Isto É, uma vergonha,o caso contra os Israel e os judeus (Blog Estadão)

 

Em palestra recentemente realizada no Centro Judaico Bait o poeta, ensaista e escritor Nelson Ascher enfocou um tema frequentemente interditado ou superficialmente abordado: antissionismo é antissemitismo? O blog Conto de Notícia fez uma síntese de suas considerações e acrescentou reflexões que envolveram também o problema da confiabilidade das notícias e as fake news, a conturbação política na Europa, o papel da imigração maciça e o islamo-fascismo, quem não é esquerda é direita ou quem sabe apenas “não-esquerda”?

Ascher iniciou fazendo uso de uma afirmação absolutamente sintética para responder sua própria pergunta

“Por que o antissemitismo existe e perdura?”

“Porque sempre funcionou”

Funciona de que modo e qual é o significado pregresso e contemporâneo de sua eficácia?

Ao afirmar que o sionismo foi uma espécie de “nacionalismo de segundo grau”  e que  existem outros “sionismos” sendo gestados na Europa em função de uma falta de identificação entre a democracia social praticada pelo parlamento Europeu e os países por ele governado. Deduz-se que o “nacionalismo de segundo grau” pode ser compreendido como uma reatividade dos povos às tentativas de interferências em seus costumes para além da unidade territorial e financeira. Neste sentido, estará a Europa ameaçada logo adiante por vários movimentos similares ao Brexit?

Em 2018 tivemos um perturbador recorde de número de ataques antissemitas na Alemanha, França e mais recentemente nos Estados Unidos. No caso europeu não há como desvincular o atual status quo da crise dos refugiados que permitiu o ingresso de quase 2 milhões de pessoas (imigrantes de Países do norte da África – em sua imensa maioria, frise-se  não refugiados) que vem de culturas intolerantes violentamente antissemitas. O problema portanto está mais na política imigratória que parece não ter critérios claros do os imigrantes propriamente ditos.

O debate tem sido interditado pela sistemática evocação de termos proibidos por um eufemismo censor mais conhecido como “politicamente correto”. Qualquer menção ao fluxo imigratório selvagem tem sido rotulado como “islamofóbico”. Também é auto evidente porque não se dá o mesmo tratamento para a expressão “judeofobia”. A insistência de boa parte da mídia em condenar aprioristicamente Israel, nas manchetes e nas declarações, atesta isto. Nas recentes crises com a Faixa de Gaza governada  pela organização terrorista Hamas — e seus proxys iranianos — as testeiras mostram o disparate e o viés preconceituoso de parte significativo das mídias jornalísticas. “Israel ataca Gaza” é a chamada mais comum, isso depois de Israel ter recebido quase 500 foguetes contra populações civis em menos de 48 horas. Importante salientar, como já se enfatizou mais de uma vez, que tais organizações terroristas não tem nada a ver com o o governo oficial dos palestinos e seu presidente. São frentes ilegais, as quais, na verdade, oprimem e mantém como reféns a população de Gaza.

Segundo Ascher há uma particularidade no caso do antissemitismo europeu que frequentemente utiliza o justificacionismo do álibi antissionista. É  essencial analisar o papel — direto ou indireto — desempenhado por Angela Merkel e outros dirigentes daquele continente.

Ainda segundo sua análise alguns destes governos autointitulados de democracias sociais, prestam regularmente tributos ao judeus mortos na Shoah (Holocausto) e de fato condenam publicamente o antissemitismo, pregresso. Entretanto, enquanto proferem discursos fúnebres sob auto chibatadas negligenciam o dramático e explícito clima agressivo contra as comunidades judaicas. Enquanto outros Países parecem fazer o movimento inverso. No caso da Hungria — país que você acompanha a política com particular atenção — temos exemplo deste aparente paradoxo: ali temos um governo classificado como de extrema direita (sic), mas é, ao mesmo tempo, um dos lugares onde os judeus contemporâneos parecem estar mais seguros quando se compara com a situação em outros Países europeus. O paradoxo é apenas aparente: enquanto parte significativa dos partidos de esquerda escolhe aglutinar-se em torno de velhas teorias conspiratórias antijudaicas — antes argumento monopólio da extrema direita — há hoje um novo e incendiário componente para ser contabilizado : como definido por Umberto Eco, trata-se do islamo-fascismo.

Como se explica então que nações que inclusive fazem o mea culpa frequentes pela suas responsabilidades no genocídio praticado pelos nazistas com co-participação de vários outros países, mas permanecem inertes diante da epidemia de intolerância antijudaica que hoje varre a Europa, se não impunemente, contando com a omissa displicência dos governos.

Ascher recomenda então a seguinte inflexão: o que é o “Estado Democrático de Direito”. O ex presidente Mubarak por exemplo foi diretamente desestabilizado pela política externa de Obama e na sequencia a Irmandade Muçulmana venceu as eleições no Egito. Como se sabe a “Irmandade” é uma das mais antigas agremiações islâmicas radicais. Aliada estratégica do partido nazista é hoje uma entidade assumidamente jihadista. Venceu por larga margem derrotando todos os partidos moderados naquela que seria uma das primeiras eleições no País árabe em décadas.  Pouco tempo depois a própria população entendeu o erro e saiu às ruas — num evento que foi erroneamente classificado como “primavera árabes”– pedindo a deposição dos recém eleitos, o que efetivamente acabou acontecendo através de um golpe militar liderado pelo general Sissi.

Na época, vários analistas atribuíram o fenômeno da eleição de Morsi — morto recentemente de um ataque cardíaco — a um erro do timing do processo democrático: a IM fora a única organização a manter sua estrutura intacta durante as ditaduras subsequentes que perduraram e, portanto, a única apta a concorrer no pleito como uma opção quase exclusiva naquele sufrágio de caráter plebiscitário. Considerando o episódio o que é afinal o Estado Democrático de Direito?

Se só a compreensão do contexto histórico-político pode defini-lo, qual é a sua consistência?

Direita e esquerda tem seus vícios e classificações selvagens. Por sua vez quem não se encaixa nos postulados da esquerda está sujeito a ser tachado de direita ou de extrema direita. Não se admite apenas “não esquerda” ou “não direita”. Muitos membros do partido democrata norte americano e do partido trabalhista inglês — centralizados na figura de Corbyn — tem instrumentado o discurso da luta pelo direito dos palestinos sacrificando princípios históricos ao defender abertamente posturas antissionistas e antissemitas. Isto inclui perfilar-se na defesa do regime teocrático dos aitolás e sair em defesa de organizações jihadistas — oficialmente reconhecidos pelo Parlamento Europeu como entidades terroristas — como Hamas e Hezbollah. São denúncias que vem de dentro do próprio partido trabalhista inglês.

Qual seria o significado ideológico e tático deste giro político?

É inquietante saber que muitos jornalistas passaram a agir de forma militante. Selecionando notícias de acordo com padrões mais ideológicos do que reportando fatos. Parece óbvio que o viés hermenêutico tomou um vulto muito mais poderoso do que os fatos. Ainda que a neutralidade seja uma função idealizada o papel original do jornalismo não estaria mais próxima de estimular o leitor a tomar suas próprias decisões do que de doutrina-lo? Não em nossos dias, quando as notícias falsas que provém de fontes oficiais são muito mais comprometedoras — pois supostamente insuspeitas ou menos suspeitas — do que as propagandeadas nas redes sociais — sempre sujeitas a uma dupla checagem por parte dos usuários mais cuidadosos.

Depois do episódio das acusações do candidato derrotado à presidência da República Ciro Gomes que externalizou seu preconceito quando evocou “corruptos da comunidade judaica”, o caso brasileiro mais recente de declaração acusando os judeus coube à revista “Isto É”. O folhetim publicou lamentável artigo explicitamente antissemita — com o pretexto de acusar o secretário de comunicação do atual governo — usando como mote compara-lo ao chefe de propaganda, o infame Josef Goebbels, marquetólogo do fuhrer. O magazine também usou o termo acusatório fabulando e identificando o inimigo, mais uma vez, “a comunidade judaica”. O título do libelo dispensaria mais explicações “O Goebbels do Planalto”.

