Você viu a Peste? (Blog Estadão)

Você viu a Peste?

Paulo Rosenbaum

12 de março de 2020 | 19h19

Vi a peste. Vi sua propagação. Vi a velocidade espúria dos boatos. Vi a paranoia coercitiva. Vi que só através das imagens traduziria o que hoje senti andando pelas ruas. Vi orientais tentando disfarçar as feições atrás de enormes óculos. Vi o mercado negro de papel. Vi máscaras inúteis sendo retiradas e descartadas em pilhas insalubres. Vi jornais propagandeando desinformação. Vi gente torcendo pelo fim de tudo. Vi profetas da obscuridade. Vi gente ponderada insistindo no contraponto. Vi gente idosa aflita à espera do pior. Vi rostos de crianças espremidos contra janelas vedadas. Vi a indiferença das commodities. Vi aações volantes. Vi a natureza impassível. Vi o irredutível rumo da vida prosseguir. Vi a ansiedade dos mercados. Vi a peste dentro dos aceleradores de partículas. Vi a peste sendo soprada para dentro das redações. Vi a desinformação como ideologia. Vi a estranha — e perigosa — dependência que os oligopólios geram.  Vi virulência sem infecção e infecção sem microorganismos. Vi a medicina e suas medidas. Vi palavras confortadoras. Vi e ouvi áudios retroalimentando o pânico. Vi a dor dos que sabem que vão sofrer. Vi a maioria sobreviver sem adoecer. Vi solidariedade e inusitado altruísmo. Vi gentileza com desconhecidos. Vi a benevolência de quem cuida. Vi a frieza de quem não sabe aconselhar. Vi o sonho de viagens desfeitas. Vi a arte voando para um adiante. Vi os livros em sua insuficiência. Vi telas sendo esvaziadas. Vi bares desertos e Roma, cidade fechada. Vi as bolsas sendo escavadas por desertores. Vi o petróleo sendo enxugado. Vi terras compradas por oportunistas. Vi a fortaleza dos que sabem resistir às facilidades do fluxo. Vi o som do toque de recolher, o estado de sítio, as internações compulsórias, a polícia arbitrária. Via arrogância do sanitarismo selvagem. Vi a epidemiologia do medo. Vi milhões em prisão domiciliar. Vi as marés de cruzeiros contaminados. Vi portos sem navios. Vi containers sem destino. Vi a passagem para um outro dia. Vi quando o diapasão cessará sua vibração. Vi a deposição da coroa. Vi o sétimo selo sendo acomodado.

Eu ti vi, peste, e sobrevivi.

https://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/voce-viu-a-peste/

Diário do Apartamento I (Blog Estadão)

Da janela constato, nenhuma alma viva movente. Ninguém se atreve a desafiar as meiopragias. Ninguém disposto ao risco. E o risco sempre fez parte da experiência. Alguém precisa ficar lá fora. A roda do mundo vai permanecer ativa. Robôs e algoritmos não são suficientes. O toque de recolher não será hegemônico. Meu impulso? Desafiar o apartamento. De alguma forma. Uma verve gregária nos impele. Eu, justo eu, acalentador da solidão, que enxergo méritos no protagonismo do sujeito. Eu que me inspirei nos misantropos do spleen. Eu, sobre quem paira a maldição da fobia social. Não vejo saída no tempo. Tampouco me conformo com futuros. Alguns dizem dois meses. Outros, aqueles que acham que controlam algo, dizem seis, um ano, dois, quem sabe? O chefe da Organização Mundial de Saúde havia dito “estamos em terreno desconhecido”. Na raiz das previsões há mais do que matemática: há o reconhecimento da inoperância. Não por inaptidão, imperícia ou falta de heroísmo. Este último, e mais do que nunca, os médicos carregam em suas missões diárias. Apenas porque agora é imperioso reconhecer que a natureza verdadeira da ciência gera mais perguntas do que respostas.  E, ainda assim, abre-se um enorme campo de ócio à frente. A negação do negócio, origem etimológica do ócio. Me dizem que daqui em diante a normalidade será o confinamento, o toque de recolher, a ordem marcial. O Estado voltará a ser o Todo Provedor como sonham os totalitários? Lobos liberados dos cativeiros? A pena capital para infratores será nos destituir de direitos evocando o combate à morte? Será? Mesmo com todos os  votos de sucesso para as estratégias de contenção não é improvável que o momento seja um álibi para um avanço duradouro contra as liberdades individuais. Vimos os drones admoestadores. Se desejassem mesmo a exposição veraz, vital, a origem do problema precisaria ser explicitada: nasceu da falta de liberdade. O Comitê Central do Partido decidiu que era mais prudente ocultar o nascimento da tragédia. É claro,  mandaram o pavor através do espaço cibernético. Acusei o recebimento de cada vídeo. Todos os áudios. Recebi tudo o que de pior poderá acontecer. Os alardeadores da consciência da morte estão à solta, digitando dia e noite. Pensam que nos informam ineditismos. Acham que a tanatofobia nasceu ontem. Abarrotado por panfletos digitais, todos vem esfregar na cara que — em tempos de pandemia — aspiração à liberdade é crime, egolatria, inamistosa incompreensão dos princípios republicanos, sabotagem contra a coletividade indefesa. A liberdade já é invisível.  É evidente que a maioria não deseja ser o fósforo que propaga a peste ou o agente ativo da praga. O velho médico já dizia, mas quem ouve? “O Vírus não quer matar, deseja propagar-se entre vivos”. Ele só não esperava que no XXI estaríamos discutindo a gerontoeugenia. Minhas aspirações agora foram reduzidas. Meus sonhos foram reduzidos aos poucos. Sair de casa sem ansiedade de consciência. Dia 1 e já me passaram múltiplas heresias pela cabeça. Querem a confissão? Circular sem ser confundido com um míssil balístico. Tossir sem ser observado. Andar até a praça. Desenhar sob o sol. Inalar ar puro, e, ignorar que a atmosfera deixou de ser segura. Há uma névoa de virulência, instrumental, não biológica, que estava a espreita. E é ela que pode te caçar. Muito provavelmente ela irá atrás dos teus pais como sombra. Haverá um populismo cientificista cujas barreiras serão maiores do que as barricadas epidemiológicas. Os oportunistas saíram do esconderijo. E, não defenestrados, podem sim te impor um fim ainda mais precoce. O agente invisível de 0,125 micron ou 125 nanômetros que atende pelas iniciais cttgaaaacc será lembrado como um pesadelo infinitesimal perto dos seus controladores.

