The Embassy of Brazil and CCB Tel Aviv are pleased to invite you to the launch of the book “Navalhas Pendentes”,

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The Embassy of Brazil and CCB Tel Aviv are pleased to invite you to the launch of the book “Navalhas Pendentes”, by Paulo Rosenbaum. The event will be held in Portuguese, on July 7, at 7:30 pm, at the Cultural Center of the Embassy of Brazil – Instituto de Cultura Guimarães Rosa – in Tel Aviv (CCB Tel Aviv, Rua Sderot Hen 57, 1st floor, Tel Aviv ). The conversation will feature a presentation by the author, reading of excerpts from his works, a lecture on the creative process and the relationship with the reader, and debate.

Paulo Rosenbaum is a writer and physician, with a doctorate and postdoctoral degree in Preventive Medicine (USP) and a dozen books published in this area. He is also an essayist, short story writer and columnist, with a regular column in the newspaper O Estado de São Paulo. In addition to Navalhas Pendentes (Caravana, 2021), he has also published A Verdade Lançada ao Solo (Record, 2010), Sky Céu Subterrâneo (Perspectiva, 2016), A Pele que nos divide  (Quixote, 2017).

שגרירות ברזיל ומרכז תרבות ברזיל בתל אביב שמחים להזמינכם להשקת ספרו של פאולו רוזנבאום, 

“Navalhas Pendentes” 

(סכיני גילוח תלויים – בתרגום חופשי). 

האירוע יתקיים בפורטוגזית, ב-7 ביולי, בשעה 19:30, במרכז התרבות של שגרירות ברזיל בתל אביב, 

שדרות ח”ן 57, קומה 1, תל אביב 

המפגש יכלול הצגה של המחבר, קריאת קטעים מיצירותיו, הרצאה על תהליך היצירה וקשרי הגומלין עם הקורא ודיון.

פאולו רוזנבאום, הנו סופר ורופא, בעל דוקטורט ופוסט-דוקטורט ברפואה מונעת מאוניברסיטת סאו-פאולו, שפרסם תריסר ספרים בתחום זה. רוזנבאום הוא גם מסאי, כותב סיפורים קצרים ובעל טור קבוע בעיתון אסטדו דה סאו-פאולו. לצד ספרו נבלייס פנדנצ’יס (הוצאת קרוון 2021), נמנים על פרסומיו גם הספרים הללו:

A verdade lançada em solo (Record, 2010), Céu subterrâneo (Perspectiva, 2016), A pele que nos divide (Quixote, 2017).

Liberdade para quê: nunca houve censura virtuosa. (Blog Estadão)

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Liberdade para quê: nunca houve censura virtuosa.

Paulo Rosenbaum – médico e escritor

Reluto em republicar artigos e crônicas, mas existem determinadas fases que coincidem de tal forma crise e dimensão dos problemas que torna-se impossível deixar de se referir às reflexões pregressas.

A palavra censor tem várias acepções analógicas: crítico, detrator, repreensor, mas cai numa chave intitulada “Resultado do Raciocínio, de um lado, julgamento, de outro, obliquidade de julgamento. E finalmente aqueles que revelam espírito de parcialidade podem estar resumidos dentro da expressão latina “existimare unumquemque moribus suis”, isto é “julgar os outros por si” ou ainda “tomar as nuvens por Juno”.

Ninguém negará que a mídia precisa ser mais democrática — e democratizada — para incluir os sem-voz e as grandes parcelas da população ainda marginalizadas, mas o projeto em orquestração na mesa dos controladores nada tem a ver com este escopo. Sob o argumento de que as redes de comunicação operam através dos oligopólios, a proposta é substitui-la por monopólio de Estado.

Os milionários esquemas de subsidio estatal (nas três esferas) para mídias favoráveis  e os torniquetes possíveis aplicados às outras, as rebeldes, são apenas a parte visível do jogo. O controle da imprensa significa, na prática, coibir o debate público — já de duvidosa qualidade — uma vez que só a liberdade de expressão e a não desinformação permitem que os cidadãos possam se posicionar para votar, investigar, cobrar e, quando for o caso, se opor ao Estado.

Missão longe do alcance de uma imprensa submissa. Como o objetivo final é a liberdade  controlada, vale dizer domesticada, a finalidade última da regulamentação é dirigir o país contando com informações selecionadas e filtradas. Neste sentido, estamos muito próximos de uma perigosa censura velada!

Só há um grau maior do que a famosa polícia do pensamento prenunciada na ficção de Orwell, trata-se da polícia da linguagem. Os jornalistas integrantes de um diário paulista aceitaram compor a obscenidade auto intitulada “Jornalistas pela censura virtuosa” com o agravante covarde do anonimato. Estes amigos de Peniche, verdadeiros sicofantas da livre expressão perderam o juízo? Eis mais uma prova de que os supremacistas do pensamento, isto é, o totalitarismo avança, e será preciso mais do que discursos ilibados. Será necessária a mais corajosa veemência para resistir a uma aberração que mimetiza razão.

Lutamos contra a ditadura e a censura para sermos amordaçados dentro das redações? Agora não se chama “censura”, a novilíngua decretou que doravante chama-se “embargo” (sic). Tanto faz de qual lado virá o totalitarismo, sem um compromisso ético coletivo de repudia-lo não teremos muitas saídas. É empírico, observem a perpetuidade das ditaduras na América Latina e nos países africanos.

O primeiro interessado em deter a informação é o próprio poder. Afinal a hegemonia passa pela centralização. Mas há um produto muito além do poder em jogo quando se trata de concentrar informações. A liberdade só pode ser exercida com a aquisição do conhecimento que passa pelo exercício da crítica. Sem ela, a liberdade é uma franquia das cúpulas, dos consensos de gabinete, um slogan abstrato.

Uma equipe eleita decide o que pode e o que não pode? A divisão de poderes foi abolida? Mas eles não foram eleitos para isso, ou foram? Isso é que não está nada claro no jogo democrático atual. As regras. Depois que se ganha a eleição tudo pode virar qualquer coisa. Para isso deveriam valer mais os direitos constitucionais do que uma hermenêutica premida de desvio de finalidade.

Não se enganem, há uma dosimetria oculta que rege nossa liberdade. Para ser conciso: o projeto de regulamentação da imprensa (e atuais promessas de “embargo” “é, na verdade, uma ameaça direta à democracia). É urgente organizar a sociedade para que o cerceamento à livre expressão (mesmo que seja classificada como autocensura)  não encontre guarita no argumento de “controle social”. Como nos faremos ouvir? Como ler jornais quando tudo estiver sob o filtro impermeável do Estado? Podemos usar o spam, a panfletagem, instrumentalizar melhor a ilusão revolucionária das redes sociais. No mundo eletrônico ocidental a censura — sob o álibi da acusação de desinformação — está se fazendo cada vez mais presente.

E quem dará aval para os projetos de controle estatal da mídia? O pessoal da moral e dos bons costumes? Assim, eles poderiam eleger os livros, peças, filmes e biquínis que vamos ver.  Os executivos dos partidos políticos (base aliada ou não). A explicação é simples: estão mordidos com a última pesquisa sobre a decadência e confusão que reina nos partidos. E tudo que contraria políticos é gerado na imprensa livre.

E quanto aos intelectuais e a estrutura universitária? Estão divididos entre os que são pela lealdade ideológica à oposição. Estes últimos são uma categoria em decadência, porque ninguém quer subsidiar gente isolada, muito menos premiar a autonomia. A emergência dos conservadores é uma resposta, equivocada, a uma esquerda que vem sofrendo isquemias no núcleo duro. Os auto intitulados conservadores também não funcionam, porque suas perspectivas são basicamente alimentadas de nostalgia. Sonham com uma ordem e um status quo que nunca existiu no cenário político. Nas TVs ou nos jornais notem que sempre começam com expressões de saudosismo e terminam suspirando pela volta das leis marciais.

Quanto à estrutura universitária, vale lembrar a antiga tese do filósofo José Arthur Gianotti, de que a universidade é subsidiada para não funcionar. “Funcionar” no sentido de produzir a mentalidade crítica e autocritica, que tanta falta nos faz. Claro que existem nichos que funcionam. Na base do voluntarismo e de ações sociais importantes, grandes camadas de pessoas foram resgatadas da marginalização nas últimas administrações. Não é só insuficiente. É vergonhosamente insuficiente. A educação e o investimento maciço em ensino não ousaram para além das formalidades como a de “colocar mais gente no ensino superior”. Salários dos professores e estímulo à pesquisa ainda são ridículos para o nosso PIB. O processo pedagógico parou no século 19, enquanto precisávamos de inspirações do 22. Há uma fadiga generalizada no jeito de fazer e lidar com as coisas públicas.

É evidente que tudo isso seria muito pior sem liberdade. Há candidatos que nos ameaçam com sua suspensão. Há muitos que estrategicamente calam-se diante das ameaças e agora de forma inédita levantam a voz para no lugar de contestar fazer a apologia da temporada de mordaças justificacionistas. Não parece óbvio que, sem ela, a liberdade, jamais falaríamos de tudo isso?

Aproveite para chiar agora, amanhã pode não haver segunda chance.

Paulo Rosenbaum é médico e escritor. É autor de “A Verdade Lançada ao Solo” (Ed. Record), ‘Céu Subterrâneo” (Ed. Perspectiva) e “Navalhas Pendentes” (Ed. Caravana)

Episteme Issue – Blog Estadão

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Episteme issue.

Paulo Rosenbaum, PhD.

Master in Preventive Medicine, Doctor of Science from USP

“Life is the set of factors that resist death”

Bichat, 1829

“The usual substantialist intuition is, in a
certain way, contradicted by the existence of homeopathy. In fact, in its formative, that is to say in its pure form, substantialist intuition claims that a substance acts proportionally to its mass, at least up to a certain limit. It is admitted that there are light doses, the excess of which produces disturbances. But it is not easy to admit the effectiveness of extreme dilutions administered by homeopaths. As long as the medical substance is considered as a quantitative reality, it is not easy to understand a substantial action that occurs, in some way, in inverse ratio of quantity.”

Gaston Bachelard – Dialectics of Duration

Homeopathy, and therefore all integrative medicines, has been ostensibly questioned. Would they be unscientific practices? Do they have a research program or not? Do they show empirical results from a clinical point of view? Are they plausible from a biological point of view?

For all this has been discussed in the media with a single catch: the monopoly of a shrill voice. For some years now, the microbiologist who heads the entity “Questão de Ciência” has been raising these and other questions. Some with some relevance. However, in his recent column in the newspaper “O Globo” he proved to be erratic and made a serious mistake. The bias of scientific prejudgment: it peremptorily answers all the questions it raises. Now, this is simply incompatible with reflection, especially for critical thinking, as one of the central characteristics of epistemology is well known.

Immersed in the anachronism of a typical dispute that goes back to the 19th century in the 21st century, it resurrects a polemic that we believed had overcome. Would it lack the fundamental intellectual opening: the possibility that its hypothesis is wrong? After all, as everyone should know, good scientific practice presents doubt and curiosity as essential. Science often has more questions than answers.

Dynamic processes of illness and healing

Life is inherent in vital processes. What defines the processes are some characteristics: every process is dynamic. Processes are made up of non-linear sequences of events. The process tends to produce normativity, but there is often a good deal of unpredictability until it comes to an end. If health is, as Aristotle wanted, an unstable equilibrium, it requires that the scientist or those who study biological processes dedicate themselves to the study of rhythms, also called the analysis of organic rhythm, and pay attention to vital phenomena.

This is what integrative medicines propose. Not only homeopathy with its supposedly enigmatic infinitesimal doses, but also the clinical interferences that are not limited exclusively by the field of biochemistry, but must be complemented by studies of biophysics, bioelectromagnetic fields, the information that subsists in ultra-molecular solutions ( Buck -balls or fullerenes ), and finally on the rapport effect resulting from the doctor-patient relationship. Here’s another excerpt from Gaston Bachelard:

“Moreover, there is nothing to prevent a homeopathic substance, having
taken the form of pure vibration, from being reconstituted in the form of substance. substances would perhaps quite simply trigger natural biological vibrations. It would also be explained that the ultra-diluted dose is preserved
more
fully than a massive dose because it can be restored.
it loses less easily than gross
and inert matter.”

Anyone who reduces homeopathy to minimal doses is wrong, it adopts another system of understanding and evaluating symptoms. Extends the healing criteria. It considers that each one has a personal way of convalescing and regaining lost health. So also concludes the Nobel Prize in medicine and discoverer of the AIDS virus, Luc Montaigner, who was surprised by the findings when he investigated the action of ultra-molecular drugs.

Ultra-molecular doses

If science still does not have the means to test such substances and elucidate them, this does not mean that they “are nothing” (sic) as the microbiologist and her team have categorically stated to resigned journalists, but only that the detection of these substances still requires a study that explains the phenomena induced in vivo (in living beings) and in vitro (in laboratory studies).

This means that there is evidence of the phenomenon even without a consensual and formal explanation that justifies it. Scientific skepticism is desirable and healthy, as long as the spirit of inquiry is not clouded by convictions that mimic dogmas. Axioms and prejudices that perniciously replace intellectual objectivity.

And it seems that the smartest response to suffering may not be just progressive doses of psychotropic drugs. It should be added that it is still not understood exactly how practices such as Yoga, psychotherapeutic techniques, meditation, massage therapy work, but they produce undeniably favorable results for many people who resort to them.

Drug experimenters in this pathogenic process (one of the elements of the hard core of the episteme), reveal their symptoms by anticipating – in modified physiological states – their nosological predispositions. So what happens? We anticipate our pathological potential. We organize our preconceived nosological potential more quickly and efficiently. We can observe these phenomena using one of the most consistent tools in the episteme that guides the methodology: the so-called pathogenesis (experimentation of ultra-diluted medicinal substances). Many are probably unaware of these elements when they are willing to judge what to make of homeopathic practice. It is surprising how many insist on not taking into account these phenomena that may have reproducibility. Here is an experiment, easy to demonstrate with double or triple blind crossover. And it remains accessible to anyone, from hardened skeptics to fanatical enthusiasts.

Let those who think with horror of experiments not be terrified, because the induction of symptoms can happen with any traditional medicine and with any non-iatrogenic vicissitudes. And it is essential to remember the empiricist origin of medicine. Not forgetting to mention that there are only 10 drugs with 1A certification (that is, with proof of very high efficacy) according to the most recent scientific papers.

Health and illness: a medicine situated between art and science

Situated between art and science, is the medicine of the subject – a medicine of the specifically human – a viable proposal as an effective clinical care?

It is from this perspective that the issues of health and illness should be addressed. As the epistemologist Karl Rothschuld explained, medicine is and always will be “operative science”, that is, it will always demand some artistic skill from the one who applies it – in the “artisanal” sense – because it cannot be reduced to pure science. Each integrative medicine adopts an interpretive system that is not limited to a special pharmacology.

If Hippocrates, the inventor of scientific medicine for having invented clinical history, a legacy that continues to this day – also known as the “Hippocratic school” – still has something to offer modern humans, it is that the health-disease binomial needs be understood within a context: the ananke physeos . Some epistemologists opt for the term translated “need of nature”. Now, why would illness be necessary? If pathology is a necessity of nature, it must serve something, that is to say, have a biological purpose. It has a meaning. It is not a matter of defending a teleology of diseases, but of verifying that it exists. Thus, we live in a battle between genomic and phenotypic patterns and the interference of the environment. All in almost random combinations that pressure us throughout our existences . Preserving health and preventing illness derive from these combinations.

At this point in contemporary history the main question should be: “ Is there a future for the medicine of the subject?” Probably the greatest contribution of medicine with a vitalist tradition to medicine.

Giving a new meaning to the tradition of integrative medicine, heir to a less mechanical conception of the subject, is to put it in contact with the main currents of contemporary thought, from epidemiology to philosophy, creating the opportunity for this medicine to be understood by current thinkers. . And have equal opportunity to be taught in health science schools with the same status as standard knowledge.

It could be summarized as follows: health — as Hans G. Gadamer thought is a mystery — pathology is not. In other words, the probabilistic chances of losing self-regulating homeostasis must be infinitely greater than maintaining health. There is an enigma whose elucidation is precisely the role of the researcher, who, in order to be successful, must be open to the counterintuitive, that is, to find proof of his hypothetical test (thesis) as well as unexpected and even contradictory answers to his initial assumptions.

Intuitive methods in nature and shock organ deviation

Organisms such as small rodents usually know they need artificial fever and bury themselves in hot sand when affected by infectious processes to better fight them. The inevitable question would be: how do they know they are sick and what do they need to overcome it? How do they know what they need to recover? In humans, other curious phenomena such as “pica”: the violent desire to ingest normally inedible products: earth in those suffering from iron deficiency anemia, hardened paint shell for those who have calcium deficiency, burnt wood or animal bones for other vitamin deficiencies or minerals.

Phenomena that can only be understood through the moment and clinical experience. An anguished subject with phobic neurosis migrates from the anxiety drive to a certain well-being when he becomes feverish, or while developing a sinus disease. Aspects that become more evident when an exonerative function, — one that aims to produce and eliminate secretions — is in progress. Clinicians can better understand and evaluate such processes than researchers for two reasons: because they are directly linked to the individual history of each patient and because they have a more systemic and integrated view of nature’s cycles.

The neuropathologist Prof. Walter E. Maffei stated that, in his vast clinical experience and in the autopsies he conducted, he had never seen a single chronic mental patient in a psychiatric hospital present a case of bronchial pneumonia as a cause of death . This is apparently counterintuitive, as he himself emphasized when he was the clinical director of Juqueri for more than five decades. Malnourished people usually have lung pathology as the end point of their existence, but this seemed not to be the case when it came to the chronically mentally ill. The pathologist relied on the old but very pertinent “shock organ bypass” theory. When a disease “migrates” from an anatomical region or organ system to a more superficial one, producing relief for the patient.

For this reason, even certain concepts and clinical approaches cannot be reduced to laboratory results or searched only by Magnetic Nuclear Resonance images. This does not mean that they are not verifiable clinical phenomena, only that we still do not have the tools to fully understand them. If only 1% of the funds earmarked for research could be made available to investigate the mechanism of action of infinitesimal drugs and other experimental drugs, we might have a different picture. And then we could decide the impact that the adoption or rejection of these therapies would have as a preventive policy and resources for health.

We must admit the complexity in order to reach a consensus on which field medicine should embrace to care and cure, especially when it comes to the aforementioned primary health care. The inevitable question: how can we still be deceived by evidence that is limited to the control of pathologies without taking into account the subjective and general substrate of sick patients? To use an expression from Edgar Morin, the complexity often hailed or evoked as a solution is much more – as I emphasized before – a problem concept than a solution concept.

The ethical rescue of the subject

The evidence must also be produced in the ontological turn of modernity, which is in the ethical rescue of the subject. That is, there are other conceptual dignities in science that are not limited to quantitative clinical trials. Studies such as quality of life health questionnaires, psychometric tests, assessment of people’s well-being are as relevant as the degree of efficiency of drugs on nosological entities.

This would be the relevant discussion, whether for advocates or critics of integrative practices. Without it, in fact, everything that escapes the mainstream of standard science , looks like nonsense or Manichean objection/praise. On the other hand, it is not up to those who practice these therapies to do the same with the reversed sign: surrender to the partisan defense, enunciate the therapeutic monopoly, crystallize the accumulated knowledge as a lifetime monument.

The return of the generalist and the resumption of primary health care

So what is the best way to evaluate the effectiveness of the clinic practiced by homeopathy and other forms of integrative medicine? Firstly, to identify the referential system that guides semiology, in this case aimed at justifying a medicine that must include the subject. To show that it makes sense to seek to capture the biological, affective and mental aspects of “being a sufferer”. Not only detecting characteristic and unique traits in each sick person, but capturing the context and circumstances that mutually elucidate mind-middle-body-drugs. This set would already show that it is a phenotechnic. Which only makes sense if the subject is reinserted into another system of medical notation, without competing and never dispensing with other approaches to contemporary medicine. Incorporate all available techno-scientific procedures with rationality, but at the same time refuse the arbitrary separation imposed by the excess of specialties.

Each disease follows a different course and presents itself differently in each person and there is already very concrete evidence in this regard. Medicine should not expunge the subjective state as a legitimate objective of its intervention, or delegate it to specialists. And at the height of scientism it was imagined that the status of pathology could be confined exclusively to somatic injury. But the clamor for more comprehensive care persisted. Experts are needed, but generalists need to be a priority. It was in spite of people’s needs that the division between mind and body split the medical art. And its reunification would be the regeneration and rescue of the general practitioner and the family doctor.

Thus, the subject from the perspective of medical anthropology will approach psychotherapeutic practices if it includes the figure of the doctor, that is, they are trained in a more generous anamnesis and understand the transference, in the expression and construction of language, narratives and their Meanings.

The suspicion that the pathology contains or is contained in a dysfunctional substrate with mental distress remains a challenge for even the most scientistic of clinicians. Substrate that needs to be embraced and not expunged as “pseudoscience” or “unscientific” (sic). This deserves the utmost attention for those who dedicate themselves to a serious investigation that goes beyond the stands of common sense. It can no longer be ignored by any attentive clinician. By anyone who understands science in a broader dimension than reductionism insists on extolling.

Illness, malaise, suffering, quality of life and beyond psychopharmacology

I quote the famous definition of the French physician, founders of histology, Xavier Bichat “life is the set of factors that resist death” (Bichat, 1829). But there is also the following possible development: life is born under the sign of mortality, a tension that remains active and accompanies us until our last days.

Getting sick is not just the existence of malaise, but also not recognizing the co-authorship of the symptoms; or simply to attribute the pathology to some exclusively exogenous agent. After all, being an agent of oneself means immediately recovering the horizon of self-care and increasing the acuity of attention to life. The health-disease process is, even in the opinion of some, a struggle. Struggle between health and illness and, therefore, between life and death and even resignation and ambition.

This means more or less the following: can we say that suffering is disease? We may or may not call this destructive ancestral force a miasma, a virus, a half-plague, or any other name. If suffering is inherent to gender, what are the limits for considering it a disease? What if we understand suffering not as a penitential state, but as a more or less important inability to dedicate oneself to self-care?

Pathologies are not, in Lain Entraldo’s understanding, “localized”, they are not limited to a single place. When well investigated, one can see how they permeate the entire economy of the subject. They are ingrained along with other symptoms that may be older or more recent. In other words, despite appearances, the disease is always systemic. First the illness (illness) and then the disease itself (disease) To dismantle it, therefore, it is necessary to see the complete map of the affected organism, as well as the environmental circumstances.

Anguish can be beneficial, as well as depression, as long as it is recreating or regenerating. It can be a melancholy trait to the point of being just another item in the vast existential load. But it can determine the course of pathology.

One of the central questions of medicine has been underestimated and seems purposefully absent from many contemporary epistemological discussions. The advance of technoscience in the production of pharmaceutical ingredients has brought impressive advances in the areas of immunizations, prostheses and orthoses, rehabilitation, associated with the growing – and welcome – sophistication of diagnostics. These advances, however, simultaneously produced a harmful side effect: overdiagnosis. Just as it wrongly displaced almost all issues related to mental suffering and the individualization of symptoms from medicine. Having said that, we ask how can medical practices re-incorporate and deal with the subjectivity of each patient?

As a rule, the solution has been to refer these patients to the systematic use of psychotropic drugs. But the solution may not lie in training general practitioners to administer psychiatric drugs. The reference to the euphemism called “re-humanization of medicine” may be in taking another approach, such as, for example, rescuing an anthropological perspective for medicine regardless of the medical method adopted.

Instead of therapeutic tournaments or media histrionics these would be the issues that really interest society.

I invite readers to this reflection: it is not an opinion, it is a question of episteme.

https://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/a-insubstantialidade-eo-nada-questao-de-episteme/

A insubstancialidade e o nada: Questão de episteme. (Blog Estadão)

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Questão de episteme. 