Neste sentido, fica evidente a tentativa de sabotar o direito de qualquer sujeito de uma determinada etnia trabalhar ou atuar politicamente para um governo que o articulista e a direção editorial do panfleto considerar inadequado. Na falta de argumentos consistentes a acusação sempre recairá sobre a condição étnica que estiver mais à mão. Soe acontecer com mais frequência contra os judeus.

É neste momento que estamos muito próximos da cassação da cidadania. E da suspensão da ideia do Estado laico por parte de quem mais deveria defende-lo. E assim foi possível mais uma vez evocar o mito, este sim claramente neonazista, de que haveria um “complô judaico”. Ora, há judeus de todas as correntes políticas e matizes e jamais a condição etnico-religiosa poderia ser usada como álibi para generalizar coisa alguma. A não ser é claro que o jornalista ou escritor já esteja na frágil condição intelectual de pós-análise. Isto é, o que importa em qualquer reportagem são suas convicções pessoais e o ponto de partida já é o ponto de chegada.  Generalizações infundadas como as que rotineiramente aparecem partem sempre de um viés ideológico, devocional, vale dizer, fanático.

Não estará ai uma das raízes do próprio descrédito hoje atribuído às mídias regulamentadas de forma geral? A fabricação de desinformação — cada vez mais identificada pela velocidade e expansão do acesso à diversidade de meios de informação — não é a própria genealogia das notícias falsas? Notícias que agora com o condão da web se espalham com assustadora desenvoltura? Isso ocorre enquanto é possível constatar paradoxalmente um considerável avanço de confiança no que é veiculado através das redes sociais?

Afinal o que são as “fake news”? E qual seu impacto no cenário político nacional e internacional? Especialmente no caso de Israel que sofre um considerável número de ataques com mídia financiada e blogs pagos para difundir, por exemplo, discursos de ódio e intolerância.

Neste sentido, pode-se afirmar que o moderno antissemitismo travestiu-se com um antissionismo de ocasião. Trata-se contudo de uma roupagem improvisada. Sob o manto desmontável que merece ser desmistificado pelo jornalismo sério há um respeito seletivo pela liberdade de expressão.

Pouco mais de 74 anos depois do fim da II Guerra Mundial e da morte de mais de 60 milhões de pessoas entre elas 6 milhões e 250 mil judeus (estes mortos depois do final da guerra quando tentaram voltar aos seus domicílios europeus) a realidade só reafirma a importância vital da existência do Estado de Israel para o povo judeu e sua segurança no atual momento histórico. E apesar das ameaças e do renascimento da virulenta onda de intolerância contra os hebreus, nunca houve uma época na história da humanidade na qual tão poucos judeus morreram em massacres. O antissionismo então finalmente desvela-se como só mais uma face velada de um dos arquétipos mais primitivos e recorrentes da humanidade.

Talvez a grande frustração dos pregadores do ódio é que, desta vez, o bode expiatório tem como se defender.

 

 

Da Natureza Irracional do Perdão (Blog Estadão)

 

Qual é o sentido em perdoar? Na tradição judaica, cujo jejum no dia de Yom Kippur significa o ápice da tradição de desculpar e desculpar-se, diz-se que o Altíssimo deseja perdoar e até reza a Si Mesmo para ser clemente. Mas podemos de fato perdoar? Há fatos que tangenciam a indesculpabilidade, e, o desafio que se propõe é que a clemência subjugue a ira. E quem consegue sem frequentar um analista sério ou bloquear o sistema límbico com psicofarmacos?  Poucos. Talvez ninguém. Pessoalmente, tenho algumas experiências: já perdoei o cão que me perseguia diariamente ao ir para a escola. Consegui desculpar um conhecido que solenemente escolheu ignorar-me para sua festa, não antes de me pedir ajuda quando um de seus convidados passou mal. Pude até ser clemente com malidiscentes que tentaram me prejudicar.

O perdão é um conceito antagonico a uma proibição explicita para a tradição judaica: vingança, represália, retorsão, despique, ultrice. Todas elas interditadas pelas normas de Israel. Pois que a vingança é o oposto, a perfeita antítese da justiça. Isso não significa que podemos ser condescendentes com com quem perpretou e produziu vítimas.

Talvez valha a pena explorar a inversão filosófica: o que não é perdão?

Numa época na qual tangenciamos, mais uma vez, os limites da intolerância é importante fazer ressalvas. Estarmos submetidos à hegemonia política ou de qualquer outra natureza de certa forma, também representa a antítese do perdão. A falta de compaixão com a vítima do mal feito, idem. Reparar o erro com o sujeito individual ou com a sociedade ocupa uma posição hierarquica superior do que desculpar aquele que cometeu a ofensa.

A punição é o último recurso que os homens encontraram em seus respectivos sistemas de justiça para tentar obter, por via artificial, o arrependimento que parece que, em certas naturezas, não consegue se expressar de forma espontânea. Em geral não funciona, o que representa um dilema, pois pode a sociedade perdoar quem mostra-se convicto, e cada vez mais convicto de que seu mal feito é na verdade um benefício disfarçado de perversidade?

Mas o perdão metafísico é um mistério distinto. Trata-se de realmente perceber que qualquer um poderia ter feito o que foi feito, não só porque a carne é fraca — e o bolso idem — mas porque é da natureza dos habitantes cederem às tentações. O perdão inspirado no Altíssimo entretanto, parece ser de outra origem, se quiserem uma palavra que ofende os bem pensantes, mas me ocorre, “sagrado”. Ora, e por que não? O sagrado não é dogma, não é axioma definido por uma religião institucionada, mas uma instância quase inatingível que denota sentimento de amor e de justiça.

Assim como um ato impulsivo ou atitude impensada o amor pode ser também concebido como uma desrazão, vale dizer, uma irracionalidade benévola. “Benevolência”, também é uma palavra que pode inspirar repulsa nos ideólogos que abominam reflexões axiológicas, mas é aquele que, para além do maniqueísmo instrumental das doutrinas, pode fazer com que se deseje o bem sem contrapartidas: a auto-transcendência. Já o arrependimento não é só um impulso comportamental superficial e auto-indulgente, mas a percepção de que, na intimidade, subjaz uma consciência de que se pode ser bem melhor do que se é.

Claro que muito dessa perspectiva tem sido instrumentalizada nas sociedades contemporâneas para justificar abusos, uns contra os outros, desrespeito à liberdade e bulyings de Estado que atingem os cidadãos, mas aqui me refiro aos relacionamentos que para bem além do cronológico tem real valor: encontros, reuniões, os amigos, a família, as confraternizações, a alegria imotivada (solitária ou gregária) e até mesmo a melancolia contemplativa.

De qualquer forma, o perdão funciona ao modo de catarse, como um esvaziamento psiquico, e, terapeuticamente falando, pode aliviar até mesmo mesmo a natureza mais refratária à bondade. Sua natureza irracional não lhe retira o mérito, na verdade, o engrandece. E ainda que exercido de forma mecânica e protocolar pode ser uma faísca para regenerar sociedades fendidas. Trata-se portanto, antes de tudo, de um exercício.

Pratiquemo-lo.

Fisiologia da Saudade (Blog Estadão)

Para os pais cujas filhas imigram.

 

Quando alguém sai de casa, todas as vidas mudam. Mas, como na máxima de Lavoisier, nada se cria. É só uma transformação que todavia nos impõe a ilusão de viver sob o novo. Se chegou a hora de viver alhures que seja sob nossas bênçãos. Que seja sob o civilizado desapego dos que ficam. Só não seria cortês exigir-nos superar a melancolia. Ela, jamais exaltada pela medicina, a arqui-inimiga da psicofarmacologia.