Mas, pensando bem, e considerando as circunstâncias, quem ainda se importa com precocidade?  Sempre soubemos que viver era perigoso, agora temos o atestado.

https://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/diario-do-apartamento-1/

Diário do apartamento II (Misantropia induzida pelo Estado) Blog Estadão

Hoje, depois de não entrar em contato com outros seres por quase 9 dias, 13 horas e 42 minutos desci ao deserto pátio do apartamento para sentir o sol, e um pássaro apareceu, na verdade pulou para fixar-se no galho de uma árvore bem próxima. Era uma espécie conhecida, torso laranja, bico fino, com coloração  intercalada de vermelho e no ápice uma tira negra que cobria os olhos em forma de coroa, bem no topo da cabeça. Um sabia de peito amarelo. Outro veio juntar-se a ele e pularam juntos em minha direção. Ambos ficaram me observando, e sob a contemplação mútua, eles, ocasionalmente, rodavam os pescoços para, aparentemente, me escrutinar melhor. Depois, voaram juntos ao chão, beberam a água que se acumulara entre o concreto e a grama, e foram-se.

Minha sensação foi o de, ali, ter destravado. Ali abandonei a solitária. Depois da misantropia induzida pelo Estado a presença de outros seres vivos tornou-se anômala, quase perturbadora.  Mas o que me incomodou mais foi a constatação de que suas vidas simplesmente não fizeram a menor cerimônia com a minha condição. Não há crise moral alguma para as outras espécies e nem nos fenômenos naturais. Eles são dotados de um incrível desapego às nossas teorias, nossos julgamentos e juízos. Isso é, a natureza vive à nossa revelia, está emancipada de nós sem que tenhamos noção do tamanho da sua indiferença. O Cosmos, como na poesia de Stephen Crane, não tem nenhuma culpa ou senso de obrigação.

Subi as escadas de volta ao apartamento pensativo, e, no percurso testemunhei mais um ato de menosprezo. Enquanto a maioria reafirmava que o veneno continuava a ser inoculado no ar mundial, notei, através da fresta da janela basculante de cada andar vencido, que havia um por do sol magnífico. As cores amareladas e o contraste com o azul diminuíam as construções e ultrapassavam as nuvens com irrecuperáveis ondas de luz.  A cena não estava lá para mim, para você, para ninguém. Afinal pude internalizar aquilo que Ortega Y Gasset afirmara: a “vida é puro acontecimento”. O acontecimento prescinde de um admirador. A emancipação do mundo antecede nosso desejo. Despreza nossas necessidades.

Assim como o vírus que escapou do cercado. Agora o destino nos impôs escolhas e estamos cercados de paradoxos éticos. Falsos e verdadeiros. O que fazer para mitigar a temporária falta de horizonte? A admirável coragem dos médicos clínicos e da manutenção dos serviços essenciais nos fronts de atendimento não bastam.

Leio, assustado, que se assanham algumas espécies de caráter: os cientificistas da catástrofe, os virologistas do apocalipse, os marxistas primitivos em síndrome de abstinência de poder, os velhos conspiradores autoritários, e os populistas que continuam o assalto e o aparelhamento de organismos internacionais como a ONU e a OMS. A perplexidade fica por conta dos fã clube padrão viral, pessoas que ousaram  felicitar a atual crise antevendo-a como uma “grande oportunidade de mudança de paradigma”, “reinvenção da sociedade”e “golpe fatal no capitalismo”.

A fita é puro reprise, já assistimos antes.

Assim como os saqueadores que se aproveitam dos desastres naturais existem aqueles que não nos privarão de suas hermenêuticas revolucionárias, cheias de ressentimento ideológico e avançado senso de inadequação e timing.  O que existe, e abundantemente, é o maniqueísmo instrumental daqueles que hoje ocupam cargos os quais, sob o álibi do voto, imaginam vitalícios.  Imitar a natureza e aceitar o darwinismo social decorrente da seleção natural é tão inaceitável quanto passar por cima do senso comum e não compreender que a vida deve começar a fluir imediatamente — mesmo com alguns riscos — assim que o distanciamento social puder ser relaxado.

Não há uma percepção ainda clara de que, sob o manto do discurso supostamente humanista e do pseudo antagonismo “salvar vidas X não deixar a estrutura socioeconômica colapsar”, encontra-se a verdadeira armadilha e vale dizer, a verdadeira gênese dessa pandemia: a falta de liberdade. A falta de liberdade ditada pelos burocratas da alta cúpula chinesa em conluio com autoridades sanitárias por eles controladas. E o que adianta denunciar isto agora? Empiricamente pouco. Politicamente muito. Só para dizer que não será ofuscando as liberdades e direitos individuais ou enaltecer o voluntarismo do poder que mudaremos para qualquer coisa melhor.

Uma solitária — que é a nova realidade para bilhões de idosos e desvalidos condenados ao exílio domiciliar — pode protege-los de netos e das respectivas cargas virais, mas não do abandono e da latente gerontofobia.

O mais inusitado dos efeitos das respostas que estamos dando à crise foi aprofundar a falta de sentido, esta sim, a verdadeira crise preexistente.

Por que e quando foi que viramos esta raça de covardes? Como chegamos a entregar nossos destinos à gente tão despreparada para gerir a única coisa que deveríamos ter confiado aos Estados, serviços públicos de qualidade? Ninguém  mais sonha com o estado ideal, só um lugar seguro onde as pessoas tenham prioridade às elites mancomunadas com o Poder.

Cheguei ao meu andar, e já no último degrau da escada, acompanhei o sol terminar mais uma jornada, e mais desta vez sem levar em consideração minha autopiedade claustrofóbica.

https://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/diario-do-apartamento-ii-misantropia-induzida-pelo-estado/

 

 

Coluna de 2012 – JB

 Coluna 80 –  Infancia política e o Fim de mundo. 

A origem é remota, mas, nas cátedras  universitárias de história política, talvez sejam as teses mais recalcitrantes e predominantes de nossos dias. Reparem, há sempre alguém por trás das denúncias, das maracutais, dos erros. Sempre existe o dedo infame do conspirador, do inimigo oculto, a trama de bastidores. Sempre o fantasma vive nas heranças malditas, nas mídias burguesas, no capitalismo e seus instrumentos de tortura.

Se a culpa é sempre de agentes externos, onde sera, e no que consiste, assumir responsabilidades pelos próprios atos?

A esquerda selvagem já percebeu: só é possível sobreviver com a recriação diária de uma agenda paranoide. A fatia da esquerda que ainda pensa foi engavetada  dentro do aparelhamento geral das capitanias corporativas. É claro que esse é um caldo propício ao conservadorismo de ocasião, que nasce, vive e cresce na decadência de posturas pueris.

Se são os outros culpados por nossas mazelas, impossibilidades e incapacidades quem está no comando? Ao indicar o cérebro oculto como mentor das nossas vicissitudes produz-se uma espécie de catárse que nos isenta da culpa de termos sido cúmplices, excessivamente passivos, ou simplesmente fracos.

Neste momento, às vésperas de mais um pseudo impasse institucional, passamos por um momento delicado, cuja resolução ou perpetuação terá severas repercussões.

