Antissionismo é Antissemitismo 2 – Bilhete da Memória (Blog Estadão)

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Antissionismo é Antissemitismo 2 – Bilhete da Memória

“A tolerância torna-se um crime quando aplicada ao mal”

Thomas Mann (A Montanha Mágica)

A assembleia nacional francesa depois de uma discussão que durou mais de uma década passou uma resolução e decidiu que o antissionismo (o ódio à Israel)  é antissemitismo.

“A Assembleia Nacional… acredita que a definição operacional usada pela International Holocaust Remembrance Alliance permite a designação mais precisa do que é o anti-semitismo contemporâneo ”, lê-se parcialmente o texto da resolução:

“Considera-o um instrumento eficaz de combate ao antissemitismo em sua forma moderna e renovada, na medida em que engloba manifestações de ódio ao Estado de Israel justificadas apenas pela percepção deste como um coletivo judeu.” (Times of Israel, 03, 12, 2019)

E não é difícil compreender porque assim fizeram os franceses, e seria de se esperar que todos os Países civilizados os seguissem como um exemplo de respeito à civilização e de decência intelectual.

Menos de 75 anos do final da Segunda Guerra Mundial, o mundo testemunha uma crescente onda de xenofobia.  O antissemitismo foi o preconceito étnico que mais cresceu nos últimos anos. Record de ataques contra judeus foram registrados no ano de 2019. O número das agressões foi inclusive muito maior do até então considerado ápice da intolerância, pouco antes do início do grande conflito que terminou em 1945. Somente nos EUA foram reportados 2100 incidentes violentos.

Portanto volto a um assunto que já foi tema de um extenso artigo anterior publicado aqui neste mesmo Blog Conto de Notícia. Um dos candidatos a prefeito de uma das maiores cidades do mundo pertence a um partido, o Psol, cuja plataforma – e não apenas seus membros isoladamente — declara explicitamente, contra todas as evidencias disponíveis, que Israel é um Estado que pratica genocídio contra o povo palestino.

Para além do exagero retórico do partido do atual candidato do Psol a prefeitura de São Paulo citamos declaração contida em sua plataforma – “o governo de Bush foi quem mais ostensivamente o praticou, declarando apoio a Israel e a seu massacre, dizendo que o Hamas é terrorista” conforme artigo retirado do próprio site do partido do partido em 2018. A verdade, porém, é que há consenso da comunidade internacional de que após prolongadas investigações contando com experts civis e militares de várias nacionalidades de que não há nenhuma prova de que houve “massacre”e de que o Hamas é uma organização terrorista e como tal foi classificada pelos Estados Unidos, União Europeia e a maioria dos países civilizados.

O site do partido é repleto de exortação ao ódio e notícias falsas, como as publicadas no mesmo veiculo em janeiro de 2019, a verdade é que comparar o holocausto com supostas carnificinas cometidas pelas forças de defesa de Israel com os massacres promovidos pelo exército nazista, está para bem além de ser patética. O nacional socialismo alemão e seus sócios responsáveis pela política sistemática de extermínio dentro e fora dos campos de concentração assassinou 6 milhões de judeus.

Já o partido em questão adota palavras de ordem ameaçadoras, votos de ódio e hostilidade sem contexto ou equivalência moral, e uma provocação particularmente mentirosa:

Em outro trecho do “artigo”(sic) a verdade é mais uma vez torturada com slogans como classificar o regime israelense de “neonazista” (sic). Neste caso é a realidade que protesta já que ao contrário do que afirmam os militantes escribas do partido, a legitimidade e apoio ao Estado de Israel é crescente inclusive no mundo árabe e o exército de Israel está entre os mais éticos do mundo, conforme arquivos da própria ONU.

“Em Israel, tal como foi na Alemanha do terceiro Reich, se trata de um estado que somente pode sustentar-se sobre a base de um militarismo genocida e racista”. Eis mais uma anedota de um partido que nem tenta ocultar sua beligerância anti- Israel e, portanto, contra todos os judeus que encontraram lá paz e refúgio depois da Shoah. E acharam proteção e acolhimento não só naquele País, mas também em lugares como o Brasil, onde os povos estão acostumados a viver em harmonia e mútua aceitação. Convivência pacífica que parece  incomodar o núcleo duro da agremiação.

Estes são apenas alguns exemplos de desinformação irresponsável, com potencial para incitar crimes de ódio, sempre sob o álibi de apoio ao povo palestino e o argumento maniqueísta da generalização. Sequer se enrubescem quando apoiam o regime teocrático e homofóbico iraniano e embarcam na psicose anti norte americana que ainda assombra  parcela significativa da esquerda. Não é uma cegueira seletiva. Não é ingenuidade. Trata-se no máximo de uma modalidade perversa da síndrome de Hiroo Onoda, soldado do exército imperial japonês, que até 1974 viveu escondido nas selvas das Filipinas sem saber que a guerra havia acabado. No caso deste partido, fica mais do que evidente a manipulação e a desonestidade intelectual com finalidade de propaganda política.

Apesar do candidato ter se esquivado das indagações feitas para ele durante a campanha, cristãos, evangélicos, judeus e toda a opinião pública teriam muito interesse em ouvir da boca do candidato que aspira governar a cidade no qual habitam. O que afinal ele realmente pensa sobre tudo isso? E não foi por falta de perguntas ou oportunidade para oferecer suas respostas. Parece, entretanto, que o sujeito optou por um silêncio tácito quando se trata de manifestar seu viés anti-Israel. Vale dizer, só deverá se pronunciar — o que seu partido já faz aos quatro ventos — apenas quando as urnas eletrônicas estiverem lacradas.

A plataforma de acusações do Psol contra o Estado hebreu é muito mais extensa e inclui queimar a bandeira de Israel e dos EUA (Manifestação no Rio de Janeiro, 2012), ameaça de expulsão de membros do próprio partido que não seguissem a cartilha anti-Israel, acusar Shimon Peres de “genocida”, além da sequência de acusações infundadas como vimos acima. Tudo isso divulgado de forma incólume, sem que os checadores de fatos tenham verificado os fatos, como aliás acontece sempre que os fatos não desmentem a ideologia que os checadores defendem.

Recentemente, um pequeno grupo de pessoas que dizia representar a comunidade, judaica elaborou um vídeo declarando apoio ao candidato deste partido. O problema é que o fizeram de forma furtiva, dando a entender que falavam em nome de todos. Surgiram polêmicas e respostas circularam nas mídias sociais. Mas este é apenas um efeito colateral de algo muito maior: o poder desagregador da retórica do ódio camuflado de libelo político.

Felizmente, os judeus são, constitutivamente, um povo plural, no qual cabem várias correntes de pensamento, preferências e até mesmo múltiplas ideologias. Foi a memória acumulativa das perseguições, e a densidade quase genética que se revela não só no psiquismo, mas no próprio corpo, que tem orientado o sentido desta experiência de sobrevivência. Como a experiência é uma sensação individual as sensações — de perseverança e afirmação da identidade — acabam se manifestando de uma forma muito particular em cada espírito. E portanto, como Freud observou em relação aos judeus: uma resistência admirável associada à capacidade peculiar de sobreviver às intempéries.

Mas mesmo em meio a tanta diversidade, tem havido pelo menos um consenso agregador entre os adeptos da tradição mosaica: não há, nunca houve, tolerância com a intolerância.

Nem com os intolerantes.

Essa percepção não veio somente através da leitura, da cultura e nem mesmo pela educação parental, emergiu da vivência e amadureceu através desta experiência de seis milênios, já que um povo tão antigo tem a obrigação moral de se conservar como arquivo vivo. E assim, usar suas memórias como bilhetes auto endereçados ao futuro. Estes devem ser lidos em momentos mais agudos a fim de evitar tragédias e enfrentar com coragem as vicissitudes da história.

O psol, seu candidato e colaboradores merecem algum agradecimento, já que provaram à revelia, mas com todas as cores, a tese de que antissionismo — ou ódio a Israel — é, de fato, uma manifestação vicariante do ódio antissemita.

E ai, recorro ao bilhete da memória onde está escrito com tinta rutilante:  “não deixaremos acontecer, nunca mais”.

Anti- Zionism is Anti-Semitism 2 – Memory Ticket

Under the threat of having an overtly anti-Semitic mayor in the city of São Paulo, Brazil, with the support of the mass media, I thought it important to publish this article in English as a denunciation of what is happening in the country.

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In a lecture recently held at the Bait Jewish Center, the poet, essayist and writer Nelson Ascher focused on a theme that is often banned or superficially addressed: is anti- Zionism anti-Semitism? The blog News Tale gave an overview of his remarks and added reflections that also involved the problem of reliability of the news and the fake news , the political turmoil in Europe, the role of mass immigration and Islamo -fascismo, who is not left is right or maybe just “non-left”?