A insubstancialidade e o nada: questão de episteme.

Paulo Rosenbaum, PhD.

Mestre em Medicina Preventiva, Doutor em Ciências pela USP

“A vida é o conjunto de fatores que resistem à morte”

Bichat, 1829

“A intuição substancialista habitual é antes de mais contradita, de
certo modo, pela existência da homeopatia. Com efeito, na sua forma
ingênua, quer dizer na sua forma pura, a intuição substancialista pretende
que uma substância atue proporcionalmente à sua massa, pelo menos
até certo limite. Admite-se que haja doses ligeiras cujo excesso produza
perturbações. Mas não se chega facilmente a admitir uma eficácia
das diluições extremas administradas pelos homeopatas. Enquanto se
considerar a substância médica como uma realidade quantitativa, não
se compreenderá facilmente uma ação substancial que ocorra, de
algum modo, em razão inversa da quantidade.”

Gaston Bachelard – Dialética da Duração

A homeopatia, e, por conseguinte, todas as medicinas integrativas tem sido ostensivamente questionadas. Seriam práticas não científicas? Apresentam ou não um programa de pesquisas? Mostram resultados empíricos do ponto de vista clínico? São plausíveis do ponto de vista biológico?

Pois tudo isso tem sido discutido na mídia com um único porém: o monopólio de uma voz estridente. Há alguns anos a microbiologista que comanda a entidade “Questão de Ciência” tem levantado estas e outras questões. Algumas com alguma pertinência. Porém, em sua recente coluna no jornal “O Globo” mostrou-se errática e incorreu em uma falha grave. O viés do prejulgamento científico: ela mesmo responde de forma peremptória todas as indagações que levanta. Ora, isso é simplesmente incompatível com a reflexão, especialmente para o pensamento crítico, como se sabe uma das características fulcrais da epistemologia.

Mergulhada no anacronismo de uma disputa típica que remonta ao século XIX em pleno XXI,  ela ressuscita uma polêmica que acreditávamos superada. Faltaria a ela a abertura intelectual fundamental: a possibilidade de que sua hipótese esteja equivocada? Afinal, como todos deveriam saber, a boa prática científica apresenta a dúvida e a curiosidade como essenciais. A ciência costuma ter mais perguntas do que respostas.

Processos dinâmicos da doença e da cura

A vida é inerente aos processos vitais. O que define os processos são algumas características: todo processo é dinâmico. Os processos são constituídos por sequências não lineares de eventos. O processo tende a produzir normatividade, mas, muitas vezes, até que esta chegue a termo há uma boa dose de imprevisibilidade. Se a saúde é, como queria Aristóteles, equilíbrio instável, ela exige que o cientista ou os estudiosos dos processos biológicos dediquem-se ao estudo dos ritmos, também chamados de análise do ritmo orgânico, e fiquem atentos aos fenômenos vitais.

Isso é o que as medicinas integrativas propõem. Não só a homeopatia com suas supostamente enigmáticas doses infinitesimais, mas também as interferências clínicas que não estão delimitadas exclusivamente pelo campo da bioquímica, mas devem ser complementadas por estudos de biofísica, dos campos bioeletromagnéticos, da informação que subsiste nas soluções ultra-moleculares (Buck-balls ou fulerenos), e finalmente no efeito rapport resultante da relação médico-paciente. Fiquemos com mais um trecho de Gaston Bachelard:

“Nada se opõe, aliás, a que uma substância homeopática, tendo
tomado a forma de pura vibração, seja reconstituída em seguida sob
forma de substância. Há, com efeito, exata reversibilidade da matéria
à ondulação e da ondulação à matéria. O papel da micro-substância
seria talvez muito simplesmente desencadear vibrações biológicas
naturais. Explicar-se-ia também que a dose ultradiluída se conserve
mais integralmente que uma dose maciça porquanto pode restituir-se.
Chegar-se-ia este paradoxo de que o infinitamente pequeno bem estruturado
e bem ritmado se perde menos facilmente que a matéria grosseira
e inerte.”

Engana-se quem reduz a homeopatia às doses mínimas, ela adota um outro sistema de compreensão e valoração dos sintomas. Amplia os critérios de cura. Considera que cada um tem uma forma pessoal de convalescer e readquirir a saúde perdida. Assim também conclui o prêmio Nobel de medicina e descobridor do vírus da AIDS, Luc Montaigner, que se surpreendeu com os achados quando investigou a ação de fármacos ultra-moleculares.

Doses ultra-moleculares

Se a ciência ainda não dispõe de meios para testar tais substâncias  e elucida-las isso não significa que “sejam nada” (sic) como vem afirmando categoricamente a microbiologista e sua equipe para jornalistas resignados, mas apenas que a detecção destas substâncias ainda prescindem de um estudo que explique os fenômenos induzidos in vivo (nos seres vivos) e in vitro (em estudos de laboratório).

Isso significa que existem evidencias do fenômeno mesmo sem uma explicação consensual e formal que os justifique. O ceticismo científico é desejável e salutar, desde que o espírito de investigação não seja obnubilado por convicções que mimetizam dogmas. Axiomas e preconceitos que substituem perniciosamente a objetividade intelectual.

E parece que a resposta mais inteligente ao sofrimento pode não ser apenas doses progressivas de psicofármacos. Acrescente-se que ainda não se compreende exatamente como práticas como Yoga, técnicas psicoterápicas, meditação, massoterapia funcionam, mas elas produzem inegáveis resultados favoráveis para muitas pessoas que a elas recorrem.

Os experimentadores de drogas neste processo patogenético (um dos elementos do núcleo duro da episteme), revelam seus sintomas antecipando – em estados fisiológicos modificados – suas predisposições nosológicas. Então o que acontece? Antecipamos nosso potencial patológico. Organizamos nosso potencial nosológico de forma mais rápida e eficiente. Podemos observar esses fenômenos usando uma das ferramentas mais consistentes na episteme que guia a metodologia:  as assim chamadas patogenesias (experimentação metódica das substâncias medicinais ultra-diluídas). Muitos provavelmente desconhecem estes elementos quando se dispõem a julgar o que fazer da prática homeopática.  É surpreendente quantos insistem em não levar em consideração esses fenômenos que podem apresentam reprodutibilidade verificável. Eis um experimento, fácil de demonstrar com duplo ou triplo cego cruzado. E permanece acessível a qualquer um, dos refratários céticos aos entusiastas fanáticos.

Que não se apavore quem pensa com horror nas experimentações, pois a indução de sintomas pode acontecer com qualquer medicamento tradicional e com quaisquer vicissitudes não iatrogênicas. E é essencial lembrar da origem empirista da medicina. Sem esquecer de mencionar que existem apenas 10 medicamentos com certificação 1A (ou seja, com comprovação de altíssima eficácia) de acordo com os mais recentes papers científicos.

Saúde e enfermidade: uma medicina situada entre arte e ciência

Situada entre a arte e a ciência, a medicina do sujeito – uma medicina do especificamente humano – será uma proposta viável como cuidado clínico efetivo?

É sob esta perspectiva que os temas da saúde e da doença deveriam ser abordados. Como explicou o epistemólogo Karl Rothschuld, a medicina é e sempre será “ciência operativa”, isto é, sempre exigirá alguma habilidade artística de quem a aplica — no sentido “artesanal” — pois não pode ser reduzida a ciência pura. Cada medicina integrativa adota um sistema de interpretativo  que não se limita à uma farmacologia especial.

Se Hipócrates, o inventor da medicina científica por ter inventado a história clínica, herança que perdura até os nossos dias na “escola hipocrática” — ainda tem algo a oferecer aos humanos modernos, é que o binômio saúde-doença precisa ser sempre compreendido dentro de um contexto:  o ananke physeos. Alguns epistemólogos optam pelo termo traduzido “necessidade da natureza”. Ora, por que a doença seria necessária? Se a patologia é uma necessidade da natureza, ela deve servir para alguma coisa, vale dizer ter um propósito biológico. Tem um significado. Não se trata de defender uma teleologia das doenças, mas constatar que ela existe. Destarte, vivemos dentro de uma batalha entre padrões genômicos, fenotípicos e as interferências do meio ambiente. Todos em combinações quase aleatórias que nos pressionam no decorrer das nossas existências. Conservar a saúde e evitar o adoecimento deriva destas combinações.

Neste ponto da história contemporânea a questão principal deveria ser: “haverá um futuro para a medicina do sujeito?” Provavelmente, a grande contribuição da medicina de tradição vitalista para a medicina.

Dar um novo sentido à tradição da medicina integrativa, herdeira de uma concepção menos maquinal do sujeito, é colocá-la em contato com as principais correntes do pensamento contemporâneo, da epidemiologia à filosofia, criando a oportunidade para que essa medicina seja compreendida pelos pensadores atuais. E tenha igualdade de oportunidades para ser ensinada nas escolas de ciências da saúde com o mesmo estatuto do conhecimento standard.

Poderia ser resumido da seguinte forma: a saúde — como pensava Hans G. Gadamer é um mistério — a patologia não. Em outras palavras, as chances probabilísticas de perder a homeostase autorreguladora devem ser infinitamente maiores do que manter a saúde. Há um enigma cuja elucidação é precisamente o papel do pesquisador, que para ser bem sucedido precisa estar aberto ao contraintuitivo, vale dizer encontrar comprovação de seu teste hipotético (tese) assim como respostas inesperadas e mesmo contraditórias às suposições iniciais.

Métodos intuitivos na natureza e o desvio do órgão de choque

Organismos como pequenos roedores geralmente sabem que precisam de febre artificial e se enterram na areia quente quando afetados por processos infecciosos para melhor combate-los. A pergunta inevitável seria: afinal como sabem que estão doentes e do que precisam para supera-la? Como sabem o que precisam para se recuperar? Nos humanos outros fenômenos curiosos como a”pica”: o desejo violento por ingestão de produtos normalmente incomestíveis:  terra nos acometidos por anemia ferropriva, casca de tinta endurecida para naqueles que tem deficiência de cálcio, madeira queimada ou ossos de animais para outras deficiências vitamínicas ou de minerais.

Fenômenos que somente podem ser compreendidos através do momento e da vivência clínica. Um sujeito angustiado com neurose fóbica migra da pulsão de angústia para um certo bem-estar quando fica febril, ou enquanto desenvolve uma sinusopatia. Aspectos que ficam mais evidentes quando uma função exonerativa, — aquela que visa produzir e eliminar as secreções — está em andamento. Os clínicos podem compreender e avaliar melhor tais processos do que os pesquisadores por dois motivos: por estarem diretamente ligados a história individual de cada paciente e por terem uma visão mais sistêmica e integrada dos ciclos da natureza.

O neuropatologista Prof. Walter E. Maffei afirmou nunca ter visto, em sua vasta experiência clínica e em autópsias que conduzia, um único doente mental crônico no hospital psiquiátrico apresentar um quadro de bronco pneumonia como causa de óbito. Fato aparentemente contraintuitivo, como ele mesmo enfatizava quando por mais de cinco décadas foi diretor clínico do Juqueri. As pessoas desnutridas têm, via de regra, a patologia pulmonar como o ponto final de sua existência, mas não parecia ser este o caso quando se tratava de doentes mentais crônicos. O patologista baseou-se na antiga, mas muito pertinente, teoria do “desvio do órgão de choque”. Quando uma doença “migra” de uma região anatômica ou sistema orgânico para outro. Quando se desloca para um órgão mais superficial produz alívio para o paciente. O oposto também é verdadeiro quando, por exemplo, dermatites e patologias de pele suprimidas pioram a condição pulmonar preexistente no enfermo.

Por isso mesmo determinadas concepções e formas de abordagem clínicas não podem ser reduzidas a resultados de laboratório ou vasculhadas apenas por imagens de Ressonância Nuclear Magnética. Isso não significa que não sejam fenômenos clínicos verificáveis, apenas que ainda não dispomos dos instrumentos para compreende-los completamente. Se apenas 1% das verbas destinadas para pesquisas pudessem ser disponibilizadas para investigar o mecanismo de ação de fármacos infinitesimais e outras drogas experimentais talvez tivéssemos outro panorama. E ai sim poderíamos decidir o impacto que a adoção ou rejeição destas terapêuticas teriam como política preventivista e recursos para a saúde.

Devemos admitir a complexidade para poder chegar a um consenso sobre qual campo a medicina deve abraçar para cuidar e curar especialmente quando se trata da já mencionada atenção primária à saúde. A pergunta inevitável: como podemos ainda nos iludir com evidências que se limitam ao controle de patologias sem levar em conta o substrato subjetivo e geral dos pacientes enfermos? Para usar uma expressão de Edgar Morin, a complexidade muitas vezes saudada ou evocada como solução é muito mais – como enfatizei antes – um conceito de problema do que um conceito de solução.

O resgate ético do sujeito

A evidência também deve ser produzida na virada ontológica da modernidade que está no resgate ético do sujeito. Ou seja, existem outras dignidades conceituais em ciência que não se limitam aos ensaios clínicos quantitativos. Estudos como questionários de qualidade de vida em saúde, testes psicométricos, avaliação do bem estar das pessoas são tão revelantes quanto o grau de eficiência de drogas sobre entidades nosológicas.

Essa seria a discussão relevante, seja para os defensores ou para os críticos das práticas integrativas. Sem ela, de fato tudo que escapa ao mainstream da ciência standard, fica parecendo nonsense ou objeção/enaltecimento maniqueístas. Por outro lado não cabe aos que praticam estas terapêuticas fazer o mesmo com sinal invertido: render-se a defesa partisã, enunciar o monopólio terapêutico, cristalizar o conhecimento acumulado como um monumento vitalício.

A volta do generalista e a retomada da atenção  primária à saúde

Qual será então a melhor forma para avaliar a eficácia da clínica praticada pela homeopatia e das demais modalidades de medicinas integrativas? Em primeiro lugar identificar o sistema referencial que orienta a semiologia, neste caso dirigido para justificar uma medicina que deve incluir o sujeito. Mostrar que faz sentido buscar capturar os aspectos biológicos, afetivos e mentais do “ser sofredor”. Detectar não apenas traços característicos e singularizadores em cada pessoa enferma, mas capturar o contexto e as circunstâncias que elucidam mutuamente mente-meio-corpo-medicamentos. Este conjunto já mostraria que se trata de uma fenomenotécnica. Que só faz sentido se o sujeito for reinserido num outro sistema de notação médica, sem competir e jamais dispensar outras abordagens da medicina contemporânea. Incorporar todos os procedimentos tecno-científicos disponíveis com racionalidade, mas ao mesmo tempo recusar a separação arbitrária imposta pelo excesso de especialidades.

Cada doença segue um curso distinto e se apresenta diferentemente em cada pessoa e já evidencias muito concretas neste sentido. A medicina não deve expurgar o estado subjetivo como objetivo legítimo de sua intervenção, ou delega-la aos especialistas. E no auge do cientificismo imaginou-se que o estatuto da patologia pudesse ser confinado exclusivamente à lesão somática. Mas o clamor por um cuidado mais abrangente persistiu. Os experts são necessários, mas os generalistas precisam ser prioridade. Foi à revelia da necessidade das pessoas que a divisão entre mente e corpo cindiu a arte médica. E sua reunificação seria a regeneração e o resgate do clínico geral e do médico de família.

Assim, o sujeito sob a perspectiva da antropologia médica se aproximará das práticas psicoterapêuticas se incluir a figura do médico, ou seja, que sejam treinados em uma anamnese mais generosa e compreendam a transferência, na expressão e construção da linguagem, das narrativas e de seus significados.

A suspeita de que a patologia contém ou está contida em um substrato disfuncional com sofrimento mental permanece como um desafio mesmo no mais cientificista dos clínicos. Substrato que precisa ser abraçado e não expurgado como “pseudociência” ou “não científico” (sic). Isso merece máxima atenção a quem se dedica a uma investigação séria que ultrapasse as arquibancadas do senso comum. Não pode mais ser ignorado por qualquer clínico atento. Por qualquer um que entenda a ciência em uma dimensão mais ampla do que o reducionismo insiste em exaltar.

Enfermidade, mal estar, sofrimento, qualidade de vida e para bem além da psicofarmacologia

Cito a famosa definição do médico francês, fundados da histologia, Xavier Bichat “a vida é o conjunto de fatores que resistem à morte” (Bichat, 1829). Mas há também o seguinte desenvolvimento possível: a vida nasce sob o signo da mortalidade, tensão que permanece ativa e nos acompanha até os nossos últimos dias.

Ficar doente não é apenas a vigência do mal estar, mas também não reconhecer a coautoria dos sintomas; ou simplesmente atribuir a patologia a algum agente exclusivamente exógeno. Afinal, ser agente de si mesmo é recuperar imediatamente o horizonte do auto-cuidado e aumentar a acuidade da atenção à vida. O processo saúde-doença é, mesmo na opinião de alguns, uma luta. Luta entre saúde e doença e, portanto, entre vida e morte e até mesmo resignação e ambição.

Isso significa mais ou menos o seguinte: podemos dizer que sofrimento é doença?  Podemos ou não chamar essa força ancestral destrutiva de miasmas, vírus, meiopragias ou de quaisquer outro nome. Se o sofrimento é inerente ao gênero, quais são os limites para considerá-lo uma doença? E se entendermos o sofrimento não como um estado penitencial, mas como uma incapacidade mais ou menos importante para se dedicar ao auto-cuidado?

As patologias não são no entnder de Lain Entraldo “localizadas”, não se limitam a um só lugar. Quando bem investigadas nota-se como permeiam toda a economia do sujeito. Encontram-se arraigadas junto com outros sintomas que podem ser mais antigos ou mais recentes. Ou seja, a despeito das aparências, a moléstia é sempre sistêmica. Primeiro o mal estar (illness) e depois a moléstia propriamente dita (disease) Para desmontá-la, portanto, é necessário ver o mapa completo do organismo afetado, bem como as circunstâncias ambientais.

Uma angústia pode ser benéfica, assim como uma depressão, desde que seja recriadora ou regeneradora. Pode ser um traço melancólico a ponto de ser só mais um item na vasta carga existencial. Mas pode determinar o curso de patologia.

Uma das questões centrais da medicina tem sido subestimada e parece propositalmente ausente de muitas discussões epistemológicas contemporâneas. O avanço da tecnociência na produção de insumos farmacêuticos trouxe avanços impressionantes nas áreas de imunizantes, próteses e órteses, reabilitação, associado à crescente – e bem-vinda – sofisticação dos diagnósticos. Estes avanços entretanto produziram simultaneamente  um efeito colateral danoso: o superdiagnóstico. Assim como erroneamente deslocou quase todas as questões relacionadas ao sofrimento mental e à individualização dos sintomas da medicina. Dito isso, perguntamos como as práticas médicas podem voltar a incorporar e lidar com a subjetividade de cada doente?

Via de regra, a solução tem sido encaminhar esses pacientes para o uso sistemático de psico-fármacos. Mas a solução pode não estar no treinamento de clínicos gerais para administrar drogas psiquiátricas. A referência ao eufemismo denominado “re-humanização da medicina” pode estar em dar outra abordagem, como por exemplo, resgatar uma perspectiva antropológica para a medicina independentemente do método médico adotado

No lugar de torneios terapêuticos ou histrionismo midiático estas seriam as questões que realmente interessam à sociedade.

Convido os leitores para esta reflexão: não se trata de opinião, trata-se de uma questão de episteme.

https://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/a-insubstancialidade-e-o-nada-questao-de-episteme/

https://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/a-insubstancialidade-e-o-nada-questao-de-episteme/

Mutação da linguagem II – A obsolescência do conceito de dissuasão. (Blog Estadão)

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Mutação da linguagem II – A obsolescência do conceito de dissuasão sobre fanáticos

Dissuadir : Desanimar, fazer cair os braços, arrefecer o entusiasmo, servir de freio, desengodar, entibiar, fazer frio a alguém, expulatório (Dicionário Analógico, Azevedo, F.F.S) 

Meus antepassados sempre temeram os eventos revolucionários e contra-revolucionários, em ambos eventos os judeus eram culpabilizados pelas políticas disruptivas da incompetência e das desmesuras dos governantes. E sempre funcionou. Como se sabe nazismo e comunismo repartiam, neste aspecto, as mesmas convicções, enquanto um se referia à “solução final” o outro o chamava de “problema judaico”. O que a guerra atual desvelou foi a falsa noção de estabilidade. E reativou fantasmas hibernados através da magia da iniciativa. Isto é, a decisão de agir para fazer o impensável.

As tropas russas romperam todas as linhas imagináveis ao promover a invasão da Ucrânia. Sob o mito do líder ousado e do heroísmo patriótico o presidente da Federação russa reabriu a a caixa de surpresas da história a qual, na verdade, nunca foi vedada. A ilusão de controle que o ocidente imaginava possuir foi subitamente desmantelada, e como em toda ameaça, a neurose trouxe uma resposta mais estoica do que efetiva. Do outro lado, o porta voz do exército que junto com aliados britânicos e americanos libertou a Europa de Adolf mostrou-se legítimo herdeiro do anedótico pacto de não agressão Stalin-Ribentropp que alinhavou o nacional socialismo alemão com o socialismo soviético. Enquanto continua anunciando que um dos objetivos é a desnazificação de um País cujo presidente é um ex comediante judeu que respondeu às múltiplas ofertas de exílio afirmando: “não preciso de carona, preciso de munição”. Aliás, a camiseta com a frase icônica está a venda na Amazon por U$ 18.

Minha hipótese diverge da maioria dos analistas.  Nunca houve “erro de cálculo“ de Putin ou “grosseira sub avaliação das inevitáveis represálias” já que a decisão do chefe maior das forças armadas nunca esteve baseado em “cálculos” mas sim em vontade de poder guiada por uma nostalgia fanática de um império que foi pulverizado por suas próprias vicissitudes. A ideia era acirrar o conflito latente. Traze-lo à vigência. Remontar uma nova cortina de ferro desta vez forrada com urânio enriquecido. Travar a batalha final. Acusar o “decadente inimigo ocidental” de ter feito das suas não ameniza o avanço infernal sobre milhões de vítimas civis.  As supostas ameaças que motivaram a invasão são álibis justificacionistas. Álibis que vem carreando o fio mitômano do regime pós-soviético. Eles nunca são desprovidos de racionalizações cujo suporte pode ser geopolítico ou simplesmente ideológico. E são estas justificativas que hoje os conduz com certa naturalidade à selvageria em Bucha, os dois mísseis balísticos que explodiram sobre civis na estação de trem de Kramatorsk, e sabe-se lá quantas outras indiscriminadas campanhas militares letais em larga escala.

A jogo do megalomaníaco com vasto poder é similar ao de um chantagista. Quando se tem ogivas em submarinos invisíveis a chantagem assume dimensões escatológicas. Por isso mesmo são sujeitos, ou grupo de pessoas, totalmente refratários ao argumento dissuasivo. Quiçá, imunes à qualquer argumentação. A pauta dissuasiva pode ou não funcionar para pessoas que tem no perigo da extinção individual ou coletiva uma clara linha demarcatória. Mas o que dizer das concepções pautadas em compreensões distorcidas?

Serão os tiranos — eleitos ou não através do voto popular — susceptíveis à ideia abstrata de que ao recorrer às técnicas de homicídio indiscriminado estarão adiante sujeitos à uma retaliação proporcional? Herbert Marcuse em seu célebre “Ideologia da Sociedade Industrial” escreveu que as armas nucleares poderiam paradoxalmente trazer a liberdade pelo saudável temor de extermínio mútuo. Bem, Marcuse estava equivocado. Não previu que uma casta de governantes delirantes, mesquinha, e sobretudo autocrática, sempre poderia chegar ao poder novamente. Sempre sob eleições inauditáveis, e, em alguns casos, sem o risco da concorrência já que em muitos regimes as urnas são curiosas e/ou a oposição não passa de um fantoche da situação. Para estes, jamais será possível compreender o refinado e subjetivo conceito de dissuasão.

