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Shaná Tová

Shaná Tová

18 Elul,

Mestre Do Multiverso
Que a saúde e o bem estar sejam restabelecidos
Na Terra e nos Teus Difusos Domínios
Que Tua Toda Presença seja agora percebida
Pelo tato, aquecida pelos sentidos do corpo
Guardada pelas andanças da alma
Que Tua atmosfera forneça nosso ar
E teu hálito nos habite dia e noite
Nas viagens e no repouso
No trabalho e nos sonhos

E através de teus intermediários e transportadores
Que esta carga seja recebida com sincera aceitação
Que a resignação se torne suave entendimento
Que tua proteção ceda calor aos nossos dias
Que o inevitável seja revogado
Que a beleza e realeza dispensem severidade
Que o mundo da Ação penetre no da Luz
Que as dimensões se fundam
E nas cordas infinitas entrelacem nossa adesão

Que Tuas bênçãos, se infiltrem em todos
Que nossos poros mereçam Teu óleo
Que nossas vidas sejam destinadas
Ao propósito que, mesmo ignorado, estejam traçados por Ti
No milimétrico compasso do Teu Império

Peço por mim, mas peço por todos
Peço por cada um e pela comunidade
Peço pelos que necessitam e pelos que não sabem disso
Peço por Tua atenção e pelo Teu perdão
Por nossas deficiências e incompreensão

Que Tua proteção seja a norma
Para todas as vidas
Presente em todos os lugares
Espalhada em todos os códigos
Que Teu amor ultrapasse o consolo
E mude a rota em nossa direção
Diretamente para o nosso coração ávido
Pela tua dança e euforia

Ponha-se no lugar do outro (Blog Estadão)

Há alguns anos uma Faculdade de Medicina de São Paulo resolveu criar um núcleo de ensino experimental. Em um dos módulos a proposta era uma inversão das funções. O estudante de medicina ficaria no lugar do paciente e vice versa. O resultado foi chocante. Deveria durar três meses, não sobreviveu duas semanas. Quem desistiu foram os aprendizes de medicina.  Não suportaram ficar no lugar dos pacientes. Desta lição fica claro que não se tratou de má vontade, incomodo com a hierarquia, nem de algum gênero de preconceito. O que os impactou foi a aflição. A sensação de solidão. O desamparo e a falta de diálogo. O que parece óbvio é que ainda há muito o que fazer para melhorar a percepção dos profissionais de saúde em relação aos seus objetos. O problema pode estar exatamente nesta palavra, objeto. É evidente que existem médicos solidários e humanistas, e talvez, a maioria desejaria uma maior aproximação com seus pacientes. Mas não só o  tempo escasso  como a mediação da tecno-ciência obstaculiza esse contato. Quando se trata de diagnósticos de doenças mais graves este hiato se agudiza dramaticamente. Não basta o paciente ser orientado sobre a patologia, nem mesmo é o suficiente que a sequencia do tratamento seja esmiuçada por panfletos, manuais de apoio ou SACs. A dificuldade está em outro lugar: lidar com a demanda subjetiva dos pacientes, os quais, via de regra, sentem-se perdidos e muitas vezes, pouco acolhidos. O mar de duvidas só tende à expansão, pois a consulta dos leigos aos sites e às informações on line tornaram-se inevitáveis, ela tornou-se necessária para preencher as lacunas. A maioria