Ascher started by using an absolutely synthetic statement to answer his own question

“Why does anti-Semitism exist and endure?”

“Because it always worked”

How does it work and what is the past and contemporary meaning of its effectiveness?

In stating that Zionism was a kind of “second-degree nationalism ” and that there are other “Zionisms” being gestated in Europe due to a lack of identification between the social democracy practiced by the European parliament and the countries it governs. It follows that “second-degree nationalism” can be understood as a reactivity of peoples to attempts to interfere with their customs beyond territorial and financial unity. In this sense, is Europe soon to be threatened by several movements similar to Brexit ?  

In 2018 we had a disturbing record for the number of anti-Semitic attacks in Germany, France and more recently in the United States. If there is no European unlink the current status quo of the refugee crisis that allowed the entry of nearly 2 million people (countries of immigrants from North Africa – the vast majority, frise- are not refugees) coming from intolerant cultures violently anti-Semitic. The problem therefore is more in immigration policy, which seems to have no clear criteria than immigrants themselves. 

The debate has been banned by the systematic evocation of terms prohibited by a censoring euphemism better known as “politically correct”. Any mention of the wild immigration flow has been labeled ” Islamophobic “. It is also self-evident because the expression ” Judeophobia ” is not given the same treatment . The insistence of a large part of the media to condemn Israel a prioristically, in the headlines and in the declarations, attests to this. In the recent crises with the Gaza Strip ruled by the terrorist organization Hamas – and its Iranian proxies – the headlines show the nonsense and prejudiced bias of a significant part of the news media. “Israel attacks Gaza” is the most common call, this after Israel received almost 500 rockets against civilian populations in less than 48 hours. Importantly, as has been emphasized more than once that such terrorist organizations have nothing to do with the the official government of the Palestinians and its president. They are illegal fronts, which actually oppress and hold the people of Gaza hostage. 

According to Ascher, there is a particularity in the case of European anti-Semitism, which often uses the justificationism of the anti-Zionist alibi. It is essential to analyze the role – direct or indirect – played by Angela Merkel and other leaders on that continent. 

Still according to his analysis, some of these self-titled governments of social democracies, regularly pay tribute to Jews killed in the Shoah (Holocaust) and in fact publicly condemn anti-Semitism, which has been outlawed. However, while giving funeral speeches under self-lashes, they neglect the dramatic and explicit aggressive climate against Jewish communities. While other countries seem to do the reverse. In the case of Hungary – a country that you follow the policy with particular attention – we have an example of this apparent paradox: there we have a government classified as extreme right (sic), but it is, at the same time, one of the places where contemporary Jews they seem to be safer when compared to the situation in other European countries. The paradox is only apparent: while a significant part of the left-wing parties chooses to cluster around old anti – Jewish conspiracy theories – formerly the monopoly of the extreme right – there is now a new and incendiary component to be accounted for: as defined by Umberto Eco , it is the Islamo -fascismo.

How can it be explained then that nations that even make the mea culpa frequent for their responsibilities in the genocide practiced by the Nazis with the participation of several other countries, but remain inert in the face of the epidemic of anti-Jewish intolerance that today sweeps Europe, if not with impunity, counting with the omissiveness of governments.

Ascher then recommends the following inflection: what is the “Democratic Rule of Law”. The former president Mubarak for example was directly undermined by Obama’s foreign policy and sequence the Muslim Brotherhood won the elections in Egypt. As we know, the “Brotherhood” is one of the oldest radical Islamic associations. A strategic ally of the Nazi party is today an admittedly jihadist entity . He won by a large margin defeating all moderate parties in what would be one of the first elections in the Arab country in decades. Shortly afterwards, the population itself understood the error and took to the streets – in an event that was wrongly classified as “Arab Spring” – asking for the deposition of the newly elected, which effectively ended up through a military coup led by General Sissi. 

At the time, several analysts attributed the phenomenon of the election of Morsi – recently killed by a heart attack – to an error in the timing of the democratic process: IM was the only organization to keep its structure intact during the subsequent dictatorships that lasted and, therefore, the only one able to compete in the election as an almost exclusive option in that suffrage of a plebiscitary character. Considering the episode, what is the Democratic Rule of Law anyway?

If only an understanding of the historical-political context can define it, what is its consistency?

Right and left have their wild vices and classifications. In turn, those who do not fit the postulates of the left are liable to be labeled right or extreme right. Only “not left” or “not right” is not allowed. Many members of the North American Democratic Party and the English Labor Party – centered on the figure of Corbyn – have instrumented the discourse of the struggle for Palestinian rights by sacrificing historical principles by openly defending anti-Zionist and anti-Semitic stances. This includes standing in defense of the aitolás theocratic regime and defending jihadist organizations – officially recognized by the European Parliament as terrorist entities – such as Hamas and Hezbollah. These are complaints that come from within the English labor party itself.

What would be the ideological and tactical significance of this political tour?

It is disturbing to know that many journalists have started to act in a militant manner. Selecting news according to more ideological standards than reporting facts. It seems obvious that the hermeneutic bias has taken on a much more powerful form than the facts. Even if neutrality is an idealized function, wouldn’t the original role of journalism be closer to encouraging the reader to make his own decisions than to doctrine it ? Not nowadays, when the fake news that comes from official sources are much more compromising – because they are supposedly unsuspected or less suspicious – than those advertised on social networks – always subject to double checking by the most careful users.

After the episode of the accusations of the defeated candidate for the presidency of the Republic, Ciro Gomes, who externalized his prejudice when he evoked “corrupts of the Jewish community”, the most recent Brazilian case of a statement accusing the Jews fell to the magazine “Isto É”. The broadsheet published unfortunate article explicitly anti-Semitic – with the pretext to accuse the current government communications secretary – using the motto compares it to the propaganda chief, Josef Goebbels’s infamous, marquetólogo the fuhrer . The magazine also used the accusatory term to fabulate and identify the enemy, again, “the Jewish community”. The title of the libelo would dispense with further explanations “O Goebbels do Planalto”.

In this sense, the attempt to sabotage the right of any subject of a certain ethnic group to work or act politically for a government that the columnist and the editorial direction of the pamphlet considers inappropriate is evident. In the absence of consistent arguments, the accusation will always fall on the ethnic condition that is most at hand. It sounds more often against Jews.

It is at this moment that we are very close to the impeachment of citizenship. And the suspension of the idea of ​​the secular state by those who should defend it . And so it was possible once again to evoke the myth, this one clearly neo-Nazi, that there would be a “Jewish plot”. Now, there are Jews of all political currents and nuances and the ethnic- religious condition could never be used as an alibi to generalize anything. Unless it is clear that the journalist or writer is already in the fragile intellectual condition of post-analysis . That is, what matters in any story is your personal beliefs and the starting point is already the ending point. Groundless generalizations such as those that routinely appear always start from an ideological, devotional, that is to say, fanatic bias. 

Is there not one of the roots of the discredit today attributed to regulated media in general? The manufacture of disinformation – increasingly identified by the speed and expansion of access to the diversity of information media – is not the very genealogy of false news? News that is now spreading with the magic of the web with frightening resourcefulness? Does this occur while it is possible to observe paradoxically a considerable advance of confidence in what is transmitted through social networks?

After all, what are ” fake news “? And what is its impact on the national and international political scene? Especially in the case of Israel that suffers a considerable number of attacks with financed media and paid blogs to spread, for example, hate speech and intolerance.

In this sense, it can be said that modern anti-Semitism has dressed up as an occasion for anti – Zionism . However , it is an improvised outfit. Under the demountable cloak that deserves to be demystified by serious journalism, there is selective respect for freedom of expression.

Just over 74 years after the end of World War II and the death of more than 60 million people, including 6 million and 250 thousand Jews (these dead after the end of the war when they tried to return to their European homes), the reality only reaffirms the vital importance of the existence of the State of Israel for the Jewish people and their security in the current historical moment. And despite the threats and the revival of the virulent wave of intolerance against the Hebrews, there has never been a time in human history when so few Jews died in massacres. The anti-Zionism then finally is revealed as just another veiled face of one of the most primitive archetypes and recurrent humanity.

