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Surpresa ao virar o ano do avesso (blog Estadão)

Surpresa virando o ano do avesso

Paulo Rosenbaum

29 Dezembro 2016 | 12h18

Viramos o ano do avesso, e o que procurávamos mesmo? O senso comum fala em sucesso. Os jornais lamentam as previsões fracassadas. A vida institucional não está dizendo coisa com coisa. Foi então que resolvi sacudir a caixa deste ano para ver o que ele continha. Não vi pós verdade. Não saiu nenhuma campanha de desinformação que já não estivesse na grande pauta da pequena mídia. A carta foi marcada, atenção, agora é questão de tempo. Estar alerta e cuidar para que o engano não se promova é a única das coisas essenciais. Reserve ao silêncio e à solidão a oportunidade que você não deu ao diálogo que nunca existiu. Se te disserem: “você não foi suficientemente generoso” recuse imediatamente. Pode ser blefe. Mas para minha surpresa — e para meu desarme — daquele saco amorfo, cheio de potenciais más novas, saiu um bilhete. Um só. Na verdade, uma pequena carta de reconhecimento. Um elogio por um favor. Sim, porque serviços prestados, normalmente remunerados, tem valor definido. Oferta e procura. Leis do mercado e coisa e tal. Neste caso não. Houve esforço, mas não era para tanto. Era uma pessoa falando de amizade e gratidão numa interpretação muito pessoal:

“Prezado, queria agradecer seus cuidados. Suas doações metafísicas, culturais e psicológicas me ajudaram. Ajudaram em aspectos que normalmente a ajuda não cabe. Digo, o cuidar é um verbo, mas ser cuidado está para além do substantivo, mostra uma amizade difícil de qualificar. Bem, isso não importa agora. Sei que nem sempre, vale dizer, quase nunca, esta dimensão é reconhecida. A dedicação ao outro é ofício árduo, e eu me pergunto se isso pode ser mesmo ser ensinado. Acredito que sim. Fora dos muros da faculdade? Fora dos ambientes formais? Fora da vida corporativa?  Talvez até fora da família? Ao receber sua amizade entendi que boas maneiras e gentilezas não bastam. Promessas vagas e compromisso futuro são insuficientes. Os amigos que duram são os que não precisamos jurar amizade. Mas vejo que nossa índole material precisa dos objetos. Para contemplar, para lembrar ou para respirar. Por mais que tentemos, somos feitos de  areia comum, fomos modelados em praias coletivas e nosso destino final é um e o mesmo. Na vida, poucas vezes se tem a oportunidade de agradecer. Agradecer quem te conquistou por respeito, não pela simpatia. Quem soube não te deixar deslizar ao abismo, ainda que para isso, tenha te apontado para ele, feito advertências duras e te colocado de volta à vida sem te iludir ou te seduzir com falsos diálogos. Sim eles podem ser falsos, eu sei bem disso. Nestes casos, o silêncio pode ser mais salutar. Pois é amigo, posso me referir assim a sua pessoa, não?, eu hoje só queria passar para te dar esta pequena carta e te dizer, grato por compreender o que eu cheguei a imaginar como saída. Você me ajudou a ver como pode ser fácil o engano e como o julgamento é penoso, mas vital para enxergar. Que há mais de um caminho. Que talvez para as perguntas que realmente importam não há resposta. Isso é, podem haver várias, mas nada conclusivo. Olhe, até para ser coerente (e a essa altura quem ainda precisa disso?) não vou te prometer retribuição alguma, fica aqui um abraço e a sensação de que me entregar aos seus cuidados bastou pelo ano. É isso, um ano que foi suficiente. Suficiente para poder andar até o próximo. Sinceramente, seu.”

Ás vezes, a calada solicitude é a forma mais sofisticada de amizade. Ninguém a reconhece, pois ela é propositalmente oculta pela discreta benevolência, como deve ser. Pois quando revirar este ano ou qualquer ano, não procure presentes ou notícias, tente achar bilhetes. Eles podem ter a densidade do inesperado. A perplexidade pode ser uma sensação agradável, mas, talvez, para recebe-la na integra, esvazie-se de tudo especialmente das expectativas. Suas perspectivas agradecem.