No futuro, podemos especular como será ensinado este periodo nos manuais e nos vestibulares:

– Sobre a ação 470, conhecido na mídia pela burguesa como “processo do mensalão” assinale a única alternativa correta:

a- episódio juridico de natureza criminal no qual a cúpula política do partido atentou contra a democracia para se tornar hegemônico.

b-escândalo artificial, sem nenhuma base judicial, produzido pelo mídia e insuflada por banqueiros e sustentada pela elite rancorosa, racista contra o governo popular

c- crime eleitoral

d- mesada grande

e- nenhuma das anteriores

Usando as metáforas do psicólogo David Laing, o problema verdadeiro é que eles todos acham que ninguém mais esta vendo o jogo que vem sendo jogado. Nem imaginavam que alguém, por ousadia, curiosidade ou intuição, registrara tudo na súmula.  O jogo foi catalogado com mais atenção do que se gostaria. Mesmo diante destas evidencias a saída foi tentar fingir: não, ninguém daqui participou do jogo reafirma a cúpula partidária. E, se participou, não fez nada além do que todos os outros, desde os primórdios, fizeram. Só que muitos, até quem os sufragou no início, sem ter participado do esquema tático, estão vendo tudo. Certo, foi lá de longe, não dava para ter certeza absoluta. Estávamos todos desatentos, dando de ombros as denuncias, tomadas como complôs. Mas, aos poucos, apareceram os primeiros para reforçar os testemunhos de como tudo aconteceu.

O apego – as coisas, as pessoas, ao poder — é um lado nosso meio teimoso, traço humano meio coletivo. Mas para quem usa a política como instrumento arrivista é preciso confiar que a mentira reiterada tem o poder redentor e mágico: pode converter culpados em impunes. Então, é de lá que brota essa insustentável simulação: toda realidade é relativa e tudo não passa de uma questão de interpretação. Pode até ser, mas nem eles mesmos acreditam mais nisso. Apostam numa grande embolação, na geleia geral, na bagunça, no despiste que os tire da linha de tiro, ainda que a ideia de pelotão tenha sido criação autoral própria.

E apresentando versões sucessivas e progressivamente inverossímeis vão tentando colar a louça que destruíram para remontar o quebra cabeças que estilhaçaram. Malgrado os índices de aprovação por uma economia herdada e bem mantida, as negativas e as manipulações vão se tornando desgastantes e pouco convincentes. Há quem acredite em restauros perfeitos, há quem ache, céus, que a elite paulista e os banqueiros realmente estejam por trás de tudo. Ora, isso tem nome especifico nos manuais psiquiátricos.

No entanto é muito mais simples, todo esse exótico manancial de pés pelas mãos tem sido obra da política governamental errática. Denunciar “a elite rancorosa, a aristocracia, a realeza” faz parte do desespero da tese partisã.

Tudo é mais importante que reconhecer que   o projeto foi autodesfigurado de dentro do próprio partido que nos governa. Que a autodestruição foi anunciada quando se tentou formatar uma base, sacrificando o único núcleo duro com significado republicano. “Pragmatismo” dizem os que ainda militam. Faz lembrar a famosa frase do Vargas, o Getúlio:  “a lei, ora, a lei”.

Talvez seja mais fácil chamar essa nossa tormenta que se arrasta de crise, mas muito mais certo seria reconhece-la como um soluço da democracia. Por isso precisamos de um susto para suspender o fenômeno.

Há quem acredite que tudo seja fruto do que foi construído. Mal construído, mal mal-ajambrado, mal concebido, mas sem nenhum dedo externo.

O que os políticos de todas as matizes devem à população é um mais de consciência de seus próprios atos e, claro, um pouco mais de amor às necessidades  das pessoas.

O primeiro indicio da decadência é quando se nota que, para distorcer a realidade, força-se o terremoto. De fato, no caos epidêmico, tudo é tão ruim que parece que é igual ao que sempre se fez neste pais.

O fator surpresa, é a bomba-relógio da consciência. A opinião pública vai amadurecendo e, aos trancos e barrancos sacode-se da hibernação para enxergar, que,  enfim, pode se tornar sujeito da própria história.

Se não der, pelo menos saberemos, há uma insonia desejável.

Alarmismo patofóbico e seus impactos (Blog Estadão)

Elaborei  algumas perguntas sobre a epidemia do novo vírus covid 19 (genericamente conhecido como coronavirus). Primeiramente entrevistei o Prof. Dr. Paulo Saldiva Médico Patologista, Professor  de Medicina, Titular da Cadeira de Patologia da FMUSP, Diretor do Centro de Estudos Avançados da Usp. Abaixo as sábias e precisas orientações do professor.

“Os coronavirus circulam entre nós há muito tempo. Identificados ao microscópio eletrônico nos anos 1960, provavelmente respondem por uma proporção minoritária dos quadros gripais que experimentamos.

Os estudos de biologia molecular identificar 4 subtipos que circulam entre os seres humanos, que são responsáveis por quadros clínicos brandos. Variantes dos coronavirus que circulam em animais “pularam”para a nossa espécie em 2002 (SARS, taxa de letalidade ao redor de 7%), 2012 (MERS, taxa de letalidade de 30%) e agora na China (COVID19, taxa de letalidade entre 1 a 2%).

Como ocorre nestes casos, a ausência de memória imune leva a quadros mais graves, inlcuindo pneumonia hemorrágica pela cytokyne storm. Em relação aos episódios anteriores de COVIDs epizoóticos, o COVID19 apresenta uma mutação da sua cápsula proteica que aparentemente lhe confere maior capacidade de aderência ao epitélio respiratório, que se traduz em maior contagiosidae.

Possui também um tempo de incubação assintomático mais longo, ao redor de 15 dias. Maior contagiosidade e tempo de incubação mais longo representam dificuldades adicionais ao controle e, portanto, creio que, assim como aconteceu com o AH1N1, o covid 19 visitará todos os continentes.

Mesmo assim, não creio em tragédias e, no caso do Brasil, a vigilância epidemiológica funciona bem, até por razões históricas (Oswaldo Cruz e o movimento sanitário). Portanto, o temor que hoje sentimos (por exemplo, o esgotamento de máscaras cirúrgicas nas farmácias de Sampa) é desmesurado do ponto de vista racional, porém compreensível dado o papel simbólico que as epidemias febris representaram para a sociedade humana. (grifo nosso)

Creio que nós, profissionais da saúde, deveríamos apreender com os artistas as raízes deste medo que hoje nos acomete.

Fiz até um pequeno vídeo sobre isso https://www.youtube.com/watch?v=F8hg-hqaHZA&t=152s”

________________________________________________________________________________________________________

Iremos continuar a divulgar informações as quais, por um lado, ajude as pessoas  a se proteger de forma plausível das ameaças e meiopragias, e, de outro, denunciar a enorme campanha de instrumentalização do medo.

Manipulação que direta ou indiretamente afeta não só a liberdade individual como nos aproxima de um hiper-controle quase policial. Ninguém tem todas as respostas e como desabafou o diretor da Organização Mundial da Saúde “estamos em um terreno desconhecido.” Infelizmente isso não diminui o alarmismo, pelo contrário, alimenta-o. Esta epidemia mostrou-se calaramente que os portadores de doenças crômnicas é que são os mais vulneráveis, todas as ações deveriam estar focadas nestes grupos de risco.

