Antissionismo é Antissemitismo 2 – Bilhete da Memória (Blog Estadão)

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Antissionismo é Antissemitismo 2 – Bilhete da Memória

“A tolerância torna-se um crime quando aplicada ao mal”

Thomas Mann (A Montanha Mágica)

A assembleia nacional francesa depois de uma discussão que durou mais de uma década passou uma resolução e decidiu que o antissionismo (o ódio à Israel)  é antissemitismo.

“A Assembleia Nacional… acredita que a definição operacional usada pela International Holocaust Remembrance Alliance permite a designação mais precisa do que é o anti-semitismo contemporâneo ”, lê-se parcialmente o texto da resolução:

“Considera-o um instrumento eficaz de combate ao antissemitismo em sua forma moderna e renovada, na medida em que engloba manifestações de ódio ao Estado de Israel justificadas apenas pela percepção deste como um coletivo judeu.” (Times of Israel, 03, 12, 2019)

E não é difícil compreender porque assim fizeram os franceses, e seria de se esperar que todos os Países civilizados os seguissem como um exemplo de respeito à civilização e de decência intelectual.

Menos de 75 anos do final da Segunda Guerra Mundial, o mundo testemunha uma crescente onda de xenofobia.  O antissemitismo foi o preconceito étnico que mais cresceu nos últimos anos. Record de ataques contra judeus foram registrados no ano de 2019. O número das agressões foi inclusive muito maior do até então considerado ápice da intolerância, pouco antes do início do grande conflito que terminou em 1945. Somente nos EUA foram reportados 2100 incidentes violentos.

Portanto volto a um assunto que já foi tema de um extenso artigo anterior publicado aqui neste mesmo Blog Conto de Notícia. Um dos candidatos a prefeito de uma das maiores cidades do mundo pertence a um partido, o Psol, cuja plataforma – e não apenas seus membros isoladamente — declara explicitamente, contra todas as evidencias disponíveis, que Israel é um Estado que pratica genocídio contra o povo palestino.

Para além do exagero retórico do partido do atual candidato do Psol a prefeitura de São Paulo citamos declaração contida em sua plataforma – “o governo de Bush foi quem mais ostensivamente o praticou, declarando apoio a Israel e a seu massacre, dizendo que o Hamas é terrorista” conforme artigo retirado do próprio site do partido do partido em 2018. A verdade, porém, é que há consenso da comunidade internacional de que após prolongadas investigações contando com experts civis e militares de várias nacionalidades de que não há nenhuma prova de que houve “massacre”e de que o Hamas é uma organização terrorista e como tal foi classificada pelos Estados Unidos, União Europeia e a maioria dos países civilizados.

O site do partido é repleto de exortação ao ódio e notícias falsas, como as publicadas no mesmo veiculo em janeiro de 2019, a verdade é que comparar o holocausto com supostas carnificinas cometidas pelas forças de defesa de Israel com os massacres promovidos pelo exército nazista, está para bem além de ser patética. O nacional socialismo alemão e seus sócios responsáveis pela política sistemática de extermínio dentro e fora dos campos de concentração assassinou 6 milhões de judeus.

Já o partido em questão adota palavras de ordem ameaçadoras, votos de ódio e hostilidade sem contexto ou equivalência moral, e uma provocação particularmente mentirosa:

Em outro trecho do “artigo”(sic) a verdade é mais uma vez torturada com slogans como classificar o regime israelense de “neonazista” (sic). Neste caso é a realidade que protesta já que ao contrário do que afirmam os militantes escribas do partido, a legitimidade e apoio ao Estado de Israel é crescente inclusive no mundo árabe e o exército de Israel está entre os mais éticos do mundo, conforme arquivos da própria ONU.

“Em Israel, tal como foi na Alemanha do terceiro Reich, se trata de um estado que somente pode sustentar-se sobre a base de um militarismo genocida e racista”. Eis mais uma anedota de um partido que nem tenta ocultar sua beligerância anti- Israel e, portanto, contra todos os judeus que encontraram lá paz e refúgio depois da Shoah. E acharam proteção e acolhimento não só naquele País, mas também em lugares como o Brasil, onde os povos estão acostumados a viver em harmonia e mútua aceitação. Convivência pacífica que parece  incomodar o núcleo duro da agremiação.

Estes são apenas alguns exemplos de desinformação irresponsável, com potencial para incitar crimes de ódio, sempre sob o álibi de apoio ao povo palestino e o argumento maniqueísta da generalização. Sequer se enrubescem quando apoiam o regime teocrático e homofóbico iraniano e embarcam na psicose anti norte americana que ainda assombra  parcela significativa da esquerda. Não é uma cegueira seletiva. Não é ingenuidade. Trata-se no máximo de uma modalidade perversa da síndrome de Hiroo Onoda, soldado do exército imperial japonês, que até 1974 viveu escondido nas selvas das Filipinas sem saber que a guerra havia acabado. No caso deste partido, fica mais do que evidente a manipulação e a desonestidade intelectual com finalidade de propaganda política.

Apesar do candidato ter se esquivado das indagações feitas para ele durante a campanha, cristãos, evangélicos, judeus e toda a opinião pública teriam muito interesse em ouvir da boca do candidato que aspira governar a cidade no qual habitam. O que afinal ele realmente pensa sobre tudo isso? E não foi por falta de perguntas ou oportunidade para oferecer suas respostas. Parece, entretanto, que o sujeito optou por um silêncio tácito quando se trata de manifestar seu viés anti-Israel. Vale dizer, só deverá se pronunciar — o que seu partido já faz aos quatro ventos — apenas quando as urnas eletrônicas estiverem lacradas.

A plataforma de acusações do Psol contra o Estado hebreu é muito mais extensa e inclui queimar a bandeira de Israel e dos EUA (Manifestação no Rio de Janeiro, 2012), ameaça de expulsão de membros do próprio partido que não seguissem a cartilha anti-Israel, acusar Shimon Peres de “genocida”, além da sequência de acusações infundadas como vimos acima. Tudo isso divulgado de forma incólume, sem que os checadores de fatos tenham verificado os fatos, como aliás acontece sempre que os fatos não desmentem a ideologia que os checadores defendem.

Recentemente, um pequeno grupo de pessoas que dizia representar a comunidade, judaica elaborou um vídeo declarando apoio ao candidato deste partido. O problema é que o fizeram de forma furtiva, dando a entender que falavam em nome de todos. Surgiram polêmicas e respostas circularam nas mídias sociais. Mas este é apenas um efeito colateral de algo muito maior: o poder desagregador da retórica do ódio camuflado de libelo político.

Felizmente, os judeus são, constitutivamente, um povo plural, no qual cabem várias correntes de pensamento, preferências e até mesmo múltiplas ideologias. Foi a memória acumulativa das perseguições, e a densidade quase genética que se revela não só no psiquismo, mas no próprio corpo, que tem orientado o sentido desta experiência de sobrevivência. Como a experiência é uma sensação individual as sensações — de perseverança e afirmação da identidade — acabam se manifestando de uma forma muito particular em cada espírito. E portanto, como Freud observou em relação aos judeus: uma resistência admirável associada à capacidade peculiar de sobreviver às intempéries.

Mas mesmo em meio a tanta diversidade, tem havido pelo menos um consenso agregador entre os adeptos da tradição mosaica: não há, nunca houve, tolerância com a intolerância.

Nem com os intolerantes.

Essa percepção não veio somente através da leitura, da cultura e nem mesmo pela educação parental, emergiu da vivência e amadureceu através desta experiência de seis milênios, já que um povo tão antigo tem a obrigação moral de se conservar como arquivo vivo. E assim, usar suas memórias como bilhetes auto endereçados ao futuro. Estes devem ser lidos em momentos mais agudos a fim de evitar tragédias e enfrentar com coragem as vicissitudes da história.

O psol, seu candidato e colaboradores merecem algum agradecimento, já que provaram à revelia, mas com todas as cores, a tese de que antissionismo — ou ódio a Israel — é, de fato, uma manifestação vicariante do ódio antissemita.

E ai, recorro ao bilhete da memória onde está escrito com tinta rutilante:  “não deixaremos acontecer, nunca mais”.

Anti- Zionism is Anti-Semitism 2 – Memory Ticket

Under the threat of having an overtly anti-Semitic mayor in the city of São Paulo, Brazil, with the support of the mass media, I thought it important to publish this article in English as a denunciation of what is happening in the country.

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In a lecture recently held at the Bait Jewish Center, the poet, essayist and writer Nelson Ascher focused on a theme that is often banned or superficially addressed: is anti- Zionism anti-Semitism? The blog News Tale gave an overview of his remarks and added reflections that also involved the problem of reliability of the news and the fake news , the political turmoil in Europe, the role of mass immigration and Islamo -fascismo, who is not left is right or maybe just “non-left”?

Ascher started by using an absolutely synthetic statement to answer his own question

“Why does anti-Semitism exist and endure?”

“Because it always worked”

How does it work and what is the past and contemporary meaning of its effectiveness?

In stating that Zionism was a kind of “second-degree nationalism ” and that there are other “Zionisms” being gestated in Europe due to a lack of identification between the social democracy practiced by the European parliament and the countries it governs. It follows that “second-degree nationalism” can be understood as a reactivity of peoples to attempts to interfere with their customs beyond territorial and financial unity. In this sense, is Europe soon to be threatened by several movements similar to Brexit ?  

In 2018 we had a disturbing record for the number of anti-Semitic attacks in Germany, France and more recently in the United States. If there is no European unlink the current status quo of the refugee crisis that allowed the entry of nearly 2 million people (countries of immigrants from North Africa – the vast majority, frise- are not refugees) coming from intolerant cultures violently anti-Semitic. The problem therefore is more in immigration policy, which seems to have no clear criteria than immigrants themselves. 

The debate has been banned by the systematic evocation of terms prohibited by a censoring euphemism better known as “politically correct”. Any mention of the wild immigration flow has been labeled ” Islamophobic “. It is also self-evident because the expression ” Judeophobia ” is not given the same treatment . The insistence of a large part of the media to condemn Israel a prioristically, in the headlines and in the declarations, attests to this. In the recent crises with the Gaza Strip ruled by the terrorist organization Hamas – and its Iranian proxies – the headlines show the nonsense and prejudiced bias of a significant part of the news media. “Israel attacks Gaza” is the most common call, this after Israel received almost 500 rockets against civilian populations in less than 48 hours. Importantly, as has been emphasized more than once that such terrorist organizations have nothing to do with the the official government of the Palestinians and its president. They are illegal fronts, which actually oppress and hold the people of Gaza hostage. 

According to Ascher, there is a particularity in the case of European anti-Semitism, which often uses the justificationism of the anti-Zionist alibi. It is essential to analyze the role – direct or indirect – played by Angela Merkel and other leaders on that continent. 

Still according to his analysis, some of these self-titled governments of social democracies, regularly pay tribute to Jews killed in the Shoah (Holocaust) and in fact publicly condemn anti-Semitism, which has been outlawed. However, while giving funeral speeches under self-lashes, they neglect the dramatic and explicit aggressive climate against Jewish communities. While other countries seem to do the reverse. In the case of Hungary – a country that you follow the policy with particular attention – we have an example of this apparent paradox: there we have a government classified as extreme right (sic), but it is, at the same time, one of the places where contemporary Jews they seem to be safer when compared to the situation in other European countries. The paradox is only apparent: while a significant part of the left-wing parties chooses to cluster around old anti – Jewish conspiracy theories – formerly the monopoly of the extreme right – there is now a new and incendiary component to be accounted for: as defined by Umberto Eco , it is the Islamo -fascismo.

How can it be explained then that nations that even make the mea culpa frequent for their responsibilities in the genocide practiced by the Nazis with the participation of several other countries, but remain inert in the face of the epidemic of anti-Jewish intolerance that today sweeps Europe, if not with impunity, counting with the omissiveness of governments.

Ascher then recommends the following inflection: what is the “Democratic Rule of Law”. The former president Mubarak for example was directly undermined by Obama’s foreign policy and sequence the Muslim Brotherhood won the elections in Egypt. As we know, the “Brotherhood” is one of the oldest radical Islamic associations. A strategic ally of the Nazi party is today an admittedly jihadist entity . He won by a large margin defeating all moderate parties in what would be one of the first elections in the Arab country in decades. Shortly afterwards, the population itself understood the error and took to the streets – in an event that was wrongly classified as “Arab Spring” – asking for the deposition of the newly elected, which effectively ended up through a military coup led by General Sissi. 

At the time, several analysts attributed the phenomenon of the election of Morsi – recently killed by a heart attack – to an error in the timing of the democratic process: IM was the only organization to keep its structure intact during the subsequent dictatorships that lasted and, therefore, the only one able to compete in the election as an almost exclusive option in that suffrage of a plebiscitary character. Considering the episode, what is the Democratic Rule of Law anyway?

If only an understanding of the historical-political context can define it, what is its consistency?

Right and left have their wild vices and classifications. In turn, those who do not fit the postulates of the left are liable to be labeled right or extreme right. Only “not left” or “not right” is not allowed. Many members of the North American Democratic Party and the English Labor Party – centered on the figure of Corbyn – have instrumented the discourse of the struggle for Palestinian rights by sacrificing historical principles by openly defending anti-Zionist and anti-Semitic stances. This includes standing in defense of the aitolás theocratic regime and defending jihadist organizations – officially recognized by the European Parliament as terrorist entities – such as Hamas and Hezbollah. These are complaints that come from within the English labor party itself.

What would be the ideological and tactical significance of this political tour?

It is disturbing to know that many journalists have started to act in a militant manner. Selecting news according to more ideological standards than reporting facts. It seems obvious that the hermeneutic bias has taken on a much more powerful form than the facts. Even if neutrality is an idealized function, wouldn’t the original role of journalism be closer to encouraging the reader to make his own decisions than to doctrine it ? Not nowadays, when the fake news that comes from official sources are much more compromising – because they are supposedly unsuspected or less suspicious – than those advertised on social networks – always subject to double checking by the most careful users.

After the episode of the accusations of the defeated candidate for the presidency of the Republic, Ciro Gomes, who externalized his prejudice when he evoked “corrupts of the Jewish community”, the most recent Brazilian case of a statement accusing the Jews fell to the magazine “Isto É”. The broadsheet published unfortunate article explicitly anti-Semitic – with the pretext to accuse the current government communications secretary – using the motto compares it to the propaganda chief, Josef Goebbels’s infamous, marquetólogo the fuhrer . The magazine also used the accusatory term to fabulate and identify the enemy, again, “the Jewish community”. The title of the libelo would dispense with further explanations “O Goebbels do Planalto”.

In this sense, the attempt to sabotage the right of any subject of a certain ethnic group to work or act politically for a government that the columnist and the editorial direction of the pamphlet considers inappropriate is evident. In the absence of consistent arguments, the accusation will always fall on the ethnic condition that is most at hand. It sounds more often against Jews.

It is at this moment that we are very close to the impeachment of citizenship. And the suspension of the idea of ​​the secular state by those who should defend it . And so it was possible once again to evoke the myth, this one clearly neo-Nazi, that there would be a “Jewish plot”. Now, there are Jews of all political currents and nuances and the ethnic- religious condition could never be used as an alibi to generalize anything. Unless it is clear that the journalist or writer is already in the fragile intellectual condition of post-analysis . That is, what matters in any story is your personal beliefs and the starting point is already the ending point. Groundless generalizations such as those that routinely appear always start from an ideological, devotional, that is to say, fanatic bias. 

Is there not one of the roots of the discredit today attributed to regulated media in general? The manufacture of disinformation – increasingly identified by the speed and expansion of access to the diversity of information media – is not the very genealogy of false news? News that is now spreading with the magic of the web with frightening resourcefulness? Does this occur while it is possible to observe paradoxically a considerable advance of confidence in what is transmitted through social networks?

After all, what are ” fake news “? And what is its impact on the national and international political scene? Especially in the case of Israel that suffers a considerable number of attacks with financed media and paid blogs to spread, for example, hate speech and intolerance.

In this sense, it can be said that modern anti-Semitism has dressed up as an occasion for anti – Zionism . However , it is an improvised outfit. Under the demountable cloak that deserves to be demystified by serious journalism, there is selective respect for freedom of expression.

Just over 74 years after the end of World War II and the death of more than 60 million people, including 6 million and 250 thousand Jews (these dead after the end of the war when they tried to return to their European homes), the reality only reaffirms the vital importance of the existence of the State of Israel for the Jewish people and their security in the current historical moment. And despite the threats and the revival of the virulent wave of intolerance against the Hebrews, there has never been a time in human history when so few Jews died in massacres. The anti-Zionism then finally is revealed as just another veiled face of one of the most primitive archetypes and recurrent humanity.

Perhaps the great frustration of preachers of hate is that this time the scapegoat has a way of defending itself.

https://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/antissionismo-e-antissemitismo-1/

Diário do apartamento 6 – O risco da esperança (Blog Estadão)

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Ilustração – Nilda Raw – O.s.t 2018 “Tree of life”

O asteroide de 15 kilometros de diâmetro que há 66 milhões de anos atingiu a península de Yucatan no México extinguiu os dinossauros e quase toda a vida na superfície do Planeta. Segundo muitos, estamos aos 0,6 do início da segunda maior ameaça a vida, desta vez é a humanidade que será apagada. Até os não negacionistas sabem, que voltar ao trabalho não é uma escolha. É pedir muito voltar a aceitar uma condição que se remonta ao Gênesis e nos impôs que o sustento deveria ser obtido através do esforço? Ontem foi inevitável voltar a ter uma rotina fora de casa. Busquei disfarçar e tive que conter a satisfação enquanto caminhava até o escritório. Estava chegando no prédio quando fui interpelado por uma moça toda encapotada: — E essa cara feliz? Pego de surpresa, teria uma estranha capturado alguma euforia ignorada? –Pois é, estou retomando a rotina, primeiro dia. E até consegui esboçar um sorriso amistoso. –Ah, voltando a trabalhar? Ela aplicou um leve tom de censura à pergunta. — Uma hora teria que acontecer, minimizei. — Olha. Não sei não! E ela franziu as sobrancelhas. — O que é que você não sabe? E depois de ter me ensopado de álcool gelatinoso, já com o antebraço enfiado na porta de entrada, reflui dando um passo atrás. — Sei lá, o Sr. não é mais nenhum jovem, é grupo de risco, não acha que é muita ousadia? — Amiga, é aceitar o jogo e ir em frente, nos proteger, e, como dizem os ingleses, “espere pelo melhor”. E virei para seguir minha jornada. Ela não desistiu. — Está brincando? Neste caos no qual estamos metidos? É sério que você acha que vale a pena se arriscar? Eu se fosse você… Pois é. Ela não era eu, portanto não respondi e determinado, entrei no prédio para subir e começar a atender as pessoas que já estavam a minha espera. Pensei na facilidade com que a interpeladora me abordou para fazer observações não solicitadas. E cheguei a conclusão de que faz parte de uma mentalidade que tem virado epidêmica, todos devem estar disponíveis todo o tempo, todos são devassáveis, todos podem ser julgados e interpretados. Sabe-se que a palavra otimismo vem assumindo uma conotação pejorativa. O termo tem variado muito de significado, entre “ingênuo” e “cândido” e evoluiu rapidamente à “trouxa” e “imbecil”, podendo sempre descer mais, quando palavras menos nobres serão utilizadas. Chegamos a pensar seriamente que compreendíamos para onde caminhávamos. Mas, por pura incompetência, cessaram as fantasias de que seríamos reféns da tecnologia. E olhem que não esbarramos nos limites das órbitas distantes, na temível singularidade dos buracos negros, nem nas dimensões de estrelas que pelo tamanho escapam de toda estimativa matemática: a história registrará que entramos num estado de animação suspensa diante de um animalículo. O vírus (do latim,veneno) não se contentou em ser só mais um fenômeno da natureza. Transformou-se numa escatologia programada. Mas, antes, deu descomunal poder a quem nunca soube usa-lo da única forma que tornaria uma democracia realmente sustentável: benevolência e genuíno interesse pelos governados. Como disse em março o ex-juiz da Suprema Corte do Reino Unido, Sir Lord Jonathan Sumption, referindo-se a um evento que reprimiu pessoas que desafiaram o lockdown: “Eis a aparência de um Estado Policial”. No mundo todo o fato é que para mostrar serviço quando os governos não sabiam qual serviço mostrar, o poder e seus agentes impuseram, tergiversaram, emitiram versões paradoxais, criaram regras marciais, prenderam críticos e soltaram criminosos, aturdiram, espalharam desconhecimento, desorganizaram os incautos, mudaram leis, transformaram a medicina em armamento ideológico, e, finalmente, respaldados por extrapolações epidemiológicas a toque de caixa estão na iminência de prescrever soluções mágicas, apelidadas de experimentais. E o principal: deixaram quem mais precisava relegados a um lockdown espiritual intermitente. Aqueles que vem acusando o poder de promover bullyings de Estado contra os cidadãos podem ser etiquecados como desejarem , mas, sem dúvida é deles a coragem que falta às instituições. Acham exagero denunciar o drama? Tanto quanto transformar uma moléstia em mito e espalhar o pavor. No lugar da mínima responsabilidade testemunhamos o autoritarismo sendo aperfeiçoado usando o slogan do risco. Isto tudo sob a licenciosidade das mídias que, se livres, escolheram ser sócias voluntárias dos governantes contra os governados e a opinião pública. Ouviu-se mais de um ancora de TV cochichar nos bastidores a mesmíssima frase “tem mais é que apavorar mesmo”. Sob a indecência das mordaças psicológicas, com a previsível corrosão da linguagem, não foi difícil imaginar por que é que todos fomos calados, sem que nenhuma boca se insurgisse. De fato, insurreições foram registradas, sempre por causas parasitas, periféricas, sublevações secundárias, motins autoritários, fúteis e até engraçados diante da superficialidade das reivindicações. Então surgiram os “anti”, aqueles que só se importam com a vida de alguns — e ocasionalmente defendem suprimir as demais se for para melhor testar suas teses. E, finalmente, emergiram aqueles que usaram as múltiplas fantasias conspiratórias para desconstruir as verdadeiras ameaças. Não sou otimista nem pessimista. É que as vezes sou tomado por uma estranha credulidade: cultuo a alegria imotivada. Soa imperdoável? Para desespero de muitos hoje a pandemia — assim como seus instrumentadores — está saindo de foco. A pressão evolutiva sobre o vírus está resultando em menos mortes, ele ainda se espalha, mas a gravidade da doença se arrefece e não só porque hoje já há alguns tratamentos eficientes. Recorro ao sempre presente Professor Titular de Patologia Walter E. Maffei: “o vírus não quer matar o paciente”, precisa se propagar. Mas há uma analogia pedagógica merece ser mencionada: o veneno, assim como parte significativa dos políticos, também aprendeu a fórmula para permanecer entre nós: vão continuar nos dando dor de cabeça sem nos aniquilar completamente. E como num zoom out, as piores cenas, ainda bem, vão ficando cada vez mais distantes. Sob as usinas de lives, as telas com poluição visual de rostos justapostos vinham criando uma estética mortificadora. O único sinal externo de que a anormalidade insiste em tornar-se normativa são as máscaras e as fantasias por trás de cada uma delas. Afinal, quem ordenou tudo isso? E quem foi que nos acusou de não estamos gratos por continuar vivos? Podemos estar solidários com quem sofreu e ao mesmo tempo declarar emancipação das políticas governamentais. Nossa sobrevivência não pode ser mais creditada ao Estado provedor, aos populistas confessos ou aos saqueadores da subjetividade à espreita da próxima crise. A desumanização começa com a uniformização e termina com a arte e cultura reféns da ideologia. Quando superarmos esta fase será graças aos esforços individuais, ao sacrifício silencioso das maiorias torturadas pela tirania de ofício. Infelizmente nem mesmo o rodízio no poder, a última salvaguarda para a democracia, parece ter deixado claro o que precisamos. O que os bem pensantes nunca imaginariam — e detestam a sensação, pois é um território que não conseguem entender — é que eles perderam a hegemonia. Se há um risco que vale a pena correr — em oposição ao determinismo dos cultores do apocalipse — é precisamente o risco da esperança. — É que na tradição judaica — eu deveria ter tentado explicar à moça encapotada — a árvore que nos habita abriga mais de um tipo de papiro, com fibras que misturam prudência com ousadia. Propositalmente artesanal, o papel é temperado para que a tinta do Único sele, carimbe e nos inscreva no livro da vida.  

https://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/diario-do-apartamento-6-o-risco-da-esperanca/

The unique meaning of illness and other conceptual dignities in science * ** (Published in “Estado de São Paulo”, Newspaper)

“Life = sign activity.”

