O papelão antissemita do NYT (Estadão)

A charge antissemita publicada ontem pelo jornal norte New York Times é um divisor de águas em vários sentidos. Não somente pelo mau gosto, prerrogativa de escolhas estéticas equivocadas, mas pela provocação, o espírito que adora espalhar impensáveis malidiscências. Aprovado pela editoria, a insinuação grotesca retrata um dos vícios mais recorrentes que é universalizar a imagem do judeu como cão submisso à um presidente cego usando solidéu. Uma imagem que oscila entre a velhacaria e a manipulação.

Sim, o NYT já fez a autocritica. Sim, vieram os indevidos — pois trata-se da velha e indesculpável repetição dos dicurso de ódio travestido de coisa espirituosa progressista — pedidos de desculpas, mas depois da editoria ter aprovado a “charge” e a divulgado macicamente em mais de 100 países. Vale dizer, o perdão é tardio quando o gênio mefistotélico já deixou a garrafa. E ainda é possível ler comentários pouco iluministas classificando o recuo como obra do “lobbie judaico”, versão de antanho da orquestração de domínio do mundo. Pseudo argumento eclético usado conforme convém pela esquerda e pela direita.

O antitrumpismo e a mídia que o representa, numa espécie de associação à revelia com a extrema direita e a extrema esquerda (não muito distinto do que acontece entre nós) associa-se sem pudor à perseguição e à generalização para demonizar Israel e os judeus.

É de fato muito perturbador observar como tornou-se facil e confortável naturalizar a intolerância seletiva. Quando promovem-se campanhas desqualificadoras atacacando a associação entre minorias mais impunenemente criticáveis e os governos que acordaram e passaram a denunciar o clarísismo viés antissionista e portanto predominantemente antijudaico das mídias.

Pois sim, existem aquelas “minorias” como por exemplo o jihadismo islâmico que seguem quase intocáveis pelo estranho medo de incorrer na igualmente erronea generalizacão islamofóbica. Apenas imaginem a repercussão — e os desdobramentos de violência — se  chargistas e editores  escolhessem outros personagens para representar.

Como recentemente afirmou o filósofo judeu francês Alain Finkielkraut a propósito da perseguição sistemática que tem sofrido por parte da extrema esquerda:

“O engajamento vampiriza o jornalista”

E é muito mais do que isso, retira o sangue da informação decente. Trata-se de uma anemia covarde e que merece diuturna denuncia. Quem vai dando voz à cizania tem que assumir a responsabilidade: será condenado a recolher os cacos. Por sua vez, dentro de todo democrata ressentido há um sabotador. São aqueles que, por princípio. não aceitam o resultado de eleições livres a não ser que a vitória de seus preferidos esteja assegurada. Como os gregos não previram tudo, será necessário repensar e transformar a própria democracia.

Só haverá uma resposta à altura deste ato ignominioso como o que promoveu desta feita o NYT. O antes promotor de causas humanistas e intransigente defensor dos valores como justiça e equidade precisará descer da sua supremacia ideológica e da sempre infundada soberba intelectual para reaprender que a função jornalistica é nobre demais para “costurar” versões hostis para desqualificar oponentes. Muito menos promulga-las como se estivesse no escopo da ética e da decência defender causas corretas contra povos, governos ou instituições que lhes desagradem.

Algumas publicações nacionais e espanholas poderiam também pegar carona na reciclagem. Recentemente surgiu o curso “Dessensibilização catártica para jornalistas ressentidos: o segredo de como voltar a fazer um jornalismo não instrumental”. O curso começa em duas semanas e é semi presencial.

Obs- Ainda não há turma formada.

O papelão de almanaque do NYT

Citação

Poesia para a política — Paulo Rosenbaum

Poesia para a política Em joules, quanta energia torramos nos últimos tempos com desvios de verbas, corrupção, favorecimentos, informações privilegiadas, fraudes, impostos escorchantes, uso político da máquina, mentiras prudentes, juros campeões do mundo? Não creio que seja possível mensurar em joules ou em qualquer outra escala física o tamanho da hemorragia que todas estas forças, […]

via Poesia para a política — Paulo Rosenbaum

A Travessia de Moisés III – Epílogo (Estadão)

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Moisés e Josué no alto da montanha observam, perplexos, um cenário confuso na planície

Ao ver o povo recém libertado adorando ídolos. conversam:

Mas o que significa tudo isso?
Balbúrdia mestre, balbúrdia
Depois de todo esforço? Depois do que Ele fez para organizar tudo? Mas o que eles querem?
Um lider, mestre, exigem um grande líder
E o que sou eu?
O Melhor dos melhores mestre!
Sem puxação, por favor
Não é isso mestre é que…
Fale logo homem
Eles querem um tipo específico de líder.

