O tão aspirado”nunca mais” (Blog Estadão)

Tags

, , , , , , , ,

 

Já que podemos evocar a memória de acordo com nosso desejo, preferimos dispensar as tragédias, a morte e a destruição. Segundo os biólogos evolucionistas trata-se de uma adaptação. Não suportaríamos ter que conviver com o amontoado de frustrações, negativas, impedimentos, injustiças, o mal feito, o espúrio, o inacabado, a imperfeição, o desprezo, as circunstâncias constrangedoras, os desvios, a insuficiência, as urdiduras da perfídia, o triunfo da malignidade. Mas, e se um pouco de dor, de luto e de sofrimento funcionasse como um antídoto para toda essa mania?  E se conseguissemos nos colocar, no sentido de transferencia absoluta, no lugar do outro? E se ficássemos entregues — que seja uma vez ao ano — à memória dos mal sucedidos, dos perdedores, dos sofredores, da silente agonia dos sem voz, dos invisíveis?

Apontar e erigir monumentos às vitimas do mal feito é uma forma de fixar o insuportável em nossa tendencia à negação.

Um regime político pode exterminar de muitas formas, a mais eficaz contudo — e a história prova a tese — é através do populismo e do culto à personalidade. Exemplo atual é o perfil daqueles que nos prometeram justiça, igualdade de oportunidades e bem estar e, em apenas 13 anos, nos entregaram o País falido. Uma deseleição ocorre quando há mais deméritos no regime viciado do que méritos no rival. Foi apenas um espasmo de legítima defesa em meio à inércia, à falta de articulação, à inexistencia de oposição, e hoje, perplexos, nem nos perguntamos mais o que pensar daqueles que persistiriam no erro. Hoje representados por quem torce e milita contra. Evidentemente, para além da habitual desonestidade intelectual, trata-se de histeria anti-republicana, sobretudo guiada pelo velho e cansativo ranço ideológico.

O dia H é o dia da memória das vítimas do holocausto, mas poderia ser expandido para outras vítimas, igualmente criminosas, como as pessoas incineradas na Boite Kiss, nos arrastados em Mariana, em Brumadinho, em Teresópolis, em Angra, nas demais encostas abandonadas do Brasil, nos viadutos que despencam, nas passarelas precárias, nos trilhões sepultados em obras inexistentes. E, também, de todos os extermínios pequenos, médios ou grandes. Aqueles que confiam no Estado todo protetor ainda não sabem que há, bem aqui entre nós uma loucura muito particular: ela impede a compreensão do valor da vida. Nesta insanidade obnubiladora movida à matéria e arrogância está o germe do terror.

Não é só do terrorista comum, estes inimigos da humanidade, que preferem que a causa preceda a sobrevivência e o bem estar. Mas também, e principalmente, o usurpador, aquele que amadurece no trono e não quer mais larga-lo, dos tiranos que se escondem sob slogans e verbetes de ocasião. Se há culpa? Sim acumulada. Sim retida nos decretos. De vários partidos e instituições. Nos alvarás. Nas leis. Exato, assim como as leis raciais de Nuremberg, as vezes o crime tem chancela oficial, é do Governo que passa a usurpar o Estado.

Na Alemanha nacional socialista também foi assim. As legiões que acreditam em correntes ideológicas acima do pensar, da direita à esquerda, ainda existem. Geralmente são aqueles que prometem resgatar nações e promovem genocídios. Contam com o descaso, acreditam na amnésia induzida. Essa  é a estratégia que recriou o vergonhoso e pandemico antissemitismo de nossos dias. Apoiam-se no esquecimento e na prescrição. Sabem que a qualquer momento podem queimar livros, perseguir minorias, mas especialmente imaginam que o sufragio lhes da o direito de pulverizar a memória.  Em suas agendas já está registrado: “as manchetes se calam em três semanas”.  Mal sabem que a memória contém um compartimento secreto. A “segunda mente” na definição de Charcot. E ela é surpreendente, capaz de desaguar seu manancial quando menos se espera.

Freud em seu polêmico livro “Moisés e o Monoteísmo” conta que o que mais o impressionou no povo judeu era uma espécie de persistência quase irracional diante das adversidades. Cita o famoso caso de um dos sábios talmúdicos. Enquanto o Templo de Jerusalém ardia em chamas incinerado pelo exército romano, e quase um milhão de vidas haviam sido ceifadas pela espada, foi ter com o temível governador geral da Judeia que sonhava exterminar os judeus e fundar Aelia Capitolina. Vários tentaram dissuadi-lo da empreitada que poderia lhe custar  a vida. Inútil. Ele seguiu e foi para até o tirano pedir autorização para transferir seus estudos para um outro local. Ora, por que? Perguntava-se o intrigado médico. Seguir adiante. Alguns chamam de pragmatismo. Outros classificariam de estoicismo patológico. Porém, ao fim e ao cabo, poderia apenas simbolizar um apesar de tudo, apesar de todos: escolhe-se vida.

Pois esse espírito afirma que a humanidade pode seguir até um lugar onde cada um poderá ter tempo para se estudar, para sempre.

Quiça assim, e só assim, o tão aspirado “nunca mais” superará o mito do eterno retorno.

Despertar para a noite (Blog Estadao)

Tags

, ,

https://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/despertar-para-a-noite/

No recém lançado livro “Despertar para a noite e outros ensaios” (Quixote-Do, Belo Horizonte, 2018, 178p.) Lyslei Nascimento faz uma abordagem multifacetada sobre a Shoah (extermínio de judeus pelo regime nacional socialista alemão, também conhecido pelo nome Holocausto) e, ao mesmo tempo, lança um facho de esclarecimento sobre o retorno (ou o fim de uma curta hibernação?) do antissemitismo.  Nas palavras do prefaciador, Wander Melo Miranda, “na forma de vestígios, rastros ou resíduos, a reminiscência se constitui no intervalo entre  o não contar para esquecer e o narrar para sobreviver”.

Ao analisar livros e filmes, Nascimento atravessa um vertiginoso painel de autores e cenas que não só impressionam pela amplitude e erudição, mas por trazer à vida uma literatura não solicitada. Isto é, a apresentação cultural, das vozes não audíveis, as escassas, aquelas ainda — e para sempre — indizíveis, que – numa era na qual, erroneamente, considerava-se sepultado o espectro de intolerância étnico-racial –  não encontram mais lugar para testemunhar. Como afirma a ensaísta no capítulo em que evoca dois poetas brasileiros que se ocuparam do tema da Shoah, Vinicius de Moraes e Jorge Amado:

“A imperiosa necessidade de se revisitar o episódio da Shoah, delinea-se, para o escritor e para o leitor, como um empreedimento impossível de ser apreendido e contornado, mas nunca soterrado”.

Isso significa que a escavação se processa em camadas e , assim como o arqueólogo, autor e leitor recolhem, por intermédio do paradigma indiciário daquele que foi um dos mais abomináveis eventos, para, enfim reconstituir aquilo que Carlo Ginzburg chamou de “micro-história”.

Ela prossegue: “Cercar o fato histórico em sua barbárie e contorná-lo pela palavra ou pela arte, costurando textos e registros infames, é sobretudo, lançar-se numa tarefa que, de antemão, já se anuncia como incompleta, residual, bárbara”.

Nascimento passeia com leveza e destreza no seu campo de análise que é o da  literatura comparada e consegue, por meio das muitas referências culturais e historiográficas, situar o leitor para além do campo da indignação pura e da perplexidade paralisante: nos faz pensar nos aspectos multifacetados da Shoah, investindo de um lado na “voz dos vencidos” e, de outro, situando a catástrofe no campo de uma fenomenologia ainda incompreensível.