Thomas Sebeock

Recently, homeopathy and integrative medicines have come to be severely criticized. Precisely in a historical moment in which we imagined that, due to the dialogical capacity that science developed, sterile polemics would be overcome. It is worth noting that some criticisms cannot be ignored, but decontextualized attacks predominate, which, under the guise of selective skepticism, adopt an arbitrary stance, and, to a certain extent, of low scientific accuracy. 

This does not mean that there are no important gaps in the research program and in the scientific bases of medicines and integrative practices. At this point we are interested in trying to understand what is the pretext and context for warmongering? They emerged in the midst of a health crisis and in the face of the disturbing way in which techno-science has been addressing the current pandemic. It will not be bold to ask, I suppose, what would not be a “question of science?”, The platform headed by people – without any clinical experience in medicine – used to convey the objections.

Now, science is itself an issue. If it is fair to doubt “anything will do” in science – as Paul Feyrabend enunciated in his book “Against the Method” – the idea that there is only one methodology, a supreme monopsism of knowledge is laughable. That is to say, there would be a kind of “market reserve” of science, whose spokesman imagines at the same time, accusing, judging and issuing the verdict on the scientific status of a given knowledge is not only presumptuous, it exposes extremely ignorance about the functioning and historical development of scientific thought.

Health is, and will continue to be, a polysemic concept.

From the beginning: there is no consensus, neither conceptual nor terminological, on what health is, after all, because it is a truly polysemic concept. For example, is it just the absence of a disease? WHO itself denies this mechanical and reductionist version that seeks to circumscribe healing as a mere elimination of the disease. What is healing? Eliminate pathology only? Make the symptoms disappear? What about the mood, the mood, the mood? And in the field of mental health? Is it healthier for an individual more “adapted” to his environment? Some psychological currents would answer yes, while others would disagree. For integrative medicines, this adaptation is not always a health criterion and certainly removing the disease is not the only goal of therapy.

The logic of integrative medicine seeks a therapeutic action that will always be concerned with broader aspects: it takes into account the integrality of the subject’s clinical manifestations. It seeks to understand not only the clinical diagnosis and its respective treatment, but also to understand the real and imaginary idiosyncrasies, capturing through language the metaphors present in the report of the people being treated. It is not a question of stricto sensu psychotherapy , but it must be said that there are aspects beyond the physical complaints that need to be taken into account. Subjective complaints, people’s reports of life need to be accepted. They should even be used as a semiological reference. For what? So that the malaise no longer obstructs the free flow of life, one, if not the greatest harmful characteristic that the disease usually causes.

The subjective and the imaginary are part of the disease.

The professor of medicine, the neuropathologist Walter E. Maffei explained that the projection of images showing a cat was enough for those allergic to the fur of this animal to have some kind of reaction, showing that the fundamental susceptibility can start with the imaginary process of the subject. Maffei also sought to summarize the beneficial action of a successful therapy or drug as “shock organ deviation”, a process now clearly understood by modern immunology. That is, medical art, when used intelligently, would aim to produce interference which would lead the patient’s organism to a kind of “deviation” from the target organ, thus directing the organism to a safer anchorage, to a more superficial and / or less harmful. It may sound primitive, but this is how most drugs manage to relieve symptoms for most people.

Social impact and immediate resources.

In a situation like the one we are experiencing, homeopathic doctors, together with AMHB’s institutional support – in spite of government agencies and practically without financial resources – developed a care program (homeopathy at Covid) ** whose objective has been to help, provide free individualized medical support and information to the population in need of care during the pandemic.

Like Brazilian 19th century doctors who organized task forces against cholera and other endemic diseases, the understanding was that civil society actions are fundamental during health crises – but not only – especially when society is going through turbulent periods. It is a much less expensive way to offer care with a focus on primary health care.

In addition, from an integrative approach perspective, when we act on a person’s health, we also interfere with the people around them. There is already, it is assumed, a first impact on the social and support network, so that, in the end, it ends up articulating a change in the environment around the patient. This does not happen, of course, without certain clashes. In this process, a “superadapted” subject can abandon his passivity and start to have a more active attitude. And this more active attitude predicts that the conflict with the environment can end up becoming more intense. Anyway, overcoming passivity is a process that involves facing the conditions that prevent this flow.

Significant and meaning – language is semiology

One of the main rediscovery of the followers of this tradition initiated by the homeopathic doctor James Tyler Kent (1849-1916), was to observe that the elements that express the peculiar idiosyncrasy of each patient – sensations, imaginary contents, ideas, preferences, aversions, words, form of think etc. – can be referred to a series of minimum units, which he called themes. Accepting this point of view, the themes express, therefore, what truly disturbs the subject’s economy and can also be detected in people who received the stimulus of a drug substance.

During a treatment, it appears that people “themed”: that is, they give names to their psychic and physical, imaginary or real contents.

All communication that takes place during a medical consultation, regardless of the therapeutic orientation, ends up taking place through linguistic signs. Signs have two components: the signifier , which conveys information, and the meaning , the “message”, what the sign means. The relation of signification is not fixed: several meanings are attributed to the same signifier, and this depends on very personal references. As an old aphorism of medical experience teaches, in the clinic there is neither “always” nor “never”; all certainty depends only on the context of the subject who communicates.

In medicine, the first to use signs as semiological tools were Parmenides and Hippocrates. They used the equivalence system, signs used to code the symptoms present in clinical cases. However, they insisted on giving them an equivocal value, since the univocal value could only be attributed to the symptom in all its contextuality. It is due to Ferdinand de Saussure, however, the first linguistic conceptualization of the “sign”. This would consist of two elements: the referred concept (“meaning”) and the expression that refers to it (“significant”): sounds, words, graphic images, etc. It was Jacques Lacan, however, who broke the necessary correlation between signifier and signified (“signification”), by explaining that each subject builds his own significant chain, attributing particular meanings to the elements offered by the language of his environment (“signification”).

The immediate objective of a prescription is, therefore, to produce some kind of response through the drug stimulus. This answer is often translated by what the classic authors called “aggravation”. This would be a disorder voluntarily caused by the drug. With due proportions, it is somewhat analogous to what happens with vaccines. And it is the only way for the individual to get out of the previous conditions. A treatment can induce and cause disorders. The fabrics are ductile: they adapt easily to shapes. That is why the drug extends its action beyond the stricto sensu organs . Like a “chain reaction”, it causes changes in metabolism, sleep, dreams, and finally changes functions. When successful, the subject moves to a new homeostasis. 

Some basic researchers dedicated to the effects of infinitesimal drugs evaluate the effect of drugs in physiological terms: administering, for example, Digitalis purpurea in ultra-diluted doses to animals such as mice and frogs. They seek, for example, to measure the chronotropic and inotropic effects on cardiac musculature. Some have assessed the effects of serum serotonin levels, or how eventual “receptors” connect to mapped pharmacological sites. (Benveniste, 2002). These are truly useful contributions within a research program. 

But that is not all. It is noticed, however, that any clinical action mediated by homeopathic drugs (that is, drugs diluted and subjected to a vigorous kinetic action that contains information that produces interference in the living organism) is not limited to the punctual effects aroused by such drugs. Firstly, the differences between anima nobili (man) and anima vili (animals) must always be considered. Second, but not least, that in classical oriented homeopathy, not every individual with heart failure will take a specific medication directed exclusively to their underlying pathology. Hence, the clear limit when it comes to assessing the effectiveness of an integrative approach through the consensual gold standard for assessing the therapeutic efficacy of drugs such as RCTs (randomized clinical trials).

This was confirmed by practical knowledge: a medication is prescribed for a patient with, for example, rheumatoid arthritis, a well-known autoimmune pathology. Then, in addition to the relief of symptoms, there may be an improvement in addition, for example, alcoholism, a fact that had not even been reported to the doctor. In other words, there is strong evidence to suppose that medicinal substances, probably not only homeopathic drugs – but the therapeutic process as a whole, act in a systemic way and have repercussions beyond specific organotropic actions.

Every drug, whatever it may be, has the dreaded and unpredictable “side effects”, some are just strange, others are paradoxical. Negative semiological value can be attributed to these effects, which we can call idiosyncrasies, a very particular way of reacting. But we can value them in a very different way. It makes perfect sense to evoke these aspects especially in relation to the more this artificial controversy that has been registered about the validity or not of certain medicinal substances proposed for early treatment of symptoms produced by SarsCov2.

If there are doubts why are we so reluctant to test them without prejudice? Why certain a priori objections? Since when is this applicable within a scientific methodology? And if such drugs prove to be empirically effective, what is the problem with using them in an emergency situation, in a field where there are many more doubts than certainties, and lives could be spared?

It should be explained that according to an article published by the BMJ (British Medical Journal) in 2017, very few drugs have the certification called 1A, that is, of high relevance and statistical power, and to be more precise, only 10% of the 9451 therapeutic recommendations from the database. Dice.

Rationalists and Empiricals

The uproar surrounding the effectiveness of integrative medicines, with a false appearance of the unprecedented, is in fact rooted in aspects much earlier in the history of medicine: it is the famous, but little-publicized conflict between rationalists versus empirical. To locate the reader, I reproduce the following excerpt from the historian and researcher Harris Livermore Coulter:

“Fundamentally, what I discovered – or rediscovered – is the existence of a conflict in therapy between what is called empirical and rationalist philosophies. I use the word “rediscovered” because, in fact, doctors were aware of this conflict until the year 1800 or so, and medical histories written before that time discuss this conflict that dates back to Roman and Greek times. But after the middle of the 19th century, when medicine was dominated by technology, this primordial conflict was forgotten. However, the opposition between these two ways of thinking about medicine continued, albeit underground. Empirical and rationalist philosophies are two logical and consistent structures of thought that are, in all respects, entirely antagonistic to each other. The great medical thinkers belonged to one or the other of these two traditions. Minor thinkers, who are by definition less rigorous in their theorizing, generally represented eclectic combinations of the two main traditions. ”

And later, in the same article:

“What is the difference between the two doctrines? There are two particular factors that distinguish them from each other. Empiricism is vitalistic, while Rationalism is mechanistic in its approach to the living organism. And empirical doctrine always tends to individualize treatment, while rationalist doctrine invariably views the individual patient as a member of a group of diseases, class or entity and moves away from individualization. The representation of the primary relationship in medicine is the doctor sitting on one side of the table and the patient on the other side of the table, or the doctor standing beside the bed and the patient lying on the bed. The patient says many things to the doctor, and the doctor can see more with his own eyes. In addition, several tests can be done to develop data from and about the patient. The question is: what does the doctor do with this data when it is available? Empirical physicians saw these data as having maximum value in and of themselves. They did not try to penetrate below the surface, they did not try to speculate on what was happening inside the patient’s body, but they used the symptoms as data on which to base diagnosis and treatment. In other words, they distrusted anatomy and physiology as sources of medical knowledge – because anatomy and physiology are general and, as such, go against the empirical principle of individualization. Considering that certain physiological and pathological processes occur in humans as a class, the individual patient may or may not represent that particular class of patients. Each person is different from the average. The mean is an abstraction. Each patient is different and unique – this has always been the strong belief of empirical doctors. Thus, the only truly reliable information is that developed about that individual patient. ” The Journal of Orthomolecular Medicine Vol. 9, No.3, 1994

Although homeopathic experimental approach have peculiarities that make them much greater range of experiments, tests with medicinal substances ultra diluted – Call pathogenesis – would not be exclusive of homeopathic medicines: every time a patient ingests any drug, is making broad sensu an experiment by default, that is, it is producing symptomatology, as one of the most classic works of pharmacology teaches us:

“The application of the scientific method to experimental therapy, is exemplified in a well thought out and conducted clinical trial.” And further: “An effect of a drug that is not produced in a clinical trial can appear in clinical practice … Half or more of the beneficial and toxic effects of drugs, not recognized in the first formal trials, were later proven in practice doctor.” (Melmon et al., In: Goodman and Gilman, The Pharmacological Bases of Therapeutics, 1986: 58-9).

Therefore, it is well understood why new symptoms take time to be included in the list of side effects of a drug, which, over the years, only increase, as the use of the drug becomes popular.

The same criticism also applies to homeopathic medicines. The German doctor who systematized the use of substances based on a similar rule, Samuel Hahnemann, as well as later researchers experimentally observed that the spectrum of action of the drugs was much greater than he had initially supposed.

Why do idiosyncrasies matter for therapy?

It is a particularly complex issue for homeopathy. In his book Organon in paragraph 112 the (July 1991) relates to primary and secondary effects produced by homeopathic medicines. The primary effect of a drug is its action and the secondary effect, shows the reactivity of the subject who received the drug. 

Organon – Word of Greek origin ( ὄργανον ), whose closest meaning is “instrument”. The first Organon was written by Aristotle and, according to Lalande, inaugurates formal logic. Francis Bacon writes Novum Organon , a book that roughly rejects accidental inferences and knowledge not supported by methodical empirical observations. Hahnemann publishes the “ Organon da Arte de Curar”, whose subsequent editions underwent successive changes in its paragraphs until reaching the sixth and last edition.

For example, if the primary effect of Belladona , ( Atropa belladona ) in weighted doses, is a vasoconstriction, the secondary response will be a vasodilation. This is useful from a toxicological point of view: the same concept can apply to hyperacute intoxications with opiates. However, and this is what is decisive here, the secondary response is characterized by presenting itself with a kind of “personal signature”. Vaso-dilation, a reaction, does not come without added values: for example, it can be “hot”, “in tightness”, “oppressive”, “acidic”, “irritating”, “hammering”, “as if by a screw ”or be aggravated or relieved by“ sitting down ”,“ eating ”,“ climbing stairs ”,“ when crying ”,“ by the sea ”,“ when reading ”etc. The name “reaction or side effect” would be a mixture of the action of the drug and the particular reaction that the subject presents when exposed to the drug. This is of extraordinary value, because it is essential. It shows that a strict division between primary effect – secondary effect is not useful, because what essentially interests are the modalizing attributes of the action, of each response in totum .

The toxicologist Legrain would make an important collaboration when referring to the weight of the individual reaction in the intoxications, affirming the following:

“Finally, we would mention the vital importance of the individual reaction, which profoundly changes the clinical picture of the same intoxication and decreased the clinical value of toxic insanity as a morbid entity, making it just a modification, varying according to personal idiosyncrasies.” ( apud Tuke, 1892: 974).

Investigations that began in the nineteenth century and that extended to contemporary times showed that different toxics used by the same individual trigger similar psychic conditions; however, the somatic pictures produced are different, corresponding to each toxicant. In the opposite situation, when the same drug is used in different individuals, we will observe different psychic conditions – one for each individual – and a similar somatic condition for all those who have been subjected to the action of the toxic. These observations of experimental toxicology allow us to infer that the psychic susceptibility to the toxic substance depends rather on the individual mental peculiarity than on the toxic action itself.

These rules are found in the chapter on “Mental Syndromes in Intoxications”, in the Medical-Surgical Encyclopedia, written by Fournier and Gorceux, and were repeated in 1973, by JP Soubier and F. Caroli and C. Bismuth, who confirmed the hypotheses of work in an analogous chapter. Many of these doubts, extended to the use of synthetic drugs for clinical use, have also been stated in therapeutics and clinical trials (Coulter, 1992; Tallaway et al., 1964; Modell, 1960; Chassan, 1960). For homeopathy, however, these findings, instead of interfering with understanding as enigmas, have enabled an approach to this theoretical problematization area with some efficiency: homeopaths base their prescriptions on a semiological model that is centered on individual differences to build the model that will guide the therapeutic elaboration. In other words, there was a positive connotation to the idiosyncrasies, the mental and subjective state of the patients.

All of these aspects are essential to bear in mind that homeopathic treatment has a polysemic action over the whole. The clinician must know the action of each drug, but must also have an empirical notion of the vitality of the patients, that is, the operational way in which the mood and the individual disposition and the medication response of each sick person are manifested, in the here and now .

In short, what the theoretical and empirical developments in homeopathy have been progressively revealing, is that the identity of the suffering that leads a subject to seek assistance and, therefore, also the therapy that should be prescribed, can only be established when it is interpreted. the individual’s unique situation in his reactions and relationships. Its surroundings, history and context. And that should be universal, that is, applied to all medicine regardless of the type of medicine used.

Supported by narratives experimentally produced by experimental induction, which show peculiar and singular forms of discourses and subjective expressions, in the vitality (understood as this physical, mental and relational totality) of each subject. And this is only possible in the interaction between the therapist, the drug (s), the subject and their feelings and experiences. If there was nothing else that integrative medicines could contribute to science, they would at least have offered the purest rescue of the doctor-patient relationship. And homeopathy was lavish in this rescue because it made this relationship an essential part of its methodology.

Therefore, we affirm that the semiological act, as well as the therapeutic of homeopathy, only takes place as an authentic hermeneutic process. For they are always processes of elucidation of the meanings of the signs that body and mind, in their relations with the world, are emitting on the mode and degree of convenience of the state of both regarding the purposes and functions for which they turn. And this clarification is always reframing, since it can only happen in the context of the dialogue with the doctor.

This, through his own experiences and repertoires, the anamnesis he will use and the drugs he will prescribe, will make the patient’s speech, the narrative of his experiences and impressions, gain unprecedented conditions to express himself.

It was agreed to call the symptom note sheet “ record ”. In it, all patient data should be noted, along with the medications considered in each consultation, the semiological references used, repertorization and all the words, speeches, contexts and narratives with which the patient refers to his objective and subjective complaints.

Thus, paradoxically, the supposed epistemological “weakness” of this type of approach ends up being its main strength. This means that its methodological weakness would function as a humanizing element in the doctor-patient relationship. As if forcing the clinician to prolong and deepen the dialogue in search of more consistent semiological elements to prescribe, since technology and armed propaedeutics would only be subsidiary instruments for therapy. This, but not only this, would be one of the reasons for its permanence as knowledge, and, at the same time, it will continue to be a source for the attacks directed against it. Now, since the famous WHO Congress Alma-Ata, as well as in the report published in Geneve in 1988, there is a worldwide outcry for more “human” medicine with the forgiveness of the use of this euphemism. Where the quality of the therapist’s presence is a requirement. This characteristic, therefore, should not be ammunition for hostilities, but an extra quality to be revered within the integrative medicines.

It is, therefore, a legitimate fusion of horizons what happens in an integrative approach. With special emphasis on how this relationship occurs during a consultation in homeopathic medicine. That is why it is so important for an operating science – a term used by several epistemologists to define medicine – that it is recognized that there are other scientific models and epidemiological conceptual dignities in health sciences such as qualitative research, historical epistemology, narrative-based medicine. , patient-based medicine, health-related quality of life research, psychometric tests and scores – which have sufficient capacity to promote scientific validation of knowledge. 

Therefore, yes, one must use all types of journalistic vehicles, including those of great penetration, so that the non-specialized reader, before forming any judgment on a set of knowledge of a practice of two and a half centuries, is informed in a more comprehensive and honest.

It would also be appropriate to ask readers, when possible, when they hear criticisms against integrative medicines – usually without a right of reply – to also consult the contradictory arguments. For one can always give the false impression that science has a single voice, when in fact each arm of scientific research is, by definition, just another part of the score. It is there that the scientific spirit, knowing since the polyphony of knowledge will always be unfinished, and aware of its incompleteness, will seek the remaining musical notes, some forgotten in the past, to fit them in the symphony. 

