O SUS e as fronteiras epistemológicas (Blog Estadão)

O Sus e as Fronteiras epistemológicas

“Avistar uma fronteira, é, já, ultrapassa-la”

Gaston Bachelard

Paulo Rosenbaum, PhD. Doutor em Ciências (USP) Mestre e Pós doutor em Medicina Preventiva pela FMUSP

Em resposta ao artigo “O SUS contra a ciência” de hoje publicado na seção “Espaço aberto” de autoria de Natalia Pasternak Taschner e Alicia Kowaltowski.

O artigo de hoje das duas autoras acima trata de um tema importante, mas é de tal forma reducionista e desinformador que pode ser ele mesmo considerado como duvidoso em termos de acurácia científica. A contradição começa com o título escolhido: “O Sus contra a ciência”. Ele evoca o que há de pior em termos de maniqueísmo científico e epistemológico e trata uma questão cara à saúde pública com desleixo e uma perturbadora despreocupação com a ética. O grande mérito do artigo poderia ser trazer para a discussão os graves problemas de saúde pública, mas adotou uma abordagem confrontadora, o mérito potencial acabou desperdiçado como um grande equivoco.

A história da medicina tem sido contada apenas parcialmente, sempre privilegiando as concepções e práticas hegemonicamente sancionadas na atualidade. Existe mais de uma outra forma racional de responder aos desafios colocados à medicina em sua trajetória histórica. O resgate da tradição empírico-vitalista, da qual a homeopatia é a principal herdeira, redimensiona essa trajetória. Esta outra versão da história nos fala do fato homeopático e das suas possibilidades para viabilizar projetos de intervenção não restritos à funcionalidade mecânica do organismo.

Se isto vem ocorrendo na práxis da biomedicina, deve-se à consciência instintiva de seus protagonistas, uma vez que a formação acadêmica não capacita os médicos para esta modalidade de intervenção. Compreende-se, então, que seus protagonistas experimentem enormes dificuldades em readaptar essa visão não mecânica a seus curricula práticos, uma vez que a pedagogia dispensada ao médico ainda centra-se substancialmente nesta única dimensão. Ou seja, há, sim, um despertar para outras dimensões do adoecer, a percepção de que este não está circunscrito ao problema biológico. No entanto, este outro modo método de enxergar e avaliar a doença e seu tratamento ainda encontra poucas condições de viabilizar-se pela carência de agentes no campo operacional.

As medicinas tradicionais entre os quais encontram-se a homeopatia, a medicina oriental, a auryveda, já foram castigadas e perseguidas por ideologias médicas e sistemas racionais onipotentes, cujas repercussões fizeram-se sentir na maturação de seus programas. Não se trata, porém, de uma condição especial da homeopatia e da medicina oriental. Este é um problema inerente à competição, anteriormente referida, entre programas científicos. Numa época em que a pluralidade metodológica parece arrefecer a competição entre paradigmas, algo inusitado pode estar ocorrendo: as práticas integrativas correm o risco de tornarem-se algozes de si mesmas, caso não saibam trabalhar com suas próprias contradições e reorganizar a teoria a partir do que dela emana como produto. Fica clara a completa impossibilidade de continuar a esquivar-se de interagir com as outras disciplinas e repartir este legado, herdado dos sucessivos conflitos que a caracterizou em sua órbita histórica.

Para tanto não basta que uma epistemologia “emprestada” de outros saberes possa corrigir as insuficiências metodológico-conceituais, mesmo que seja baseada naquilo que emerge da prática ou através das discussões teóricas. Assim, não serão os os químicos, físicos, psicanalistas, historiadores da ciência ou a tradição biomédica aqueles que trarão a luz que falta. Essa luz deverá surgir do próprio incômodo e inquietude salutar que impõe-se aos que sentem a necessidade de produzir suas evidências: os médicos que praticam outras formas de medicina. Nota-se que isto já está acontecendo e ocupando certos nichos do conhecimento, ainda que de forma tímida e pouco produtiva.