Alguém há de ressignificar a famosa sentença de Louis Pasteur que afirmou “Claude Bernard estava certo, o gérmen não é nada, o terreno é tudo”. O contexto da afirmação precisa ser relativizado  pois a exclamação de Pasteur foi feita antes dos extraordinários avanços da microbiologia, mas isso não invalida sua reflexão. Longe disto.

Se a disseminação de um “novo” vírus é mesmo inexorável como parece ser o que nos resta é pesquisar como fortalecer e reduzir a vulnerabilidade das populações sem negligenciar a susceptibilidade individual, o terreno, ao qual Cluade Bernard e outros médicos e pesquisadores de orientação vitalista se referiram.

Afinal, como afirmou Roberto Machado “nem sempre uma anterioridade cronológica é uma inferioridade lógica”.  A epidemiologia clínica pode ser resumida em discernir corretamente entre o que expõe o sujeito (ao risco) e o que o protege. Neste sentido, como frisa o Prof Saldiva é compreensível que as pessoas cedam espaço à ansiedade e ao desespero fazendo estoques de alimentos, máscaras e álcool-gel. Mas temos que insistir e denunciar o caráter injustificável desta precipitação.

Afora todos os problemas econômicos e políticos, imaginem o impacto sobre o psiquismo de crianças e adultos desta consentida neurose que tem tangenciado uma epidemia patofóbica? E preciso considerar e verificar com estudos psicométricos a dimensão atual e futura que o alarmismo produz na vida das pessoas. Além de supervalorizar a abordagem preventivista em relação às epidemias. Epidemias no plural, pois não há só uma, e a escolha das prioridades, é uma arte de difícil domínio, que está para bem além do campo meramente polóitico-administrativo.

Apesar dos avanços tecnológicos, e já que a medicina não é uma ciência exata, aproximando-se muito mais de uma ciiência operativa, os  Fundamentos da Medicina permanecem os mesmos. As políticas públicas e privadas de saúde devem pautar suas ações em combater os agentes agressores do meio sem descuidar simultaneamente de aumentar a resistência do hospedeiro.

É nesta equação que repousa a racionalidade e nossa saúde mental.

 

Primeiro Grande festival de Etiquetagem Ideológica (Blog Estadão)

Primeiro Grande festival de Etiquetagem Ideológica

Fascistas, comunistas, cripto fascistas, neo comunistas, centro direita, centro esquerda, direita radical, trotskismo moderado, stalinismo franco, centro moderado nervoso, extrema esquerda alinhada, burguesia arrependida do remorço convicto, Sociedade de aristocratas excluídos, Amigos da causa desconhecida, Neo comunismo putinista, Psdebismo relativizador, Tributaristas do destino, Golpistas do perjúrio, Cripto conservadores regressivos, Menchvics pós czaristas, Cubanos por Pelosi, Rede global de procrastinadores do Congresso, Pescado à Dória, Sociedade hollywoodiana de admiradores de John Bolton, Liga dos apoiadores de apresentadores de TV, Lulupostismo avassalador, Lava jatista pleno com cera, Haddadismo cicloviario, Antifa fá, Middle class lives matter, Garantismo de ocasião, Vanguardas Unidos da retaguarda, Imperialistas progressistas, Globalistas do regionalismo patriótico, Brexitistas eurofilos, Coletes amarelos em tons de cinza, Extrema direita esclarecida por bufões, Bolivarianos sem Paz, Antissionistas filossemitas, Circulo dos tribunais da exceção continua, Legalistas pela desobediência civil, Coalização de milícias republicanas, Partido da ordem fragmentária, Arautos do ceticismo, Ruralistas da terra plana polida, Tradição, família e expropriação, Democratas pela cinetose, Partido da libertação compulsória, Narco ditadura careta, Anarco sindicalismo metódico do Norte, Comando justicialista secreto da Triplice Fronteira, Ecoterroristas carnívoros, Ordem dos caçadores lactovegarianos da Chapada, Democratas por Stalin, Camarilha dos 4 em dó menor, Maoistas do livro azul, Trotkistas nucleares, Pan-arabismo tecno, Empoderadores da O Tao do Dinheiro Lavado, Conselho dos Cangaceiros Pró Impostos, Monarquismo parlamentar ciclotimico, Supremacistas da humildade, Otomanos do timão, Sheikes do ovomaltine, Rede de intelectuais pelo constrangimento do desenvolvimento, Legião estrangeira nacionalista, União Europeia pelo pound,  Legalistas pelo crime idôneo, Minions do Alcatra Mole, Capitalistas por Kropotkin, Marxistas de Grouxo calibre, Pietistas da porrada, Democratas americanos pelo domínio exógeno, Peronistas da papa frita, União dos Republicanos fustigados pela CNN, Humanistas do rancor alheio, Democratas Cinéticos do barulho, Constituições elásticas, Hermeneutas da intransigência, Proletários em jactância, Programa popular de jatinhos públicos subsidiados, Aliança pelo divórcio social, Políticas publicas de transparência seletiva, Agelastes da cultura de massa, Tolerância ampla geral e restrita ao Partido, Libertários da Jihad, Unidos do tiro livre indireto, Associação de hackers pelo sufragio em urnas inauditaveis, Empresas Gleen de invasões privadas institucional, Bloco Moídos do Marthaxa, Taxidermistas dos dinossauros partidários, Classe dos Líderes em muro e heranças malditas, Kombistas da massa, Partido FHC de ligações complacentes com opositores, Sociedade pelo fatalismo perpétuo, União pela prevençao retórica do inexorável,  Movimento liberal pelo imposto confiscatório, Fundo Partidário a Fundo Perdido, Grêmio cisplatino pelo estelionato consciente, Partido da Cinetose Política, Entidade pela revogação das leis incomodas, Associação Tupamara de Parlamentares em Cabines de 1a Classe, Sindicato de juizes supremacistas, Pancadão nuclear dos aitolás do Irã, Grupo de Apoio aos Intolerantes, Representação talibã do feministão, Cartel Maduro de milicianos snipers motorizados,  Frente executiva de aclamação de toturadores, Congregação dos cultores de favores judiciários trocados, Grupo de jornalistas investigativos dos alvos indicados pelo Partido, Sindicato de ex-presidentes impedidos, Obcecados por Israel, Obcecados pela Ucrânia, Obcecados por russian colusion, Obcecados pelo Ministro da Educação, Federação dos filhos de presidentes investigados, Lista negra do ódio intelectual, Censores da literatura não engajada nas causas certas, Linchadores da Marcha da Vida, Ordem dos Maniqueístas Instrumentais, Funcionalismo anti-helmíntico, Associação dos drones admoestadores chineses, Monitores da Liberdade Vigiada, Bloco Paranóides da Patofobia, Socialistas veganos do Bernie, Decanos pela impunidade segundo-instancista, Genealogistas do dinheiro desviado, Superintendencia dos sequestradores do erário, ONG  zona franca macronamazonica, Instituto de Gatunos Refugiados com Salvo-conduto, Sociedade de políticos injustamente acusados por tragédias evitáveis e alagamentos, Militaristas  pelo desarmamento unilateral, Juizes pelo justicamento sem penas, Sindicato de  cineastas subsidiados por empreiteiras.