Perhaps the great frustration of preachers of hate is that this time the scapegoat has a way of defending itself.

https://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/antissionismo-e-antissemitismo-1/

Diário do apartamento 6 – O risco da esperança (Blog Estadão)

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Ilustração – Nilda Raw – O.s.t 2018 “Tree of life”

O asteroide de 15 kilometros de diâmetro que há 66 milhões de anos atingiu a península de Yucatan no México extinguiu os dinossauros e quase toda a vida na superfície do Planeta. Segundo muitos, estamos aos 0,6 do início da segunda maior ameaça a vida, desta vez é a humanidade que será apagada. Até os não negacionistas sabem, que voltar ao trabalho não é uma escolha. É pedir muito voltar a aceitar uma condição que se remonta ao Gênesis e nos impôs que o sustento deveria ser obtido através do esforço? Ontem foi inevitável voltar a ter uma rotina fora de casa. Busquei disfarçar e tive que conter a satisfação enquanto caminhava até o escritório. Estava chegando no prédio quando fui interpelado por uma moça toda encapotada: — E essa cara feliz? Pego de surpresa, teria uma estranha capturado alguma euforia ignorada? –Pois é, estou retomando a rotina, primeiro dia. E até consegui esboçar um sorriso amistoso. –Ah, voltando a trabalhar? Ela aplicou um leve tom de censura à pergunta. — Uma hora teria que acontecer, minimizei. — Olha. Não sei não! E ela franziu as sobrancelhas. — O que é que você não sabe? E depois de ter me ensopado de álcool gelatinoso, já com o antebraço enfiado na porta de entrada, reflui dando um passo atrás. — Sei lá, o Sr. não é mais nenhum jovem, é grupo de risco, não acha que é muita ousadia? — Amiga, é aceitar o jogo e ir em frente, nos proteger, e, como dizem os ingleses, “espere pelo melhor”. E virei para seguir minha jornada. Ela não desistiu. — Está brincando? Neste caos no qual estamos metidos? É sério que você acha que vale a pena se arriscar? Eu se fosse você… Pois é. Ela não era eu, portanto não respondi e determinado, entrei no prédio para subir e começar a atender as pessoas que já estavam a minha espera. Pensei na facilidade com que a interpeladora me abordou para fazer observações não solicitadas. E cheguei a conclusão de que faz parte de uma mentalidade que tem virado epidêmica, todos devem estar disponíveis todo o tempo, todos são devassáveis, todos podem ser julgados e interpretados. Sabe-se que a palavra otimismo vem assumindo uma conotação pejorativa. O termo tem variado muito de significado, entre “ingênuo” e “cândido” e evoluiu rapidamente à “trouxa” e “imbecil”, podendo sempre descer mais, quando palavras menos nobres serão utilizadas. Chegamos a pensar seriamente que compreendíamos para onde caminhávamos. Mas, por pura incompetência, cessaram as fantasias de que seríamos reféns da tecnologia. E olhem que não esbarramos nos limites das órbitas distantes, na temível singularidade dos buracos negros, nem nas dimensões de estrelas que pelo tamanho escapam de toda estimativa matemática: a história registrará que entramos num estado de animação suspensa diante de um animalículo. O vírus (do latim,veneno) não se contentou em ser só mais um fenômeno da natureza. Transformou-se numa escatologia programada. Mas, antes, deu descomunal poder a quem nunca soube usa-lo da única forma que tornaria uma democracia realmente sustentável: benevolência e genuíno interesse pelos governados. Como disse em março o ex-juiz da Suprema Corte do Reino Unido, Sir Lord Jonathan Sumption, referindo-se a um evento que reprimiu pessoas que desafiaram o lockdown: “Eis a aparência de um Estado Policial”. No mundo todo o fato é que para mostrar serviço quando os governos não sabiam qual serviço mostrar, o poder e seus agentes impuseram, tergiversaram, emitiram versões paradoxais, criaram regras marciais, prenderam críticos e soltaram criminosos, aturdiram, espalharam desconhecimento, desorganizaram os incautos, mudaram leis, transformaram a medicina em armamento ideológico, e, finalmente, respaldados por extrapolações epidemiológicas a toque de caixa estão na iminência de prescrever soluções mágicas, apelidadas de experimentais. E o principal: deixaram quem mais precisava relegados a um lockdown espiritual intermitente. Aqueles que vem acusando o poder de promover bullyings de Estado contra os cidadãos podem ser etiquecados como desejarem , mas, sem dúvida é deles a coragem que falta às instituições. Acham exagero denunciar o drama? Tanto quanto transformar uma moléstia em mito e espalhar o pavor. No lugar da mínima responsabilidade testemunhamos o autoritarismo sendo aperfeiçoado usando o slogan do risco. Isto tudo sob a licenciosidade das mídias que, se livres, escolheram ser sócias voluntárias dos governantes contra os governados e a opinião pública. Ouviu-se mais de um ancora de TV cochichar nos bastidores a mesmíssima frase “tem mais é que apavorar mesmo”. Sob a indecência das mordaças psicológicas, com a previsível corrosão da linguagem, não foi difícil imaginar por que é que todos fomos calados, sem que nenhuma boca se insurgisse. De fato, insurreições foram registradas, sempre por causas parasitas, periféricas, sublevações secundárias, motins autoritários, fúteis e até engraçados diante da superficialidade das reivindicações. Então surgiram os “anti”, aqueles que só se importam com a vida de alguns — e ocasionalmente defendem suprimir as demais se for para melhor testar suas teses. E, finalmente, emergiram aqueles que usaram as múltiplas fantasias conspiratórias para desconstruir as verdadeiras ameaças. Não sou otimista nem pessimista. É que as vezes sou tomado por uma estranha credulidade: cultuo a alegria imotivada. Soa imperdoável? Para desespero de muitos hoje a pandemia — assim como seus instrumentadores — está saindo de foco. A pressão evolutiva sobre o vírus está resultando em menos mortes, ele ainda se espalha, mas a gravidade da doença se arrefece e não só porque hoje já há alguns tratamentos eficientes. Recorro ao sempre presente Professor Titular de Patologia Walter E. Maffei: “o vírus não quer matar o paciente”, precisa se propagar. Mas há uma analogia pedagógica merece ser mencionada: o veneno, assim como parte significativa dos políticos, também aprendeu a fórmula para permanecer entre nós: vão continuar nos dando dor de cabeça sem nos aniquilar completamente. E como num zoom out, as piores cenas, ainda bem, vão ficando cada vez mais distantes. Sob as usinas de lives, as telas com poluição visual de rostos justapostos vinham criando uma estética mortificadora. O único sinal externo de que a anormalidade insiste em tornar-se normativa são as máscaras e as fantasias por trás de cada uma delas. Afinal, quem ordenou tudo isso? E quem foi que nos acusou de não estamos gratos por continuar vivos? Podemos estar solidários com quem sofreu e ao mesmo tempo declarar emancipação das políticas governamentais. Nossa sobrevivência não pode ser mais creditada ao Estado provedor, aos populistas confessos ou aos saqueadores da subjetividade à espreita da próxima crise. A desumanização começa com a uniformização e termina com a arte e cultura reféns da ideologia. Quando superarmos esta fase será graças aos esforços individuais, ao sacrifício silencioso das maiorias torturadas pela tirania de ofício. Infelizmente nem mesmo o rodízio no poder, a última salvaguarda para a democracia, parece ter deixado claro o que precisamos. O que os bem pensantes nunca imaginariam — e detestam a sensação, pois é um território que não conseguem entender — é que eles perderam a hegemonia. Se há um risco que vale a pena correr — em oposição ao determinismo dos cultores do apocalipse — é precisamente o risco da esperança. — É que na tradição judaica — eu deveria ter tentado explicar à moça encapotada — a árvore que nos habita abriga mais de um tipo de papiro, com fibras que misturam prudência com ousadia. Propositalmente artesanal, o papel é temperado para que a tinta do Único sele, carimbe e nos inscreva no livro da vida.  

https://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/diario-do-apartamento-6-o-risco-da-esperanca/

Avalanche de perguntas impertinentes (Blog Estadão)

              Avalanche de perguntas impertinentes

“Democracia são dois lobos e uma ovelha decidindo sobre o que vão comer no jantar” Benjamin Franklin