Devemos insistir na interlocução, que será difícil, assimétrica, tortuosa. Mas não é mesmo a tensão que instiga e excita o ânimo do pesquisador? Com a mesma obstinação, contudo, deve-se cuidar para que o produto inicial da interlocução venha a partir do interior, neste caso, a partir do conjunto de vivências produzidas pela própria homeopatia.

Segundo Henri Bergson (1936: 15), a “pesquisa científica é um diálogo entre a mente e os fatos”, portanto, uma construção científica é, por excelência, um diálogo referido a uma interlocução entre uma realidade eleita e uma mente disposta a percebê-la.

As práticas integrativas (recomendadas pela OMS e a OPAS como uma forma inteligente de assistência médica na atenção primária) constituem-se como um saber com aplicatio, mas são bem mais do que isto. As autoras de seram ao trablaho de pesquisar e informar isso aos leitores? Não. Construiu um método, um acordo intersubjetivo que vigia sua própria execução. Também é uma filosofia médica (uma iatrofilosofia particular) com tradição suficientemente forte para reivindicar que suas formas de conhecer o sujeito, seu adoencimento, cuidado e cura sejam recolocadas como uma das possibilidades de teoria do conhecimento em medicina. Se o quê se discute hoje dentro de modelos, tais como a teoria da complexidade e a teoria do caos, obtém status epistemológico em biologia, comparáveis mesmo ao que a teoria da relatividade ou a teoria quântica obtiveram na física, existem percepções que compõem o saber integrativo que devem perceber o valor e fecundidade de sua efetiva e positiva colaboração.

A rigor a medicina não é ciência, a medicina já foi classificada epistemologicamente como “ciencia operativa” pois nela repousa uma quantidade incomensurável de processos complexos que não terminam quando se confecciona a prescrição, ainda idealizada como o ato derradeiro da atividade médica. A rigor, ele está apenas começando, uma vez que deve-se considerar a imprevisibilidade das comunicações e a imensa variabilidade de resposta dos sujeitos em suas distintas reações e respectivas idiossincrasias. Isto vale especialmente em sua dimensão arte, quando a cada nova consulta estas comunicações se processam de um sujeito ao outro.

As medicinas integrativas precisam começar a reaprender com sua própria construção teórica, que deverá emergir de uma prática cuidadosa, que saiba, como bem diz o aforismo hipocrático, considerar que “a arte é longa, a ocasião fugidia e a experiência enganadora, o juízo difícil” (Hipócrates, 1838).

A arte é longa, porquanto tanto os comentaristas ocidentais como Hahnemann, ao invés de facilitar o trabalho e montar um sistema no qual se poderia usar o antigo sistema das nosologias para prescrever, afirmaram o valor do particular sobre o geral. “Criaram”, assim, um desafio hermenêutico nas reduções propostas pelas generalizações a partir das classificações de doenças. O cogito hahnemanniano sugere, então, que deve existir também uma nosologia do particular, do incomum, forçosamente também do impreciso. Cria uma inversão de valores, um contrapensamento, que contém em si mesmo uma das peças-chave do seu método, um problema para qualquer epistemólogo contemporâneo. O fato adquire aqui estatuto de idéia fecunda. Isso hoje se reflete no crescimento de medicina baseada em narrativas, a slowmedecine, a rejeição aos hiperdiagnósticos e uma orientação cada vez mais cuidadosa para o desenvolvimento de uma medicina mais individualizada.

A ocasião é fugidia já que para aprender não basta uma série de experiências mesmo que metodologizadas e organizadas. Escapa, no domínio da subjetividade do paciente, uma série de elementos fundamentais, o que automaticamente transforma em quase quimera a busca de uma inapreensível essência do sujeito. Os pacientes, assim como as substâncias medicinais, “escapam-nos” por entre os dedos, porque não somos suficientemente aparelhados para detectar o que há ali de curável e de curativo, respectivamente. O sujeito que sofre procura ajuda, alívio para seu sofrimento, qualquer ajuda pode lhe dar um suporte positivo. Muitas vezes isto pode resultar em processos transferenciais adequados, medicamentos criteriosamente escolhidos a partir de diagnósticos individuais, mas deve-se admitir que nem sempre eles são suficientes.