Sem ceder ao obscurantismo e tal qual a metodologia das discussões talmúdicas, a autora se recusa ao reducionismo: não existe um “à guisa de uma conclusão”, nem mesmo uma insinuação de desfecho.  É que a extensão da terra devastada do que também já foi chamado de “o maior drama da história ocidental” e as repercussões transgeracionais do genocídio organizado pelos nazistas sempre impedirão qualquer síntese, e, provavelmente, obnubilarão a tentação da explicação única, cabal.

Um livro essencial, sólido, concebido e escrito em um período histórico no qual até a busca pela verdade tornou-se estéril e rarefeita.

Abaixo o Blog fez uma entrevista com a autora*:

Como te ocorreu a ideia deste conjunto de textos?

– A Shoah (Holocausto) é um tema caro aos Estudos Judaicos aos quais tenho me dedicado desde o início de minha carreira, nos idos de 1990, na UFMG. Na Literatura e nas Artes em geral, o tema é especialmente importante porque põe em xeque nossa capacidade de reagir em momentos em que o mal e a violência parecem obliterar o que há de humano em nós. Refletir sobre a arte em condições adversas como foi a Segunda Guerra Mundial sempre me estimulou à pesquisa, ao estudo e à reflexão. O livro Despertar para a noite e outros ensaios sobre a Shoah apresenta, assim, a seleção de algumas de minhas reflexões sobre esse tema.

Há muito material relacionado aos registros da Shoah, qual foi o critério para fazer esta seleção?

– A Shoah, apesar do vasto e importante material produzido pela história, pelo cinema, pela literatura e artes em geral, ainda sofre reveses de discursos revisionistas e negacionistas. No mundo e, infelizmente, também no Brasil. Nesse sentido, o critério para a seleção desses ensaios foi, basicamente, estudar alguns escritores e artistas que, à contrapelo dessa tentativa de esquecimento e de soterramento contemporâneos, produzem suas obras como alertas à valorização e ao respeito à vida.

Muito interessante e oportuno o resgate feito por Vinicius e Jorge Amado, qual foi sua primeira impressão? Por outro lado, há uma certa escassez de registros fílmicos sobre o Holocausto produzidos no Brasil, concorda? Ao que atribui essa escassez?  

Há muitos artistas brasileiros não judeus que contribuíram não só com ações, mas com um olhar lúcido sobre a Shoah a partir da arte. Tanto Amado quanto Vinícius, nas imagens da Judia de Varsóvia e dos mortos no campo de concentração, empreendem uma reação a certo silêncio de artistas e intelectuais, naquele período, por intermédio da força expressiva da palavra poética. Nenhum dos dois textos é passivo, omisso ou produz um elogio do soterramento e do esquecimento. As metáforas utilizadas por esses poetas brasileiros são terríveis, porém, elas revelam a necessidade de, mais do que um fantasma ou de um esqueleto, termos, sempre, diante de nós, que nossa capacidade de indignar-se diante da violência deve ser um aprendizado e uma tarefa contínuos do humano. Há textos fundamentais de Carlos Drummond de Andrade e Guimarães Rosa (ambos com atuação política importante no período), Hilda Hilst, Maria José de Queiroz, só para citar alguns escritores, que esperam que os leitores e pesquisadores os visitem em nossos tempos sombrios. Minha intenção, assim, foi trazer aos leitores dos grandes romances de Jorge Amado e aos admiradores das canções de Vinicius de Moraes, uma face esplêndida ainda a se descobrir desses autores. Sobre os filmes, eu diria que o impacto da Shoah sobre os nossos realizadores ainda está por acontecer. Há inúmeras e inspiradoras histórias a serem contadas, principalmente, a dos sobreviventes e dos refugiados que vieram para o Brasil.

O que descobriu de interessante na relação entre ciganos e judeus (filme Trem da vida, de Radu Mihaileanu). A questão do humor na Shoah merece cuidados extras ou como você escreve “não é fácil fazer humor muito menos com a catástrofe”.

– Ciganos, judeus, homossexuais, adversários políticos e outras tantas vítimas do Nazismo foram massacrados por um regime totalitário que intentava abolir diferenças como uma política violenta de Estado. No caso dos ciganos, a maioria ágrafos, o drama histórico é especialmente grave. O recurso à memória dá-se, muitas vezes, pela escrita. Assim, a valorização das histórias de vida, da oralidade e do posterior registro desses relatos é de suma importância. No filme de Mihaileanu, é revelador que os ciganos sejam aproximados aos judeus, tradicionalmente considerados “o povo do Livro”. Na Shoah, no entanto, ficou evidente a igualdade da condição humana, independente de quaisquer fatores culturais ou religiosos. No filme, a música e a dança ilumina essa igualdade e não é a diferença que se faz presente. Acredito que essa é lição de Mihaileanu para o nosso tempo: buscar as aproximações, não as divergências.

Qual o aspecto mais relevante e que destacaria na sua análise do romance de Richard Zimler Os anagramas de Varsóvia?

– De toda a produção ficcional contemporânea que tem a Shoah como tema, esse romance de Zimler é um dos mais instigantes. A trama policial marcada pela contingência da segregação, a experiência do gueto, põe o leitor diante da crueldade estampada na tortura, no assassinato sumário e na violação de todos os direitos do indivíduo, a série de crimes contra crianças dentro do gueto, reafirma a quase onipotência do mal e sua materialidade, no entanto, apesar de tudo, nesse espaço, pode surgir uma luz. No romance de Zimler, afirma-se que todos os templos são metáforas do corpo humano, logo, é o corpo que dá origem a um conceito de sagrado. O crime e o assassinato são, no romance, uma forma de desarranjar o mundo, retirar dele tudo o que haveria de sagrado. A ficção de Zimler é, nesse sentido, humanística, no desafio de se aproximar do limite dessa expressão.

 Por que, como escreveu David Grossman, os escritores que escrevem e escreverão sobre o Holocausto “estão de antemão fadados ao fracasso”?

– Talvez porque estejamos diante de uma violência tão inimaginável que a linguagem não consiga abarcá-la por completo. A partir desse ponto de vista, a situação-limite da Shoah é sombria. No entanto, não estamos num vazio, mas entre fragmentos, ruínas e cinzas, “coisas” em estado de dicionário, como queria Carlos Drummond de Andrade, que parecem trazer de longe, ou de não tão longe na história, “entre o ser e as coisas”, vozes que não podem ser apagadas. Talvez Grossman esteja dizendo ao leitor que o escritor torna-se, quando se trata da memória da Shoah, um razoável copista em meio a um mundo que não faz mais sentido se tomado em uma imaginária grandeza. Por isso, a aproximação entre poesia, narrativa e enciclopédia, em suas formas mais contemporâneas, parece por em xeque não só uma teoria da poesia pós-Auschwitz e a sentença adorniana que sobre ela recai, mas uma possibilidade de leveza, a da imagem do romancista que, como queria Italo Calvino, sobreleva o peso do mundo. Nesse sentido, mesmo sabendo que não conseguirá tudo, o escritor, o artista, e nós, os leitores, devemos ser incansáveis. O fracasso, portanto, em Grossman, é o nosso mote para a tarefa infinita de se estar atento ao mal e aos seus efeitos sobre a humanidade.