Não, não é só o chefe da federação russa que sofre desses males, mas vários políticos de várias matizes. Porquanto, é incompreensível a parcimônia e a indulgência com crimes de guerra daqueles que identificam a atual diretoria do Kremlin com simpatia por ter um matiz “conservador”(sic) que estaria lutando “contra forças progressistas”(sic)  representadas por exemplo pela União Europeia. Que também apresenta dilemas morais. Na Alemanha, na hipótese de renúncia do gás e óleo russos, o PIB sofrerá uma queda de 6% e a recessão será inevitável em 2023. Vale dizer, melhor manter o fluxo do gasoduto do que interromper a máquina de guerra russa? É um cálculo dificílimo, mas o resultado seria evidente se a compaixão e a inteligência estivesse acima das razões econômicas. Portanto, nem uma coisa nem outra. A origem dos sonhos do revisionista Wladimir, é, em suas próprias palavras “restaurar a grandiosidade do império soviético” e suas ambições são “nobres” nesta guerra cuja missão é “libertar o povo ucraniano”. Não há blefe. Em seu sistema moral isso faz todo sentido, por isso mesmo o que ele representa é tão perigoso.

O ex-campeão mundial de xadrez, o dissidente russo exilado Garry Kasparov afirmou que, de fato, será preciso desnazificar a europa: começando pelos dirigentes russos. O fato desolador é que o nazismo e suas diversas vertentes que deveriam estar enterrados em valas sem identificação junto com seus fundadores via de regra reemergem, às vezes como ideia, vocábulo ou ideologia.

Para além da mutação da linguagem, os significados das palavras continuam em transe. Um transe que nos coloca diante de uma ruptura sem precedentes.

Não será apenas uma reedição de Babel, pode ser um longo caminho de terras devastadas.

Para variar, a história bem que poderia nos pregar uma peça favorável.

https://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/mutacao-da-linguagem-ii-a-obsolescencia-do-conceito-de-dissuasao/

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The West’s Unforgivable Perplexity

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The West’s Unforgivable Perplexity

(Peace is the refusal of barbarism)

No, we haven’t been begging.

We’re on our knees, but not for you.

Never before you.

From now on we chose who would force us into relegation.

We are not begging. Know why?

Inside us, there was something remarkable, an indefinable awareness.

More than that, a sharp and disparate spark.

I don’t even know if we should share it with you.

But you can visit it whenever you remember the keyword.

Keyword that never got to inhabit your mouth.

We will never beg.

Because we have an impulse that takes us far beyond reason.

Of your reason.

We don’t capitulate

We confuse ourselves with expressions that your eyes cannot access.

And for that, but not only for that, we put ourselves in front of your armored vehicles.

We face your bullets, artillery, mortars and crossfire.

There is an honor, elusive for you

Inconceivable to those around you.

She stands in stark contrast to hubris.

And if we return to life, we will dwell in it.

nothing to beg

Here is an honor that endures in the graves and in the streets

In ruins and minefields.

Eight decades ago we were buried with the rubbish of history

Submerged in the waste that Europe blew us away.

However, as the subterranean patience of the cicadas

We will reappear from time to time, like ghosts without gags.

Not to haunt you.

But to make an anthem sound

Whose frequency you do not reach.

we are not begging

Unlike your hosts, not even revenge attracts us.

There are those who reaffirm the educational power of wars

Or the importance of prudent neutrality.

We? We have already overcome this illusion.

Our union is not for the geopolitical homeland.

It was not organized by collusion, agreements or concessions.

Turns out there is one.

Only a praiseworthy fanaticism: that which you do not conceive.

The one that stuns you, the one that your logic cannot unravel.

The one that brings you vertigo, insomnia and madness.

A word that shifts the axes of constancy

That overcomes the tomorrows of old mistakes.

Such a word is spelled in the air, scratched on the slopes

Grooved in the woods, floating in the resin of the tides

Her fanatics do not fear blackmail.

we don’t beg

We knew how to circumvent the perversions of language.

We have overcome your threats to erase us from the world.

We fully understand who your allies are.

Those who benefit from Western autonomy.

Our vision is permeated with this atmosphere.

We are fast and diaphanous

Your missiles will not pursue us.

Miraculously pass through us

Since we once became vapor.

We are the residual smoke of those who lost.

There is nothing to beg.

We are ethereal, weightless and permanent.

Does our ubiquity bother you?

If you call on us, you won’t know where we are

Will we be in the whirlpool that spins you?

Are we still invisible to your binoculars?

We will certainly notice the active executioners.

And we discern the anti-value of each.

we will not bend

We know that history abruptly awakens from lethargy.

We sense the anesthesia of those who should break neutrality.

Fade hypnosis in favor of humanity.

It’s been a long time since our naivety was ripped from us

We conquered the malice of the resistance

Inside the armored basements with courage.

Inside the epiphany: self-defense is so sacred

like life itself

Many out there don’t understand what this is about.

Will never penetrate the meaning

Forget the Iron Curtain

The West’s bewilderment is the very curtain of shame

It is the temporary smoke of the rogue.

From the rain of lies that bury the civilians

As they let the ivory run

Nihil agere

we will never beg

We will leave at the right time to burst over and beyond your detours.

From now on, no path will be safe.

Another type of refinement will appear on our radar.

It captures ignominies, registers the camouflaged inertia of collaborationist pacifism

Records the noise of cluster bombs.

It photographs cowardice covered by military technicality.

Ah, you want to know which side we’re on?

Of those who never moved a millimeter from the trenches

It’s a side battle

Of the primitive against the subtle, of tyranny against justice.

From slavery to the emancipation of autocrats

Yes, it’s our duty to point fingers at criminals

Even those protected by insignia, badges and titles.

Even those we’ll never see the dark faces

no begging

There is a hidden quality in obstinacy,

She reveals herself in the determination

If necessary, against consensus,

If necessary, against common sense

often against all

Now that your pumps subtract the oxygen

Under the melancholy gaze of the common people’s exodus

Under the immoral silence of the allies

Now that the never fell apart in surprise

you know?

This missive was intended for frightened diplomats,

Now I address myself directly to the misery that is your conscience.

Peace is a quality that can only be consolidated under heat.

It is only forged in the pressure of the challenge

It is only possible under the decency of the union.

Inaction becomes impossible.

Peace is the refusal of barbarism.

Desenho de um animal

Descrição gerada automaticamente

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The unforgivable perplexity of the West (Peace is the refusal of barbarism)

The unforgivable perplexity of the West (Peace is the refusal of barbarism) No, we do not

Amnesty International’s disturbing anti-Semitic bias

Destacado

The indestructible aggregating power of solidarity

X

Amnesty International’s disturbing anti-Semitic bias

Paulo Rosenbaum

The post-war world generated a radical rearrangement of political forces and a transformation of strategic alliances. Less than 15 years later, the world was surprised by the tensions of the cold war and its repercussions, with new alignments. In the transformations that the world has undergone in these 77 years, one constant has remained disturbingly unscathed. Disturbing, because it was at the root of the beginning of the conflicts, not only as a backdrop, but as a harbinger of times when the preaching of hatred and intolerance was legitimized under the rhetoric of totalitarianism. We imagined, like so many, that from the brutality and extent of the Shoah ‘s tragedy, a conscience emerged by coercion, almost as a necessity, a self-preserving civilizing imposition of humanity that curbed fanaticism and savagery.

The foundation of the State of Israel in 1948 would function as the corollary of this need for peace, and that conflicts could undergo a successful intermediation, under the influence of the culture of non-violence and dialogic in successive approaches. That is to say, Israel would be the living symbol of this conscience that was born under intense pressure.

Unfortunately, this is not what we witnessed.

And developments of this kind have been happening, despite all the attempts and concessions made, despite the advances of the peace agreements that culminated in the historic record of the Oslo negotiations, despite all the attempts at cooperation to create two states, establish a definitive status to disputed regions and solve the refugee problem (read the excellent just-published “The War of Return”) which, incidentally, was never exactly brought to public opinion as a true-to-fact narrative.

There was, moreover, a noxious, well-fueled, and very well-financed engine operating behind the scenes—and above—the diplomatic networks. A gear of sabotage that never ceased, that was never dismantled after the dismantling of the Nazi gang and its well-articulated ideology of a supremacist and anti-Semitic nature, that is to say, anti- Zionsemite .

It is an ideology that continued to operate in hearts and minds initially in the Middle East, but also in European culture, to finally, in the mid-21st century, contaminate and infect the world with a toxicity never seen before.

The explosion of anti-Semitism – under the old and tinged cloak of anti -Zionism – could no longer disguise its segregating nature , and openly inimical to peacemaking tendencies. From denial of the holocaust, to conspiracy theories that indistinctly demonize Jews and Israel in the same proportion, from justificationist jihadism to the unusual union of the extreme right and extreme left xenophobic and/or nationalists, a very dangerous global movement was formed, at this moment particularly obsessed with boycotting the Hebrew state and its inhabitants.

Often, using ploys such as disinformation, slander, going as far as lawlessness as exhorting violence and encouraging terror against Jews worldwide. The most recent was Amnesty International’s report of notorious intellectual dishonesty, using an age-old slogan and accusing the Hebrew state of “ aparhtheid ” (sic). Evidently using the slogan from a bias of ideological orientation where, basically, those who operate the defamation machine have already shown their biased character – if only I could designate a tendency towards justice. But this is no longer just an unacceptable stain on institutions, which weaken as they are dominated by the need for justice, but to obey the agendas and menus of an anachronistic ideology. If neo-Nazism grows, so does its antipodes on the extreme left – whose project of power shares more points than they would like to admit, such as support for tyrannical regimes, control of the press and restriction of individual freedom – and they begin to operate almost together in a broad front of justificationist anti-Semitism .

There was, therefore, an explosion of pent-up hatred and resentments. Hatred that has culminated in hostilities and anti-Semitic narratives spread throughout the world, especially in the old continent, arriving, more recently, in the United States. And the UN itself, which should be the bulwark of equanimity and the cradle of dialogue between peoples and nations – who could have imagined it – has adopted an anti – Israel bias . UNRCH, that entity’s human rights commission, for example, issued 148 resolutions condemning governments around the world, 49% of them against Israel. In recent years of the 123 convictions, 83.7% targeted the Israeli government. Do you suspect? Just look at the numbers: it is self-evidence.

And here, yes, under our eyes, happens the scourge of the repetition of old mistakes. The world’s media have been echoing with shyness and excessive neutrality news that would deserve indignation, outrage, denunciation and energetic positions. They naturally accept aberrations that should be extinct, relegated to historical limbo. It is undeniable that important favorable advances existed in the period, I cite, for example, the Abrahão agreements and a greater flow of intercultural dialogues, however, unfortunately, they do not reach public opinion with the same ease as the vituperation and backbiting insinuations against the Jews. .

Faced with such an adverse context, the great novelty lies in the emergence of courageous and active organizations such as the “ honest reporting ” and “stay with us” among many others. They are institutions like StandwithUs that fight for clarification, discernment and the truth, building the work of elucidation for the general public. And that, at the same time, adopts a democratic and considered conduct, avoiding the partisan posture , including, when necessary, criticizing the positions of Israeli extremists.

It is these institutes and their collaborators that give voice to the denunciations and that rise up against anti-Semitic, that is to say, anti- Zion -Semitic persecutions . And, at the same time, they condemn violence and intolerance, wherever they come from. Campaigns coordinated by various entities, including Standwithu s (stay with us), not only honor the tradition of Yiddish kait (Jewish culture) in defense of a civilizational tradition, but promotes the culture of peace. Culture whose prerogatives are the coexistence of peoples, political and religious freedom, respect for the sacred and its traditions.

The Jewish way of solving problems will always be to shed more light on the issues, as opposed to obscurantism, sensationalism or escalating conflicts. That, even, or especially, when dealing with difficult topics, especially the thorniest. But we will impose a small particularity: light can and must come from understanding, but we will not shirk the right to denounce those who use the information to, when deviating from the dialogue – use slander as a weapon of war in massive propaganda of attrition as just made Amnesty International.

So stay with us, being together is the most eloquent answer to intolerance, and above all an example of the indestructible aggregating power of solidarity.

Shalom _

O indestrutível poder agregador da solidariedade X O viés antissemita da Anistia Internacional (Blog Estadão)

Destacado

Paulo Rosenbaum

O indestrutível poder agregador da solidariedade

X

O perturbador viés antissemita da Anistia Internacional

Paulo Rosenbaum

O mundo do pós-guerra gerou uma radical rearranjo das forças políticas e uma transformação nas alianças estratégicas. Menos de 15 anos depois, o mundo foi surpreendido com as tensões da guerra fria e suas repercussões, com novos alinhamentos. Nas transformações que o mundo sofreu nestes 77 anos uma constante permaneceu perturbadoramente incólume. Perturbadora, pois ela esteve na raiz do início dos conflitos, não apenas como pano de fundo, mas como prenúncio de tempos em que a pregação do ódio e da intolerância se legitimaram sob a retórica dos totalitarismos. Imaginávamos, como tantos, que pela brutalidade e extensão da tragédia da Shoah uma consciência emergisse por coação, quase como uma necessidade, uma imposição civilizatória auto preservadora da humanidade que coibisse o fanatismo e a selvageria.

A fundação do Estado de Israel em 1948, funcionaria como o corolário desta necessidade de paz, e de que os conflitos poderiam sofrer uma intermediação bem-sucedida, sob a influência da cultura da não violência e do dialógico em aproximações sucessivas. Vale dizer, Israel seria o símbolo vivo dessa consciência que nasceu sob intensa pressão.

Infelizmente, não foi isso que testemunhamos.

E desdobramentos deste gênero vem acontecendo, apesar de todas as tentativas e concessões feitas, apesar dos avanços dos acordos de paz que culminaram com o histórico registro das negociações de Oslo, apesar de todas as tentativas de cooperação para criar dois estados, estabelecer um status definitivo para regiões em disputa e resolver o problema dos refugiados (leia-se o excelente recém-publicado “A Guerra do Retorno”) que aliás nunca foi exatamente trazido para a opinião pública como uma narrativa fiel aos fatos.

Havia, além disso, um motor nocivo, bem alimentado e muito bem financiado operando nos bastidores – e acima — das redes diplomáticas. Uma engrenagem de sabotagem que nunca cessou, que jamais foi desmantelada após a desarticulação da quadrilha nazista e sua bem articulada ideologia de natureza supremacista e antissemita, vale dizer antizionssemita.

Trata-se de uma ideologia que prosseguiu operando nos corações e mentes inicialmente no Oriente Médio, mas também na cultura europeia, para enfim, nos meados do século XXI, contaminar e infectar o mundo com uma toxicidade jamais vista.

A explosão de antissemitismo – sob a velho e tingido manto do antissionismo – não conseguiu mais disfarçar sua natureza segregadora, e abertamente inimiga das tendências pacificadoras. Da negação do holocausto, às teorias conspiratórias que indistintamente demonizam judeus e Israel na mesma proporção, do jihadismo justificacionista à insólita união da extrema direita e extrema esquerda xenófobas e/ou nacionalistas, formou-se um perigosíssimo movimento global, neste momento particularmente obcecado em boicotar o estado hebreu e seus habitantes.

Muitas vezes, usando manobras como desinformação, calúnias, chegando à ilegalidade como a exortação de violência e incentivar terror contra judeus no mundo todo. O mais recente foi o relatório de notória desonestidade intelectual da Anistia Internacional, usando um velhíssimo lema e acusando o estado hebreu de “aparhtheid” (sic). Evidentemente usando o slogan a partir de um viés de orientação ideológica onde, basicamente, quem opera a máquina de difamação já mostrou seu caráter – oxalá designasse uma tendência a justiça – tendencioso. Mas esta não é mais apenas uma mancha inaceitável nas instituições, que se enfraquecem na medida que são dominadas no pela necessidade de justiça, mas de obedecer agendas e cardápios de uma ideologia anacrônica. Se o neonazismo cresce, cresce também os seus antípodas na extrema esquerda – cujo projeto de poder compartilha mais pontos do que gostariam de admitir tais como como apoio a regimes tirânicos, controle da imprensa e cerceamento da liberdade individual – e passam a operar quase juntos numa ampla frente de antissemitismo justificacionista.

Notava-se, portanto, uma explosão de ódio e ressentimentos represados. Ódio que vem culminando em hostilidades e narrativas antissemitas espalhados por todo o mundo, especialmente no velho continente chegando, mais recentemente, aos Estados Unidos. E a própria ONU que deveria ser o baluarte da equanimidade e o berço da interlocução entre os povos e nações — quem poderia imaginar- tem adotado um bias anti-Israel. A UNRCH, comissão de direitos humanos daquela entidade, por exemplo, emitiu 148 resoluções condenando governos do mundo todo 49% delas contra Israel. Nos últimos anos das 123 condenações, 83,7% tiveram como alvo o governo israelense. Desconfiam? Apenas olhem para os números: trata-se de uma auto-evidência.

E aqui, sim, sob os nossos olhos, acontece o flagelo da repetição de erros antigos. As mídias mundiais vêm ecoando com timidez e neutralidade excessiva notícias que mereceriam indignação, ultraje, denúncia e posicionamentos enérgicos. Aceitam, com naturalidade, aberrações que deveriam estar extintas, relegadas ao limbo histórico. É inegável que avanços favoráveis importantes existiram no período, cito, por exemplo, os acordos de Abrahão e um maior fluxo de diálogos interculturais, porém, infelizmente eles não chegam ao conhecimento da opinião pública com a mesma facilidade dos vitupérios e insinuações maledicentes contra os judeus.

Diante de contexto tão adverso, a grande novidade está no surgimento de organizações corajosas e ativas como o “honest reporting” e o “fique conosco” entre outras tantas. São instituições como o StandwithUs que lutam pelo esclarecimento, discernimento e a verdade, construindo o trabalho de elucidação para o grande público. E que, ao mesmo tempo, adota uma conduta democrática e ponderada evitando a postura partisã, inclusive, quando necessário, criticando posicionamentos de extremistas israelenses.

São estes institutos e seus colaboradores que dão voz às denúncias e que se insurgem contra as perseguições antissemitas, vale dizer, antizionssemitas. E, simultaneamente, condenam a violência e a intolerância, venha de onde vier. As campanhas coordenadas por várias entidades, entre as quais a Standwithus (fiquem conosco), não apenas honra a tradição do idish kait (cultura judaica) na defesa de uma tradição civilizatória, mas promove a cultura da paz. Cultura que tem como prerrogativas a coexistência dos povos, a liberdade política e religiosa, o respeito ao sagrado e às suas tradições.

O caminho judaico de resolver os problemas será sempre jogar mais luz nas questões, em oposição ao obscurantismo, sensacionalismo ou escalar os conflitos. Isso, mesmo, ou especialmente, quando lidando com temas difíceis, sobretudo os mais espinhosos. Mas imporemos uma pequena particularidade: a luz pode e deve vir do entendimento, mas não nos furtaremos ao direito de denunciar aqueles que instrumentalizam a informação para, ao desviar-se da interlocução – usa a calúnia como arma de guerra em propagandas maciças de desgaste como acaba de fazer a Anistia Internacional.

Portanto, fiquem conosco, estar juntos é a reposta mais eloquente à intolerância, e, sobretudo, um exemplo do indestrutível poder agregador da solidariedade.

Shalom.

https://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/o-indestrutivel-poder-agregador-da-solidariedade-x-o-perturbador-vies-antissemita-da-anistia-internacional/

Resenha do livro “Navalhas Pendentes” por Julio Jeha publicado no “O Estado de Minas”

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LITERATURA

Trama de ‘Navalhas pendentes’ embaralha os limites entre autoria e plágio

Livro de Paulo Rosembaum usa uma editora de best-sellers artificialmente forjados por um algoritmo para falar sobre originalidade e criação literária


27/10/2021 04:00 – atualizado 27/10/2021 00:36 compartilhehttps://audio8.audima.co/iframe-later-estado-de-minas-audima.html?skin=estado-de-minas&statistic=true&clientAlias=

Julio Jeha* Especial para o Estado de Mina

Quando um autor se apropria de uma obra preexistente e lhe dá outra forma, outro significado, como fizeram as dezenas de dramaturgos que recontaram a história de Pigmaleão e Galateia, isso é plágio ou é apenas a literatura como ela sempre foi?  Já na “Bíblia”, o autor do Eclesiastes declarava: “O que foi tornará a ser, o que foi feito se fará novamente; não há nada novo debaixo do sol”. Tal constatação milenar está no cerne do romance “Navalhas pendentes”, de Paulo Rosenbaum, atualizada com algoritmos e mercados globais, inteligência artificial e autores incógnitos.


A literatura fala do ser humano no mundo. A literatura fala de si mesma. Esse aparente paradoxo se dissolve ao pensarmos em qualquer obra de ficção: se é da humanidade que se trata, então toda vez que o texto literário se refere a outro texto semelhante, ele está se referindo, também, à experiência humana. 


Isso se torna claro no romance de Rosenbaum, porque, além de outras questões, trata de originalidade e plágio, mercado e criatividade, memória e ficção, inteligência artificial e o que significa ser humano. Acrescentem-se os conceitos de autorreferência e recursão, e teremos uma obra do nosso tempo que discute a natureza da literatura, mas que se aplica igualmente a outras artes.

MANUSCRITOS

 Rosenbaum tece uma bem-urdida história em torno de uma editora que produz mais best-sellers do que seria razoável, escritos principalmente por Karel F., um autor que ninguém sabe quem é. Quando o personagem Homero Arp Montefiore é contratado para avaliar manuscritos submetidos à publicação, as coisas começam a se complicar. 
Ele desconfia de que algo ilícito está acontecendo no recôndito da editora. A trama se adensa quando uma das maiores casas editoriais do mundo propõe uma fusão com sua congênere nacional. Assassinatos, fugas e desaparecimentos ocorrem, assim como a culpabilização do narrador, que busca entender o que lhe está ocorrendo.

Homero é o nome do narrador de “Navalhas pendentes”, mas também é o do suposto fundador da literatura europeia, de cuja obra deriva tudo o que escrevemos e lemos até hoje. Outra referência literária é Karel, tão incógnito quanto Elena Ferrante, pseudônimo de uma escritora italiana, também autora de best-sellers, tão elusiva quanto o autor brasileiro.
Esse autor, supostamente brasileiro, tem o mesmo nome de Karel Capek, escritor tcheco que escreveu a peça “R.U.R. (Robôs Universais de Rossum)” em 1920, sobre a robotização de operários. Seria coincidência, no enredo, Homero submeter, sob pseudônimo, “A fábrica de robôs latinos” para avaliação da editora? Ou ele está recorrendo ao que já foi feito para criar uma obra para outro mercado em contexto diverso daquele em que a palavra “robô” foi primeiro introduzida?

Talvez a noção que mais ocupe o narrador seja a da memória, que aparece sob diversas formas no texto, associadas quase sempre à recuperação dos eventos que lhe aconteceram e que o incriminam. As referências ao passado se dão também quando ele tenta se reconhecer como indivíduo, numa possível caracterização de si mesmo como uma personagem em uma trama. 
Porém, como hoje sabemos, a memória recria mais do que repete o acontecido. Então, o Homero apresentado ao leitor é verdadeiro, num mundo ficcional, ou é recriado por um processo imaginativo, tal como um autor cria suas personagens? Seria a narrativa de Homero autoficção dentro da ficção?

ALGORITMO 

Essas e outras perguntas vão encontrar respostas no algoritmo encomendado pela editora holandesa, o verdadeiro gerador dos inúmeros best-sellers mundiais. A partir de manuscritos rejeitados, o programa consegue combinar trechos em textos orgânicos que fazem sentido e provocam emoções nos leitores. O algoritmo precisou aprender não apenas sobre logos, mas também sobre páthos para que seus livros pudessem passar por obras escritas por humanos. 
Voltamos aos parágrafos iniciais desta resenha: a combinação de textos preexistentes para dar à luz outros é plágio ou apenas uma releitura, uma reciclagem de elementos do nosso repositório cultural? Shakespeare usou material de autores anteriores para criar suas peças, e não se fala de cópia. Afinal, a significação depende do contexto – nenhum signo tem sentido no vazio.