Por que aceitamos partidos que declaram que querem abolir as eleições? Por que os populistas costumam ter êxito? Por que a desinformação instrumental é preponderante? Por que a manipulação política do medo ainda nos guia? Por que a constituição está sendo devorada por carunchos? Por que tecnologias de Inteligência Artificial pode passar a definir o futuro dos seres naturais? Por que os políticos podem ignorar as regras constitucionais? Por que estamos submetidos ao monopsismo que mimetiza diversidade? Por que aceitamos que outros assumam decisões que seriam exclusivamente nossas? Por que achamos razoável que meia dúzia dos homens mais ricos do mundo definam o destino da Terra? Por que naturalizamos os supremacistas do bem? Por que a pandemia inspirou/operacionalizou/operacionalizara formas totalitárias de ordem social? Por que a legislação permite que partidos que pregam a supressão das liberdades individuais participem das eleições? Por que os legisladores estão acima das leis? Por que os burocratas apreciam a lentidão da justiça?  Por que quem julga os membros da sociedade não podem ser julgados? Por que a alcunha de “inimigos da democracia” está sendo aplicada indistintamente a quem ousa perguntar por urnas auditáveis? Por que estamos correndo o risco de que uma parcela da sociedade tutele a maioria? Por que a leniência é seletiva? Por que o maniqueísmo político opera dando a impressão de que temos consenso? Quem disse que autorizamos reset? Quem afirmou que acataremos um poder que decrete o fim das Nações? Quem são os tutores da (des)informação? Por que precisamos obedecer a decretos de quem não tem legitimidade? Por que a democracia não cria mecanismos para protegê-la de quem — usando o álibi do discurso da luta para defendê-la — articula sua destruição?  Quem autorizou os checadores de fatos para censurar interpretações divergentes das suas? Quem está aplicando uma lei marcial para populações inteiras por argumentos sem consenso epidemiológico? Por que a perplexidade não estimula a ação? Por que o estoicismo mata aos poucos? Por que o envelhecimento está sendo criminalizado? Por que os líderes vêm com carga genética dominante de narcisismo? Por que quando estamos perto ficamos cada vez mais longe? Por que a fé é um exercício de luta contra o ceticismo? Por que ao modo das manadas, nos deixamos arrastar à multidão errática? Por que o tempo muda o curso do espaço? Por que nos isolamos em bunkers quando não há guerra? Por que as reuniões do poder dos representantes do povo ocorrem nos bastidores? Por que as eleições livres permitem mordaças eletrônicas? Por que aceitamos o sumiço do centro? Quem resolveu abolir a declaração de conflito de interesse?  Por que prosseguimos como se nada tivesse acontecido? Por que capitulamos frente à opressão que adiante nos esmagará? Por que o populismo vinga(se)? Por que o maniqueísmo ainda é a força que domina a cena política? Por que acefalia política e populismo andam juntos? Por que a legislação eleitoral permite partidos que instigam a intolerância? Por que toleramos a lei marcial? Quem se beneficia com ultimatos?   Por que a morte às vezes simula o que não pode prometer? Por que elegemos estas pessoas?

Elegemos?

O que estamos fazendo?

Seremos salvos aos 45 do segundo tempo?

Anti- Zionism is Anti-Semitism 2 – Memory Ticket (Blog Estadão)

Anti- Zionism is Anti-Semitism 2 – Memory Ticket

“Tolerance becomes a crime when applied to evil”

Thomas Mann (The Magic Mountain)

The French national assembly after a discussion that lasted more than a decade passed a resolution and decided that anti-Zionism (hatred of Israel) is anti-Semitism. 

“The National Assembly… believes that the operational definition used by the International Holocaust Remembrance Alliance allows for a more precise designation of what contemporary anti-Semitism is ” , the text of the resolution reads partially:

“He considers it an effective instrument to combat anti-Semitism in its modern and renewed form, as it encompasses expressions of hatred for the State of Israel justified only by its perception as a Jewish collective.” (Times of Israel, 03, 12, 2019)

And it is not difficult to understand why the French did so, and it would be expected that all civilized countries would follow them as an example of respect for civilization and intellectual decency.

Less than 75 years after the end of World War II, the world is witnessing a growing wave of xenophobia. Anti-Semitism has been the fastest growing ethnic prejudice in recent years. Records of attacks against Jews were recorded in 2019. The number of attacks was even much higher than until then considered the height of intolerance, just before the start of the great conflict that ended in 1945. In the USA alone, 2100 violent incidents were reported. 

So I come back to a subject that was the subject of an extensive previous article published here in this same Blog Conto de Notícias . One of the candidates for mayor of one of the largest cities in the world belongs to a party, Psol , whose platform – and not just its members alone – explicitly declares, against all available evidence , that Israel is a state that practices genocide against the Palestinian people.

In addition to the rhetorical exaggeration of the party of the current Psol candidate for the mayor of São Paulo, we quote a statement contained in its platform – “the Bush administration was the one who most ostensibly practiced it, declaring support for Israel and its massacre, saying that Hamas is terrorist ”according to an article taken from the party’s own website in 2018. The truth, however, is that there is a consensus of the international community that after prolonged investigations with civilian and military experts of various nationalities that there is no evidence that there was ” massacre” and that Hamas is a terrorist organization and as such has been classified by the United States, the European Union and most civilized countries.

The party’s website is filled with exhortation to hate and false news, such as the one published in the same vehicle in January 2019, the truth is that comparing the holocaust with alleged carnages committed by the Israeli defense forces with the massacres promoted by the Nazi army, it is well beyond being pathetic. German national socialism and its partners responsible for the systematic policy of extermination inside and outside concentration camps murdered 6 million Jews.

The party in question adopts threatening slogans, vows of hatred and hostility without context or moral equivalence, and a particularly lying provocation:

In another section of the “article” (sic) the truth is once again tortured with slogans such as classifying the Israeli regime as “neo-Nazi” (sic). In this case it is the reality that protests since, contrary to what the party’s scribing militants claim, the legitimacy and support for the State of Israel is growing even in the Arab world and the Israeli army is among the most ethical in the world, according to the archives of the UN itself.

“In Israel, as in Germany in the third Reich, it is a state that can only be sustained on the basis of genocidal and racist militarism.” Here is another anecdote from a party that does not even try to hide its anti – Israel belligerence and, therefore, against all the Jews who found peace and refuge there after the Shoah . And they found protection and welcome not only in that country, but also in places like Brazil, where people are used to living in harmony and mutual acceptance. Peaceful coexistence that seems to disturb the hard core of the association. 

These are just a few examples of irresponsible disinformation, with the potential to incite hate crimes, always under the alibi of support for the Palestinian people and the Manichean argument of generalization. They don’t even blush when they support the Iranian theocratic and homophobic regime and embark on the anti- American psychosis that still haunts a significant portion of the left. It is not selective blindness. It is not naivete. It is at most a perverse modality of Hiroo Onoda syndrome , a soldier of the Japanese imperial army, who until 1974 lived hidden in the jungles of the Philippines without knowing that the war was over. In the case of this party, manipulation and intellectual dishonesty for the purpose of political propaganda is more than evident. 

Although the candidate dodged the inquiries made for him during the campaign, Christians, evangelicals, Jews and all public opinion would be very interested in hearing from the mouth of the candidate who aspires to rule the city in which they live. What does he really think about all this? And it was not for lack of questions or opportunity to offer your answers. It seems, however, that the subject has opted for tacit silence when it comes to manifesting his anti-Israel bias . That is to say, it will only have to pronounce itself – which its party already does with the four winds – only when the electronic ballot boxes are sealed.

Psol’s platform of accusations against the Hebrew State is much more extensive and includes burning the Israeli and US flag (Demonstration in Rio de Janeiro, 2012), threatening to expel members of the party itself who did not follow the anti-Israel booklet , accusing Shimon Peres of “genocide”, in addition to the sequence of baseless accusations as we saw above. All this released unscathed, without the checkers facts have verified the facts, as indeed always happens that the facts do not deny that ideology checkers defend.

Recently, a small group of people who claimed to represent the Jewish community made a video declaring support for this party’s candidate. The problem is that they did it stealthily, implying that they were speaking on behalf of everyone. Controversies arose and responses circulated on social media. But this is just a side effect of something much bigger: the disintegrating power of the rhetoric of political camouflaged hatred.

Fortunately, Jews are constitutively a plural people, in which there are several currents of thought, preferences and even multiple ideologies. It was the accumulative memory of the persecutions, and the almost genetic density that is revealed not only in the psyche, but in the body itself, that has guided the meaning of this survival experience. As the experience is an individual sensation, the sensations – of perseverance and affirmation of identity – end up manifesting in a very particular way in each spirit. And therefore, as Freud observed in relation to the Jews: an admirable resistance associated with the peculiar ability to survive the bad weather.

But even in the midst of so much diversity, there has been at least one aggregating consensus among adherents of the Mosaic tradition: there is, never was, tolerance for intolerance.

Not even with intolerants.

This perception did not come only through reading, culture and even parental education, it emerged from the experience and matured through this experience of six millennia, since such an ancient people have a moral obligation to keep themselves as a living archive. And so, use your memories as self-addressed tickets to the future. These must be read in more acute moments in order to avoid tragedies and to face the vicissitudes of history with courage.

The PSOL , its candidate and employees deserve some thanks, as proved by default, but with all the colors, the claim that anti-Zionism – or hatred of Israel – is, in fact, a vicarious expression of anti-Semitic hatred.

And then , I use the memory note where it is written in bright ink: “we will never let it happen, never again”. 

O Som dos omissos (Blog Estadão)

Eis o som dos omissos.

Por que não se expressam?

O que está ocorrendo no interior das cortes?

Que tipo de reino nos preparam?

Quem desfila nas passarelas da casa dos representantes?

Que leis formulam?  Quais legislações perduram?

Por que a cidade foi escondida?

Por que não se expressam?

Porque sabem o valor do medo

E conhecem o silencio que assusta.

Por que não se expressam?

O que há de tão especial ai, no planalto distante?

Manter a opinião pública calada,

A sociedade aviltada?

Planejaram quadras desertas e estradas estreitas

Constranger a circulação? Caminhadas rarefeitas?