“Tipo específico”?

Sim Mestre, um populista
Perdão, significa que?
O senhor deu muitas regras, ordens, estabeleceu marcos civilizatórios

E…?

Eles não estão interessados em responsabilidades

Notei.

Preferem gente que prometa tudo.

Não pedi para vir até aqui, o que fiz foi inspirado pelo Altíssimo para fazer justiça

Pssiu fale baixo, imploro mestre.

Por que? Agora não se pode mais nem mencionar a palavra justiça?

(Varios anciões que estavam reunidos em assembléia permanente imitaram Josué pedindo silêncio a Moisés)

Então explique, o que é que está acontecendo? Levando as mãos à cabeça.

O senhor andou distante mestre aqui acima do planalto. É compreensível que esteja um pouco alienado da situação lá na planície.

Prossiga, por que não posso nem falar “aquela palavra”.

Estamos todos muito preocupados com essa palavra e o senhor hoje em dia as montanhas tem ouvidos mestre
(Aponta com os olhos para um grupo suspeito)

Corrija-me, entendi que há algum tipo de censura, entre nós. É isso? Mas onde estão aqueles que protestam contra os ataques à liver expressão?

Os progressistas, mestre?

Estes. Todos aqueles que sempre lutaram contra a tirania, a opressão, numca aceitaram ditadura venha de onde vier?

Como direi? gagueja o assistente.  É que a situação hoje é um tanto mais complexa. Eles agora parecem que nao acham a censura tão ruim assim.

Não? Oh Altíssimo, Supremo dos Exércitos.

(Intensificam-se pedidos de silêncio, agora em coro)

Moisés, por favor, menos, menos.

Vai dizer que também não posso invocar o Onipotente?

Não é isso, é aquela outra palavra.

Pois bem,se não é censura é o que então?

À boca pequena estão chamando de mordaça seletiva do contraditório.

Sei. Sofisticado. Eis um mundo mais do que maluco. E aquele pessoal mais tradicional, então são eles que agora defendem as liberdades?

Ah senhor (constrangimento na voz) Tampouco mestre, muitos querem outra ditadura.

Está bem, não esta mais aqui quem falou.

Josué apresenta um jornal antigo com trechos do “Lusíadas” de Camões.

Sim, conheço, excelente épico. Hoje é fácil falar, mas esse jornal mostrou coragem.

Josué faz uma mimica colocando a mão na boca indicando mordaça.

Entendi. Voce dizia que eles todos ali embaixo esperam progresso sem sacrifícios?

Isso. É mais ou menos isso mestre.

Então traduza por obséquio: o que afinal eles querem?

Mestre, na verdade eles não sabem o que querem.

É uma ilusão de ótica? Ou é o que estou mesmo vendo? E aquele bezerro? O que é que está fazendo ali? Por que estão se prostrando diante dele? São veganos radicais?

Pois é, na sua vacância do cargo…

“Vacância” Céus. Eu estava jejuando e pedindo por eles diretamente ao Todo Poderoso.

Eu sei mestre, mas esse pessoal tem aquela amnésia, sabe? Eles chamam de dissociativa.

Aqui não se pode nem piscar

Verdade mestre.

E para de me chamar de Mestre.

Certo Moisés.

E para de me chamar pelo nome egipcio, use o nome hebraico.

De acordo Mestre. Continuando, é que lá os líderes partiram para aumento de impostos, queriam fazer essa vaquinha

Vaquinha para fazer bezerro?

Pois é, meio engraçado, não é mesmo?

Só se for humor negro. Deixe-me recapitular então, eles estão doando, espontaneamente, para construir essa coisa grotesca com ouro.

Não é bem espontâneo senhor, tem também o fisco já cobrando impostos.

Aqueles confiscatórios?

Exato mestre, aqueles

Céus! Não aprendem nada nunca?

Eles se dizem cansados de esperar.

“E nem imaginam que serão décadas”

E por que um grupo está atacando o outro? Daqui de cima parece que ninguém se entende.

Daqui de cima? O senhor não faz ideia da situação lá de baixo. Aarão está tentando apaziguar as famílias, mas está dificil.

Mas por que lutam tanto entre si?

Hoje eles chamam de teoria “todos contra todos”

Não é muito esperto.

Não é.

(Moisés silencia e entra em meditação para consultar o Criador)

O assistente inquieto quer uma resposta ignorando o transe de Moisés:

O que podemos fazer para acalmar a situação?

Não seria má ideia gerar emprego e renda.

