia, com a psicologia e com as práticas médicas convencionais, para melhor atender o paciente como sujeito.

JUSP – O que é a “medicina do sujeito” de que o senhor fala no livro?
Rosenbaum – Existe uma área emergente na medicina, que é a medicina centrada no paciente. Uma outra prática é a medicina baseada em narrativas. Essa é a base de trabalho da homeopatia: a história do sujeito. É através dela que você pode compreender a doença ou a enfermidade. O meu doutoramento é sobre a medicina do sujeito, e ela está para além da homeopatia, é a incorporação de outras coisas além dos sintomas simples usados tradicionalmente.

JUSP – Qual é a contribuição da homeopatia para outros ramos da medicina?
Rosenbaum – A homeopatia tem uma forma muito particular de fazer a anamnese (conhecimento do histórico do paciente). Faz-se uma entrevista longa, bastante detalhada, que evoca não só a patografia, mas também a biografia. Como o paciente é, qual seu temperamento, quais são seus hábitos. Hoje se fala da humanização da medicina. A homeopatia tem essa performance já incorporada na prática. Você acolhe o discurso, traz o sujeito de volta à cena. Mantém a medicina como o contato entre humanos.

JUSP – Então a homeopatia não se pretende única?
Rosenbaum – A homeopatia não é contra a biomedicina, é um modo diferente de conhecer o corpo. Ela dialoga com a medicina porque o paciente precisa manter os tratamentos de todos os lados. Qualquer tipo de benefício, sobretudo em enfermidades graves, é bem-vindo. Hoje um dos programas mais importantes da área de saúde do governo é o médico da família. Seu sucesso não se dá apenas por levar o médico até as regiões mais distantes. É a idéia do médico individual, que acaba conhecendo o paciente, sabendo de traços da sua vida. Esse médico tem como interferir de maneira mais eficaz.

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O Jornal da USP é um órgão da Universidade de São Paulo, publicado pela Divisão de Mídias Impressas da Coordenadoria de Comunicação Social da USP.
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Paulo Rosenbaum apresenta sua literatura ligada à temática das tradições (Rádio Cultura)

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Paulo Rosenbaum apresenta sua literatura ligada à temática das tradições

O médico e romancista participa da coluna ‘Com a palavra, o livro’ e divulga seu novo projeto, que ainda busca uma editora para publicação

Literatura

16/06/14 16:21 – Atualizado em 23/06/14 11:59

O médico, poeta e romancista Paulo Rosenbaum teve seu primeiro romance, intitulado A verdade lançada ao solo, lançado em 2010. O livro publicado pela Editora Record marcou sua estreia na ficção. A temática é a tradição judaica e o questionamento do lugar do homem na Terra, aplicando judaísmo e filosofia a fatos históricos.

Com a boa repercussão de sua primeira obra de ficção, ele ganhou uma bolsa literária para escrever em Israel, que resultou em uma experiência única com autores locais. Lá, buscou capturar o estado das coisas no país. Após escrever o texto, está em busca de uma editora que apoie seu novo projeto e o publique.

“É uma discussão sobre a ressignificação da tradição. Sou judeu e tive essa vivência de retornar as raízes, e eu queria entender melhor a minha própria experiência”, diz o médico e escritor em entrevista no De volta ‘pra’ casa.

“Acabei fazendo um livro que remete à tradição do primeiro homem. Os corpos de Adão e Eva estão enterrados em uma cidade conflituosa de Israel. E acabei indo para lá e tendo vivências curiosas”, conta. Como sugestão para a coluna Com a palavra, o livro, ele deixou duas referências que o marcaram: , de Joseph Roth, e A queda, de Albert Camus.