* Article adapted from the doctoral thesis defended at FMUSP “ Between Art and Science: hermeneutic foundations of homeopathic medicine ”. Received the publication by Editora Hucitec, 2005, São Paulo. (“Health in Debate” collection)
** Also published on the AMHB (Brazilian Medical Homeopathic Association) website
https://amhb.org.br/o-significado-singular-do-adoecimento-e-outras-dignidades-conceitual-em-ciencia/

O significado singular do adoecimento e outras dignidades conceituais em ciência* ** (Publicado no site AMHB e Estadão)

O significado singular do adoecimento e outras dignidades conceituais em ciência* ** Paulo Rosenbaum

“Life = sign activity.”

Thomas Sebeock.

Recentemente a homeopatia e as medicinas integrativas voltaram a ser duramente criticadas.  Precisamente em um momento histórico no qual imaginávamos que, pela capacidade dialógica que a ciência desenvolveu, polêmicas estéreis estariam superadas. É bom frisar que algumas críticas não podem ser desconsideradas, mas predominam ataques descontextualizados, que, sob o manto do ceticismo seletivo, adota uma postura arbitrária, e, em certa medida, de baixa acurácia científica.

Isto não significa que não existam importantes lacunas no programa de pesquisas e nas bases científicas das medicinas e práticas integrativas. Neste momento nos interessa tentar compreender qual é o pretexto e contexto para o belicismo? Eles emergiram em plena crise sanitária e diante da forma perturbadora como a tecno-ciência vem abordando a atual pandemia. Não será ousado indagar, suponho, o que não seria uma “questão de ciência?”, a plataforma encabeçada por pessoas — sem nenhuma experiência clínica em medicina — usada para veicular as objeções.

Ora, a ciência é, ela mesmo, uma questão. Se é justo duvidar do “qualquer coisa serve” em ciência — conforme Paul Feyrabend enunciou em seu livro “Contra o Método” — a ideia de que só existe uma metodologia, um monopsismo supremo do conhecimento é risível. Vale dizer, existiria uma espécie de “reserva de mercado” da ciência, cuja porta voz imagina ao mesmo tempo, acusar, julgar e emitir o veredito sobre o estatuto científico de um determinado conhecimento não é apenas presunçosa, expõe gravíssima ignorância acerca do funcionamento e desenvolvimento histórico do pensamento científico.

Saúde é, e continuará sendo, um conceito polissêmico.

Do início: não há um consenso, nem conceitual nem terminológico, a respeito do que é, afinal, a saúde, pois se trata de um conceito verdadeiramente polissêmico. Por exemplo, é somente a ausência de uma doença? A própria OMS desmente esta versão mecânica e reducionista que procura circunscrever a cura como mera eliminação da moléstia. O que é curar? Eliminar a patologia apenas? Fazer desaparecer os sintomas? E quanto à disposição, o animo, o estado de espírito? E no campo da saúde mental? Será mais saudável um indivíduo mais “adaptado” a seu meio? Algumas correntes psicológicas responderiam que sim, enquanto outras discordariam. Para as medicinas integrativas nem sempre essa adaptação é um critério de saúde e decerto extirpar a moléstia não é o único objetivo da terapêutica.

A lógica da medicina integrativa busca uma ação terapêutica que sempre se preocupará com aspectos mais amplos: leva em consideração a integralidade das manifestações clínicas do sujeito. Busca compreender não só o diagnóstico clínico e seu respectivo tratamento, como entender as idiossincrasias reais e imaginárias, captar através da linguagem as metáforas presentes no relato das pessoas que estão sob tratamento. Não se trata de psicoterapia stricto sensu, mas é preciso afirmar que existem aspectos além das queixas físicas que precisam ser levados em consideração. As queixas subjetivas, os relatos de vida das pessoas precisam ser acolhidos. Devem inclusive ser usados como referencial semiológico. Para que? Para que o mal estar não mais obstaculize o livre fluir da vida, uma, senão a maior característica nociva que a moléstia costuma acarretar.

O subjetivo e o imaginário fazem parte da doença.

O professor de medicina, o médico neuropatologista Walter E. Maffei explicava que bastava a projeção de imagens mostrando um gato para que os alérgicos ao pelo deste animal tivessem algum tipo de reação, evidenciando que a suscetibilidade fundamental pode se iniciar pelo processo imaginário do sujeito. Maffei também procurava resumir a ação benéfica de uma terapêutica ou fármaco bem sucedido como “desvio de órgão de choque”, processo hoje claramente compreendida pela imunologia moderna. Ou seja, a arte médica, quando usada com inteligência, visaria produzir interferência a qual levaria ao organismo do paciente uma espécie de “desvio” do órgão-alvo, portanto direcionaria o organismo a uma ancoragem mais segura, a um local mais superficial e/ou menos nocivo. Pode soar primitivo, mas é assim que boa parte dos fármacos logra conseguir alívio dos sintomas para a maioria das pessoas.

Impacto Social e os recursos imediatos.

Em uma situação como a que estamos vivenciando, os médicos homeopatas junto com o apoio institucional da AMHB – à revelia dos órgãos governamentais e praticamente sem recursos financeiros — elaboraram um programa de atendimento (homeopatia na Covid)** cujo objetivo tem sido auxiliar, dar suporte médico individualizado gratuito e informações para a população que necessite de atendimento durante a pandemia.

Assim como médicos brasileiros do século XIX que organizaram mutirões contra o cólera e outras doenças endêmicas, a compreensão foi a de que ações da sociedade civil são fundamentais durante as crises sanitárias – mas não só — especialmente quando a sociedade atravessa períodos turbulentos. Trata-se de uma forma muito menos dispendiosa de oferecer atendimento com enfoque na atenção primária na saúde.

Além disso, numa perspectiva da abordagem integrativa, quando atuamos sobre a saúde de uma pessoa, interferimos também sobre as pessoas ao seu redor. Já há, aqui, supõe-se, um primeiro impacto sobre a rede social e de apoio, de maneira que, ao final, termina-se articulando uma mudança no ambiente em volta ao paciente. Isso não se dá, evidentemente, sem certos embates. Nesse processo, um sujeito “superadaptado” pode abandonar sua passividade e passar a ter uma atitude mais ativa. E essa atitude mais ativa prevê que o conflito com o meio pode acabar se acirrando. De qualquer forma, a superação da passividade é um processo que passa pelo enfrentamento das condições que impedem esse fluxo.

Significante e significado – a linguagem é a semiologia

Uma das principais redescobertas dos seguidores desta tradição iniciada pelo médico homeopata James Tyler Kent (1849-1916), foi observar que os elementos que expressam a peculiar idiossincrasia de cada paciente – sensações, conteúdos imaginários, ideias, preferências, aversões, palavras, forma de pensar etc. – podem ser referidos a uma série de unidades mínimas, a que chamou de temas. Aceitando este ponto de vista, os temas exprimem, portanto, aquilo que verdadeiramente perturba a economia do sujeito e também podem ser detectados nas pessoas que receberam o estímulo de uma substância medicamentosa.

Durante um tratamento, constata-se, que as pessoas “tematizam”: ou seja, elas dão nomes a seus conteúdos psíquicos e físicos, imaginários ou reais.

Toda comunicação que acontece durante uma consulta médica seja ela de qual orientação terapêutica for, acaba se realizando através de signos linguísticos. Os signos têm dois componentes: o significante, que veicula a informação, e o significado, a “mensagem”, aquilo que o signo quer dizer. A relação de significação não é fixa: diversos significados são atribuídos a um mesmo significante, e isso depende de referenciais muito pessoais. Como ensina um velho aforismo da experiência médica, na clínica não há nem “sempre” nem “nunca”; toda a certeza só depende do contexto do sujeito que comunica.

Em medicina, os primeiros a usar os signos como instrumentos semiológicos foram Parmênides e Hipócrates. Usavam o sistema de equivalência, signos usados para codificar os sintomas presentes nos casos clínicos. No entanto, fizeram questão de atribuir-lhes valor equívoco, uma vez que o valor unívoco só poderia ser atribuído ao sintoma em toda a sua contextualidade. Deve-se a Ferdinand de Saussure, entretanto, a primeira conceitualização linguística do “signo”. Este constaria de dois elementos: o conceito referido (“significado”) e a expressão que o refere (“significante”): sons, palavras, imagens gráficas etc. Foi Jacques Lacan, entretanto quem quebrou a correlação necessária entre significante e significado (“significação”), ao explicar que cada sujeito constrói sua própria cadeia significante, atribuindo sentidos particulares aos elementos oferecidos pela linguagem de seu meio (“significância”).

O objetivo imediato de uma prescrição é, portanto, produzir algum tipo de resposta através do estímulo medicamentoso. Esta resposta, muitas vezes, traduz-se pelo que os autores clássicos denominaram “agravação”. Esta seria um distúrbio voluntariamente provocado pelo fármaco. Guardada as devidas proporções, é algo análogo ao que acontece com as vacinas. E é a única forma para que o indivíduo possa sair das condições anteriores. Um tratamento pode induzir e provocar distúrbios. Os tecidos são dúcteis: acomodam-se facilmente às formas. É por isso que o medicamento estende sua ação para além dos órgãos stricto sensu.  Tal qual uma “reação em cadeia”, provoca alterações no metabolismo, no sono, sonhos, e finalmente modifica as funções. Quando bem sucedido desloca o sujeito para uma nova homeostase.

Alguns pesquisadores básicos dedicados aos efeitos de fármacos infinitesimais  avaliam o efeito dos fármacos em termos fisiológicos: administrando, por exemplo, Digitalis purpurea em doses ultra diluídas para animais como ratos e sapos. Procuram, por exemplo, mensurar os efeitos cronotrópico e inotrópico na musculatura cardíaca. Alguns avaliaram os efeitos dos níveis séricos da serotonina, ou como eventuais “receptores” se conectam aos sítios farmacológicos mapeados. (Benveniste, 2002). Trata-se de aportes verdadeiramente úteis dentro de um programa de pesquisas.

Mas isso não é tudo. Percebe-se, porém, que qualquer ação clínica mediada por fármacos homeopáticos (isto é, drogas diluídas e submetidas a uma vigorosa ação cinética que contém informação que produz interferência no organismo vivo) não se limita aos efeitos pontuais despertados por tais fármacos. Em primeiro lugar, há que considerar sempre as diferenças entre anima nobili (homem) e anima vili (animais). Em segundo, mas não menos importante, que na homeopatia de orientação clássica, nem todo indivíduo com insuficiência cardíaca tomará um medicamento específico direcionado exclusivamente à sua patologia de base. Dai, o limite claro quando se trata de avaliar a efetividade de uma abordagem integrativa através do padrão-ouro consensual para avaliação de eficácia terapêutica dos fármacos como são os ECR (ensaios clínicos randomizados).

Isso foi constatado pelo conhecimento prático: prescreve-se um medicamento para um paciente portador, por exemplo, de artrite reumatoide, uma conhecida patologia autoimune. Então, além do alívio dos sintomas, pode acontecer uma melhora de uma adição, por exemplo, alcoolismo, um dado que inclusive nem tinha sido relatado para o médico. Ou seja, são registradas evidências fortes para supor que as substâncias medicinais, provavelmente não só os fármacos homeopáticos — mas o processo terapêutico como um todo, age de um modo sistêmico e repercute para além das ações pontuais organotrópicas.

Toda droga, seja ela qual for, acarreta os temidos e imprevisíveis “efeitos colaterais”, alguns são apenas estranhos, outros paradoxais. Pode-se atribuir valor semiológico negativo a esses efeitos que podemos chamar de idiossincrasias, uma forma muito particular de reagir. Mas podemos valorizá-los de uma forma bem diferente. Faz todo sentido evocar estes aspectos especialmente em relação à mais esta polêmica artificial que vem sendo registrada sobre a validade ou não de determinadas substâncias medicinais propostas para tratamento precoce dos sintomas produzidos pela SarsCov2.

Se existem dúvidas por que tanta relutância em testá-las sem preconceitos? Por que certas objeções apriorísticas? Desde quando isso é cabível dentro de uma metodologia científica? E caso tais fármacos se provem empiricamente eficazes, qual é o problema em passar a usá-las em uma situação emergencial, em um campo onde existem muito mais dúvidas do que certezas, e vidas poderiam ser poupadas?

Convém explicar que segundo artigo publicado pelo BMJ (British Medical Journal) em 2017, pouquíssimas drogas tem a certificação chamada de 1A, isto é, de alta relevância e poder estatístico, e para ser mais preciso apenas 10% das 9451 recomendações terapêuticas do banco de dados.

Racionalistas e Empíricos

A celeuma em torno da eficácia das medicinas integrativas, com falsa aparência de inédita, encontra-se na verdade enraizada em aspectos muito anteriores na história da medicina: trata-se do célebre, mas pouco divulgado conflito entre racionalistas versus empíricos. Para situar o leitor reproduzo a seguir um trecho do historiador e pesquisador Harris Livermore Coulter:

“Fundamentalmente, o que descobri – ou redescobri – é a existência de um conflito na terapêutica entre o que se chama filosofias empírica e racionalista. Uso a palavra “redescoberto” porque, de fato, os médicos estavam cientes desse conflito até o ano de 1800 ou por aí, e as histórias médicas escritas antes dessa época discutem esse conflito que remonta aos tempos romano e grego. Mas depois de meados do século XIX, quando a medicina foi dominada pela tecnologia, esse conflito primordial foi esquecido. No entanto, a oposição entre essas duas formas de pensar a medicina continuou, embora subterrânea. As filosofias empírica e racionalista são duas estruturas de pensamento lógicas e consistentes que são, em todos os aspectos, inteiramente antagônicas uma à outra. Os grandes pensadores médicos pertenceram a uma ou outra dessas duas tradições. Os pensadores menores, que são por definição menos rigorosos em sua teorização, geralmente representaram combinações ecléticas das duas tradições principais.”

E adiante, no mesmo artigo:

“Qual é a diferença entre as duas doutrinas? Existem dois fatores particulares que os distinguem um do outro. O empirismo é vitalista, enquanto o Racionalismo é mecanicista em sua abordagem do organismo vivo. E a doutrina empírica tende sempre à individualização do tratamento, enquanto a doutrina racionalista invariavelmente vê o paciente individual como um membro de um grupo de doenças, classe ou entidade e se afasta da individualização. A representação da relação primordial na medicina é o médico sentado em um lado da mesa e o paciente do outro lado da mesa, ou o médico em pé ao lado da cama e o paciente deitado na cama. O paciente diz muitas coisas ao médico, e o médico pode ver mais com seus próprios olhos. Além disso, vários testes podem ser feitos para desenvolver dados de e sobre o paciente. A questão é: o que o médico faz com esses dados quando eles estão disponíveis? Os médicos empíricos viam esses dados como possuidores de valor máximo em si e para eles. Eles não tentaram penetrar abaixo da superfície, não tentaram especular sobre o que estava acontecendo dentro do corpo do paciente, mas usaram os sintomas como dados sobre os quais basear o diagnóstico e o tratamento. Em outras palavras, eles desconfiavam da anatomia e da fisiologia como fontes de conhecimento médico – porque a anatomia e a fisiologia são gerais e, como tais, vão contra o princípio empírico da individualização. Considerando que certos processos fisiológicos e patológicos ocorrem em humanos como uma classe, o paciente que se apresenta individualmente pode ou não representar essa classe particular de pacientes. Cada pessoa é diferente da média. A média é uma abstração. Cada paciente é diferente e único – esta sempre foi a forte convicção dos médicos empíricos. Assim, a única informação verdadeiramente confiável é aquela desenvolvida sobre esse paciente individual.” The Journal of Orthomolecular Medicine Vol. 9, No.3, 1994

Apesar de a abordagem experimental homeopática ter peculiaridades que tornam os experimentos de amplitude muito maior, os testes com substâncias medicamentosas ultra diluídas – chamadas de patogenesias — não seriam exclusivas dos medicamentos homeopáticos: cada vez que um paciente ingere uma droga qualquer, está fazendo lato sensu um experimento à revelia, isto é, está produzindo sintomatologia, como aliás nos ensina uma das obras mais clássicas da farmacologia:

“A aplicação do método científico à terapêutica experimental, exemplifica-se num ensaio clínico bem pensado e realizado.” E adiante: “Um efeito de uma droga que não se produz num ensaio clínico pode aparecer na prática clínica… A metade ou mais dos efeitos, benéficos e tóxicos, de drogas, não reconhecidos nos primeiros ensaios formais, foram depois comprovados na prática médica.” (Melmon et al., in: Goodman e Gilman, As Bases Farmacológicas da Terapêutica,1986: 58-9).

Portanto, compreende-se bem por que os sintomas novos demoram para ser incluídos na lista de efeitos colaterais de uma droga, que, com o passar dos anos só aumentam, conforme o uso do fármaco se populariza.

A mesma crítica se aplica também para os medicamentos homeopáticos. O médico alemão que sistematizou o uso de substâncias a partir de uma regra dos semelhantes, Samuel Hahnemann, assim como pesquisadores posteriores observou experimentalmente que o espectro da ação dos medicamentos era muito maior do que tinha suposto inicialmente.

Por que as idiossincrasias importam para a terapêutica?

É uma questão particularmente complexa para a homeopatia. Em seu livro  Organon, no parágrafo 112o, (edição de 1991) refere-se aos efeitos primário e secundário produzidos pelos medicamentos homeopáticos. O efeito primário de uma droga é sua ação e o efeito secundário, mostra a reatividade do sujeito que recebeu a droga.

Organon – Palavra de origem grega (ὄργανον), cujo significado mais aproximado é “instrumento”. O primeiro Organon foi escrito por Aristóteles e, segundo Lalande, inaugura a lógica formal. Francis Bacon escreve Novum Organon, livro que, grosso modo, rejeita inferências acidentais e o conhecimento não lastreado em observações empíricas metódicas. Hahnemann publica o “Organon da Arte de Curar”, cujas edições posteriores sofreram sucessivas mudanças em seus parágrafos até atingir a sexta e última edição.

Por exemplo, se o efeito primário de Belladona, (Atropa belladona) em doses ponderais, é uma vaso-constrição, a resposta secundária será uma vaso-dilatação. Isso é útil do ponto de vista toxicológico: o mesmo conceito pode-se aplicar às intoxicações hiperagudas com opiáceos. Contudo, e isto é o decisivo aqui, a resposta secundária caracteriza-se por se apresentar com uma espécie de “assinatura pessoal”. A vaso-dilatação, uma reação, não vem sem valores agregados: por exemplo, ela pode ser “ardente”, “em aperto”, “opressiva”, “ácida”, “irritativa”, “martelante”, “como se por um parafuso” ou apresentar-se agravada ou aliviada por “sentar-se“, “comer”, “subindo escadas”, “quando chora”, “à beira mar”, “ao ler” etc. A denominação “reação ou efeito secundário” seria uma mistura da ação do medicamento e a reação particular que o sujeito apresenta ao ser exposto ao fármaco. Isso tem um valor extraordinário, porque essencial. Mostra que uma rígida entre divisão efeito primário – efeito secundário não é útil, pois o que interessa, essencialmente, são os atributos modalizadores da ação, de cada resposta in totum.

O toxicologista Legrain faria uma importante colaboração ao se referir ao peso da reação individual nas intoxicações, afirmando o seguinte:

“Por último mencionaríamos a importância capital da reação individual, que modifica profundamente o quadro clínico de uma mesma intoxicação e diminuiu o valor clínico da insanidade tóxica como entidade mórbida, tornando-a somente uma modificação, variando de acordo com as idiossincrasias pessoais.” (apud Tuke, 1892: 974).

Investigações que se iniciaram no século XIX e que se estenderam até a contemporaneidade demonstraram que tóxicos diferentes usados por um mesmo indivíduo desencadeiam quadros psíquicos análogos; porém, os quadros somáticos produzidos são diferentes, correspondentes a cada tóxico. Na situação inversa, quando um mesmo tóxico é usado em distintos indivíduos, observaremos quadros psíquicos distintos – um para cada indivíduo – e um quadro somático similar para todos os que foram submetidos à ação do tóxico. Essas observações da toxicologia experimental permitem-nos inferir que a susceptibilidade psíquica à substância tóxica depende antes da peculiaridade mental individual do que da ação tóxica propriamente dita.

Essas regras encontram-se no capítulo sobre “Síndromes Mentais nas Intoxicações”, na Encyclopedia Médica-Cirúrgica, redigida por Fournier e Gorceux, e foram repetidas em 1973, por J.P. Soubier e F. Caroli e C. Bismuth, que confirmaram as hipóteses de trabalho em capítulo análogo. Muitas dessas dúvidas, estendidas ao uso de drogas sintéticas para uso clínico, também já foram enunciadas em terapêutica e ensaios clínicos (Coulter, 1992; Tallaway et al., 1964; Modell, 1960; Chassan, 1960). Para a homeopatia, no entanto, tais constatações, ao invés de se interporem à compreensão como enigmas, vêm possibilitando uma abordagem desta área de problematização teórica com certa eficiência: os homeopatas baseiam suas prescrições num modelo semiológico que está centrado nas diferenças individuais para construir o modelo que guiará a elaboração terapêutica. Ou seja, deu-se uma conotação positiva às idiossincrasias, ao estado mental e subjetivo dos pacientes.

Todos esses aspectos são essenciais para se ter presente que o tratamento homeopático tem uma ação polissêmica sobre a totalidade. O clínico deve saber a ação de cada fármaco, mas também deve ter noção empírica da vitalidade dos pacientes, vale dizer, o modo operacional de como se manifesta o animo e a disposição individual e a resposta medicamentosa de cada pessoa enferma, no aqui e agora.

Em suma, o que os desenvolvimentos teóricos e empíricos da homeopatia foram progressivamente revelando, é que a identidade do padecimento que leva um sujeito a buscar assistência e, por conseguinte, também a terapêutica que lhe deverá ser prescrita, só podem ser estabelecidos quando se interpreta a situação singular desse indivíduo em suas reações e relações. Seus entornos, história e contexto. E isso deveria ser universal, isto é, aplicado para toda medicina independentemente do tipo de medicina usada.