Os médicos debruçam-se sobre representações de fragmentos (sintomas) para cuja interpretação buscam analogias em outros (experimentações) para capturar a natureza da afecção de tipos singulares. A unidade no indivíduo é fato, mas o que muitas vezes capturamos são apenas as intermitências (sintomas e queixas) desta unidade. Quando se vê um medicamento bem escolhido agir, enxerga-se ali somente uma maior coerência entre estas intermitências. Podemos passar a perceber uma retomada da ritmicidade do conjunto. E então, na evolução clínica, pode-se observar como, para que e para onde este sujeito em reconstrução está indo. Por isso trata-se de um disparate a defesa da tese de que há uma e somente única forma correta de exercer a medicina.

A experiência é enganadora porque jamais poderemos traduzir completamente uma vivência subjetiva, como é o caso da anamnese e relação médico-pacienite, de acordo com uma assepsia metodológica. Mas de fato, como professa o primeiro aforismo hipocrático, aquilo que se conhecia até experimentar torna-se uma retradução de fragmentos de vivências que obriga o médico a comparar com aqueles que se colhe em cada consulta. E em cada nova consulta de um mesmo paciente, enxerga-se outros fragmentos, com os quais muitas vezes, entre transferências e contratransferências, se misturam médico e paciente.

O juízo é difícil porque é necessário possuir potencial e instrumental éticos suficientemente amadurecidos. Assim, pode ser preciso retroceder diante de um juízo já feito. Devemos, como um magistrado diante de um caso de múltiplas possibilidades, instruir o processo, deixando o mínimo de vestígio de nossas mãos sobre a decisão, mas sabendo que sempre restará uma margem de interpretação, de liberdade no ato de julgar. O juízo é difícil porque nossa capacidade de perceber o “sujeito-tema” resvala nas nossas próprias metáforas.

“Mas é completamente diferente com o tratamento de objetivos, cuja natureza essencial consiste de operações vitais – o tratamento, a saber, da estrutura humana viva para levá-la de uma condição não saudável para uma saudável (que é a terapêutica) e a disciplina da mente humana para desenvolver e exaltá-la (que é a educação). Em ambos os casos, o tema sobre o qual trabalhamos não deve ser considerado e tratado de acordo com as leis físicas e químicas como os metais do metalúrgico, a madeira do lenhador ou o tecido e as cores do tintureiro. É impossível, portanto, que ambos, médico e professor, quando cuidando da mente ou do corpo, devam necessitar de um conhecimento antecipado de seu sujeito-tema, que possa conduzi-lo pela mão até o término do seu trabalho, assim como obter, talvez, um conhecimento das propriedades físicas e químicas dos materiais que ajude e conduza o metalúrgico, o curtidor e outros artesões até a perfeição dos seus. A vocação de ambos demanda outro tipo de conhecimento, assim como seu objeto, um indivíduo vivo, é completamente diferente.”

(Hahnemann, sobre o valor dos sistemas especulativos em medicina, 1984: 491-492).

É verdade que nem todas as praticas integrativas são válidas e que pode haver, entre elas, práticas pseudocientíficas. Algumas, sem o olhar atento de quem deve ter formação médica, podem ser, de fato, lesivas ao paciente. Destarte as medicnas integrativas exercidas com rigor e ética tem nas mãos, em síntese, uma possibilidade concreta de intervir no sujeito, desenvolveu uma semiologia generosa, podendo interferir na maior parte das enfermidades crônicas. É claro que encontram-se algumas lacunas: insuficiência teórica, já que uma reformulação de alguns pressupostos se faz necessária; restrições do arsenal terapêutico frente à diversidade humana e a assunção das atuais limitações e dificuldades para demonstrar a ação de sua eficácia terapêutica.

Na presente ausência de estruturas hospitalares adequadas (ou serviços que ao menos aceitem-na como uma possibilidade), como viabilizar todas as opções possíveis nos casos agudos e nas emergências? Como agir coerentemente e com responsabilidade clínica frente àquelas enfermidades que requerem suporte adicional, como reabilitação, cirurgias eletivas e até mesmo drogas convencionais? Estas todas são questões que, apesar de estarem aparentemente no âmbito da prática, merecem um melhor acolhimento nas futuras discussões epistemológicas.