 

 

Antissionism is Antissemitism! (Article published in Estado De Sao Paulo newspaper)

Antissionism is Antissemitism?

The case against Israel and the Jews (Blog Estadão)

IMAGE_164

 

Posted by Paulo Rosenbaum in Articles

In a recent talk at the Bait Jewish Center, located in Sao Paulo, Brazil, poet, essayist, and writer Nelson Ascher focused on a theme that was often banned or superficially addressed: is anti-Zionism anti-Semitism? The Tale of News blog summarized its considerations and added reflections that also involved the issue of the reliability of news and fake news, the political turmoil in Europe, the role of mass immigration and Islam-fascism, who is not a leftist. right or maybe just non-left?

Ascher began by using an absolutely synthetic statement to answer his own question.

“Why does anti-Semitism exist and endure?”

“Because it always worked”

How does it work and what is the contemporary and prior meaning of its effectiveness?

By stating that Zionism was a kind of “second degree nationalism” and that there are other “Zionisms” being born in Europe due to a lack of identification between the social democracy practiced by the European Parliament and the countries it governs. It is deduced that “second degree nationalism” can be understood as a reactivity of peoples to attempts to interfere with their customs beyond territorial and financial unity. In this sense, is Europe threatened soon after by several movements similar to Brexit?

In 2018 we had a disturbing record number of anti-Semitic attacks in Germany, France and more recently in the United States. In the European case, there is no way to disconnect the current status quo from the refugee crisis that has allowed almost 2 million people (immigrants from North African countries – mostly non-refugees) to come in – from intolerant cultures. violently anti-Semitic. The problem therefore lies more in immigration policy which seems to have no clear criteria than the immigrants themselves.

The debate has been blocked by the systematic evocation of terms forbidden by a censor euphemism better known as “politically correct.” Any mention of wild immigration has been labeled “Islamophobic.” It is also self-evident because the same treatment for the expression “Judeophobia” is not given. The insistence of much of the media to a priori condemn Israel, in headlines and statements, attests to this. In recent crises with the Gaza Strip ruled by the Hamas terrorist organization – and its Iranian proxies – the forefronts show the nonsense and bias of a significant part of the news media. “Israel attacks Gaza” is the most common call, after Israel had received nearly 500 rockets against civilian populations in less than 48 hours. Importantly, as has been emphasized more than once, such terrorist organizations have nothing to do with the official Palestinian government and its president. These are illegal fronts, which actually oppress and hold Gaza’s people hostage.

According to Ascher there is a particularity in the case of European anti-Semitism that often uses the justificationism of the anti-Zionist alibi. It is essential to analyze the role – direct or indirect – played by Angela Merkel and other leaders of that continent.

Still according to his analysis, some of these self-styled governments of social democracies regularly pay tribute to Jews killed in the Shoah (Holocaust) and in fact publicly condemn anti-Semitism, progress. However, while giving funeral speeches under self-whipping they neglect the dramatic and explicit aggressive mood against the Jewish communities. While other countries seem to do the reverse movement. In the case of Hungary – a country that you follow politics with particular attention – we have an example of this apparent paradox: here we have a government classified as extreme right (sic), but it is at the same time one of the places where contemporary Jews seem to be. safer when compared to the situation in other European countries. The paradox is only apparent: while a significant part of leftist parties choose to coalesce around old anti-Jewish conspiracy theories – formerly a far right monopoly argument – there is today a new and incendiary component to be reckoned with: as defined by Umberto Eco, it deals with from islamo-fascism.

As it is explained then, nations that even frequently meander their responsibility for the genocide practiced by the Nazis with co-participation from various other countries, but remain inert in the face of the epidemic of anti-Jewish intolerance that is sweeping Europe today, if not with impunity, counting. with the carelessness of governments.

Ascher then recommends the following inflection: what is the “Democratic Rule of Law”. Former President Mubarak, for example, was directly destabilized by Obama’s foreign policy and following the Muslim Brotherhood won the elections in Egypt. As we all know, the “Brotherhood” is one of the oldest radical Islamic associations. The Nazi party’s strategic ally is today an admittedly jihadist entity. He won by far by defeating all moderate parties in what would be one of the first elections in the Arab country in decades. Shortly thereafter the people themselves understood the error and took to the streets – in an event that was mistakenly classified as “Arab spring” – calling for the overthrow of the newly elected, which effectively ended up through a military coup led by General Sissi.
At the time, several analysts attributed the phenomenon of Morsi’s election – recently killed from a heart attack – to an error in the timing of the democratic process: IM had been the only organization to keep its structure intact during subsequent dictatorships that lasted, and thus the only one able to compete in the election as an almost exclusive option in that suffrage of plebiscitary character. Considering the episode what is the democratic rule of law anyway?
If only understanding the historical-political context can define it, what is its consistency?
Right and left have their wild addictions and rankings. In turn, those who do not fit the postulates of the left are subject to being called right or extreme right. Not just “not left” or “not right” is allowed. Many members of the US Democratic Party and the English Labor Party – centered on the figure of Corbyn – have instrumented the Palestinian struggle for rights discourse by sacrificing historical principles by openly defending anti-Zionist and anti-Semitic postures. This includes profiling in the defense of the Aitolás theocratic regime and advocating for jihadist organizations – officially recognized by the European Parliament as terrorist entities – such as Hamas and Hezbollah. These are complaints that come from within the English Labor Party itself.
What would be the ideological and tactical significance of this political turn?
It is disturbing to know that many journalists have acted militantly. Selecting news according to more ideological standards than reporting facts. It seems obvious that the hermeneutic bias took a much more powerful shape than the facts. Even though neutrality is an idealized function, would not the original role of journalism be closer to stimulating the reader to make his own decisions than to indoctrinate it? Not today, when fake news coming from official sources is far more compromising – because it is supposedly unsuspected or less suspicious – than the spread on social networks – always subject to double checking by the most careful users.
After the episode of the accusations of the defeated candidate for presidency of the Republic Ciro Gomes who externalized his prejudice when he evoked “corrupt from the Jewish community”, the most recent Brazilian case of statement accusing the Jews fell to “Isto É” magazine. The pamphlet published a pitifully explicitly anti-Semitic article – on the pretext of accusing the current government’s secretary of communication – using it as its motto comparing it to the infamous head of propaganda, the infamous Josef Goebbels (SIC), the fuhrer’s marketer. The magazine also used the accusatory term fabulating and identifying the enemy, once again, “the Jewish community.” The title of the libel would not need further explanation “The Goebbels of the Plateau.”

In this sense, the attempt to sabotage the right of any individual of a certain ethnic group to work or act politically for a government that the writer and the editorial board of the pamphlet deem inappropriate. In the absence of consistent arguments, the accusation will always fall on the most at hand ethnic condition. Sound happens more often against the Jews.