Essa capacidade recursiva da literatura se alia à de autorreferência no final de “Navalhas pendentes” para surpreender o leitor, que não deveria se espantar em vista do que a narrativa vinha indicando. 
Falar mais revelaria o desfecho que Paulo Rosenbaum dá ao livro. Basta dizer que, a partir da forma do romance de enigma, o autor atualiza a discussão tanto do fazer literário quanto do mercado editorial. E o faz numa narrativa fluida que alia questões éticas e estéticas a denúncias políticas.


*Julio Jeha é professor de literaturas de língua inglesa na Faculdade de Letras da UFMG

“NAVALHAS PENDENTES”

• Paulo Rosenbaum • Caravana Grupo Editorial  (328 págs.) • R$ 62,90  

Navalhas Pendentes (portal da Glorinha Cohen)

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PRÉ-LANÇAMENTO DE “NAVALHAS PENDENTES”, O NOVO ROMANCE DE PAULO ROSENBAUM

Postado em 18 de setembro de 2021 Por admin FIQUE POR DENTRO, ROTATIVAS

“O romance Navalhas pendentes, de Paulo Rosenbaum, é, sobretudo, uma armadilha que, entre citações, ironias e referências intertextuais, arma e desarma a leitura. A trama põe em perspectiva a sanidade do narrador e a linearidade da história. Complô, ilusão e farsa fazem do enredo um labirinto e fazem multiplicar realidades instáveis ou fantasias existenciais de um protagonista que, aparentemente, não merece muita credibilidade. Desde o início, o leitor sabe que está pisando em solo movediço, afinal, amnésia é uma das palavras-chave que, intermitentes, funcionam como faróis precários no nevoeiro. O narrador, Homero Arp Montefiore, tal qual o seu homônimo grego, faz precipitar as certezas por um vórtice e, se Goya tinha razão e o sono/sonho da razão produz monstros, tanto um quanto o outro assombram o personagem com lâminas que se inscrevem na narrativa, como signos denunciadores. Sobre o herói e os crimes imputados ou cometidos por ele, pesam navalhas, facas, canivetes e outros fios mais sutis. Daí serem sempre pendentes tanto as ameaças e quanto as certezas. Nesse sentido, quando o personagem, revisor de textos e aprendiz de escritor, se corta com o gume de uma folha de papel, aguçam as lembranças do leitor estudos em vermelho, fisiologias da composição, punições para a inocência e mortes ao pé da letra. Uma gota de sangue sobre o papel não é rastro fácil de seguir. O narrador parece viver em um pesadelo, como nos enredos de Kafka, engendrado por um escritor que cria labirintos com inúmeras entradas e algumas saídas, todas inacessíveis. O leitor, como uma espécie de detetive que segue indícios, pistas e enigmas, por sua vez, se enovela numa história de crimes, facas e segredos.” – Lyslei Nascimento

“A Editora Filamentos faz parte do maior conglomerado
editorial do mundo. Desde que
foi absorvida pela gigante emergente KGF-
-Forster©️, viu suas vendas de livros dispararem.
Um de seus colaboradores, Homero Arp
Montefiore, ficou intrigado com a indústria de
best-sellers da editora, especialmente aqueles
assinados por um misterioso escritor chamado
Karel F. A curiosidade sobre a verdadeira
identidade desse autor tornou-se uma obsessão,
levando-o a uma investigação particular
sobre a vida do enigmático romancista. As
perturbadoras descobertas reveladas por
essa investigação tornaram-se cada vez mais
perigosas e, após determinado ponto, colocaram
sua vida em risco extremo. Acusado de
crimes que talvez não tenha cometido, ele se
torna um fugitivo empenhado em tentar provar
sua provável inocência. Se alguma chance
houver de isso acontecer, será descobrir a real
identidade de Karel F. e expor a conspiração
que subjaz a sua literatura.”

Berta Waldman

O autor, Paulo Rosenbaum, nasceu em São Paulo em 1959. É médico e escritor. Possui Mestrado em Medicina Preventiva, Doutorado em Ciências e Pós-doutorado em Medicina Preventiva pela USP, com mais de uma dezena de livros publicados na área. Escreve, regularmente, para o jornal Estado de São Paulo, no blog “Conto de notícia”. Roteirista e produtor de documentários, atuou como editor de revistas científicas no campo da saúde. É pesquisador na área de clínica médica, semiologia clínica, relação médico-paciente, prevenção e promoção da saúde e pesquisa de medicamentos. Além de ensaísta, é poeta, contista e romancista. Antes de Navalhas pendentes, publicou os romances: A verdade lançada ao solo (Record, 2010) e Céu subterrâneo (Perspectiva, 2016).

Para adquirir este livro em pré-lançamento a R$ 59,90, acesse: https://caravanagrupoeditorial.com.br/produto/navalhas-pendentes/embed/#?secret=J7MeWeBVAE

https://glorinhacohen.com.br/?p=58467

Hahnemann, 266 years later (Published in the Newspaper “O Estado de São Paulo”)

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Paulo Rosenbaum

Hahnemann, 266 years later

Born on April 10, 1755

“Man, considered as an animal, was created more helpless than all other animals. It has no congenital weapons for its defense like the bull, no speed to make it able to escape from its enemies like the deer, it has no wings, it has no feet with interdigital membrane, it does not have fins – it does not have impenetrable armor against violence like the land and freshwater turtle, nowhere to take refuge provided by nature because it is dominated by thousands of insects and worms for your safety .. Man is subject to a very large numbergreater disease than animals, which are born with a secret knowledge of healing methods for these invisible enemies of life, instinct, which man does not possess. The man alone painfully escapes his mother’s womb, smooth, soft, naked, helpless, helpless and deprived of everything that can make his existence bearable, deprived of everything that nature richly contemplates the earth’s worm to make his life happy.”

Samuel Hahnemann in “The Medicine of Experience”

The researcher and the thinker.  

First of all, I think it would be fair to explain what will not be prioritized in this work. We will not be concerned with the famous paragraphs of the “ Organon ”, or with the topics of “ Chronic Diseases ”, nor do the conventional revision of its tumultuous biography. We try to take the facts created by Hahnemann as ideas and from these search — using the bio-bibliographic parallels — the clues that led us to the process of creating his theories. Our character played at least two simultaneous and interdependent roles in the sphere of knowledge: researcher on the nature of health phenomena and thinker.

Due to a careful and intentional methodological option, we will not consider your works as finished and definitive pieces. There is never an end to real scientific constructions. On the contrary, we see in its corpus (frequently and naively exalted by its irreplaceable coherence) theoretical gaps, methodological gaps and operational contradictions . We will try to show that all these “inconsistencies” can lead us to interesting logical developments of the original propositions. Correctly assessed, contradictions allow for rediscoveries. Searched gaps and gaps favor the end the progress of clarifications, not the only one, but the last end of scientific knowledge. In this way, we, the descendants and legatees of this medical philosophy, will be able to penetrate each historical segment of their arguments.

We used authors like Koyre, Canguilhem and Khun to better situate Hahnemann’s attack against the normal science of his time, like that of a spirit that is mobilized to undertake and change the medicine of its time. We will weigh the socio-historical influences of the 18th and 19th centuries and seek to show that scientific changes often occur not only through empirical reforms, but mainly, through philosophical movements that redefine scientific horizons and make such reforms possible. In our case, we will see that both the romantic movement and natural philosophy are part of the theoretical trenches that expanded and built the support for transformations.

Backed by historical epistemology, we conclude, quoting Prof. Roberto Machado, that chronological anteriority is not always a logical inferiority. It is possible to apply such a concept in any science, including Hahnemannian work. I explain with an example familiar to our topic. We must consider the hypothesis that perhaps the sixth edition of Organon is not – although the author himself considers it the closest to perfection – the point of greatest evolution of the method. It is also possible to consider that the homeopathy that we do today is not necessarily a progress in relation to the practice of the pioneers. We can even suppose that many of the discussions that we have today, under the illusion of originality, are only faint echoes of what has already been exhaustively and creatively debated and practiced. 

From this perspective, we do not consider it any discredit, but proof of vitality to examine issues that have been surprisingly active for over two and a half centuries. This persistence denotes the tenacity of the Hahnemannian records. Studies that privilege critical bias are the only ones that honor the script of science, for if Hahnemann entered the historical debate it was precisely because of his ability to let himself be affected by the surprising phenomena that he was unveiling. Only in this way will we understand the historical-philosophical flow that underpinned it, with the multiple perspectives that its challenges have been launching in these two centuries of permanence.

The inaugural doubt can then be presented: once Hahnemann updates and incorporates scientific modernity in its inductive perspective, including the search for experimental validation , what would be its distinguishing mark in the investigation of medical phenomena? Just beyond that, what will be the point of your exhaustive research? It seems clear that by subscribing to the therapeutic reform originated in the objections of island (Sydenham, Hunter) and French (Bichat, Fodera) clinicians regarding the use of medical material and its therapeutic manipulation, our author puts himself in line with the empirical reform that was taking place. sketching.

Only afterwards did he subvert the order installed in the medical sciences and turn the traditional clinic into an uproar by proposing a very unique and original modernity, especially in relation to the use of drugs in their practical application.

Let’s go back to the end of the 18th century. The thick curtain of the methodological monopoly reigned in the era of the great medical systems. Hahnemann is engaged in what was considered the best medicine of his time. In the end, he did not envision any regeneration for the serious and recurring mistakes found. Let us understand his situation at once: he is a desperate doctor who can no longer act with what he had been trained (that is, treat patients) without serious damage to his conscience. It then restricts itself to adopting a relatively innovative hygienism. He begins to loathe the therapies he witnesses. He prefers to give up clinical practice. Fortunately, his intuition was refractory to his skepticism. He argued his intellectual distrust under the avalanche of uncertainties that obsessed him. He considered it better and admitted that there might be something to be done, notions that deserved to be revisited. Initially it imposes an induction, apparently inspired by the prerogatives of an author who, strangely, never mentioned: Francis Bacon.

We must see the enormous effort of his rescue. It seems clear that the traces left by the medical history for which it was based as a starting point have become its main epistemological guidelines. Hahnemann captures ideas that have not been preserved from the medical tradition, with a view to reincorporating them. When it is finally defined by a method it tests it. But it is certain that the usual methodological losses will not be condemned by the aphorisms of the Novum Organum . It also denies the very common acquisition of knowledge through the application of drugs to the sick (ab usage in morbis ). His interest moves to another research matrix. But where is she? Apparently in the study of the effects of poisoning and accidental poisoning on the healthy.

The year 1796 was decisive in its trajectory. After several smaller essays, published in the same Hufeland newspaper , H. writes a work that will carry a very ambitious title. There he claimed to have discovered nothing less than “a new principle for ascertaining the medicinal power of drugs”. However, how could he announce a novelty when much earlier, as he and even evoked from medical historiography, the principle of similars had already been seen and applied? Analogy and sympathies were marked as common grounds for similarity’s discursive constructions.[1] These were ancient resources, old acquaintances of the healing art. How then does he claim that he induced the birth of a new system of medical understanding when the medieval physician Rhazes and another famous scholar of illustration, Von Haller, already admitted the need to bring the experiment on the healthy to medicine?

What abuse of self-referential sources was he promoting when he claimed to be both an agent and a witness, that is to say, the main protagonist of an announced revolution?

There is perhaps one of those logics of scientific discoveries which, as Khun admits, are motivational, psychological, and therefore crucial. At the end of the 18th century, we would find Hahnemann extremely unhappy. He fueled a deep skepticism in the face of the inefficiency he contemplated. He distrusts his practice by denying the therapeutic successes enacted by his peers. It does not seem to admit that the scientific revolution had really installed itself in therapeutics. It also rebels against the comfort of the repetitions of the chairs. Randomly rummages through the pandora box of medicine. His curiosity generated a significant breakdown in his medical certainties. With intellectual boldness and determined intuition, she puts everything into perspective. Hahnemann is no longer a skeptic: he is already an iconoclast.

The Meissen guy dares to think. It is a true obsessive metaphor, the leit motiv that plagues certain subjects in certain temporal units. His rupture stems from a rational inspiration, fueled by a scientific curiosity that confirms his purpose of methodically reexperiencing and the assumption that he must expose his hypotheses to empirical tests. Tests that, to their own astonishment, are provisionally sanctioned.

The problem of identities and influences: hip ochratisms, animisms and vitalisms.

Much has been discussed about the Hahnemannian sources and it is true that thanks to this we have advanced in the understanding of the bases on which he ends up configuring the homeopathic method. There is still a lot to study. We chose to reduce our approach to the influences that, in our opinion, were the most consistent and original. The first to be highlighted is that of the Hippocratic work. There is no doubt that this influence is notable in addition to many times explained by Hahnemann. [two]

It is impossible to doubt the fascination that genuine Hippocratic writings had on him. The sobriety in describing the phenomena, his ability to peer and reveal without trying to explain what he did not know was among his main virtues. As you know, the Hippocratic doctor should be, first of all, a physiologist , that is, someone who is able to speak correctly about nature. In fact, the supreme virtue of Greek doctors was the establishment of accurate prognostic observations. Or, in this impossibility, say nothing about them.[3]

Many authors pointed to the coincidences between the medical positions of Hahnemann and Hippocrates, calculating that this was yet another reactivation of Greek wisdom.[4] As we know, clubbing simply bases medical history on medicine. Each case must be seen in its particularity and each individuality must be examined in the multiplicity of possible responses.[5] Hahnemann recognizes in the Kos tradition a less invasive, natural and rational, therefore better, medical rationality. He knows the therapeutic limits of hippocratism, so he recognizes the prognostic and diagnostic virtues , after all Hippocrates was the one who introduced the case study by comparison through anamneses.

For Hippocratic medicine that applied the Aristotelian concept of individualization, the important thing was to discern the various pathologies within the variability of individual profiles. Its purposes: to diagnose and predict better. For Hahnemann, foreshadowing the germ of his subsequent ruptures, the particularities of the subject’s biographical / pathographic events also begin to stand out , with eminently therapeutic purposes.

More than one author tried to establish a parallel between Hahnemann and the works of authors from different eras and trends such as, for example, Paracelsus, Von Haller, Claude Bernard, Pavlov and Freud. There is a possibility to justify all these influences and inspirations, but in this study we will take another direction. Other halos of influence need to be exposed.

Chronologically, it is worth mentioning some great previous adventures that have left their mark on the history of medicine. We will start with the Vesalius coverings founding the modern anatomy and establishing the correlation between anatomical form and function. Of course, the break created by Paracelsus and its developments in therapy cannot be neglected in any serious homeopathic study. Nor is Sydenham’s systematic empiricism, of evident hypocratic inspiration. Or even the perspectives of an animated anatomy introduced by Von Haller when he induces the first consistent physiological studies towards overcoming humoral-based pathology , a prolonged inheritance of Galenism. Not to mention the enormous repercussions on all medicine in the 18th century of Morgagni’s research when it correlated experimentally – in systematic autopsies – clinical history and anatomical lesion demonstrating the almost linear correspondence between the complaints and the morphological substrate of the pathology. 

Hahnemann studies and cites each of these authors, so it is impossible to doubt his option for empirical validation. The authorities he evoked are mostly clinicians and researchers of eminently experimental ballast. It is a phase in which Hahnemann is particularly interested in the study of chemistry, venereal diseases, and, of course, poisonings 

Despite renouncing the idea[6] , our author presents many similar traits to the founder of medical animism, Stahl.[7] Both excellent chemists. They are among the best of their generations, formed under the influence of the schools of Sylvius and Van Helmont[8] (iatrochemistry). Both are among the most reputable medical researchers in their respective periods. They share the same indignation at the irrational interventionism they witness. They test their hypotheses and redefine their activity: from chemistry to the investigation of the vital phenomenon. That was a moment of effervescence in the century of enlightenment: the emergence of empirical physiology was witnessed, Lavoisier founded a chemical revolution , Kant renewed continental philosophy, a romantic reaction to Cartesian mechanics was outlined. Given the proper proportions, it is not only in our time that the world changes rapidly. 

Hahnemann, like Stahl, notes that the priority was in the analysis of the vital phenomenon, too important to occupy an insignificant place. Vitalism’s identity had always been in danger of disappearing. However, it always reappeared when the clinic resumed empirical research. Animism and vitalism are progressively increasing in their scientific programs. Despite the agreement, the paths take different destinations. While Stahl takes up Aristotelian metaphysics in a very personal way, that is, shaped by the pietism with which he was involved, Hahn emann privileges Aristotelian logic as a method to solidify the constructs that are to give him the theoretical and experimental support necessary for the progress of the project .[9]

Nevertheless, Stahl mobilized the same themes in the 18th century as Hahnemann in the 19th. It fights the mechanism of the man-machine. He rebels against systematic medicine, starts to doubt the peremptory certainties of therapy, and gives an empirical tone to his treatments. In most of its therapeutic orientations , it adopts expectation as a technique.[10] He does this with great awareness because he considers it a less pernicious method than the available resources. An entire school will imitate him, after all, in the “first place, do no harm” ratifies a resumption of Hippocratic naturalism and, consequently, a return of confidence in the natural medicine . resurrecting the idea of ​​the regenerating power of the hypocratic medicinal nature, when physis would provide for the recovery of the sick. The first Hahnemann did not escape this trend. 

Roughly speaking, the Stahlian method, which also adheres to the principle of similarity, ends up in operational difficulties that are not negligible. There is no systematic treatment of the question of anima or how and under what circumstances the drug should be applied. Stahl intimately doubts the therapy, but has nothing better to offer. You only have the option of the expectant clinic. In its therapy, for the first time since the failure of Paracelsus’ psychiatry, we found a primitive psychotherapy – the fundamental disorders are rooted in the anima – which seemed to value the patient’s psycho-mental state, as well as the use of the always useful dietary resources. . Here it successfully imitates Barthez’s experimental tentamen , in any case therapeutically as not very operative as his, because they both had no medical instruments except those inherited from a tradition they had performed and tried to distance themselves from.

Hahnemann, on the other hand, creates a new path. He pursues the epistemological maturity that he slowly incorporates into his instrumental guide – Organon . This incorporation decisively affects its practice. He quickly moves from initial research, the embryo of his scientific program , to application in the sick. Again, he submits his hypothesis to the tests, increasing his casuistry with the traditional difficulties already familiar to everyone who knows his biography.

But what he gets goes far beyond what he initially assumed. He observes tangible results between the event (drug introduction) and the effects observed within a plausible time gradient. This intervention, he thinks, changes the natural evolution of the disease. This is the first step, he calculates. Careful, that r map your findings with caution. It is necessary to understand that originally he was prioritizing – until now he had not expressed his criticism of the inconjugability of nosologies – the pathological entity itself, the disease, as an object of study. Po ssivelmente was worried about a quick comparison of results.

Thus his pragmatism is reinforced by the verification that, with adjustments, he is even before a new path. It is not, strictly speaking, a new principle, but it is definitely one in our path here. Rota, which for many reasons will be terribly arid for the innovative doctor: the empirical school was undermined by the great medical systems (especially those of Hoffmann and Boerhaave), the study of the totality was being sacrificed by the principle of localization [11]

The symptoms (and with this the clinical history) were no longer so important because they had been restricted to “lesion slaves”[12] . Similitude was in disuse and was practically ignored by major medical schools. Nobody valued it, much less operationalized the tenuous medicines of Hippocratic medicine.[13] The romantic movement (as well as natural philosophy, Schelling’s “nathurphilososophie” ) that decisively influenced our author, did not exactly produce a scientific endorsement for the new researchers. Let us add to this panel the difficulties to challenge the hegemony of Newtonian physiology and its convincing mechanics applied to biology.

Furthermore, and most importantly, Montpellier’s vitalism was isolated and discredited by the advancement of the medical schools of Paris and of island medicine . In the medical field, the elision of vitalism was a fact. In this way, the environment – despite the fact that famous analysts saw the opposite – was inhospitable to what was about to unfold, to the theses that were about to be enunciated. Hahnemann, just as Galileo really acts against everything and everyone, or as Hilton Japiassú wants, referring to the famous stronome “despite everything and everyone”. Finally, it organizes a counter-thought and makes an epistemological cut in medical knowledge.

Again our inconoclast dares. He is not exactly concerned with “scientific coherence”, or “political articulations”, moreover, on the contrary, he is extremely unskilled in this sphere. He wears himself out excessively in the fight against rivals, he is defeated internally in his intention to keep homeopathy on the idealized route, he sees himself facing the constant threats of interdiction of the movement. All because he had well-defined priorities. He is stubborn with the idea of ​​the “new way”, which allows to progressively refine the theory. References to vitalism, up to the fourth edition of Organon , were quite incipient . It is developed by crossing information and refining medical knowledge with ideas arising from practice, that is: the totality-purpose, interactions between mind / body-medicines-environment. He begins to borrow concepts and ideas from the vitalist tradition, voluntarily or not, starting to resort to them to explain the phenomena he witnesses.   

Only during this period did he introduce the expression ” lebenskraft “, a vital force. Expression that will take on different characteristics in each school and that composes only one of the items of the conceptual structure of vitalist philosophy. However, what is most dear to the Hahnemannian corpus is not the “vital energy”, but the very concept of vitality “lato sensu”, as if defining a way in which the living organism operates. What started to matter, primarily, were the modes of operation of these organisms as non- mechanical, non-inertial totalities , especially analyzed in their operational functions: form / function / purpose. Hahnemann, like Stahl and Barthez, realizes the insufficiency of mechanistic principles to account for pathological and therapeutic phenomena.

With effect, vitalism can be placed more a consequence of these investigations and that the cause of these. It is also very important to show that the mechanism-vitalism polarity was never its starting point. It emerges as a natural result of research, which only increases its epistemological weight. Interpreting the results of the events, investing all his intellectual and deductive efforts, he ends up giving his newly conceived theory the status of method. Hahnemann reexplores a theory in which he can couple his findings. It is about reactivating an empirical vitalism replacing “wild” empiricism. Of course, as you realize how important and operative these assertions are, more positivity is added to the method. His research is becoming more and more oriented. He is increasingly determined to seek support for the enormous variety of hypotheses he raises.

Epistemological plans: from the induction of similarity to the deduction of singularity. 

Break with primitive similarity . Susceptibility, or the exalted peculiarity. The infinitesimal is nothing. The vitalist research program. An evil worse than the original: suppression. 

Thus, before trying to define the basic traits of his personality, or trace an outline of his historical costume, it is necessary to redefine the various traits of his work in the construction of his methodology.

In the first place, our thinker emerges as a doctor formed from conventional schools, whose main theoretical matrix was iatroquímica (Vienna, Leip zig, Erlarngen). His therapeutic vision is therefore centered on medical chemistry in the 18th century. Despite numerous proofs of his intellectual precocity and his refined intuitive ability, Hahnemann was unlikely to change his praxis in such a radical way. It would be less expected, given the absolute dominance and hegemony of that trend, that he would found a new medical school.

What takes you to your destination will probably remain ignored in the recesses of your most intimate metaphors, which I fear, we will never have satisfactorily clarifying access. It remained for us to follow the lead of their arguments. His primitive dissatisfaction with systematic medicine and his courage to denounce the lack of effectiveness of the medical systems to which he was exposed denote his first phase. Hermeneuts would call this their first application. But our problem remains the same. We have not yet been able to efficiently diagnose how and under what conditions he conceived his “new principle”.

By isolating himself and claiming to have abandoned medical art, as he confided: “I thought that art was doomed to nothing”, he sentenced himself to the search for something better. Once it has discarded the practice of its time, its next company will be to detect the failures of the great medical systems . These ended up becoming the great epistemic breach to objectify your doubt: there is something to be rethought, quickly and radically.