deles não são confiáveis como fonte de informação. Mas isso nào importa. Não basta atender demandas de perguntas protocolares e não completamente respondidas. Frequentemente a busca não é saber mais da doença, mas o que fazer com todas as informações sobre ela. Então, num mundo repleto de explicações virtuais um silencio aflitivo se instala na cabeça daqueles que precisam de assistência. Muitos sentem como se houvesse uma faca pendente sobre suas cabeças. E, muito provavelmente, nenhum médico possa, com seus conhecimentos, sozinho ou contando com ajuda,, desarmar essa sensação. Talvez seja mesmo um vazio insanável. Decerto uma maior preocupação com o Cuidado poderia, ao menos, prevenir uma parte desse sofrimento. Que não deveria ser encarado como inexorável. Não se pode aceitar a doença nem como um fenômeno abstrato, muito menos a penitência como parte integrante da moléstia. Além disso, a percepção subjetiva é, muito provavelmente, mútua. Os dois lados tem suas impressões.  É natural que o médico tente se proteger fantasiando que ele controla os fatos objetivos. Mas ele desconsidera que  também sofrerá o impacto de comunicar um diagnóstico, um prognóstico ou a difícil decisão de usar um tratamento mais invasivo ou arriscado. Lidar com os limites da vida e a proximidade da morte tem consequências diretas e indiretas, que se dirigem para os dois lados da maca. O significado de um paciente receber uma notícia mais dura é subestimado no atual modelo de relação médico-paciente. Se mesmo uma única palavra como a excessivamente utilizada “sobrevida” pode fazer a diferença no imaginário do doente, imaginem as avarias causadas pela distância e pela dificuldade de comunicação. Muitas vezes, quem se submete ao tratamento já se sente condenado, antes mesmo de saber quais suas chances de sobreviver à moléstia ou ao tratamento. Outros tantos relatam que se vêm diante de um estado  animação suspensa. Se por um lado compreende-se a necessidade por parte dos médicos de falar a verdade nua e crua é necessário saber que um veredicto clínico pode funcionar ao modo de pena de morte. Ou de prisão perpétua.  Por isso mesmo é necessário que a ciência da saúde prevaleça e tenha o cuidado de proteger as pessoas. Deixa-las menos vulneráveis à crueza e às tecnicalidades reducionistas com que algumas decisões clínicas são feitas. Mesmos os exames mais sofisticados e elaborados que utilizam as tecnologias mais avançadas, inevitavelmente contém algum grau de imprecisão, pois dependem de interpretação. Para muitos pode parecer surpresa mas nem os epistemológicos acham que a medicina seja ciência. No máximo a definem como ciência operativa. Neste sentido, o médico sempre deparará com limites. Se quiser ser exclusivamente técnico rejeitará sua percepção, seu olho clínico e seu felling.  Ajudar o paciente a tomar as decisões é sempre melhor do que impô-las à sua revelia  Sabemos que a medicina não tem todas as respostas, muitas vezes, infelizmente, poucas. De qualquer forma, admitir que a relação médico-paciente é uma construção sutil e imprescindível entre duas pessoas já seria um bom recomeço.