Como bom estoico passo através e prefiro não notá-la. Ignorar voluntariamente segundo me dizem é a atitude tipicamente imatura. E daí? Quando se trata das questões viscerais, o critério de avaliação do comportamento  muda radicalmente. Para esquecer a distância tentamos manobras dissuasivas, usamos leitura ou música. Inútil. Tua filha não está lá. Não mais. Nada de trágico, apenas mais um caso de imigração. Mudou de ares? Voou rumo à outra civilização? Afinal, não era isso que formalmente  desejamos para eles? Que a liberdade tenha êxito? Que a autonomia supere os laços de filiação? Que a emancipação seja um principio permanente? Que os sonhos adquiram autodeterminação?

Ei-los.

Mas é ai que o sofrimento não encontra paralelo nas escalas psicométricas. Quando as racionalizações falham. Mas e quanto aos contatos de skype, mensagens, telefonemas, instagrans e demais instantâneos da era? Garanto, longe de aliviar, é então que dói mais, já que escancara uma evidência: o sofrimento sequer diz respeito à ausência.

Afinal o que é sentir falta?

A palavra “saudades”, no plural mesmo, não é bem uma palavra. Trata-se da cortina que descerra o glossário inteiro. O sentimento-idioma, uma sensação polissêmica. A analogia com a expressão “Mal du Pays” é só mais uma aproximação longínqua. Não traduz, e ainda trai a confissão da lacuna.

Saudades não diz sequer sobre a falta que nos faz quem queríamos que estivesse por perto. Saudade é uma idiossincrasia, uma segunda pele que sobe à superfície para aguçar a percepção do insubstituível. Aquela que não está pronta para receber reciprocidade ou recusa.

Mas, e se for mesmo preciso amenizar o peso do vácuo impreenchível? E se ficarmos com a efêmera doçura  da recordação?  Faz sentido usar a melancolia para sublimar? Aquela sobre a qual Robert Burton, sob o pseudônimo de Democritus Junior, escreveu no século XVII?

Em seu tratado  “Anatomia da Melancolia” sua exploração vai do universo filosófico ao caráter poético inspirado na nostalgia e suas várias influências na fiilosofia, literatura e medicina. Qual seria o mérito em “extinguir as palavras nos lábios”? E aqui chegamos ao humor ciclotímico do poeta.

Afinal qual seu leitmotiv?

O que impulsiona o escritor é encontrar aquilo que Paul Ricouer imaginou ao escrever “só há uma forma de dizer as palavras certas”. Mas e se ele não as tiver? Não as certas. Decerto, as imprecisas. Sem dúvida, as impertinentes. Aquelas que cortam a razão para simular uma vida paralela. Junto com as que atravessam o texto para extraviar o leitor e joga-lo, junto, longe, ao percurso ignoto. Aquele recesso sem localização única que ainda perturba o sono profundo da neurociência. Aquela que, apesar de toda tekhné ainda não explica, por exemplo, a consciência. A enteléquia que zomba da arrogância dos que dizem pensar por nós. Que falta faz aos políticos, homens de Estado e intelectuais acadêmicos a penetração num Universo que nunca conhecerão. Aquele onde nem sempre a teleologia é o triunfo, a vitória ou o sucesso. Aquela onde só  o fracasso pode oferecer uma experiência inédita: a ausculta dos demais.

Entretanto é nela que penduramos nossos roteiros. A ludica cabra-cega que nos arrasta destino adentro.

É isso filha.

 

Algoritmos da Manipulação (Blog Estadão)

“Hell is empty, devils are here”.

Shakespeare.

A Democracia precisa de mecanismos que impeçam aqueles que fazem de suas liberdades o usufruto para engessa-la. Sem estas salvaguardas continuaremos a assistir espetáculos do mal feito. Com pitadas de argumentos toscos, seguida da liberação de gente de alta periculosidade à democracia e ao erário.

Notem como a neutralidade é comprometedora. Notem também que a divisão no País não tem nada de fortuita, já que coincidentemente esquerda e direita não estão exatamente disputando o poder. Apenas adotaram a estratégia mais eficiente para manipular o medo.

A obsessão é descobrir algoritmos para melhor operar e teleguiar a cabeça dos cidadãos. E é espantoso quão bem sucedidos são os grupos políticos que detém habilidade inata em matéria de maniqueísmo instrumental. E sem nenhuma alusão metafórica, a eficácia é monstruosa. Pois tudo indica que a pregação ideológica obsessiva visa uma única e a mesma coisa: manter a constância da insegurança e conservar o potencial sufragista nos respectivos currais eleitorais.

Traduzindo, o significado dessa orientação é que nenhum sujeito pode ser considerado sujeito na República. O que é muito mais danoso do que a cassação da cidadania. A identidade é devedora dos agrupados numa legião, associados à uma manada, filiação partidária, pertencimento à militância, sectarismo corporativo ou grupos de interesse. É nestes nichos que o triunfo sobre as massas pode sobreviver: onde todo discurso político é genérico e impessoal mas, ao mesmo tempo, centrado no culto à personalidade. Na apologia de líderes que já não lideram. Ex-líderes que, ao perderem a autoridade, recorrem ao autoritarismo e ao cinismo em suas várias modalidades: explicito, messiânico ou subliminar.

Nas democracias representativas que cederam ao populismo o Estado tornou-se o padrasto raivoso que cobra obediência cega. E para tanto agora formata e edita leis sob medida. A função é subjugar, exigir aceitação acrítica e modelar a intolerância. Ao mesmo tempo, arrogam-se o direito de anular, mutilar e adulterar as regras para melhor servir-se dela e aos amigos vassalos.

Não é pouco aquilo que testemunhamos neste julgamento que foi para bem além da polêmica. Resvalou na marca do ignominioso já que as normas jurídicas foram editadas sob medida, na forma de um arrivismo irresponsável.

Resta saber se aquele plenário defendeu ou perverteu o que está escrito no texto constitucional?

Quem não exerce o direito ou a magistratura, eles dizem, precisa reduzir-se à  insignificância. Curvar-se ao magister dixit e aceitar que é um mero seguidor do vilipendiado senso comum. A opinião pública merece apenas ser submetida ao crivo e à argumentação de experts. Estes, por sua vez, costumam nos berrar o que diz a leitura hermenêutica da constituição federal, especialmente naquele trecho que fala acerca do presunção de inocência do culpado até a leniente manivela rodar todo transito em julgado. Espera, que todo adulto sabe exatamente o que significa, à exceção talvez dos representantes dos poderes legislativo e executivo, que, a despeito da perplexidade da opinião pública, escolheram o silêncio de ocasião.

O que os experts e demais especialistas contratados não dizem, para explicar o que foi ditado, é sobre o sentido da justiça. Vale dizer, o sentido que ela deve adotar para proteger as vítimas. Mais do que os trilhões desviados dos cofres da República, e quando a vítima é a própria democracia? E quando a vítima é a liberdade da maioria?

Se a função da privação da liberdade nos delinquentes é produzir o arrependimento, todo sistema de punição dos apenados precisa ser revisto. Não se notou, por exemplo, um pingo de respeito à justiça ou amostra de que o superego do ex-presidente foi vivificado durante sua estadia no bem equipado quarto de Curitiba. Há apenas alguns minutos exalou explosões de ódio e juras de vingança prometendo  — sempre com sua peculiar astúcia — arregaçar o País. Não carece Senhor, já está.

O diagnóstico não poderia ser mais equivocado: o Estado Democrático de Direito no Brasil não está ameaçado por fantasmas do passado, está sim assombrado por castas de entidades perversas espalhadas em todas as direções.

O não alienado está obrigado a respirar o clima conspiratório que varre o País. Não assino mais nada. Não sei se resta energia para manifestações. Não lerei mais manchetes. Doravante também evitarei notícias e comentários. É chegada a hora de refluir à vida privada. Com máximo fervor e determinação. Trata-se de um favor pessoal ao si mesmo.  Escolher a  alienação é só uma das maneiras para tentar reduzir a tensão a zero.

Como fantasia é eficiente. Recomendo.

https://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/algoritmos-da-manipulacao/

 

 

A liberdade sem expressão (Artigo no JB 09 05 2012)

 A liberdade sem expressão.