No caso de Moacyr Scliar e de suas repercussões sobre o microcosmos de um bairro de Porto Alegre: qual é o papel do regional na percepção da Catástrofe?

– A máxima atribuída a Leon Tolstoi de que quando se está falando da aldeia está-se falando do mundo pode ser aproximada a toda obra de Scliar. Quando o escritor constrói o bairro judaico do Bom Fim, no romance A Guerra no Bom Fim, muito das aldeias pintadas por Marc Chagall também estão ali evocadas. Então, o microcosmos, a “aldeia”, que é o bairro do Bom Fim, no Brasil, é um modelo literário em miniatura do que ocorre no mundo. Primorosamente, a Segunda Grande Guerra é o que emoldura o pequeno país do Bom Fim. Entremeados à notícias do front, os jogos de guerra encenados pelas crianças reproduzem, em escala menor, os desastres ocorridos na Europa. Scliar, nesse sentido, é um mestre da microficção que espelha e desloca, pela fantasia, a macro-história.

Seu texto que dá nome ao livro atravessa a obra de Primo Levi e Elie Wiesel e o pensamento de Walter Benjamin, especialmente, quando este grafou “nunca houve um Monumento da cultura que não tenha sido também um monumento da barbárie”. Então, qual seria o leitmotiv de um autor para narrar um fato histórico – sob a ficção ou fora dela – se ela sempre será “incompleta, residual e bárbara”?

– A necessidade de acordar para a “noite”, como sugere Wiesel, em A noite, é uma lição para os nossos tempos. Não é possível atravessar os dias como se estivéssemos num sono profundo. Há que se despertar, há que se sonhar, mas, de olhos abertos. Por força de valorizarmos, em extremo, a cultura, por vezes, esquecemos de nossa humanidade. Estar atento à barbárie do excesso de racionalidade também é um desafio. Não podemos nos esquecer que o Nazismo foi possível numa nação que produziu os mais sensacionais escritores, músicos e artistas de todos os tempos, a Alemanha. Equilibrar-se, portanto, entre o sono (o sonho) e a vigília é fundamental. Vivemos num tempo de monumentos estéreis, nesse sentido, os “pequenos relatos” que escapam à grandiloquência devem ser trazidos à luz, sem mistificações.

Após teu valioso levantamento historiográfico, depois de Auschwitz ainda existe espaço para a presença cotidiana da transcendência e da mística ou o mundo judaico ficou impregnado pelo ceticismo?

– Sempre haverá espaço para a poesia, para a ficção, para a arte. Disso depende a nossa sobrevivência. O ceticismo é, também, uma forma de ficcionalizar a própria incredulidade, não é? A transcendência vazia ou a mística que oblitera a razão, a meu ver, devem ser sempre questionadas. Sobre a presença judaica no mundo, gostaria de citar o Rabino Henry Sobel. Para ele, a missão do judeu não é tornar o mundo mais judaico, mas tornar o mundo mais humano.

https://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/despertar-para-a-noite/

===

*Lyslei Nascimento é doutora em Letras: Literatura Comparada pela Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG, onde é, atualmente, professora de Teoria da Literatura e Literatura Comparada, editora da Arquivo Maaravi: Revista Digital de Estudos Judaicos da UFMG e coordenadora do Núcleo de Estudos Judaicos da UFMG.

Medicina do Falante (Blog Estadão)

Paulo Rosenbaum

Subestimada pelas investigações epistemológicas, uma das questões centrais da medicina não tem sido objeto de um estudo essencial: no que a medicina é, por exemplo, distinta da ciência veterinária?

Quais as diferenças metodológicas de apreensão dos sintomas nas duas especialidades? E a terapêutica? De que forma as indústrias farmacêuticas investigam novas drogas? Qual é a metodologia aplicada para avaliar o efeito das substâncias medicinais nos homens e como compara-las aos testes clínicos conduzidos usando animais?

O velho argumento de que a diferença está na irracionalidade dos animais pode ser facilmente derrubada quando se vai até a origem desta informação. Por um erro de tradução a hipótese do filósofo Aristóteles de que o homem é um animal racional em contraposição aos “animais irracionais” foi mantida por mais de dois milênios.

Este filósofo grego, o primeiro a descrever em detalhes o aparelho fonético, escreveu, em sua obra Historia Animalum que os animais…

Ver o post original 2.165 mais palavras

Medicina do Falante (Blog Estadão)

Subestimada pelas investigações epistemológicas, uma das questões centrais da medicina não tem sido objeto de um estudo essencial: no que a medicina é, por exemplo, distinta da ciência veterinária?

Quais as diferenças metodológicas de apreensão dos sintomas nas duas especialidades? E a terapêutica? De que forma as indústrias farmacêuticas investigam novas drogas? Qual é a metodologia aplicada para avaliar o efeito das substâncias medicinais nos homens e como compara-las aos testes clínicos conduzidos usando animais?

O velho argumento de que a diferença está na irracionalidade dos animais pode ser facilmente derrubada quando se vai até a origem desta informação. Por um erro de tradução a hipótese do filósofo Aristóteles de que o homem é um animal racional em contraposição aos “animais irracionais” foi mantida por mais de dois milênios.

Este filósofo grego, o primeiro a descrever em detalhes o aparelho fonético, escreveu, em sua obra Historia Animalum que os animais apenas usam outra forma de lógica.  Na axiologia judaica o homem é aquele que veio da terra (adamá = terra), uma alusão à sílica. Destarte, o realmente distintivo entre homens e animais repousa em sua capacidade de falar.  Um dos primeiros registros desta especificidade pode ser encontrado na Bíblia Hebraica.  Ao se referir pela primeira vez ao homem, o texto mosaico da Torá, menciona a palavra “medaber”, o falante.

E o que nos torna falantes?

Não é apenas a presença do aparelho fonador, com a laringe e suas conexões neurológicas, pois a maior parte dos mamíferos superiores compartilha de estruturas análogas. Por exemplo, com um aparelho fonador quase idêntico ao nosso por que é que os chimpanzés não relatam sintomas ao médico veterinário? Os sons que emitem, decerto denotam uma linguagem. Junto com as modificações mímicas e corporais pode ser decodificada. O alfabeto de alguns tipos de aves tem sido objeto de estudiosos dos cientistas que já detectaram dezenas de sons que funcionam como uma comunicação de alta especificidade, que significam por exemplo, evocar acasalamento, alerta de perigo, “palavras” de guerra, pedidos de ajuda por saúde e até reclamar de abandono. Sem esquecer dos ultrassons e mensagens subsônicas que várias espécies de insetos estabelecem em suas relativamente curtas jornadas existenciais.

É no entanto, uma pequena, porém decisiva inclinação da cartilagem crico-laríngea que tem lugar nos meses finais da gestação, o que  permite que a articulação dos sons se transforme em palavras – mudança, que, por exemplo, mesmo a maioria dos mamíferos superiores como os símios não apresentam. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5219873/

Esta particularidade associada à maturidade do sistema neurológico que nos conferiu a capacidade de expressão através da linguagem falada. A peculiaridade é que nos transforma em animais produtores de narrativas. E voltando ao estagirita, para ele, o outro elemento que nos diferencia dos animais, além da linguagem falada, é a capacidade de evocar, por um ato de vontade, a memória. Assim, como seres que se expressam pela fala e que conseguem evocar a memória voluntariamente é que podemos dizer que pertencemos ao reino único dos falantes. Superado o reducionismo vamos agora examinar onde estes conceitos podem impactar a medicina.