Amparada por narrativas experimentalmente produzidas por indução experimental, as quais evidenciam formas peculiares e singulares de discursos e expressões subjetivas, na vitalidade (entendida como essa totalidade física, mental e relacional) de cada sujeito. E isso só se torna possível na interação entre o terapeuta, o(s) fármaco(s), o sujeito e suas sensações e vivências. Se não houvesse mais nada que as medicinas integrativas pudessem contribuir para à ciência teriam no mínimo oferecido o mais puro resgate da relação médico-paciente. E a homeopatia foi pródiga neste resgate pois fez desta relação uma parte essencial de sua metodologia.

Por isso, afirmamos que o ato semiológico, tanto quanto o terapêutico da homeopatia só se realiza como autêntico processo hermenêutico. Pois eles são sempre processos de elucidação dos significados dos sinais que corpo e mente, em suas relações com o mundo, estão emitindo sobre o modo e grau de conveniência do estado de ambos quanto às finalidades e funções para as quais se voltam. E essa elucidação é sempre ressignificação, posto que só pode acontecer no âmbito do diálogo com o médico.

Este, através de suas próprias vivências e repertórios, da anamnese que utilizará e dos fármacos que receitará, fará com que o discurso do paciente, a narrativa de suas vivências e impressões, ganhe condições inéditas para se expressar.

Convencionou-se chamar a ficha de anotação dos sintomas de “record”. Nela deverão ser anotados todos os dados do paciente, junto com os medicamentos cogitados em cada consulta, as referências semiológicas utilizadas, a repertorização e todas as palavras, discursos, contextos e narrativas com que o paciente refira as suas queixas objetivas e subjetivas.

Assim, paradoxalmente, a suposta “fraqueza” epistemológica deste tipo de abordagem acaba sendo sua principal força. Isto significa que sua fragilidade metodológica funcionaria como elemento humanizador na relação médico-paciente. Como se forçasse o clínico a prolongar e aprofundar o diálogo em busca de elementos semiológicos mais consistentes para prescrever, já que a tecnologia e a propedêutica armada seriam apenas instrumentos subsidiários para a terapêutica. Este, mas não só este, seria um dos motivos de sua permanência como saber, e, ao mesmo tempo, continuará sendo um manancial para os ataques dirigidos contra ela. Ora, desde o famoso congresso da OMS Alma-Ata, assim como no relatório publicado em Geneve em 1988, há um clamor mundial por uma medicina mais “humana” com o perdão do uso deste eufemismo. Onde a qualidade da presença do terapeuta seja uma exigência. Esta característica, portanto, não deveria ser munição para hostilidades, mas uma qualidade extra para ser reverenciada dentro das medicinas integrativas.

É, portanto, uma legítima fusão de horizontes o que acontece numa abordagem integrativa. Com destaque especial para como esta relação se processa durante uma consulta na medicina homeopática. Por isso mesmo é tão importante para uma ciência operativa — termo usado por vários epistemólogos para definir a medicina – que se reconheça que existem outros modelos científicos e dignidades conceituais epidemiológicas nas ciências da saúde tais como pesquisas qualitativas, epistemologia histórica, medicina baseada em narrativas, medicina baseada no paciente, pesquisas de qualidade de vida em saúde, testes e scores psicométricos  – que possuem capacidade suficiente para promover a validação científica de um saber.

Portanto, sim, deve-se usar todos os tipos de veículos jornalísticos, inclusive os de grande penetração para que o leitor não especializado, antes de formar qualquer julgamento sobre um conjunto de conhecimentos de uma prática de dois séculos e meio, seja informado de forma mais abrangente e honesta.

Seria aliás adequado, pedir aos leitores que, quando possível, ao ouvirem críticas contra as medicinas integrativas — geralmente sem direito de resposta  — passem a consultar também os argumentos contraditórios. Pois sempre pode-se dar a falsa impressão de que a ciência tem uma única voz, quando na verdade cada braço da pesquisa científica, é, por definição, apenas mais um trecho da partitura. É ali que o espírito científico, sabendo que a polifonia do saber sempre estará inacabada, buscará as notas musicais remanescentes, algumas esquecidas no passado, para encaixa-las na sinfonia.

*Artigo adaptado a partir da tese de doutorado defendida na FMUSP “Entre Arte e Ciência: fundamentos hermenêuticos da medicina homeopática”. Recebeu a publicação pela Editora Hucitec, 2005, São Paulo. (coleção “Saúde em Debate”)
** Também publicado no site da AMHB (Associação Médica Homeopática Brasileira)
https://amhb.org.br/o-significado-singular-do-adoecimento-e-outras-dignidades-conceituais-em-ciencia/

O “X”do Xadrez (Blog Estadão)


Desta vez o Blog Conto de Notícia entrevistou o Mestre Internacional de Xadrez, Rubens Alberto Filguth para que ele nos repasse um pouco das suas experiências e impressões sobre o estado da arte de um dos jogos mais fascinantes já inventados. 

A cena acima extraída do filme “Sétimo Selo”de Ingmar Bergman, representa uma partida entre o cavaleiro, interpretado por Max Von Sydow, e a morte, num dos jogos mais significativos e simbólicos da história do cinema.  

Acompanhei uma recente entrevista de Rubens para um site especializado e segui uma linha um pouco distinta de diálogo.  Depois da série “Gambito da Dama” (ou Rainha) e como tudo que entra no radar da moda, o número de pessoas interessadas em xadrez aumentou de forma exponencial. Inevitavelmente algumas perguntas intrigantes surgem quando uma atividade apresenta um súbito e impressionante aumento de popularidade.  Este interesse será sustentável? As inúmeras possibilidades de interação não presencial desta modalidade de esporte favorecerão sua expansão? Quais as vantagens do Xadrez para o desenvolvimento do raciocínio, capacidade cognitiva, percepção do tempo, e resistência psicológica desta arte ancestral criada na Índia, no século VI?

Blog Conto de Notícia  – O que você teria a dizer para quem está começando a se interessar pelo jogo?

R – Minha saudação inicial a você, Paulo, e a todos os leitores de seu prestigiado blog. O Xadrez foi o melhor e mais profundo instrumento que eu pude utilizar para alcançar sucesso nas mais diversas áreas de minha vida. Aprender Xadrez e as técnicas e estratégias básicas do jogo pode trazer uma ampliação de horizontes pessoais inimagináveis. Eu recomendo entusiasticamente e faço uma importante ressalva de que para alcançar tais benefícios não é necessário ser especialmente inteligente e nem tampouco levar anos de dedicação insana à atividade. Basta uma compreensão geral do jogo, algum treinamento e reflexão sobre seus fundamentos. Ou seja, qualquer pessoa pode conseguir com alguma dedicação em curto período de tempo. É uma aventura lúdica e prazerosa.

Blog – O que fazer para descaracterizar o jogo como uma atividade elitista ou só para grandes mentes? Me parece que essa é a imagem popular da atividade, pelo menos no Brasil e na América Latina.  

R – Em todo o mundo a visão que cada país dedica ao xadrez varia de acordo com aspectos estruturais, culturais e sociológicos. No Brasil, um país que tem a alta cultura em processo de deterioração há mais de 50 anos, para reverter esse conceito me parece que seriam necessárias mudanças estruturais significativas, talvez até mesmo reinventar o próprio conceito de cidadania. Em resumo, o povo precisaria deixar de ser objeto e passar a ser protagonista, o que convenhamos, está muito distante da realidade atual. Projetos de xadrez em escolas de todo o mundo demonstram que é o contrário disso, não é elitista e não é reservado para grandes mentes, mas sim para as pessoas comuns. Eu sou uma prova disso.

Blog – Você mencionou em uma de nossas conversas sobre as simultâneas – onde me parece que você bateu um recorde – e as partidas às cegas, isso é jogos nos quais um dos jogadores joga sem visualizar o tabuleiro. Isso de certa forma reforça o aspecto da imaginação no jogo. Na série isso é muito bem explorado, inclusive é quando a atriz consegue perceber as saídas mais brilhantes. Qual é a importância deste recurso imagético/visual para o jogador? E também da própria criatividade do jogador, pois o número de jogadas e configurações deve se aproximar do incalculável.

R – Existe uma diferença substancial entre imaginação e fantasia. Ambas são projeções mentais, porém a fantasia é um mundo paralelo que não se relaciona com realizações futuras daquele que a desenvolve. É algo passivo, muitas vezes assimilado de fontes externas. A imaginação, por sua vez, pode ser algo ativo, que se desenvolve com objetivos específicos e que tendem a se materializar através de ações concretas. Tanto na série da Netflix como em minha trajetória competitiva a imaginação foi utilizada com esse propósito, de alcançar insights poderosos, através da percepção imediata, relacionada concretamente com uma sequência de lances que pudessem atribuir vantagem nas partidas. Pessoalmente, acho que o recurso de me manter constantemente em busca da ampliação de meu potencial imagético foi um dos pontos chave em meu sucesso, tanto no xadrez como em outras atividades.

Blog – Há também um caráter estético. As peças, o deslocamento, o esquadrinhamento geométrico, a solenidade e o ambiente austero. O xadrez é uma manifestação da arte na sua opinião? Marcel Duchamp era da equipe olímpica francesa de xadrez e depois tornou-se um dos mais expressivos ícones da arte moderna. Ou será apenas mais um esporte?

R – Com a menção a Duchamp você focaliza a fronteira mais expressiva da relação xadrez/arte. Há uma frase dele que publiquei em meu livro “A Importância do Xadrez” que me parece axiomática: “Eu sou uma vítima do xadrez. Ele contém toda a beleza da arte – e muito mais. Não pode ser comercializado. O xadrez é muito mais puro que a arte em sua posição social”. Compartilho integralmente essa visão. O xadrez é uma forma de arte em seu estado mais elevado.

Blog – A questão das habilidades matemáticas necessárias para ser um bom enxadrista, isso procede? Como você vê isso?

R – Não penso que para o bom desempenho no xadrez seja necessário qualquer habilidade matemática em especial. Ao contrário, o xadrez ajuda a desenvolver raciocínio lógico matemático de tal forma que pode ser, o próprio xadrez, uma ferramenta para desenvolvimento de habilidades nessa esfera. Noções de grandeza/proporções, tempo, espaço, cálculo e outras são desenvolvidas pelo enxadrista em sua trajetória evolutiva.

Blog – Você deve ter vivido como jogador o clima nos campeonatos durante a guerra fria. A ex-URSS e os EUA disputavam os campeonatos sob a pressão dos bastidores políticos. Outros filmes retrataram a agressividade entre os contendores chegando a hostilidade física explicita entre os jogadores. Lembro-me das partidas entre Boris Spassky e Viktor Korchnoi na época um importante dissidente do regime e das polêmicas em torno das supostas influências de paranormais. Korchnoi chegou a pedir uma proteção de vidro entre os dois para não ser perturbado por aquilo que ele alegava ser “ondas de interferência de mentalistas soviéticos”. Anos depois do desmanche do regime soviético admitiu-se que pessoas treinadas usavam suas capacidades paranormais para tentar atrapalhar os adversários.   

R – Sim, é fato. Nossa essência é o padrão com que nossa consciência vibra. Desde sempre o homem busca subjugar seus semelhantes, e nos últimos séculos inúmeros foram os experimentos para acessar o campo vibracional dos indivíduos com a finalidade de influir ou direcionar seus comportamentos. Os sentidos humanos são a porta de entrada dessas vibrações que são transmitidas por música, imagens e narrativas assentadas em suportes os mais diversos (TV, Rádio, Cinema, livros, artigos, etc). No xadrez não seria diferente, por isso eu sempre busquei meios de me fortalecer mentalmente para impedir ou ao menos dificultar o efeito de interferências externas em meu desempenho.

Blog – Por que a participação feminina nunca foi muito expressiva? Houve o célebre episódio em 2002 quando Gary Kasparov enfrentou e foi derrotado pela enxadrista húngara Judit Polgar, então com 26 anos de idade. Imagino que este quadro deve ter mudado consideravelmente de alguns anos para cá.

R – Não disponho de dados específicos mas sei que é muito abaixo do que seria desejável e não observei evolução favorável nos últimos anos. As razões são muitas, desde a falta de apoio oficial, ausência de uma mobilização mais expressiva entre as próprias jogadoras, discriminação velada que se manifesta pela diferença de tratamento concedido por confederação e algumas federações em torneios oficiais e até mesmo questões culturais mais abrangentes de um país em caos cultural há muitos anos. Certamente há ainda outras razões. Sempre procurei incentivar e apoiar este segmento, chegando mesmo a organizar um campeonato brasileiro e acho que precisa de maior atenção por parte dos dirigentes de plantão.

Blog – O que há de verdade sobre o mito da excentricidade que parece ser parte da personalidade dos grandes enxadristas? Talvez o personagem mais curioso, peculiar e trágico tenha sido o caso do campeão norte americano Bobby Fischer. Teve alguma experiência de contato de jogadores com estas características?

R – Pelo dicionário, excêntrico é aquele que se desvia do centro, aquele que se afasta dos padrões normais. Então eu pergunto: hoje em dia onde fica o centro? Ou ainda, quais são os verdadeiros padrões normais? Ocorre que a imprensa mundial, com raras exceções, não vive mais do relato fiel dos fatos e sim de narrativas e versões distorcidas para atender os propósitos específicos de pequenos grupos de poder que são os donos desse segmento. Assim, com o monopólio de quase todos os meios de comunicação nas mãos de poucos, somente a visão dessas pessoas será imposta à sociedade e com isso a versão delas é que irá prevalecer e não os fatos, como eles realmente são. Por isso tanto destaque para pretensas “excentricidades” e quase nenhum para todo o resto que é exponencialmente maior.

No caso do xadrez há ainda o fato de ser uma atividade intelectual que envolve raciocínio, e como estamos, principalmente no Brasil, em meio a uma sociedade com “complexo de vira-lata”, expressão cunhada pelo dramaturgo Nelson Rodrigues, o sucesso alheio é visto como insulto e blogueiros, jornalistas, articulistas, escritores que não se acham capacitados ou inteligentes o suficiente para praticar o xadrez buscam rotular os enxadristas de forma pejorativa como excêntricos, sem examinar em profundidade suas carreiras ou sua obra.

Blog – Outro aspecto delicado que acaba tendo destaque nos enfoques cinematográficos do mundo do xadrez é o problema da adição ao álcool e as drogas.  Você relacionaria isso à ao estresse psicológico e à pressão das competições?

R – Como disse na resposta anterior essa visão que retratam nos filmes não é a verdade dos fatos, mas sim, a versão que a indústria cinematográfica quer nos impor. Pela própria natureza da atividade intelectual que o xadrez demanda, seria um contrassenso haver grande quantidade de alcoólatras e drogados, posto que tal condição os colocaria num estado alterado de consciência que prejudicaria sensivelmente seu desempenho no tabuleiro. Afirmo com segurança que o xadrez é o esporte com menor incidência de adição a álcool e drogas.

Blog – Nos países cujo regime é a ditadura socialista como China e Cuba o xadrez ainda é particularmente usado como símbolo político de liderança e supremacia intelectual. Que análise faz sobre o uso político estratégico do xadrez.   

R – Acredito que se fundamente na mobilização moral e psicológica interna desses países, assim como sempre foi utilizado na Rússia. No contexto da “guerra de narrativas” como comentei acima é válido e deve ser uma ferramenta valiosa.

Blog – Como você acha que a inteligência infantil pode ser beneficiada pelo jogo de uma forma geral e no xadrez em particular? E quanto ao papel do jogo sobre a maturidade emocional e preparo para outras habilidades?

R – Essa pergunta poderia ser o tema de um tratado. Resumindo, de forma brevíssima, o xadrez proporciona desenvolvimento da inteligência infantil nas seguintes áreas: memória, imaginação, associação de ideias, organização mental, pensamento estratégico, cálculo, superação de obstáculos, administração do tempo, resolução de problemas, dentre outras.

No aspecto de maturidade emocional e outras habilidades o xadrez também é insuperável: saber ganhar e perder, projeção de cenários com tomado de decisões, autocontrole, respeito ao adversário, responsabilidade sobre seus atos e disciplina entre outros.

Blog -Poderia explicar alguns termos técnicos e frases para os leitores?

P – A melhor defesa é o ataque.

R – Não acredito que seja originária do xadrez. Nem sempre será verdadeira, posto que qualquer ataque para dar resultados deve estar bem fundamentado e um jogador que está se defendendo às vezes não consegue as condições ideais para atacar.

Blog – Dominar o centro.

R – Todo exército que ocupa as melhores posições do terreno de batalha estará em vantagem. O centro do tabuleiro é a região que dá maior poder de fogo e mobilidade para quem o domine.

Blog – O que significa Gambito da Rainha?

R – No xadrez, usualmente significa entregar um peão ao adversário para obter alguma contrapartida em termos de ocupação de área central do tabuleiro ou aceleração de desenvolvimento de seus efetivos.

Blog – Sacrifício de atração.

P – Ocorre quando um jogador deseja atrair uma peça do adversário a uma posição que lhe seja desfavorável, oferecendo em troca algum “material” como um peão ou peça.

Blog – Sacrifício de qualidade

R – É quando um jogador entrega uma Torre em troca de uma peça adversária de menor valor como um Bispo ou Cavalo.

Blog – O que é abertura sólida.

R – É quando um jogador desenvolve seus lances iniciais em uma formação na qual suas peças protegem umas às outras dificultando ataques imediatos por parte do inimigo.

Blog – Qual é o papel da “armadilha” e da surpresa na técnica enxadrística?

R – Uma armadilha é um estratagema de difícil condução que tem por objetivo induzir o adversário a erro. Não é uma técnica muito utilizada por bons jogadores porque normalmente implica em algum tipo de concessão que pode significar “um tiro no próprio pé” no caso do adversário se dar conta. Mesmo assim podem ocorrer em situações especialmente complexas onde haja muitas combinações possíveis.

Para surpreender um adversário é necessário estudar profundamente o seu estilo e suas preferências, para em algum momento da partida introduzir um lance ou uma manobra que lhe escapem às expectativas.

Blog  – Qual foi a partida mais emocionante/surpreendente que você vivenciou e qual a mais decepcionante?

R – Minha relação emocional com as partidas de xadrez sempre teve um caráter impessoal e foram pautadas por satisfação com o meu nível técnico de execução do que em relação com o nome de algum adversário. Nesse ritmo foram muitas as partidas que me satisfizeram pelo apuro técnico, criatividade e estética, sendo difícil indicar alguma em especial. Da mesma forma, considero decepcionantes aquelas partidas em que meus adversários cometeram erros ou imprecisões sérias que me permitiram vitórias fáceis, sem muita luta, e foram em bom número, o que é normal no xadrez.

Blog – E qual é o papel da inteligência artificial nas partidas de xadrez. Parece que o computador “Deep Blue” da IBM demorou anos, e só em 1996 conseguiu para derrotar o jogador russo Garry Kasparov. Quantas jogadas adiante um grande mestre é capaz de antever?

R – Os grandes desenvolvimentos tecnológicos, especialmente na área de inteligência artificial, muitas vezes são implementados em caráter sigiloso algumas décadas antes de chegarem ao grande público. No xadrez já se percebe que as máquinas conseguem avançar muito além dos resultados competitivos do homem. Apenas observo que se trata de “outro xadrez” que se joga com as mesmas regras do xadrez tradicional, mas com características de execução bem diferentes e ainda não plenamente compreendidas pelo homem e será necessário o decurso de tempo razoável para sabermos como comparar os dois perfis. Não há um número de jogadas preciso que um grande mestre seja capaz de prever, isto vai depender da linearidade ou não das variantes que surjam durante o cálculo concreto de possibilidades. De forma geral, seis a oito lances é considerada uma antecipação de cenários significativa.

Blog – Você explicou que uma de suas partidas mais emblemáticas usou uma estratégia psicológica jogando com a certeza da suposta superioridade técnica do adversário e preparou uma jogada que o fez cair na armadilha. Quais qualidades o xadrez pode nos ensinar? 

R – Boa parte dessas qualidades está descrita na resposta acima que menciona as habilidades de inteligência infantil e maturidade emocional que podem ser desenvolvidas com o xadrez. No caso específico da partida que você menciona contra o russo Alexander Panchenko se fizéssemos uma analogia com alguma arte marcial, eu usei o impulso do golpe dele para derrubá-lo. Eu sabia que a sua equipe contava com essa vitória e que se necessário ele iria se expor para conquistá-la, então preparei uma situação em que ele teria oportunidade de me atacar com violência, mas ao mesmo tempo, ao produzir uma “esquiva” ele se viu comprometido com a recomposição da postura e nesse curto período aproveitei para desferir o golpe que viria a ser mortal para ele.

Blog – Por último, o início. Dizem que os talentos surgem na infância. Como seu pai, Pedro Filguth, ganhador de um torneio em 1951, o influenciou na escolha da carreira de enxadrista? Aliás, é uma carreira?

R – Acho que da maneira mais adequada, apenas pela presença e pela força do exemplo, deixando seus resultados à mostra como o belo troféu e os livros conquistados. Hoje se pode falar em carreira porque já é possível viver da atividade em suas diversas vertentes como competidor, árbitro, organizador, editor e professor. Mas não é uma atividade muito valorizada se pensarmos no esforço e dedicação necessários para desenvolvê-la.

Blog – O que poderia ser feito como incentivo governamental e/ou privado para a prática sistemática do xadrez nas escolas?

R – No âmbito privado já existem algumas iniciativas individuais de enxadristas mais gabaritados e também diversos projetos escolares bem encaminhados que promovem uma lenta expansão. No âmbito governamental seja federal como estadual ou municipal, pouco se obtém pela inépcia de dirigentes que monopolizam algumas das entidades oficiais do xadrez e desviam o foco do interesse coletivo para atender interesses pessoais motivados por ambição de poder e ganhos financeiros. Uma triste realidade que se estende há várias décadas.

Blog – Quais seus atuais projetos e como está o andamento do seu mais novo projeto? Pode nos falar algo sobre o livro?