 

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Silêncio dos órgãos – Blog Estadão
Conto de notícia

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Silêncio dos órgãos

Paulo Rosenbaum

14 Dezembro 2016 | 09h09


Sob a proteção do rei James I, Willian Harvey descobriu em 1628 a circulação do sangue em seu clássico “De Motus Cordis”— algum tempo depois de Miguel Servetus, que, sem protetores, foi queimado vivo pela santa inquisição e não sobreviveu para gozar a fama — as cidades se reorganizaram e foram arquitetonicamente dispostas de acordo com a função que o coração exercia. O principal distribuidor de sangue para o organismo – mas não único pois sabemos da rede auxiliar chamada de glomus — inspirou as transformações nas urbes.

De um ponto central saiam as várias vias, as quais, por sua vez, estabeleciam conexões e interligações, tais quais os vasos sanguíneos. A arquitetura copiava a fisiologia, a arte incorporava a natureza. Assim, não é nova a relação entre mudanças culturais e as descobertas da ciência.

As inovações científicas sempre influenciaram como a Polis e o próprio Estado deveriam funcionar. O filósofo e epistemólogo, professor da Sorbonne e sucessor  de Gaston Bachelard, Georges Canguilhem, definiu saúde com seu famoso aforismo de que um estado aproximado de cura seria representado pelo “silencio dos órgãos”. Isso significa que, quando o organismo está relativamente saudável e em homeostasia os órgãos não gritam, não fazem alarde dos sintomas, são discretos e protagonizam, sem grandes esforços, aquilo que devem fazer para assegurar a manutenção da vida. Para existir, os seres vivos não devem nota-los em seu funcionamento.

A garantia deste processo tem como resultado um admirável trabalho harmônico entre os órgãos e sistemas de modo que eles se auto regulam, numa notável interdependência e impressionante autonomia. Nem sempre esta maravilhosa perfeição perdura e nem sempre a saúde se processa durante a estabilidade. Crises podem ser benéficas para corrigir uma disfunção ou evidenciar uma deficiência ou super eficiência.

Enquanto isso, outros órgãos podem ser obrigados a se desdobrar para corrigir o equívoco dos vizinhos que não estão cumprindo seus papéis. São obrigados a tamponar a má atuação alheia, de sorte que ao “regular o desvio de função de um sistema que não está indo bem” o conjunto de outros sistemas mudam, se reconfiguram sempre com a finalidade última de preservar a vida.

Há, neste sentido, uma inteligência vital e solidária que age autonomicamente e em função do todo. Não é raro que o drama envolva sacrifícios em prol da preservação da vida.

Como Edgar Morin explicou, a diferença entre máquinas e organismo vivo é que se um dos componentes da máquina falha, ela pifa, por sua vez, uma unidade vital pode sobreviver mesmo quando um de seus componentes falha. Pois está acontecendo, neste momento.

Quando ocorre uma dor desmesurada, o aparelho neurológico “desliga” o sistema, de forma a preservar o corpo do colapso completo: a morte. Se há um comprometimento infeccioso no pulmão como, por exemplo, o bacilo da tuberculose, o sistema imunológico, não podendo destrui-lo completamente, encapsula-o e calcifica-o, de modo que o bacilo pode até permanecer vivo, porém torna-se inofensivo. E, a não ser que a resistência caia a ponto de desmanchar a defesa e libera-lo para fazer o estrago nos organismos susceptíveis, as pessoas podem conviver com o agente infeccioso sem necessariamente ficarem enfermas.

Estas analogias serviriam para construir paralelos entre o funcionamento do Estado e o Organismo. A primeira delas é que não cabe ao Estado o papel de reitor onipotente. Mas tampouco se trata da ideia reducionista de encolher o Estado ao mínimo. Isso não mudaria seu status quo, pelo menos não a ponto de torna-lo minimamente eficiente caso respeitasse a função para o qual foi designado. Isso é, se não extrapolasse suas atribuições, se não impusesse leis artificiais e se não legislasse em causa própria. Mas, principalmente se não se comportasse como um órgão desgarrado do corpo, correndo o risco de se tornar um antígeno e precipitar a temida reação auto-imune, quando o organismo passa a estranhar seus próprios componentes.