O tal milagre economico?

Caro, milagres é outro departamento. Aqui nós trabalhamos com o que temos. Trouxe aqui embaixo do braço uma nova constituição. Mais enxuta, menos confusa. Tudo isso eu recebi diretamente Dele. O que tem por ai, centenas de páginas de fios soltos, decretos sem sentido, leis anacrônicas e abuso de poder. Tudo isso é o resultado da má hermenêutica.

O que mais o mestre recebeu lá de cima?

Pode convocar quantas eleições gerais quiser, se as regras não estiverem claras, nada feito.

Mas mestre, abrimos as urnas há pouquíssmo tempo.

Que respeitem o resultado, parece que tem gente que não sabe interpretar o que está escrito.Tem algumas coisas sagradas lá e cá: voto é uma delas.

Estamos tentando, mas é que tem um pessoal meio ressentido, dizem que são “a resistencia”.

Tá de brincadeira, eu fui um dos que organizei a resistencia do Gueto de Varsóvia, eu inspirei pessoalmente a resiência francesa contra os nazistas. Quanta heresia. Convoque a assembléia, vamos fazer a ampla coalizão, mas só com quem quer ir adiante.

É para já Yekuziel.

Ah lembrou do meu nome. Mazal Tov.

Grato Mestre.

E, Josué?

Sim Mestre.

Não queremos velharias: vete os nostágicos dos dois lados.

Certo. Vamos montar uma chapa? Como vai se chamar?

Que tal Paz e Trabalho?

Desculpe, mas é meio batido Mestre. Achei que haveria uma fórmula mais original sabe, criativa?.

Filho, não tem mistério, slogans nunca resolveram nada e ainda não inventaram nada mais criativo do que o diálogo político.

Mas admita mestre, isso é a democracia? Não virou uma grande bagunça?

É verdade, mas não é melhor do que o tal todos contra todos?

Pode me falar, só aqui entre nós, o que o Criador cochichou para o mestre?

Assunto privado.

Mestre? Eu imploro.

Fica entre nós?

Claro mestre, sigilo absoluto, nunca vazo informação, nem para a imprensa, blogs pagos, mídias alternativas etc.

E Ele não cochichou, gritou. O que ouvi Dele foi: chega de firula, assuma, vá lá e governe.

(De chofre o céu que estava turvo se clareou e a cortina de fumaça que pairava sobre o acampamento sumiu)

Milagre Senhor, Milagre.

Não amigo esse é o grande presente do Altíssimo para a humanidade:  o divino discernimento.

Bom Pessach e Boa Páscoa

A Travessia de Moisés III – Epílogo

Para que servem os ciclos? (Estadão)

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31.dezembro.2013

                                       Para que servem os ciclos, uma retrospectiva focal                                                                                     

 Nas várias civilizações o ano novo é um construção cultural. Observando a natureza, tudo tem ritmo e duração. Existe uma infinidade de ciclos: biológicos, meteorológicos, psicológicos e espirituais. Neste sentido, o tempo é uma espécie de régua que mensura e avaliza a duração, enquanto a intensidade impõe a cadencia. Esta característica do tempo é análoga à natureza dupla da luz, onda e partícula. Nosso organismo é um exemplo de que somos devedores de uma certa anarquia que se autocontrola. Funcionamos graças aos sistemas de retroalimentação que operam os ritmos do corpo. Os chamados biofeedbacks determinam a homeostase (estado saudável) ou a falta dela nos sujeitos. No final das contas, os ciclos são uma disritmia “controlada” responsável pela auto-regulação como já intuia o pré socrático Filolau de Crótona.

 

Isso vale para o bioma, o clima, os organismos e também para a política. Este foi um ano em que um ciclo de governo e de gerenciamento político pode estar chegando ao término. Ainda que o executivo e o legislativo tenham repetido sua habitual e decepcionante inércia histórica.

 

De que outro modo qualificar o dislate quando o chefe de uma das casas legislativas ressarçe a União como se fizesse grande favor? Que a linguagem do executivo, auto-eloquente e triunfalista, sirva para ocultar a gravidade da situação da economia? Por outro lado o julgamento do mensalão mostrou um vigor contracorrente.  A última e única com alguma autonomia frente a um poder que nem renega mais a sanha partisã e totalitária. As manifestações de junho de 2013 foram, de longe, o acontecimento impactante das últimas décadas. Fenômeno que mereceria monopolizar qualquer retrospectiva. Com sorte, teremos alguns minutos nas agendas televisivas contra o dobro para campeões do automobilismo.