Outro aspecto importante é o espaço e o tempo ocupados durante uma consulta. Este “tempo” pode ser visto como um obstáculo, quando se dimensiona em que tipo de sociedade vivemos. Ao mesmo tempo, representa um positivo resgate solidário no trato entre pessoas. Trata-se de um tempo absolutamente necessário para que o terapeuta possa reconstruir a história patográfica e biográfica do paciente. Tempo também precioso para que um “outro” possa ser traduzido por si mesmo para o terapeuta. Tempo para praticar a auto-observação, consiga ele se fazer entender ou não por nós, terapeutas, seus interlocutores. Suponhamos que possamos ensinar aos médicos que se deve equiparar a destreza com o cuidado, a perícia com a suavidade, e que tanto a acurácia como a efetividade devem ser pensadas, também, prospectivamente. Por que não ensinar aos médicos que se deve, sim, atender às doenças, mas ouvindo-se simultaneamente as metáforas daqueles que as apresentam que, de maneira uníssona, reclamam cuidados e escuta.

Este pode ser um sensível “termômetro” da potencial capacidade ética e compassiva do ato de cuidar. Também representa uma enorme economia aos contribuintes já que os procedimentos são em sua maioria ambulatoriais, portanto muito menos dispendiosos e o atendimento mais pessoal e artesanal possui enorme potencial para evitar intervenções desncessárias. Além de, quando for o caso, encaminhar e triar melhor os casos que precisam de atenção mais especializada e/ou hospitalar.

Talvez, aparentemente, as medicinas integrativas como medicina do sujeito não sejam a terapêutica mais adequada à lógica das sociedades atuais onde tempo representa apenas dinheiro e poder.

Mas, talvez, isso mesmo é que faça dela uma alternativa assistencial fundamental.

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Monocratismo e absolutismo esclarecido (Blog Estadão)

O fantasma de Santa Cândida mudou de espectro, agora ele é uma ideia com aparição onipresente. É básico ter isso em mente. Luis Ignacio é o termostato absoluto do reino da impunidade.  Estamos em uma Pátria passional. Guiada por instinto. Por isso, talvez, ninguém mais acerta os prognósticos. No País da gangorra emocional prevalece — parafraseando David Laing — fingir não ver o jogo que eles fingem não jogar. Cujas regras sabemos que eles não respeitam. O sobressalto pode vir durante um gol, em plena tristeza da eliminação da seleção na Copa, ou numa manhã melancólica de domingo sob a caneta de um magistrado de plantão.

Pedir intervenção militar, suspiros por ditadores autocratas, glamorização da truculência, é frequente, mas anacrônico e ridiculo. Destarte, muito mais perigoso e perturbador tem sido a irresponsabilidade das instituições. Ao contrário do que boa parte da midia tenta nos fazer crer, a opinião pública não está dividida. Inexiste, na prática, o “nós e eles”. A disputa em curso tem feito aproximações sucessivas para jogar sobre a mesa o risco de ruptura institucional. O ônus está nas costas do Poder cada vez mais isolado contra a esmagadora maioria da sociedade. A esquação seria algebricamente evidente, mas será preciso explicita-la: enquanto o condenado ex-presidente estiver detido ninguém está imune à justiça, se “cavam” sua liberdade — uma concessão monstruosa para quem praticou tantos crimes contra a Nação —  todos se tornam invulneráveis. É automático, é linear, auto-evidente.

E não é bem que a lava-jato tenha sido canonizada (o que seria sempre negativo), é que a premencia geral tem sido optar por exorcismos extremos contra aqueles que escarnecem da opinião pública, e porque não dizer, da própria jurisprudência por eles gerada.

Tivemos tanto trabalho para nos livrar da ditadura e do arbitrio para cair de monocratas ilegitimos que tratam de expulsar toda racionalidade do recinto dos colegiados para preenche-lo por paixões partidárias? Se era para cair nisso que tal voltarmos ao absolutismo esclarecido? Do déspota esclarecido poderiamos ao menos esperar um pensador do Estado. Ou alguém minimamente ilustrado que recolocasse na política algum sentido de coletividade e solidariedade. Sem duvida, melhor do que tribunais servicais e um parlamento movido a chantagens e comandado pelo medo dos dossies.