Ponha-se no lugar do outro

Regresso à obscuridade (blog Estadão)

Regresso à obscuridade

Paulo Rosenbaum

18 Setembro 2016 | 00h21

Repitam conosco:  os crimes  justificam os meios. Os meios explicam os fins. A finalidade perdoa o desvio. O desvio reafirma o heroico. A farsa atende a meta. A justiça muda toda norma. A verdade nunca será deles. A justiça é para todos, os outros. Nossa moral é única. Nossa ética hors concours, portanto, louvem-na ou deixem-nos em paz.

A profusão de frases de efeito caracterizava a República do Slogan, recém destronada.  Destronada, mas ainda não erradicada. O poder que muda de mãos é insuficiente para defenestrar longas impregnações. Falta analisar o aspecto bizarro do triunfo quase absoluto da propaganda. A especulação de que as instituições funcionam perfeitamente não bate com a velocidade com que tudo se esclarece até sua ampla resolução. Ou desvanecimento. A lentidão sempre favoreceu o facínora. Mais do que isso, entroniza, reifica, legitima. Isso explica que mesmo depois de tudo, pequenas multidões ainda sigam a histeria do partido. A exposição do choro em rede sensibilizou plateias. No modelo de marketing ilimitado ganha-se na base da persuasão. O convencimento pela razão se perde no coração dos condoídos. Tudo é pleonasmo que se estende por simulação. Um sentimentalismo dissoluto enterra toda análise. É dentro deste proto teatro que passamos a inverter tudo. O que nós, habitantes da terra dos desvios, precisamos sentir? A consciência estaria dada fôssemos nós vigilantes. Mas não somos exatamente atentos. Nossa seletividade é enganadora. Tendo repudiado direita e esquerda eu também me pego desejando a prisão, o castigo impiedoso, o bota fora exemplar. O objeto do desejo coletivo hoje é indiciamento,  justiçamento, reparação e, se possível, que eles experimentem algo análogo ao que vivenciamos. Reduzimos todas as expectativas ao desejo de prisão. Vibramos com tornozeleiras. Mas, ao mesmo tempo, o sentimento reflui à pena. O indulto para quem sofre. Mesmo aos marginais da República damos chance ao arrependimento. E então tudo se deforma no festival de gradações e atenuantes. É o momento no qual homens, até há pouco considerados inteligentes, submetem-se ao crivo da adulação ideológica. Narram a irrealidade de consensos inexistentes. A história conhece o discurso político com traços psicóticos, assim como seu poder de contágio. A inusitada novidade é a sobrevivência política de gente que cultivou a terra arrasada. De Porto Alegre à Araraquara eles podem ganhar novas imunidades com os álibis do voto popular. Quem passa por momentos mais infelizes, nós todos ou eles? Esta contabilidade do mal feito nunca terá precisão científica. Claro que nem se aproximará do espetáculo da contabilidade criativa azeitada na manteiga, e no virado ao fundo de pensão. Nunca houve golpe agudo. O golpe é outro e é crônico. Foi dado faz tempo quando a democracia, pensando ser representativa, passou a gestar lideranças “naturais” em laboratórios universitários, nas hierarquias intelectuais e em moitas canônicas. Caudilho nenhum nasce feito. Precisa primeiro da bênção dos que o antecederam. Depois, a chancela do segundo escalão dos bem pensantes penitentes. Que vieram de vários partidos. Todos convencidos de que sabem redimir como ninguém o povo sofrido. Depois foi necessário faze-lo ganhar projeção por terra e mar. Pulverizar a memória da sociedade com o expurgo de uma culpa que já durava meio milênio. E, por último, distribui-la, a culpa, nas telas e folhas impressas. Florestas inteiras derrubadas em manchetes favoráveis dedicadas ao líder. Milagre econômico herdado de um prólogo de civilidade. Ao libertador dos oprimidos foi oferecido, na bandeja da redenção, o País inteiro. Por fim eleito, apoio maciço e aprovação ímpar ao ícone das idoneidades máximas. O campeão da probidade.  A tese prometia: um trabalhador nato libertar-nos-ia do trabalho. E não é que foi um êxito absoluto? Com a palavra os 12 milhões de felizardos. Portanto, não basta repetir o surrado “deu no que deu”. Ao Supremo líder da seita e a todos os arquitetos do plano que, com esforço ativo ou passivo, direta ou indiretamente,  nos legaram estes intermináveis dias, só podemos desejar que tenham um bom regresso à obscuridade.

Não mais acredito em lágrimas (Blog Estadão)

Não mais reconheço lágrimas

Ofuscada a emoção, tudo virou cenário

Achavas realmente que igualar-nos em sofrimento,

Impondo silêncios, tornando princípios, mitos

Desalojando milhões e mudar regras às cegas

Nos condenaria à resignação?

Ah, agora lamentas os que ficaram de fora?

Alguma culpa pelo ônus e exaustão?

Pelo inassimilável custo dessa aventura?

Quem teceu o teatro escuso?

E a impostura dessa moldura?

A justiça, em obstrução, na contramão?

A única vitória é libertar-se sem libertadores

Ou deveríamos ceder à opressão?

Desvincular o abuso, do termo,

Do teu comando ativo, desgoverno.

Nos decretos e acordos que te perpetuaria

Na seda da hegemonia, à nossa revelia

Como nenhum homem é ilha

Devolva-se a República à calma

E às ruas, a alma

Retirada da inação e afasia

A sede que irriga este fim da folia.

Saio da política para entrar na amnésia coletiva (Blog Estadão)

Saio da política para entrar na amnésia coletiva

Paulo Rosenbaum

29 Agosto 2016 | 13h17

 “Ainda que tivesse perdido a inteligência de suas visões, teria no entanto chegado a vê-las”

 Arthur Rimbaud

Responsabilidade – do latim responsabile, calcado em responsu, de respondere. Dar garantia, palavra, dar fiança, endossar, precaver, seguro, fiador, obrigação.