Se Hipócrates e o Corpus Hipocraticum, seu legado, inventaram a história clinica e, portanto, a medicina técnica, foi Samuel Hahnemann quem sugeriu – meio século antes de Claude Bernard — uma forma de capturar nos estudos experimentais o resultado da ação dos medicamentos quando as pessoas são a eles expostos.

Mas quais resultados?

Trata-se daquilo que o médico de Lyon, Benoit Mure, introdutor da homeopatia no Brasil,  chamou certa vez de “processo verbal”. Pois é destas narrativas capturadas pelas experimentações de medicamentos sobre o homem são, as chamadas patogenesias, que conseguimos obter as sensações, sintomas e vivências do sujeito. Apesar de Hahnemann ter sido glorificado por outras aspectos de sua capacidade científica e criatividade, sem a qual o cientista é apenas um robô compilador de metanálises, sua descoberta de que seria preciso registrar toda a narrativa vivenciada pelo experimentador – assim como a do paciente – passou quase despercebida. Seu livro Fragmenta de Viribus Sive in Sano Corporis Observatis foi no mínimo, subdimensionado. Pois é este registro — comparar os processos verbais induzidos pelas substâncias medicinais aqueles relatados pelos pacientes — permitiria aproximarmo-nos da exatidão das “ciências matemáticas” conforme Hahnemann escreveu em seu texto “Medicina da Experiência”.

Muitas funções, catárticas e não catárticas entram em operação quando alguém chega para relatar o que sente e como sofre. Esta capacidade de extrair uma história clínica com todos os sintomas, a anamnese, não só não é simples, como desafia o modo como os médicos tem sido ensinados nas escolas médicas, especialmente quando se aplica uma pedagogia hiperpragmática.

A ação sossegadora ou catártica é uma função da fala descrita por Muller-Freienfels (Entralgo, 1950). Trata-se de um tipo de função notificadora, pois na intimidade daquele que notifica há nivelação afetiva e, quiçá, sossego. Conforme Pedro Lain Entralgo apontou, “a elocução adequada tem, sempre, ainda que em quantidades muito variáveis, um efeito catártico.”

Trata-se de aspecto tão importante para o constructo relacional que Entralgo ainda divide catarsis ex ore (produzida pela elocução ativa) e catarsis ex auditu determinada pelo fato de se ouvir adequadamente e conclui, afirmando: “Não é possível construir uma doutrina psicoterápica sem discutir a fundo estas duas formas da catarse verbal.”

E, portanto, qualquer aperfeiçoamento deve decorrer de um treino permanente. Vale dizer, trata-se de um destreino, vale dizer, de uma verdadeira reabilitação semiológica.

Por que?

A pedagogia médica limitou-se a ensinar como se captura os sintomas objetivos, capazes de nos oferecer um quadro diagnóstico plausível da patologia. O propósito é essencial, achar e identificar os sintomas em determinada árvore nosológica para que se possa estabelecer o nome correto da moléstia. Em nossos dias, programas e robôs que já podem substituir médicos nesta tarefa de definir o nome da moléstia. E há quem defenda até terminais onde os médicos prescreveriam de centros à distância, dispensando a clássica “medicina feita à cabeceira do enfermo”. Importante que o leitor note que não se trata de anacrônico saudosismo. Com ou sem o apoio da tecno-ciência o diagnóstico nosológico torna-se, isoladamente, insuficiente para determinar qual a melhor terapêutica quando se trata de uma medicina baseada em sujeitos.

Não me refiro exclusivamente à uma medicina específica. Falo sim da medicina lato sensu. Se a medicina de fato deseja recuperar para si a tradição humanista que foi perdendo — e que é clamada pelas sociedades ao redor do mundo como reação à hipertrofia da biotecnologia aplicada às ciências da saúde, precisa deslocar-se do eixo no qual confortavelmente se instalou. E o resgate começaria com a recuperação da linguagem para elucidar o significado do sofrimento de cada um. É preciso recuperar a perspectiva de captar o patognomônico do sujeito, aquilo que o individualiza.

Há aqueles que argumentam que uma divisão de trabalho foi estabelecida e que a mesma deve ser portanto respeitada. Mente e o corpo separados resolveriam um grande problema epistemológico. Neste caso, psiquiatras seriam responsáveis pela primeira parte e os médicos clínicos se encarregariam do monopólio dos transtornos corporais.

Isso também significa que um médico deve se ocupar do tratamento tendo em vista a especificidade da queixa clínica e da moléstia diagnosticada. Ora, essa observação poderia ser uma saída, se, e somente se não houvesse uma crise entrando pela porta da frente da Medicina. De um lado, o dilema preventivista da epidemiologia e da saúde coletiva nos alertando para os custos excessivos na manutenção dos recursos médicos direcionados para as doenças crônicas já estabelecidas, e, de outro, a extrema insatisfação (questionários e estudos multicêntricos indicam que ela é mundial) com os serviços de saúde mundo afora.

A primeira ministra da Grã Bretanha Thereza May, acaba de designar uma tarefa inédita para a Ministra da Saúde, Jackie Doyle-Price: com um orçamento exclusivo de 1.8 milhao de libras, estudar e estabelecer um plano de ação para a prevenção do suicídio. Só no passado houve um alerta dada a epidemia de 4.500 pessoas que ceifaram a própria vida no Reino Unido. A epidemia de depressão e de distúrbios psíquicos havia sido antecipada 30 anos antes. O relatório da OMS publicado em Geneva em 1988, já previa: a maior parte das buscas por atendimento médico até a metade do século XXI não seria por problemas clínicos físicos, mas por queixas relacionadas aos distúrbios funcionais e um difuso mal estar psíquico. Parafraseando o famoso texto de Sigmund Freud deparamos, mais uma vez, com um evidente mal estar na cultura, e na civilização.

A primeira teoria médica adotada era a tóxica: o veneno que vinha de fora era o principal responsável pelo adoecimento. Pois mesmo num ambiente como o que hora vivemos aqui no Brasil não poder ser descartada a hipótese de que uma peçonha psíquica externa esteja sendo injetada no ar, neste momento exato, através das redes sociais,  no ciberespaço e também fora dele. Nada de novo. O psiquiatra alemão Wilhelm Reich já diagnosticara a existência de uma espécie de peste presente no “éter”. Esta “praga” psíquica foi apelidada de peste emocional e ela é tão ou mais nociva que uma epidemia de peste bubônica, tifo ou febre amarela.

E o que aprendemos com a tradição vitalista? Que a susceptibilidade é o aspecto mais determinante – ainda que não o único — para desencadear o adoecimento. Que a primeira perturbação detectável pela natureza do cérebro e do sistema nervoso central se reflete primeiramente no estado anímico das pessoas. A primeiríssima afecção acontece na disposição física e no estado psíquico e isso é particularmente notável em crianças. Em geral, traduz-se por sensações pouco objetivas e, às vezes, de difícil detecção semiológica.

Dai a semiologia que aprendida em faculdades de medicina e ciências da saúde ser rigorosamente insuficiente para diagnosticar o mal estar sub clinico (illness) que antecede o aparecimento e desenvolvimento da própria moléstia (disease). E é precisamente neste momento que as medicinas integrativas — como uma modalidade de medicina preventiva — poderiam ajudar imensamente as pessoas e impedir a hiper concentração em atendimento terciário em hospitais e clínicas de especialidades. O atendimento de alta complexidade ficaria para a maior parte dos casos agudos e emergências, e assim sobrariam recursos humanos e capacidade para intervir e cuidar das moléstias crônicas.