O Estado tem sido recriminado e pode passar à condição de moléstia, porque, em oposição ao conceito de “silêncio dos órgãos”, tem feito muito barulho por nada. Pois desta atuação equívoca só podem brotar instituições com os mesmos hábitos e tendências. Estado e Instituições muito barulhentas tendem a impor seus perturbadores decibéis aos tímpanos da sociedade.

O Estado brasileiro em particular, voluntariamente desorganizado por gestões caóticas — não satisfeito em nos acordar de madrugada com sobressaltos, foi perdendo a noção de conjunto. Passou a considerar que pode prescindir do convívio harmônico entre os poderes. E sob o endogenismo autocentrado de cada um destes poderes, clausulas constitucionais vão sendo abolidas ou reinterpretadas, para, em estranhas concessões hermenêuticas, adapta-las às conveniências do instante. Soluções de varejo podem funcionar, provisoriamente, até que o próximo imbróglio sobrevenha.

O agravante é que essa atuação equivoca do sistema político partidário está sendo exercida com plena noção de seu significado. Exatamente porque o fisiologismo político acordou, e sabe que, numa perspectiva de funcionamento integrado e eficiente, teria sua hegemonia minada. Veria ameaçada a menina dos olhos dos governantes: a centralização dos tributos. Atualmente taxas públicas extorsivas com dividendos privados vingativos.

O Estado, unido em desfavor da sociedade, defende-se com unhas e dentes porque sabe que não resistiria à inspeção atenta da razão. Uma análise independente mitigaria seu alcance e reforçaria a ideia de que os distritos deveriam ser prioridade. Um exame crítico evidenciaria como o sistema político atual se tornou anacrônico e de que a solução, não sendo o Estado policial, estaria no combate à ignorância.

É exatamente esse o temor que domina o Estado escandaloso. Encapsulado, o medo é de que descubramos que ele é bem menos necessário do que faz supor. De que, assim como a vida, nenhum órgão pode prescindir dos demais sem infligir danos permanentes à vitalidade. Para que possamos respirar, o Estado vai precisar silenciar. Ou, calar a boca.

Resenha do Livro Céu Subterrâneo -Por Lyslei Nascimento –

Resenha feita por Lyslei Nascimento sobre o livro “Céu Subterrâneo” de autoria de Paulo Rosenbaum.

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O romance Céu subterrâneo, de Paulo Rosenbaum, surge em um tempo em que o leitor já não cultiva o que não pode ser abreviado. A pressa e o senso de imediatismo dirigem o olhar, o passo e o pensamento do leitor contemporâneo em meio a imagens desconexas, cada vez menos inteligíveis e cada vez mais alienantes. No entanto, amante das grandes narrativas e do exercício crítico que entende a literatura como uma forma de conhecimento, o que pode ser constatado desde A verdade lançada ao solo, de 2010, o escritor não se intimida diante desse cenário.

Seu romance, assim, apresenta um tema inquietante: tentar realizar uma síntese impossível do céu – as coisas do alto, como a espiritualidade – e as subterrâneas – não somente as coisas terrenas, é preciso ressaltar, mas aquelas que estariam abaixo do nível do chão, como a memória e a identidade. Dessa maneira, Rosenbaum inscreve-se numa poderosa tradição de romancistas como Umberto Eco e Salman Rushdie.

Esses escritores se esmeram em construir suas tramas a partir do que Italo Calvino chamou de hiperromance ou romance enciclopédico, ou seja, uma narrativa marcada pela tensão entre o peso e a leveza, a exatidão e a multiplicidade. Na contramão do desejo de brevidade, eles oferecem ao leitor uma narrativa densa, cheia de camadas e níveis, idas e vindas, jogos temporais e espaciais, intertextos sofisticados, buscas quase infinitas de duplos e fantasmagorias. O convite à leitura é, portanto, um desafio à viagem, à investigação.

Na trama de Rosenbaum, um escritor viaja para Israel em busca de si, de sua inscrição numa tradição da qual ele acredita ser “desafilhado”. Por isso, não é só um ponto de vista que é sugerido pela expressão paradoxal “céu subterrâneo”, mas também um jogo entre o fora e o dentro, a exclusão e a inclusão, que está sempre em perspectiva. O que se percebe, nesse sentido, é que a narrativa vai se adensando e um enigma precisa ser decifrado pelo personagem e também pelo leitor. Ambos se veem diante de um labirinto, com suas ruas e ruelas, falsas entradas e ilusórias saídas – tudo muito bem arquitetado para fazer perder tanto um quanto outro.

