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Um aiatolá nuclear em SP (blog Estadão)

Eis que um evento patrocinado pelo Pt e associados na figura melancólica do vereador, o veterano Matarazo Suplicy, traz como estrela um aiatolá nuclear iraniano. Já soaria peculiar que um País que depara com uma crise político financeira monstruosa tenha tempo e recursos — públicos e privados — para subsidiar um membro da elite teocrática do Irã. As redes sociais — e os detratores profissionais — usaram a presença da guarda cerimonial paulista para insinuar que havia o apoio do governo paulista ao evento. Quem solicitou a guarda e tratamento de chefe de Estado ao aiatolá foi o vereador supra citado.

E como se não bastasse usando o know how da antiga URSS, instalaram uma foto de discurso de posse do governador com o mesmo guarda do cerimonial para emular sua participação no evento. O lulopetismo e radicais de porta de facebook, aproveitando a maquiagem de desavisados espalhou a notícia criando, como é rotina, um falso alarme de péssima qualidade jornalística.

Mas a suprema ironia foi ter por aqui um amigo da organização terrorista Hezbollah que veio supostamente falar — notem, falar, não debater — sobre “radicalismo e terrorismo”. Ora, seria compreensível se não desafiasse a lógica mais elementar. O senhor em questão concedeu uma entrevista a um jornalista do Estadão onde evoca com grande naturalidade que as profecias (sic) já anteciparam que o Estado de Israel deve desaparecer, não uma, mas duas vezes. Compreende-se até o wishful thinking de um regime proto -terrorista que não se preocupa mais em disfarçar que sua aspiração nuclear pacífica convive com o sonho de erradicar o Estado judaico da Terra. Tergiversando, e sem entrar no mérito de porque seu País tem instigado e financiado sistematicamente milícias e organizações do terror pelo mundo, o aitolá prudentemente também se calou sobre as perseguições políticas e religiosas que ocorrem como rotina na República Islâmica. Nem mencionou, tampouco, a violação sistemática dos direitos humanos contras as minorias e as mulheres em sua terra natal. Mas foi pródigo em fazer acusações vagas e pouco consistentes contra seus inimigos “satânicos”. Em franca beatitude, este santo homem mostrou em poucas palavras o significado profundo da tolerância.

O verdadeiramente incompreensível, neste caso, é a ausência absoluta de percepção de autoridades dos três níveis em aceitar um evento grotesco, onde um apoiador ideológico confesso da estratégia terrorista venha fazer — a titulo de colaborar com a promoção da paz e da tolerância entre os povos — uma palestra sobre o tema.

As disparidades não se restringem às incoerências auto-evidentes, mas à falta de autocrítica associada a uma passividade patológica, que parece estar caracterizando nossa opinião publica. O status quo desta alienação inconsequente tem permitido que cenas perturbadoras tenham lugar como se fossem eventos normais. A naturalização do esdrúxulo parece estar sendo a tônica deste nosso momento histórico. Se, de um lado, um ex presidente e sua parafernália assalariada com dinheiro publico desviado desafiam abertamente as instituições sem que as mesmas deem uma resposta adequada, de outro, reproduzimos os mais tristes estereótipos da República.

As instituições podem estar funcionando, mas muitos aquém da eficácia exigida num momento dramático como o que vivemos. Um núcleo suprapartidário e não ideológico precisa retomar com urgência as rédeas da política exterior brasileira que tem seguido — numa perigosa continuidade inercial — as diretrizes da desastrosa política externa preconizadas pelas últimas gestões. É preciso esclarecer quem participou do evento, quem o sustentou e qual o propósito de uma visita que ilustra mais um capítulo de nossa República anômica.

Infelizmente esta mentalidade deturpada já contaminou boa parte de nosso mundo acadêmico e de instituições culturais com uma percepção mais do que tendenciosa sobre um conflito do qual eles não têm a menor base para julgar.  Suas análises não consideram os motivos essenciais que definiram a situação vigente no Oriente Médio, notadamente em Israel e na Palestina.