R – Neste novo ciclo de minha vida estarei pesquisando, escrevendo livros e produzindo material para pessoas interessadas em obter conhecimento, inspiração, estratégia e sabedoria para alcançar melhores resultados em suas vidas. No âmbito do xadrez o primeiro projeto consiste em livro parcialmente autobiográfico relatando aspectos de minhas vivências no xadrez e realçando os valiosos aprendizados que obtive ao longo da carreira e os caminhos que adotei para me beneficiar deles em atividades profissionais de outras áreas.

Blog – O empate no xadrez pode obter o estatuto de vitória?

R- Dependendo das circunstâncias um empate pode ter sabor de vitória, sim. Quando um jogador mais fraco consegue conter um adversário muito poderoso ou então quando um jogador se encontra em posição desesperada e à mercê de um grave erro ou relaxamento do adversário, consegue “escapar da derrota”. Já no sentido de alcançar o conhecimento verdadeiro acho indiferente o resultado desportivo de uma partida. Seria como validar cada um dos três, e somente três, disponíveis destinos: vitória, derrota ou empate.

Rubens Filguth é autor dos seguintes ivros:

Mesquinho, O Perfil de um Gênio

K x K,

Perestroika no Tabuleiro.
Xadrez de A a Z,

Dicionário Ilustrado.

A Importância do Xadrez.

Matrizes Táticas.

Inteligências em Confronto-Campeonatos Mundiais de Xadrez

Conto Xadrez (Infantil)

Conto Xadrez Pratico (Infantil)

Apartment diary 8 - Hesitation and the desire to live

In Kafka’s text “Homecoming”, translated by Anatol Rosenfeld, there is a phrase whose power to destabilize would reach even the most convinced of the Stoics : “ The longer one is hesitating in front of a door, the stranger it becomes. become”. 

For it is possible that our lurking before this door is about to end. That is, it will be broken by default. No, unfortunately it will not be the end of this virus.

It was already known, even after a considerable exodus from large urban centers caused by the pandemic, that for the “most at risk” as is my case, the decision to leave would never be an easy one. I remembered the phrase , “Never leave.” Leave home, the street, the neighborhood, the city. Jargon, when overwhelmingly repeated, penetrates the culture and becomes an addiction to information.

-You will leave? Drive 300 km and still take a ferry? What a risky thing my friend.

That’s what I heard when I communicated to the friend with whom I play chess from a distance that would leave the city.

-It is a calculated risk, I tried to reassure him .

– I would prefer that you use the Sicilian defense. Now, who am I going to practice winning streak with if you…

– You can talk, don’t be bent by taboos: if I get infected, I need treatment, get out of life …

– Until the return, then. He said goodbye abruptly and a little embarrassed.

After almost nine months in prison, I became convinced through a dream that needed to break the feeling of house arrest, and, once martial law, censorship obstacles and sanitary requirements were overcome, I dared to travel with the family.

It is necessary to consider that during the mismatched news about the virus and its consequences, the demands for our rights have been weakened. The number of restrictions, arbitrariness and justificationist massacres against individual freedoms were being sewn up, that is to say, they were being imposed, without persuasion, without preliminary instructions, without consistent educational campaigns. What we saw was a pure scene of rationalized arbitrariness under the use of decrees whose generic slogans were based on “the desire to safeguard the health and well-being of the population”.

Although WHO itself warned that indiscriminate restrictive procedures would present a potential risk of upheaval, riots and rebellions against closing orders, the government preferred to do so. And so far, in most cases, only order and meekness have been observed, the same that usually affects paralyzed, uncritical herds, a late effect on those cornered by panic. But things are changing and rapidly.

It is the subtext of this meekness that interests us, regardless of the merit of the alleged effectiveness of the measures adopted. They are almost convincing us that republican rights are not exactly an achievement on the merits of the citizen, they have become magnanimous concessions of power. A democracy that follows this path causes more chills than rejoicing. The truth is that, without mechanisms to rectify and extract it from the strange shortcuts of the guarantor doctrine , from the concessions that gratify the transgression and from the authoritarian rubble called hermeneutic flexibility, the very character of political representation is increasingly corroded. difficult to repair.  

Now think again about the burden of proof. Who is responsible for providing health? But isn’t it that essential and essential items need to be accompanied by security and transparency? Prof. Walter Maffei, of blessed memory, always warned against fads in medicine, from pathologies to brand new medicines. If the disease in vogue is dangerous and deadly for some – as it really is – for many it will only mean confinement and bankruptcy, isolation and madness. For those who think it is a reasonable price to pay, I reduce myself to silence. 

Complexity requires that you go beyond the two-dimensional and look at reality as a hologram. Clinicians who say so. But the fact that needs to be analyzed is that the side effects of decisions also need to be on the radar of epidemiologists on duty, as well as that of transdisciplinary teams.

But do they really exist? If so, where are they? Has anyone heard of such a council?

And if these extra health stricto sensu factors such as unemployment and hopelessness are not included in the assessment, it is because the manipulation has been greater than the scientific accuracy. Why is there so much controversy about treating early? Has this been properly investigated? It is clear that the vast majority will not deny the power of vaccine protection. What is unnecessary is coercion and judicial sanctions against those who are not convinced or secure. When there is a responsibility to start with who should serve as a model. 

My chess player often says

– Among us, models and elected representatives expire before the deadline.

Nobody wants to take a risk without need. Not without certifying the parameters of safety, effectiveness and, above all, transparency. Speeches by politicians or pompous reports by salaried experts, whose priority commitment seems to be with power, are not enough.

It was after a dream that I decided to travel to an island, and, as the text says, no man is an island. Thus, I can say that the experience showed something different. When it comes to practical life, we are a multitude of archipelagos. It was naive to imagine that it would not be so, after all, however modernity tries to homogenize individual responses, it is the idiosyncrasies that command human decisions, as well as the varied sensitivities to diseases and medicinal substances .

I never thought it was so confusing. It is possible to attest to the practical result of this confusion by taking to the streets in different cities to see – as my wife observed – that people and human groups live simultaneously in parallel universes. We find people obsessive, resigned to an ultra phobic confinement, but also those who have already abandoned all precautions and continue to live as if nothing is happening. I don’t think the controversy here is between ” affirmationists ” or denialists and I refuse to judge them . I find it ethically despicable to judge someone else’s context without all the data. I just conclude that the middle path and common sense are really in disuse. 

The political use of fear is both an old and an effective weapon. And it is healthy for people to be suspicious of information from a system that has given multiple expressions of contempt for public opinion.

Returning to Kafka, when the door shows signs of strangeness, but of ruin, the desire to open it outweighs hesitation.

If Dr. Maffei were alive I would not hesitate to ask and it was what I did in the dream that finally encouraged me to put my feet on the road and travel:

– What about this virus, Prof.?

– You know I don’t like to talk about medicine, I prefer to listen to classical music. But since you asked me, all this will pass and you know why, don’t you?

– I think so.

– The virus wants to live and spread, its biological objective is not to kill the patient, therefore, with time and mutations, the tendency is that it is indeed more contagious, but at the same time it produces less sequelae and is less lethal.

– And what should we advise people?

He looked at me suspiciously and in his peculiar peremptory way spoke in a low voice:

– But it is evident that prevention, early treatment if any and the usual care.

– Without forgetting that the risk always exists …

– Look here, and he looked at me sternly, and under an almost angry expression: the only thing the doctor has no right to do is to discourage the patient.

When I woke up the decision was made.

Opening the door and facing the phobia was no longer a matter of will. Hesitation was replaced by the desire to live, carefully, but to live.

https://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/diario-de-apartamento-8-hesitacao-e-o-desejo-de-viver/

Empirismo vs. Racionalismo na Medicina Importante Texto De Harris L. Coulter

The Journal of Orthomolecular Medicine Vol. 9, No.3, 1994 ArtigoEmpirismo vs. Racionalismo na Medicina Harris L. Coulter, Ph.D. Baixe o artigo em texto completo em (PDF)Voltar para os arquivos de 1994Voltar à página inicial do arquivoInscreva-se no JOMApresentado na 23ª Conferência Anual de Medicina Nutricional Hoje, 30 de abril de 1994, Vancouver, Canadá.