This is where we are very close to the cassation of citizenship. And the suspension of the idea of ​​the secular state by those who should most defend it. And so it was once again possible to evoke the myth, this clearly neo-Nazi myth, that there would be a “Jewish plot.” Now there are Jews of all political strains and shades, and the ethnic-religious condition could never be used as an alibi to generalize anything. Unless it is clear that the journalist or writer is already in the fragile intellectual condition of post-analysis. That is, what matters in any story is your personal beliefs and the starting point is the point of arrival. Unfounded generalizations such as those that routinely appear always start from an ideological, devotional, that is, fanatic bias.

Is this not one of the roots of the very discredit attributed to regulated media today? Is the fabrication of misinformation – increasingly identified by the speed and expansion of access to media diversity – not the very genealogy of false news? News that now with the webmaster is spreading with frightening resourcefulness? Does this occur while it is paradoxically possible to see a considerable advance of confidence in what is conveyed through social networks?

What are fake news anyway? And what is its impact on the national and international political scene? Especially in the case of Israel which suffers a considerable number of attacks with funded media and paid blogs to spread, for example, hate speech and intolerance.

In this sense, it can be said that modern anti-Semitism has been transgressed with an anti-Zionism on occasion. It is however a makeshift garment. Under the dismountable cloak that deserves to be demystified by serious journalism is a selective respect for freedom of expression.

Just over 74 years after the end of World War II and the deaths of more than 60 million people including 6 million and 250,000 Jews (who died after the end of the war when they tried to return to their European homes) the reality only reaffirms the vital importance of the existence of the State of Israel to the Jewish people and its security in the present historical moment. And despite the threats and rebirth of the virulent wave of intolerance against the Hebrews, there has never been a time in human history when so few Jews died in massacres. Anti-Zionism then finally unveils itself as just another veiled face of one of humanity’s most primitive and recurring archetypes.

Perhaps the great frustration of hate preachers is that this time the scapegoat has a way to defend itself.

 

Hiatos de guerra (publicado em 2011 no JB)

Hiatos de guerra

Jornal do Brasil Paulo Rosenbaumhttp://www.jb.com.br/coisas-da-politica/noticias/2011/12/08/hiatos-de-guerra/Escritores e compositores pop acham que devem opinar sobre tudo. O antissemita Tariq Ali não fugiu à regra. Acaba de explicar a um jornalista na última Fliporto, em Olinda, que o atual clima contra o Irã envolve Israel porque este não quer ver ameaçado seu monopólio nuclear. Além das exaltações ao ditador do Irã, endossou a montagem do arsenal nuclear do regime persa “cercado de potências nucleares como Paquistão, Índia, Coreia do Norte e, um pouco mais distante, China (sic)”. Quem sabe Ali poderia esclarecer se afinal estamos diante de monopólio ou se, nos arredores, já existem armas nucleares em abundância? De quem fala? Quem prometeu varrer Israel do mapa? Uma hora dessas o paquistanês precisará abandonar a ficção e trazer argumentos verdadeiros para prosseguir sua campanha contra “conspiradores sionistas” e “inimigos imperialistas”.

Não faz preocupação quando alguém dispara tantas atrocidades isoladamente. O problema é o coro. Legiões inteiras fazem brotar jargões anacrônicos em suas vitrolas acríticas. Entre nós, há gente que perdeu a timidez e hasteou bandeira a favor do acúmulo de armas de destruição em massa. Bizarro ativismo: pacifistas atômicos sonhando com democracia nuclear.

Segundo especialistas em segurança internacional, o fundamentalismo adicionou à análise fatores imponderáveis. Há muita gente interessada em guerra, a começar pela atual administração do Irã, que, para sobreviver como regime, sabe que precisa expandir a influência xiita pelos arredores. A exportação da revolução islâmica de Teerã (bem sucedida no Líbano, Iraque e Síria) hoje está sendo acelerada e, dissipada toda euforia, seus braços visíveis despontam em vários segmentos da Primavera Árabe. No frontinterno precisam contornar a guerra civil iminente.

Uma frente de defensores da teocracia de Teerã – que conta com inacreditável rede de jornalistas esclarecidos, intelectuais militantes e chanceleres – se inflama a favor do país persa, mas curiosamente jamais para denunciar crimes de Estado, opressão contra mulheres, situação dos presos políticos ou apelos em favor das minorias chacinadas pelas milícias revolucionárias. Até nosso ex-presidente chegou a chamar a brutal repressão que se seguiu frente aos protestos das últimas eleições – entenda-se colégio eleitoral com lista de candidatos escolhidos pelos aitolás – de “protestos de quem perdeu”.

Afinal, num mundo tão fraturado, quem precisa de coerência?

Mais uma vez, o mundo se curva às duas grandes religiões contemporâneas: o antiamericanismo e o antissionismo, esta última, conhecida sinonímia de antissemitismo e judeofobia.

A única coisa que interessa é reconhecer a emergência: somente persistentes e radicais negociações de paz restabeleceriam acordos mínimos para a região. E só fariam sentido se fossem compreensivos o suficiente para ir bem além da solução política de dois Estados e envolvessem o povo iraniano. Mesmo vivendo em tempos de comunicações instantâneas não custa consultar a velha professora em vias de se aposentar. A História ensina que há milênios o mundo desconhece paz duradoura. O que existe são hiatos de guerra. Por ser discreta e impessoal, não se pode tachá-la de pessimista.

Então, por que justamente nossos tempos teriam o privilégio desse testemunho de pacificação mundial? Pode até ser que estejamos em época especial, no interregno do instinto guerreiro do homem. Quem dera! Precisamos aprender a conviver com a ideia de que não haverá acordo definitivo em parte alguma. E não vivem há muito, em contenciosos crônicos, Índia e Paquistão, Coreias, China e Taiwan, Rússia e Geórgia?

Por outro lado, é exatamente a permanência destas aproximações sucessivas, contando com distensão política, desarmamento e projetos de paz, que reduziram muitos conflitos às rusgas fronteiriças,

Isto É, uma vergonha,o caso contra os Israel e os judeus (Blog Estadão)

 

Em palestra recentemente realizada no Centro Judaico Bait o poeta, ensaista e escritor Nelson Ascher enfocou um tema frequentemente interditado ou superficialmente abordado: antissionismo é antissemitismo? O blog Conto de Notícia fez uma síntese de suas considerações e acrescentou reflexões que envolveram também o problema da confiabilidade das notícias e as fake news, a conturbação política na Europa, o papel da imigração maciça e o islamo-fascismo, quem não é esquerda é direita ou quem sabe apenas “não-esquerda”?

Ascher iniciou fazendo uso de uma afirmação absolutamente sintética para responder sua própria pergunta

“Por que o antissemitismo existe e perdura?”

“Porque sempre funcionou”

Funciona de que modo e qual é o significado pregresso e contemporâneo de sua eficácia?

Ao afirmar que o sionismo foi uma espécie de “nacionalismo de segundo grau”  e que  existem outros “sionismos” sendo gestados na Europa em função de uma falta de identificação entre a democracia social praticada pelo parlamento Europeu e os países por ele governado. Deduz-se que o “nacionalismo de segundo grau” pode ser compreendido como uma reatividade dos povos às tentativas de interferências em seus costumes para além da unidade territorial e financeira. Neste sentido, estará a Europa ameaçada logo adiante por vários movimentos similares ao Brexit?