Escrito em parceria com Floriano Pesaro, Deputado Federal (PSDB- SP) e Secretario do Desenvolvimento Social do Governo do Estado de São Paulo

Viver a Remo (blog Estadão)

Crédito foto – Sergio Prieto (que com sua equipe Samu – hexacampeã brasileira e vice campeã mundial categoria sprint RIO 2014)

Onze kilometros, remando. Remar é sobre-impulsionar, deslocar-se em ritmo, selecionar aguas e intuir a derrota final da inércia. Os remos transformam a percepção do tempo, revelam a variedade das pás instintivas, e, num momento, eles já se tornaram os únicos instrumentos disponíveis para alterar toda direção. Desviar a rota é mover-se em lemes improvisados. Em seis com ou doze sem, uma canoa é desafio para flutuadores. A embarcação que nos move numa adaptação vigorosa e imprecisa. O destino está bem ali para nos dissolver a resistência.  Cada margem é a ultrapassagem do que deixamos para trás. Quem rema sabe que o sinal da eficácia está no movimentos dos corpos, na equipe que vaga junta. Colaboração autonômica e instintiva. Um time vertebral que age como organismo. Sem o conjunto nada seria assim. A marcha, regida como orquestra cadencia a alternância das águas, mini marés, propulsões seguidas de relaxamento. A progressão deixa seu rastro fantasma na superfície. Um fio dissipável. Fibras exatas de carbono se alternam com remadas precisas com madeiras empunhadas. Se o pulso é individual, o pulsar, pertence ao grupo. O reino dos deslocamentos é um império de ondas passadas. De ultrapassagens simbólicas e emparelhamentos sem cronômetros. Quanto aos corações, é a união de bombas ativas que constroem fins comum. O treino sob o sol desrepresa a represa.  Torna-a uma só continuidade com a cidade ao fundo. A liberdade é um atributo indistinguível, só reconhecida sob o peso dos céus abertos e dos espaços sem fronteiras e delimitações. A canoa, uma arca de sobreviventes, deslizou sobre o terreno e a instabilidade fez seu serviço. Contra o estado estável, o universo poderia ser dividido entre as atividades que rivalizam com o mundo e aquelas que o complementam sem grandes pretensões.

Se houvesse uma síntese, a experiência com a canoa viria, unida a todas as embarcações — aquáticas terrestres e áreas — seria nos devolver à esperança de viver sob a natureza em espaços abertos. Remando.

Um Aiatolá nuclear em SP (blog Estadão)

Eis que um evento patrocinado pelo Pt e associados na figura melancólica do vereador, o veterano Matarazo Suplicy, traz como estrela um aiatolá nuclear iraniano. Já soaria peculiar que um País que depara com uma crise político financeira monstruosa tenha tempo e recursos — públicos e privados — para subsidiar um membro da elite teocrática do Irã. As redes sociais — e os detratores profissionais — usaram a presença da guarda cerimonial paulista para insinuar que havia o apoio do governo paulista ao evento. Quem solicitou a guarda e tratamento de chefe de Estado ao aiatolá foi o vereador supra citado.

E como se não bastasse usando o know how da antiga URSS, instalaram uma foto de discurso de posse do governador com o mesmo guarda do cerimonial para emular sua participação no evento. O lulopetismo e radicais de porta de facebook, aproveitando a maquiagem de desavisados espalhou a notícia criando, como é rotina, um falso alarme de péssima qualidade jornalística.

Mas a suprema ironia foi ter por aqui um amigo da organização terrorista Hezbollah que veio supostamente falar — notem, falar, não debater — sobre “radicalismo e terrorismo”. Ora, seria compreensível se não desafiasse a lógica mais elementar. O senhor em questão concedeu uma entrevista a um jornalista do Estadão onde evoca com grande naturalidade que as profecias (sic) já anteciparam que o Estado de Israel deve desaparecer, não uma, mas duas vezes. Compreende-se até o wishful thinking de um regime proto -terrorista que não se preocupa mais em disfarçar que sua aspiração nuclear pacífica convive com o sonho de erradicar o Estado judaico da Terra. Tergiversando, e sem entrar no mérito de porque seu País tem instigado e financiado sistematicamente milícias e organizações do terror pelo mundo, o aitolá prudentemente também se calou sobre as perseguições políticas e religiosas que ocorrem como rotina na República Islâmica. Nem mencionou, tampouco, a violação sistemática dos direitos humanos contras as minorias e as mulheres em sua terra natal. Mas foi pródigo em fazer acusações vagas e pouco consistentes contra seus inimigos “satânicos”. Em franca beatitude, este santo homem mostrou em poucas palavras o significado profundo da tolerância.

O verdadeiramente incompreensível, neste caso, é a ausência absoluta de percepção de autoridades dos três níveis em aceitar um evento grotesco, onde um apoiador ideológico confesso da estratégia terrorista venha fazer — a titulo de colaborar com a promoção da paz e da tolerância entre os povos — uma palestra sobre o tema.