 

No caso das juninas, a perplexidade inicial dos analistas revelou-se diretamente proporcional à surpreendente capacidade com que a sociedade é capaz de reagir sob situações transbordantes. Não eram só os R$ 0,20, nem os 51 bi dos estádios, nem a cascata de desmandos do poder central. O verdadeiro caldo? O péssimo gerenciamento ao qual os cidadãos estão sendo submetidos. Por sua vez, as redes sociais e o tempo real acabaram com o mito da mansidão bovina dos trópicos. A docilidade nunca existiu e sequer era inata. Era um fim de ciclo, e como todo término, uma morte simbólica. É que algo precisa desaparecer para acomodar o novo. E alguém  duvida dos transbordamentos que nos aguardam? Se tudo tem uma finalidade não seria diferente na teleologia dos ciclos.

 

Uma das funções do ciclo é evitar o colapso. Assim como alguém com muita dor “desliga” seus sistemas biológicos para preservar a vida, o ano de 2013 será apagado para que possamos entrar com fôlego e vida na nova fase: que seja sem os traumas da morte, nem as dificuldades dos recomeços.

Para comentar utilize o link do Blog

http://blogs.estadao.com.br/conto-de-noticia/para-que-servem-os-ciclos-uma-retrospectiva-focal/

Constatações contra-intuitivas (Estadão)

Constatações contra-intuitivas

                      Constatações contra-intuitivasPT de Dilma e PSB de Campos abrem guerra virtual na disputa pelo Planalto

 

Quer dizer que estamos no meio de uma guerra psicológica? Não pegaria melhor guerrilha cultural? Vê-se de tudo na internet, a principal mídia e a mais extensa rede de notícias do mundo. Dentre as miríades de versões, boatos, ataques anônimos, tudo passa a ser cada vez menos verificável. Já faz tempos que a verdade se descolou da realidade. Depende de onde se lê, da fonte que subsidia a publicação. O que se sugere, com alguma plausibilidade, é que tudo é uma  questão de interpretação.Na novíssima guerra fria nacional, urbana e rural, o que de fato importa é quem conta as vantagens que o eleitor quer ouvir e quem omite o que as agências classificadoras de riscos prefeririam ignorar. A simplificação soa viável no mundo virtual. Parece que etiquetar os outros com alinhamentos políticos — para a vanguarda fundamentalista, esse atraso que não passa, só existe direita e esquerda — nos alivia da tarefa de pensar. Tarefa, eu disse? Mudemos para encargo. Não somos nem Venezuela nem Argentina, talvez nem mesmo América Latina. No parlamento a céu aberto do espaço cibernético, líderes e populares alucinam livremente na linguagem.Mas eis que, se ainda somos uma democracia representativa, teoricamente estaríamos submetidos às regras do jogo. Não deveria haver responsabilidade fiscal, alternância de governo, poderes equânimes e justiça isonômica? Exerçamos pois, por alguns minutos, a auto restrição que os cientistas se obrigam para fazer pesquisas: atitude neutra. É que para que uma pesquisa seja autentica temos que respeitar os achados contra intuitivos, vale dizer, lutar contra as expectativas que temos sobre seus resultados.Conseguiram?Abram de novo os olhos e vejam. Como tudo ficou? Parece claro, não?Ao final, nada sobra nada que seja contra-intuitivo. É que na maior parte das vezes a intuição têm recados úteis. Pode demorar, mas a realidade costuma triunfar sobre a ideologia. Não há golpistas da grande mídia, tergiversadores profissionais, nem inimigos dos governos populares. Aliás pode haver, mas sua força está superestimada pela necessidade de insuflar monstros. A inflação de fato voltou. Gastos superam entradas. Endividados estamos. Há quem diga que a solução seja parlamentarismo. O problema tampouco está na demonização de um único partido, destarte alguns sejam efetivamente mais perigosos que outros. Em especial aqueles que se comportam como seitas e que ameaçam o sistema do qual se beneficiam para, ao final, dar cabo dele.Em artigo publicado neste mesmo “O Estado de São Paulo”, o Prof. Roberto Romano já afirmava: é urgente a descentralização dos impostos. Só assim, e talvez nem mesmo assim, desarmaremos a bomba retrógrada programada para depois do esbanjamento desportivo e eleitoral. É que o volume de concentração tarifária endossa a bagunça dolosa. Faz adensar o poder num Estado inchado, inábil, esbanjador, que prefere sacrificar todos à largar o osso. Duplo estrago: enquanto estrangulam os capilares de nossos paupérrimos municípios, desconstroem a ideia de República federativa. Daí é só um pulo para a tentação totalitária e a banalização dos desvios. A arma não é secreta. É a facilidade com que o arrecadador concentra tudo e, principalmente, da potencia que experimenta ao perceber sua capacidade de gerar dependência e perpetuar o beija mão por esmolas orçamentárias. Não sei se a solução é resistência pacifica. Quem sabe jejum de impostos? A abstinência e a descentralização, num severo regime alimentar forçado, faria muito bem à arrogância fiscal e à gula por hegemonia.  Não há garantia de cura, mas testemunhar o regime emagrecer às nossas custas poderia nos dar algum alento, e, principalmente, renovar a esperança na vida democrática.