Ninguém sabe exatamente o que ela esta dizendo, o previsível era mesmo a repetição dos refrões surrados, slogans de campanha, interjeições incompreensíveis e provocações não republicanas. Ela age como se fosse, mas ela não é, inimputável. A tese de que haveria uma insanidade temporária ou algum tipo de lapso causado por um stress super agudo também estão afastadas. Consciente de seus desvios, mas inconfessa convicta, prefere o papel de martírio tardio e de atriz subsidiada, a assumir suas responsabilidades. Menos pela sem precedentes desorganização das contas públicas e muito mais por desmantelar, junto com seu mentor, o próprio País. Sem entrar na avaliação da personalidade, seu penúltimo discurso atravessou a prepotência e desaguou, linear, no vazio de um heroísmo jamais concedido. Como se toda culpa fosse de outrem, vale dizer, os milhões que testemunharam um período político dos mais obscuros. Sua guerrilha agora se direciona à uma compaixão que prima pela secura, e a aridez característica de sua postura desvela o estado permanente de hostilidade. Sua autopiedade e apelo vitimizador não penetram mais em coração algum. Pois ela compõe, junto com seu séquito, uma cenografia tépida e sem contexto. Fosse ela a guerreira que julga ser, concederia a derrota e reconheceria a causa maior- a vida do povo que deveria ter governado – o verdadeiro ganho, seu afastamento definitivo. Fosse ela a dama de ferro que ostentou nas campanhas, libertar-se-ia de sua convicção e observaria a generosidade daqueles que se sacrificam pelo bem comum. Ao invés disso, ela se articula para prorrogar as dificuldades, agita a bandeira de sua própria causa e de seus beneficiários diretos. Usa recursos que não lhe cabem para arregimentar cineastas, políticos, cantores em claques que aceitaram fazer o papel de ventríloquos do inadmissível. Sem perceber claramente, suas ações aceleram sua desconstrução, corroendo os remanescentes fiapos de credibilidade. Claro que, com o capacidade de argumentação empobrecida voltam as palavras de ordem, onde “golpe” virou a exalação mais vulgar. Inútil narrar que, se houve algum, ele ficou patente em sua própria gestão. É mais do que provável de que assim como a superação dos obstáculos epistemológicos, cujo saldo deve ser examinado retrospectivamente, somente gerações adiante notaremos exatamente do que estávamos nos livrando. Só quando despacharmos o entulho petista, suas concessionárias, modelos, filiais, simpatizantes, entusiastas e sobretudo seu insuportável servilismo acrítico poderemos realmente finalizar o balanço da era mais pueril, nociva e absurda de nossa história recente. O discernimento, conquista da racionalidade e do bom senso devem continuar apagados por uma obstinação que perdeu o sentido, a direção e todo suporte. De todo modo, esta última década será conhecida como um apagão dos parâmetros razoáveis da convivência e do respeito pela cultura dialógica. E a culpa, desta vez, não poderá mais ser imputada às redes sociais, aos conservadores nem aos que discordavam do projeto. A toxicidade não provem do ódio, nasce da indignação sem voz.

O impeachment a ser definido, para além da figura jurídica do “crime de responsabilidade” — já que o responsável é aquele que assume, lidera, chama para si, patrocina — é o significado de responsabilidade. A pergunta sem contestação é: então quem respondia pelo País senhora? Aqui poucos méritos para a oposição que não conseguia cumprir seu papel e, sim, para as ruas e a opinião pública que, diante da acefalia, decidiu voltar a ser sujeito da própria história. Pode não durar. Aliás, não deve durar. É para lamentar, pois teria energia suficiente para modelar outro tipo de País: quem se esquecerá das maiores manifestações pacificas da história das democracias?

Em dias marcantes como estes, podemos até engolir o non sense, tolerar bravatas e assistir finais melancólicos como o que testemunhamos no plenário do Senado sem manifestar aborrecimentos: é que o saldo final será um estrondoso e extemporâneo sete de setembro.