Entrevista Fictícia com o Dr. Mure, o divulgador da Homeopatia no Brasil

quarta-feira, 3 de março de 2010

Entrevista Fictícia com o Dr. Mure, o divulgador da Homeopatia no Brasil – Paulo Rosenbaum

Dia da Homeopatia

No dia 21 de novembro, comemora-se o dia da Homeopatia, uma data que propicia um momento
de reflexão sobre a terapêutica criada por Samuel Hahnemann e introduzida no Brasil pelo médico Benoit Jules Mure. Numa fictícia entrevista como Dr. Mure, o Dr. Paulo Rosenbaum levanta algumas questões que, do seu ponto de vista, são importantes para o atual momento da Homeopatia.
Mais um dia da homeopatia no Brasil e não é difícil reconhecer a desmotivação generalizada. Mas haverá alguma explicação razoável para ela?
O médico Benoit Jules Mure tinha muitas preocupações em mente. A ampliação do horizonte de atuação da
medicina era uma delas. Um projeto generoso e compatível com os desejos da sociedade que pedia, e continua pedindo, compartilhamento, diálogo, ética e solidariedade, seja lá qual for a medicina utilizada. Para discutir este e outros temas conseguimos conversar com o Dr. Mure em Lyon, França:
Dr. Mure, Neste dia que comemoramos a introdução da homeopatiano Brasil, há o que celebrar?
O Sr.Sempre defendeu que a homeopatia desempenhasse um papel social bem mais amplo. Que pretensão era essa? Qual sociólogo ou filósofo concedeu esta liberdade para a medicina?
BM – Não estamos pedindo lugar junto às sociedades alopáticas e levantamos sem temor bandeira após bandeira, escola após escola. Os homens religiosos tomam o partido da medicina do sacrifício e espiritualismo, contra a da matéria e do egoísmo. Nossas preces nos sustentam os sonhos, nossos TDeum, nossos triunfos (Carta de Mure: Bulletin de la Societé Hahnemanienne de Paris, 1847, t. 2, 310)
Por favor, sabemos que faz tempo, mas poderia fazer um rápido balanço da época de sua passagem pelo
Brasil?
BM – Nós contávamos com um processo de conversão em massa. Apenas um décimo da população ainda se atinha aos sistemas antigos, enquanto todo o restante adotava com convicção a reforma médica. Os bancos da Faculdade estavam praticamente desertos e, dos doutores que produzia, a metade abraçava a Homeopatia… Tínhamos um segundo ministério abalado e modificado por conta da questão médica que varria o Brasil inteiro, desde os inspetores de polícia até o Conselho de Estado e as Câmaras. A luta era
aberta, ardente, declarada… Mas como você sabe deixei o Brasil em 1848, nãosei bem como a coisa andou nestes últimos 159 anos.
Sei que o Sr. tem saudades do Brasil, se voltasse, o que faria hoje? (Mure olha em volta, tira os óculos, e nostálgico deixa sua voz combativa de lado, meio inconformado):
BM- Mas, justo agora… agora que chegamos tão perto, onde é que foram parar todos?
Neste momento, mostro a ele a portaria 971 que deveria regulamentar a prática de medicinas integrativas. E
explico ao Dr. Mure – alguém tinha que o fazer – que em nossos dias a homeopatia, assim como toda a medicina, deixou de ser uma causa com corte ideológico, que ela hoje em dia se encaixa apenas como mais uma técnica dentre outras. Mure fica em silêncio, pensativo, olhando o pedaço de papel.
O que você me diz disso, Dr. Benoit?
BM – Fizemos nossa parte na divulgação da Homeopatia, tanto na Europa como na América, podemos reivindicar a fundação de três institutos e de cinqüenta dispensários… a conversão de cem médicos, a instrução de quinhentos alunos, a redução da mortalidade em nações inteiras, numerosas obras escritas em italiano, português, francês e árabe, dois mil artigos em jornais, viagens por todas as latitudes, o desmonte
de epidemias e contágios, o desencadear de paixões odiosas, a indiferença, perseguições, inveja, calúnias, derrotas ou empates, o tempo, o trabalho e o dinheiro perdidos para sempre.
Dizem por ai que a homeopatia como conhecemos pelo menos está desaparecendo. Qual mensagem
deixaria aos médicos homeopatas de hoje que estão um tanto atônitos pelo mundo?
BM – Se a Providência evidentemente nos sustentou durante uma prova superior às nossas forças, fomos merecedores desse favor praticando, antes de tudo, a máxima salutar: “Ajuda-te que o céu te ajudará” (Cf Mure, B. Patogenesia Brasileira, Ed. Roca, São Paulo, 1999 e Benoît Mure”, Ch. Janot – Homeopathie
Moderne, 15 de fevereiro de 1933). ■

Dr. Paulo Rosenbaum, médico e escritor.
http://aph.org.br/images/stories/informativo/aph_101nov-09.pdf