9 de maio de 2012

Ouviam-se rumores de governo iria enfrentar o poder da imprensa, mais
genericamente “os meios de comunicação”. Pois foi o que sintetizou esta
semana o ex-coordenador da campanha presidencial. Numa enquete sobre delírios
de hegemonia, em Brasília, deu disparado em primeiríssimo lugar o controle
social da imprensa a la chinesa, em segundo, dobradinha Putin-Medelev – e sua
capacidade de desbaratar a oposição — em terceiro a blindagem total ao mundo
externo do sistema político da Coreia do Norte. Por motivos óbvios deste
último não se conhece todos os detalhes.
No final das contas o delírio é o mesmo: controlar a mídia, internet
inclusive, com mão de ferro. Ninguém esconde mais o sonho totalitário de uma
imensa mordaça vedando a boca dos cidadãos. Para que tanta liberdade de
expressão?
Um porta-voz está de bom tamanho.
Mais uma vez a análise da linguagem traiu as intenções do poder. Nenhum
governo gosta de imprensa. E é para ser assim mesmo. Trata-se de uma
arqui-inimizade desejável. A ideia da República prima pela diversidade de
vozes e pontos de vista. É o que tornaria o permanente jogo democrático, um
sistema mais civilizado que outros.
O proposital uso do futuro do pretérito sugere condicionalidade, pois o jogo
estaria sendo jogado, se as regras fossem claras. Mas cadê o regulamento?
Para quem está sendo criticado e não vê a liberdade como valor absoluto a
tentação do controle é permanente. Isso não significa que a imprensa não
cometa falhas e excessos. Muitas vezes seu poder é desproporcional e
arbitrário: destrói, calunia, injuria ou incensa, adula e promove. Mas é
sempre melhor correr este risco com possibilidade de retificação, que
sacrificar a liberdade de expressão.
Segundo a ANJ 29 jornalistas foram assassinados em 2011, quatro deles
brasileiros. Muito blogueiros, radialistas, comentaristas e analistas
políticos estão na lista negra somente à espera que seus desafetos promovam o
acerto de contas. Isso sem contar o número de juízes ameaçados. Um horror,
não concordam? E por que ninguém se escandaliza? Porque estamos nos
acostumando à barbárie política como procedimento legítimo. Se os ameaçados
fossem mais pragmáticos deveriam fazer como num filme de Hollywood, em que o
sujeito acidentalmente descobre crimes públicos e privados e vendo que
ninguém poderá protege-lo, negocia sua vida com o submundo criminoso. Ótimo
negócio, sua vida contra segredos resguardados.
A ideia de calar as pessoas – com ameaças, assassinatos ou censura – não
parece insensata para os defensores do estado totalitário.
Isso nos leva ao mundo das ficções, onde, no futuro, só teremos imprensa
mascarada, com autores e articulistas devidamente protegidos por pseudônimos
e anonimato.
Quem denunciará ou enfrentar o poder?
Por isso mesmo cresce no Brasil e no mundo uma imprensa altamente
domesticada, boazinha, que sobrevive dos subsídios e benesses do Estado. Para
garantir a boquinha parte da sociedade se cala. Essa nao é a dignidade que se
espera jornalismo A imprensa subordinada à opinião popular não pode ser
chamada de jornalismo. Insubmissa, sua missão deve ser informar e ajudar
construir uma opinião pública mais crítica. Muitas vezes deve arcar com o
peso de ser a voz dissonante. Não se constrói cidadãos mais críticos com
sensacionalismo ou cooptados por quem governa. Independência e a liberdade
caminham juntas. A verdade é que poucas cabeças ficam incólumes ao arrastão
ufanista- populista
O vazamento de fotos da atriz famosa ocupou páginas centrais dos jornais e
quase um terço de tempo dos telejornais mais assistidos. Perdão aos
otimistas, mas isso reflete o estado de miserabilidade psíquica. Não foi um
décimo do tempo dado aos jornalistas emboscados ou ao repórter que para
provar como tudo é devassável comprou on-line dados bancários sigilosos e
fiscais, inclusive de ministros de estado.
Pois a imprensa adesista que não pode ser oposição é conivente com os
pistoleiros que fazem o serviço de remoção das pedras nos sapatos de gente
poderosa. A imprensa branca é tão ou mais nociva que as outras porque
enquanto estas podem ser acusadas de buscar o lucro fácil das manchetes a
primeira tem sido diretamente instrumentalizada pelo dirigismo partidário.
Infelizmente vivemos uma espécie de patrulhamento, organizado por um poderoso
aparelhamento, que despista todos com a perigosa cortina da eliminação
gradual de autonomia dos três poderes. Mesmo quando a legítima defesa pode
ser juridicamente evocada, ela não pode ser o abono intelectual para
acobertar os abusos do Estado.

Paulo rosenbaum è mèdico e escritor. Autor de ‘A verdade lançada ao solo’
(Ed. Record)

Paulorosenbaum.wordpress.com

Vitalismo: A Arte a céu aberto (Blog Estadão)

Na vigência da era da digitalização, dos códigos, mensagens, informações e sinais por que a academia voltaria a se interessar por uma ideia que foi considerada ultrapassada? Pois parece ser o caso do vitalismo. Uma filosofia médica e biológica, que é, também, uma leitura e um modo de estar no mundo. Segundo Nordenskiöld (1942), em sua história da biologia, uma das mais conceituadas do século XX, o vitalismo é uma das teorias mais fecundas e qualquer biologia séria deveria levá-la em consideração. Trata-se de uma abordagem que afirma que os fenômenos exibidos pelos organismos vivos obedecem a leis diferentes/modificadas daquelas que regem os seres inanimados. Parece óbvio, mas não é. Não há, assim, interpretação da parte sem a compreensão do todo, e não há compreensão do todo que não esteja baseado na interpretação da correlação dessas partes. Aqui entra um outro elemento fundamental para operar o raciocínio hermenêutico: a aplicatio, ou aplicação. É sempre de uma necessidade prática vivida, portanto de uma aplicação, que buscamos nos apropriar de uma certa tradição que, então, devemos fazer com que ela “fale de novo”.

O “falar de novo” significa uma comunicação que rompa (ou apresente potencial para) com a repetição, que surpreenda pelo sentido de reinterpretar uma situação específica e datada. No caso da biologia, os sentidos e os órgãos operam como unidades vivas, ao mesmo tempo integradas e autônomas. Integradas porque falar, ouvir e escutar dependem de um outro, o interlocutor, que recebe a informação emitida. O ato da comunicação, por sua vez, pressupõe que o receptor esteja disponível para ser impactado com as impressões recebidas. O resgate dos órgãos e suas funções recupera, para a arte, a perspectiva sinestésica. Isto é, reconduz a percepção de qualquer estimulo a um corpo extenso, que não se limita a interpelar a mente do observador. No lugar de apenas repetir o pensamento encontra-se livre para recriar, trata-se portanto de um novíssimo. E ele pode ser aplicado das artes médicas às artes plásticas.

Uma neo ruptura.

Exaltar o relevo, ou evidenciar uma perspectiva, não é tudo em matéria das artes. Seria necessário explorar outra dimensão dos acontecimentos de um fenômeno. A proposta de Camila Sposati de exploração de outros sentidos — com seu duplo sentido — talvez reitere as possibilidades ilimitadas da criação artística e, de algum modo, inverte o sinal da obra em si, para o sujeito que a percebe.

A cultura só pode ser melhor aproveitada, de qualquer forma instrumentalizada, se uma intensa troca e reciclagem dos sentidos for colocada em prática. Não seria exagero dizer que temos que voltar a enxergar, indo para além do ver como dadiva sensorial inata. Assim, não são só os órgãos que precisam de exploração mas todos os sentidos, visão, audição, olfato, tato, paladar e o sentido oculto do equilíbrio merecem ser treinados, expandidos, e observados. Não exatamente como meta, desenvolvimento da atividade artística, mas como uma exploração dos instrumentos que fazem a mediação entre o objeto e seus arredores, incluindo aquele que o examinará com atenção.