Decifrar ou ser devorado parece ser o que, irremediavelmente, impele o protagonista, “o estranho que se estranha”, para o que seria a sua busca pela verdade, pela resolução do que a ele, e ao leitor, se impõe como um problema, real ou psicológico. Inquérito e investigação, em construções análogas as de Edgar Alan Poe, inclusive com a concepção do amigo Assis Beiras, à moda de um Conan Doyle com o célebre parceiro de Sherlock Holmes, faz do personagem um Dr. Watson tropical e apontam para a narrativa de enigma que está sendo ali tramada.

Escavando e recordando, como queria Walter Benjamin, as referências à narrativa de enigma e de investigação policial não são gratuitas. Torna-se, assim, o narrador o investigador de si mesmo, de suas origens, e o leitor o seu cúmplice.

O que o personagem do romance Adam Mondale deseja em sua tentativa de desvendar um passado ancestral judaico e, é preciso dizer, coletivo? Desentranhar-se ou ali se inscrever, de forma singular? A sua busca de uma imagem da sepultura de Adão, o homem primordial, não é banal ou retórica, mas se dá a partir de leituras e releituras, de livros, de imagens, de tradições que vão desarmando interpretações cristalizadas e armando outras, mais precárias, porém sutis. Nesse sentido, o romance trata de coisas desaparecidas, ou soterradas, e das inexistentes, ou imaginárias.

A referência a um código pictórico, como “O Jardim das delícias terrenas”, 1503–1515, de Hieronymus Bosch, por exemplo, e fotográfico, como o negativo da Polaroide encontrado e seu correspondente holograma, são explorados no uso de um vocabulário ambíguo, deve ser tomado em vários sentidos. Desse modo, revelação, iluminação ou negativo são termos que podem ser levados às últimas consequências interpretativas. Assim, a fotografia, que poderia ser uma prova de realidade, e a busca que o narrador realiza, são postas em xeque, fazendo surgir sombras e delírios, criando dúvidas e minando as certezas totalitárias, inclusive do saber que está sendo disseminado. Tudo muito bem entretecido com reflexões pungentes sobre a escrita e os dilemas de um escritor na contemporaneidade.

Quase como um místico à deriva, ou um voyeur, numa irônica condição de sofrer de uma doença nos olhos, cuja “córnea é riscada”, prejudicando-lhe a visão perfeita, destaca-se o caráter de colecionador de câmeras e filmes antigos (marcando o que seria a modernidade em ruínas) e as múltiplas facetas do personagem como professor, psicólogo, fotógrafo e detetive (buscando apreender a fugidia condição do escritor pós-moderno). O texto aponta para o que, em certa medida, Ricardo Piglia afirmou sobre a escrita atual: o gênero policial, em todos os seus desdobramentos, é o grande gênero moderno que inunda o mundo contemporâneo.

“Narra-se uma viagem ou um crime. Que outra coisa se pode narrar?”. Às vezes, as duas coisas, é preciso ressaltar. Sob essa dupla sentença, Piglia parece refletir sobre as estratégias de construção textual presentes no romance de Rosenbaum. Sobreposta à viagem a Israel, e, em Israel, a viagem a Hebron, além da busca pela imagem da fotografia que desvelaria o segredo, a metáfora da arqueologia traduz, de forma contundente, a investigação que o protagonista realiza de si e do outro, espelhando, com requinte, a estrutura narrativa do romance.

A partir de um negativo fotográfico encontrado na Caverna dos Patriarcas, a Gruta de Macpelá, o narrador sai a campo em investigação e leva com ele o leitor. O complexo, localizado na antiga cidade de Hebron, depois do Monte do Templo, é o segundo local mais sagrado para os judeus e venerado, também, por cristãos e muçulmanos. Todos esses fiéis, com algumas variações, afirmam que é o lugar onde foram enterrados os quatro casais bíblicos, daí o nome “Macpelá” ser uma referência à câmara de sepultamento de Adão e Eva; Abraão e Sara; Isaque e Rebeca, Jacó e Lea.