Vale lembrar que as jovens democracias não costumam sucumbir de morte subita. Elas vão sendo defenestradas pelo desgaste. Humilhadas por uma lenta e permamente indução voluntária de microcaos diário. Pelo envenenamento social regado a discursos que apresentam antidotos vencidos. Estamos testemunhando a história se desenrolar sobre as nossas cabeças e precisamos nos indagar: em qual posição ficaremos? Com quem contaremos a não ser com nós mesmos? Fala-se mal das redes. Com razão tenta-se coibir a propagação de falsas notícias, mas quem está se ocupando das fake news oficiais? Aquelas que emergem dos institutos de pesquisa que insistem em naturalizar a presença de gente inelegível. E daqueles que propagam estes resultados sem questiona-los. A falsificação intelectual emitida por candidados e analistas políticos também merecem atenção, aliás elas são potencialmente mais lesivas do que as falsas notícias, pois a contestação não está na checagem dos fatos, mas em desmontar sofismas bem articulados.

Na zona cinzenta entre o licito e o legal convém perguntar se a decisão dos monocratas de plantão, do Planalto ao Chuí, não visaria, ao fim e ao cabo, desmoralizar todo sistema juridico? Uma desqualificação indiscriminada viria a calhar para quem quer apenas usar os recursos postergacionistas para tumultuar e criar a cortina de fumaça necessária para vilipendiar a democracia. Entre outras vozes, o jurista Modesto Carvalhosa tem divulgado que a apuração secreta do pleito não é constitucional, muito menos democrática. Vale dizer, não basta que as urnas eletrônicas sejam confiáveis, elas precisam parecer fiéis guardiãs do pleito. O voto físico, pode representar para uma democracia, a mesma sacralidade que determinados objetos e rituais tem para as religiões. Afinal, negligenciar os simbolos é uma das mais falsas simplificações de nossos tempos.

A ideia genérica de que toda teoria que contesta as decisões que tem sido tomadas contra os interesses da sociedade é conspiratória serve apenas para desqualificar as denúncias. Mas eis que acabamos de testemunhar incontestáveis evidências: as conspirações existem e muitas delas estão em curso em sincronicidade com a ususrpação de funções de agentes públicos. Não seria bom nomear quem as patrocina para dar o aval para a anomia?

Pois desta vez o atingido não é uma pessoa, um segmento social, um grupo, partido ou minoria.

Desta vez o alvo é o País. A mira é clara, e a arma, posicionada. O risco é acertar na mosca. Quando falha, pode-se sempre continuar sabotando a democracia. Para a guerra de guerrilhas o desgaste do adversário é mais important do que a vitória.

A falsa hermenêutica do jornalismo instrumental (Blog Estadão)

Como se não bastasse o excesso de realidade nos empurrando ao beco, surgiram, nos últimos dias nas redes sociais e fora dela textos que se superaram em matéria distorção. É perturbadora o volume de desonestidade intelectual a serviço das causas. As peças mais recentes migraram às mídias jornalísticas com uma matéria publicada na FSP onde se traçava paralelos (sic) entre a política migratória norte americana e a estratégia nazista conhecida como “solução final”.

Esta e outras obras primas da política comparada tem aparecido com inédita abundância. Sob o generalizado pretexto de classificação falso  ou verdadeiro, empunhando a expressão “fake news”, os lados se acusam simultânemente. O resultado é a péssima qualidade da informação e o jornalismo a desserviço dos leitores. Se por um lado com esforço e honestidade é possível diagnósticar falsas notícias é muito mais complicado — mas a verdadeira tarefa do jornalismo imparcial e independente — detectar a falsa hermenêutica. Mais sutil, mais ardilosa e muito mais elaborada ela pode confundir e passar a impressão que é uma verdade sob a famosa expressão “contra fatos não há argumentos”. Porém eles existem e dependem como os fatos e as metáforas que se criam ao redor deles são expostas. Existem regras para interpretar realidade e texto e aboli-las não podem servir de álibi para afirmar o implausível. Tais regras existem desde a apreciação de uma obra de arte até um texto científico. A liberdade de expressão não pode contemplar a narrativa embuste sem contesta-la.