Falaremos tendo como base uma das obras mais canonicas da medicina, trata-se da coleção “De Humani Corporis Fábrica” publicada em sete volumes em 1543, de autoria do belga Andreas Vesalius. Sua pesquisa promoveu uma das rupturas mais extraordinárias na história da medicina: ali, pela primeira vez, o professor desce do palanque. Isto significa que Vesalius privilegiou o estudo da forma humana. Ao promover este salto qualitativo, a medicina finalmente locomoveu-se em dois terrenos: do plano bidimensional (imagens sem perspectiva) ao tridimensional, da representação humana e do modelo animal para o humano. O tutor, rompendo com o galenismo, participa ativamente da dissecção dos cadáveres, observando, tocando e cheirando os órgãos, explorando os tecidos, analisando o organismo exposto. Neste sentido é que seu trabalho promoveu uma quebra do pensamento. Os sentidos e a experiência sensorial operam na direção de cooptar o expectador para viver uma situação análoga ao que foi nomeado como teatro anatômico.

No caso de Vesalius — ponto de partida, não de chegada — se a cátedra oferecia e favorecia a distância, a erudição livresca e o convite à especulação, a descida do professor ao centro da cena, postando-se ao lado de onde o cadáver estava estabelecido, quebra não só o protocolo, como desmancha a maneira como até então se educava os sentidos.

O “desmanche” induzido aconteceu porque o anatomista notou que a vida, ela mesma, acostuma e habitua os sentidos a um certo ordenamento. Vale dizer, adestramento. As vezes, uma customização negativa: evitar determinados cheiros, desviar o olhar, não chegar perto, ou, simplesmente, não tocar. Destarte é a experiência — que Samuel Hahnemann e depois Claude Bernard irão consolidar quase três séculos depois — que deveria ser a base do conhecimento. Por outro lado, sob Vesalius o saber não estava só sendo tirado das mãos da abrangência metafisica, inacessível e avessa ao mundo prático, mas colocado na observação, da atenção dos sentidos, da recuperação da importância de um juízo a posteriori, obtido a partir dos órgãos de relação.

Essa seletividade, a eleição qualitativa do que se deseja perceber e o que não merece visibilidade, opera sob uma seleção. E esta escolha não deixa de ser uma ordenação cultural, uma imposição do código social dominante. Ao romper com um determinado modo de perceber coisas, objetos e pessoas, a percepção do educando se modifica. Descola-se do corpus teórico acumulado para se abrir ao que pode ser descoberto à “céu aberto”. Ao vastíssimo e até então pouco explorado campo da apreensão mediada pelo corpo e suas funções cria um monumento escrito à passagem da medicina moderna, captura esta necessidade e abandona publicamente o modelo anatomomorfológico animal.

A obra “Teatro Anatômico” serviu, na obra de Vesalius, para que a inversão da ordem obedecesse esse pressuposto, vale dizer, modificar o curso de uma prática. Prática que seguia uma lógica. Nesta, incluía-se uma nova ideia de natureza: como Entralgo observou em sua obra “A Historia Clinica”: “Só o estudo da arquitetura do corpo pode amadurecer a mudança”. E esse foi um dos deslocamentos que determinou uma nova ordem para a concepção do organismo. Vesalius, que lecionou nas Universidades de Bolonha e Pádua, passou a viver em Madri, como médico da corte de Charles V. Condenado à morte pela inquisição sob a acusação de ter dissecado um corpo humano — trangressão punível com a pena capital –, teve a pena comutada para uma peregrinação forçada, Vesalius morreu alguns anos depois, em 1564.

Foi assim, que, séculos adiante, veríamos nascer a fisiologia e a primazia do estudo da função. É, portanto, da experiência associada ao estudo sistemático que nasceu uma nova compreensão científica. Eis a chave para a passagem para um mundo de perguntas que habitualmente não nos fazemos. Como propunha Henri Bergson, o trabalho do artista é análogo ao da filosofia: inverter a ordem natural do pensamento. A natureza deste sinal invertido é insistir no contra-pensamento, e navegar na instabilidade do contra intuitivo. Afinal, como Edgar Morin (1984) sintetizou, “em ciência nunca se encontra o que se procura, mas exatamente o contrário”.

O que o estudante faz — e particularmente aquele que se encontra nas áreas das ciências da vida — é receber as informações e usá-las de acordo com suas habilidades. No entanto, é quase improvável que a percepção seja constitutiva. Isso é, ninguém possui um corpo de percepções acabado. Ele há de ser modelado, remodelado, aperfeiçoado e refinado para que o sujeito possa dispor dele da forma como melhor lhe aprouver. Isso significa que a educação dos sentidos torna-se prioridade em qualquer área do saber.

Elementos para o Vitalismo

Aquele que desperta, aguça inibe ou exalta determinadas idiossincrasias do observador. O artista vive (sobrevive) desta demanda. Uma obra preenche hiatos que estão à meia distancia entre sua existência e a percepção do apreciador. Neste sentido, o processo interativo é a chave para a compreensão do impacto ou resistência que uma peça promove em quem assiste sua existência.

Para além da arte conceitual, a exibição, o colocar à mostra é o que define a vida de um objeto artístico. Colocado de outro modo, o caráter material da existência de algo tem um significado único, ou depende exclusivamente da função que atribuímos a ele? Do material pronto à plasticidade forjada o artista faz despertar uma potência ignota. Ao modo do processo alquímico, ainda que muitas vezes extraviando-se de seu sentido mítico, o criador é, essencialmente, um remanejador de elementos. Um reagrupador de formas e ideias. Daí a originalidade consistente ser uma meta, senão impossível, raríssima de ser observada nos contemporâneos. Quando alguém se torna exceção a esta regra inscreveu seu nome na história — ainda que muitas vezes ele mesmo e o marchand/mercado ignore isso.

A análise da vitalidade, entendida como a eficiência do conjunto de funções do organismo individual, apesar dos limites intrínsecos de cada constituição particular, deve ser destacada, entre as pesquisas contemporâneas, por ser potencialmente capaz de trazer subsídios para uma aproximação mais integral e preocupada com os aspectos subjetivos da vida e da saúde.

Nessa direção, a arte pode talvez refundar-se numa outra revolução romântica, quando o centro das tramas pode voltar-se para dentro do próprio sujeito. O artista age analogamente à uma enzima que promove a interação entre o do observador e a obra. E é neste contexto que a evocação da “A Prosa do Mundo”, de Merlau-Ponty, se faz imprescindível, quando ressalta a pergunta central no capítulo “A linguagem Indireta”:

“Toda a pintura moderna supõe essa ideia de uma ideia de uma comunicação direta entre o pintor e seu público através da evidência das coisas. O problema moderno de saber como a intenção do pintor renascerá naqueles que olham seu quadros, não é sequer colocado na pintura clássica, que confia, para assegurar a comunicação, no aparelho de percepção considerado meio de comunicação entre os homens. Não temos todos olhos que funcionam mais ou menos da mesma maneira, e, se o pintor soube descobrir signos suficientes de profundidade ou do veludo, não teremos todos, ao olhar seu quadro, o mesmo espetáculo, dotado da mesma espécie de evidencia que pertence às coisas percebidas?”

E adiante:

“No entanto, se a pintura clássica deu-se como meta a representação da natureza e da natureza humana, o fato é que esses pintores eram pintores, e nenhuma pintura legítima jamais consistiu em representar simplesmente. Malraux indica com frequência que a concepção moderna da pintura como expressão criadora foi uma novidade para o público muito mais do para os próprios pintores, os quais sempre a praticaram mesmo que não tivesse consciência dela e não teorizassem sobre ela, os quais, pela mesma razão, muitas vezes anteciparam a pintura que praticamos, e permanecem os intercessores mais indicados de toda iniciação à pintura.”