Ponha-se no lugar do paciente

Ponha-se no lugar do paciente

Faz tempo. Numa manhã de pouco sol alguém lia Ponha-se no lugar do médico dizia a enorme placa de acrílico numa moldura dourada ligeiramente mal esquadrinhada. Havia algum orgulho já que diariamente centenas de pessoas afluíam aos consultórios e aos ambulatórios públicos que coordenava. As queixas eram diversas para não dizer surpreendentes. A notícia importante não era a descoberta de uma cura espetacular, nem de um achado científico sobre uma nova droga. E sua inovação mudou a medicina. Pensou em dar um nome para o método, mas mesmo depois de anos lidando com sua descoberta todos os nomes que achava não resistiam. Nenhum fazia juz ao invento. Para entender o sucesso do Dr. Dalton Now Caravelas será preciso retroceder até à época em que ele era só mais um estudante de medicina.

Aos 18, Dalton ingressou na faculdade de medicina sem a menor idéia do que esperar. Afinal a medicina não é uma área das ciências humanas, mas usa humanidades, não é biologia, mas estuda organismos vivos. Quando lhe perguntavam sobre sua opção respondia o que muitos pensam que sabem sobre o motivo da escolha da profissão: salvar vidas seguida da clássica gosto de ajudar pessoas . Às vezes ouvia a contrapartida, também comum, ora, então vá ser bombeiro ou voluntário em entidades filantrópicas . Mas não era nada disso. Dalton estava convencido que queria ser médico ainda que não tivesse noção do que isso significava. Mais que médico, já tinha escolhido uma área cirúrgica. Mas a experiência com sangue, enorme esforço físico e o repouso anestésico dos pacientes o desesperavam e foi demais para ele. Abandonou rapidamente a idéia de ser operador. No meio do segundo ano percebeu que a medicina não era o que tinha imaginado. O atendimento no serviço de dermatologia num serviço ambulatorial do público do interior do estado nem em sonho era o que tinha imaginado.

Quando viu que teria que suprimir tudo que aparecia na superfície da pele, enfrentar a burocracia diária, se submeter aos chefes poucos simpáticos e aturar gente sem a menor paciência de esperar horas na fila, mudou para obstetrícia. Partos, essa era a solução. Foi nova decepção. Ninguém mais tem paciência especialmente os administradores hospitalares para esperar por um parto natural. A encantada rotina dos parteiros se transformou numa monótona linha de produção de embriões e bebes.

Dalton viu-se em apuros. Já estava no quinto ano do internato dava alguns plantões. Perguntava-se todos os dias sobre seus talentos. Poderia ter sido cartunista. Tinha bom humor e desenhava bem. Notou que poderia ter sido um ótimo advogado, um defensor público. Também não faltavam capacidades manuais para o artesanato. Imaginou-se hábil com as palavras e então seria escritor de biografias. Mas também gostava de ouvir pessoas nas consultas. Isso bastava para continuar na medicina? Concluiu ser um pouco tarde demais para desistir ou migrar de área. Pensou na decepção dos pais, e dos amigos. A renúncia seria a derrota, a ambigüidade a depressão. Deprimido, entrou para o grupo de teatro da faculdade. Percebeu que, a exemplo da taxa de baixa mobilização de nossa capacidade cerebral, a medicina usava muito mal as informações que eram colhidas nas consultas.

Mas tudo isso para que mesmo? Chegar ao final de cada consulta e carimbar seu número de CRM? Reproduzir um monte de frases feitas? Ameaçar com cifras de mortalidade, discursar sobre taxas estatísticas ou ser taxativo sobre os riscos que pesam sobre cada um? Impor, num piscar de olhos, as últimas modas farmacêuticas? Ser médico tinha que ser coisa bem diferente.