Também as cidades de Rosenbaum, tal qual as de Cidades invisíveis, de Calvino, aparecem especulares, refletidas, em dupla exposição, sendo atravessadas pelo narrador, com seu olhar avariado, diluindo as fronteiras, fazendo com que os limites sejam intercambiáveis. Jerusalém e Hebron prefigurariam, assim, espaços sagrados e profanos, espelhamentos de textos que são desfolhados ou revelados em suas entranhas a partir de referências ao campo semântico da fotografia, da arqueologia e da narrativa de enigma.

O passado, as ruínas, os restos mortais são iluminados pela escrita e pela investigação, como uma prova, no tempo presente, de algo que só chega a ser minimamente delineado. —“Prova? Você agora está escavando?”, pergunta a esposa de Adam. —“Estamos pesquisando”, ele responde. Destaco, nessa citação, que a pergunta se apresenta no singular, mas a resposta, apesar de só poder ser também nesse diapasão, porque não há, explicitamente, outra pessoa junto a Adam, acontece no plural.

Essa configuração múltipla do personagem é dúbia e está explícita em suas muitas facetas, na complexa conformação de seus vários eus. Ou seja, esse personagem também se apresenta a partir de “camadas arqueológicas” da vida presente com as passadas, das relações conflituosas com a culturas e a tradição judaica, das angústias e influências de textos e imagens que percebeu, leu, escreveu ou fotografou.

Evidentemente que a ideia de duplo, presente desde o título do romance, tem, no nome do narrador, Adam, espelhando sua busca por Adão, e Macpelá, o nome da gruta que sugere o túmulo dos casais, além das cidades de Hebron e Jerusalém – com suas ruínas e reconstruções trazidas à luz, por escavações – na arqueologia, sua metáfora mais instigante. Sigmund Freud, por intermédio da comparação do passado de uma cidade com o passado psíquico, em O mal-estar na cultura, reflete sobre o que o leitor pode analogamente vislumbrar na busca de Adam em Céu subterrâneo. Em vez de Roma, a cidade que insurge e ressurge do passado é Hebron, fazendo falar, a um só tempo, as vozes da tradição – de um tempo imemorial e mítico, que parece estar soterrado no passado – com índices do moderno e da contemporaneidade, como a fotografia, a computação gráfica, o holograma.

Céu subterrâneo, em níveis e desníveis, em estratos, espelhamentos, conformações e deformações, anseia que o leitor o atravesse, pari passu com o narrador. A busca obsessiva de Adam “pelo negativo” de uma imagem que todos julgam perdida, no entanto, não é vã. O leitor deverá acompanhá-lo por cidades e grutas, da superfície para o interior, num espaço labiríntico. Sem esquecer, todavia, que escavar-se é, também, ferir-se, e que quanto mais profunda a incursão na memória ancestral, mais ele pode se elevar, para, na superfície, respirar e sobreviver.

Lyslei Nascimento é Professora de Literatura na Faculdade de Letras da UFMG

Resenha Céu Subterrâneo – Lyslei Nascimento (Blog Estadão)
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Uma resenha de Céu Subterrâneo por Lyslei Nascimento – (Publicado no Letras -Caderno C de Cultura e Literatura Judaica)

Paulo Rosenbaum

22 Novembro 2016 | 07h56

Escavar e ferir: escrita e arqueologia

Lyslei Nascimento[1]

O romance Céu subterrâneo, 2016, de Paulo Rosenbaum, surge em um tempo em que o leitor já não cultiva o que não pode ser abreviado. A pressa e o senso de imediatismo dirigem o olhar, o passo e o pensamento do leitor contemporâneo em meio a imagens desconexas, cada vez menos inteligíveis e cada vez mais alienantes. No entanto, amante das grandes narrativas e do exercício crítico que entende a literatura como uma forma de conhecimento, o que pode ser constatado desde A verdade lançada ao solo, de 2010, o escritor não se intimida diante desse cenário. Seu romance, assim, apresenta um tema inquietante: tentar realizar uma síntese impossível do céu – as coisas do alto, como a espiritualidade – e as subterrâneas – não somente as coisas terrenas, é preciso ressaltar, mas aquelas que estariam abaixo do nível do chão, como a memória e a identidade. Dessa maneira, Rosenbaum inscreve-se numa poderosa tradição de romancistas como Umberto Eco e Salman Rushdie.