His research originates in the sphere of theoretical review, and between libraries and translations, among incunabula and folio s lost medical history records his rescue: Hippocratic similarity and model experimentation of the old empirical schools. Nowadays it would be equivalent to depreciating the genomic tendency and to resume, with extra-historiographic purposes, the recommendations of Hellenic medicine. He elaborates his own synthesis and sees the need to experiment on human bodies. [14] But it will not do so in the face of pathologies, it will be necessary “not sick” to obtain more reliable reports. At the same time, it is concerned with distinguishing its new formulation from Paracelsus’ correspondences and refutes, in advance, the possible attacks against what would come to disqualify it as naive empiricism. For the first, he recommends severe criticism, confronting the tradition of the markings , for the second, systematic studies against the “empirical accidents” recorded in historiography.

But, confirming what Canguilhem noticed, the sources matter less and the treatment given to them is much more important, and in this case , H. does this work in a very original way. It goes beyond medical texts and advances its research focus on works of natural history, of travelers and explorers who visited other peoples and cultures collecting therapeutic jobs and registering, almost journalistically, the medicinal habits and customs of the colonies of European countries. He is much more interested in clinical records than in books on doctrine and therapeutics. It was relatively common in the seventeenth and eighteenth centuries for medical authors to transcribe their clinical cases, as if to publish their daily experiences, to write down their therapeutic successes (even those that Hahnemann will later demonstrate as suppressions), so that others could know what their behaviors were like in prá ethics.  

  1. it ingeniously takes advantage of this immense source of therapeutic imbroglios, contesting the axiom that the masters are always right. Gumpert was happy to refer to him as a hard-core rebel. It uses the authorities, in a legitimate movement of co- thought, to disallow them. Take advantage of only the symptoms that emerge from “wild” treatments and the intoxications that you identified in these records .[15]

Although Hahnemann recognized the enormous value of applied chemistry and that many substances were useful in palliating certain pathological states, he refused to admit that we would need to restrict their knowledge to their proximity to the “natural system”, or to their taxonomic kinship. He admits that there may be, in fact, analogies between the external, physical-morphological evidence of the substances and the medicinal effects. But he does not accept them – as the doctrine of signatures predicted – as a given reality. He wants a research program to prove it or refute it. In this sense, Hahnemann undermines the epistemology of “signatures”. However, as Foucault had detected, those who work with similarities also necessarily have to deal with the signs.  [16]

The difference is that the signatures (or markings) that interested Hahnemann were of a different nature, they could not be botanical because they were also subjective, they were experiences [17] , making it impossible for these to be correlated to organs, physiological systems or pathologies. He begins to look for methodical observation and experiment in the possibility of registering the manifestations of the human totality. 

He states that “botanical affinity” would never allow conclusive inferences about the similarity of the action since the “external similarities” were superficial and insufficient to know possible medicinal effects. Here his critique of primitive similarity and the doctrine of Paracelsian signatures, as well as the whole system of medical matter, appears again, and in a much more evident way.[18]

Hahnemann had a double influence: one of them was the great medical systems of his time, iatro-chemistry, and on the other hand he was deeply impressed by the empirical propositions. It is precisely in this mid-term between the tensions of a rational and empirical nature that he forges his proposals. For this reason, it is not possible to present only one facet of its concerns, since it is committed from the beginning to divisions that will permeate the entire project. It is the contradictions generated by them that move the history of their propositions.

It uses the concept of similarity, but adheres in this field to a new epistemic , modern, therefore analogical. In other words, during the experimentation process, it seeks to detect, from the point of view of the subjectivity and subjectivity of the subject, which expresses symptoms and the changes that the substance has inflicted on him.

These revisions give him the pejorative title of “book physician” from his enemies and the other scientists and historians of his time, the diagnosis of the founder of a ” pure metaphysical system “.[19] A little unfair to anyone who published a libel sanctioning the medicine of experience. Thus, the central role of all the controversy that Hahnemann is about to create only at this stage outlines more defined features. He is about to reach his next target: the “botanization” of diseases, or better, his taxonomization. In one of these passages, one asks: “Should we happen to trust a botanist who is restricted to dividing plants between herbs and shrubs?”. 

It should be noted that Hahnemann was not only concerned with the visible, potentially triggerable signs of medicinal substances. He begins to occupy himself with the totality of manifestations, such as experiences, dreams, sensations and all sorts of subjective symptoms , obtained from the medication. Its semiology is, to borrow an expression of propaedeutics, “in the open”. For this very reason it obtains for my medical matter a myriad of new symptoms: objective, constitutional and especially mental symptoms . It incorporates all sorts of subjective symptoms, usually overlooked by semiology.[20] Found a new model of clinical history.

It attacks the episteme that placed nosos as the main object of therapy. What it means to say: it shakes the building that had, and still has, the central role of all therapeutics, the framework even of Western typifying medicine. Here we come to something truly revolutionary. Here is the embryo of one of its epistemological ruptures. What he says to us means “no to typifications” and at the same time “to look for unpredictable symptoms”. It is worth asking why you do this?

Did he perceive the little scope of the symptoms taken only as confirmations of the anatomo-clinical pictures ? Or do you suspect the efficiency of the therapy under the semiological direction undertaken until then? All of these hypotheses are plausible, however, what Hahnemann foreshadows is the concept of nonspecific susceptibility, only officially formulated almost a century later. In other words, it discovers the semiological-therapeutic importance of modalized symptoms. It gives primacy to the rarity of the clinic. Unveils the manifestations that express the disturbances in an imprecise way. In other words, it discovers the value of the unexpected , of the unpredictable phenomena in natural illness.

Redundant to say the degree of innovation of this proposal. It starts to incorporate this orientation as an inseparable part of the method. From this guideline, it is natural to deduce that it is no longer possible to prescribe based semiologically on the predictable syndromic conditions. That is, following the Hahnemanian reasoning, the pathognomonic symptoms of diseases can no longer be taken as the only semiological guides for therapy. Unless these symptoms have a personal note, it is worth mentioning those that have idiosyncratic characteristics.[21]

Now, if your review can rescue similarity and experimentation, why not go further and do the complete job by demolishing the whole system of classifying nosologies? Here we will have to sharpen our discriminatory capacity: its primary target was not this. What he wanted to do was to anticipate the enormous insufficiency of that classifying system for the establishment of therapy . Knowing what it is, that is to say, knowing the name of the disease, does not necessarily give the diagnostician the predicate of prescribers, the notion of knowing how to treat.

But you cannot avoid the logic: why, if the experiences reveal susceptibilities and “sensitive fibers” of different qualities that respond to different amounts and stimuli, why consider only specific remedies? In fact, if the medication actions are diversified and affect the entire economy, why then the privilege of a diaphoretic, a revulsive, an astringent, emenagogues or sweat? If the illnesses are inconjugable why are the drug correspondences chosen by local affinities? Why not be suspicious of organotropisms that do not take into account the totality of manifestations in the subject? =

In addition, another rescue was imminent. After concluding that it is impossible to establish a therapy under the banner of pathology, Hahnemann is visibly concerned with the paths that these can take, when they are suppressed / modified in their natural path. His conclusions again coincide punctually with what he finds registered in medical historiography: he starts to check for substitutive pathologies. It promotes yet another resurrection, this time it is the turn of the old doctrine of “morbid metastases”. It finds that in the course of any therapeutic action, pathological versions worse than the original ones may appear. It implies that the expectation may be a lesser evil (since here the suppression would be in charge of the vis medicatrix ) of what is the therapy. At the same time, it finds that the analysis of the totality and the application of mild medications are more rational means to protect the subject, or at least minimize the risks of a possible harmful path, such as the one mentioned above.

Finally, the most indestructible epistemological question. What do you look for in attenuations: to optimize the action of the drug through a lesser medicinal effect? Get the subtle alchemical body of substances? Deviate from aggravations? Coercing the vital energy? It is possible for all questions to obtain affirmative answers simultaneously and successively. But let us judge by the beginning. Hahnemann, for familiarity or opportunity, begins his work with poisons: heleborism, arsenicals, mercurials, sulfur, zinc and other toxics fill his repertoire. Check the rules that lead toxics to produce their effects under strong and low doses. It notes that qualitatively those susceptible respond to doses well below the toxic threshold. That the action of drugs on subjects is extremely heterogeneous. Now, if the clinical and mental conditions reappear under different intoxications, the minimum amounts to awaken the symptoms can be different for each subject and much smaller than expected. What laws and clinical-pharmacological criteria do these phenomena obey? None satisfactorily known. There must be individual variability that induces subjects to non-homogeneous responses. How do you proceed? Dilute and try it, only in a second stage it dynamizes the drug, after all the simal infinite is nothing. 

The ethical imperative. =

“There are circumstances in which neither the like nor the opposite heal; it is what should heal ”

Hippocrates

In the years that followed his greatest research, Hahnemann now finds himself immersed in his experience, immersed in his work of caring for patients. They have been sketching and building an ethical corpus . He does all his work looking for a system that includes an action compatible with the delicacy that semiological and therapeutic work requires from the homeopathic project. And already knowing this, he fuses his expectation of curative purpose with a pedagogical-philosophical action that would also induce the subject to a more articulated action between nature and destiny, between spirit and body, between environment and work.

However, our author pears the creative with prudence in the statement of these propositions. He fears for the worst – rightly so – when he gives homeopathy a character of univocal universal philosophy, because if, on the one hand, he knows that the sectarians will always be pre-called to defend it at all odds , on the other, he realizes the danger of a fallacious aura that this double meaning can provide for a method that was intended to be articulated as a scientific practice.

At no time, however, does it state or denote that among the particularities of the drug’s action are an action in the spirit per se . The references to an immaterial action of the medications only match the idea of ​​”quasi-spirit” in a specific context: like us, he, despite noting the positive effects, ignored the mechanism of action of ultramolecular doses. Indeed, he sees that the medicine conveys generic, imprecise, “quasi-spirit” possibilities that are assumed as information by the set of organic systems (mind-body-environment complex) of the subject[22] can change your most intimate perspectives, but who can know for sure?

Thus, in parallel with the scientist Hahnemann, we have a thinker of completeness who stands in favor of ethics. So what would be the Hahnemanni ana ethics then ? Here we leave aside, at least for now, the methodological constructions and the induction that our author proposes. We will try to understand what is convenient for him for curative action.

First, Hahnemann does not judge, he only listens carefully to the subject in his narrative, which, as we know, presupposes unusual details in clinical histories. These are the usually negligible symptomatic “wastes” that contemporary clinic has renamed as “neuro-vegetative disorders” or, at best , subjective symptoms. What mattered to a clinic based on the names of the illnesses if vertigo made the subject recline to the right with cold, if perspiration produces ecstasy, if along with the headache a desperate desire for lemon arose or even if the crises of anxiety to break out at 17 o’clock on time? These ended up – here it is not possible to analyze why – because they turn into mere parasitic symptoms of the medical occupation. No previous clinician valued or transcribed the patients ‘ symptoms with such obsessive care. H. had learned how to apply them in practice. The truth is that even the best doctors from other periods, including those who recorded very complete medical histories like, for example, Sydenham, did not know how to treat material from detailed anamnesis.

Second, the analysis of the cases attended by Hahnemann shows the commitment to all symptoms. No pre-valuation. No anticipated hierarchical criteria. No schemes chosen beforehand. Just a motto: any peculiarity will be exalted . Whether in the “Archives of Stapf”, in the “Notebooks of patients” or in the various records such as, for example, those pointed out in the rescue of Genneper, these guidelines overlap, apparently not very methodological. What you can see in all your records is the meticulousness of the record: the original words, the type of music, the details in the dreams, the empirical verification of clairvoyance, the altered perceptions, the dream recesses, the perverted functions and the body in anguish.

So when he proposes to put sculapio on the scale he weighs his positivism against his metaphysics. He realizes that he cannot, even with the deepest personal effort, hide his polarity as Masi-Elizalde has so well shown. Ass ume that, if on the one hand he will give the scientific aspect of his propositions a logical-formal tone, on the other hand he will continue to affirm what he believes in, enunciating his deep philosophical-religious concern, focusing on the very meaning of existence. Hahnemann induces and deduces all the time. After all, he shows himself to be a researcher who cannot hide his motivations. In this case, at the same time that he uses ontological substantialism to define the properties of being, he rejects part of these characteristics a pr iori , which will be the object of further control, during the experiments.

Another important methodological criterion introduced by Hahnemann is found in the explicit and repeated recommendations that each drug should be used exclusively. The idea of non-mixing is yet another field of spistemological maturity in your medical system as it seeks to control the intervening variables with the most understandable of the arguments: two drugs together cause a third and unknown element that makes the analysis of the effects uncontrollable and very little need.

The use of inert substances should also be mentioned. It should be noted that this use is recommended in a strictly ethical context: the commitment to the other also involves the controversial act of apprehension of “not medicating”, namely, the use of the compliant medication. It is precisely because he understands that imprecision is inherent in the homeopathic method and its operational difficulties that Hahnemann allows and encourages the use of non-medicinal “something” when the need and / or indication of the verum is not clear. How impressive was his ability to perceive the need and importance of a therapeutic artifact, however pseudo-medicinal, as a step in the work that allows for a better research of the improvements, the worsens and the stability in a homeopathic treatment. 

The Hahnemannian version of “creative leisure” – as in the famous letter to the workaholic tailor “[23] – is one of the most auspicious and denotes the recognition that there is, after all, a scale of values, criteria and priorities. Work, it is clear, cannot be harmful. It should not be counted as a sacrifice to health. Faced with the epidemic front classified under the CID of RSI “injury by repetitive efforts”, once again our author foresees the worrying fate of organisms reduced to “bodies that produce”. To the perplexity of neo-pragmatism, Hahnemann’s complex axiological system never separates the construction of homeopathic science from its ethical commitments. Of these, a certain teleologism of the human statute that identifies the vital phenomenon with the inclusion of certain perspectives of refinement: cultural, affective, spiritual cannot be underestimated.  

Whether we like it or not, Hahnemann has no quibbles about spirituality, which he sees with a practical focus, that is, it is not in the sphere of alienation or in the turmoil of a contemplative asceticism. Nor is it a dogmatic metaphysics and still less the contemporary neo-esotericism freely associated with homeopathic doctrine. According to him, man has an internal system that allows him to detect the transcendent nature of his spirit, as well as his ability to recognize Gd. Even this certainty did not make him hostage to the Salvationist theses.

There is a sophisticated mix in our author: on the one hand, it adheres to a kind of personal synthesis of naturalist philosophy[24] which tends to a vitalism of a spiritualistic nature (Luz, 1988) with the perception that it must always be united to “being here”. On the other, it assumes scientific positivism as an incorruptible duty to the medical object. Perhaps, for this very reason, on purpose, he never intended to assemble a set of medical knowledge under a metaphysical safeguard of a mystical or religious nature. It is an insurrection against this prerogative. Waiving any form of sectarianism to put your hypotheses under question.

After recognizing the transcendent nature of man, the founder pleads for the scientific and conceptual clarity of homeopathy as a logical, pragmatic, scientific choice. First, the methodological choice. Then he admits a metaphysical-based ontology – warning that “all are kings” there – that he must undergo the tests of empirical evidence.

In other words, it admits an empirical metaphysics. Its accurate scale no longer weighs just sculápio. It weighs values, supports the search for a broader medical approach, emphasizes hygiene, the role of the environment, the need and finding references in existence. Hence his option – this is particularly interesting in his epistolary – for an existential religious spirit not linked or subordinate to schools or hermetic doctrines. Hahnemann prefers to subordinate this acquisition to the subject’s achievements, case by case. He deduces that there is a kind of tribute to the singular of each subject, as there is an unmistakable merit in personal discoveries: they are non-transferable and configure subjectivity.

If in this way each subject can obtain pedagogical, philosophical and homeopathic help, so much the better, since the high ends do not know the dimensions and the quality of existence cannot be measured, except by very peculiar measures: exactly from references of the very nature treated / cared for.

Hahnemann understood that it was exactly this nature that would allow man to refer any health project to a reconsideration of the importance of the status of mental status in therapy. The mood starts to be considered[25] not only as a semiological-therapeutic reference but, and mainly, as a kind of “marker” for the improvement of the subject’s general state. However, in order to refer this improvement to more sophisticated projects, Hahnemann recommends, in addition to the dynamized drug, a continuous personal effort that can be enhanced or not by a pedagogical-philosophical action through what he called “auxiliary mental regime”.

The posterity of the inheritance: in addition to the contradictory and simibilus principles, which is appropriate.

When we see the immense responsibility that homeopathy has as perhaps the last medical rationality that is truly divergent from hegemonic thinking, we are apprehensive and concerned about its future. The internal disagreements of the movement , the difficulty of the various schools in assuming their identity and the radicalizations about each of the Hahnemanian phases started to hinder the development as well as the goals of the homeopathic movement.

Many critics of homeopathy substantiate their criticisms of the lack of scientific curiosity of homeopaths who did not update the method in the light of a review of medical theories after Hahnemann. Despite the exaggeration and ideological bias embedded in it, there is a basis for these criticisms. We need to recognize the exaggerations, the flaws and the important elisions in his work. After all, it is not a revealed text. We have to admit that a certain programmed ingenuity permeates the homeopathic environment that expects nothing less than the perfection of a scientific construction. But here we also see the opposite bias: adapting uncritically to current research norms and standards can mean the rise of a pragmatic version of similarity and the ruin of a resistance that fought to preserve a set of knowledge and medical procedures that characterize a particular iatrophilosophy.

Hahnemann’s merits were many: preparing an immense terrain still unfinished, not only leaving faithful followers but contaminating critical passers-by , not having defined rigid strategies and living immersed in a fruitful resistance whose deep traces reach all the medicine of our time, marks epistemological issues that are making themselves felt even in other disciplines. However, it is no longer enough that we repeat the content architected by the Hahnemannian code to exhaustion. This has already served us, now it brings a scientific suspicion. The accusation of cult of personality is rekindled. It exposes us to the fragility of sameness. Stoic restatements embarrass us in the fragile era of immobility as warned us in different ways and in different historian-author versions like Dudgeon, Bradford, Haehl and Marcy and Fortier-Bernorville. The repetitions, the mere reaffirmation of our resistance, do not deserve to be taken by a positive heuristic .

Homeopathy does not have any special attribute that credits it as a different knowledge from the others. There are no innate or acquired invulnerabilities, there is no guarantee for anything. It is part of the game to submit to the refutations, to face the internal contradictions and to bow to the criteria of knowledge criticism required to be able to continue to be validated and thus remain as a practice. Homeopathic ideas need to circulate in order to be preserved. Their logic was challenged and put under question. We restrict ourselves to cheering only for increasingly clear evidence and for the expansion of the investigation.

Paradoxically to his strong doctrinal sense, Hahnemann positions himself as one of the first revisionists of homeopathy. Let us remember that his conversion from iatroquímica to a cosmic-synthetic vitalism, where he incorporates similarity as a method, was a direct consequence of a spirit willing to be affected by research. Only afterwards, seeing the insufficiency (or “excessive” sufficiency ) of the analogue as therapeutic reasoning, does it incorporate infinitezimalization as in order to obtain modified, subtle, but convenient responses.

And, in the end, when he did not need to risk his prestige, he resolved to bear the turbulent consequences by enunciating a sketch of medical anthropology, seeking a hidden malaise, a meta-meaning underlying the empirical-phenomenological of the symptoms. It is the phase that enunciates the psoric theory. In other words, there is everything in Hahneman’s reasoning, including contempt for a straight and cumulative coherence that exhaustively demands adherents and enemies.

Stick to the medical object to meet the demand for a more efficient clinic, namely, with the specific purpose of curing or controlling defined pathologies is an ancient problem of medicine. Here, too, our inventor imposes changes. In his ethics, the radical commitment to the other does not mean only being attentive to changes of a pathological character as the primacy of medical care. The originality here was to have pretended to be defined by an ethical-synthetic humanism, whose main attributes must be the solidarity and understanding of the suffering subject. Sufferings manifest through imaginary or real idiosyncrasies that the sick subject tells the doctor, seeking relief and support. Homeopathic help does not come (or could not come) only against the morphology of sick bodies, it will always come as an answer to the incomprehensible sensations, metaphors and allusions that invade and plague the subject.

Hahnemann finally builds a methodology in which it will always be necessary to ask “what ails you?” and “what do you suffer from?” to find out, in the end “who is it”? This dissolves, once and for all, the contemporary illusion of a future in which machines that detect vital qualities would replace medical action using electrodes that trigger the simile. At least for the Hahnemannian subject, the original perspective remains: the essence of the clinical spirit is the procedure of one man in front of another.

It is necessary to show that homeo patia conveys a therapeutic possibility of order and dimensions completely foreign to those of the fields of action defined by the causalist model of biomedicine as the only ones specific to the medical act. This distinction brings us directly to the scope that we see in homeopathy as an original proposal that must finally be taken as a way of making medicine. Homeopathy then needs to be identified as an iatrophilosophy. A subject medicine, an interactive medicine beyond the specifics of diseases. We build a healing art that is much broader than the application of similarity. Its fundamental distinction, which even highlights it from other medical rationalities, lodges itself elsewhere: it is in its “what to do”, when it understands man in his aspiration to be understood by the totality of manifestations.

Homeopathy already needed and had its martyrs, already experienced the taste of exile, the ban, banishment. Homeopaths fought (and fought) with doctors from other traditions and between themselves endless disputes , both long and useless. Whether we are going to prolong this strife or finally dedicate ourselves to what matters is an option exclusively under our yoke.

So, let’s talk about the impropriety of the always mistaken question “what would Hahnemann say”? Impossible to know how he would behave. The inferences of his scientific testament show that we should foresee doses of rationality and moderation. We are pleased to note that the influences of romanticism were not, in the end, negligible items in the analyzed influence hall. since, as is known, this movement was extremely important in the subject’s rescue route. Therefore, after these prolonged disputes, we would expect a relaxation of doctrinal inflexibility so that everyone really interested in the renewal of medicine could adhere to the third Hippocratic principle. No prior hegemony. No methodological monopoly. Only intellectual openness as a premise, doubt as a compass. In view of the current immensity of modern medical possibilities, neither the opposite nor the similar as univocal concepts, just what suits each patient.

Finally, what we recognize as genius in Hahnemann is spread throughout the corpus . Notable as an original thinker , revolutionary as an epistemologist of medicine, generous as a doctor. He sealed his contribution to knowledge as an inducer, deductor and inventor. Challenges that will still occupy several generations and that should produce developments that will expand to have access to those more complex traits of the human spirit and its sufferings. However, all these efforts will be recognized as a single duration and as long as we are able to recycle the notion of progress we want. They will remain true and efficient as long as we are able to recap – which necessarily means selecting and maturing – the contents of this great cornerstone of knowledge that we call medicine, and one of its therapeutic arms that we call homeopathy.  

Grades

[1] Cf. Foucault, M. “The four similarities” in “The words and the things” 1966.

[2] “We have never been closer to the discovery of the science of medicine than in the time of Hippocrates. This thoughtful unsophisticated observer sought nature in nature. He saw and described diseases before he precisely, without addition, without coloring, without speculation. ” Hahnemann, Lesser Writtings, 1852.

[3] “In the faculty of pure observation he was not surpassed by any other doctor who came after him. Only an important part of medical art was this favored son of nature deprived: – besides that he was a complete teacher in his art – in the knowledge of the rivers and their application. But he did not simulate such knowledge – he recognized his disability by the fact that he gave almost no medicine (because he knew them very imperfectly) and relied almost entirely on the diet. ” Hahnemann, S Lesser Writti ngs, 1852

[4] We know the aphorism that has guided many generations of medical historians: “the natural history of medicine is a successive sequence of returns to Hippocrates”

[5] This conception of the medical school in Kos was briefly taken up by the dream of merging horizons represented by the legendary school in Salerno with its aegretidines diagnosis . Cf. Homeopathy and Vitalism. 1996

[6] Critically criticizes Stahl’s idea of ​​”animal soul”. He does the same with the supposed influences of paracelcism on his work.