Outro aspecto crítico que as ciências da saúde deve reconhecer é que apesar da fala e da narrativa se mostrarem como elementos semiológicos pertinentes e úteis existe uma enorme dificuldade para que os clínicos reaprendam a valorizar o que apreendem destas narrativas. Para que saber qual lado do corpo é mais atingido? Qual a finalidade de registrar sonhos? O que significam as sensações fugazes como “sensação de corpo desmanchando” “cabeça leve”, “do meu ouvido direito sai um vento” “a insônia piora depois das 3 horas da madrugada” “dor de cabeça como se alguém estivesse rosqueando um parafuso na testa” “se como chocolate é como se meu rosto desaparecesse” “sinto tontura quando ouço barulhos altos” ou “quando vejo noticiário político minha boca espuma”. Fora este último, todos os outros foram extraídos de narrativas reais, de experimentadores que expuseram seus sintomas a quem conduziu as experimentações. São as chamadas idiossincrasias, aquelas que mais individualizam os problemas clínicos das pessoas.

Estavam inventando? Não. Exageraram? Não importa, pois não existe mentira na clínica. Mesmo se uma criança diga que ela não gosta de peixe e sua mãe, espantada, afirma que quase muito raramente este alimento é oferecido em casa. A aversão ao peixe deve ser levada em consideração, já que a linguagem expressa o imaginário. E ele possui uma realidade em si. Independentemente da checagem dos fatos.

No entanto, estes elementos, aparentemente parasitas, são importantes não somente para fazer valer o poderoso efeito catártico da consulta, mas também para adensar o conhecimento da pessoa enferma. Samuel Hahnemann muito tempo antes do médico alemão  Otto Schwartz em seu “Psicogênese dos sintomas corporais” já fazia as devidas correlações entre as emoções e as perturbações na saúde.

Mas isso valeria, também, para avaliar o contexto do aparecimento dos sintomas. E tudo isso depende de que? Da linguagem, dos sintomas comunicados através da fala. Outro aspecto que precisa ser desenvolvido é investigar melhor como ocorrem as curas. Pesquisadores notaram que a maior parte dos estudos epidemiológicos são destinados a compreender como as doenças surgem e evoluem, mas são bem mais raros investigações científicas que tentam apreender como elas são curadas.

Pesquisadores israelenses estudando curas espontâneas de AIDS, em países africanos, acabaram descobrindo novas substâncias por elucidar aspectos muito peculiares sobre o auto reciclagem do sistema imune frente à agressão de microrganismos.

Por que então a insistência em retomar uma medicina do falante, onde a tecnologia entra apenas como subsidiária, acessória? Porque a necessidade é premente. Porque as pessoas precisam se expressar como se sentem e não apenas serem fonte de pesquisa de sintomas para formação de um diagnóstico.

Portanto, ao chegar neste ponto, precisamos aceitar que a medicina especificamente humana é a medicina do falante. De quem pode expressar a modalidade das suas queixas e sofrimentos, com contexto e características individuais. Eis a provável origem que Hahnemann atribui aos sintomas particulares e peculiares em detrimento dos sintomas gerais e comuns. E aqui, transcende-se as medicinas integrativas.

Que ganho extraordinário para toda a semiologia médica se os médicos apenas pudessem reconhecer de que não há uniformidade absoluta na apresentação de sintomas quando o foco não é exclusivamente a doença, mas o sujeito com seus sintomas, perturbações e sensações.

Além disso, seria um ganho adicional a qualquer semiologia médica caso os sintomas não servissem somente para prover uma classificação e encaixe em alguma árvore nosológica, mas sim, exaltar a compreensão da própria pessoa. Esta semiologia generosa, mediada pelas palavras, teria potencial para regenerar o rapport, a tão desgastada relação médico-paciente, com a grande vantagem de estar baseado em um encontro. Num contato interhumano solidário e afetuoso, que viria a calhar como uma espécie de lugar neutro, um oásis em meio a tanta hostilidade, turbulência e mal estar.

*Conferência proferida no Congresso Brasileiro de Homeopatia, Curitiba, outubro de 2018

https://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/a-medicina-do-falante/

 

 

 

Imagem

Daltonismo para estrelas (blog Estadão)

 

O biógrafo Peter Gay nos conta que quando o fundador da psicanálise estava para escapar dos nazistas com um salvo conduto, embarcando num trem de Viena rumo a Londres, a SS exigiu-lhe que assinasse um documento. Freud precisava atestar que havia sido “bem tratado” pela tropa de elite nazista. Sigmund impulsivamente rabiscou:

“Eu recomendo a Gestapo”.

Os recentes ataques contra judeus guardam evidente relação com o excesso de menções negativas contra Israel desrepresadas acriticamente em toda mídia mundial. É preciso denunciar que — sob o disfarce de antissionismo — o País dos hebreu virou uma metáfora obsedante para a imprensa. Aqui no Brasil, assistimos recentemente as falsas comunicações de crime como pseudo suásticas “plantadas”em corpo e paredes. Isso bastou para excitar o clima de antissemitismo latente em parte da sociedade. No dia  01/11/2018, o escritor Luis Fernando Veríssimo escreveu em sua coluna semanal do Estadão, “Os omissos”, onde lançou mão da alusão às estrelas usadas para identificar os inimigos do Estado na Alemanha nazista.

Em resposta, aquilo que poderia ter sido interpretado apenas como ironia do escritor gaúcho, a FIERJ (Federacao Israelita do Rio de Janeiro) emitiu uma nota de repúdio, choveram cartas de parentes de sobreviventes do holocausto, além de manifestações individuais acusando o artigo nas redes sociais. Todas elas mostravam indignação. Apesar de parcialmente justificáveis, não alcançaram o núcleo duro do real problema representado pelo artigo. Na carta resposta redigida por LFV, afirma que só quem não conhece sua história pessoal e de sua família poderia imaginar que o texto carregasse elementos de antissemitismo. De fato, confirmado por depoimentos de pessoas que conhecem a trajetória histórica, assim parece ser.

Destarte, o articulista fez uma analogia direta entre as opiniões do novo presidente eleito com o nazismo (ainda que, como afirmou em sua carta-resposta “não o considerar nazista”) quando o regime nacional socialista alemão levou adiante uma política implacável de perseguição aos membros do partido comunista daquele País. Assim, aparentemente, quando afirma no final do artigo, a frase estéticamente duvidosa “por lá deu certo” referindo-se à missão de limpeza étnica e ideologica do III Reich, é que ele nos introduz ao centro da polêmica.

O que de fato interessava ao partido dos trabalhadores do estado germânico desde 1933 era o extermínio de tudo que fosse dissensso, todas as formas de oposição, e a anulação do contraditório, sob a prática — legal e constitucional, referendada por juízes da Suprema Corte, através das Leis de Nuremberg — de expurgos e assassinatos. Pois ali, o daltonismo para as estrelas era oportuno. Se a perseguição às minorias fazia distinção apenas formal para a cor das estrelas “amarela para judeus, vermelha para comunistas e triangulo rosa para homosexuais”, o grande foco de eliminação sistemática para além das objeções poliíticas, era mesmo a etnia judaica. Contando com amplo esforço de marketing para forçar a identificação dos comunistas com judeus, sem esquecer do conceito ariano de “arte degenerada” que também procurava expandir a identificação dos artistas com a corrupção dos hábitos da sociedade. Apesar de tudo isso, nunca foi segredo que o foco fanático dos seguidores de Adolph estava concentrado no “Judenrein” ou “territórios livres de judeus”.