As disparidades não se restringem às incoerências auto-evidentes, mas à falta de autocrítica associada a uma passividade patológica, que parece estar caracterizando nossa opinião publica. O status quo desta alienação inconsequente tem permitido que cenas perturbadoras tenham lugar como se fossem eventos normais. A naturalização do esdrúxulo parece estar sendo a tônica deste nosso momento histórico. Se, de um lado, um ex presidente e sua parafernália assalariada com dinheiro publico desviado desafiam abertamente as instituições sem que as mesmas deem uma resposta adequada, de outro, reproduzimos os mais tristes estereótipos da República.

As instituições podem estar funcionando, mas muitos aquém da eficácia exigida num momento dramático como o que vivemos. Um núcleo suprapartidário e não ideológico precisa retomar com urgência as rédeas da política exterior brasileira que tem seguido — numa perigosa continuidade inercial — as diretrizes da desastrosa política externa preconizadas pelas últimas gestões. É preciso esclarecer quem participou do evento, quem o sustentou e qual o propósito de uma visita que ilustra mais um capítulo de nossa República anômica.

Infelizmente esta mentalidade deturpada já contaminou boa parte de nosso mundo acadêmico e de instituições culturais com uma percepção mais do que tendenciosa sobre um conflito do qual eles não têm a menor base para julgar.  Suas análises não consideram os motivos essenciais que definiram a situação vigente no Oriente Médio, notadamente em Israel e na Palestina.

Escrito em parceria com Floriano Pesaro, Deputado Federal (PSDB- SP) e Secretario do Desenvolvimento Social do Governo do Estado de São Paulo

Redução de dano e homeostasia (analogias entre política e medicina) Blog Estadão

 

Redução de dano e homeostasia (analogias entre política e medicina) – http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/reducao-de-dano-e-homeostasia-analogias-entre-politica-e-medicina/

Redução de dano e homeostasia (analogias entre política e medicina)

Paulo Rosenbaum

24 Maio 2017 | 09h40

Ninguém sabe qual será o desfecho para mais um episódio de anomia institucional. No entanto existem aspectos clínico epidemiológicos que ajudam a compreender o processo político nativo e esta quadra maligna a qual hoje tentamos atravessar.

Um deles é o conceito de redução de dano. O viciado em heroína — uma droga elaborada a partir da resina das sementes da papoula e que provoca adição das mais cruéis e letais — não pode ser privado abruptamente de toda droga sob o risco de apresentar um quadro dramático conhecido como síndrome de abstinência. Pode levar o sujeito à euforia, depressão, sintomas graves, podendo até progredir ao colapso, distúrbios neurológicos, cárdio-circulatórios incluindo um não desprezível risco de morte.

O que se faz nestes casos? Tenta-se substituir a heroína por outra substância, a  metadona, Também um poderoso opiáceo, igualmente narcótica, porém com repercussões clinicas muito menos graves e que permite, em alguns casos, manejar a situação por algum período. Quando bem sucedido, será possível retirar gradativamente ou diminuir de forma significativa a droga.

Antes de julgar e apenar este texto como maniqueísta ou pró partidário, a leitura atenta deve provar exatamente o contrário. Trata-se de fria análise diante de um quadro clínico grave onde toda decisão será difícil e até mesmo constrangedora, pois se trata, não mais das facilidades binárias de escolher entre o bom e o ruim, mas distinguir entre o mal e o péssimo.

Pois bem, o atual governo equivaleria à metadona em inicio de tratamento, enquanto a administração lulo-petista atuava e vem atuando de modo similar à heroína, e caso persistisse, mataria o paciente por overdose.

Isso precisaria ser amplamente compreendido pelos promotores e juízes sob pena de condenar o paciente, a nossa “Republica Federativa” à morte ou a uma prisão perpétua à revelia.

Outro conceito médico pertinente aqueles que querem sabotar as garantias constitucionais para fazer justiça é o aforismo herdado do hipocratismo “primun non nocere” cuja tradução seria “em primeiro lugar, não causar dano”, provavelmente ignorados pela procuradoria. Ainda outro aspecto clínico que os doutores em questão desconhecem é que nem sempre deve-se buscar a máxima imunidade, as patologias autoimunes estão aí para demonstrar isto, já que “máxima” pode significar desregular pelo excesso. Não tenhamos ilusões, o Estado clinico da República é de máxima gravidade, de UTI mesmo, e seja lá qual for o entorpecente, estamos todos intoxicados com as imagens, áudios maquiados e o exercício de uma hermenêutica de qualidade duvidosa, mazelas às quais estamos sendo impiedosamente expostos. Merecemos ou não algum tipo de salário adicional de insalubridade?