Por que não se expressam?

Porque usam aqueles que vociferam te esperando na entrada

Há boatos que virão e devastarão a terra devastada

A ameaça veiculada por palavras de desordem

E narrativas viciadas no conflito

Vez por outra, invasão, veneno, vírus, espoliação, arbítrio

Do front, um porta-voz grita,

Enxergam-se flamulas, um exército de anarquias

A fumaça subindo dos acampamentos

Por que não se expressam?

Os bacharéis não se abalam com o alvoroço

Cultivam feras criadas, guardadas à espreita

Por que não se expressam?

E o que dissimulam nas leis que reformulam?

Por que não se expressam?

Porque eles podem vir hoje, ou nunca

A audácia é oportuna

Por que não se expressam?

Porque precisam do movimento desordenado

Preferem as massas, repudiam sujeitos

Intuíram, que singularidade e emancipação

São problemas avessos à solução

Por que não se expressam?

Porque querem justificar vitórias antecipadas

Notaram que há quem subscreva a liberdade

Por que não se expressam?

Detectaram, eles e seus sequitos, devotos

que crescem os ruídos contra seus votos

Leis? Não formulam, qual atenção emulam?

Por que não se expressam?

Porque a inércia é exata, calculada

Desorientação pautada na bússola, viciada

Por que não se expressam?

Porque a casa de representantes opera na surdina

E a noite é o manto para reuniões nas madrugadas

Estais programando a neutralidade?

Por que não se expressam?

No luxo do parlamento, um magneto sem norte

As comendas e auto congratulações não param

Enquanto o povo vive à própria sorte

Por que não se expressam?

Para aumentar o volume das ameaças selvagens

E encobrir o rumor das urbes abandonadas

Porque enfim redigiram a lei sumária

Eis o som dos omissos

Por que não se expressam?

Porque calaram todos,

e a expressão,

já não é mais necessária.

https://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/eis-o-som-dos-omissos/

Fictitious Interview with Dr. Mure, the promoter of Homeopathy in Brazil – Paulo Rosenbaum (From 2012)

Homeopathy Day

On November 21, the day of Homeopathy in Brazil is celebrated, a date that provides a moment of reflection on the therapy created by Samuel Hahnemann and introduced in Brazil by the doctor Benoit Jules Mure.

In a fictional interview with Dr. Mure, Dr. Paulo Rosenbaum raises some questions that, from his point of view, are important for the current moment of Homeopathy.

Another day of homeopathy in Brazil and it is not difficult to recognize widespread demotivation. But is there any reasonable explanation for it?

Doctor Benoit Jules Mure had many concerns in mind. The expansion of the company’s horizon of action

medicine was one of them. A generous project compatible with the wishes of the society that asked for, and continues to ask for, sharing, dialogue, ethics and solidarity, whatever the medicine used.

To discuss this and other topics we were able to talk to Dr. Mure in Lyon, France:

Dr. Mure, On this day that we celebrate the introduction of homeopathy in Brazil, is there anything to celebrate? I say this because Mr. Always advocated that homeopathy play a much broader role. What pretense was that? Who granted this freedom to medicine?

BM – We are not asking for a place with allopathic societies and we raise, without fear, flag after flag, school after school. Religious men take sides with the medicine of sacrifice and spiritualism, against that of matter and selfishness. Our prayers sustain our dreams, our te Deum, our triumphs (Carta de Mure: Bulletin de la Societé Hahnemanienne de Paris, 1847, t. 2, 310)

We know it’s been a long time since you left, but I could take a quick look at the time of your time at

Brazil?

BM – We had a mass conversion process. Only a tenth of the population still adhered to the old systems, while all the rest strongly adopted medical reform. The College’s banks were practically deserted, and of the doctors it produced, half embraced Homeopathy … We had a second ministry shaken and modified because of the medical issue that was sweeping the whole of Brazil, from police inspectors to the State Council and the Chambers. The fight was open, fiery, declared … But as you know, I left Brazil in 1848, I don’t really know how things went in the last 172 years.

I know you miss Brazil, if you came back, what would you do today? (Mure looks around, takes off his glasses, and nostalgic leaves his combative voice on the side, a little unhappy):

BM- But, right now … now that we got so close, where did they all end up?

At this moment, I show him Ordinance 971 that should regulate the practice of integrative medicines in SUS. AND

I explain to Dr. Mure – someone had to do it – that in our days homeopathy, like all medicine, is no longer a cause with a philosophical cut, that today it fits only as one more technique among others and that Hahnemannian principles are in disuse. Mure is silent, pensive, looking at the piece of paper. What about that, Dr. Benoit?

BM – We did our part in spreading Homeopathy, both in Europe and in America, we can claim the founding of three institutes and fifty dispensaries … the conversion of one hundred doctors, the instruction of five hundred students, the reduction of mortality in entire nations , numerous works written in Italian, Portuguese, French and Arabic, two thousand articles in newspapers, trips across all latitudes, the dismantling

epidemics and contagions, the triggering of odious passions, indifference, persecution, envy, slander, defeats or draws, time, work and money lost forever.

They say there that homeopathy as we know at least is disappearing. Which message

would you leave homeopathic doctors today who are somewhat astonished around the world?

BM – If Providence evidently supported us during a test superior to our strength, we were worthy of this favor, practicing, above all, the salutary maxim: “Help yourself that heaven will help you”

Cf Mure, B. Patogenesia Brasileira, Ed. Roca, São Paulo, 1999 and Benoît Mure ”, Ch. Janot – Homeopathie

Moderne , February 15, 1933). ■

Dr. Paulo Rosenbaum , physician and writer.

Fictitious Interview with Dr. Mure, the promoter of Homeopathy in Brazil – Paulo Rosenbaum (From 2012)

Homeopathy Day

On November 21, the day of Homeopathy in Brazil is celebrated, a date that provides a moment of reflection on the therapy created by Samuel Hahnemann and introduced in Brazil by the doctor Benoit Jules Mure.

In a fictional interview with Dr. Mure, Dr. Paulo Rosenbaum raises some questions that, from his point of view, are important for the current moment of Homeopathy.

Another day of homeopathy in Brazil and it is not difficult to recognize widespread demotivation. But is there any reasonable explanation for it?

Doctor Benoit Jules Mure had many concerns in mind. The expansion of the company’s horizon of action

medicine was one of them. A generous project compatible with the wishes of the society that asked for, and continues to ask for, sharing, dialogue, ethics and solidarity, whatever the medicine used.

To discuss this and other topics we were able to talk to Dr. Mure in Lyon, France:

Dr. Mure, On this day that we celebrate the introduction of homeopathy in Brazil, is there anything to celebrate? I say this because Mr. Always advocated that homeopathy play a much broader role. What pretense was that? Who granted this freedom to medicine?

BM – We are not asking for a place with allopathic societies and we raise, without fear, flag after flag, school after school. Religious men take sides with the medicine of sacrifice and spiritualism, against that of matter and selfishness. Our prayers sustain our dreams, our te Deum, our triumphs (Carta de Mure: Bulletin de la Societé Hahnemanienne de Paris, 1847, t. 2, 310)

We know it’s been a long time since you left, but I could take a quick look at the time of your time at

Brazil?

BM – We had a mass conversion process. Only a tenth of the population still adhered to the old systems, while all the rest strongly adopted medical reform. The College’s banks were practically deserted, and of the doctors it produced, half embraced Homeopathy … We had a second ministry shaken and modified because of the medical issue that was sweeping the whole of Brazil, from police inspectors to the State Council and the Chambers. The fight was open, fiery, declared … But as you know, I left Brazil in 1848, I don’t really know how things went in the last 172 years.

I know you miss Brazil, if you came back, what would you do today? (Mure looks around, takes off his glasses, and nostalgic leaves his combative voice on the side, a little unhappy):

BM- But, right now … now that we got so close, where did they all end up?

At this moment, I show him Ordinance 971 that should regulate the practice of integrative medicines in SUS. AND

I explain to Dr. Mure – someone had to do it – that in our days homeopathy, like all medicine, is no longer a cause with a philosophical cut, that today it fits only as one more technique among others and that Hahnemannian principles are in disuse. Mure is silent, pensive, looking at the piece of paper. What about that, Dr. Benoit?

BM – We did our part in spreading Homeopathy, both in Europe and in America, we can claim the founding of three institutes and fifty dispensaries … the conversion of one hundred doctors, the instruction of five hundred students, the reduction of mortality in entire nations , numerous works written in Italian, Portuguese, French and Arabic, two thousand articles in newspapers, trips across all latitudes, the dismantling

epidemics and contagions, the triggering of odious passions, indifference, persecution, envy, slander, defeats or draws, time, work and money lost forever.

They say there that homeopathy as we know at least is disappearing. Which message

would you leave homeopathic doctors today who are somewhat astonished around the world?