Esses escritores se esmeram em construir suas tramas a partir do que Italo Calvino chamou de hiperromance ou romance enciclopédico, ou seja, uma narrativa marcada pela tensão entre o peso e a leveza, a exatidão e a multiplicidade. Na contramão do desejo de brevidade, eles oferecem ao leitor uma narrativa densa, cheia de camadas e níveis, idas e vindas, jogos temporais e espaciais, intertextos sofisticados, buscas quase infinitas de duplos e fantasmagorias. O convite à leitura é, portanto, um desafio à viagem, à investigação.

Na trama de Rosenbaum, um escritor viaja para Israel em busca de si, de sua inscrição numa tradição da qual ele acredita ser “desafilhado”. Por isso, não é só um ponto de vista que é sugerido pela expressão paradoxal “céu subterrâneo”, mas também um jogo entre o fora e o dentro, a exclusão e a inclusão, que está sempre em perspectiva. O que se percebe, nesse sentido, é que a narrativa vai se adensando e um enigma precisa ser decifrado pelo personagem e também pelo leitor. Ambos se veem diante de um labirinto, com suas ruas e ruelas, falsas entradas e ilusórias saídas – tudo muito bem arquitetado para fazer perder tanto um quanto outro.

Decifrar ou ser devorado parece ser o que, irremediavelmente, impele o protagonista, “o estranho que se estranha”, para o que seria a sua busca pela verdade, pela resolução do que a ele, e ao leitor, se impõe como um problema, real ou psicológico. Inquérito e investigação, em construções análogas as de Edgar Alan Poe, inclusive com a concepção do amigo Assis Beiras, à moda de um Conan Doyle com o célebre parceiro de Sherlock Holmes, faz do personagem um Dr. Watson tropical e apontam para a narrativa de enigma que está sendo ali tramada.

Escavando e recordando, como queria Walter Benjamin, as referências à narrativa de enigma e de investigação policial não são gratuitas. Torna-se, assim, o narrador o investigador de si mesmo, de suas origens, e o leitor o seu cúmplice.

O que o personagem do romance Adam Mondale deseja em sua tentativa de desvendar um passado ancestral judaico e, é preciso dizer, coletivo? Desentranhar-se ou ali se inscrever, de forma singular? A sua busca de uma imagem da sepultura de Adão, o homem primordial, não é banal ou retórica, mas se dá a partir de leituras e releituras, de livros, de imagens, de tradições que vão desarmando interpretações cristalizadas e armando outras, mais precárias, porém sutis. Nesse sentido, o romance trata de coisas desaparecidas, ou soterradas, e das inexistentes, ou imaginárias.

A referência a um código pictórico, como “O Jardim das delícias terrenas”, 1503–1515, de Hieronymus Bosch, por exemplo, e fotográfico, como o negativo da Polaroide encontrado e seu correspondente holograma, são explorados no uso de um vocabulário ambíguo, deve ser tomado em vários sentidos. Desse modo, revelação, iluminação ou negativo são termos que podem ser levados às últimas consequências interpretativas. Assim, a fotografia, que poderia ser uma prova de realidade, e a busca que o narrador realiza, são postas em xeque, fazendo surgir sombras e delírios, criando dúvidas e minando as certezas totalitárias, inclusive do saber que está sendo disseminado. Tudo muito bem entretecido com reflexões pungentes sobre a escrita e os dilemas de um escritor na contemporaneidade.