Pode-se recorrer à medicina mais uma vez para construir outra analogia. A homeostase é um fenômeno  clínico   insinuado pelo fundador da homeopatia Samuel Hahnemann, comprovado pelo pai da medicina  experimental Claude Bernard ,e finalmente desenvolvido como tese pelo médico norte americano Walter Cannon, o qual cunhou o termo que em conjunto com suas pesquisas lhe rendeu um premio Nobel de medicina. Este fenômeno se presta a explicar as condições estáveis que o organismo precisa ter para conseguir manter o equilíbrio das funções corporais. Ele é quase equivalente à saúde e seus mecanismos adaptativos que executam muitas diante de um meio altamente instável, uma admirável atividade com a finalidade de preservar a harmonia entre aparelhos e sistemas orgânicos.

Isso significa que, mesmo num momento de alta turbulência, a sociedade também pode ser comparável aos sistemas orgânicos e deve encontrará meios de reagir/adaptar-se às turbulências naturais (moléstias e epidemias)  ou artificiais (armadilhas frutos de messianismo jurídico) . Os mecanismos de defesa podem sobrevir através de crises febris, eliminações violentas, sintomas agudos ou insidiosos. Alguns sintomas amedrontam, mas eles significam resposta, vale dizer, que o paciente está imunologicamente hígido e em plena mobilização das forças da sua vitalidade.  Mesmo assim, pode não ser suficiente, ele pode precisar de novo impulso para sair do estado defensivo e enfrentar aqueles agentes agressores, ou no caso da nossa analogia  pessoas ou partidos que desrespeitem a constituição. Como sempre, existem os piores que — aqueles que por exemplo sequer a assinaram — como é o caso do governo anterior e de seus partidos terceirizados.

Sem conseguir a estabilidade homeostasica, o prognóstico é mais ou menos previsível, desceremos a um quadro séptico generalizado, a tal infecção sistêmica.

Ninguém é ingênuo o suficiente para atribuir a vastidão da crise como responsabilidade única de Lula, PT e seus apoiadores, mas é evidente que, sob o discurso ideológico populista estes ativamente fermentaram o imbróglio, para que a massa danosa crescesse de forma descontrolada. Para, enfim, criar um banquete corrupto de proporções épicas, talvez sem parâmetros comparativos com outros escândalos da história política-policial mundial. Cálculos grosseiros indicam mais dinheiro desviado do povo brasileiro nos últimos 13 anos do que aquele empregado, por exemplo, no plano Marshall para reconstrução da Europa no pós  guerra.

Ninguém está mais digerindo o ativismo jurídico ou a lentidão voluntária com que os impasses estão sendo cozidos no vapor do caos. Antes que o grande vomito jorre até a boca e a anomia torne-se a política oficial, seria desejável costurar uma união cívica também sem precedentes. Agora é chegada a hora da legitima defesa e o único consenso possível que resta em nossa débil resistência é encurralar aqueles (incluindo instituições aparelhadas) que dominaram o Estado para desmonta-lo. Ou será melhor esperar a incineração sentados?

Resenha de “Céu Subterrâneo” no Jornal da USP
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Home > Cultura > Busca por identidade e fuga do anonimato são temas de romance

Busca por identidade e fuga do anonimato são temas de romance

“Céu Subterrâneo”, de Paulo Rosenbaum, retrata a angústia existencial de um professor universitário aposentado compulsoriamente

Por – Editorias: Cultura
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Paulo Rosenbaum - Foto: Cecília Bastos/USP Imagens
Paulo Rosenbaum, autor de Céu Subterrâneo – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

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Desde a Antiguidade, o homem se questiona sobre sua origem, seu propósito e sua vocação. A angústia dessas dúvidas sufoca aqueles que aspiram a ser lembrados pela história, mas estão à mercê da trivialidade. Adam Mondale, protagonista do romance Céu Subterrâneo, segunda obra do médico Paulo Rosenbaum, começa a se incomodar com essa angustiante possibilidade após se aposentar compulsoriamente da vida acadêmica.