 http://blogs.estadao.com.br/conto-de-noticia/pequena-lista-de-constatacoes-contra-intuitivas/

Sharon: conquistador sem paz (Estadão)

Conto de Notícia, Paulo Rosenbaum

13.janeiro.2014 14:05:55

Sharon: conquistador sem paz

Antes de enterro, Israel homenageia Ariel Sharon em funeral de Estado

Salvo raras exceções, a vida e a morte de Ariel Sharon foi estampada na mídia mundial sob a velha discussão simplória e maniqueísta. O julgamento póstumo de uma liderança polêmica sempre tenta matematizar a índole do sujeito para apresentar a fatura estanque junto ao veredito. Seria ele gênio militar ou vilão? Estadista patriota ou traidor de colonos, quando devolveu a faixa de Gaza aos palestinos? Muito provavelmente Sharon era uma mistura destes vários elementos contraditórios que caracterizariam sua vida e história pessoal. Exímio estrategista e de lendária bravura, era sobretudo um pragmático. Destemido provocador enfrentou fúrias de fanáticos, atravessou o inferno astral por seu envolvimento passivo nos massacres de Sabra e Chatila, além dos desafios externos (como as  ameaças de processos em Cortes Internacionais que pairavam sobre ele) com a mesma determinação com que se defendeu no plano interno quando formalmente acusado de omissão pela Suprema Corte de Israel.

Mas então cabe perguntar por que a tendência para apresenta-lo exclusivamente sob a legenda de carrasco? A vilania nunca é elementar, neste caso e em nenhum outro. Na verdade, condenar alguém à execração pública é uma forma de despistar o foco analítico e perder de vista o que está por trás do vício de informação.

O que explica o respeito que Ariel adquiriu dentro e fora de seu País, é que, diferentemente de maioria esmagadora das nações contemporâneas Israel ainda precisa  continuar a luta por seu direito de existir, e e é imperioso que isso seja incluído na balança dos julgamentos políticos.

Com ou sem ele, o barril de pólvora continua perigosamente ativo. Com Hamas, Hezbollah, safafistas, jihadistas, além dos braços varejistas do Irã na região, ninguém são pode prever uma bonança prolongada. O princípio terrorista destas organizações – tratados com condescendência especialmente pela mídia européia  — não é interpretativo: em suas constituições vigora a cláusula pétrea que vota pelo fim do estado judaico.

Não é difícil prever que as ondas de antissemitismo — que mais uma vez se espalham pelo velho continente –  guardem uma relação direta com a demonização sistemática do Estado de Israel.  Uma vez que se tornou impossível continuar sendo racionalizada como preconceito de raça ou etnia a hostilidade contra judeus – como afirmou Jonathan Sacks em recente entrevista à revista Veja  – agora apresenta-se em sua novíssima face:  judeofóbicos tentam se legitimar ao identificar seu ódio à terra de Israel.

São contextos específicos que dificultam qualquer análise externa da situação real do país hebreu.  Sempre prefiro a paz e os humanistas às estratégias militares. Uma negociação radical com os realistas do Fatah pouparia vidas e sofrimento para todas as partes. Mas ninguém pode botar fé na autodestruição. Enaltecer o pacifismo ingênuo, numa região minada, pré radioativa e instável funcionaria ao modo de imolação voluntária.

Na linha do que Amós Oz recentemente enunciou quando recebeu o prêmio Kafka de literatura, vamos, de uma vez por todas, abandonar a ingenuidade e assumir que o casamento acabou. E já que não deu certo que seja um Estado binacional “não mais um casamento, mas um divórcio justo”.

Impossível precisar se o misterioso coma prolongado do militar teve a ver com os rumos atuais de Israel, mas é certo que Sharon tenha ficado inquieto com um porvir, especialmente a aquisição máxima de um Estadista para um povo e que nunca esteve ao seu alcance: a conquista da paz!