Quase como um místico à deriva, ou um voyeur, numa irônica condição de sofrer de uma doença nos olhos, cuja “córnea é riscada”, prejudicando-lhe a visão perfeita, destaca-se o caráter de colecionador de câmeras e filmes antigos (marcando o que seria a modernidade em ruínas) e as múltiplas facetas do personagem como professor, psicólogo, fotógrafo e detetive (buscando apreender a fugidia condição do escritor pós-moderno). O texto aponta para o que, em certa medida, Ricardo Piglia afirmou sobre a escrita atual: o gênero policial, em todos os seus desdobramentos, é o grande gênero moderno que inunda o mundo contemporâneo. “Narra-se uma viagem ou um crime. Que outra coisa se pode narrar?”. Às vezes, as duas coisas, é preciso ressaltar. Sob essa dupla sentença, Piglia parece refletir sobre as estratégias de construção textual presentes no romance de Rosenbaum. Sobreposta à viagem a Israel, e, em Israel, a viagem a Hebron, além da busca pela imagem da fotografia que desvelaria o segredo, a metáfora da arqueologia traduz, de forma contundente, a investigação que o protagonista realiza de si e do outro, espelhando, com requinte, a estrutura narrativa do romance.

A partir de um negativo fotográfico encontrado na Caverna dos Patriarcas, a Gruta de Macpelá, o narrador sai a campo em investigação e leva com ele o leitor. O complexo, localizado na antiga cidade de Hebron, depois do Monte do Templo, é o segundo local mais sagrado para os judeus e venerado, também, por cristãos e muçulmanos. Todos esses fiéis, com algumas variações, afirmam que é o lugar onde foram enterrados os quatro casais bíblicos, daí o nome “Macpelá” ser uma referência à câmara de sepultamento de Adão e Eva; Abraão e Sara; Isaque e Rebeca, Jacó e Lea.

Também as cidades de Rosenbaum, tal qual as de Cidades invisíveis, de Calvino, aparecem especulares, refletidas, em dupla exposição, sendo atravessadas pelo narrador, com seu olhar avariado, diluindo as fronteiras, fazendo com que os limites sejam intercambiáveis. Jerusalém e Hebron prefigurariam, assim, espaços sagrados e profanos, espelhamentos de textos que são desfolhados ou revelados em suas entranhas a partir de referências ao campo semântico da fotografia, da arqueologia e da narrativa de enigma.

O passado, as ruínas, os restos mortais são iluminados pela escrita e pela investigação, como uma prova, no tempo presente, de algo que só chega a ser minimamente delineado. —“Prova? Você agora está escavando?”, pergunta a esposa de Adam. —“Estamos pesquisando”, ele responde. Destaco, nessa citação, que a pergunta se apresenta no singular, mas a resposta, apesar de só poder ser também nesse diapasão, porque não há, explicitamente, outra pessoa junto a Adam, acontece no plural. Essa configuração múltipla do personagem é dúbia e está explícita em suas muitas facetas, na complexa conformação de seus vários eus. Ou seja, esse personagem também se apresenta a partir de “camadas arqueológicas” da vida presente com as passadas, das relações conflituosas com a culturas e a tradição judaica, das angústias e influências de textos e imagens que percebeu, leu, escreveu ou fotografou.

Evidentemente que a ideia de duplo, presente desde o título do romance, tem, no nome do narrador, Adam, espelhando sua busca por Adão, e Macpelá, o nome da gruta que sugere o túmulo dos casais, além das cidades de Hebron e Jerusalém – com suas ruínas e reconstruções trazidas à luz, por escavações – na arqueologia, sua metáfora mais instigante. Sigmund Freud, por intermédio da comparação do passado de uma cidade com o passado psíquico, em O mal-estar na cultura, reflete sobre o que o leitor pode analogamente vislumbrar na busca de Adam em Céu subterrâneo. Em vez de Roma, a cidade que insurge e ressurge do passado é Hebron, fazendo falar, a um só tempo, as vozes da tradição – de um tempo imemorial e mítico, que parece estar soterrado no passado – com índices do moderno e da contemporaneidade, como a fotografia, a computação gráfica, o holograma.

Céu subterrâneo, em níveis e desníveis, em estratos, espelhamentos, conformações e deformações, anseia que o leitor o atravesse, pari passu com o narrador. A busca obsessiva de Adam “pelo negativo” de uma imagem que todos julgam perdida, no entanto, não é vã. O leitor deverá acompanhá-lo por cidades e grutas, da superfície para o interior, num espaço labiríntico. Sem esquecer, todavia, que escavar-se é, também, ferir-se, e que quanto mais profunda a incursão na memória ancestral, mais ele pode se elevar, para, na superfície, respirar e sobreviver.