BM – If Providence evidently supported us during a test superior to our strength, we were worthy of this favor, practicing, above all, the salutary maxim: “Help yourself that heaven will help you”

Cf Mure, B. Patogenesia Brasileira, Ed. Roca, São Paulo, 1999 and Benoît Mure ”, Ch. Janot – Homeopathie

Moderne , February 15, 1933). ■

Dr. Paulo Rosenbaum , physician and writer.





The curious univocal voice of the media

https://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/a-curiosa-mensagem-univoca-das-midias/

Is that the voice? And why does it seem unanimous? Can the message be univocal? Is that what I hear? As if all news agencies have a single source, and come from a kind of world journalism center. Can we draw an analogy with the idea of ​​party centralism? What about the diversity of opinions?

For this very reason many have been waiting for men who come from outside. Half of humanity? A visibly growing desire for political ” outsiders”, people who do not have their profiles pre-established by the booklets of the bureaucracy of power. For many, this is unforgivable since only citizens who have been in their inertial offices for decades have the right to indefinitely extend their mandates. One can discuss his methods and manners, but the irrational hatred of Trump also goes through this confessive class corporatism.

Bypassing those who define themselves by schemes of the day before and who make diplomacy and agreements their breadwinners alienated from public opinion. We believed in changes, but we forgot about a vital topic: the gear has its procedures and when threatened, it starts the process of self – regulation , the one that sustains the deviations in the Republics.

We have been subject to being systematically uninformed – through the selection and censorship of news – while the intellectuopoly moves forward without expressive questions. The increasingly audible silence of intellectuals has become taboo. They come through consensus that no one asked for, unsustainable agreements that were imposed without prior consultation, opinions that come together in the form of a single block of thought. This also happens below Ecuador. Installed, there is a singular information regime that has now started to dictate one side of events.

There is nothing new, every silicon valley has openly engaged in the American election campaign. And they used electronic pages to suppress or exalt information.  Supposedly neutral digital babysitters who now have the power to state whether there is a fact or it is just the divergent version of one of them. News is now marked as “false” or partially false “, which is basically the same.

It is not just a matter of contesting the current or future election results (since the error will persist) as if only one side did not have the right and even the duty to exhaust the legal measures offered by the legal system. The fact is that the system agreed with whom – evoking democracy – waved and won support from well-known tyrants and dictatorships of convenience. Just to be an example: how can one explain, above all, the meek connivance with the theocratic, misogynistic and homophobic regime of the ayatollahs and their confessed nuclear aspirations?

While billions were distracted by the multiplicity of conspiracy theories, the plot would come ready. Democracy is in agony and has nothing to do with polarization – an effect taken for granted. It is rather an innocent architecture stitched together by a status quo that is intended to be hegemonic and does not allow contestation. It is the supremacism of good intentions. False canons of devotion to the common good have been created that fight for us (sic) against the selfish agents of the private world, these bad people. From this perspective only one motto is prevalent, the establishment that represents the monopoly of the good cannot lose. The very same goes on here. They may fulanize , but the problem is not and never was in the personalities, but in dangerous distortions of the evaluation criteria. If the corporate elite did not catch on badly, it would publicly endorse – as it is well known that they do it with little mouth – Pelé’s famous phrase that “the people don’t know how to vote”. Exception made – if confirmed – to the current US election.

Meanwhile, the network of united broadcasters has already decided who won, there, where justice can still reverse the announcement and prevail, calculations can be redone since we are facing polls that are happily auditable by independent agencies. They may or may not change the result, but it is important to point out that what happened in these elections was much more than the electoral dispute. Confidence in information systems that was already unstable has been broken, a few more steps have fallen in the citizens’ credibility index and this behavior will forever mark an era. From surveys to headlines, the era of instrumentalization of information, once exclusive to the regimes of totalitarian states, has now focused on the owners of major social networks. Even worse, censorship can be legitimized as a private action, well beyond the control of the State itself.

The democracy that works must not, cannot be confused, contrary to what its representatives claim using empty slogans. The new terminology abuses language devices: when the opposition is organized, the consortium calls it polarization, when hate finds ways, and endorsement, to express itself, it is never the responsibility of violent movements – true armed paramilitary gangs – that use looting and intimidation as weapons of political pressure. The story is lavish in showing headline archives that today exposed should incite regret, such as “Hillary Won” and “Al Gore is the new president”.

If the news media still wants to preserve the status of an institution – and, undoubtedly, it should be considered one of them – it is urgent that it revise its criteria for partisan voluntarism. That twist or distort their political desires as individuals. It may be appropriate for talk show hosts or comedians, but it is certainly not reasonable for commentators especially when they cannot control their stadium emotions in public. Or ostensibly use simulations and early projections that, just 4 days ago, had already announced victory and graduated one of the candidates.

Who will be responsible if, due to inconsequential advances in results, more divisions in society are instigated? Or does it not matter now? Now, polarization goes through this type of vehicle crowd that should contain and embody the tacit and sober neutrality of those who expect analytical rigor and a hermeneutical truth woven through a dialectical interpretation of the facts. It is increasingly rare to encounter non-ideological analysts. Even if they are devotees of some rating system, they should state their conflicts of interest when presenting their theses to the viewer public. That you have the opportunity to express your opinion, as long as you explain your bias. By refusing to expose this tendency to the public, what is done is political party propaganda, emulating exemption and neutrality.

The free press only becomes effectively “free”, emancipated and independent when the awareness of its institutional role is above the passions, private interests or the taste of some ideological bias.

Without this care, we will have more and more partisan writing committees installed in the media – and outside of them – shrinking spaces for reflection and debate that advance knowledge.

There is still time – scarce – for self-criticism.

A curiosa mensagem unívoca das mídias (Blog Estadão)

É essa a voz? E por que ela parece ser uníssona? É isso que ouço? Como se todas as agencias noticiosas tivessem uma fonte única, e viessem de um central mundial de jornalismo. Alguma analogia com o centralismo partidário? E quanto à diversidade de pareceres? Por isso mesmo somos muitos esperando por homens que viessem de fora. De fora dos perfis pre-estabelecidos. Outsiders da política que se define por esquemas de antevéspera. Esquecíamos de um tópico: a engrenagem tem os seus procedimentos: o processo de auto-regulação que sustentam os desvios.

Somos desinformados enquanto o intelectuopólio avança como um tabu. Ele vêm através de consensos que ninguém pediu, acordos insustentáveis que foram impostos sem consulta prévia, opiniões que se reúnem na forma de um bloco de pensamento único. Um regime singular de informação que agora dita os acontecimentos. Pagens eletrônicas que podem afirmar se há um fato ou é a apenas a versão divergente de um deles. E estes são marcados como “falsos” ou parcialmente falsos”, o que no fundo dá no mesmo. Não se trata apenas de espernear, o sistema pactou com quem — evocando a democracia — vem acenando para tiranos e ditaduras de conveniência. Como se explica o silêncio dos democratas sobre a opressão na Venezuela? A mansidão pusilânime com a irresponsabilidade do Partido que comanda a China? Como se explica, sobretudo, a conivência com o regime teocrático misógino e homofóbico dos aiatolás e suas aspirações nucleares?

Eles chegaram com o complô pronto, enquanto bilhões se distraiam com a multiplicidade de teorias conspiratórias. A democracia agoniza e não tem nada a ver com polarização — um efeito tomado por causa — trata-se antes de uma nada inocente arquitetura costurada pelo status quo. Nesta perspectiva só um lema é prevalente, o establishment não pode perder.  Enquanto as emissoras decidiam quem venceu, lá, onde a justiça ainda pode prevalecer, cálculos estão sendo refeitos. Podem ou não mudar o resultado, mas o que se partiu foi mais do que uma disputa eleitoral, A confiança nos sistemas de informação que já se encontrava instável, despencou mais alguns degraus e o comportamento demarcará para sempre uma era. A era da instrumentalização da informação que antes era característica dos regimes totalitários.

A democracia que funciona não deve ser confusa, ao contrário dos seus representantes. A nova linguagem abusa dos artifícios de linguagem: quando a oposição se organiza o consórcio chama de polarização, quando o ódio encontra vias para se expressar ele nunca é responsabilidade de movimentos violentos. A história é pródiga em mostrar arquivos de manchetes que hoje expostas deveriam inculcar arrependimento, como, por exemplo, “Hillary Ganhou”e Al Gore é o novo presidente”. Se a mídia jornalística ainda deseja preservar o status de instituição — e deveria mesmo ser considerada uma — é urgente que ela revise seus critérios de partisãn. Que torçam ou distorçam como indivíduos. Pode ser apropriado para apresentadores de talk show ou humoristas, mas decerto não é razoável para comentaristas que não conseguem controlar suas emoções em público ou simulações e projeções precoces que, há apenas 4 dias já haviam anunciado vitória para um dos candidatos.