Ele e outros ícones militares pregressos e atuais da terra santa permanecerão cultuados. Não porque foram santos ou líderes imaculados, mas porque as pessoas podem sentir o cenário:  não parece estar disponível uma saída pacifica à vista e a sobrevivência precede outras necessidades. Pelo menos não há vislumbre de trégua  com adversários com demandas exóticas como aquelas que exigem que você morra antes de assinar acordos.

http://blogs.estadao.com.br/conto-de-noticia/sharon-e-a-paz/

 

Das férias e do Ócio (Estadão)

               Turista enfrenta fila de 5h para chegar a Ilhabela, no litoral de São Paulo

Livros médicos do século XIX,  costumavam anunciar: “férias – quando as pessoas se afastam completamente de suas atividades usuais por um período não inferior a sessenta dias”.

 

A palavra negócio significa etimologicamente negação do ócio. Sempre pensamos que o descanso fosse uma meta, uma espécie de recompensa pelo déficit de lazer, uma resposta à precariedade do descanso. Se o homem é um ser industrioso, e se até os corpos são entidades que produzem, não nos escandalizemos com a pressão que nos fazemos mesmo quando se trata das esperadas férias remuneradas.

Na incapacidade de relaxar estamos praticamente convocados, obrigados, compulsoriamente obrigados à diversão.

 

A categoria “remunerada” pois, não é detalhe e a mensagem, auto evidente. Nossa sociedade é pródiga em lembrar que precisamos atender demandas da vida prática. Só que elas são inquietantemente infinitas.

 

A vida produtiva se impõe, seja sob o disfarce dos artesãos em Arembepe ou para os que escolheram empreender com quisoques de coco verde em Natal. Lá ou acolá, estamos submissos à mesma lógica das máquinas eficientes. A última atenuação é que a vida alternativa dos homens contemporâneos precisa incluir algum contato com a natureza. Num País vasto como este, ainda subsistem regiões pouco exploradas. Mas quem não visitava uma cidade litorânea ou turística há 20 anos, testemunhará a extensão do massacre.

 

O boom de construções e a ocupação desordenada praticamente eliminou possibilidades de contato com áreas livres. Os negócios vão, lentamente, dando cabo das últimas áreas ociosas, assim como, lá atrás, acabaram com a perspectiva de vida calma e segura nas metrópoles.  Vigora uma tensão natural e permanente entre desenvolvimento e contemplação. E a palavra “sustentável” não parece ser a solução.

 

O que então significa hoje o ócio, para além do direito de não trabalhar?  Parece ter perdido significado numa sociedade que hipervaloriza o privado que merecia ser público. Além disso, ninguém mais parece se importar com o que deveria permanecer radicalmente privado, como o direito à alienação política e à liberdade de expressão.

http://blogs.estadao.com.br/conto-de-noticia/das-ferias-e-do-ocio/

Não foi preciso esperar o pregão das bolsas. Faz tempo que já estava decidido: depreciem o homem lúdico frente ao homem fábrica.

 

O agravante é não assumir que somos, ou viramos, uma espécie de promessa reversa, aquela que nunca se cumpre. Não se olvidem que estamos às vésperas de um ano eleitoral com Copa. Com tamanha maquiagem, vivemos fingindo não perceber que estamos em plena pulverização de recursos, enquanto a América Latina fervilha em sua insolvência.

 

O pior de tudo nunca foi a indolência do bom selvagem terceiro mundista. O realmente deplorável foram as falsificações sucessivas que nos conduziram ao marco zero do blefe central de que já éramos primeiro mundo.

Curva da Justiça (Estadão)

Colegas pressionam Celso de Mello a recusar embargos do mensalão

Curva da justiça

O que sairá deste último voto não é o inesperado. No país do carnaval, o surpreendente seria uma guinada magnífica, uma meia bicicleta que pegasse o goleiro de calças curtas.

Não resta a menor dúvida, somos mesmo um bando de leigos. Mas ainda podemos reconhecer quando estamos perto de cerol: linha perigosa que se faz com cacos de vidro moído. Esticada, está prestes a separar de golpe a técnica do sentido. Justo ou não, o trabalho de anos recaiu nas mãos de uma só pessoa. Ele terá o poder de selar destinos e, aos olhos de milhões, redesenhar a concepção de ética.  O decano que decidirá foi aquele que usou as palavras mais articuladas, precisas e enfáticas para se referir aqueles que tentaram sequestrar o Estado, monopoliza-lo ideologicamente para depois reduzi-lo a um parque temático partidário.

Alguém disse que não se importa com o que os jornais dirão amanhã. Mas não estará aí, precisamente, um dos equívocos sobre a representatividade de um poder republicano, o mais importante dentre todos? Ninguém precisa ter medo da mídia. As manchetes não são nem vilãs nem heroínas, apenas estampam o que, as vezes, não se pode enxergar do lado de lá dos gabinetes blindados.