Este artigo discute algo que parece um pouco abstrato ou teórico, mas acho que o melhor fato é uma boa teoria. Se você está familiarizado com a base teórica do que está fazendo, isso é melhor do que muitos fatos, alguns dos quais podem nem mesmo ser fatos.Tenho que trabalhar na área teórica porque não sou médico. Não trato de pacientes, então falo ou escrevo sobre o que os outros estão fazendo.Eu me interessei pela teoria da medicina há cerca de 30 anos, quando tive o primeiro contato com a homeopatia – por causa de uma doença em minha família, uma doença grave. Os resultados pareceram extremamente bons, mas quando tentei apresentar essa informação aos meus amigos médicos alopatas, eles zombaram de mim e riram de mim. Eu estava curioso para saber por que eles rejeitavam tanto a homeopatia, e foi isso que me fez começar um projeto de pesquisa para toda a vida.Escrevi sobre o conflito homeopático-alopático, o significado de “método científico” na medicina, sobre a AIDS e sua relação com a sífilis, sobre o ensaio clínico controlado, sobre as vacinações infantis e sobre a história médica em geral. Minha pesquisa acabou resultando na produção de Divided Legacy, uma história de quatro volumes de idéias médicas. Os três primeiros volumes foram publicados na década de 1970, e o quarto volume, que trata da história da medicina moderna, está no prelo agora e será lançado no final do verão ou no início do outono.O que quero discutir hoje é a relevância dessa pesquisa histórica ou teórica para a medicina nutricional. Acho que minhas idéias sobre o curso da história médica e a natureza da teoria terapêutica terão algum valor para aqueles que trabalham com medicina nutricional.Fundamentalmente, o que descobri – ou redescobri – é a existência de um conflito na terapêutica entre o que se chama1. Centro de Medicina Empírica. 4221 – 45th Street. NO. Washington. DC 20016.as filosofias empírica e racionalista.Uso a palavra “redescoberto” porque, de fato, os médicos estavam cientes desse conflito até o ano de 1800 ou por aí, e as histórias médicas escritas antes dessa época discutem esse conflito que remonta aos tempos romano e grego.Mas depois de meados do século XIX, quando a medicina foi dominada pela tecnologia, esse conflito primordial foi esquecido.No entanto, a oposição entre essas duas formas de pensar a medicina continuou, embora subterrânea.As filosofias empírica e racionalista são duas estruturas de pensamento lógicas e consistentes que são, em todos os aspectos, inteiramente antagônicas uma à outra. Os grandes pensadores médicos pertenceram a uma ou outra dessas duas tradições. Os pensadores menores, que são por definição menos rigorosos em sua teorização, geralmente representaram combinações ecléticas das duas tradições principais.O maior pensador empírico foi Samuel Hahnemann, o fundador da homeopatia. Ele estabeleceu um sistema que, como sabemos, continua até hoje. No entanto, desde Hahnemann, houve outros que talvez sejam mais conhecidos por você, como, por exemplo, Louis Pasteur, Emil von Behring ou Elie Metchni-koff, os fundadores da bacteriologia. Esses pensadores também devem ser classificados na tradição empírica.As abordagens empírica e racionalista da terapêutica podem ser exemplificadas em várias modalidades terapêuticas. Os pensadores que acabo de mencionar são bem conhecidos por suas contribuições à medicina farmacológica e à imunologia. Mas é perfeitamente possível praticar medicina nutricional ou osteopatia ou quiropraxia de uma forma empírica ou racionalista. Esses são padrões básicos de pensamento da mente humana, aplicáveis ​​a todas as atividades humanas, não apenas à medicina farmacológica.Alguns dos principais pensadores Racionalistas dos tempos modernos foram: o fisiologista francês Claude Bernard, que morreu em 1878; Robert Koch, fundador da bacteriologia, e Paul Ehrlich, fundador da farmacologia moderna. A medicina que hoje chamamos de “científica” e que os homeopatas chamam de “alopática” representa o racionalismo em uma forma relativamente pura, enquanto disciplinas médicas “alternativas” como homeopatia, osteopatia clássica, quiropraxia, acupuntura em sua forma clássica e, sem dúvida, medicina ortomolecular, representam uma forma empírica de fazer a terapêutica.Qual é a diferença entre as duas doutrinas?Existem dois fatores particulares que os distinguem um do outro. O empirismo é vitalista, enquanto o Racionalismo é mecanicista em sua abordagem do organismo vivo. E a doutrina empírica tende sempre à individualização do tratamento, enquanto a doutrina racionalista invariavelmente vê o paciente individual como um membro de um grupo de doenças, classe ou entidade e se afasta da individualização.A relação primordial na medicina é o médico sentado em um lado da mesa e o paciente do outro lado da mesa, ou o médico em pé ao lado da cama e o paciente deitado na cama, ou seja o que for. O paciente diz muitas coisas ao médico , e o médico pode ver mais com seus próprios olhos. Além disso, vários testes podem ser feitos para desenvolver dados de e sobre o paciente. A questão é: o que o médico faz com esses dados quando eles estão disponíveis?Os médicos empíricos viam esses dados como possuidores de valor máximo em si e para eles. Eles não tentaram penetrar abaixo da superfície, não tentaram especular sobre o que estava acontecendo dentro do corpo do paciente, mas usaram os sintomas como dados sobre os quais basear o diagnóstico e o tratamento. Em outras palavras, eles desconfiavam da anatomia e da fisiologia como fontes de conhecimento médico – porque a anatomia e a fisiologia são gerais e, como tais, vão contra o princípio empírico da individualização. Considerando que certos processos fisiológicos e patológicos ocorrem em humanos como uma classe, o paciente que se apresenta individualmente pode ou não representar essa classe particular de pacientes. Cada pessoa é diferente da média. A média é uma abstração. Cada paciente é diferente e único – esta sempre foi a forte con-vicção dos médicos empíricos.Assim, a única informação verdadeiramente confiável é aquela desenvolvida sobre esse paciente individual. O médico não tem permissão para dizer: você representa a “doença X” e nós o trataremos da maneira como sempre tratamos a “doença X”.Este é simplesmente um ponto de partida filosófico básico na doutrina terapêutica empírica.Uma segunda convicção filosófica era (e é) a seguinte: o corpo vivo, doente ou saudável, está sempre reagindo a todas as pressões do meio ambiente que o afetam.Portanto, a escola empírica sempre foi vitalista.Além disso, o modo de reação não é predeterminado. O organismo reagirá de maneira proposital para superar o estresse que o afeta de fora, e essa capacidade reativa não é determinada pela estrutura física do corpo, conforme expresso em sua anatomia e fisiologia. O corpo cria novos modos de reação em função do desafio que vem de fora. Na verdade, o corpo pode, por assim dizer, criar do nada (ex nihilo) uma maneira de lidar com esse estresse externo.Essa mesma disputa existe na imunologia hoje. Os anticorpos são produzidos em função do estresse antigênico que vem do meio ambiente. A medicina moderna não consegue explicar como o organismo pode sintetizar anticorpos contra milhões de estímulos antigênicos no meio ambiente. Têm sido feitas tentativas para explicar essa capacidade em termos evolutivos, mas o organismo parece produzir anticorpos contra antígenos que acabaram de ser sintetizados, ou seja, que nunca existiram na história. Portanto, a explicação evolucionária é inadequada.A abordagem empírica seria que o corpo é capaz de responder criativamente a qualquer estresse antigênico vindo de fora.A evidência dessa reação é vista nos sintomas do paciente. Portanto, devem ser considerados fenômenos benéficos, sinais de reação, sinais de um esforço do corpo para se curar. Os sintomas não devem ser suprimidos, mas apoiados, fortalecidos ou promovidos, porque representam uma resposta curativa. A medicina hipocrática tinha uma teoria – “cocção”, que significa “cozinhar” – para explicar esses fenômenos. O corpo enfrenta o estresse de uma doença ou influência morbífica “cozinhando-o” para torná-lo, por assim dizer, palatável, assim como os grãos devem primeiro ser cozidos e tornados macios e comestíveis antes de serem consumidos. O processo de “cocção” terminou em uma “crise” após a qual o paciente se recuperou ou morreu.Essa era sua teoria geral do significado da doença.Os empíricos grego e romano tratavam os pacientes com medicamentos que promoviam o processo de cocção – ou seja, com uma espécie de medicamento “semelhante”. Para a tosse, davam remédios que intensificavam a tosse. Para a náusea, deram eméticos. A diarreia foi tratada com laxantes, etc. etc.Se nos voltarmos agora para a Escola Racionalista, veremos que esses médicos consideravam os sintomas do paciente não como sinais de reação ou como dados definitivos de diagnóstico, mas sim como dados que deveriam ser analisados ​​posteriormente. O médico não deveria se limitar meramente à observação dos sintomas, mas deveria aplicar a lógica para determinar seu “significado”, para saber o que estava acontecendo dentro do corpo para produzir esses sintomas. Especificamente, eles queriam determinar e definir a “causa” da doença dentro do corpo que produzia esses sintomas.Portanto, os médicos racionalistas rejeitaram a ideia de que o corpo é uma entidade reativa. Negando o vitalismo, eles adotaram uma visão determinista e reducionista do corpo, vendo sua estrutura material como determinante de seus possíveis modos de comportamento na doença e na saúde. Em particular, eles rejeitaram a possibilidade de que o corpo possa reagir criativamente ao estresse. Eles viam o corpo do paciente como um objeto passivo, o recipiente de insultos do ambiente externo. De uma forma que nunca foi realmente explicada, o estresse externo foi visto como dando origem a uma entidade dentro do corpo do paciente, que eles chamaram de “causa” da doença. Os sintomas do paciente foram interpretados como emanações dessa “causa” da doença. Em vez de ver os sintomas como sinais de reação, os médicos racionalistas adotaram a visão oposta. Para eles, os sintomas eram sinais de uma causa morbífica prejudicial dentro do corpo. Conseqüentemente, eles acharam perfeitamente natural que o médico eliminasse ou suprimisse esses sintomas. Eles se opuseram ao remédio empírico “semelhante” e, em vez disso, usaram o conceito do remédio “contrário”, que anulou os sintomas e, portanto, supostamente curouo paciente.Um ponto muito importante de diferença entre as duas escolas era quanto à classificação de sintomas e doenças. Aqui, novamente, nos deparamos com a ênfase empírica na individualização do tratamento versus a ênfase racionalista no tratamento do paciente como membro de uma classe de doença.Cada doente apresenta uma variedade de sintomas diferentes. Alguns deles se assemelham aos sintomas de outros pacientes (com a mesma condição ou semelhante). Esses eram tradicionalmente chamados de sintomas “comuns”. Outros sintomas do paciente individual serão diferentes daqueles de todos os outros pacientes com a mesma condição ou condição semelhante, e eram tradicionalmente chamados de sintomas “peculiares”.O Racionalismo e o Empirismo adotaram abordagens bastante diferentes para o significado e importância dos sintomas “comuns” ou “peculiares”. O Empirics destacou os sintomas “peculiares” do paciente como os mais significativos. Disseram: o processo fundamental de cocção (manifestado pelos sintomas “comuns”) é o mesmo em todos os pacientes; portanto, as diferenças na forma como a cocção é realizada, como diferentes pacientes passam pelo processo de “cozinhar” a causa da doença, manifestada pelos sintomas “peculiares”, são significativas para o tratamento.Eu encontrei uma citação, em um escrito empírico por volta do século II DC (que foi esquecido por todos os outros pesquisadores), que ilustra essa ideia. O médico escreveu: “O que se vê em todos os casos é menos significativo do que o que se vê em alguns casos. E o que se vê em alguns casos é menos significativo do que o que se vê em um único caso”.Isso, é claro, é o oposto de como os racionalistas viam os sintomas, ou como os sintomas são vistos pela “medicina científica” hoje.Essa abordagem para a análise de sintomas torna muito difícil classificar as doenças em categorias. Se os sintomas “peculiares” de um determinado paciente diferem dos de todos os outros pacientes, o conceito de “classe” da doença perde totalmente o significado.Na verdade, a Escola Empírica sempre sustentou que o número de “doenças” no mundo é infinito. A escola homeopática afirma o mesmo, assim como a acupuntura clássica.O que a Escola Empírica descobriu foi o significado do que hoje chamamos de “medicina holística”. É pelas peculiaridades ou idiossincrasias do paciente individual que seu “holismo” se manifesta. Todo mundo tem dois olhos, nariz, boca, queixo, etc., mas o pintor de retratos sempre enfatizará as maneiras pelas quais as características da pessoa que está sendo pintada – seus olhos, seu nariz, sua boca – diferem das de todos mais no mundo. São essas características peculiares do indivíduo que constituem a “semelhança”, ou seja, sua “totalidade”.Esta é uma compreensão antiga, mas ao mesmo tempo muito precisa e apropriada do conceito “holístico”. Nenhuma definição melhor de “holismo” foi dada.Em contraste com os médicos empíricos, o Racionalista se interessava pelos sintomas “comuns” – por exemplo, de um paciente com pneumonia – e eram esses que eles queriam tratar. Esses eram os sintomas, segundo eles, que apontavam para a “causa” da pneumonia no corpo do paciente. Essa “causa” era a mesma para todos os pacientes. Os racionalistas foram inexoravelmente atraídos a ver o paciente como representante de uma “classe” de doença.Conseqüentemente, eles viam o número de possíveis “doenças” no mundo como relativamente restrito. As doenças não poderiam ser mais numerosas do que o número de “causas”.Uma terceira escola de medicina no mundo antigo, o Metodismo, representou um desenvolvimento extremo desse aspecto do Racionalismo. Os metodistas reconheceram apenas duas ou três classes de doenças possíveis no mundo. Em uma classe, a circulação do sangue pelos poros do corpo (diríamos hoje, “capilares”) foi restringida; na segunda classe, os poros estavam muito frouxos e o sangue fluía muito rapidamente. E havia uma classe mista em que os poros do paciente às vezes eram muito contraídos e às vezes muito frouxos.O Metodismo foi a redução lógica da posição Racionalista. Se houvesse apenas três tipos de doenças, o médico só precisaria de três tipos de remédios. Isso simplificou muito a medicina e tornou a prática muito fácil. Na verdade, um médico metodista declarou que poderia tratar toda a população de Roma sozinho. Ele morreu rico, mas seus pacientes morreram pobres e em breve.O conflito entre empirismo e racionalismo domina todas as discussões de questões médicas. Em qualquer grande controvérsia, um lado sempre refletirá a posição empírica e ado outro lado, a posição Racionalista. Isso é encontrado em larga escala, como no conflito do século XIX entre homeopatia e alopatia, e mais especificamente – dentro da alopatia e dentro da homeopatia, também dentro da quiropraxia e dentro da osteopatia.A história da medicina é mais bem compreendida ou interpretada como um movimento cíclico ou oscilação para frente e para trás entre os dois pólos de pensamento.No início do século XIX, a medicina americana era extremamente racionalista, seguindo os sistemas dos escoceses William Cullen e John Brown e seu discípulo americano (e signatário da Declaração de Independência), Benjamin Rush, que era professor de medicina na Universidade da Pensilvânia por quarenta anos e treinou sozinho algumas gerações de médicos americanos.Isso levou a uma reação na década de 1820 com o surgimento e ascensão da medicina botânica e, na década de 1830, com a disseminação da homeopatia. O último fenômeno era particularmente enfadonho para os alopatas porque os homeopatas (em contraste com os prescritores botânicos) eram quase todos escolhidos entre os próprios médicos alopatas licenciados. A medicina racionalista não conseguiu conter essa oposição dentro de si mesma e, conseqüentemente, dividiu-se em duas: o Instituto Americano de Homeopatia foi fundado em 1844 e, em resposta, a Associação Médica Americana foi organizada em 1846. Seu único objetivo era traçar uma linha entre o terapêutico disciplinas de homeopatia e alopatia, e a proibição da homeopatia foi declarada explicitamente no “Código de Ética” da AMA.Essa divisão permaneceu em vigor até 1903, quando a AMA e as sociedades médicas alopáticas estaduais e locais decidiram alterar o Código de Ética e permitir que os homeopatas ingressassem nas sociedades alopáticas.A razão por trás dessa mudança foi a fraqueza percebida da homeopatia. Durante o período de 1846 a 1903, cresceu continuamente e, no final das contas, abrangeu quinze por cento de todos os médicos americanos. Portanto, era também muito poderoso politicamente, e quando a profissão alopática na década de 1890 tentou persuadir as legislaturas estaduais a aprovar leis de licenciamento médico, estas se recusaram a fazê-lo até que tais projetos fossem também apoiados pelos homeopatas.Empirismo vs Racionalismo na MedicinaMas o dualismo empírico-racionalista também estava em ação dentro da homeopatia. Os primeiros eram aqueles que aderiam à formulação original e estritamente empírica de Hahnemann das regras da prática homeopática. Este último, constituindo a maioria dos homeopatas, rejeitou a formulação original de Hahnemann e preferiu uma doutrina modelada ao longo das linhas Racionalistas do modo terapêutico alopático prevalecente.Esses últimos médicos estavam ansiosos para aceitar o convite da AMA para ingressar nas sociedades médicas alopáticas, onde foram efetivamente sufocados e impedidos de falar sobre homeopatia. Isso levou em pouco tempo ao colapso da homeopatia como um movimento organizado na medicina.Depois de 1903, a alopatia floresceu como nunca antes, reforçada nas décadas de 1940 e 1950 pela revolução dos antibióticos que tanto prometia e de fato trazia alguns benefícios. Mas, como acontecera no início do século 19, o domínio alopático acabou gerando sua própria oposição interna na forma do “movimento de saúde alternativa” dos anos 1960 e posteriores. Desde esses anos de viragem, a homeopatia, a quiropraxia, a acupuntura e várias modalidades nutricionais têm registrado um crescimento surpreendente e aceitação pública.Assim, a dicotomia empírico-racionalista está mais uma vez sendo praticada em ampla escala nacional nos Estados Unidos e em muitos países europeus.Mas, nos últimos cem anos, o Racionalismo também gerou uma série de desvios empíricos dentro de suas próprias fileiras, especificamente em imunologia e farmacologia.A imunologia empírica dentro do Racionalismo pode ser dividida em (1) vacinação preventiva, (2) vacinação terapêutica e (3) tratamento de alergia com técnicas imunológicas. Farmacologia empírica dentro do Racionalismo significa usar como medicamentos substâncias cuja eficácia depende de estimular as capacidades reativas intrínsecas do corpo.Vejamos primeiro a imunologia.O uso da vacinação preventiva começou com a descoberta de Pasteur em 1880 de que uma cultura “atenuada” de um micróbio virulento pode ser usada para “vacinar” indivíduos suscetíveis e, assim, evitar que sejam infectados.No quarto volume de Divided Legacy , dei evidências a favor da ideia de quePasteur teve a idéia de “atenuar” culturas virulentas observando os cerca de 500 homeopatas franceses existentes “atenuando” seus remédios por meio do processo de diluição em série.As principais doenças controladas pela vacinação preventiva na virada do século foram o antraz, a difteria e o tétano.A vacinação terapêutica, a prática de dar a vacina a uma pessoa já doente com a doença, começou com o uso da vacinação anti-rábica por Pasteur em pessoas mordidas por cães raivosos e com o uso da tuberculina por Robert Koch em 1890 como tratamento para a tuberculose. Mas o Tuberculinum foi um remédio homeopático por pelo menos dez anos antes de 1890, e Koch parece claramente ter retirado essa ideia da homeopatia.Mas ele não avaliou a importância de reduzir as doses e ajustá-las ao paciente individual (isto é, individualização). Ele deu tuberculina em tintura a seus pacientes e repetiu a dose todos os dias durante semanas, causando reações excessivamente violentas e muitos milhares de mortes.O escândalo foi tão grande que a reputação do grande Koch quase foi arruinada, e por dez anos ele teve que ficar fora da Alemanha, envolvido em viagens de pesquisa à África do Sul e ao Oriente. A tuberculina voltou a ser usada alopática no início dos anos 1900, quando se percebeu que as doses de Koch eram grandes demais. Quando a dose foi reduzida ao nível do “infinitesimal” homeopático, a tuberculina revelou-se notavelmente eficaz na tuberculose e em outras doenças, e permaneceu como parte da prática alopática até meados do século XX. Na verdade, ainda está em uso hoje.Outra doença tratada com vacinas curativas foi a difteria. A “soroterapia” de Von Behring para essa doença foi um grande avanço na saúde pública.Na Inglaterra, Almroth Wright, durante as décadas de 1900 a 1940, desenvolveu vacinas terapêuticas com alto grau de eficácia em doenças como artrite, pneumonia, infecções estreptocócicas e estafilocócicas, furúnculos, febre tifóide, tifo, tuberculose, tosse convulsa, erisipela e outras 50 ou mais condições diferentes.Em muitos casos, esses pioneiros da imunologia estavam cientes da conexão com a homeopatia. Von Behring reconhecia essa relação e não relutava em elogiar Hahnemann e a escola homeopática, embora isso às vezes tornasse sua vida de professor difícil. Almroth Wright, que tem um bom amigo de Sir John Weir, o principal homeopata da Inglaterra da primeira metade do século 20, também foi às vezes constrangido a reconhecer a relação entre a homeopatia e seus próprios procedimentos. Por outro lado, Koch nunca admitiu tal relação com respeito à tuberculina; é minha opinião que sua relutância em reduzir as doses de tuberculina à faixa em que era possível usar se devia ao seu medo de ser rotulado de simpatizante homeopático.Muitas outras vacinas preventivas foram desenvolvidas na primeira metade do século 20: BCG para tuberculose, vacinas para febre amarela, cólera, peste e, por último, mas não menos importante, contra as doenças da infância: poliomielite, tosse convulsa, sarampo, caxumba, Sarampo alemão (rubéola) e outros.No uso do medicamento “semelhante”, esses procedimentos são semelhantes à homeopatia. Mas, em um aspecto importante, eles não seguiram o procedimento homeopático: nenhum esforço é feito para individualizar. Isso é especialmente verdadeiro para as vacinas contra a doença da infância (coqueluche, sarampo, caxumba), que são prescritas em todas as áreas, sem nenhum esforço para verificar de antemão se a criança vai reagir violentamente ou não. O resultado tem sido uma grande praga de reações adversas a essas vacinas – sobre a qual tenho escrito extensivamente.Almroth Wright, que desenvolveu a vacinação terapêutica com alto nível de eficácia, fez um grande esforço para individualizar. Mas seus seguidores não estavam dispostos a investir o mesmo tempo e esforço, e seus resultados foram menos bons do que os dele.A partir disso, meus colegas da fraternidade de história médica concluíram erroneamente que o próprio Wright não obteve bons resultados e que a vacinação terapêutica era um mito.Isso apenas mostra que a ideia empírica de individualização é um ponto doutrinário que é muito difícil para os pensadores alopáticos (Racionalistas) aceitarem.A área de alergia e seu tratamento foi outro desvio empírico dentro da alopatia. Ele surgiu pouco antes da Primeira Guerra Mundial, mas a primeira descoberta de alergia à erva daninha foi feita por um médico homeopata britânico.cian, Charles Blackley, na década de 1870 e publicado no British Journal of Homeopathy. O campo da alergia / alergologia, baseado na ideia da reatividade vital do organismo e sua hipersensibilidade a diversos estresses ambientais, foi durante décadas pouco considerado dentro da alopatia, que sempre prefere ver o paciente como passivo e não reativo. Mas quando a existência de estados alérgicos foi finalmente reconhecida, a profissão alopática adotou duas abordagens opostas ao tratamento. A abordagem Racionalizante (conhecida como “imunologia clínica”) exige a supressão da reatividade do organismo usando o medicamento contrário : adrenalina, corticosteróides e outras drogas supressoras. A abordagem empírica, denominada “ecologia clínica”, preconiza o tratamento com o medicamento semelhante (a técnica de neutralização da provocação), ou seja, uma dose da mesma substância em forma altamente diluída para provocar uma reação e, assim, diminuir a sensibilidade do paciente.Os imunologistas clínicos criticam o uso da técnica de neutralização da provocação por ser muito trabalhosa e demorada, isto é, por exigir um alto grau de individualização.A alopatia moderna também contém uma forte tendência da farmacologia empírica – medicamentos que funcionam como similares e são usados ​​para estimular a reatividade do organismo do paciente. Esses remédios, como mostrei em muitos escritos, muitas vezes eram tirados da escola homeopática, embora esses empréstimos geralmente não fossem reconhecidos.Na primeira metade do século 20, os textos alopáticos mencionam: acônito, arnica, actaea racemosa, agaricus muscarius, arseni-cum, aurum metallicum, berberis, hydrastis canadensis, veratrum album e dezenas de outros que foram usados ​​segundo crus homeopáticos indicações.Na segunda metade do século, a farmacologia ficou cada vez mais sob a influência da indústria de manufatura farmacêutica alopática, mas tais medicamentos permaneceram em uso alopático comum mesmo assim – freqüentemente com a observação de que o “mecanismo de ação” permanece desconhecido. Estes incluiriam: beladona, café e cafeína para dores de cabeça, cravagem para dor de cabeça (o medicamento OTC Cafergot), café para hiperatividade em juvenis, lobélia e estramônio para asma (o medicamento OTC Asthmador), nitroglicerina para angina de peito, ópio e seus derivados para dores de cabeça, veneno botulínico para estrabismo e outros distúrbios visuais, platina (cisplatina, platinol) para câncer testicular, toxina da cobra em doenças cardíacas e oculares, veneno de krait na miastenia gravis, veneno de cascavel na epilepsia, veneno de abelha melífera na artrite, sais de ouro no reumatismo, quinidina nas doenças cardíacas, etc. etc.Freqüentemente, esses medicamentos são criticados como perigosos devido à proximidade das doses terapêuticas e tóxicas. Isso é bastante natural no caso de medicamentos que operam pelo princípio da similaridade. Mas como isso significa que a dose tem que ser ajustada ao paciente, ou seja, individualizada, os alopatas muitas vezes preferem descartar esse procedimento, por exigir um grande aporte de tempo e esforço.Este breve levantamento da história médica dá origem a um quebra-cabeça final: como definimos “medicina científica”? Qual das duas doutrinas é ciência médica e qual é sectarismo?No conflito entre empirismo e racionalismo, entre homeopatia e alopatia, entre ecologia clínica e imunologia clínica, vemos um choque entre a visão empírica / homeopática de que o médico lida com os indivíduos e a visão racionalista / alopática de que o médico lida com classes de doenças ou direitos de doença. Para o primeiro grupo, “ciência” significa dar ao paciente exatamente o que ele precisa. Para a segunda, “ciência” significa prescrever o medicamento que foi desenvolvido para aquela classe ou categoria de “doença”.Não é difícil concluir que o primeiro é verdadeiramente científico, enquanto o segundo não. A terapêutica que dá a cada paciente exatamente o que aquele paciente precisa deve ser preferida em relação à terapêutica que trata cada paciente apenas como um membro de uma classe. Portanto, deve ser considerado “científico”.Mas essa conclusão nos coloca em uma posição estranha. Pois a medicina que definimos como “não científica” – isto é, a alopatia – tem muito domínio na sociedade hoje, enquanto as disciplinas empíricas, embora em ascensão, ainda são minoria.Se pensarmos um pouco nisso, entretanto, é perfeitamente razoável. Praticar uma forma científica de medicina como a homeopatia é mais exigente e envolve mais cuidado e trabalho do que praticar uma medicina não científica.tific. A maioria dos médicos, como a maioria das pessoas em todas as profissões e ocupações, prefere evitar o trabalho duro sempre que pode.O que tudo isso significa para a medicina nutricional? Acho que a medicina nutricional, especialmente em sua forma ortomolecular, deve ser identificada com o lado empírico do espectro, essencialmente em virtude de sua ênfase na singularidade de cada paciente. Roger Williams, por exemplo, escreveu que cada paciente é único, cada um tem seu próprio conjunto de necessidades nutricionais, cada um é diferente um do outro.E, como o Dr. Hoffer me disse, os outros nutricionistas não gostaram de Williams por causa disso, indo tão longe a ponto de proibir seus livros, colocando-os em uma espécie de Index Librorum proibitorum para nutricionistas.O estresse na individualização está muito sob a pele dos racionalistas médicos, que simplesmente não conseguem aceitar a ideia de que cada paciente é diferente de todos os outros. Por isso colocaram os livros de uma das mais conceituadas nutricionistas do século 20 na lista das leituras proibidas!Um segundo paralelo entre a medicina nutricional e o empirismo é que a medicina nutricional, especialmente em sua versão ortomolecular, aborda de forma muito generosa o número de medicamentos possíveis no mundo, ou seja, o número de remédios nutricionais possíveis.Nesta mesma reunião, ouvi uma discussão considerável sobre o conflito entre as descobertas dos nutricionistas sobre novos usos para várias substâncias e a recusa da instituição médica em reconhecer esses novos usos. Nossa amada Food and Drug Administration tornou-se famosa por rejeitar inicialmente alegações nutricionais – afirmando que não há uso conhecido para alguma nova substância nutricional e até mesmo querendo colocar os descobridores e proponentes de tais substâncias na prisão – e então, dez anos depois, mudando de ideia e reconhecendo a descoberta, afinal.As pessoas que fazem o trabalho real com novas substâncias representam o lado empírico da ciência nutricional, que estão abertas a novas vitaminas, novos medicamentos, novas idéias.Um paralelo final seria que a medicina nutricional, como a filosofia terapêutica empírica em geral, sempre se esforça para promover os esforços de autocura do próprio corpo, em vez de administrar substâncias que suprimem esses esforços.Por essas três razões, a medicina ortomolecular se enquadra, em minha opinião, no paradigma empírico e difere muito da visão racionalista da nutrição: que há um número limitado de substâncias nutricionais necessárias e que os pacientes devem ser vistos como membros de classes de doenças nutricionais (escorbuto , beri-beri, pelagra, etc.).Agora, qual é o valor desse conhecimento? Pode ser útil para você em sua prática ou em sua vida diária? Ainda não posso responder a essa pergunta, mas posso sugerir que existem algumas vantagens em se conhecer os antecedentes históricos da medicina ortomolecular.Em geral, é uma boa ideia saber de onde você veio, apenas porque isso lhe dirá quem são seus inimigos e para onde você está indo no futuro. A pergunta foi feita esta manhã por que os médicos alopatas agem da maneira que agem, por que são tão teimosos, por que não querem receber novos conhecimentos. É um recurso integrado? Eles têm QI baixo? Por que eles se comportam dessa maneira?A razão é que eles acreditam tão fortemente no paradigma Racionalista quanto o resto de nós acredita no paradigma Empírico. Se você disser a um desses médicos que cada paciente é diferente de todos os outros, ele pensará que você é um pouco maluco. Claro, ele vai dizer, há uma certa diversidade biológica, mas o que importa é o que todos esses pacientes têm em comum. E isso é que todos eles precisam de X gramas de vitamina C toda semana, etc. etc. Se você questionar esse elemento de crença, eles ficam chateados e se sentem ameaçados. Essa é uma das razões pelas quais eles relutam tanto em receber novos conhecimentos do lado empírico do espectro.Essa maneira de pensar racionalista é muito congruente com a estrutura geral de pensamento do final do século XX. Pensamos em termos de engenharia, em causas e efeitos. Conseqüentementeesses médicos equiparam “ciência” ao conhecimento dos mecanismos de ação. Se um nutricionista ortomolecular anunciar: nós observamos o efeito dessa vitamina e queremos usá-la, embora não entendamos seu mecanismo, eles não reconhecem isso como “científico”.O empirismo sempre considerou a observação cuidadosamente controlada como um conhecimento confiável. E, como afirmei no início, ela rejeita por princípio qualquer conhecimento excessivamente elaborado do funcionamento interno do organismo. Porque, embora se possa conhecer tais mecanismos em geral, nunca se pode saber se tal conhecimento é verdadeiro para um único indivíduo concreto.Seria necessário realizar uma autópsia em cada paciente, e a maioria dos pacientes não deseja ser autopsiada apenas para promover o avanço da compreensão nutricional.Finalmente, eu diria que este tipo de conhecimento pode ser de uso político para o movimento Ortomolecular ao ensinar a você quem são seus aliados em potencial e quem também são seus inimigos. E isso, creio eu, será útil no futuro para escolher o seu caminho no campo minado que sempre aguarda aqueles que querem praticar uma medicina verdadeiramente científica, ou seja, verdadeiramente empírica.Harris L. Coulter, Ph.D., é o autor de Divided Legacy: A History of the Schism in Medical Thought. Volume I. Os padrões emergem: Hipócrates a Paracelsus (580 páginas); Volume II. As origens da medicina ocidental moderna: JB Van Helmont para Claude Bernard (785 páginas); Volume III. The Conflict Between Homeopathy and the American Medical Association (550 páginas); Volume IV. Medicina do Século XX: A Era Bacteriológica (790 páginas). Washington, DC: Center for Empirical Medicine, 1973, 1975, 1977, 1994.

Diário de apartamento 8 – Hesitação e o desejo de viver (Blog Estadão)

No texto de Kafka “Retorno ao Lar”, traduzido por Anatol Rosenfeld, há uma frase cujo poder de desestabilizar atingiria até mesmo o mais convicto dos estoicos:  “Quanto mais tempo se está a hesitar diante de uma porta, mais estranha vem ela a se tornar”.

Pois é possível que nossa espreita diante desta porta esteja prestes a terminar. Isto é, ela será rompida à revelia. Não, infelizmente não será o fim desta virose.

Já se sabia, mesmo depois de um considerável êxodo dos grandes centros urbanos provocado pela pandemia, que para os “de maior risco” como é o meu caso a decisão de sair nunca seria fácil. Lembrava da frase,”Não saia nunca”. Sair de casa, da rua, do bairro, da cidade. Jargões, quando esmagadoramente repetidos, penetram na cultura e viram vício de informação.

–Você vai sair? Guiar 300 km e ainda pegar uma balsa? Que coisa mais arriscada meu amigo.

Foi o que ouvi quando comuniquei ao amigo com o qual jogo xadrez à distância que sairia da cidade.

–É um risco calculado, tentei tranquiliza-lo.

— Preferia que você usasse a defesa siciliana. Ora, com quem vou praticar as vitórias consecutivas se você…

— Pode falar, não se deixe dobrar por tabus: se eu for contaminado, precisar de tratamento, sair da vida…

— Até a volta, então. Ele se despediu abruptamente e um pouco constrangido.

Depois de nove meses quase recluso convenci-me através de um sonho que precisava romper com a sensação de prisão domiciliar, e, uma vez vencida a lei marcial, os obstáculos da censura e as exigências sanitárias, ousei viajar com a família.

É preciso considerar que durante as notícias desencontradas sobre o vírus e suas consequências, as exigências por nossos direitos foram se enfraquecendo. O número de restrições, arbitrariedades e massacres justificacionistas contra as liberdades individuais foram sendo costurados, vale dizer, foram sendo impostos, sem persuasão, sem instruções preliminares, sem campanhas educativas consistentes. O que se viu foi pura cena de arbitrariedades racionalizadas sob o uso de decretos cujos slogans genéricos tinham como base “desejo de salvaguardar a saúde e o bem estar da população”.

Apesar de a própria OMS ter alertado de que procedimentos restritivos indiscriminados apresentariam potencial risco de sublevação, motins e rebeliões contra ordens de fechamento, os governantes preferiram assim agir. E, até aqui, na maior parte dos casos, observou-se apenas ordem e mansidão, a mesma que costuma acometer rebanhos paralisados, acríticos, efeito tardio sobre os acuados pelo pânico. Mas as coisas vem mudando e rapidamente.

É o subtexto desta mansidão que nos interessa, independentemente do mérito de  suposta eficácia das medidas adotadas. Estão quase nos convencendo de que os direitos republicanos não são exatamente uma conquista por mérito do cidadão, passaram a ser magnânimas concessões do poder. Uma democracia que segue esta trilha causa mais calafrios do que regozijo. A verdade é que, sem mecanismos para retifica-la e arranca-la dos estranhos atalhos da doutrina  garantista, das concessões que gratificam a transgressão e dos entulhos autoritários apelidados de flexibilidade hermenêutica, o próprio caráter de representação política vai sofrendo uma corrosão cada vez mais difícil de ser reparada.