Depois de dedicar sua carreira ao estudo do comportamento de animais e ter exercido o cargo de diretor do Instituto de Psicologia (IP) da USP, a personagem fictícia se vê fadada ao esquecimento, à mediocridade do anonimato. Superficialmente impulsionado pela ambição, Mondale decide dar uma reviravolta em sua vida e garantir seu lugar ao sol.

Ao encontrar um misterioso e danificado negativo de polaroide em sua viagem a Israel, o acadêmico judeu acredita que seu achado pode ressignificar a história da humanidade que conhecemos. A imagem fracamente projetada pelo negativo mostra uma gruta intocada, com escritos em diferentes línguas e um pé muito maior do que o de qualquer outro hominídeo.

Além da aventura arqueológica, ao longo dos capítulos Rosenbaum apresenta ao leitor flashbacks de Mondale que revelaram que suas questões superam a mera vaidade. “No fundo, a busca é por identidade”, diz Rosenbaum. “Mondale é um professor que viveu a vida inteira para a Universidade e perdeu isso. O que que ele vai fazer agora? O que ele vai buscar? Por ser judeu, ainda que laico, ele vai atrás de suas tradições. Ele vai buscar aquilo com que ele possa se identificar. Esse é o motor dele, aquilo que move o sujeito no mundo.”

Processo criativo

Para produzir seu segundo romance, Rosenbaum viajou até Israel com o apoio de uma bolsa literária cedida pela Fundação Mamash. No país, o autor se hospedou na cidade de Hebrom, especialmente marcada pelo conflito israelo-palestino pelo controle do Túmulo dos Patriarcas, onde estariam enterrados os casais Adão e Eva, Abraão e Sara, Isaac e Rita e Jacó e Lia.
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Paulo Rosenbaum - Foto: Cecília Bastos/USP Imagens
Paulo Rosenbaum conversou com grandes nomes da literatura israelense – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

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Por muitos séculos, o túmulo esteve sob poder dos árabes. Somente após a Guerra dos Seis Dias, em 1967, os judeus retomaram o controle sobre o território. Na época, foi realizada uma missão arqueológica israelense à região, que inspirou a trama do romance: a fim de desvendar o que havia na gruta do túmulo, uma garota de 12 anos, filha de um dos militares que coordenava a escavação, adentrou a caverna milenar por um buraco estreito, pelo qual mais ninguém conseguiria passar. A menina reportou aos militares e cientistas o que encontrara, mas a missão foi abafada pelos governantes para evitar confrontos ideológicos acerca da “invasão” aos túmulos sagrados. A partir dessa história, Rosenbaum criou o enredo da polaroide, que seria um vestígio dos fantásticos e intocáveis segredos que a garota vira.

Durante a viagem, o autor também teve a oportunidade de conversar com grandes nomes da literatura israelense, como Amos Oz e Amalia Kahana-Carmon. Trechos das entrevistas estão diluídos na ficção, que revela ao leitor traços da personalidade de cada escritor e suas relações ímpares com o fazer literário.

Foto: Reprodução
O novo livro de Rosenbaum – Foto: Reprodução

Além dos contatos privilegiados, Rosenbaum também se aproximou do cotidiano popular de Hebrom. “Quis ficar num lugar central, perto dos mercados, onde está a vida do povo. Não queria uma vida turística”, explica. “É ali que você acha o modo prático de como as pessoas vivem e se relacionam. Não na universidade, no meio político ou no Exército. É no meio das relações interpessoais que você encontra a verdade de um povo. Foi o que eu tentei captar. O grande desafio é transformar isso em algo literário.”

Sobre o autor

Céu Subterrâneo (Perspectiva, 2016) é o segundo romance de Paulo Rosenbaum, médico que há décadas concilia os consultórios com a veia literária. Seu romance de estreia foi A Verdade Lançada ao Solo (Record, 2010). Antes disso, aos 20 anos, publicou seu primeiro livro, Impreciso Emigrar, uma coletânea de poesias editada por Massao Ohno, em 1979. Nessa época, estudava Filosofia, curso que não chegou a concluir por trocar pela Medicina.

Fez mestrado, doutorado e pós-doutorado na Faculdade de Medicina (FM) da USP e publicou 12 livros nas áreas de medicina preventiva e epistemologia da medicina.

Céu Subterrâneo, de Paulo Rosenbaum, Editora Perspectiva, 254 páginas, R$ 49,00.

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