Terminou a graduação determinado em buscar novas experiências. Foi se convencendo que a raiz do fracasso de muitos tratamentos era, por exemplo, o fato do médico nem imaginar como o doente realmente se sentia durante as consultas. Dalton começou sua carreira de inventor experimentando inverter os papéis durante as consultas em um ambulatório público de clínica médica: sentava-se na cadeira destinada aos pacientes, oferecendo seu assento. Da nova posição pedia para eles orientações e conselhos. Em vão médicos veteranos tentavam desmotivá-lo. Contemporâneos de Aristóteles já tinham usado este recurso. Freud percebeu a vitalidade desta relação e o psicodrama inventado pelo médico Jacob Levy Moreno mobilizava forças parecidas. Outro colega insinuou que ele deveria estar com algum desbalanço nos neutrotransmissores e ofereceu o antidepressivo que usava. Dalton declinou. Psicoterapeutas e antigos colegas passaram a insultá-lo. Os primeiros o acusavam de prática primitiva. Os últimos achavam aquela idéia patética. Inevitáveis piadas surgiram.

Menos de duas décadas depois se falava que seu método era genial.

Em uma de suas últimas entrevistas Dr. Dalton contou o segredo de sua reforma médica que 30 anos depois revolucionara completamente o ensino médico. Começou como num laboratório de teatro para ver como eles se sentiam na minha pele e eu na deles. Tudo aconteceu depois que vários pacientes repetiram uma frase que todos os médicos deparam: se estivesse no meu lugar o que faria? Percebi que por mais que me esforçasse não conseguia me transportar para o lugar deles. E eu deveria ser capaz. Mas não conseguia, simplesmente era incapaz de me deslocar. Mesmo assim minha visão das consultas foi mudando completamente. Foi aí que decidi me entregar mesmo à experiência de estar na pele do paciente. Vi que a própria consulta poderia ser ótima ferramenta terapêutica. Para que esperar? No início era para treinar médicos, mas a experiência apresentou resultados que foram muito além da minha intuição. Percebi que a transferência de responsabilidade também mudava a cabeça destes pacientes. Produzia insights quase instantâneos e muitas pessoas subitamente compreendiam o que fazer em relação as suas próprias doenças e limitações. Diminui drasticamente a necessidade de usar remédios. Mas tudo isso só se descobria ali, graças aquela brincadeira da inversão dos papéis. Hoje não é mais necessário que os pacientes sentem na minha cadeira, apenas pergunto, em um certo momento da consulta, se eles desejam fazer um jogo que pode beneficiar o tratamento. Em geral inicio sugerindo que se imagine como médico e eu como paciente. Daí em diante as surpresas são tão interessantes que qualquer resumo seria descartável, empobreceria a realidade, entende? Mobilizar a imaginação das pessoas, mais que seus argumentos racionais, é um poderoso recurso que amplia horizontes. E tudo ali, na hora .

Não deixo de me impressionar como não percebemos a importância disso antes. Dalton fica meio aéreo, olha em volta com quem decide enxergar detalhes em um jardim árido. Claro que não isso não resolveu a crise humanista pela qual passa a medicina. E para o esclarecimento geral, ao contrário do que espalham, deixo claro que é apenas uma intervenção temporária e que, se for o caso, quem formulará todas as receitas será o médico. Se fosse apenas ficção poderia parecer um pouco absurda, mas que posso fazer se na realidade deu certo. Catarses podem ser usadas para que as pessoas se expressem sem ter pela frente anos, as vezes passando de uma clínica de especialidades para outra. O sistema que tive a sorte de sugerir pode ser usado por qualquer médico. Não tem segredo pelo seguinte: a raiz do seu sucesso é só um melhor aproveitamento do espaço da própria consulta. Não é depois, é ali, na hora .

Dalton explicou como foi ampliando a aplicação até chegar a conclusão de que médicos que se imaginam pacientes mudam suas cabeças, aprendem a fundir melhor suas expectativas com os que precisam de sua ajuda. Hoje o sistema do Dr. Dalton é amplamente usado. Nos consultórios, ambulatórios e em quase todos os lugares do país como instrumento de ensino nas faculdades. Recentemente recebeu adeptos pelo mundo. Por uma decisão do parlamento europeu a União Européia adotou oficialmente o método como parte do treinamento médico.

O fato de ter instaurado uma pequena revolução na medicina fez com que considerasse parte da missão cumprida. Hoje, Dr. Dalton, 92 anos, é paciente e desenha charges para um jornal de bairro em Cosme Velho, onde mora desde que se aposentou para a medicina.