De quem será a responsabilidade se, em função de adiantamentos inconsequentes mais divisões na sociedade forem instigadas? Ou isso não importa? Ora, a polarização passa por este tipo de torcida de veículos que deveriam conter e encarnar a neutralidade tácita e sóbria de quem se espera rigor analítico. Isto, sem que o cada vez mais raro analista não ideológico tenha a oportunidade de expressar sua opinião, desde que ele a explicite como tal.

A imprensa livre só se torna efetivamente “livre” quando a consciência de seu papel institucional estiver acima das paixões de interesses ou de viés ideológico. 

Sem estes cuidados, teremos cada vez mais comitês de redação partisans instalados nas mídias — e fora delas — e menos espaços de reflexão.    

 https://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/a-curiosa-mensagem-univoca-das-midias/

Por uma Medicina Antropológica (Blog Estadão)

Paulo Rosenbaum

“É previamente necessário tentar uma gradação quando se trata de determinar a essência da medicina antropológica. O primeiro grau seria a psicanálise; o segundo a medicina psicossomática; e o terceiro seria a medicina antropológica”

Viktor von Weizsäcker (1886–1957)

Em meio a polêmica da ideologização das condutas terapêuticas e da perplexidade da opinião pública com a confusão gerada por orientações contraditórias apresentadas durante a pandemia, pode-se afirmar que há, no mínimo, um problema sério de comunicação entre a ciência e a sociedade. Ela é consequência das dificuldades que os divulgadores da ciência e as autoridades sanitárias tem tido para dar respostas satisfatórias à SarsCov2?

A tentação seria responder que sim, mas é evidente que o problema não está limitado ao momento atual. Ele se apresenta ciclicamente, mostrando que a complexidade é mais ampla e longeva. De qualquer modo a polêmica veio para ficar. Palavras e termos como “RT-PCR”, “imunidade de rebanho”…

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Por uma Medicina Antropológica (Blog Estadão)

“É previamente necessário tentar uma gradação quando se trata de determinar a essência da medicina antropológica. O primeiro grau seria a psicanálise; o segundo a  medicina psicossomática; e o terceiro seria a medicina antropológica”

Viktor von Weizsäcker (1886–1957)

Em meio a polêmica da ideologização das condutas terapêuticas e da perplexidade da opinião pública com a confusão gerada por orientações contraditórias apresentadas durante a pandemia, pode-se afirmar que há, no mínimo, um problema sério de comunicação entre a ciência e a sociedade. Ela é consequência das dificuldades que os divulgadores da ciência e as autoridades sanitárias tem tido para dar respostas satisfatórias à SarsCov2?

A tentação seria responder que sim, mas é evidente que o problema não está limitado ao momento atual. Ele se apresenta ciclicamente, mostrando que a complexidade é mais ampla e longeva. De qualquer modo a polêmica veio para ficar. Palavras e termos como “RT-PCR”, “imunidade de rebanho”, “testes sorológicos IgG e IgM”, “quarentena” “lockdowns” e até “reação vacinal” ficaram, subitamente, populares e hoje são debatidos nas redes sociais, dos laboratórios aos cafés.

Recentemente, sob o manto da acusação de que são todas práticas “pseudocientíficas” ou “não testadas”, que organizações midiáticas e pessoas por elas contratadas tem articulado ataques  irresponsáveis contra outras formas de atuação em medicina prejudicando diretamente aqueles que se encontram em tratamento.

E é sob o mesmo disfarce que os ataques também passaram a abranger as psicoterapias, yoga, práticas de relaxamento, meditação, hidroterapia e uma infinidade de outras formas de tratar e cuidar das pessoas. No Brasil, este recente incomodo parece ter sua origem comum em  lobbies de Brasília, profundamente incomodados com a introdução das medicina integrativas no SUS, através da PNPICS (política nacional de práticas integrativas e complementares no Sistema único de saúde, um plano suprapartidário e transgovernamental). É evidente que é preciso um discernimento do que são as práticas que tem um suporte racional, com embasamento teórico-prático e programa de pesquisas, distinguindo-as das demais.

No entanto, a atitude, de inspiração neo-inquisitorial, parte, ironicamente, de uma mui devota “associação de céticos profissionais” que agora hostilizam — com táticas de ética duvidosa  — aqueles que acreditam e vivenciaram eficácia em outras formas de conceber e praticar a arte de cuidar. Agressões que incluem os pacientes que fizeram escolhas por estas áreas.

Uma das questões centrais da medicina tem sido subestimada e parece propositalmente ausente de boa parte das discussões epistemológicas contemporâneas. O avanço da tecno-ciência na produção de insumos farmacêuticos associada à crescente — e bem-vinda — sofisticação dos diagnósticos, produziu um efeito colateral danoso: deslocou da medicina quase todas as questões ligadas ao sofrimento mental e à individualização dos sintomas. Isto colocado perguntamos, como as práticas médicas podem incorporar e lidar com a subjetividade de cada pessoa doente?

Via de regra, a saída tem sido remeter estes pacientes ao uso sistemático de drogas psiquiátricas. Mas a solução pode não estar em treinar clínicos gerais para administrar psicofármacos. O encaminhamento para o eufemismo chamado de “re-humanização da medicina” pode estar em dar um outro enfoque como resgatar uma perspectiva antropológica para a medicina.

Faço então algumas perguntas: no que a medicina é, por exemplo, distinta da ciência veterinária? Quais as distinções nas pesquisas clínicas realizadas em homens e nos animais? Quais as diferenças metodológicas de apreensão dos sintomas nas duas especialidades? E quanto à terapêutica? De que forma se investigam novas formas de drogas? Qual é a metodologia científica aplicada para investigar o efeito das substâncias medicinais?

Recorre-se a um velho argumento de que a diferença entre humanos e animais está na irracionalidade dos últimos porém há um erro quando se investiga a origem dessa informação. Por um lapso de tradução de copistas da Idade Média, a hipótese do filósofo Aristóteles de que o homem é um animal racional em contraposição aos “animais irracionais” foi mantida por mais de dois milênios. Na verdade, Aristóteles, em seu Historia Animalum escreveu que os animais usam apenas uma outra forma de lógica.

Outra distinção pode ser encontrada em uma das primeiros registros da civilização. Na axiologia judaica a primeira referencia ao ser humano na Torá, a “Bíblia hebraica”, é a palavra hebraica “medaber”, cujo significado é “falante”. O correto seria dizer que o realmente distintivo entre homens e animais seria a capacidade de verbalizar, a faculdade da fala.

Esta peculiaridade, única nos seres humanos, é que nos transforma em  seres singulares, que conseguem produzir narrativas. Voltando ao filósofo grego, segundo ele o que também nos diferencia dos animais além da linguagem falada é a capacidade de evocar espontaneamente a memória. Assim, como seres que se expressam pela fala e que conseguem evocar a memória de acordo com a vontade é que podemos nos considerar sujeitos.

Que tal examinar onde estes conceitos impactam a medicina?

Foi o fundador da medicina técnica, o médico grego da ilha de Cós, Hipócrates, quem inventou a história clinica e foram médicos que seguiram essa tradição vitalista que defendiam que a medicina deve se ocupar da totalidade dos sujeitos, e não apenas limitar-se a abordar suas mazelas físicas já que elas invariavelmente vem junto com alterações do humor e da disposição mental.  Segundo Charles Lichtenthaeler[1], “a história da medicina poderia ser resumida como retornos sucessivos a Hipócrates”. Essa inquietante síntese já é em si um importante aforismo, que merece reflexão especialmente por ter um componente verdadeiro.

De fato, se pensarmos na revalorização do saber empírico, na capacidade observacional e na sistematização adquirida para narrar o que pode ser constatado a partir das evidências clínicas produzidas ou testemunhadas, tudo isso amplia sua consistência. O “retorno sucessivo a Hipócrates” se dá não porque há um desejo nostálgico de reviver suas obras, mas porque ele parece resumir, notavelmente, o “fazer” da arte médica. Como afirmou Galeno “Não acredito, como habitualmente, nos testemunhos de Hipócrates,  acredito porque vejo que suas demonstrações são consistentes; é esta a minha razão para louvá-lo.”

A história da medicina também nos ajuda a lembrar que médicos como Xavier Bichat, Van Helmont, Thomas Sydenham, e o alemão Samuel Hahnemann (1755-1843) já haviam sugerido uma forma de capturar nos estudos experimentais o resultado da ação dos medicamentos quando as pessoas são a eles expostos: frisando exatamente o aspecto da narrativa como uma das metodologias possíveis para compreender o sofrimento e a patologia dos sujeitos enfermos, e,  portanto decidir quais eram as melhores alternativas terapêuticas.