Portanto, o que afinal o citado colunista subestimou?

Acurácia e sensibilidade.

Sensibilidade quando fez associações a um tema como o holocausto, que vem sendo ostensivamente banalizado. Mastigado e colocado junto com outras mazelas do senso comum, o genocídio de seis milhões de pessoas tem aparecido aqui e ali como um conflito ideológico delimitado. A liberdade de expressão não pode prescindir do humor e da ironia e até permite que se tripudie sobre determinados episódios da história, mesmo aqueles mais terríveis. Além disso, a liberdade de um autor não deve ser colocada sob judice quando idissincrasias são atingidas. Mesmo assim, é necessário se constranger frente à dor dos demais.

Acurácia, já que não se pode desprezar o timing nem desconsiderar o contexto. Escrever é um ato político. Pois é aí que enxergo o descaso. Qualquer articulista tem como obrigação ética, se não, estética, de calibrar melhor seus alvos, especialmente em meio às várias comoções simultâneas que testemunhamos: o triste episódio do crime de ódio recém perpretado contra judeus dentro de uma sinagoga em Pittsburg — o pior da história americana — o antissemitismo jihadista em alarmante alta na Europa, as parábolas farsescas de que milicias neo-nazistas estavam na iminencia de assumir a administração do País. Ou, caso recuse a calibragem, que tal amplia-la para melhor situar e servir o leitor?

Ao insistir em afirmar aquilo que os nazistas fizeram com as minorias frizando que “por lá deu certo” o escritor descerrou um dos arquétipos de sofrimento mais impactantes da história. Se a ironia pode funcionar como denúncia, advertência e alerta, também pode insinuar um tom prescritivo: “é assim que se faz bem feito”. Às vezes, não é a leitura racional que impregna o leitor, mas a assimilação subliminar, afetiva. Foi isso que aconteceu.

O “politicamente correto” tem sido uma forma de amenizar, quiça disfarçar, a dureza nua e crua dos eventos, e, ser jocoso, é uma das formas mais refinadas de comunicação literária como Freud demonstrou acima. Contudo é recomendável cuidado com o sarcasmo ambíguo. Corre-se o desnecessário risco da ofensa. O caminho correto para a  dessensibilização não é, nunca foi, o da psicanálise selvagem. Até a libertação dos tabús, exige respeito ao sofrimento alheio.

Não é pedir muito, bastaria mais sensibilidade.

Faço votos que o colunista a recobre rapidamente, ainda em nossos dias.

Justiça e grande justiça, para que servem? (artigo do JB de 2012)

Justiça e grande justiça, para que servem?

Jornal do BrasilPaulo RosenbaumTamanho do Texto:+AAImprimir

A civilização que não se pergunta.

” src=”cid:image001.png@01CDC27C.E9F4A4F0″ alt=”image001.png” class=”Apple-web-attachment Apple-edge-to-edge-visual-media Singleton”>

Coisas da Política

08/11 às 06h06

A civilização que não se pergunta

Jornal do BrasilPaulo Rosenbaum, médico e escritor

 

O genial sistema tutorial celebrizado por Sócrates, mas já presente em tradições mais ancestrais como no ensino talmúdico e em escolas orientais, jamais foi superado por nenhum outro método pedagógico. A maiêutica (do grego maieutikos — fazer nascer as ideias) é a arte de instigar o aluno a formular conceitos latentes e estabelecer conexões com a realidade mediante uma sequência dialética de questões. Desde então ela passaria a ser virtude mais interessante que dar as devidas respostas. Num mundo tensionado por imediatismos e pelo saber I-pédico, esta forma de raciocinar perdeu força. Estamos em falta com o professor ateniense especialmente, se considerarmos que esta forma de educar custou-lhe a vida.

Sem perguntas, as respostas nos fazem errar. Internações compulsórias decididas às pressas

Tem sido a praxe política tentar achar respostas antes de formular questões. Sem perguntas, as respostas nos fazem errar. Internações compulsórias decididas às pressas, blitzes contra drogas diante da pandemia que se instalou no país, o clamor nacional pela construção de mais hospitais, planos de seguro saúde oferecidos aos milhares. Tudo isso está acontecendo, sem que se discuta o que é saúde para a sociedade? Para que e para quem vivemos? De onde vem tamanha insatisfação?

O que fazendo com nossas vidas? Quais são e como as questões políticas nos afetam? Às vezes, vale dizer, muita vezes, a ponto de nos fazer adoecer. E para que sofremos tanto? Por que este ou aquele se sagrou vencedor? Apesar de vivermos numa comunidade, não construímos igualdade ou solidariedade. Não é só a violência cotidiana que impede que vivamos em paz, ainda que ela seja uma forma de cassação branca da cidadania, hoje instaurada em pleno vigor.

A dificuldade de encontrar o saudável torna nossas vidas isoladas e apartadas. O obstáculo encontra-se espalhado numa vida pulverizada, redigida pela matéria e pautada por necessidades dispensáveis. Assim como a especulação financeira do capitalismo acionário reduz as perspectivas de produção, a vida ganha menos valor quando não há pelo que lutar.

As maiores taxas de suicídio do mundo estão surpreendentemente localizadas nos países escandinavos, o mesmo sítio onde se concentra o maior índice de países com IDH elevado.  O paradoxo está posto. O isolamento, a solidão e uma vida sem tribulações parecem nos levar ao tédio crônico, enquanto a insegurança, a instabilidade e a falta de perspectivas nos conduzem às portas da depressão. Para um e para outro, a solução pregada será majoritariamente medicinal, induzida por fármacos psicoativos legalizados, drogas ilegais ou o bom e velho álcool.

Os médicos e terapeutas são os elementos que recebem, no varejo, todas essas mazelas sociais.  É lá que as pessoas se queixam, isso quando há tempo hábil para que os cuidados formulem frases inteiras — aquilo que os políticos tentam saldar no atacado, eles entram como sujeitos únicos nos hospitais, nos ambulatórios, nas clínicas do SUS e nos consultórios privados. Nota-se uma espécie de praga psíquica generalizada que faz com que 70% dos clínicos gerais (dados de 2005)  prescrevam psicofármacos com incrível regularidade.

Sempre fica uma ponta de dúvida se a humanidade enfim reconhece que caiu, e, deprimida, precisa ter suas demandas aplacadas por drogas.

Há qualquer originalidade nesta resposta?

Claro que em suas mais variadas formas, as substâncias também cumprem seu papel social, ritualizador, catártico, relaxante. Como se vê, reiteradamente precisamos de analgesias psíquicas. É possível aceitar que a divisão entre drogas lícitas e ilícitas é arbitrária, mas será que a solução é liberar as ilícitas? Proibir as lícitas? Os estudos só são ambíguos e contraditórios para quem não sabe que absolutamente todos os fármacos e substâncias medicinais e alimentares deste planeta apresentam, intrinsecamente, vantagens e desvantagens. Depende de quem usa, para que usa, quanto usa. Precisamos saber quem é o sujeito, conhecer suas idiossincrasias, para só depois, talvez, saber por que requisitar a carteirinha de usuário.

O ponto de inflexão aqui é que a medicina e as terapêuticas buscam — e na maior parte das vezes malogram — minimizar o sofrimento humano. E precisamos pensar se a sociedade, da forma como está sendo constituída, permite que sejamos. Que sejamos sujeitos. O problema central é tentar minimizar o sofrimento numa sociedade que o exalta. Ah não? O que achamos da ideia de matar um leão por dia? Como nos sentimos sob ameaça? O que significa viver, permanentemente, sob competição? Como reagimos ao deparar com tantas disparidades econômicas? E que tal, destreinados que estamos para a predação, a sensação compulsória de viver na selva?