É então que o autor elucida que foi a perspectiva como pertencente à “ordem de cultura” que revolucionou o espaço artístico e não exatamente a representação (apenas uma forma que o homem inventou para projetar o mundo diante dele) e frisa sua distinção de uma cópia, de um modelo: afinal, ela, a representação, “não é um decalque do mundo”. Pode-se dizer que as coisas “disputam” nossa atenção, e a arte demonstrará, ou melhor, chamará o observador e convocará sua percepção, não só para o objeto exibido mas para a perspectiva que ele quer induzir em nós. Para ele, busca-se “um ponto de fuga de uma certa linha do horizonte” e enquanto alguma perspectiva entra em foco outras são subtraídas.

Neste cenário, a “obra” em si some, deforma-se, retorce-se, e o que passa a importar são os efeitos residuais, a metabolização, ou no dizer de Merleau-Ponty, o acionamento do “sistema de ressonadores que convém”. Isso significa que há uma vivência equivoca intrínseca em cada um de nós. Nada é menos inequívoca que a arte. Ocorre processo e reprocessamento permanente, dentro e ao redor de quem sofreu a experiência. Trata-se de um laboratório dinâmico — que não se encerra quando a exposição, performance ou intervenção ocorre — onde a única ciência é detectar, imediata e prospectivamente, o que e como cada um realizou a interação.

O subsolo, e portanto é o que está distribuído pela terra e abaixo dela, nela está contido tudo que é nosso, é enfim “nosso elemento”. Trata-se de uma outra perspectiva. Na qual o horizonte, abstraído, encontrou-se com o subsolo. E a terra não é homogênea e continua. O subsolo é repleto de fissuras, o mundo abaixo da superfície é rico em hiatos, infiltrações, lacunas. As vezes ele se apresenta oco como nas grutas e cavernas.

Foi afinal a sílica, o elemento químico na areia, cuja terminologia hebraica “adama”, a terra, modelou o homem primevo para que o Criador lhe insuflasse um sopro de vida. Neste sentido, toda base orgânica para a vida está/sempre esteve na terra. O ponto vivente emergiu do barro, foi portanto ele que determinou nossa existência.

Faz todo sentido que nos voltemos à ela, como recuperação, como terapêutica, como regeneração, de qualquer forma, como destino. Do artista ao médico, nossa função comum — a fusão do ético com o estético — é o restabelecimento de elos. Reparar funções e preencher lacunas de uma falta essencial. Como propõe Merleau–Ponty, “há significação quando submetemos os dados do mundo à uma deformação coerente”. Não é só um mundo ressignificado que surge: é um novo mundo.

A reeducação dos sentidos, o desenvolvimento da sensibilidade (a partir inclusive da irritação, do movimento, da pressão, da ansiedade) e portanto dos órgãos que lhes correspondam, é somente um aspecto desta longa tarefa. O outro é um objetivo — para além da arte aplicada. Pictórica ou não, a arte aspira mudar o enfoque de quem interage. Mudar, no sentido de transformar, produzir em quem entra em contato com o que é oferecido um certo deslocamento, um desvio de rota, de qualquer forma, um estranhamento. Palavra-chave, o estranhamento talvez seja o movimento mais importante para empurrar quem quer se aproximar do que se têm para comunicar.

Uma transformação pressupõe um desvio de percurso e o agente desta interferência pode ser o artista. Neste sentido, uma obra sobrevive com mais ou menos intensidade a depender ou graças aos efeitos que produz. Tudo para compreender seus efeitos. Para nos compreendermos como seus efeitos. Para fazer continuar sua história por seus efeitos. Quando vamos interpretar um texto, uma prática, uma expressão qualquer de nossa cultura, — uma obra de arte, instalação ou escultura — saímos do que está dado e mergulhamos na história que levou aquele efeito.

Eis que chegamos ao ponto de contato do epistêmico com o ético. Quando nos reapropriamos de algo que nos interessa como humanos e perguntamos pela história descrita por seus efeitos e pelos efeitos que podem ter, somos forçados a definir muito claramente que somos nós, e nossas produções, os agentes e eventos que se inscrevem na história.

Diz-se que a única força constante é a gravidade. E é dela que dependemos para nos manter em equilíbrio, o sexto sentido. São os pequenos ossos do ouvido interno — num complexo sistema também chamado de vestibular — que detectam nossa posição e orientação espaço-temporal. É assim que sabemos a posição de nosso corpo em relação aos outros, a nós mesmos e ao mundo. Trata-se de uma referência. Em nossa jornada adaptativa, tivemos que ser capazes de nos manter razoavelmente estáveis em um mundo altamente instável. O médico e fisiologista norte americano Cannon pode ter descrito esta notável estabilidade em meio oscilante como homeostasia, raiz mesma de nossa permanência como seres biologicamente viáveis. No entanto e paradoxalmente, talvez sejam as oscilações e a própria instabilidade as responsáveis pelas mudanças favoráveis que sofremos. Vale dizer, somente o desequilíbrio é capaz de gerar um novo equilíbrio, no qual o sujeito sofre as mudanças vitais que dão suporte à vida.

Na síntese do filósofo pré-socrático, Filolau de Crótona, “a harmonia consiste na unidade da composição e na eurritmia das discordâncias”. O ceticismo (do grego skeptomai — examino) é um pressuposto e de fato: nada podemos conhecer com certeza, e portanto deve-se decidir pela dúvida e pela suspensão do juízo. No entanto, nossa sensibilidade pode nos apresentar frações de uma compreensão que transcende o objeto imediatamente conhecido/examinado.

Uma arte vitalista pode ser bem mais do que a grafia cinética das linhas sulcadas ou pintadas nas telas, esculpidas na pedra, modeladas na argila ou pulverizadas nas telas digitais, e é provavelmente mais do que o concretismo aplicado às formas. Chegaríamos à transcendência de um objeto mirando a re-subjetivação que ele pode proporcionar. Para além do experimento estético, penetrar no subsolo pode ser o que fará toda diferença. Este aterramento nos resgataria de uma vida epidérmica e nos devolveria à riqueza e ao inusitado de uma vida experimental. Nos resgataria do mecanicismo para nos despejar num projeto de reinvenção inacabado para sempre; a vida agora.

*Trechos do texto publicado como Capítulo do livro “Teatro da Pedra” de Camila Sposati, Ed. Iluminuras, 2017

 

 

https://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/a-arte-sob-o-vitalismo/

Cremação da memória

Paulo Rosenbaum

03 de setembro de 2018 | 00h22

Museu: chave analógica, reunião-dispersão. Foco, ponto de convergência, gregário. Conservatório, galeria, tesouro.

Fatalidade: Vontade-necessidade. Não ter direito à escolha, estar à merce de, só ter uma saída, ser levado à parede, não depender do alvedrio de ninguém, demitir de si a vontade. Os seus dias estão contados. O que for, soará. Isto é dos livros.

Não irei escrever — o que competentes articulistas especializados decerto farão — sobre os 20 milhões de ítens históricos que evaporaram e subiram como cinzas sob o distraído céu que hoje paira sobre o rio de janeiro. Nem sobre os esforços de D. Pedro II em arregimentar e zelar pelo patrimônio histórico material e imaterial do País. Também evitarei mencionar os 470 mil volumes os quais, junto com as peças históricas, quase foram incinerados no altar da amnésia anunciada. Não sobra muito para dizer a não ser reduzir tudo à solenidade do silêncio. Lamentar a falta de dignidade de uma luta invisível que está sendo travada no Brasil. Luta que está, simbolicamente, representada neste incêndio.

Começarei invertendo a ordem: não é que há perigo nos museus. É que museus são perigosos. Especialmente quando vivos. Quando longe das mãos sectárias e censoras. De gestões sob os aparelhamentos que dominaram o País. Afinal, é lá que a cultura fenece sem sequer ter sido devidamente apreciada. Todo museu é crítico. O museu é, talvez, a mais perfeita representação do inconsciente. Nos força, através dos sonhos, mas também fora deles, a rever o que preferimos ignorar.  E entender o que preferíamos ter despejado. Nos mapas e livros rasurados pelo inferno das inquisições. Nas fotos que congelavam paisagens que já nem existiam. Em pinturas e esculturas jamais catalogadas. Em múmias que aguardavam o despertar das novas gerações. Em acervos drenados em ralos sem manutenção. Em meteoritos gigantes que viajaram anos-luz para vir ter à Terra para provar da nossa incompetência. Entre fios sem capa. Em mangueiras furadas, em hidrantes vazios.