Agora pensem novamente no ônus da prova. A quem cabe prover saúde? Mas não é que itens de primeira necessidade e essenciais precisam vir venham acompanhados de segurança e transparência?  O Prof. Walter Maffei, de abençoada memória, sempre alertava contra os modismos em medicina, das patologias aos novíssimos medicamentos. Se a doença em voga é perigosa e mortal para alguns — como de fato é — para muitos representará apenas confinamento e bancarrota, isolamento e loucura. Para os que acham que é um preço razoável a se pagar, reduzo-me ao silêncio.

A complexidade exige que se supere o bidimensional e que se observe a realidade como um holograma. Os clínicos que o digam. Mas o fato que precisa ser analisado é que os efeitos colaterais das decisões também precisam entrar tanto no radar dos epidemiologistas de plantão, como no das equipes transdisciplinares.

Mas elas de fato existem? Se existem, onde estão? Alguém soube de um conselho assim reunido?

E se estes fatores extra saúde stricto sensu como desemprego e desesperança não entrarem na avaliação é porque a manipulação tem sido maior do que a acurácia científica. Por que tanta controvérsia sobre tratar precocemente? Isso tem sido devidamente investigado? É evidente que grande maioria não negará o poder da proteção vacinal. O que é desnecessário é a coação e decisões judiciais de sanções contra quem não está convencido ou seguro.  Quando há responsabilidade a começar por quem deveria servir de modelo.

Meu amigo enxadrista costuma dizer

— Entre nós, os modelos e os eleitos expiram antes do prazo.

Ninguém quer se arriscar sem necessidade. Não sem que se atestem os parâmetros de segurança, eficácia e sobretudo transparência. Não bastam discursos de políticos ou relatórios pomposos de experts assalariados, cujo compromisso prioritário parece ser com o poder.

Foi depois de um sonho que decidi viajar para uma ilha, e, como diz o texto, nenhum homem é uma ilha. Destarte, posso dizer que a experiência mostrou algo distinto. Quando se trata da vida prática somos uma infinidade de arquipélagos. Era ingenuidade imaginar que não seria assim, afinal por mais que a modernidade tente homogeneizar as respostas individuais são as idiossincrasias que comandam as decisões humanas, assim como as variadas sensibilidades às doenças e às substancias medicinais.

Nunca considerei que fosse tão confuso. É possível atestar o resultado prático desta confusão saindo nas ruas nas diversas cidades para constatar — como minha esposa observou — que as pessoas e os agrupamentos humanos vivem simultaneamente em universos paralelos. Encontramos  pessoas obsessivas, resignadas com um ultra confinamento fóbico, mas também aquelas que já abandonaram todas as precauções e seguem vivendo como se nada estivesse acontecendo. Não acho que a polêmica aqui seja entre “afirmacionistas” ou negacionistas e me recuso a julga-los. Acho eticamente desprezível julgar o contexto alheio sem todos os dados. Concluo apenas que o caminho do meio e o bom senso estejam mesmo em desuso.

O uso político do medo é uma arma tanto velha como eficaz. E é saudável que as pessoas estejam desconfiadas das informações de um sistema que deu múltiplas demonstrações de desprezo em relação à opinião pública.

Voltando a Kafka, quando a porta vai mostrando sinais não mais de estranheza, mas de ruína, o desejo de escancara-la supera a hesitação.

Se o Dr. Maffei estivesse vivo eu não hesitaria em perguntar e foi o que fiz no sonho que enfim me encorajou para colocar os pés na estrada e viajar:

— E quanto a este vírus Prof.?

— Você sabe que não gosto de falar sobre medicina, prefiro ouvir música clássica. Mas já que me perguntou, isto tudo dai vai passar e você sabe por que, não sabe?

— Acho que sim Prof.

— O vírus quer viver e se espalhar, seu objetivo biológico não é matar o paciente, por isso, com o tempo e com as mutações, a tendência é que ele seja de fato mais contagioso, mas ao mesmo tempo produza menos sequelas e seja menos letal.

— E o que devemos aconselhar as pessoas?

Ele me olhou desconfiado e com seu peculiar jeito peremptório falou em voz baixa:

— Mas é evidente que prevenção, tratamento precoce se houver e os cuidados de sempre.

— Sem esquecer que o risco sempre existe…

— Olha aqui, e me olhou com severidade, e sob uma expressão quase iracunda: a única coisa que o médico não tem o direito é de desanimar o paciente.

Quando acordei a decisão estava tomada.

Abrir a porta e enfrentar a fobia já não era mais uma questão de vontade. A hesitação foi substituída pelo desejo de viver, cuidadosamente, mas viver.

Diário de apartamento 8 – Hesitação e o desejo de viver

brasil.estadao.com.brDiário de apartamento 8 – Hesitação e o desejo de viverNo texto de Kafka “Retorno ao Lar”, traduzido por Anatol Rosenfeld, há uma frase cujo poder de desestabilizar atingiria até mesmo o

O problema com o Irã é do mundo (e continua sendo)

Jornal do Brasil

Hoje às 07h16 – Atualizada hoje às 07h19

De 2011, assunto pendente e sem solução.

O problema com o Irã é do mundo

Jornal do Brasil Paulo Rosenbaum

Passando uns dias em Boston (Massachussets, EUA), foi possível avaliar in loco a reação dos norte-americanos em relação ao desempenho recente de Obama. O intuito seria estimar que seu descompasso com a opinião pública poderia ter aumentado conforme a atual administração americana explicitasse as prováveis medidas em relação à corrida iraniana para obter o artefato bélico nuclear. A opinião pública americana, mesmo farta de guerras e ainda muito dividida quanto a um possível novo front, pareceu ter assimilado bem o didatismo do presidente. Na entrevista coletiva no Havaí em que colocou as cartas na mesa ele foi além do jogo para a plateia e explicou –– o novo problema que um acesso à bomba iraniana traria, desestruturando de vez o já decrépito tablado, e para bem além do Oriente Médio. 

Foi Herbert Marcuse quem escreveu que o equilíbrio estratégico entre as potências se dava exatamente na tênue gangorra: posse e ao mesmo tempo inexequibilidade de uso do arsenal nuclear pelas superpotências. O emprego de armas de destruição em massa –– como um bom jogo da velha –– determinaria sempre empate ininterrupto e derrota bilateral. Nesse frágil balanço é que se evitaria que o mundo terminasse como no pesadelo de Einstein: não se pode prognosticar o curso da terceira guerra mundial, a quarta, entretanto, seria travada a paus e pedras. 

É preciso compreender que o problema com o Irã não é só de Israel, concerne ao mundo. Enquanto Israel parecer ser o único e maior interessado em que o Irã não coloque as mãos na bomba –– significa que a política externa dos persas e sua bem remunerada mídia estão funcionando muito bem. Foi brilhante construir como único arqui-inimigo um adversário relativamente demonizado e em geral malquisto na imprensa internacional! 

Por isso precisamos colocar as coisas nos contextos apropriados. Para quem conhece um pouco melhor a política doméstica dos aiatolás sabe que por lá, hoje, inexiste qualquer espécie de controle social e, que, sob violenta autocracia, a eventual decisão de ataque (ou contra-ataque) dirigido a quem quer que seja, depende do aval de duas ou três pessoas da chamada Guarda Revolucionária que agem sob inspiração ideológica. Ninguém pede que se acredite nisso piamente. Seria mais prudente ouvi-los no original, mesmo que seja através das raras declarações que já vieram a público. Isso para que cada leitor decida sozinho quais são as intenções desses homens e o quanto se deve levar a sério sua obstinação. Para os fiéis teocratas de Teerã parece lícito e exequível destruir o inimigo mesmo que não haja vencedor. Não me peçam para explicar, mas esse é o modo como parecem fundamentar as coisas. 

Malgrado a guerra ainda parece ser pulsão longe de domesticada pela humanidade, por isso, talvez, a aura da paz tenha semblante anti-natural, e se faz à revelia do instinto. 

Ninguém pode apostar ao certo quais os desdobramentos de decisões militares preventivas, mas as chances ofertadas à paz se estreitam escandalosamente. Quando o mundo se cala –– essa doença crônica da humanidade –– o comum é que a omissão cobre os débitos na fatura seguinte. Nesse caso, se o conjunto de nações não conseguir união e consenso para recusar jogar o jogo que eles fingem não jogar, o Irã continuará o protelatório até ganhar o tempo necessário como, aliás, vem fazendo. Quando enfim anunciar que tem as ogivas embaladas dentro dos mísseis (pois tecnologia para alcançar Israel e segmentos da Europa já há) será leite derramado, e um desastre maior estará mais próximo para todos. 

O sempre detestável começo de uma guerra já é seu fim, especialmente para os mortos, feridos e inocentes que ficarem no caminho das balas. É claro que a diplomacia internacional se abanará e correrá no afogadilho para obter o cessar-fogo dizendo que já fez o possível, quando, na verdade não, a começar pelo Brasil. Ajudar o Irã e seu povo de verdade seria, usando de todos os meios disponíveis e urgentemente, demovê-los da ideia de produzir aquilo que tanto obseda o regime. Tarefa perdida opina a maioria, mas, ao menos, demonstraria real vocação à liderança e enorme solidariedade à civilização. 

A política externa brasileira lulupostista regida por um viés antissionista portanto antissemita – sob o disfarce de slogans como soberania e independência – pautou suas ações pelo imediatismo pseudopragmático e só faz reforçar a tese de que a política global, num cenário cada vez mais sórdido, se tornou mais business de expansão mercadológica do que um constante reparo na distância entre os povos. Pena, pois o assento permanente no Conselho de Segurança requer mais visão de horizonte, ousadia estratégica e audácia para sacrificar oportunismo às decisões difíceis, porém vitais.

Anti-Zionism is Anti-Semitism 3 – Can Justice Be Found? (Blog Estadão)

Anti-Zionism is Anti-Semitism 3 – Can Justice Be Found?

“Freedom for wolves means death for sheep”.

Isaiah Berlin

BLOG Conto de Notícias – Friends, I would like to invite you to this interview with the theme of a continuation of previous texts: ” Anti-Zionism is anti-Semitism 3 – where can justice be found?

I invited for this interview, André Lajst political scientist, doctoral student in Social Sciences at the University of Córdoba, Spain and director of the non-governmental organization “StandWithUs” Brazil “, and Flávio Goldberg, lawyer and master in law. I asked them to answer and discuss questions and provocations formulated by the Blog.

I begin with an excerpt from the resolution recently approved by the French National Assembly: The National Assembly … believes that the operational definition used by the International Holocaust Remembrance Alliance allows the more precise designation of what contemporary anti-Semitism is ”, the text of the resolution reads partially:

“He considers it an effective instrument to combat anti-Semitism in its modern and renewed form, as it encompasses expressions of hatred for the State of Israel justified only by its perception as a Jewish collective.”

(Times of Israel, 03, 12, 2019)

What is the evident current bias of the UN against Israel – represented by the mathematical disproportion in the number of resolutions hostile to the Hebrew State – in which way? Is it not a paradox that the entity that helped create the state is at the root of such partial and arbitrary resolutions?

FG- A large number of countries are experiencing backward political regimes that identify with oligarchic models such as Muslims in addition to the anti-Semitic appeal with a leftist bias. Israel is a “scapegoat” for virtues, not for ills.

AL – In fact, it is a contradiction. There are several reasons, but I can name a few. First, the proportion of countries aligned with democratic values ​​and freedom in 1947 is greater than it is today. The UN has more than 190 voting members, half of which are not liberal democracies.

A second aspect would mention the cold war, the Soviet axis and the alignment of this superpower with anti-Israel countries. With the end of the cold war, these countries, especially the Arab and Islamic countries, totaling 57 nations, understood that if they voted en bloc, a resolution to condemn Israel would always be passed.

A third aspect, which uses the same logic as the second, is precisely the UN format. A democratic assembly with 190 members, each representing a party (country), which votes solely and exclusively for national interest. In this way, absurdities like Iran presiding over a human rights commission or Syria presiding over a disarmament commission is possible.

BLOG Conto de Notícias – In your opinion, what aspects need to be attended to in order to increase awareness of prejudices and ethnic-racial discrimination? Campaigns have been tried and some bills have been tried, but when it comes to anti-Zionism there seems to be leniency from legislators in relation to the topic. France, where anti-Semitism has revealed itself as a growing and disturbing wave, the law referred to above has been passed, but is that enough?

AL – Who should define what would be the practice of racism against Jews, are the Jews. In the 70’s there was an attempt, perpetuated by the Soviet Union, supported by several Arab countries, when they passed a resolution at the UN that determined that Zionism, the national movement of self-determination of the Jewish people, as a form of racism. In 1991 that resolution was overturned, however, those who want to turn Zionism into something it is not, use that resolution to try to tarnish the true definition of Zionism. The IHRA, International Holocaust Remember Alliance , an international organization recognized by several countries, has written a new and contemporary version of anti-Semitism. In this definition, criticizing Israel is not anti-Semitism. IHRA makes that clear. Criticizing any country or government is legitimate. But to buy Israel with Nazi Germany, to imply that the Israeli army commits genocide or that the Gaza Strip is Auschwitz, saying that the concept of the existence of a national home for the Jewish people is a racist enterprise, that is, it is anti-Semitism. 

To combat this phenomenon, all countries should adopt the IHRA definition of anti-Semitism and implement legislation to punish hate crime offenders. What happened in France is a start but it is far from enough.

FG – Anti-Zionism must be characterized as Discrimination against a Jewish State, therefore a crime of racism. It cannot be treated as an ideological position, even because its leaders often belong to bodies composed of terrorists.

BLOG News Story – I wonder how much people understand the Jews’ desire to return to their original habitat, and have a national home. For if they fail to understand, they can very easily be deceived by parties and populists who try to criminalize this desire. Then they resort to slogans against Israel that sometimes “catch”, are the lies that it is a genocidal state, or that it is an apartheid (sic) regime. But we know that at the root of this hostility, contrary to what these people justify, is not the “well-being of the Palestinians”, but an atavistic, ancestral hatred, which psychologists, sociologists, philosophers and jurists have already addressed without reaching a credible consensus. How do you face these dilemmas so alive today?

FG – The existence of a Jewish state attacks the apocalyptic imagery of paranoid Christians and Muslims. Legal repression is the only civilizing remedy to prevent the spread of this hatred.

AL – I believe that the existence of a modern and westernized Jewish State in the Middle East, attacks the humiliation that Islam went through after the end of the Middle Ages and the beginning of the Modern Age, especially after the press revolution. Islam developed much more than Europe in the Middle Ages, which focused on wars and divine theories. Throughout the modern age, with enlightenment, renaissance and science, Europe came to dominate and consequently conquer the East. Islam has seen its empires fall, its culture despised and its honor violated. This feeling of greater resentment is also externalized by the presence of Israel. In the reading of many in the Middle East, Israel is a European colonialist project, when in fact it is a Jewish national movement, Semitic, that is, non-European, which was materialized precisely by the flight of these people from European powers. When Jews are seen as a mere religion that wants to shut themselves up in a country, the conclusions of these people become something simple, superficial and mistaken. The parties and politicians who ignore other human rights violations around the world, ally themselves with dictatorships because they are aligned with his worldview, and accuse Israel of crimes that he never committed, I conclude that this is the most contemporary and politically version correct form of anti-Semitism.

BLOG Conto de Notícias – Inspired by the aforementioned approval of the law by the French National Assembly, is there room in Brazil to propose a bill that makes anti-Zionism a kind of vicarious anti-Semitism?

AL – I believe so. It is necessary for jurists to identify and exemplify the terms defined by the IHRA definition. Criticism of any country is legitimate and it is necessary that freedom of expression be protected within the law. However, as described in French legislation, expressions of hatred of the State of Israel with demonizing connotations, use of discriminatory language, which encourages the public to disapprove and even reject the existence of a national home for the Jewish people, should be seen as a discourse hateful and therefore illegal.

FG – Yes, and also take to the courts for consistent jurisprudence the anti-Semitic root of anti-Zionism. A systematic judicialization of hatred against Israel is urgently needed.

BLOG Conto de Notícias – In the recent electoral election for mayor in the city of São Paulo, a party and its candidate, whose platform is explicitly governed by a hate speech to Israel, sought to quibble when the candidate was asked about what the official posture would be. broken. Shouldn’t public opinion be aware of the candidates’ personal positions on such sensitive matters? What right has a party – which should submit to what the federal constitution advocates – to claim hatred for a country, and therefore for the people who live there? Are there mechanisms in current legislation that can curb the call for hate crime without harming the right to free expression?

FG – PSOL and its candidate for mayor of São Paulo, recently associated Higienópolis, a neighborhood of Jewish concentration to the “elite” and Cidade Tiradentes to poverty in a picture of “miserable Palestinians” and “Zionists”

AL – When a political party expresses different opinions on different subjects, such parties and politicians do this for two reasons: either to establish a specific agenda or to establish a specific ideology. In both cases, it is not just a right as a duty of the population that feels harmed and even offended by these positions, to demand a retraction or clarification regarding these matters. The PSOL, in the figure of certain party figures, has, for many years, exposed prejudices, delegitimizations and dehumanizations in relation to the State of Israel. These exhibitions come to the fore through letters, articles, videos, visits to regions of the Israeli-Palestinian conflict and other manifestations that generate discomfort and even feelings of prejudice among many Brazilian Jews. Obviously, all Brazilian parties and politicians, a democracy, are in their constitutional right to express their opinions on various issues, but there is a fine line between legitimate criticism of any nation and the spread of lies, untruths and the desire for the destruction of a nation. In this context, as it is the only nation of the Jewish people in the world, there should be clear and simple legislation that would prohibit this hate crime. Freedom of speech can never be confused with the free expression of hatred and fakenews about an entire nation. A few years ago, the speeches of many PSOL members were softened for political reasons. However, even with dubious speeches and, at the same time, soft to the ears of many, just read between the lines to realize that the speech of candidates and party leaders are, in fact, the same speech of groups and movements that preach the boycott of Israel and do not support its existence as a Jewish and democratic state.

BLOG Tale of News – Finally I would like you to make considerations and new questions that would lead us to fruitful debates. A parliamentary office that could move people to a state of lesser belligerence, perhaps the improvement of peace, after all the word “shalom” is one of those repeated in the Pentathéuco, the Torah.

FG – Unfortunately, in a situation of pandemic and economic crisis, demagogues even linked to criminal gangs elect “ghosts like Jews or Zionists” as responsible and in these circumstances only legal action has a concrete effect.

AL – Aversion to Zionism is not an aversion to a specific Israeli policy. Zionism is nothing more than the proper name of the national self-determination movement of the Jewish people. Just look at the history of Israel and notice that the country has people from the right, left, liberals, conservatives, religious, seculars, all of them, Zionists and aware of the importance of maintaining Israel as the national home of the Jewish people. Forms of government, public policies and other differences within Israel do not diminish or increase people’s Zionism. Therefore, the aversion to the national movement that created the self-determination of the Jewish people is, in other words, the aversion to the right of the Jewish people to self-determine. Since those who protect this feeling do not oppose, in the gigantic majority of times, the existence of any nation, but focus specifically on Israel, it follows that this aversion is a prejudice against the Jewish people. This prejudice may not be related to your religion, as it was in the Middle Ages in Europe, or your race, as perpetuated by the Nazis, but rather to be related to your nation, as it is with Israel.

BLOG Conto de Notícias – André, from your point of view the use of purposefully dubious language leads the public and the world public opinion to a doubt that establishes a false gradation: anti-Zionism would be just a position of political objection to Israel, while Anti-Semitism would be a prejudiced / racist stance. Is not making language clear that both mean hatred of Israel and Jews would be an important move?

AL – Political polarization created armored agendas, in which a person chooses the entire agenda of a party or candidate. There is no greater ignorance than considering the whole agenda of a party or politician correct without analyzing point by point everything that this agenda protects and believes in. Criticism of Israel is healthy and happens daily inside and outside the country itself. This is not wrong. But we have seen a trend that demonizing the country has been interpreted as a legitimate criticism, when in fact, it is not.

BLOG Conto de Notícias – Could Flávio detail the ways for these legal actions to be articulated at this time?

FG – A criminal action for racism, as already defended by the Federal Supreme Court that the crime of hatred against Jews or spreading anti-Semitic ideas is a crime of racism and knowing that some racists in the constitutional term of the word try to hide their crime using of the word Zionism or addressing “Zionists” which should be punished with the same rigor of the law because it is a teleological and systemic interpretation adopted by the constituents and members of our Judiciary who understand the political, historical and social view to define such conduct .

BLOG Conto de Notícias -Assess how in the definition of the internet (Wikipedia) a bias is already expressed that somehow endorses the posture: “Eventually, the term is also often applied to political opposition to the Israeli government, especially if motivated by denunciations of systematic human rights violations by the Palestinians, including war crimes [citation needed] sic, but also to the denial of the right of existence of the State of Israel. ”

Pay attention to the quote “war crimes (citation needed)” sic. Do you consider it important to monitor and report this type of definition, which is far from neutral information?

FG – Civil society initiatives are welcome worldwide. It turns out that, since the UN, including national and international human rights groups, they tend to disproportionately target Israel. I explain: national states – those Christian, Muslim or syncretic in origin – have condemnable and arbitrary practices. Israel is one more of them. But because it is an openly Jewish state, it is not treated with equal criticism, this reveals an obviously anti-Semitic, discriminatory and cowardly practice, and the worst, in the name of so important Human Rights. The culmination of this is revealed in movements like the BDS (boycott, divestment and sanctions) directed against Israel. Lately, such a movement even targets Israeli intellectuals in the academic field, which in itself is discriminatory, anti-Semitic and cowardly.

AL – In conclusion: I consider anti-Zionism a form of anti-Semitism. This place of speech is present in most Jewish, political and religious organizations worldwide.