A resposta só pode ser outra pergunta: como chegamos a isso?

Pois esta é uma civilização que não pode deixar que os cidadãos exerçam suas individualidades. A peste emocional circula tal qual uma doença altamente infecciosa. Sim, há um contágio metafórico, e ele não só existe como invade tanto quanto os microrganismos patogênicos mais perigosos. Esta é uma civilização que não se pergunta. Ela se ergue mesmo em cima de seres anônimos que não podem, nem querem mais se exercitar como sujeitos. Mas é claro que há um custo alto por tamanha impossibilidade ou renúncia. Quem não exerce a criatividade e sua própria arte paga. Buscar um lugar ao sol, sair do anonimato, fazer circular nossas ideias, e contar com a benevolência da expressão, são as proteções viáveis na era geral da indelicadeza.

Mais do que nunca, precisamos da salvaguarda das artes para que a criação faça  sentido. Ou não?

Paulo Rosenbaum é médico e escritor. É autor de “A Verdade Lançada ao Solo” (Ed. Record)

paulorosenbaum.wordpress.com

 

 

http://www.jb.com.br/coisas-da-politica/noticias/2012/11/08/a-civilizacao-que-nao-se-pergunta/

O árbitro do sentido (blog Estadão)

O Partido do Sentido

Num belo dia estamos no limiar do que parece ser um equívoco, porém, reconsidere, poderia ser muito pior. Para além dos gags linguísticos e dos reducionismos que o senso comum tem nos pregado no horário de TV subsidiada, estamos observando uma repetição. Uma a mais.

Olhando pelo lado estritamente analítico, nunca fomos tão anacrônicos. Mas, ao mesmo tempo, estamos reagrupando informações para alterar o ritmo do tempo, do qual antes éramos apenas expectadores passivos. Estamos vivendo em uma dimensão que não controlamos bem. Ainda. Pode ser um enorme entanglement effect (efeito de entrelaçamento) em que nós afetamos e somos afetados tal qual as partículas de luz, mesmo separadas, sofrem efeitos similares. Mas também pode ser algum outro fenômeno, desconhecido. Um destes que ninguém diagnostica.

Nosso solo comum é, decerto, maior do que tudo que nos distancia. Para pensar no jantar deste domingo: enquanto a política esfacela relações, quem provoca a secessão e as dissidências, reina incólume. Ainda assim vingar-se não é a resposta: jamais chegaríamos ao primeiro culpado. Enquanto isso inocentes precisam ser protegidos.

Não importa mais de que lado do espectro ideológico as pessoas vivem. O vital subsiste na preservação de algum senso de justiça, e o império do justo não é, nunca foi, a guerra.

A priori, só a paz significa muito. Mesmo nos cantões e nos ringues onde todos vociferam promessas e ameaças é a vontade de sentido que merece ser preservada. É o olhar de cuidado com quem não conta com nada.

E nós? Contamos com o que? Que o Estado faça o que jamais conseguimos aplicar em nossas experiências individuais.? A urna é apenas um símbolo amorfo. O verdadeiro manual é interno e o resultado poderá ser enfim nos reconhecer como povo. Se hoje isso não é possível, o dia chegará. Inexorável. São as ações ordinárias que nos levariam a algum senso de unidade. Quem sabe a tolerância pudesse recomeçar com a autoconsciência despertada por eventos mínimos. E assim, aqueles que defendem o humanismo, os reformadores íntimos dos outros, não exercitariam sua fiscalização sobre os demais.

 

Não sabes do que estou a dizer?

 

Pois vamos de outro modo: vote por sentido. Vote, impiedosamente, mas vote. Vote em mediações. Vote por conciliações. Vote por você — estamos cercados, uns pelos outros. Vote contra a opressão. Vote numa justiça que antecede nomes. Vote sem culto à personalidade. Vote no que é claro e distinto. Vote na ciência que amplie a vida. Vote na tradição que tem lugar no mundo. E vote também no progresso que não destitua o que já foi compreendido. Vote na civilização. Vote considerando parâmetros mais altos daqueles que estão disponíveis. Aproveite e não vote neles, nem nos outros. Vote no convosco. Vote na transparência que comunica. Vote na presença. Vote nos sons que ainda estão por nascer. Vote na ninfa. Vote em quem irá te acompanhar. Vote no que é transição. Vote no fluxo de consciência. Vote e eleja hermenêuticas que protejam. Vote em minorias. Vote no interesse público. Vote contra o desvio de função. Vote por um e por todos. Vote rebaixando a aflição. Vote na urna que amplia teu alcance. Vote na verdade que paira sem saber se aterrissa. Vote contra o refrão. Vote sem levar em conta os slogans. Vote longe das manadas. Vote no interno. Vote para sufocar a mentira acumulada. Vote desconfiando de quem sofisma. Vote abstraindo o carisma. Vote abandonando a supremacia. Vote na intensidade da igualdade. Vote em equidade de oportunidades, nunca de resultados. Vote pelo rodízio de poder. Vote em cores primárias. Vote em estado de liberdade. Vote olhando para além das muralhas. Vote olhando as crianças. Vote enxugando as lágrimas. Vote esquecendo comandos. Vote para resgatar a cidadania. Vote dissolvendo boatos. Vote menosprezando pesquisas. Vote com a noção de processo. Vote sabendo que já é história. Vote como se fosses um juiz imparcial diante de um impasse centra. Vote sob a viseira do passado. Vote como se houvesse um futuro. Vote em um presente.

E se mesmo assim tudo parecer/estiver perdido, vote sabendo que você é o árbitro do sentido.

Contagem regressiva da Democracia (Blog Estadão)

fullsizeoutput_6913

Os populistas nunca saem de moda, mas doravante será preciso escolher entre criminaliza-los ou preservar o sistema democrático.

Para esclarecer será preciso um trabalho de dissecção dos cadáveres que estão ainda na mesa. Ou como se diz em epidemiologia de uma autopsia psicológica do atual cardápio eleitoral. Como se fosse possível, recentemente criaram-se mais subdivisões nas subdivisões pré-existentes. Mulheres, judeus, negros, gays contra e a favor. A simples recusa em mencionar o nome dos candidatos (para não não fazer subir suas estatísticas digitais) mostra o caráter regressivo ao qual a sociedade parece esta sendo conduzida. O resultado tem sido um marketing reverso à revelia. Quanto mais se evita nomear mais exposição se obtém para o sujeito oculto.

Ora, nenhuma classe, etnia ou gênero tem homogeneidade minimamente razoável nas suas escolhas políticas. São todos movimentos forjados para  tomar a palavra e monopoliza-la. Procura naturalizar a  assunção de que se fala por muitos quando é apenas um grupo, mesmo que possa vir a ser numeroso.  Divulga-se então a ideia de que os interesses pessoais, partidários e ideológicos podem ser sequestrados para se tornarem porta vozes de uma suposta maioria.  Pois este é, em princípio, um desserviço à democracia. E a sabotagem não termina ai. Com a capacidade de difusão de robos emprestados e contratados com dinheiro público desviado, a capacidade de espalhar intolerância é maior do que a percepção da armadilha ao qual estamos sendo submetidos.