Hoje, neste dia 02 de setembro, os habitantes atuais e futuros foram privados para sempre de saber o que os antecedeu. Quem já não escutou o desafio dos eternos neófitos: para que o passado?  Os beócios ocultos que aparecem durante as votações. Afinal o que significa um museu quando existem outras prioridades?

Mas, e se memória fosse o único bem político real? E se sua preservação assegurasse que os erros antigos fossem cada vez menos frequentes? E se a história, representada pelos objetos que hoje se extraviaram no descaso do infinito, resumisse a única lição significativa? Aquela que permanece a despeito da tentativas de sufoca-la? A única reminiscência que sossobra das aulas enquanto os relógios ainda contam as sequencias cronológicas? Como pudemos permitir que o tempo fosse invadido por aqueles que se acostumaram a negar a história? E da história que insiste em ser desconsiderada por aqueles que preferem ignora-la? Ou, soterra-la nos escombros do prgamatismo. Já se perguntaram o que querem eles? Sim, pois eles continuam a desfilar o discurso sem conteúdo, a narrativa que todos nós já conhecemos na tortura diária em rádio e Tv. Para além do que se convencionou chamar “horário eleitorial gratuito para políticos”, um verdadeiro ônus para todos os demais. É que a conspiração não deixa de existir só porque parece urdir paranoias. E, em geral, mimetiza a palavra mágica sacada pelos legisladores em ocasiões como essa: fatalidade.

Claro: Fatalidade prevista. Fatalidade profetizada. Fatalidade recheada de prenúncios. Como a incêndio da Boite Kiss. Como as passarelas que desabam, viadutos que desmancham, enchentes que arrastam, barragens que estouram, edifícios que desmoronam, violência ampla geral e irrestrita que não cede, como as filas de pacientes sem leito empilhados nos corredores, como os impostos financiando regalias e tribunais que alimentam a insegurança jurídica com bônus especulativo.

Decerto, todos signos da mesmíssima fatalidade. Desta fatalidade que só não é muito mais fatalidade do que não poder prever o óbvio. Fatalidade que surge no improviso e é o álibi do despreparo. Da imperícia de agentes que, públicos, não sabem o valor daquilo pelo qual deveriam zelar. De gente, que prefere que o esquecimento vença o conhecimento. O simbólico do atraso é precisamente escolher a borracha para corrigir o que foi grafado pelas tintas acusatórias do passado. Um passado que, mais do que nunca, reafirmaria a verdade em suas múltiplas perspectivas dialógicas. Os museus são particularmente perigosos para os autocratas. Pois eles são, afinal, o conjunto de um inventário do que já fizemos. Eles guardam o que produzimos e as lacunas que ainda precisavam ser preenchidas. Que para cada museu interditado, destruído ou queimado faça surgir, em cada esquina, um museu de ressarcimento.

Quiça o luto de acervo, essa voluntária cremação da memória, sirva para refazer o vazio. E funcione como inusitado fator de união.

Altamente improvável, mas como certa vez o filósofo deixou grafado “só o improvável tem alguma chance de ser possível”.

 

Médico discute fundamentos da homeopatia em livro “Entre Arte e Ciência”

12/11/2006 – 16h35

Médico discute fundamentos da homeopatia em livro “Entre Arte e Ciência”

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da Folha Online

Especialista em homeopatia, o médico Paulo Rosenbaum lança agora “Entre Arte e Ciência – Fundamentos Hermenêuticos da Medicina Homeopática” (ed. Hucitec), livro que propõe discutir a “re-significação” da homeopatia. Ele também é autor de “Homeopatia – Medicina sob Medida” (Publifolha), que traz uma introdução sobre o assunto para o público interessado em medicina e saúde.

Em “Entre Arte e Ciência”, o autor fala sobre como a nova abordagem dessa prática tão tradicional a coloca em contato com as principais correntes do pensamento contemporâneo, da epidemiologia à filosofia. Rosenbaum discute os fundamentos hermenêuticos da medicina homeopática, destacando o papel da linguagem e o uso dos recursos discursivos e simbólicos no processo semiológico-terapêutico.

Para quem se interessa pelo tema e deseja conhecer os princípios básicos dessa tradição, “Homeopatia – Medicina sob Medida” traz explicações, a história e as perspectivas que a homeopatia oferece. Dividido em nove capítulos, o livro aborda as preocupações do paciente, auto-observação, tratamento, tecnologia e ciência, entre outros temas.

Graduado em Medicina pela PUC-SP, Rosenbaum é especialista em homeopatia, além de mestre em medicina preventiva e doutor em ciências pela Faculdade de Medicina da USP. Atualmente, é chefe do Departamento Científico do Instituto de Cultura Homeopática, membro do grupo de Racionalidades Médicas (IMS-UERJ). Ele é também editor da revista “Cultura Homeopática”.

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Cartilha prática para caudilhos populistas latino-americanos

Cartilha prática para caudilhos populistas latino-americanos

Jornal do Brasil PAULO ROSENBAUM 

Nossa América do Sul assiste a um momento realmente glorioso e contagiante. A União dos Caudilhos da América Latina tem orgulho de anunciar o lançamento de sua cartilha oficial: Caudilho —  Origem etimológica na palavra coudel, capitão de cavalaria, mas também em sentido figurativo, manda-chuva.

A maioria de nós cresceu em meio à insatisfação popular com a condução da economia e com o desmantelamento das instituições. O caudilho moderno não precisa necessariamente ter viés ideológico. Em caso de pressão sempre se pode encomendar uma nova ideologia (que será batizada com seu nome). A alternativa mais em conta é provar que correm em seu sangue traços de DNA de algum libertador nacionalista.

Para discursos públicos procure não ultrapassar sete horas e apresente oratória tosca.  Em caso de lapso levante os dedos e gesticule fazendo ameaças vagas. Importante: quando vierem aplausos dê a entender que você não os merece. A qualquer acusação mais acintosa peça tempo e diga que irá apurar com rigor – acrescente “doa a quem doer” para dar mais veracidade – ou diga apenas que não sabia de nada.

Quando conceder coletiva passe a impressão de ser vítima da grande imprensa. Despache assessores para redigir artigos nas revistas que recebem publicidade oficial. Nunca perca a oportunidade de converter o vácuo de liderança em culto à sua personalidade. É só uma questão de tempo até ser reconhecido como a única solução da pátria. Se possível, anuncie que os avanços sociais começaram em seu governo. Produza fatos e defenda a população da agressão ianque, mas mantenha o fluxo comercial intacto. Se a commodity for petróleo, faça agrados dando abatimento no preço do barril. Promova privatizações em leilões confusos e, quando algo der errado, coloque a culpa na democracia liberal. Insista na tese de que ela está defasada em relação aos anseios populares (nunca os nomeie com precisão). Se houver espaço, afirme que o sistema eleitoral representativo faliu e precisa de uma grande limpeza. Quando alguém perguntar quem se incumbirá, anuncie, relutante, que aceita a missão de ser o faxineiro-mor!

Em caso de resistência à revisão da Carta constitucional que garanta mais autocracia, ataque o sistema capitalista e associe a democracia a fantasias colonialistas espúrias. Se houver reação da opinião pública, não se abale. Conte com o apoio da burguesia arrependida e dos ideólogos do partido.  Não tenha medo de adaptar discursos para cada plateia e, sempre que defender os pobres, aproveite para, de leve, fomentar o ódio entre classes sociais. Líderes companheiros do Equador ao cone subantártico devem ser unidos e solidários. Associe-se a países que têm ditadores confiáveis. Se cobrado por essas associações, afirme que questões como violação dos direitos humanos, massacres e fraudes eleitorais em outros países são “problemas internos”.