Em 2018 tivemos um perturbador recorde de número de ataques antissemitas na Alemanha, França e mais recentemente nos Estados Unidos. No caso europeu não há como desvincular o atual status quo da crise dos refugiados que permitiu o ingresso de quase 2 milhões de pessoas (imigrantes de Países do norte da África – em sua imensa maioria, frise-se  não refugiados) que vem de culturas intolerantes violentamente antissemitas. O problema portanto está mais na política imigratória que parece não ter critérios claros do os imigrantes propriamente ditos.

O debate tem sido interditado pela sistemática evocação de termos proibidos por um eufemismo censor mais conhecido como “politicamente correto”. Qualquer menção ao fluxo imigratório selvagem tem sido rotulado como “islamofóbico”. Também é auto evidente porque não se dá o mesmo tratamento para a expressão “judeofobia”. A insistência de boa parte da mídia em condenar aprioristicamente Israel, nas manchetes e nas declarações, atesta isto. Nas recentes crises com a Faixa de Gaza governada  pela organização terrorista Hamas — e seus proxys iranianos — as testeiras mostram o disparate e o viés preconceituoso de parte significativo das mídias jornalísticas. “Israel ataca Gaza” é a chamada mais comum, isso depois de Israel ter recebido quase 500 foguetes contra populações civis em menos de 48 horas. Importante salientar, como já se enfatizou mais de uma vez, que tais organizações terroristas não tem nada a ver com o o governo oficial dos palestinos e seu presidente. São frentes ilegais, as quais, na verdade, oprimem e mantém como reféns a população de Gaza.

Segundo Ascher há uma particularidade no caso do antissemitismo europeu que frequentemente utiliza o justificacionismo do álibi antissionista. É  essencial analisar o papel — direto ou indireto — desempenhado por Angela Merkel e outros dirigentes daquele continente.

Ainda segundo sua análise alguns destes governos autointitulados de democracias sociais, prestam regularmente tributos ao judeus mortos na Shoah (Holocausto) e de fato condenam publicamente o antissemitismo, pregresso. Entretanto, enquanto proferem discursos fúnebres sob auto chibatadas negligenciam o dramático e explícito clima agressivo contra as comunidades judaicas. Enquanto outros Países parecem fazer o movimento inverso. No caso da Hungria — país que você acompanha a política com particular atenção — temos exemplo deste aparente paradoxo: ali temos um governo classificado como de extrema direita (sic), mas é, ao mesmo tempo, um dos lugares onde os judeus contemporâneos parecem estar mais seguros quando se compara com a situação em outros Países europeus. O paradoxo é apenas aparente: enquanto parte significativa dos partidos de esquerda escolhe aglutinar-se em torno de velhas teorias conspiratórias antijudaicas — antes argumento monopólio da extrema direita — há hoje um novo e incendiário componente para ser contabilizado : como definido por Umberto Eco, trata-se do islamo-fascismo.

Como se explica então que nações que inclusive fazem o mea culpa frequentes pela suas responsabilidades no genocídio praticado pelos nazistas com co-participação de vários outros países, mas permanecem inertes diante da epidemia de intolerância antijudaica que hoje varre a Europa, se não impunemente, contando com a omissa displicência dos governos.

Ascher recomenda então a seguinte inflexão: o que é o “Estado Democrático de Direito”. O ex presidente Mubarak por exemplo foi diretamente desestabilizado pela política externa de Obama e na sequencia a Irmandade Muçulmana venceu as eleições no Egito. Como se sabe a “Irmandade” é uma das mais antigas agremiações islâmicas radicais. Aliada estratégica do partido nazista é hoje uma entidade assumidamente jihadista. Venceu por larga margem derrotando todos os partidos moderados naquela que seria uma das primeiras eleições no País árabe em décadas.  Pouco tempo depois a própria população entendeu o erro e saiu às ruas — num evento que foi erroneamente classificado como “primavera árabes”– pedindo a deposição dos recém eleitos, o que efetivamente acabou acontecendo através de um golpe militar liderado pelo general Sissi.

Na época, vários analistas atribuíram o fenômeno da eleição de Morsi — morto recentemente de um ataque cardíaco — a um erro do timing do processo democrático: a IM fora a única organização a manter sua estrutura intacta durante as ditaduras subsequentes que perduraram e, portanto, a única apta a concorrer no pleito como uma opção quase exclusiva naquele sufrágio de caráter plebiscitário. Considerando o episódio o que é afinal o Estado Democrático de Direito?

Se só a compreensão do contexto histórico-político pode defini-lo, qual é a sua consistência?

Direita e esquerda tem seus vícios e classificações selvagens. Por sua vez quem não se encaixa nos postulados da esquerda está sujeito a ser tachado de direita ou de extrema direita. Não se admite apenas “não esquerda” ou “não direita”. Muitos membros do partido democrata norte americano e do partido trabalhista inglês — centralizados na figura de Corbyn — tem instrumentado o discurso da luta pelo direito dos palestinos sacrificando princípios históricos ao defender abertamente posturas antissionistas e antissemitas. Isto inclui perfilar-se na defesa do regime teocrático dos aitolás e sair em defesa de organizações jihadistas — oficialmente reconhecidos pelo Parlamento Europeu como entidades terroristas — como Hamas e Hezbollah. São denúncias que vem de dentro do próprio partido trabalhista inglês.

Qual seria o significado ideológico e tático deste giro político?

É inquietante saber que muitos jornalistas passaram a agir de forma militante. Selecionando notícias de acordo com padrões mais ideológicos do que reportando fatos. Parece óbvio que o viés hermenêutico tomou um vulto muito mais poderoso do que os fatos. Ainda que a neutralidade seja uma função idealizada o papel original do jornalismo não estaria mais próxima de estimular o leitor a tomar suas próprias decisões do que de doutrina-lo? Não em nossos dias, quando as notícias falsas que provém de fontes oficiais são muito mais comprometedoras — pois supostamente insuspeitas ou menos suspeitas — do que as propagandeadas nas redes sociais — sempre sujeitas a uma dupla checagem por parte dos usuários mais cuidadosos.

Depois do episódio das acusações do candidato derrotado à presidência da República Ciro Gomes que externalizou seu preconceito quando evocou “corruptos da comunidade judaica”, o caso brasileiro mais recente de declaração acusando os judeus coube à revista “Isto É”. O folhetim publicou lamentável artigo explicitamente antissemita — com o pretexto de acusar o secretário de comunicação do atual governo — usando como mote compara-lo ao chefe de propaganda, o infame Josef Goebbels, marquetólogo do fuhrer. O magazine também usou o termo acusatório fabulando e identificando o inimigo, mais uma vez, “a comunidade judaica”. O título do libelo dispensaria mais explicações “O Goebbels do Planalto”.