O que os jornais dirão na próxima semana? Que somos um país alegre porque pessoas foram condenadas? Ou que somos uma nação em luto porque réus se safaram por decurso de prazo, leniência ou falseamento, mesmo que involuntário, das regras do jogo?

Ninguém deseja regressar à justiça das turbas que lincham. Ou que a corte submeta, ajoelhada, sua decisão à população. Mas não terá alguma razão quem não compreende por que o princípio de isonomia esteja prestes a ser massacrado? E se as garantias de ampla defesa implicarem em distorções incorrigíveis nos resultados? Se a decisão aceitar novo julgamento passará a mensagem chapa branca que circula no senso comum: alguns são realmente mais iguais que outros? O mais importante nas garantias constitucionais não seria assegurar a isonomia entre os cidadãos? Doravante, teremos todos direitos similares?

Nós, os leigos, endossamos: nada de julgamento político, nada de conflito de interesses. Proíbe-se jogar para satisfazer massas ou tergiversar para buscar garantias seletivas.

Em poucos dias o martelo final descerá. Decisão técnica ou com o espírito da justiça? Ambas devem ter suas razões. Mas são forças que, frequentemente, não conversam e seria muito melhor para todos que não estivessem em litígio.

O dilema moral está posto e raras vezes ele foi tão crucial para o futuro da democracia. Trata-se da restauração da ordem nos poderes, ainda refém da hegemonia do executivo e abalada pelas repercussões do golpe que, ao menos simbolicamente, ainda está vigente. Um cientista social chegou a chamar a expectativa pelos resultados do julgamento de histeria. Exagero. Mas talvez tenha sido só um sonho coletivo idiota. Pensem por um segundo no lado bom da coisa. A nova jurisprudência vai assegurar mais direitos para aqueles que tiverem folego financeiro para recorrer. Resta saber se isso é fazer o ponto voltar para dentro da curva ou eternizar o retardo da justiça.

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Transparência privada e outras opacidades (Estadão)

 Aposentem os espiões

Transparência privada e outras opacidades

Além da notoriedade, que outras características pessoas famosas precisam ter para merecer nossa veneração? Nenhuma. Basta que alguém lhes siga, compartilhe aos milhões, e sejam citados na mídia milhares ou centenas de milhares de vezes.

Pois é esse combustível que, paradoxalmente, leva à abulia crônica na qual nos metemos todos. Aquela que nem os mais poderosos psicofármacos são capazes de corrigir, já que a correção demanda elevação do discernimento, não sua eliminação.

Mas há sim uma função social na adoração das celebridades: contingenciar a imobilidade psicológica das massas. Por aqui, com a mobilidade social provisoriamente assegurada, será preciso lembrar que mais recursos financeiros garantem apenas acúmulo de bens, não patrimônio cultural.

Fotografado com beldades em sua banheira de ouro puro, uma destas celebridades internacionais do mundo musical recém explicou: o negócio é fazer com que acreditem que “eles sou eu”.

Parece que funciona. Variações de cultura? Maia, o mundo da ilusão, é, para a cultura hindu, o próprio equívoco. Mas para a nossa serve bem. Para quem quer popularidade a todo preço é uma forma de fidelizar a clientela.

É óbvio que quanto mais se expõe uma personalidade pública, menos privacidade terá. Mas é esse o negócio. Isso é vendido pela indústria da mídia como vantagem. E o que isso tem a ver com espiões? O enorme aparato de escutas, monitoramento e repressão que foi montado a fim de deixar a vida privada desnuda, tem a missão colateral de acobertar a esfera pública.

É assim que a fórmula se fecha: transparência privada/opacidade pública.

Vêm bem a calhar a polêmica sobre o vai-não-vai de Snowden. Não é porque estamos sob holofotes que ameaçam a vida privada que precisamos eleger espiões profissionais e delatores como grandes defensores das liberdades civis.

Há uma avaliação errônea, sobretudo precoce, ao apontá-los como heróis. Repete-se a ingênua celebrização de Assange,– que se recusa a responder aos processos de agressão sexual na Suécia — e agora se encontra sob a proteção do notório perseguidor de jornalistas equatoriano. O resultado final é que, ironicamente, tanto Snowden como Assange devem se tornar popstars sem a menor chance de voltar a usufruir privacidade. E quem foi que disse que é isso que desejam com a perspectiva de publicar best sellers.

Antes de se tornar um business, a fama vinha junto com a maldição da exposição, do narcisismo, do hipnotismo de espelhos. Para em nossos dias quem precisa estar sempre em evidencia serve tanto o escândalo como o boato.