[7] Cf. Coulter, HL Divided legacy. op. cit. Vol II.

[8] Jean Baptista Van Helmont , a systematic physician and Belgian chemist, was the first to distinguish gases from air (he invented the word gas) he and Silvius are the first to recommend, based on the idea of fermentatio fermentation) use of acidifying and alkalizing to improve abnormal digestive performance.

[9] The sparks of Kant’s critical philosophy can be seen here.

[10] According to Entralgo, his therapy was basically restricted to the use of tonics and purgatives. Cf. Entralgo, PL Historia de la Medicina, Modern and Contemporary Medicine. Los Grandes Sistemáticos. 1954. p. 245  

[11] Subsequently explained by Virchow.

[12] As Morgagni pointed out in his “De Sedibus”

[13] Even when attempting to reissue it in the low doses of Van Helmont.

[14] For Koyré, scientific revolutions are due more to the mutation of philosophical ideas than to empirical discoveries. Cf. Koyre, A. Pensar La Ciência. p. 27. 

[15] This is basically the spirit of his first medical subject: Fragmenta, from 1805.

[16] Here is what Hahnemann points out: “Due to the fact that the cinchona cortex has a bitter and astringent taste, therefore the bitter and astringent cortexes of ash, horse chestnut, willow, etc., were considered to have the same action. that the cinchona cortex, – as if the taste could determine the action! Due to the fact that some plants have a bitter taste, especially gentiana centaureum, called fel terrae, for this reason only professionals were convinced that they could not act as substitutes for the bile! Since the arenaria carex root has an external resemblance to the sarsaparilla root, it was deduced that the former must have the same properties as the latter ”Hahnemann, S. Lesser Writtings, 1856

[17] Cf. Rosenbaum. P. Homeopathy: interactive medicine. Imago Editora. Rio de Janeiro, 2000 (Publication of the Master ‘s dissertation in the Department of Preventive Medicine – FMUSP “Homeopathy as Medicine of the subject, historical roots, epistemological frontiers”)  

[18] “Therapists attributed to star anise the same expectant qualities that are possessed by anise seeds, merely because the latter have a similarity in taste and odor to the seed capsules of the former and even some parts of the tree (iliceum anisatum ) that produces these capsules is used in the Philippine Islands as a poison for suicidal purposes. – This is what I call the philosophical and experimental origin of medical matter! ” Hahnemann, S. Lesser Writtings. 1852

[19] More contemporaneously Entralgo came to classify homeopathy as “free medicine” .Cf. Entralgo, PL Historia de La Medicina. Modern and Contemporary Medicine. Madrid, 1954

[20] With the exception of substances classically producing changes in the psyche, such as opiates , alcohol and other medicines of plant origin such as cannabis indica, cannabis sativa and others – in the compilations that he scrutinized. 

[21] For example: in the case of mental illnesses, pathognomonic psychic symptoms must be excluded from the scrutiny since they are expected in a framework, the main characteristic of which is precisely the disturbances of the mental sphere. Ditto for the expected symptoms of any pathology.   

[22] For the Hahnemanian man a substantial compound is inseparable.

[23] This is advice that Hahnemann sends to a patient, a tailor, in which he warns him about the risks of overwork and the need to put other priorities in his life.

[24] Since it criticizes nathurphilosophie

[25] This was one of the important differences between Stahl’s and Barthez’s projects. Cf Homeopathy, Interactive Medicine . op. cit.

https://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/hahnemann-sera-atual-266-anos-depois/

Antissionismo é Antissemitismo 2 – Bilhete da Memória (Blog Estadão)

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Antissionismo é Antissemitismo 2 – Bilhete da Memória

“A tolerância torna-se um crime quando aplicada ao mal”

Thomas Mann (A Montanha Mágica)

A assembleia nacional francesa depois de uma discussão que durou mais de uma década passou uma resolução e decidiu que o antissionismo (o ódio à Israel)  é antissemitismo.

“A Assembleia Nacional… acredita que a definição operacional usada pela International Holocaust Remembrance Alliance permite a designação mais precisa do que é o anti-semitismo contemporâneo ”, lê-se parcialmente o texto da resolução:

“Considera-o um instrumento eficaz de combate ao antissemitismo em sua forma moderna e renovada, na medida em que engloba manifestações de ódio ao Estado de Israel justificadas apenas pela percepção deste como um coletivo judeu.” (Times of Israel, 03, 12, 2019)

E não é difícil compreender porque assim fizeram os franceses, e seria de se esperar que todos os Países civilizados os seguissem como um exemplo de respeito à civilização e de decência intelectual.

Menos de 75 anos do final da Segunda Guerra Mundial, o mundo testemunha uma crescente onda de xenofobia.  O antissemitismo foi o preconceito étnico que mais cresceu nos últimos anos. Record de ataques contra judeus foram registrados no ano de 2019. O número das agressões foi inclusive muito maior do até então considerado ápice da intolerância, pouco antes do início do grande conflito que terminou em 1945. Somente nos EUA foram reportados 2100 incidentes violentos.

Portanto volto a um assunto que já foi tema de um extenso artigo anterior publicado aqui neste mesmo Blog Conto de Notícia. Um dos candidatos a prefeito de uma das maiores cidades do mundo pertence a um partido, o Psol, cuja plataforma – e não apenas seus membros isoladamente — declara explicitamente, contra todas as evidencias disponíveis, que Israel é um Estado que pratica genocídio contra o povo palestino.

Para além do exagero retórico do partido do atual candidato do Psol a prefeitura de São Paulo citamos declaração contida em sua plataforma – “o governo de Bush foi quem mais ostensivamente o praticou, declarando apoio a Israel e a seu massacre, dizendo que o Hamas é terrorista” conforme artigo retirado do próprio site do partido do partido em 2018. A verdade, porém, é que há consenso da comunidade internacional de que após prolongadas investigações contando com experts civis e militares de várias nacionalidades de que não há nenhuma prova de que houve “massacre”e de que o Hamas é uma organização terrorista e como tal foi classificada pelos Estados Unidos, União Europeia e a maioria dos países civilizados.

O site do partido é repleto de exortação ao ódio e notícias falsas, como as publicadas no mesmo veiculo em janeiro de 2019, a verdade é que comparar o holocausto com supostas carnificinas cometidas pelas forças de defesa de Israel com os massacres promovidos pelo exército nazista, está para bem além de ser patética. O nacional socialismo alemão e seus sócios responsáveis pela política sistemática de extermínio dentro e fora dos campos de concentração assassinou 6 milhões de judeus.

Já o partido em questão adota palavras de ordem ameaçadoras, votos de ódio e hostilidade sem contexto ou equivalência moral, e uma provocação particularmente mentirosa:

Em outro trecho do “artigo”(sic) a verdade é mais uma vez torturada com slogans como classificar o regime israelense de “neonazista” (sic). Neste caso é a realidade que protesta já que ao contrário do que afirmam os militantes escribas do partido, a legitimidade e apoio ao Estado de Israel é crescente inclusive no mundo árabe e o exército de Israel está entre os mais éticos do mundo, conforme arquivos da própria ONU.

“Em Israel, tal como foi na Alemanha do terceiro Reich, se trata de um estado que somente pode sustentar-se sobre a base de um militarismo genocida e racista”. Eis mais uma anedota de um partido que nem tenta ocultar sua beligerância anti- Israel e, portanto, contra todos os judeus que encontraram lá paz e refúgio depois da Shoah. E acharam proteção e acolhimento não só naquele País, mas também em lugares como o Brasil, onde os povos estão acostumados a viver em harmonia e mútua aceitação. Convivência pacífica que parece  incomodar o núcleo duro da agremiação.

Estes são apenas alguns exemplos de desinformação irresponsável, com potencial para incitar crimes de ódio, sempre sob o álibi de apoio ao povo palestino e o argumento maniqueísta da generalização. Sequer se enrubescem quando apoiam o regime teocrático e homofóbico iraniano e embarcam na psicose anti norte americana que ainda assombra  parcela significativa da esquerda. Não é uma cegueira seletiva. Não é ingenuidade. Trata-se no máximo de uma modalidade perversa da síndrome de Hiroo Onoda, soldado do exército imperial japonês, que até 1974 viveu escondido nas selvas das Filipinas sem saber que a guerra havia acabado. No caso deste partido, fica mais do que evidente a manipulação e a desonestidade intelectual com finalidade de propaganda política.

Apesar do candidato ter se esquivado das indagações feitas para ele durante a campanha, cristãos, evangélicos, judeus e toda a opinião pública teriam muito interesse em ouvir da boca do candidato que aspira governar a cidade no qual habitam. O que afinal ele realmente pensa sobre tudo isso? E não foi por falta de perguntas ou oportunidade para oferecer suas respostas. Parece, entretanto, que o sujeito optou por um silêncio tácito quando se trata de manifestar seu viés anti-Israel. Vale dizer, só deverá se pronunciar — o que seu partido já faz aos quatro ventos — apenas quando as urnas eletrônicas estiverem lacradas.

A plataforma de acusações do Psol contra o Estado hebreu é muito mais extensa e inclui queimar a bandeira de Israel e dos EUA (Manifestação no Rio de Janeiro, 2012), ameaça de expulsão de membros do próprio partido que não seguissem a cartilha anti-Israel, acusar Shimon Peres de “genocida”, além da sequência de acusações infundadas como vimos acima. Tudo isso divulgado de forma incólume, sem que os checadores de fatos tenham verificado os fatos, como aliás acontece sempre que os fatos não desmentem a ideologia que os checadores defendem.

Recentemente, um pequeno grupo de pessoas que dizia representar a comunidade, judaica elaborou um vídeo declarando apoio ao candidato deste partido. O problema é que o fizeram de forma furtiva, dando a entender que falavam em nome de todos. Surgiram polêmicas e respostas circularam nas mídias sociais. Mas este é apenas um efeito colateral de algo muito maior: o poder desagregador da retórica do ódio camuflado de libelo político.

Felizmente, os judeus são, constitutivamente, um povo plural, no qual cabem várias correntes de pensamento, preferências e até mesmo múltiplas ideologias. Foi a memória acumulativa das perseguições, e a densidade quase genética que se revela não só no psiquismo, mas no próprio corpo, que tem orientado o sentido desta experiência de sobrevivência. Como a experiência é uma sensação individual as sensações — de perseverança e afirmação da identidade — acabam se manifestando de uma forma muito particular em cada espírito. E portanto, como Freud observou em relação aos judeus: uma resistência admirável associada à capacidade peculiar de sobreviver às intempéries.

Mas mesmo em meio a tanta diversidade, tem havido pelo menos um consenso agregador entre os adeptos da tradição mosaica: não há, nunca houve, tolerância com a intolerância.

Nem com os intolerantes.

Essa percepção não veio somente através da leitura, da cultura e nem mesmo pela educação parental, emergiu da vivência e amadureceu através desta experiência de seis milênios, já que um povo tão antigo tem a obrigação moral de se conservar como arquivo vivo. E assim, usar suas memórias como bilhetes auto endereçados ao futuro. Estes devem ser lidos em momentos mais agudos a fim de evitar tragédias e enfrentar com coragem as vicissitudes da história.

O psol, seu candidato e colaboradores merecem algum agradecimento, já que provaram à revelia, mas com todas as cores, a tese de que antissionismo — ou ódio a Israel — é, de fato, uma manifestação vicariante do ódio antissemita.

E ai, recorro ao bilhete da memória onde está escrito com tinta rutilante:  “não deixaremos acontecer, nunca mais”.

Anti- Zionism is Anti-Semitism 2 English Version – Memory Ticket

Under the threat of having an overtly anti-Semitic mayor in the city of São Paulo, Brazil, with the support of the mass media, I thought it important to publish this article in English as a denunciation of what is happening in the country.

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In a lecture recently held at the Bait Jewish Center, the poet, essayist and writer Nelson Ascher focused on a theme that is often banned or superficially addressed: is anti- Zionism anti-Semitism? The blog News Tale gave an overview of his remarks and added reflections that also involved the problem of reliability of the news and the fake news , the political turmoil in Europe, the role of mass immigration and Islamo -fascismo, who is not left is right or maybe just “non-left”?

Ascher started by using an absolutely synthetic statement to answer his own question

“Why does anti-Semitism exist and endure?”

“Because it always worked”

How does it work and what is the past and contemporary meaning of its effectiveness?

In stating that Zionism was a kind of “second-degree nationalism ” and that there are other “Zionisms” being gestated in Europe due to a lack of identification between the social democracy practiced by the European parliament and the countries it governs. It follows that “second-degree nationalism” can be understood as a reactivity of peoples to attempts to interfere with their customs beyond territorial and financial unity. In this sense, is Europe soon to be threatened by several movements similar to Brexit ?  

In 2018 we had a disturbing record for the number of anti-Semitic attacks in Germany, France and more recently in the United States. If there is no European unlink the current status quo of the refugee crisis that allowed the entry of nearly 2 million people (countries of immigrants from North Africa – the vast majority, frise- are not refugees) coming from intolerant cultures violently anti-Semitic. The problem therefore is more in immigration policy, which seems to have no clear criteria than immigrants themselves. 

The debate has been banned by the systematic evocation of terms prohibited by a censoring euphemism better known as “politically correct”. Any mention of the wild immigration flow has been labeled ” Islamophobic “. It is also self-evident because the expression ” Judeophobia ” is not given the same treatment . The insistence of a large part of the media to condemn Israel a prioristically, in the headlines and in the declarations, attests to this. In the recent crises with the Gaza Strip ruled by the terrorist organization Hamas – and its Iranian proxies – the headlines show the nonsense and prejudiced bias of a significant part of the news media. “Israel attacks Gaza” is the most common call, this after Israel received almost 500 rockets against civilian populations in less than 48 hours. Importantly, as has been emphasized more than once that such terrorist organizations have nothing to do with the the official government of the Palestinians and its president. They are illegal fronts, which actually oppress and hold the people of Gaza hostage. 

According to Ascher, there is a particularity in the case of European anti-Semitism, which often uses the justificationism of the anti-Zionist alibi. It is essential to analyze the role – direct or indirect – played by Angela Merkel and other leaders on that continent. 

Still according to his analysis, some of these self-titled governments of social democracies, regularly pay tribute to Jews killed in the Shoah (Holocaust) and in fact publicly condemn anti-Semitism, which has been outlawed. However, while giving funeral speeches under self-lashes, they neglect the dramatic and explicit aggressive climate against Jewish communities. While other countries seem to do the reverse. In the case of Hungary – a country that you follow the policy with particular attention – we have an example of this apparent paradox: there we have a government classified as extreme right (sic), but it is, at the same time, one of the places where contemporary Jews they seem to be safer when compared to the situation in other European countries. The paradox is only apparent: while a significant part of the left-wing parties chooses to cluster around old anti – Jewish conspiracy theories – formerly the monopoly of the extreme right – there is now a new and incendiary component to be accounted for: as defined by Umberto Eco , it is the Islamo -fascismo.

How can it be explained then that nations that even make the mea culpa frequent for their responsibilities in the genocide practiced by the Nazis with the participation of several other countries, but remain inert in the face of the epidemic of anti-Jewish intolerance that today sweeps Europe, if not with impunity, counting with the omissiveness of governments.

Ascher then recommends the following inflection: what is the “Democratic Rule of Law”. The former president Mubarak for example was directly undermined by Obama’s foreign policy and sequence the Muslim Brotherhood won the elections in Egypt. As we know, the “Brotherhood” is one of the oldest radical Islamic associations. A strategic ally of the Nazi party is today an admittedly jihadist entity . He won by a large margin defeating all moderate parties in what would be one of the first elections in the Arab country in decades. Shortly afterwards, the population itself understood the error and took to the streets – in an event that was wrongly classified as “Arab Spring” – asking for the deposition of the newly elected, which effectively ended up through a military coup led by General Sissi. 

At the time, several analysts attributed the phenomenon of the election of Morsi – recently killed by a heart attack – to an error in the timing of the democratic process: IM was the only organization to keep its structure intact during the subsequent dictatorships that lasted and, therefore, the only one able to compete in the election as an almost exclusive option in that suffrage of a plebiscitary character. Considering the episode, what is the Democratic Rule of Law anyway?

If only an understanding of the historical-political context can define it, what is its consistency?

Right and left have their wild vices and classifications. In turn, those who do not fit the postulates of the left are liable to be labeled right or extreme right. Only “not left” or “not right” is not allowed. Many members of the North American Democratic Party and the English Labor Party – centered on the figure of Corbyn – have instrumented the discourse of the struggle for Palestinian rights by sacrificing historical principles by openly defending anti-Zionist and anti-Semitic stances. This includes standing in defense of the aitolás theocratic regime and defending jihadist organizations – officially recognized by the European Parliament as terrorist entities – such as Hamas and Hezbollah. These are complaints that come from within the English labor party itself.

What would be the ideological and tactical significance of this political tour?

It is disturbing to know that many journalists have started to act in a militant manner. Selecting news according to more ideological standards than reporting facts. It seems obvious that the hermeneutic bias has taken on a much more powerful form than the facts. Even if neutrality is an idealized function, wouldn’t the original role of journalism be closer to encouraging the reader to make his own decisions than to doctrine it ? Not nowadays, when the fake news that comes from official sources are much more compromising – because they are supposedly unsuspected or less suspicious – than those advertised on social networks – always subject to double checking by the most careful users.

After the episode of the accusations of the defeated candidate for the presidency of the Republic, Ciro Gomes, who externalized his prejudice when he evoked “corrupts of the Jewish community”, the most recent Brazilian case of a statement accusing the Jews fell to the magazine “Isto É”. The broadsheet published unfortunate article explicitly anti-Semitic – with the pretext to accuse the current government communications secretary – using the motto compares it to the propaganda chief, Josef Goebbels’s infamous, marquetólogo the fuhrer . The magazine also used the accusatory term to fabulate and identify the enemy, again, “the Jewish community”. The title of the libelo would dispense with further explanations “O Goebbels do Planalto”.

In this sense, the attempt to sabotage the right of any subject of a certain ethnic group to work or act politically for a government that the columnist and the editorial direction of the pamphlet considers inappropriate is evident. In the absence of consistent arguments, the accusation will always fall on the ethnic condition that is most at hand. It sounds more often against Jews.

It is at this moment that we are very close to the impeachment of citizenship. And the suspension of the idea of ​​the secular state by those who should defend it . And so it was possible once again to evoke the myth, this one clearly neo-Nazi, that there would be a “Jewish plot”. Now, there are Jews of all political currents and nuances and the ethnic- religious condition could never be used as an alibi to generalize anything. Unless it is clear that the journalist or writer is already in the fragile intellectual condition of post-analysis . That is, what matters in any story is your personal beliefs and the starting point is already the ending point. Groundless generalizations such as those that routinely appear always start from an ideological, devotional, that is to say, fanatic bias. 

Is there not one of the roots of the discredit today attributed to regulated media in general? The manufacture of disinformation – increasingly identified by the speed and expansion of access to the diversity of information media – is not the very genealogy of false news? News that is now spreading with the magic of the web with frightening resourcefulness? Does this occur while it is possible to observe paradoxically a considerable advance of confidence in what is transmitted through social networks?

After all, what are ” fake news “? And what is its impact on the national and international political scene? Especially in the case of Israel that suffers a considerable number of attacks with financed media and paid blogs to spread, for example, hate speech and intolerance.

In this sense, it can be said that modern anti-Semitism has dressed up as an occasion for anti – Zionism . However , it is an improvised outfit. Under the demountable cloak that deserves to be demystified by serious journalism, there is selective respect for freedom of expression.

Just over 74 years after the end of World War II and the death of more than 60 million people, including 6 million and 250 thousand Jews (these dead after the end of the war when they tried to return to their European homes), the reality only reaffirms the vital importance of the existence of the State of Israel for the Jewish people and their security in the current historical moment. And despite the threats and the revival of the virulent wave of intolerance against the Hebrews, there has never been a time in human history when so few Jews died in massacres. The anti-Zionism then finally is revealed as just another veiled face of one of the most primitive archetypes and recurrent humanity.

Perhaps the great frustration of preachers of hate is that this time the scapegoat has a way of defending itself.

https://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/antissionismo-e-antissemitismo-1/

Diário do apartamento 6 – O risco da esperança (Blog Estadão)

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Ilustração – Nilda Raw – O.s.t 2018 “Tree of life”