É portanto ainda o espaço generoso da anamnese (cuja etimologia significa “recordar de novo”) um instrumento maravilhoso, que pode nos trazer os sintomas (cuja etimologia significa “algo a mais”) que junto com os sinais obtidos através do exame físico e a análise dos exames subsidiários, guiam o médico naquilo que é o aspecto mais importante para fundamentar sua atuação e posterior avaliação dos resultados.

Mas quais resultados?

Muitas funções, catárticas e não catárticas entram em operação quando alguém chega para durante uma consulta relatar o que sente e como sofre. A função sossegadora ou catártica é uma função da fala descrita por Muller-Freienfels (Entralgo, 1950). Trata-se de um tipo de função notificadora, pois na intimidade daquele que notifica há nivelação afetiva e, quiçá, sossego. Conforme o historiador da medicina Pedro Lain Entralgo apontou, “a elocução adequada tem, sempre, ainda que em quantidades muito variáveis, um efeito catártico.”

Trata-se de aspecto tão importante para o constructo relacional entre paciente e médico, que Entralgo ainda divide catarsis ex ore (produzida pela elocução ativa) e catarsis ex auditu determinada pelo fato de se ouvir adequadamente e conclui, afirmando: “Não é possível construir uma doutrina psicoterápica sem discutir a fundo estas duas formas da catarse verbal.”.

Esta capacidade de extrair uma história clínica capturando não só todos os sintomas, mas também extrair os aspectos biopatográficos requer uma reformulação da educação nas ciências da saúde.  E vai contra o modo como habitualmente os profissionais são ensinados na maioria das escolas médicas. E portanto, deve decorrer de um treino permanente. Às vezes, vale dizer, exige um destreino.

Por que?

O neurologista espanhol Ramón Sarró em sua introdução do livro de antropologia médica de Viktor von Weizsäecker fez uma interessante comparação na perspectiva da Medicina Antropológica: “Cada caso é respeitado em sua individualidade e sempre fica uma margem de indeterminação e até de mistério. Em Weizsäcker, diferentemente de Freud, respeita-se o mistério no homem e o divino no homem, e em nenhum momento se considera que ele é um ser inteiramente elucidado, nem sequer elucidável em sua integridade.”*

Weizsäcker reitera que “todas as células do organismo são susceptíveis de adquirir uma função expressiva”. Mas apesar desta função simbólica e expressiva dos sintomas ser uma realidade clínica, segundo ele, não devemos confundir expressividade de uma função com sua tradução em termos semiológicos”.

E reitera:

“Não se vence o pretenso materialismo complementando simplesmente a ciência do corpo com o estudo da alma. Só mediante a introdução do sujeito no objeto daremos um passo com o qual conseguiremos afastar o perigo da mera objetividade. A partir deste ponto começa a antropologia médica.” **

As escolas de Medicina, mesmo as melhores, geralmente concentram-se  a ensinar os médicos na disciplina de Propedêutica e Semiologia, em como fazer uma anamnese, buscar os sintomas objetivos, cataloga-los,  tudo para que se possa ser capaz de formar um quadro diagnóstico plausível da patologia a ser tratada, e estabelecer a terapêutica e um prognóstico mais adequado e eficaz.

O objetivo deste direcionamento é compreensível. Precisamos achar os sintomas, identifica-los e encaixa-los em árvores nosológicas cada vez mais complexas, e assim estabelecer um nome correto para a moléstia. No entanto, estabelecer o diagnóstico nosológico e dispensar os medicamentos e condutas corretas será suficiente para determinar qual a melhor terapêutica e encaminhamento quando se trata de uma medicina que está baseada em sujeitos? Charles Richet, o médico-pesquisador que descreveu o fenômeno da anafilaxia, escreveu “Quando aprofundarmos a fisiologia geral e a fisiologia das espécies, poderemos abordar a fisiologia dos indivíduos, aquela que todavia ainda não foi esboçada”.

Como se vê não nos referimos  exclusivamente às chamadas medicinas integrativas. Falamos sim da medicina lato sensu. Se a medicina deseja recuperar para si a tradição humanista que foi cedendo lugar à hipertrofia da biotecnologia aplicada às ciências da saúde, o resgate começa com a recuperação da linguagem e o significado do sofrimento para cada um. Uma vez que cada pessoa tem uma modo muito particular de adoecer e também uma forma muito particular de estar sã.

E como explicou a psicanalista francesa Elizabeth Roudinesco, sempre que surgem novas doenças a medicina também sempre encontra novos tratamentos. Mas, ao mesmo tempo, quando some uma patologia ela cede lugar a outra “quando a sífilis foi controlada apareceu a AIDS, quando a psicoterapia encontrou uma forma de tratar a histeria, testemunhamos uma epidemia de depressão”.

Há aqueles que argumentam que uma divisão de trabalho foi estabelecida entre médicos e profissionais da área psi e a expertise deve ser respeitada. Ou seja, experts devem resolver isoladamente os problemas: a mente e o corpo, devem estar, mais uma vez, didaticamente separados.

Isso também significa que um médico deve se ocupar do tratamento tendo em vista a especificidade da queixa clínica e da moléstia diagnosticada. Ora, essa observação poderia ser uma saída, se, e somente se não houvesse uma crise batendo na porta dos sistemas de saúde. Se a OMS estiver certa naquilo que previu o relatório de uma reunião feita em Geneva, no ano de 1988, de que neste nosso século XXI teremos prevalência dos distúrbios psíquicos. Afinal estaríamos entrando naquilo que o texto nomeou como o “século da depressão”.

Há, portanto, um dilema na medicina preventiva que alerta, por um lado para o custo excessivo para manter os recursos médico-hospitalares direcionados para doenças já estabelecidas, e, de outro, a extrema insatisfação (estudos multicêntricos indicam que ela é mundial) com os serviços de saúde mundo afora. Este aspecto piorou muito durante a recente pandemia em função de múltiplos fatores: isolamento social, crise socioeconômica sem precedentes, aumento da vulnerabilidade dos assim chamados grupos de risco e a enorme pressão exercida sobre crianças e adolescentes durante as medidas de isolamento social, afinal elas foram amplamente nomeadas como “as principais transmissoras assintomáticas do vírus” .

Já em 2018 a então primeira ministra do Reino Unido apontou uma Ministra de Saúde extra só para estudar e encaminhar ações para a prevenção do suicídio, pois só no ano de 2017 houve um alerta dada uma epidemia de suicídios onde 4.500 pessoas tiraram a própria vida. não sabemos ainda a extensão dos dano psíquicos que a política de saúde de isolamento social sistemático — a a fobia induzida — causará na população, todavia estudos preliminares já indicam que os índices de depressão e perturbações mentais de toda ordem cresceram de forma assustadora.

Outro aspecto que merece atenção é investigar melhor como ocorrem as curas. Pesquisadores notaram que a maior parte dos estudos epidemiológicos são destinados a compreender como as doenças surgem e evoluem, mas são bem mais raros aqueles que tentam apreender como elas são curadas.

Muito recentemente, pesquisadores israelenses estão tentando — enquanto pesquisas mundiais de três décadas pesquisam uma vacina eficaz — estudar como acontecem curas espontâneas por exemplo, de AIDS, em países africanos. Pois eles acabaram descobrindo aspectos muito peculiares sobre o auto reciclagem do sistema imune frente às informações recebidas pela agressão viral.

Voltando ao nosso tema central, por que então a insistência em retomar uma medicina do falante, onde a tecnologia jamais será excluída, mas entra apenas como subsidiária e acessória que é o lugar ao qual sempre deveria ter pertencido? Anacronismo? Nostalgia? Recusa em aceitar a certificação conferida pelos ensaios clínicos controlados? Que tal apostar que é porque existe uma demanda por um outro tipo de cuidado e escuta?  Que é porque assim a sociedade exige? Porque as pessoas precisam se expressar como se sentem e não acham suficiente apenas ser fonte de pesquisa de sintomas para formulação de um diagnóstico e respectivo tratamento.

Portanto, ao chegar neste ponto precisamos aceitar que a medicina especificamente humana é de fato, uma medicina do falante. De um precioso espaço onde o enfermo pode expressar a modalidade das suas queixas e sofrimentos, com contexto e características individuais sem que isso seja excludente da linha de medicina adotada.

A medicina antropológica está portanto acima da curiosa divisão ideológica contemporânea entre céticos e crentes, entre progressistas e conservadores, medicina pública e privada,  e especialmente entre medicina standard e integrativa. A medicina antropológica é a medicina do especificamente humano e segue a diretriz da recomendação contida no aforismo do poeta Alexander Pope, “o estudo apropriado para a humanidade é o homem”.

[1].      Charles Lichtenthaeler, La médecine hippocratique: méthode expérimentale et méthode hippocratique – étude comparée préliminaire, Lausanne, Lês Frères Gonin, 1948.

* Cf.  Weizsäcker, “El Hombre Enfermo, uma Introdução a Antropologia Médica” op.  cit. pág. XX.

** Id. ibidem, pág. 183