ROSENBAUM, Paulo. Céu subterrâneo. São Paulo: Perspectiva, 2016. 254p.

[1] Professora de Literatura na Faculdade de Letras da UFMG.

 

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/uma-resenha-de-ceu-subterraneo-por-lyslei-nascimento-caderno-c-de-cultura-e-literatura-judaica/

 

O reino amarrotado (blog Estadão)
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Crônica, política e derivações

O reino amarrotado

Paulo Rosenbaum

12 Novembro 2016 | 12h00

 

O que fazer com povos que não sabem votar? É assim que os fóruns se saem ao deparar com resultados desagradáveis que recusam as previsões. Se for mesmo preciso, troque-se o povo, mantenha-se o governo. Os consensos destes pequenos e poderosos comitês tem repulsa por resultados desfavoráveis ao prognostico. Trata-se de uma clínica peculiar, ninguém mais precisa consultar o enfermo. Basta sair de uma reunião com rumores e deita-los na mesa do chefe da redação. Escrevi faz algumas semanas que a polícia definiria as eleições. Influenciou, mas não foi decisiva.

A democracia serve desde que aqueles que escolhem sigam a trilha exigida pelos que se acostumaram a pensar por todos. A intelligentsia nos proporciona essas e outras benemerências por dó de nossa inconsistência, por compassividade com nossas lacunas intelectuais e penalizada com a ignorância popular que ainda não captou o valor do sacrifício. No dossiê fica claro, a falta de erudição da classe média foi a grande responsável por “franjas de rancorosos” e “bolsões de intolerantes” que não entendem o significado das próprias decisões. Esta elite acadêmica merece respeito pois poupa-nos do desconforto das escolhas que teríamos imensas dificuldade em fazer. Estes facilitadores do voto evidente de bom grado aceitam uma peculiar diversidade: a multiplicidade homogênea de opiniões. Em resumo, não tem tanta certeza de que todos estejamos preparados para a democracia.

Formadores de opinião são todos sócios nesta matéria. A credibilidade dos consultores políticos, cientistas sociais e institutos de pesquisa que analisaram as últimas eleições só não está arrasada porque os critérios para avalia-la evaporaram junto. Uma fumaça incomoda. O vapor penetrou no desejo de escolher pelos outros. Bom mesmo seria a ditadura dos corpos docentes. O wishful thinking que vem ocupando as cátedras. Suas expertises fariam toda a diferença se ao menos tivessem o aval para instalar o cabresto, leve, prático, não incomodaria e  seria descartável.  Mínimo, poderia ser levado até a boca da urna para depois ser descartado em algum beco sem saída. Seria, inclusive, biodegradável.

Decerto que os populistas estão em alta e a vida culta deveria zelar por práticas políticas mais civilizadas. Mas para os titulares da sabedoria, há coisas mais importantes em jogo como, por exemplo, preservar o status quo. Para isso, seria vital convencer todos — sempre se pode recorrer às  campanhas publicitárias com financiamento público — de que o establishment nunca esteve tão saudável. De que está tudo sob controle. É preciso reforçar a tese de que só há um lado enfermo, o resto está nas mãos da neurose, ou dos liberais, tanto faz.

Não foram só analistas, nem cientistas políticos ou a mídia: todos os critérios e instrumentos de predição ficaram em estado de animação suspensa. Isso significa que a escolha num pleito democrático deve prever a histeria da surpresa. E no manual, a saída de emergência está no primeiro parágrafo: “1- Em caso de derrota criar o clima da presunção catastrofista”. A adoção de 1 “repara o terreno” e ajuda a disseminar o item 2:  Afirmar veemente e persistentemente: “nós não dissemos?”.

Mas os dados de solo indicam que a aversão ao populista anti estético explicita como nunca a seletividade intelectual. A análise descarta a realidade e foge com a fabulação daqueles que monopolizaram o bem pensar. Não houve um só que previsse que as escolhas se afunilariam até o drama. Foi então que, num tardo reflexo, perceberam que para negar a trombeta seria necessário santificar o establishment.

Sempre funcionou, mas eis que a velha formula vem perdendo vinco. Que venha o reino amarrotado.

O reino amarrotado