O marketing político não apenas usa, conta com fatos diversionistas para obnubilar eventos mais sérios. Claro que, no caso de Snowden o que ajudou a propagar a indignação mundial não foi só a invasão das privacidades e a deplorável pressão sobre o avião presidencial boliviano. O motor da onda de espanto pelas injustificáveis violações que todos os adultos do mundo occidental estavam cansados de saber, só pode ser explicado pelo gana antinorteamericana, uma das grandes religiões contemporâneas.

Espiões arrependidos são perigosos para todos e costumam ser mais comprometidos que seus mandantes.

Confirmando o entendimento pouco criterioso deste tópico, o mais comum é acusar a imprensa de golpista e tendenciosa. Se é esse o caso, vamos lembrar da contrapartida, há também uma imprensa chapa branca e acrítica. É preferível acreditar que nada seja tão preto no branco. A tarefa de formar a opinião pública é simplesmente supragovernamental e transpartidaria, portanto incompatível com adulação e subserviência ao poder. A imprensa precisa se concentrar em exercer seu insubstituível papel social: informar e opinar criticamente.

Pró ou contra, o foco essencial deve ser restabelecer a crítica. A crítica que o poder não se faz. A crítica que a oposição não pode fazer. Traduzir as vozes que as ruas exprimem hoje com os protestos.

Por isso seria de grande importância examinar o culto à personalidade. Vale para as artes e para a política.Que tal começar a pensar quem são os que ganham com a abolição da crítica e da análise?

Definitivamente, calar a boca não é mais uma opção.

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Mais médicos ? 3

Entidades médicas criticam ações do governo para a saúde e se dizem surpresas

Estudante de medicina terá de atuar no SUS; entidades criticam

Cursos terão 8 anos de duração; representantes da classe veem proposta como ‘paliativa e demagógica

 

Curso de medicina passará de 6 para 8 anos de duração a partir de 2015

 

 

As manifestacoes que esbofetearam analistas, estrategistas e marqueteiros ainda tentam conservar um pouco da aura romantica  e da naturalidade.  Destarte fica nítido que lhes falta a força de uma direção, de uma canalização mais eficiente. Como tudo, sabe-se que o lirismo perdido daria lugar a maior eficiência. Melhor manter a fantasia.

Afoito, desmedido, inoportuno e seletivo o governo tenta reagir ao clamor difuso com soluços. Mas ninguém contorna inação, má gestao e desejo de hegemonia com medidas frenéticas e reducionistas.

Além de um timing duvidoso e das assincronias o que falta ao poder  é imaginação. A criatividade é que repercute nas expectativas das pessoas. A falta dele nos exaure.

Sem perspectivas, ainda estamos a mercê de acordos feitos nas cúpulas. No lugar da verdadeira escuta os diálogos privilegiam os movimentos organizados e sindicatos e partidos. Falta o principal: aquelas  pessoas comuns, resgatadas da pobreza, recolocadas no cardápio social, e que agora desejam algo além do paternalismo subserviente de Estado. O desejo de consumo é um item em escassez no mercado : a dignidade da escuta.

Uma vez que ela foi esnobada,  esperava-se um enfoque suprapartidário e transgovernamental. Também não aconteceu. O partido não permitiu. Pactos  se costuram sob interesses, o que só faz aumentar o combustível para os desvios. E o mal estar não se cala quando se sente manipulação, ele fica sob descontrole.

Passar cursos de medicina para 8 anos ao invés dos 6 atuais é um espelho perfeito da cadeia de equívocos. O motivo alegado agora não é mais aquele original, ou seja, a de que não seria para suprir a falta de médicos mas de impedir ou desestimular a especializaçao precoce. Ora, a especialização precoce tem causas com raízes mais infiltradas que não se resolvem com as canetas alienadas dos gabinetes de Ministros.

Essas mudanças erráticas e a sistemática repetição de improvisos além de não inspirarem seriedade desnudam a falta de planejamento de longo prazo e mostram o desespero para alavancar candidatos a qualquer preço.

Mudar a mentalidade de formação precoce de especialistas é estimular a medicina preventiva e melhorar as condições de trabalho dos clínicos gerais. Como justificar isso quando se construiu por aqui o mito de que mais saúde significa mais hospitais, medicamentos subsidiados, disponibilidade de exames e procedimentos de alta complexidade além de clínicas especializadas com pesada hotelaria?

Mudanças deste porte demandam tempo e acordos. Portanto dependem antes de mudanças profundas e estruturais nos currículo das escolas de medicina e talvez até de uma mudança na mentalidade. Refiro-me à educação em saúde da própria  população.