O asteroide de 15 kilometros de diâmetro que há 66 milhões de anos atingiu a península de Yucatan no México extinguiu os dinossauros e quase toda a vida na superfície do Planeta. Segundo muitos, estamos aos 0,6 do início da segunda maior ameaça a vida, desta vez é a humanidade que será apagada. Até os não negacionistas sabem, que voltar ao trabalho não é uma escolha. É pedir muito voltar a aceitar uma condição que se remonta ao Gênesis e nos impôs que o sustento deveria ser obtido através do esforço? Ontem foi inevitável voltar a ter uma rotina fora de casa. Busquei disfarçar e tive que conter a satisfação enquanto caminhava até o escritório. Estava chegando no prédio quando fui interpelado por uma moça toda encapotada: — E essa cara feliz? Pego de surpresa, teria uma estranha capturado alguma euforia ignorada? –Pois é, estou retomando a rotina, primeiro dia. E até consegui esboçar um sorriso amistoso. –Ah, voltando a trabalhar? Ela aplicou um leve tom de censura à pergunta. — Uma hora teria que acontecer, minimizei. — Olha. Não sei não! E ela franziu as sobrancelhas. — O que é que você não sabe? E depois de ter me ensopado de álcool gelatinoso, já com o antebraço enfiado na porta de entrada, reflui dando um passo atrás. — Sei lá, o Sr. não é mais nenhum jovem, é grupo de risco, não acha que é muita ousadia? — Amiga, é aceitar o jogo e ir em frente, nos proteger, e, como dizem os ingleses, “espere pelo melhor”. E virei para seguir minha jornada. Ela não desistiu. — Está brincando? Neste caos no qual estamos metidos? É sério que você acha que vale a pena se arriscar? Eu se fosse você… Pois é. Ela não era eu, portanto não respondi e determinado, entrei no prédio para subir e começar a atender as pessoas que já estavam a minha espera. Pensei na facilidade com que a interpeladora me abordou para fazer observações não solicitadas. E cheguei a conclusão de que faz parte de uma mentalidade que tem virado epidêmica, todos devem estar disponíveis todo o tempo, todos são devassáveis, todos podem ser julgados e interpretados. Sabe-se que a palavra otimismo vem assumindo uma conotação pejorativa. O termo tem variado muito de significado, entre “ingênuo” e “cândido” e evoluiu rapidamente à “trouxa” e “imbecil”, podendo sempre descer mais, quando palavras menos nobres serão utilizadas. Chegamos a pensar seriamente que compreendíamos para onde caminhávamos. Mas, por pura incompetência, cessaram as fantasias de que seríamos reféns da tecnologia. E olhem que não esbarramos nos limites das órbitas distantes, na temível singularidade dos buracos negros, nem nas dimensões de estrelas que pelo tamanho escapam de toda estimativa matemática: a história registrará que entramos num estado de animação suspensa diante de um animalículo. O vírus (do latim,veneno) não se contentou em ser só mais um fenômeno da natureza. Transformou-se numa escatologia programada. Mas, antes, deu descomunal poder a quem nunca soube usa-lo da única forma que tornaria uma democracia realmente sustentável: benevolência e genuíno interesse pelos governados. Como disse em março o ex-juiz da Suprema Corte do Reino Unido, Sir Lord Jonathan Sumption, referindo-se a um evento que reprimiu pessoas que desafiaram o lockdown: “Eis a aparência de um Estado Policial”. No mundo todo o fato é que para mostrar serviço quando os governos não sabiam qual serviço mostrar, o poder e seus agentes impuseram, tergiversaram, emitiram versões paradoxais, criaram regras marciais, prenderam críticos e soltaram criminosos, aturdiram, espalharam desconhecimento, desorganizaram os incautos, mudaram leis, transformaram a medicina em armamento ideológico, e, finalmente, respaldados por extrapolações epidemiológicas a toque de caixa estão na iminência de prescrever soluções mágicas, apelidadas de experimentais. E o principal: deixaram quem mais precisava relegados a um lockdown espiritual intermitente. Aqueles que vem acusando o poder de promover bullyings de Estado contra os cidadãos podem ser etiquecados como desejarem , mas, sem dúvida é deles a coragem que falta às instituições. Acham exagero denunciar o drama? Tanto quanto transformar uma moléstia em mito e espalhar o pavor. No lugar da mínima responsabilidade testemunhamos o autoritarismo sendo aperfeiçoado usando o slogan do risco. Isto tudo sob a licenciosidade das mídias que, se livres, escolheram ser sócias voluntárias dos governantes contra os governados e a opinião pública. Ouviu-se mais de um ancora de TV cochichar nos bastidores a mesmíssima frase “tem mais é que apavorar mesmo”. Sob a indecência das mordaças psicológicas, com a previsível corrosão da linguagem, não foi difícil imaginar por que é que todos fomos calados, sem que nenhuma boca se insurgisse. De fato, insurreições foram registradas, sempre por causas parasitas, periféricas, sublevações secundárias, motins autoritários, fúteis e até engraçados diante da superficialidade das reivindicações. Então surgiram os “anti”, aqueles que só se importam com a vida de alguns — e ocasionalmente defendem suprimir as demais se for para melhor testar suas teses. E, finalmente, emergiram aqueles que usaram as múltiplas fantasias conspiratórias para desconstruir as verdadeiras ameaças. Não sou otimista nem pessimista. É que as vezes sou tomado por uma estranha credulidade: cultuo a alegria imotivada. Soa imperdoável? Para desespero de muitos hoje a pandemia — assim como seus instrumentadores — está saindo de foco. A pressão evolutiva sobre o vírus está resultando em menos mortes, ele ainda se espalha, mas a gravidade da doença se arrefece e não só porque hoje já há alguns tratamentos eficientes. Recorro ao sempre presente Professor Titular de Patologia Walter E. Maffei: “o vírus não quer matar o paciente”, precisa se propagar. Mas há uma analogia pedagógica merece ser mencionada: o veneno, assim como parte significativa dos políticos, também aprendeu a fórmula para permanecer entre nós: vão continuar nos dando dor de cabeça sem nos aniquilar completamente. E como num zoom out, as piores cenas, ainda bem, vão ficando cada vez mais distantes. Sob as usinas de lives, as telas com poluição visual de rostos justapostos vinham criando uma estética mortificadora. O único sinal externo de que a anormalidade insiste em tornar-se normativa são as máscaras e as fantasias por trás de cada uma delas. Afinal, quem ordenou tudo isso? E quem foi que nos acusou de não estamos gratos por continuar vivos? Podemos estar solidários com quem sofreu e ao mesmo tempo declarar emancipação das políticas governamentais. Nossa sobrevivência não pode ser mais creditada ao Estado provedor, aos populistas confessos ou aos saqueadores da subjetividade à espreita da próxima crise. A desumanização começa com a uniformização e termina com a arte e cultura reféns da ideologia. Quando superarmos esta fase será graças aos esforços individuais, ao sacrifício silencioso das maiorias torturadas pela tirania de ofício. Infelizmente nem mesmo o rodízio no poder, a última salvaguarda para a democracia, parece ter deixado claro o que precisamos. O que os bem pensantes nunca imaginariam — e detestam a sensação, pois é um território que não conseguem entender — é que eles perderam a hegemonia. Se há um risco que vale a pena correr — em oposição ao determinismo dos cultores do apocalipse — é precisamente o risco da esperança. — É que na tradição judaica — eu deveria ter tentado explicar à moça encapotada — a árvore que nos habita abriga mais de um tipo de papiro, com fibras que misturam prudência com ousadia. Propositalmente artesanal, o papel é temperado para que a tinta do Único sele, carimbe e nos inscreva no livro da vida.  

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O SUS e as fronteiras epistemológicas (Blog Estadão)

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O Sus e as Fronteiras epistemológicas

“Avistar uma fronteira, é, já, ultrapassa-la”

Gaston Bachelard

Paulo Rosenbaum, PhD. Doutor em Ciências (USP) Mestre e Pós doutor em Medicina Preventiva pela FMUSP

Em resposta ao artigo “O SUS contra a ciência” dia 17/07/18 publicado na seção “Espaço aberto” de autoria de Natalia Pasternak Taschner e Alicia Kowaltowski.

O artigo de hoje das duas autoras acima trata de um tema importante, mas é de tal forma reducionista e desinformador que pode ser ele mesmo considerado como duvidoso em termos de acurácia científica. A contradição começa com o título escolhido: “O Sus contra a ciência”. Ele evoca o que há de pior em termos de maniqueísmo científico e epistemológico e trata uma questão cara à saúde pública com desleixo e uma perturbadora despreocupação com a ética. O grande mérito do artigo poderia ser trazer para a discussão os graves problemas de saúde pública, mas adotou uma abordagem confrontadora, e infelizmente o mérito potencial do nobre espaço acabou desperdiçado como um grande equivoco. Superando os problemas deste libelo anacrônico, teço, a seguir alguns comentários baseados em um dos trabalhos que desenvolvi no trabalho academico na FMUSP.

A história da medicina tem sido contada apenas parcialmente, sempre privilegiando as concepções e práticas hegemonicamente sancionadas na atualidade. Existe mais de uma outra forma racional de responder aos desafios colocados à medicina em sua trajetória histórica. O resgate da tradição empírico-vitalista, da qual a homeopatia é a principal herdeira, redimensiona essa trajetória. Esta outra versão da história nos fala do fato homeopático e das suas possibilidades para viabilizar projetos de intervenção não restritos à funcionalidade mecânica do organismo.

Se isto vem ocorrendo na práxis da biomedicina, deve-se à consciência instintiva de seus protagonistas, uma vez que a formação acadêmica não capacita os médicos para esta modalidade de intervenção. Compreende-se, então, que seus protagonistas experimentem enormes dificuldades em readaptar essa visão não mecânica a seus curricula práticos, uma vez que a pedagogia dispensada ao médico ainda centra-se substancialmente nesta única dimensão. Ou seja, há, sim, um despertar para outras dimensões do adoecer, a percepção de que este não está circunscrito ao problema biológico. No entanto, este outro modo método de enxergar e avaliar a doença e seu tratamento ainda encontra poucas condições de viabilizar-se pela carência de agentes no campo operacional.

As medicinas tradicionais entre os quais encontram-se a homeopatia, a medicina oriental, a auryveda,já foram demasiadamente castigadas e perseguidas por ideologias médicas e sistemas racionais onipotentes, cujas repercussões fizeram-se sentir na maturação de seus programas. Não se trata, porém, de uma condição especial da homeopatia e da medicina oriental. Este é um problema inerente à competição, anteriormente referida, entre programas científicos. Numa época em que a pluralidade metodológica parece arrefecer a competição entre paradigmas, algo inusitado pode estar ocorrendo: as práticas integrativas correm o risco de tornarem-se algozes de si mesmas, caso não saibam trabalhar com suas próprias contradições e reorganizar a teoria a partir do que dela emana como produto. Fica clara a completa impossibilidade de continuar a esquivar-se de interagir com as outras disciplinas e repartir este legado, herdado dos sucessivos conflitos que as caracterizaram em suas órbitas históricas.

Para tanto não basta que uma epistemologia “emprestada” de outros saberes possa corrigir as insuficiências metodológico-conceituais, mesmo que seja baseada naquilo que emerge da prática ou através das discussões teóricas. Assim, não serão os os químicos, físicos, psicanalistas, historiadores da ciência ou a tradição biomédica aqueles que trarão a luz que falta. Essa luz deverá surgir do próprio incômodo e inquietude salutar que impõe-se aos que sentem a necessidade de produzir suas evidências: os médicos que praticam outras formas de medicina. Nota-se que isto já está acontecendo e ocupando certos nichos do conhecimento, ainda que de forma tímida e pouco produtiva.

Devemos insistir na interlocução, que será difícil, assimétrica, tortuosa. Mas não é mesmo a tensão que instiga e excita o ânimo do pesquisador? Com a mesma obstinação, contudo, deve-se cuidar para que o produto inicial da interlocução venha a partir do interior, neste caso, a partir do conjunto de vivências produzidas pela própria homeopatia.

Segundo Henri Bergson (1936: 15), a “pesquisa científica é um diálogo entre a mente e os fatos”, portanto, uma construção científica é, por excelência, um diálogo referido a uma interlocução entre uma realidade eleita e uma mente disposta a percebê-la.

As práticas integrativas (recomendadas pela OMS e a OPAS como uma forma inteligente de assistência médica na atenção primária) constituem-se como um saber com aplicatio, mas são bem mais do que isto. Por acaso as autoras se deram ao trabalho de pesquisar e informar isso aos leitores deste jornal? Decerto não. O fato é que as medicinas integrativas construiram um método, um acordo intersubjetivo que vigia sua própria execução. Trata-se de uma filosofia médica (uma iatrofilosofia particular) com tradição suficientemente forte para reivindicar que suas formas de conhecer o sujeito, seu adoencimento, cuidado e cura sejam recolocadas como uma das possibilidades de teoria do conhecimento em medicina.

Se o que hoje se discute dentro dos distintos modelos científicos, tais como a teoria da complexidade e a teoria do caos, obtém status epistemológico em biologia, comparáveis mesmo ao que a teoria da relatividade ou a teoria quântica obtiveram na física, existem percepções que compõem o saber integrativo que devem perceber o valor e fecundidade de sua efetiva e positiva colaboração.

A rigor a medicina não é ciência, segundo Canguilhén a medicina já foi classificada epistemologicamente como “ciencia operativa” pois nela repousa uma quantidade incomensurável de processos complexos que não terminam quando se confecciona a prescrição, ainda idealizada como o ato derradeiro da atividade médica. A rigor, a discussão está apenas começando, uma vez que deve-se considerar a imprevisibilidade das comunicações e a imensa variabilidade de resposta dos sujeitos em suas distintas reações e respectivas idiossincrasias. Isto vale especialmente para a medicina em sua dimensão arte, quando a cada nova consulta estas comunicações se processam de um sujeito ao outro.

As medicinas integrativas precisam começar a reaprender com sua própria construção teórica, que deverá emergir de uma prática cuidadosa, que saiba, como bem diz o aforismo hipocrático, considerar que “a arte é longa, a ocasião fugidia e a experiência enganadora, o juízo difícil” (Hipócrates, 1838).

A arte é longa, porquanto tanto os comentaristas ocidentais como Hahnemann, ao invés de facilitar o trabalho e montar um sistema no qual se poderia usar o antigo sistema das nosologias para prescrever, afirmaram o valor do particular sobre o geral. “Criaram”, assim, um desafio hermenêutico nas reduções propostas pelas generalizações a partir das classificações de doenças. O cogito hahnemanniano sugere, então, que deve existir também uma nosologia do particular, do incomum, forçosamente também do impreciso. Cria uma inversão de valores, um contrapensamento, que contém em si mesmo uma das peças-chave do seu método, um problema digno de investigação para qualquer epistemólogo contemporâneo. O fato adquire aqui estatuto de idéia fecunda. Isso hoje se reflete no crescimento de medicina baseada em narrativas, a slowmedecine, a rejeição aos hiperdiagnósticos e uma orientação cada vez mais cuidadosa para o desenvolvimento de uma medicina mais individualizada.

A ocasião é fugidia já que para aprender não basta uma série de experiências mesmo que metodologizadas e organizadas. Escapa, no domínio da subjetividade do paciente, uma série de elementos fundamentais, o que automaticamente transforma em quase quimera a busca de uma inapreensível essência do sujeito. Os pacientes, assim como as substâncias medicinais, “escapam-nos” por entre os dedos, porque não somos suficientemente aparelhados para detectar o que há ali de curável e de curativo, respectivamente. O sujeito que sofre procura ajuda, alívio para seu sofrimento, qualquer ajuda pode lhe dar um suporte positivo. Muitas vezes isto pode resultar em processos transferenciais adequados, medicamentos criteriosamente escolhidos a partir de diagnósticos individuais, mas deve-se admitir que nem sempre eles são suficientes.

Os médicos debruçam-se sobre representações de fragmentos (sintomas) para cuja interpretação buscam analogias em outros (experimentações) para capturar a natureza da afecção de tipos singulares. A unidade no indivíduo é fato, mas o que muitas vezes capturamos são apenas as intermitências (sintomas e queixas) desta unidade. Quando se vê um medicamento bem escolhido agir, enxerga-se ali somente uma maior coerência entre estas intermitências. Podemos passar a perceber uma retomada da ritmicidade do conjunto. E então, na evolução clínica, pode-se observar como, para que e para onde este sujeito em reconstrução está indo. Por isso trata-se de um disparate a defesa da tese de que há uma e somente única forma correta de exercer a medicina.

A experiência é enganadora porque jamais poderemos traduzir completamente uma vivência subjetiva, como é o caso da anamnese e relação médico-pacienite, de acordo com uma assepsia metodológica. Mas de fato, como professa o primeiro aforismo hipocrático, aquilo que se conhecia até experimentar torna-se uma retradução de fragmentos de vivências que obriga o médico a comparar com aqueles que se colhe em cada consulta. E em cada nova consulta de um mesmo paciente, enxerga-se outros fragmentos, com os quais muitas vezes, entre transferências e contratransferências, se misturam médico e paciente.

O juízo é difícil porque é necessário possuir potencial e instrumental éticos suficientemente amadurecidos. Assim, pode ser preciso retroceder diante de um juízo já feito. Devemos, como um magistrado diante de um caso de múltiplas possibilidades, instruir o processo, deixando o mínimo de vestígio de nossas mãos sobre a decisão, mas sabendo que sempre restará uma margem de interpretação, de liberdade no ato de julgar. O juízo é difícil porque nossa capacidade de perceber o “sujeito-tema” resvala nas nossas próprias metáforas.

“Mas é completamente diferente com o tratamento de objetivos, cuja natureza essencial consiste de operações vitais – o tratamento, a saber, da estrutura humana viva para levá-la de uma condição não saudável para uma saudável (que é a terapêutica) e a disciplina da mente humana para desenvolver e exaltá-la (que é a educação). Em ambos os casos, o tema sobre o qual trabalhamos não deve ser considerado e tratado de acordo com as leis físicas e químicas como os metais do metalúrgico, a madeira do lenhador ou o tecido e as cores do tintureiro. É impossível, portanto, que ambos, médico e professor, quando cuidando da mente ou do corpo, devam necessitar de um conhecimento antecipado de seu sujeito-tema, que possa conduzi-lo pela mão até o término do seu trabalho, assim como obter, talvez, um conhecimento das propriedades físicas e químicas dos materiais que ajude e conduza o metalúrgico, o curtidor e outros artesões até a perfeição dos seus. A vocação de ambos demanda outro tipo de conhecimento, assim como seu objeto, um indivíduo vivo, é completamente diferente.”

(Hahnemann, sobre o valor dos sistemas especulativos em medicina, 1984: 491-492).

É verdade que nem todas as praticas integrativas são válidas e que pode haver, entre elas, práticas pseudocientíficas. Algumas, sem o olhar atento de quem deve ter formação médica, podem ser, de fato, lesivas ao paciente. Destarte as medicnas integrativas exercidas com rigor e ética tem nas mãos, em síntese, uma possibilidade concreta de intervir no sujeito, desenvolveu uma semiologia generosa, podendo interferir na maior parte das enfermidades crônicas. É claro que encontram-se algumas lacunas: insuficiência teórica, já que uma reformulação de alguns pressupostos se faz necessária; restrições do arsenal terapêutico frente à diversidade humana e a assunção das atuais limitações e dificuldades para demonstrar a ação de sua eficácia terapêutica.

Na presente ausência de estruturas hospitalares adequadas (ou serviços que ao menos aceitem-na como uma possibilidade), como viabilizar todas as opções possíveis nos casos agudos e nas emergências? Como agir coerentemente e com responsabilidade clínica frente àquelas enfermidades que requerem suporte adicional, como reabilitação, cirurgias eletivas e até mesmo drogas convencionais? Estas todas são questões que, apesar de estarem aparentemente no âmbito da prática, merecem um melhor acolhimento nas futuras discussões epistemológicas.

Outro aspecto importante é o espaço e o tempo ocupados durante uma consulta. Este “tempo” pode ser visto como um obstáculo, quando se dimensiona em que tipo de sociedade vivemos. Ao mesmo tempo, representa um positivo resgate solidário no trato entre pessoas. Trata-se de um tempo absolutamente necessário para que o terapeuta possa reconstruir a história patográfica e biográfica do paciente. Tempo também precioso para que um “outro” possa ser traduzido por si mesmo para o terapeuta. Tempo para praticar a auto-observação, consiga ele se fazer entender ou não por nós, terapeutas, seus interlocutores. Suponhamos que possamos ensinar aos médicos que se deve equiparar a destreza com o cuidado, a perícia com a suavidade, e que tanto a acurácia como a efetividade devem ser pensadas, também, prospectivamente. Por que não ensinar aos médicos que se deve, sim, atender às doenças, mas ouvindo-se simultaneamente as metáforas daqueles que as apresentam que, de maneira uníssona, reclamam cuidados e escuta.

Este pode ser um sensível “termômetro” da potencial capacidade ética e compassiva do ato de cuidar. Também representa uma enorme economia aos contribuintes já que os procedimentos são em sua maioria ambulatoriais, portanto muito menos dispendiosos e o atendimento mais pessoal e artesanal possui enorme potencial para evitar intervenções desncessárias. Além de, quando for o caso, encaminhar e triar melhor os casos que precisam de atenção mais especializada e/ou hospitalar.

Talvez, aparentemente, as medicinas integrativas como medicina do sujeito não sejam a terapêutica mais adequada à lógica das sociedades atuais onde tempo representa apenas dinheiro e poder.

Mas, talvez, isso mesmo é que faça dela uma alternativa assistencial fundamental.

https://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/o-sus-e-as-fronteiras-epistemologicas/

“Navalhas pendentes à luz do paradigma indiciário” Resenha Por Antonio Sérgio Pitombo (Blog Estadão)

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“Navalhas pendentes à luz do paradigma indiciário”

Resenha por Antonio Sergio Altieri de Moraes Pitombo*

Houve o tempo em que o romance policial era visto como literatura marginal. Apesar da origem francesa no ocidente, Sir Arthur Conan Doyle (1859-1930) foi o mestre a influenciar o gênero ao criar Sherlock Holmes e seu assistente Watson, em 1887, na obra A Study in Scarlet.

A razão aguçada de Holmes advém da admiração de Conan Doyle por Joseph Bell, seu tutor na Universidade de Edimburgo, hábil em fazer diagnoses a contar de evidencias mínimas.   

 Paulo Rosenbaum, médico e connoisseur de obras raras, arriscou-se nesse tipo de literatura em Navalhas Pendentes. Escreve em detalhes, nas primeiras páginas, o cenário de fato violento, por meio de diversas descrições de lugares onde o sangue se espalhou. Usa dos conhecimentos da medicina para convidar o leitor a entender sobre as manchas sanguíneas como um perito legista o faria. Trabalha com a noção dos indícios – conceito fundamental para o processo criminal contemporâneo.  

Logo aí, ele nos prende à leitura, a contar da convicção de que vamos compreender a ocorrência, não obstante as incertezas subjetivas de personagem, pessoa perdida frente à cena do pretenso crime.

Essa largada lembra a perspectiva de Robert Louis Stevenson (1850-1894) em The strangle case of Dr. Jeckyll and Mr. Hyde, mas o texto se desenvolve a trazer surpresas longes dos clichês, num entrelaçamento de fatos que nos capturam página a página.

A figura erudita do autor emerge no decorrer do texto, na medida em que referências o inserem na cultura judaica. Traz, aqui e ali, manifestações que nos levam a pensar na importância da literatura judaica, bem assim na força literária da Bíblia – aquele livro que Heine denominava de a “pátria portátil”.

Gosto da sabedoria do povo judeu transmitida pelo escritor, pois as contingências desse povo fizeram-na ter um colorido especial.  Nesta acepção de Salomon Resnick, se não há regionalismo homogêneo, existe uma forma de ver a vida diferenciada que decorre das vicissitudes que eles guardam em virtude da própria história.

Apaixonado por livros, Paulo Rosenbaum também perquire sobre ética e perspectivas do mercado literário, elucubrando sobre os métodos de se criarem best-sellers. Serão os bancos de dados, as redes sociais e as pesquisas de marketing que irão ditar o comportamento das personagens e os finais dos romances? E os plágios serão maquiados por combinações matemáticas que dificultem reconhecer as imitações de muitos textos?

Numa divisão agradável de capítulos, acaba-se por devorar Navalhas Pendentes sem esforço. Obviamente, o eu-leitor me fez pensar como advogado e, portanto, pus a me questionar, ponto a ponto, sobre o que, como e quais razões me levariam a defender aqueles que interagem na trama.

Evito ler romances policiais e ver filmes do gênero, graças ao cachimbo da profissão. Todavia, as primeiras páginas da obra me seduziram, ao refletir, mais uma vez, sobre a imputabilidade do agente na perpetração de crimes. Os mistérios do anímico continuam a me fascinar.

Os debates da ciência criminal sobre cognição e vontade no iter da consumação dos delitos, bem assim a relevância de se perquirir sobre o estado psíquico do autor do crime interessam tanto aos juristas como à literatura de Doyle, Stevenson e Rosenbaum. Porém, importam muito ao advogado – como eu – que observa a insensibilidade da Justiça Penal ao enfrentar o incompreensível de determinadas infrações criminais, em principal, as violentas.

Até onde realidade e ficção se apropriam uma da outra, não sei responder. Navalhas Pendentes me desafiaram a repensar sobre o quanto precisamos enxergar o indivíduo, por meio das tecnologias contemporâneas, sem desprezar a experiência do passado, ao investigarmos o ânimo de quem pratica o ato ilícito.

Podem se aceitar presunções quanto ao plano subjetivo daquele que se envolve num crime?  A resposta poderia se encontrar na criticada Escola Positiva de Lombroso, Garofalo e Ferri (séc. XIX), ou num sofisticado laboratório de universidade em Massachusetts.

Cultura do passado e da atualidade precisam nos auxiliar a ler tão belos romances e a evitar injustiças, assim como recorrentes preconceitos do sistema penal.    

* Advogado. Mestre e Doutor na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. Pós-doutor no Ius Gentium Conimbrigae (Universidade de Coimbra).

Liberdade para quê: nunca houve censura virtuosa. (Blog Estadão)

Nao lutar contra a censura é lutar por mordaças. Censura nunca mais.

Paulo Rosenbaum

Liberdade para quê: nunca houve censura virtuosa.

Paulo Rosenbaum – médico e escritor

Reluto em republicar artigos e crônicas, mas existem determinadas fases que coincidem de tal forma crise e dimensão dos problemas que torna-se impossível deixar de se referir às reflexões pregressas.

A palavra censor tem várias acepções analógicas: crítico, detrator, repreensor, mas cai numa chave intitulada “Resultado do Raciocínio, de um lado, julgamento, de outro, obliquidade de julgamento. E finalmente aqueles que revelam espírito de parcialidade podem estar resumidos dentro da expressão latina “existimare unumquemque moribus suis”, isto é “julgar os outros por si” ou ainda “tomar as nuvens por Juno”.