E por que o centro está sendo desativado, vale dizer, estraçalhado pelo voto? Sobre quem deve recair o ônus de ter levado a sociedade a ter que já escolher — em incrível antecipação desesperançosa — entre quem será mais fácil votar contra e derrotar em 2022?  Sim, pois este é a aritimética de uma exaustão que nos trouxe até este momento. Sim, é chegada a hora de apontar para os omissos e toda classe política que nos fez herdar a obscena polarização. O diagnóstico obvio têm apontado para os partidos políticos como um todo. Locupletaram-se nos últimos anos e são os grandes responsáveis, pois sua cooptação — por ideologia ou ambições de poder e censitárias — ocorreu a céu aberto, explicitamente, em plena luz do dia. A mordaça exerceu seu papel emudecedor não pela censura, não pela restrição da liberdade, mas pela via do excesso de denúncias. Se todos são culpados ninguém pode assumir a culpa. não se pode funalizar pessoa ou partido. Trata-se de alta astucia de um jogo ganha-ganha onde quem sempre leva a melhor são os conhecidos predadores, nunca a sociedade.

O culto à personalidade, alimentado pela perspectiva de redenção mítica, foi outra fonte da mazela que agora atinge a todos, indiscriminadamente. Exalçado por entidades religiosas e confirmado como salvador por movimentos sociais regados com dinheiro da casta sindical o culto à personalidade terminou o serviço de descaracterização dos programas partidários. Exterminou o projeto de uma agenda programática como fundamento da política. Desmontou o centro democrático. Além disso, tivemos a fabulosa ajuda de um regime proto-policial que ajudou a construir o perigoso consenso de que a única coisa necessária para ser um Estadista é não ter uma ficha corrida. Nada mais defectivo e falso. O candidado além de probo, deveria ter mostrado sua capacidade de administração, sua experiência em tangenciar temas dificeis, e capacidade intelectual e temperança para opinar, argumentar e contra-argumentar. Nada disso se viu nos candidatos que vieram substituir os presos e os impedidos de se reeleger para nos incomodar com seus repertório de sensos comuns.

O outro fator, talvez este o mais grave foi a negligente perturbadora afasia das instituições. Ninguém prefere explicitar, mas é notório que o sistema juridico começou a apresentar falhas gravissimas. Ao usurpar atribuições dos outros poderes sem que as outras instituições lhes fizesse frente, a hipertrofia da toga asfixiou a representatividade popular. Foi assim possivel para Roussef e outros constitucionalmente inelegíveis agora tornarem-se presentes nas urnas digitais à prova de balas. Condenados em três instâncias burlarem as normas e se apresentarem como ícones da moralidade pública. Votações reiteradas para julgar nomes e não princípios ou dilemas da constituição. Hermenêuticas seletivas aplicadas ao gosto dos clientes.

Nos últimos dias o quadro tornou-se pesadelo, grave atentado político, ameaça de indulto, agressão contra jornalistas, insultos destempero e convocação à violência. E, na mistura de temas, até um ex-ministro, abusando da manipulação e escancarando sua desonestidade intelectual abusou dos termos fascista e nazista. O disparate do membro da comissão da ONU, foi acusar um dos candidatos de “nazista e sionista” equiparando a doutrina do nacional socialismo alemão com o direito dos judeus a retornar a Israel. Do outro lado, a tentação atual é de revisionismo tosco ao propagar que os “nazis” eram bolcheviques travestidos com suásticas e de que a nunca existiu ditadura militar ou tortura (sic)

O estado abusivo com que o sistema político tem tratado os contribuintes e a reiterada malversação do interesse público fecha o quadro de um painel deprimente, onde o desvio de função do Estado é tão absoluto, que sabota a razão da existência de um  governo. Painel aberto para inspirações anárquicas e anomicas.  Por fim, mas não menos importante, a semi nulidade da oposição. Reféns do sucesso provisório que era uma fraude: a 5a economia do mundo, decerto, de 10a categoria. O resultado foi previsível, a sedução nos custou caro: vivemos 13 anos sem oposição. Nem a remoção cirurgica e benéfica da ex presidente não pode ser contabilizado a favor desta oposição, já que foi um ato que dependeu basicamente das 10 milhões de pessoas que estiveram nas ruas para amedrontar o establishment e o pressionarem a adiar o caos. Além disso, nas entrelinhas, o impeachment esteve muito perto de obter o aval lulopetista, já que até os fiéis súditos passaram a mostrar desaprovação à catastrófica escolha do poste feminino que Luis Ignácio pinçou de algum obscuro rincão burocrático. Tudo isso com o beneplácito de parte da mídia que endossou ou fez a aprovação velada ao projeto de poder. Não são os votos que estão consolidados, é o pathos político que já está bem sucedido e pago.

Temos agora que compreender a provável eleição de um populista das extremas com olhos analíticos. Não haverão surpresas. Já com enfoque preventivista e a preservação da saúde mental prescreveria:

Alienação para os próximos 4 anos.

Estoicismo para os próximos 10.

Livro de Coisa Nenhuma

Livro de coisa nenhuma

Nada, Do latim, Nata, scilicet res, coisa nascida, da elipse do não (res) {non} nata) e perda do res passou a significar coisa nenhuma.) Antenor Nascentes e Aurelio B. Holanda

Foi um tema investigado. Milan Kundera lhe dedicou um capítulo inteiro. Falamos sobre o implausível projeto de Flaubert para executar um livro sobre o nada. Dá para entender o fascínio. O nada sempre figurou como possibilidade literária.

Nada pode ser muitas coisas. Zero, nulo, vazio, absolutamente não, sem importância, insubstancial, infinitesimal, dez reis de mel coado, não ser, não estar, em branco.

E, já aí, na insuficiência das sinonímias, começam as digressões. É que, fora o texto técnico stricto sensu, tudo é, ou acaba em digressão.Qualquer narrativa criada precisa desdobrar seus temas, buscar os caminhos do suspense, criar enredos. O escritor francês esperava contornar os caminhos do romance para atingir o reducionismo perfeito?

Onde estaria este esvaziamento criativo? O nada essencial estaria presente, in situ, um trilionésimo de segundo antes do big-bang? O momento que foi apelidado de singularidade? Talvez, a única verdadeira? Segue a pergunta que obseda todos: o que precedia o nada?

E se o fascínio do escritor francês fosse menor ambicioso e estivesse só na não possibilidade? Um romance no qual a poesia resignificasse a prosa. Que essa mantivesse seu esqueleto e enredo. Uma história contada sem que o ritmo concedesse demasiado espaço ao formalismo, nem que o deslumbramento pelas palavras fosse diluído pelos temas.

Impossível escrever sobre o nada sem o texto em branco. Apesar da veemente negação de legião de biógrafos, há desconfiança de que o famoso livro sobre o nada tenha sido mais que um presságio inconcluso.

Em 2009, numa dessas artimanhas do destino, o bibliotecário chefe da Biblioteca Nacional da França, François Rivoll, afirmou ter encontrado, junto com os originais da peça“O Candidato”, uma folha com o monograma: G.F. Só. Não havia registro ou indexação. Nenhuma assinatura ou qualquer sinal indiciário do autor.

Teria aquela folha única, potencia para mudar o curso da literatura?

Somente revelado em 2013 “O livro sobre coisa nenhuma” enfim não era só uma página em branco:

“Registro do som da perplexidade. Um dicionário vazio. Era a confissão da angústia. A inverdade do tempo. Era o passado que continha o futuro. O livro sobre coisa nenhuma é a própria vida, porque, incontável, ela é outra singularidade.”