Em caso de emergência interna, aperte o botão de desvio de foco  e, se houver ameaça grave ao controle, declare guerra ou provoque incidente bélico com alguma superpotência. Sem pudor apoie-se no grande capital. Não há instabilidade quando o assunto são negócios e megaempreendimentos com o Estado. Recorde-se que é o dinheiro que financia as promessas que você não cumprirá. E quem é que precisa de coerência? Se precisar escolher um alvo, sempre mire na classe média ou nas minorias. Costuma dar certo! Promova pesado assistencialismo de Estado em troca de apoio político e governe com coalizações. Se a avidez por cargos sair do controle, faça a divisão superestimando as concessões e use laranjas para vazar dossiês incriminadores. De vez em quando finja moralismo e diga que as questões éticas são inegociáveis e apadrinhamentos não serão tolerados. Se houver falha no sistema de mordaças, embargue o papel (se for um jornal impresso) ou acione o sistema jurídico (qualquer coudel bem sucedido sempre soube transformá-lo num apêndice legitimador do regime) e deixe que ele se encarregue de deter ou processar insatisfeitos.

Cumpridas estas condições, a América está garantida.

* Paulo Rosenbaum é médico e escritor. – paulorosenbaum.wordpress.com

Reavaliando preconceitos e aversões, celebridades têm mesmo seu valor. A atriz Angelina Jolie expandiu drasticamente sua fama com a notícia da mastectomia total bilateral à qual se submeteu depois de detectar, através de exames genéticos, alto risco de desenvolver neoplasia maligna na mama.

A decisão provocou corrida aos exames genéticos e intermináveis polêmicas, mas, pelo que se lê e ouve, estamos distantes de qualquer consenso, sequer de um debate racional. Como sempre, alvoroços opinativos se transformam em posturas sectárias e apriorísticas: “eu também faria, tem toda a razão” ou “que absurdo, ela deve ter tido razões ocultas para tomar essa decisão”. Assim é que não se vai muito longe. A verdade é que exames de mapeamento heredo-genético ainda estão em fase de pesquisas. Neste estado embrionário, bem poucas cidadãs podem se esclarecer ouvindo e lendo as discussões travadas na mídia.

Vamos voltar um pouco para tentar reconstituir as razões, o contexto e os parâmetros científicos que costumam nortear decisões terapêuticas.

Toda a ideia da epidemiologia clínica sempre foi tentar esclarecer e distinguir os fatores que expõem (com potencial para impactar negativamente a saúde) daqueles que protegem o sujeito (deixar o organismo menos vulnerável). Como saber? Tenta-se estabelece-se uma linha de risco. O risco é uma fronteira subjetiva, ainda que possa ser transformado em índice matemático sob dados estatísticos. A saber, existem procedimentos clínicos, nutritivos, hábitos de vida, e ambientais que protegem a pessoa, assim como aqueles que a tornam mais vulnerável.

Então de onde emerge a subjetividade e toda a assim chamada “arte” em medicina?

A medicina não é ciência stricto sensu, no máxima ciência operativa como alguns epistemólogos ousaram classificar. A arte mencionada se deriva da necessidade de ponderar cada caso em seu devido contexto de individualidade e peculiaridade. Isso torna as regras clínicas mais flexíveis. Alguns reclamam deste caráter relativizador que a medicina adota. Ainda bem que ele existe! Na verdade, trata-se de um importante esteio de segurança para que a pessoa enferma não seja reduzida a mero protocolo.

Em outras palavras, todas as decisões terapêuticas: do parto via cesariana ao transplante cardíaco, dependem pois de criteriosa avaliação do médico, dos cuidadores, da família, da história pregressa, das condições e contextos da pessoa enferma.

Se Angelina têm mais chances de desenvolver a doença neoplasia mamária, e há um exame que detecta esta predisposição e ponderadas todas as variáveis, ela junto com o marido, médicos, agentes da saúde e família, tomou a decisão, esta deve ter sido acertada. Isso não significa que outra pessoa, nas mesmíssimas circunstâncias e com o idêntico exame em mãos, deva ou possa reproduzir o que a atriz acaba de fazer. Por que não?

Exatamente porque a análise de risco envolve aspectos que estão para além da medicina e, às vezes, o que vale para um pode não valer para outro. Quanto a mulher pode suportar a idéia da mutilação? Quais os impactos psíquicos?  Com que tipo de companheiro/família ela poderá contar na fase que se chama convalescença? Ela sabe que resta uma chance de 10% de que mesmo tendo se submetido ao procedimento pode desenvolver o câncer? Sabe que podem haver complicações cirúrgicas, como aderências, má cicatrização e infecções? Qual será a influência da cirurgia no seu futuro, nos projetos que desenvolve, nas atividades profissionais? E, por último, decerto o mais importante, como lidará com a informação de que haviam chances de jamais desenvolver o tumor maligno?

Para compreender isso melhor será importante recuperar os esquecidos e quase abandonados conceitos de predisposição e susceptibilidade. Não seria má idéia que o público tivesse acesso aos textos do pai da medicina para entender isso melhor. Sim senhores, uma medicina “antiga” como a hipocrática ainda pode nos indicar caminhos e evitar trilhar nos desastres dos excessos de diagnósticos.

Polêmica mas cabível, é a tese desenvolvida pelo médico americano Gilbert Welch “Overdiagnosed”, livro que traz críticas razoavelmente fundamentadas aos incontáveis abusos de técnicas da propedêutica armada (exames laboratoriais).  Welch, não descarta o valor do diagnóstico ou propõe modelos alternativos para a saúde, mas enfatiza o questionamento à indústria das doenças que o excesso de tecnologia costuma construir.

Em uma sociedade com características patofóbicas (pathos – paixão ou doença, phobos – medo) e alarmável por tudo, agravado pela velocidade on-line de informações impossíveis de seres processadas, nossa tendência é consumir procedimentos e seguir acriticamente o que se noticia como in e up-to-date.  Há uma moda em saúde também.

Para desenvolver uma moléstia (complexo de alterações funcionais e morfológicas, de caráterevolutivo, que se manifestam no indivíduo submetido à ação de causas estranhas, contra as quais ele reage) é preciso “poder” desenvolve-la. Em termos práticos isso significa que só se existe um terreno genético há chances de desenvolvimento da patologia. Chances não significam certeza. São dados condicionais, não mandatórios. Se soubéssemos de todas as nossas chances de adoecer, viveríamos melhor? Para que alguém adoeça, devem se mesclar condições suficientes, necessárias, sobretudo fatores desencadeantes. Em geral são multifatoriais.

Exemplo: uma crise de bronquite alérgica pode afetar alguns sob três condições simultâneas: verão, muita umidade e abuso no consumo de chocolate. Em outros (considerando que o sujeito tenha a mesma predisposição genética e a mesmíssima patologia) só desenvolverá seu potencial no outono, ar seco e a noite. Ainda há aqueles que só precisam da decepção financeira para desencadear broncoespasmos. É esta ampla, quase imponderável variabilidade que torna a medicina um campo curiosamente inexato.

Voltando ao caso Jolie, é necessário prudência, responsabilidade e cuidado. O risco é que, sem todos os dados, o cenário se torne corredor de direção única, como aliás têm sido a epidemia de cirurgias plásticas e bariátricas. Isso é particularmente importante neste caso, e, por isso, trago o tema à tona. Questão de saúde pública. A tendência dos colonizados é agir por cópia e a cópia costuma ser um equívoco. O que serve para Jolie pode não servir para as outras mulheres e vice versa.

Qualquer decisão que envolva este grau de radicalidade e intervenção, merece esmiuçamento e seria aconselhável estar clinicamente amparada, de preferência, por duas opiniões de equipes médicas e transdisciplinares.

Uma vez formulada a decisão, aposte que essa foi a melhor dentre todas as possibilidades sem esquecer que nada é inexorável.

Sobre o autor:
Paulo Rosenbaum é médico e escritor. Mestre e PhD em ciências, é pós-doutor em medicina preventiva (USP). É autor de “A Verdade Lançada ao Solo” (editora Record). Tem uma coluna semanal em “Coisas de Política”, do Jornal do Brasil.

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