Dr. Paulo Rosenbaum é especialista em homeopatia, Mestre em Medicina Preventiva e doutor em Ciências, ambos pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

Uma descida à Makhpelá por Cassionei Petry (Gazeta do Povo)

“Uma descida à Makhpelá

por Gustavo Nogy[14/03/2018] [09:50]

Uma descida à Makhpelá

por Cassionei Niches Petry

Há um tempinho considerável não lia um romance da literatura brasileira contemporânea tão desafiador. Quando falo desafiador, me refiro àquela obra que nos faz juntar as peças para montar um quebra-cabeça intelectual, mas é bom que também não seja hermética, em que só os iniciados consigam entrar. Céu subterrâneo (que nos desafia desde o título), de Paulo Rosenbaum (Editora Perspectiva, 2016, 249 páginas), é uma mistura bem dosada de romance policial (ou de investigação), histórico, metalinguístico e psicológico. O mais importante, porém, é que conta uma boa história.

O narrador-protagonista é Adam Mondale, que se afastou da universidade onde exercia as funções de professor, pesquisador de comportamento animal e diretor do Instituto de Psicologia. Os motivos são as modernizações do curso e os consequentes conflitos com os colegas. Decide dedicar-se à carreira de escritor e obtém uma bolsa que lhe permite viajar para Israel, onde estão suas raízes, já que é descendente de judeus. Isso, porém, só ficamos sabendo depois do primeiro capítulo, em que vemos o personagem sendo aconselhado a não deixar o país por dois policiais que o procuram no seu apartamento. Ele não sabe o motivo e nós, leitores, tampouco o sabemos. Adam passa, então, a narrar os acontecimentos que antecederam a visita indesejada e o enredo começa a se delinear.

“Se pudesse ser honesto, teria que admitir, o verdadeiro agente de toda trama tem que ser o acaso”, afirma o narrador. E é o acaso que o faz encontrar nessa viagem um negativo de máquina fotográfica Polaroide em péssimas condições. Através de um laboratório especializado, consegue revelar a imagem: pés enormes e em torno deles uma porção de letras espalhadas de forma randômica. A busca por entender o que vê o leva ao laboratório do cientista Dr. Hass. Através de um holograma (ou holotrama), a revelação se torna ainda mais surpreendente.

Não gostaria de revelar (percebam a reincidência do verbo) ainda mais do enredo ao leitor. Resta dizer que essa jornada transporta Adam para Hebron, mais precisamente à gruta de Makhpelá, onde estariam sepultados os patriarcas Abraão, Isaac, Jacó e suas mulheres, bem como o primeiro casal bíblico, Adão e Eva. O lugar foi explorado em 1967 por um expedição que levou uma menina de 12 anos, filha de um militar, a entrar na estreita gruta. Paulo Rosenbaum se baseou nesse caso verídico para desenvolver seu romance.

Além do novelo religioso, metafísico e histórico que é desenrolado, a obra traz interessantes reflexões sobre o fazer literário. Conversando com uma espécie de mestre imaginário chamado Assis Beiras (que aparece citado nos agradecimentos do autor no início do livro), Adam Mondale busca conselhos, pois precisa cumprir o compromisso adquirido com a bolsa. Não sabe se vai escrever poesia ou prosa, mas sabe que precisa se livrar do jargão acadêmico. Seu “deimon” alerta: “seja lá o que for escrever, lembre-se, tem que ser arrebatador!”

Paulo Rosenbaum segue o mestre, afinal o conselho era para ele mesmo (que igualmente recebeu uma bolsa para se dedicar à literatura em Israel), e nos presenteia com um romance digno de nota. Resta-me buscar o anterior do escritor, A verdade lançada ao solo, e o recente, de poemas, A pele que nos divide.

*

Cassionei Niches Petry é Mestre em Letras-Leitura e Cognição, professor de Literatura e Línguas Portuguesa e Espanhola no Ensino Médio. Autor dos livros de contos “Arranhões e outras feridas” (Multifoco) e “Cacos e outros pedaços” (Penalux), do romance “Os óculos de Paula”, (Livros Ilimitados) e do livro de crônicas e ensaios “Vamos falar sobre suicídio?” (Kindle/Amazon). Atualmente, é colunista do site Digestivo Cultural, Portal Entretextos e colabora com o Caderno de Sábado do jornal Correio do Povo, de Porto Alegre – RS.”
Leia mais em: https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/gustavo-nogy/uma-descida-makhpela/
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