Neste sentido, fica evidente a tentativa de sabotar o direito de qualquer sujeito de uma determinada etnia trabalhar ou atuar politicamente para um governo que o articulista e a direção editorial do panfleto considerar inadequado. Na falta de argumentos consistentes a acusação sempre recairá sobre a condição étnica que estiver mais à mão. Soe acontecer com mais frequência contra os judeus.

É neste momento que estamos muito próximos da cassação da cidadania. E da suspensão da ideia do Estado laico por parte de quem mais deveria defende-lo. E assim foi possível mais uma vez evocar o mito, este sim claramente neonazista, de que haveria um “complô judaico”. Ora, há judeus de todas as correntes políticas e matizes e jamais a condição etnico-religiosa poderia ser usada como álibi para generalizar coisa alguma. A não ser é claro que o jornalista ou escritor já esteja na frágil condição intelectual de pós-análise. Isto é, o que importa em qualquer reportagem são suas convicções pessoais e o ponto de partida já é o ponto de chegada.  Generalizações infundadas como as que rotineiramente aparecem partem sempre de um viés ideológico, devocional, vale dizer, fanático.

Não estará ai uma das raízes do próprio descrédito hoje atribuído às mídias regulamentadas de forma geral? A fabricação de desinformação — cada vez mais identificada pela velocidade e expansão do acesso à diversidade de meios de informação — não é a própria genealogia das notícias falsas? Notícias que agora com o condão da web se espalham com assustadora desenvoltura? Isso ocorre enquanto é possível constatar paradoxalmente um considerável avanço de confiança no que é veiculado através das redes sociais?

Afinal o que são as “fake news”? E qual seu impacto no cenário político nacional e internacional? Especialmente no caso de Israel que sofre um considerável número de ataques com mídia financiada e blogs pagos para difundir, por exemplo, discursos de ódio e intolerância.

Neste sentido, pode-se afirmar que o moderno antissemitismo travestiu-se com um antissionismo de ocasião. Trata-se contudo de uma roupagem improvisada. Sob o manto desmontável que merece ser desmistificado pelo jornalismo sério há um respeito seletivo pela liberdade de expressão.

Pouco mais de 74 anos depois do fim da II Guerra Mundial e da morte de mais de 60 milhões de pessoas entre elas 6 milhões e 250 mil judeus (estes mortos depois do final da guerra quando tentaram voltar aos seus domicílios europeus) a realidade só reafirma a importância vital da existência do Estado de Israel para o povo judeu e sua segurança no atual momento histórico. E apesar das ameaças e do renascimento da virulenta onda de intolerância contra os hebreus, nunca houve uma época na história da humanidade na qual tão poucos judeus morreram em massacres. O antissionismo então finalmente desvela-se como só mais uma face velada de um dos arquétipos mais primitivos e recorrentes da humanidade.

Talvez a grande frustração dos pregadores do ódio é que, desta vez, o bode expiatório tem como se defender.

 

 

Da Natureza Irracional do Perdão (Blog Estadão)

 

Qual é o sentido em perdoar? Na tradição judaica, cujo jejum no dia de Yom Kippur significa o ápice da tradição de desculpar e desculpar-se, diz-se que o Altíssimo deseja perdoar e até reza a Si Mesmo para ser clemente. Mas podemos de fato perdoar? Há fatos que tangenciam a indesculpabilidade, e, o desafio que se propõe é que a clemência subjugue a ira. E quem consegue sem frequentar um analista sério ou bloquear o sistema límbico com psicofarmacos?  Poucos. Talvez ninguém. Pessoalmente, tenho algumas experiências: já perdoei o cão que me perseguia diariamente ao ir para a escola. Consegui desculpar um conhecido que solenemente escolheu ignorar-me para sua festa, não antes de me pedir ajuda quando um de seus convidados passou mal. Pude até ser clemente com malidiscentes que tentaram me prejudicar.

O perdão é um conceito antagonico a uma proibição explicita para a tradição judaica: vingança, represália, retorsão, despique, ultrice. Todas elas interditadas pelas normas de Israel. Pois que a vingança é o oposto, a perfeita antítese da justiça. Isso não significa que podemos ser condescendentes com com quem perpretou e produziu vítimas.

Talvez valha a pena explorar a inversão filosófica: o que não é perdão?

Numa época na qual tangenciamos, mais uma vez, os limites da intolerância é importante fazer ressalvas. Estarmos submetidos à hegemonia política ou de qualquer outra natureza de certa forma, também representa a antítese do perdão. A falta de compaixão com a vítima do mal feito, idem. Reparar o erro com o sujeito individual ou com a sociedade ocupa uma posição hierarquica superior do que desculpar aquele que cometeu a ofensa.

A punição é o último recurso que os homens encontraram em seus respectivos sistemas de justiça para tentar obter, por via artificial, o arrependimento que parece que, em certas naturezas, não consegue se expressar de forma espontânea. Em geral não funciona, o que representa um dilema, pois pode a sociedade perdoar quem mostra-se convicto, e cada vez mais convicto de que seu mal feito é na verdade um benefício disfarçado de perversidade?

Mas o perdão metafísico é um mistério distinto. Trata-se de realmente perceber que qualquer um poderia ter feito o que foi feito, não só porque a carne é fraca — e o bolso idem — mas porque é da natureza dos habitantes cederem às tentações. O perdão inspirado no Altíssimo entretanto, parece ser de outra origem, se quiserem uma palavra que ofende os bem pensantes, mas me ocorre, “sagrado”. Ora, e por que não? O sagrado não é dogma, não é axioma definido por uma religião institucionada, mas uma instância quase inatingível que denota sentimento de amor e de justiça.

Assim como um ato impulsivo ou atitude impensada o amor pode ser também concebido como uma desrazão, vale dizer, uma irracionalidade benévola. “Benevolência”, também é uma palavra que pode inspirar repulsa nos ideólogos que abominam reflexões axiológicas, mas é aquele que, para além do maniqueísmo instrumental das doutrinas, pode fazer com que se deseje o bem sem contrapartidas: a auto-transcendência. Já o arrependimento não é só um impulso comportamental superficial e auto-indulgente, mas a percepção de que, na intimidade, subjaz uma consciência de que se pode ser bem melhor do que se é.

Claro que muito dessa perspectiva tem sido instrumentalizada nas sociedades contemporâneas para justificar abusos, uns contra os outros, desrespeito à liberdade e bulyings de Estado que atingem os cidadãos, mas aqui me refiro aos relacionamentos que para bem além do cronológico tem real valor: encontros, reuniões, os amigos, a família, as confraternizações, a alegria imotivada (solitária ou gregária) e até mesmo a melancolia contemplativa.

De qualquer forma, o perdão funciona ao modo de catarse, como um esvaziamento psiquico, e, terapeuticamente falando, pode aliviar até mesmo mesmo a natureza mais refratária à bondade. Sua natureza irracional não lhe retira o mérito, na verdade, o engrandece. E ainda que exercido de forma mecânica e protocolar pode ser uma faísca para regenerar sociedades fendidas. Trata-se portanto, antes de tudo, de um exercício.

Pratiquemo-lo.