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The feeling of contemporary hostility towards Jews, inside or outside Israel, relives dark days that usually start against Jews until they escalate and reach widespread intolerance in the near future. Governments and citizens must fight together against anti-Zionism (hatred of Israel and its inhabitants) and anti-Semitism (animosity against Jews) as well as against all forms of discrimination as a moral duty. Duty that transcends the Hebrew people, because it is not just another battle in favor of the civilizing process, the care now is not to repeat the old mistakes. 

For that, as our guests in this interview suggested, a specific permanent court for the matter may be needed, which is not itself contaminated with an ideological bias against Israel. 

As prosecutor Henry T. King Jr spoke at the final sentence of the Nuremberg trial on August 19, 1947:

“We will strive to establish a permanent court , to give future generations
something they can use to prosecute those who are betting on war against humanity.”

Antissionismo é antissemitismo 3 – a justiça pode ser encontrada? (Blog Estadão)

Antissionismo é antissemitismo 3 – a justiça pode ser encontrada?

“Liberdade para os lobos significa a morte para as ovelhas”.

Isaiah Berlin

BLOG Conto de Notícia – Amigos, gostaria de convidá-los para esta entrevista tendo como temática uma continuação de textos anteriores: “Antissionismo é antissemitismo 3 – onde a justiça pode ser encontrada?

Convidei para esta entrevista, André Lajst cientista político, doutorando em Ciências Sociais pela Universidade de Córdoba, Espanha e diretor da organização não governamental “StandWithUs” Brasil”, e Flávio Goldberg advogado, e mestre em direito. Pedi a eles que respondessem e discutissem questões e provocações formuladas pelo Blog.

Inicio com um trecho da resolução recentemente aprovada pela Assembleia Nacional Francesa: A Assembleia Nacional… acredita que a definição operacional usada pela International Holocaust Remembrance Alliance permite a designação mais precisa do que é o antissemitismo contemporâneo ”, lê-se parcialmente o texto da resolução:

“Considera-o um instrumento eficaz de combate ao antissemitismo em sua forma moderna e renovada, na medida em que engloba manifestações de ódio ao Estado de Israel justificadas apenas pela percepção deste como um coletivo judeu.”

(Times of Israel, 03, 12, 2019)

O evidente viés atual da ONU contra Israel — representado pela desproporção matemática do número de resoluções hostis ao Estado hebreu — deve ser encarado de qual modo? Não é um paradoxo que a entidade que ajudou a criar o Estado esteja na raiz de resoluções tão parciais e arbitrárias?

FG- Grande número de países vive regimes políticos atrasados que se identificam com modelos oligárquicos como os muçulmanos além do apelo antissemita com um viés esquerdista. Israel é “bode expiatório” pelas virtudes não pelas mazelas.

AL -De fato, é uma contradição. Os motivos são vários, porém posso citar alguns. Em primeiro lugar, a proporção de países alinhados com valores democráticos e liberdade em 1947, é maior que nos dias atuais. A ONU tem mais de 190 membros votantes, sendo que metade desses países, não são democracias liberais.

Um segundo aspecto, citaria a guerra fria, o eixo soviético e o alinhamento desta superpotência com países anti Israel. Com o fim da guerra fria, esses países, principalmente os países árabes e islâmicos, que totalizam 57 nações, entenderam que se votassem em bloco, uma resolução para condenar Israel sempre seria aprovada.

Um terceiro aspecto, que usa a mesma lógica do segundo, é justamente o formato da ONU. Uma assembleia democrática com 190 membros, cada qual representando um partido (país), que vota única e exclusivamente por interesse nacional. Desta forma, absurdos como o Irã presidir uma comissão de direitos humanos ou a Síria presidir uma comissão de desarmamento, é possível de acontecer.

BLOG Conto de Notícia -Nas vossas opiniões quais os aspectos precisam ser atendidos para que haja uma conscientização maior em relação aos preconceitos e à discriminação étnico-racial? Campanhas já foram tentadas e alguns projetos de lei também, mas quando se trata de antissionismo parece haver uma leniência dos legisladores em relação ao tema. A França, onde o antissemitismo tem se revelado como uma onda crescente e perturbadora, a lei acima referida foi aprovada, mas isso basta?

AL– Quem deveria definir o que seria a pratica de racismo contra judeus, são os judeus. Na década de 70 houve uma tentativa, perpetuada pela União Soviética, apoiada por diversos países árabes, quando passaram uma resolução na ONU que determinava que o sionismo, o movimento nacional de autodeterminação do povo judeu, como forma de racismo. Em 1991 essa resolução foi derrubada, porém, aqueles que querem transformar o sionismo em algo que ele não é, usam essa resolução para tentar manchar a verdadeira definição do sionismo.  A IHRA, International Holocaust Remember Alliance, uma organização internacional e reconhecida por diversos países, escreveu uma nova e contemporânea versão do antissemitismo. Nesta definição, criticar Israel não é antissemitismo. A IHRA deixa claro isso. Criticar qualquer país ou governo é legitimo. Porém comprar Israel com a Alemanha Nazista, insinuar que o exercito de Israel comete genocídio ou que a Faixa de Gaza é Auschwitz, dizendo que o conceito da existência de um lar nacional para o povo judeu é um empreendimento racista, isto sim, é antissemitismo.

Para lutar contra esse fenômeno, todos os países deveriam adotar a definição de antissemitismo da IHRA e implementar legislação para punir os infratores por crime de ódio. O que houve na França é um começo mas está longe de ser o suficiente.

FG – O antissionismo tem que se caracterizar como Discriminação contra um Estado de judeus, portanto crime de racismo. Não pode ser tratada como posição ideológica, inclusive por seus líderes frequentemente serem de órgãos compostos por terroristas.

BLOG Conto de Notícia – Me pergunto o quanto as pessoas entendem o desejo dos judeus de voltar ao seu habitat original, e terem um lar nacional. Pois, se não conseguem compreender, podem ser muito facilmente ser ludibriadas por partidos e populistas que tentam criminalizar este desejo. Então lançam mão de slogans contra Israel que às vezes “pegam”, estão as mentiras de que é um Estado genocida, ou de que se trata de um regime de apartheid (sic). Mas sabemos que na raiz desta hostilidade, ao contrário do que tais pessoas justificam, não está o “bem estar dos palestinos”, mas um ódio atávico, ancestral, sobre o qual já se debruçaram psicólogos, sociólogos, filósofos e juristas sem chegar a um consenso crível. Como vocês encaram estes dilemas tão vivos em nossos dias?

FG – A existência de um Estado judeu agride o imaginário apocalíptico de cristãos e muçulmanos de formação paranoide. A repressão legal é o único remédio civilizatório para impedir a disseminação deste ódio.

AL– Acredito que a existência de um Estado Judeu moderno e ocidentalizado no Oriente Médio, agride a humilhação que o Islã passou após o fim da idade média e o início da idade moderna, principalmente após a revolução da prensa. O Islã se desenvolvia muito mais do que a Europa na idade média, que focava em guerras e teorias divinas. O longo da idade moderna, com o iluminismo, o renascimento e a ciência, a Europa passou a dominar e consequentemente conquistar o Oriente. O Islã viu seus impérios caírem, sua cultura ser desprezada e sua honra violada. Este sentimento de rancor maior, é externalizado, também, pela presença de Israel. Na leitura de muitos do Oriente Médio, Israel é um projeto colonialista europeu, quando na verdade é um movimento nacional judaico, semita, ou seja, não europeu, que se concretizou justamente pela fuga destas pessoas de poderes europeus. Quando judeus são vistos como uma mera religião que quer se fechar em um país, as conclusões destas pessoas se transformam em algo simples, superficial e equivoca. Os partidos e políticos que ignoram outras violações de direitos humanos em todo o mundo, se aliam a ditaduras por elas serem alinhadas com sua visão de mundo, e acusam Israel de crimes que ele jamais cometeu, concluo que essa é a versão mais contemporânea e politicamente correta do antissemitismo.

BLOG Conto de Notícia – Inspirado na já referida aprovação da lei pela Assembleia Nacional Francesa, há espaço no Brasil para propor um projeto de lei que torne o antissionismo uma espécie de antissemitismo vicariante?

AL– Acredito que sim. É necessário que os juristas identifiquem e exemplifiquem os termos definidos pela definição da IHRA. Críticas a qualquer país são legitimas e se faz necessário que dentro da lei se proteja a liberdade de expressão. Porém, conforme descrito na legislação francesa, manifestações de ódio ao Estado de Israel com conotações demonizadoras, uso de linguagem discriminatória, que incentive o publico a desaprovar e até mesmo rejeitar a existência de um lar nacional para o povo judeu, deve ser encarado como discurso de ódio e, portanto, ilegal.

FG – Sim e também levar aos tribunais para jurisprudência coerente desde já a raiz antissemita do antissionismo. Urge sistemática judicialização do ódio contra Israel.

BLOG Conto de Notícia – No recente pleito eleitoral para prefeito na cidade de São Paulo, um partido e seu candidato, cuja plataforma é explicitamente regida por um discurso de ódio a Israel, buscou tergiversar quando o candidato foi questionado sobre qual seria a postura oficial do partido. A opinião pública não deveria ficar a par de quais os posicionamentos pessoais dos candidatos em matérias tão sensíveis? Que direito tem um partido — que deveria se submeter ao que preconiza d constituição federal — de conclamar ódio a um país, portanto ao povo que lá habita? Há mecanismos na atual legislação que podem coibir a conclamação ao crime de ódio sem ferir o direito à livre expressão?

FG– O PSOL e seu candidato a prefeitura de São Paulo, recentemente associaram Higienópolis, um bairro de concentração judaica à “elite” e Cidade Tiradentes à pobreza num quadro dos “palestinos miseráveis” e “sionistas

AL – Quando um partido político emite opiniões diversas sobre assuntos diversos, tais partidos e políticos fazem isso por dois motivos: Ou para firmar uma agenda específica ou para firmar uma ideologia especifica. Em ambos os casos, não é só de direito como um dever da população que se sente prejudicada e até mesmo ofendida por estes posicionamentos, cobrar uma retratação ou esclarecimento a respeito destes assuntos. O PSOL, na figura de determinadas figuras do partido, tem, há muitos anos, expondo preconceitos, deslegitimizações e desumanizações em relação ao Estado de Israel. Estas exposições veem a tona através de cartas, artigos, vídeos, visitas a regiões do conflito israelo-palestino e outras manifestações que geram um desconforto e até mesmo sentimentos de preconceito entre muitos judeus brasileiros. Obviamente que todos os partidos e políticos brasileiros, uma democracia, estão no seu direito constitucional de emitirem suas opiniões em diversos assuntos, porém há um limite tênue entre a crítica legitima a qualquer nação e a disseminação de mentiras, inverdades e desejo pela destruição de uma nação. Neste contexto, por se tratar da única nação do povo judeu no mundo, deveria existir uma clara e simples legislação que proibisse esse crime de ódio. A liberdade de expressão jamais pode ser confundida com a livre expressão do ódio e fakenews a respeito de uma nação inteira. Há alguns anos os discursos de muitos membros do PSOL foram suavizados por motivos políticos. Porém, mesmo com discursos dúbios e, ao mesmo tempo, suaves aos ouvidos de muitos, basta ler as entrelinhas para perceber que o discurso de candidatos e dirigentes do partido são, na verdade, o mesmo discurso de grupos e movimentos que pregam o boicote a Israel e não apoiam sua existência como Estado Judeu e democrático.

BLOG Conto de Notícia – Finalmente gostaria que vocês fizessem considerações e novas perguntas que nos levasse a debates profícuos. Um parlatório que pudesse deslocar as pessoas para um estado de menor beligerância, quiçá o aprimoramento da paz, afinal a palavra “shalom” é uma das repetidas no pentatêuco, a Torá.

FG– Infelizmente numa situação de pandemia e crise econômica demagogos inclusive ligados à quadrilhas criminosas elegem “fantasmas como judeus ou sionistas” como responsáveis e nestas circunstâncias só a ação legal tem efeito concreto.

AL – A aversão ao sionismo não é uma aversão a uma política específica de Israel. O sionismo nada mais é do que o nome próprio do movimento nacional de autodeterminação do povo judeu. Basta olhar a história de Israel e notar que o país possui pessoas de direita, esquerda, liberais, conservadores, religiosos, seculares, todos eles, sionistas e conscientes na importância da manutenção de Israel como o lar nacional do povo judeu. Formas de governo, políticas publicas e outras divergências que existem dentro de Israel não diminuem ou aumentam o sionismo das pessoas. Portanto, a aversão ao movimento nacional que criou a autodeterminação do povo judeu é, em outras palavras, a aversão do direito do povo judeu em se autodeterminar. Visto que aqueles que protegem esse sentimento não se opõem, na gigantesca maior parte das vezes, a existência de nenhuma nação, mas focam especificamente em Israel, se conclui que essa aversão é um preconceito com o povo judeu. Esse preconceito pode não ser em relação a sua religião, como acontecia na idade média na Europa, ou a sua raça, como perpetuado pelos nazistas, mas sim ser relacionado a sua nação, como acontece com Israel.

BLOG Conto de Notícia – André, do seu ponto de vista o uso da linguagem propositalmente dúbia leva o público e a opinião pública mundial a uma dúvida que estabelece uma falsa gradação: antissionismo seria apenas uma posição de objeção política a Israel, enquanto Antissemitismo sim seria uma postura preconceituosa/racista. Deixar claro na linguagem que ambas significam ódio à Israel e aos judeus não seria um movimento importante?

AL – A polarização política criou agendas blindadas, em que uma pessoa escolhe toda agenda de um partido ou candidato. Não há ignorância maior do que considerar toda a agenda de um partido ou político correta sem analisar ponto a ponto tudo que esta agenda protege e acredita. A crítica a Israel é saudável e acontece diariamente dentro e fora do próprio país. Isso não é errado. Mas temos visto uma tendência que demonizar o país tem sido interpretado como se fosse uma crítica legitima, quando na verdade, não é.

BLOG Conto de Notícia – Flávio poderia detalhar quais os caminhos para que estas ações legais pudessem ser articuladas neste momento?

FG – Uma ação criminal por racismo, como já defendida pelo Supremo Tribunal Federal que o crime de ódio contra judeus ou propagar ideias antissemitas se configura crime de racismo e sabendo-se disso alguns racistas no termo constitucional da palavra tentam esconder seu delito utilizando-se da palavra sionismo ou se dirigindo à “sionistas” o que deve ser punido com o mesmo rigor da lei por se tratar de interpretação teleológica e sistêmica adotada pelos constituintes e membros de nosso Judiciário que entendem pela visão política, histórica e social para definir tal conduta.

BLOG Conto de Notícia -Avaliem como na definição da internet (Wikipedia) já se expressa um viés que de certa forma endossa a postura: “Eventualmente, o termo também é muitas vezes aplicado à oposição política ao governo de Israel, sobretudo se motivada por denúncias de violações sistemáticas de direitos humanos dos palestinos, incluindo crimes de guerra [carece de fontes] sic, mas também à negação ao direito de existência do Estado de Israel.”

Prestem atenção na citação “crimes de guerra (carece de fonte)” sic. Consideram importante monitorar e denunciar este tipo de definição que está longe de uma informação neutra?

FG – Iniciativas da sociedade civil são bem-vindas no mundo todo. Acontece que, desde a ONU, incluindo grupos de Direitos Humanos nacionais e internacionais, costumam inserir Israel como alvo de maneira desproporcional. Explico: os Estados nacionais – aqueles cristãos, muçulmanos ou de origem sincrética – possuem práticas condenáveis e arbitrárias. Israel é mais um deles. Mas por ser um Estado abertamente judeu não é tratado com igualdade de crítica, isso desvela uma prática obviamente antissemita, discriminatória e covarde, e o pior, em nome dos tão importantes Direitos Humanos. O ápice disso é revelado em movimentos como o BDS (boicote, desinvestimento e sanções) direcionadas contra Israel. Ultimamente, tal movimento mira inclusive intelectuais israelenses em campo acadêmico, o que por si só é discriminatório, antissemita e covarde.

AL – Ao modo de conclusão: considero o antissionismo uma forma de antissemitismo. Esse lugar de fala se faz presente na maior parte das organizações judaicas, políticas e religiosas, no mundo todo.

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O sentimento de hostilidade contemporâneo contra judeus, dentro ou fora de Israel, revive dias tenebrosos que costuma começar contra judeus até escalar e atingir a intolerância generalizada num futuro próximo.  Governos e cidadãos devem lutar juntos contra o antissionismo (ódio à Israel e aos seus habitantes) e antissemitismo (animosidade contra judeus) assim como contra todas as formas de discriminação como um dever moral. Dever que transcende o povo hebreu, pois não se trata apenas de mais uma batalha a favor do processo civilizatório, o cuidado agora é para não repetir os erros antigos.

Para isso,  conforme nossos convidados nesta entrevista sugeriram, talvez seja preciso uma corte permanente específica para o assunto, a qual não esteja, ela mesma, contaminada com um viés ideológico contra Israel.

Como discursou o promotor Henry T. King Jr na sentença final do julgamento de Nuremberg em 19 de agosto de 1947:

“Vamos lutar para estabelecer uma corte permanente, para dar às futuras gerações
alguma coisa que eles possam utilizar para processar aqueles que apostam na guerra contra a humanidade.”

https://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/antissionismo-e-antissemitismo-3-a-justica-pode-ser-encontrada/

As pajens eletrônicas – Contra as mordaças digitais (Blog Estadão)

A insistência do Estado e seus associados em tratar as populações de seus países como infantes pode estar apenas começando.

No caso da pandemia a falta de criatividade e a eficiência vem explodindo na cara dos contribuintes: testemunhamos um fenômeno inédito que tem sido naturalizado. Trata-se da substituição de campanhas de conscientização por multas e prisões, argumentos por decretos, e solidariedade, por flerte com medidas totalitárias.

Durante uma crise sanitária desta gravidade, por mais bem preparadas que as equipes que preparam políticas públicas de saúde sejam, jamais deveriam instruir isoladamente os chefes do executivo como proceder. Pelo menos não da forma peremptória e isolada como tem acontecido. Um assunto epidemiológico desta envergadura e impacto das medidas é de tal forma abrangente sobre a vida dos cidadãos que já deveria haver consenso de que só um trabalho transdisciplinar é capaz de ter o aval da população.

Os interesses numa democracia são múltiplos, polissêmicos e, na maior parte das vezes, conflitantes. Portanto, a arbitragem deveria emergir de um poder que moderasse os conflitos para além do viés ideológico. Um poder sobretudo confiável. O fato é que a guerra de narrativas veiculadas incessantemente impede e afasta do horizonte os consensos mínimos. Vale dizer, acordos e pactos que vem prontos, mas que nada se assemelham a confluência de interesses. São, no máximo, consensos de petit comitê.

Estes tem sido ditados. articulados e implementados por minorias que provisoriamente ocupam o comando. E como estão completamente apartados da opinião pública,  — força motriz da democracia, hoje rebaixada à segunda categoria — consideram-se livres para governar sem ela, ou até mesmo contra ela.

Minorias arbitrárias que hoje estão no comando — e parecem desprezar as garantias constitucionais  — aspiram a hegemonia e abertamente já discursam contra o rodízio do poder, conclamando alterações das normas jurídicas bem no meio do jogo. Os argumentos costumam ser os mesmos: manter a governabilidade, fazer contrapesos aos povos que não sabem votar adequadamente (sic), vale dizer, adotam a conhecida máxima: “a causa é muito mais importante do que o eventual atropelo das normas”.

Muitos governantes e legisladores — protegidos pelo álibi da votação que recebem — operam com a certeza senão da impunidade, da prorrogação da punitividade, geralmente seletiva, na figura da legitimação de instâncias infinitas. Uma parte da distorção cronica se deve às medidas excepcionais seriadas que os sistemas de poder vem adotando para corrigir problemas gerados por suas próprias inépcias.

Some-se a isso a insegurança jurídica promulgada por hermenêuticas ininteligíveis, e adotadas sem a mínima preocupação de resguardar o principio da impessoalidade e da equidade, e teremos o de sempre: um país com epidemia de distorções intelectuais.

Para bem além das teorias conspiratórias, os hoje onipresentes “checadores de fatos”, na vulgata, mais conhecidas como “mordaças digitais”, vem gozando do direito adquirido para colocar “tarjas de veto”, quando não censurar versões de fatos com as quais discordam, representam uma inaudita e gravíssima ruptura do contrato social. Nem na ditadura o censurado deixava de ser avisado que seu conteúdo fora mutilado. Medidas, que, curiosamente, vem contando com o beneplácito de expressiva parte dos veículos de comunicação de massa. Seria bom que as instituições jornalísticas e que sempre defenderam a liberdade de imprensa  se pronunciassem.

Este “cala-boca” interpretativo significa endosso ao controle das versões e das opiniões, numa clara violação do direito a liberdade de expressão, apelidado de controle de informações falsas. Sempre haverá uma justificativa para censura ou já não ouvimos antes a celebre justificativa “por ameaça à segurança nacional”. Ora, não é difícil fazer a extrapolação: quem defende a violação instrumental da Constituição Federal, defende a ditadura.

Porquanto colocar em dúvida a credibilidade das eleições seria bem menos desastroso do que colocar os críticos de máquinas das votação sob suspeição de “inimigos da democracia”. Decerto inimigos da liberdade existem — às vezes dentro das próprias hostes partidárias pleiteando cargos e mesmo dentro do núcleo duro do poder — e é certo que precisam ser combatidos com transparência.  Já a interposição de mais opacidade e endossar a censura apenas se presta a agudizar as desconfianças e disseminar as teorias de complôs. Por que este e tantos outros temas transformam-se em tabus? Às vezes, parece, à revelia das instituições.

O justo é aquele que odeia a injustiça. O monitorador moralista, o supremacista do bem, toma por vicissitude esta notável virtude. Duvidar, inquirir, arguir: não são estas algumas das garantias de que ainda vivemos num estado democrático de direito?

Confiamos no direito à livre expressão garantida na carta constitucional. A menos que o correio a tenha extraviado, supomos que ela deve estar à disposição dos únicos destinatários cabíveis: nós, o Povo.

https://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/as-pajens-eletronicas-contra-as-mordacas-digitais/