Ninguém negará que a mídia precisa ser mais democrática — e democratizada — para incluir os sem-voz e as grandes parcelas da população ainda marginalizadas, mas o projeto em orquestração na mesa dos controladores nada tem a ver com este escopo. Sob o argumento de que as…

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A Ciência Infusa da Maternidade (Blog Estadão)

A Ciência Infusa da Maternidade

Paulo Rosenbaum

Publicado no Blog Estadão

 O Professor de Medicina Walter E. Maffei, nosso inesquecível mestre, costumava nos ensinar que “se a mãe não faz o diagnóstico, ninguém mais faz”. Para além da generalização lúcida do neuropatologista, o que Maffei queria realmente dizer com a provocação era trazer os médicos para um exercício de realidade e humildade: baixem a crista quando se trata de emitir pareceres peremptórios, definitivos, dogmáticos. Mas também, e principalmente, mostrar que há nas mães uma espécie de ciência infusa, esotérica, mística mesmo, que faz delas exímias diagnosticadoras.

Afinal, qual é o poder da maternidade?

Elas geralmente conhecem como ninguém, através de uma presciência jamais investigada, o estado da sua prole. Sabem, com antecipação o que os filhos estão pensando. Conhecem, nas minúcias, suas necessidades. Intuem, geralmente pelos olhos, olhar e linguagem, se há verdade no que dizemos. Também podem reconhecer se há algo alarmante, ou apenas dissipam o pânico. Todas estas qualidades são bem menos frequentes nos pais. Não se trata de uma exaltação do feminino em detrimento do masculino numa data artificialmente estipulada, mas de um exame excêntrico do que torna a maternidade um evento tão singular. A contribuição biológica masculina ao processo é limitada, se comparada ao longo período da gestação, amamentação, criação. Em toda a natureza, somos os mamíferos mais despreparados ao nascer. Escapamos do útero solitários, incapazes de nos defender. A dependência dos bebês humanos comparativamente com todos os outros animais é assustadora.

E há também algo além nesta desproporção: mães costumam ter a virtude da ubiquidade. Não se trata do fenômeno físico da bilocação (segundo o famoso experimento de Schrodinger um átomo pode estar em dois lugares ao mesmo tempo). Refiro-me ao fato de elas podem atender demandas múltiplas simultaneamente – as vezes infinitas – de todos, incluindo maridos, geralmente marmanjos carentes. Estes desdobramentos requerem uma habilidade que ultrapassa a dos equilibristas de pratos. E não se trata apenas da jornada dupla, tripla ou quadrupla de mães as quais, além de tudo, são chefes de suas casas, mas de conseguir manter e estruturar a família como tal. São elas o epicentro dos encontros, das reuniões, geradoras da unidade congregacional. Sem elas, além da inexistência da raça, provavelmente não existiria o conceito de irmandade, “brotherhood”. Neste sentido, o papel da maternidade deveria inspirar nos homens menos ciúmes e mais inveja. São elas que fazem questão das egrégoras. A contraprova trágica é que quando as mães se vão, as festas e encontros costumam minguar. Pelo menos até que novas mães peguem o bastão e liderem novamente.

Maternidade também se refere a um estado de apego visceral que sem os devidos cuidados pode se transformar em um vínculo simbiótico. Mas notem que mesmo uma simbiose não exagerada pode ser uma vantagem biológica e existencial: o estado de conexão umbilical das mães permite a empatia inata. Gera o amor incondicional e imotivado. Isso é, ao contrário da condição paterna elas não precisam se esforçar para adorar um fragmento que por 9 meses provisórios foi parte das entranhas. Assim, a emancipação das filiações sempre será mais dolorosa e a distância mais sentida. Por isso, as mulheres a inveja primordial da condição masculina é uma invenção tola que só poderia ter saído da cabeça de homens ressentidos.

O que afinal se compara ao orgulho, e até a soberba de poder mimetizar a função do Criador?

Se um dia houver paz, agradeçam antecipadamente às mães que conceberam e conceberão  — mas também às postiças, as que não conseguiram, aquelas que saíram de cena prematuramente —  serão elas as mais interessadas em preservar o mundo para os filhos.                                                                                                           https://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/a-ciencia-infusa-da-maternidade

Substitute Horizons – Language Mutation III

Substitute Horizons – Language Mutation III

Yon Hazikaron and Yon Haatzmaut

Paulo Rosenbaum

Contrary to the preaching of the revisionists, testimony and witnesses are the only irrefutable documents of history. We hear, here and now, whether we like it or not, admitting it or not, that the long march of intolerance still has its voice guaranteed. Inside and outside national states. It is in individuals, it is found in institutions. One of the proofs of this bitter repetition is the obsessive metaphor with an anti-Jewish and anti-Zionist content that has been taking over speeches and narratives.

Now, in order to justify an operation, the proportion of the executioner’s “Jewish blood” and its equivalences is invoked. The propaganda machine includes a gigantic lapse in critical analysis on the part of the media. And now he dares to blame the victim for the aggression, as the ex convicted candidate confirmed in an interview with a once expressive American magazine. It is not just about the reckless use of language that has taken on alarming contours. It is to make it the opposite of the work of building freedom and justice. It is the perversion of meanings and perhaps a crime against decent literature. Not that it should become prescriptive, but that it should refrain from associating itself with ideological and dated perfidy.

It seems to persuade life that errors like this rule as rules against exceptions. Going forward, the evil evocation issued by politicians and leaders is anchored in fear. So it has been when they exhort demonization. News that spreads in the same common air and with the same ghostly vigor. It insinuates itself, as in recent waves of pestilence, through an invisible and indecipherable energy, despite being embarrassingly palpable. It is found in the unpalatable mouth of the foreign ministers and in the not very courageous didactics of the West. The West whose neutrality bounces off victims to end up housed in the solidarity vest of decision-making offices. That finds in the strategic omission the same devastation of the cities opened in recent wars.

Now we’ve all learned. Language is a wild cradle. Which in wartime leaves only meaningless furrows. The accusations against Israel usually come from generalizations, organized by the language that plots and confuses. Despite the artificial polysemy that the term has recently taken on in the mouth of historical anti-Semitism, the real Nazis and their ideological accomplices still know how to use it like few others. They come as erratic swarms to spread fanatical pollination among uncritical flowers. “You’re the Nazis” became a kind of alibi slogan guaranteed to carry out the actions that typified the Third Reich.

What then would our substitute horizon be? The one we still, astonished, have not seen. One that will replace promises of annihilation with processes of integration. Our people, that is to say, no people who are not a majority will henceforth accept relative amendments. Nor will it accept unjustifiable deaths. Will not accept manipulated charges. Sometimes the weekly rest, the Shabbat, is not enough to guide the rest, nor the mourning to train suffering.

Our substitute horizon? Stay adrift? Surrender to the passage of a time that does not progress? Capitulate before the sea of injustices and foreseeable calamities? Without an enormous load of objection to the volume of attacks, the future would indicate a repetition of a tragedy of Shoah proportions . And how should we act? contemplative? Adopting stoic imperturbability? Under a slow and majestic tread slip between the orange tiles of Jerusalem? Or in the intermittence of a faith that oscillates between sunrise and sunset? Between an unknowable sea that will never be completely crossed?

What do you offer me horizon? Beyond Nothing, beyond the promises of posterity? Of cordial acceptance of an unchosen fate? Or will it be another one of the enigmas that no one dares to scrutinize? What does the horizon reveal to us? The inappropriate calm of meaningless days? Or the certainty that everything is just the same experiences with the protagonists taking turns?

What can horizon tell us? That we are a mere stage for your performance? Today the ashes of an unsuspecting shroud rain down on us. And it doesn’t just wet the exhausted Jews My father was in the same storm. as well as all ancestral generations, and seem to claim it.

It is no longer a matter of tomorrow, the trance has imposed itself today, violent as only invisibility can provide. Vulnerability is a naughty aftermath. Trance is imposed by an arbitrary absence, hostage to a plague.

I predict it will not be common ground, or a life of unmotivated joy. Rather, you will weave a web of ties to create the feeling of ending. But what they didn’t count on is this little imponderable. We don’t really know to whom the horizon belongs. To us, who without the pretense of alignments are cohesive?. I know that you are not an oracle, nor can or should predict what we lack.

And that’s why we suspect that the fusion of horizons is just a chimera if the plumb isn’t laid out on flat ground. A fictional ending for those who expected reality. Why then does it still haunt us with hope, horizon? With expectations that will never arise and with promises betrayed by reality?

If I could risk it, I would answer that our vision has incorporated you without understanding what the big picture means. The one that will remove us from the vulgarity of common sense to show us a brand new belonging.

Without parties, without rigid foundations, in a malleable horizon that interposes its protection column. Which simply miraculously separates the tyrants from the righteous.

Elected, this would be the substitute horizon: who knows how we would know the spherical meaning of the word shalom?

That under sirens, or violins, your 74th anniversary of existence be like this!

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Horizontes Substitutos – Mutação da linguagem III (Blog Estadão)

Horizontes Substitutos – Mutação da linguagem III

Yon Hazikaron e Yon Haatzmaut

Paulo Rosenbaum

Ao contrário da pregação dos revisionistas o testemunho e as testemunhas são os únicos documentos irrefutáveis da história. Escutamos, aqui e agora,  desejando ou não, admitindo ou não, que a longa marcha da intolerância ainda tem sua voz garantida. Dentro e fora dos Estados Nacionais. Está nos indivíduos, encontra-se nas instituições. Uma das provas deste amarga repetição é a metáfora obsedante de teor anti judaico e anti sionista que vem tomando conta dos discursos e das narrativas.

Ora, agora para justificar uma operação evoca-se a proporção de “sangue judeu” do carrasco e suas equivalências. A máquina de propaganda inclui um gigantesco lapso de análise crítica por parte da mídia. E agora ousa culpabilizar a vítima pela agressão como confirmou o candidato em entrevista à uma revista americana outrora expressiva. Não se trata apenas do uso temerário da linguagem que vem assumindo contornos alarmantes. É torná-la o avesso do trabalho de construção da liberdade e da justiça. É a perversão dos significados e quiçá um crime contra a literatura decente. Não que ela deva tornar-se prescritiva, mas deveria abster-se de associar-se à perfídia ideológica e datada.

Parece persuadir a vida que erros assim vigorem como regras contra acertos de exceção. Indo adiante, a evocação maligna emitida por políticos e líderes ancora-se no medo. Assim tem sido quando exortam a demonização. Notícias que espalham-se nos mesmos ares comuns e com o mesmo vigor fantasmagórico. Insinua-se, como nos recentes ondas de pestilência, através de uma energia invisível e indecifrável, a despeito de ser constrangedoramente palpável. Encontra-se na intragável boca dos chanceleres do oriente e na didática pouco corajosa do ocidente. O ocidente cuja neutralidade ricocheteia nas vítimas para terminar alojada no colete à prova de solidariedade dos gabinetes decisórios. Que encontra na estratégica omissão as mesmas devastações das cidades abertas em guerras recentes.

Agora já aprendemos, todos. A linguagem é um berço selvagem. Que em tempos bélicos deixa apenas sulcos sem sentido. As acusações contra Israel costumam vir das generalizações, organizadas pela língua que trama e confunde. Apesar da polissemia artificial que o termo vem assumindo recentemente na boca do antissemitismo histórico, os verdadeiros nazistas e seus cúmplices ideológicos  ainda sabem instrumentaliza-lo como poucos. Eles vem como enxames erráticos para disseminar uma polinização fanática entre flores acríticas. “Vocês é que são nazistas” tornou-se uma espécie de slogan-álibi garantido para praticar as ações que tipificaram o III Reich.

Qual seria então o nosso horizonte substituto? Aquele que ainda, atônitos, não vimos. Aquele que substituirá as promessas de aniquilação por processos de integração. Nosso povo, vale dizer nenhum povo que não seja maioria aceitará doravante emendas relativas. Tampouco aceitará mortes injustificáveis. Não acatará imputações manipuladas. As vezes, o descanso semanal, o Shabat, não basta para pautar o descanso, nem o luto para treinar o sofrimento.

Nosso horizonte substituto? Ficar à deriva? Render-se à passagem de um tempo que não progride? Capitular diante do mar de injustiças e das calamidades previsíveis? Sem uma enorme carga de objeção ao volume de ataques, o futuro indicaria a repetição de uma tragédia de proporções da Shoah. E como devemos agir? Contemplativos?  Adotando a imperturbabilidade estoica? Sob um andar lento e majestoso deslizar entre os ladrilhos alaranjados de Jerusalém? Ou nas intermitências de uma fé que oscila entre o nascer e o por do sol? Entre um mar incognoscível que nunca será completamente atravessado?

O que me ofereces horizonte? Além de Nada, além das promessas de posteridade? De aceitação cordial de um destino não escolhido? Ou será mais um dos enigmas que ninguém ousa perscrutar? O que nos desvela horizonte? A calma inapropriada de dias sem sentido? Ou a certeza de que tudo não passa das mesmíssimas experiências com revezamento dos protagonistas?

O que pode nos dizer horizonte? Que somos um mero palco para tua atuação? Hoje as cinzas de uma mortalha desavisada chovem sobre nós. E não molha só os exauridos judeus  Meu pai estava na mesma tempestade. assim como todas as gerações ancestrais, e parecem reivindica-la.

Não se trata mais de um amanhã, o transe se impôs hoje, violento como só a invisibilidade pode proporcionar. A vulnerabilidade é uma sequela impertinente. O transe se impõe por uma ausência arbitrária, refém de uma peste.

Prevejo que não será um solo comum, ou uma vida de alegrias imotivadas. Antes, tu tecerás uma rede de amarras para criar a sensação de fim. Mas o que eles não contavam é com este pequeno imponderável. Não sabemos bem a quem pertence o horizonte. A nós, que sem a pretensão de alinhamentos estamos coesos?. Sei que não és oráculo, nem pode ou deves predizer o que nos falta.

E por isso suspeitamos que a fusão de horizontes não passe de uma quimera se o prumo não estiver disposto em solo plano. Um desfecho de ficção para quem esperava realidade. Por que então ainda nos acossa com esperança, horizonte? Com expectativas que jamais surgirão e com promessas traídas pela realidade?

Se pudesse arriscar responderia que nossa visão te incorporou sem entender bem o que significa o grande panorama. Aquele que nos retirará da vulgaridade do senso comum para nos mostrar um novíssimo pertencimento.

Sem partidos, sem fundamentos rígidos, num horizonte maleável que interponha sua coluna de proteção. Que simplesmente separa milagrosamente os tiranos dos justos.

Eleito, seria este o horizonte substituto: quem sabe assim conheceríamos o sentido esférico da palavra shalom?

Que sob sirenes, ou violinos, teu aniversário de 74 anos de existência seja assim!

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Insignificâncias do mal (Blog Estadão)

Paulo Rosenbaum

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Hannah Arendt, vista por sua criadora 

A Coragem moral de Hannah Arendt

‘Hannah Arendt’, o filme de Von Trotta

        

                 

Insignificâncias do mal

Dezenas de artigos, análises e conversas de rua depois, o filme de Margarethe Von Trotta sobre a filósofa Hannah Arendt, ainda não foi devidamente esmiuçado. O filme é cinematograficamente bom sob a presença cênica de Barbara Sukowa impecável no papel principal. O acerto está também na inserção de trechos originais dos debates que representaram uma das batalhas jurídicas essenciais para a compreensão do século XX. Mesmo assim, as vicissitudes superam as virtudes deste longa metragem.

A impressão que fica é que não se executou uma obra da sétima arte, mas defesa de tese com recursos filmográficos. A diretora e a roteirista, Pam Katz, parecem ter privilegiado um enfoque que, além de vez por outra lançar condenações veladas ao sionismo, buscaram expurgar a ansiedade de consciência…

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Da Resistência do Gueto De Varsóvia

Da Resistência do Gueto à Marcha da Vida

Paulo Rosenbaum

23 de abril de 2017 | 17h24

“Da Resistência do Gueto à Marcha da Vida”

Hoje, 19 de abril de 1943, consegui chegar até a rua de Mila, entrar e sair do bunker. A New Olimpik parecia estar vazia. Acabaram de decretar o esvaziamento do Gueto. Naquele momento já sabíamos o conteúdo do decreto e da ordem executiva: “extermínio completo”. Dos 450 mil iniciais restavam 35.000 pessoas. Mas, nas últimas horas, reinava uma estranha paz, nenhum soldado. Nenhum blindado. Apenas as ruínas de sempre, ofuscadas por uma ou outra rajada de fuzil e morteiros, ou, gritos fracos de fome e pedidos inúteis de ajuda. Sabia que a vingança estava à espreita. O comandante não aceitava e ficou incrédulo com a ideia de que um grupelho de miseráveis, famintos e sem recursos ousasse uma insurgência. Resistimos mais dias do que Paris e o exército polonês. Foram 27 contando hoje. Sorri sozinho pensando na cara de espanto da SS e o impacto da notícia em Berlim. Sentei apoiado no beco, entre as duas esquinas, e, pela primeira vez desde que começamos a resistir, deitei a pistola no chão. Resistir para que? Para que o massacre promova suas festas logo adiante? Foi quando o vi o pelotão nazista com um cordão de condenados. No meio da fila lá estava ele. Pequeno, com a boina quase caída. Com as mãos para cima olhava buscando algum tipo de pedagogia, sem imaginar que nenhum adulto poderia lhe oferecer resposta alguma. Neste caso garoto, respondi mentalmente, “existem mais perguntas do que respostas”.

Mentalizei algumas de suas perguntas “Como isso pode acontecer?” “É daqueles sonhos que sentimos alegria ao acordar?”

Eu me espremi contra o muro para não ser visto, esperando uma chance para uma última intervenção. Deveria agir? Preservar minha vida ou ser o herói que ninguém lembraria? As dúvidas diminuem muito quando você sabe que está condenado. Apenas aguardaria o embarque na estação daquelas pessoas e morreria levando um punhado de alemães comigo. Foi uma explosão que interrompeu minhas dúvidas. Acordei numa vala fora de Varsóvia e sobrevivi com a ajuda da resistência polonesa. Foi a última vez que vi aquele garoto de não mais do que 12 anos. Hoje, 74 anos depois, eu, como um dos poucos sobreviventes do evento que foi conhecido como “Levante do Gueto de Varsóvia” fui convidado a visitar o campo de concentração de Auschwitz. Sempre recusei vir, hoje não. Tinha preparado um discurso, mas, na hora, recitei uma poesia achada enfiada às pressas na parede de uma das casas do Gueto, presente de um amigo da resistência polonesa.

Com a tinta azul quase apagada em uma folha amarela, estava escrita em polonês e dizia o seguinte

“Varsóvia, 19 de abril de 1943

podemos sentir,

mesmo que nenhuma folha

voe, e passe para além destes portões.

a árvore central viverá,

pois não está suspensa

formou raízes nos asfaltos,

nas pedras e nas cidades

nas cabeças do mundo

nós voaremos como vento, ar, fumaça,

e iremos ter com o Alto

com a certeza de que mesmo

que silenciem diante de todas as perguntas

e mesmo no pó que tentaram nos transformar

a resposta, solene, será permanecer

eu ri,

e se me perguntassem por que

diria que eles nem imaginam nosso segredo,

a árvore da vida é mais teimosa

do que os campos da morte”

Hoje, neste dia no qual homenageamos as vítimas do holocausto venho aqui dar meu depoimento como um dos últimos sobreviventes vivos do holocausto. Quero convocar jovens de todo mundo, de todas as etnias, raças e religiões a visitar este lugar. Recentemente uma estudante de direito, que identificarei apenas como “MCM” que participou de uma visita à Auschwitz me enviou a seguinte mensagem emocionante, foi ela que me convenceu aceitar este convite:

“Tive a oportunidade de visitar Auschwitz quando tinha 16 anos. Fui a Auschwitz, fazendo parte de uma iniciativa de um grupo chamado Holocaust Educational Trust, que da a alguns jovens de toda a Inglaterra a oportunidade de fazer essa visita. O princípio do Holocaust Educational Trust, com o que eu concordo plenamente, é que ver não é como escutar; é mais. Durante a visita fomos ao Auschwitz I, e ao Auschwitz II. Primeiro, visitamos ao Auschwitz I, que é o campo original, e o menor dos dois, construído para prisioneiros políticos que é formado de 22 prédios  nos quais, hoje, pode se ver roupas; malas; brinquedos e cabelos cortados das vítimas. Depois fomos ao Auschwitz II, o maior campo de extermínio onde morreram mais de um milhão de pessoas em menos de 5 anos. Conhecer os fatos antes de ir já era inacreditável e horrível mas nunca eu achei que ia ver, sentir e entrar em contato com um evento histórico que me afetaria tanto como nessa visita. O impacto que essa visita teve sobre mim foi extraordinário. Primeiro porque foi educativo; me ensinou detalhes e me vez aprender de uma maneira que livros não ensinam. Segundo, e o que eu dou mais valor, foi que essa visita teve um impacto existencial e emocional.  Teve uma foto especificamente de duas meninas de não mais de 10/11 anos de idade; irmãs talvez. As duas me lembraram de mim e da minha irmã. Até hoje quando lembro disso, e mesmo escrevendo isso, lágrimas enchem os meus olhos porque não somos tão diferentes daqueles que morreram nos campos de concentração. A vida que aquelas pessoas viveram é algo que eu não consigo imaginar e uma realidade que depois da visita virou uma das mais difíceis de lembrar e uma importante experiência de vida. Hoje eu sou uma advogada, qualificada na Inglaterra. Devido às várias experiências da minha vida, incluindo essa visita a Auschwitz, uma das minhas metas profissionalmente e pessoalmente é ter certeza de que o que aconteceu em 1940 nos campos de concentração de Auschwitz nunca aconteça de novo. Eu sei que não é tão fácil assim mas eu acredito que abrir os olhos e não só saber os fatos mas entender o que a vida era para aqueles que sofreram e morreram ensina algo que livros não conseguem ensinar. Abrem os olhos aos pequenos atos que podemos fazer e ao que podemos prestar atenção para que isso não aconteça de novo. Mas não quer dizer que todos que foram comigo foram afetados da mesma maneira ou tem as mesmas metas que esta experiência inspirou em mim, mas mesmo assim tenho certeza que são pessoas que não veem o que aconteceu  entre 1940 e 1945 como um fato histórico apenas, mas sim como uma parte de todos nós como seres humanos ; algo que não só afeta aos que morreram mas aos que estão vivos hoje. O que aconteceu nos ensina e abre os nossos olhos para a nossa realidade de aqui e agora.”

Este depoimento da jovem adolescente brasileira resume muito a relevância deste tipo de iniciativa. Quem participa da “Marcha da Vida” adquire ao menos uma experiência: no final da caminhada temos a certeza de que juntos precisamos prestigiar este monumento à prevenção de “Amanhãs de erros antigos”.  A “Marcha da Vida” — um contraponto à Marcha da Morte promovida pelos nazistas — não é só um símbolo ativo do slogan “Nunca mais”, ela é a afirmação de que a vida pode ser sustentada mesmo contra todas as evidencias da razão. Não se enganem, o lugar é sinistro, é um sítio histórico e, ao mesmo tempo, um dos mais vergonhosos e dolorosos para a humanidade, Um campo de concentração não pode nos ajudar a dar qualquer resposta à perplexidade — por exemplo daquele garoto nunca identificado cuja face me assombra até hoje — apenas nos coloca bem ao lado dele para tentar acordar do sono que nos envenenou. Esta é a única homenagem possível à memória das vítimas do holocausto nazista.

No mundo todo escolas judaicas e não judaicas organizam anualmente viagens de estudantes para visitar este lugar. O “Holocaust Educational Trust” estimula e aceita qualquer pessoa que queira colaborar neste trabalho com doações ou trabalho voluntário. A ideia é que aqui no Brasil nasça uma iniciativa similar. Só há um objetivo geral:  estimular a tolerância e o convívio pacífico entre os povos. Fica a sugestão para aqueles que desejam colaborar subsidiando visitas de adolescentes ou adultos para esta viagem. Se há um objetivo específico? Sim, e só pode ser descoberto por cada um.

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