O problema, ainda sem um diagnóstico satisfatório deve estar bem em outro lugar: na pretensa aceitação da diversidade. No pseudo acolhimento do contraditório. Já descobrimos que o famoso adágio “contra-hegemonico” visaria, ao fim e ao cabo, execrar todo aquele que se recuse a fazer generalizações reducionistas para endossar o senso comum. Quem quebrar essa regra de ouro do jornalismo instrumental corre o risco de condenação pública. Fui obrigado a constatar em outro panfleto este gênero de insinuação. O redator afirmava que duvidar da estratégia de manipulação midiática — sobre como a mídia tratou o episódio dos abrigos infantis nos EUA — poderia merecer o titulo de “capo” (figura sinistra, relacionada aos outros presos que ajudavam/colaboravam com os nazistas nos campos de concentração). Acusar o outro de nazista, além de tese ignominiosa e uma analogia repugnante, é a inflexão grotesca que adota o discurso intolerante contra o qual pretensamente se insurgiu.

A comparação entre o holocausto e seus desdobramentos com o endurecimento da política imigratória dos países, por mais cruéis ou repugnantes que aparentem ser, enseja uma espécie de cinismo involuntário. O cinismo torna-se mais grave e menos involuntário na medida em que os argumentos evocam um moralismo supremacista. A comparação entre a política de exterminio nazista que criou o maior drama da civilização ocidental patrocinando 1.5 milhão de infanticídios com o grave problema dos shelters (abrigos) infantis de crianças separadas de seus pais nos EUA  não é só um exagero, não se trata apenas de um contraste hiperbólico, nao se limitou a lançar mão de superlativos inocentes: é uma fraude jornalística.

É, sobretudo, uma interpretação superficial, uma demonstração de distorção e imperícia para analisar os fatos históricos.
E quem será que a patrocina a distorção sistemática?

Fazer um paralelo moral destes requer a coragem de se expôr à estultice. Enxergo dois propósitos na divulgação desta pseudo tese: banalizar o holocausto como fazem sem igual a imprensa iraniana, os racistas do BDS, os jihadistas e terroristas palestinos e as Ongs ligadas aos financiadores da extrema esquerda, aos regimes judeofóbicos de extrema direita, ou a uma ingenuidade limítrofe que deve ser acolhida com piedade e condescendência, mas furiosamente combatida com mais informações. Uma pena que quem deveria fazer este trabalho é quem mais o impulsiona.

Quando a mídia deixa de ser analítica e torna-se jornalismo instrumental a favor ou contra uma causa, perde a função jornalística para tornar-se mero apêndice ideológico do regime ou proposta política/partidária defendida. Testemunhamos isso muito recentemente no discurso vitmizador do petismo e aliados.

Enquanto toda essa discussão se desenrola o músico racista Roger Waters — classificado pelo prefeito da cidade como persona non grata — faz show em Munique com projeções e incitamento à demonização dos judeus, e sob o manto do veto à islamofobia, os jihadistas europeus gozam de progressiva liberdade para oprimir as maiorias.

Eis uma época na qual precisavamos encontrar expressões fortes e sintéticas para expor nossa desolação: Céus. https://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/a-falsa-hermeneutica-do-jornalismo-instrumental/

Dicionário Eclético Universal (blog Estadão)

Dicionário Eclético Universal (últimos adendos)

Toga

Subs. Masc. Manto escuro e mágico muito utilizado para fazer desaparecer inconveniências políticas.

Capa mutante inventada em Brasília que transforma quem o usa em legislador monocrático.

Copa

Subs. Fem.

Empoderamento do topo das árvores.

Sin. Playground onde Putin vem exercitando czarismo ao ar livre.

Foro

Exemplos na literatura

“Querida, parece que deu cupim no forro privilegiado” in Peças anedóticas (San Bernardin)

Polarização

Estado de animo artificialmente exaltado, geralmente usado para simular oposição entre dois lados idênticos. Obs- pode apresentar variantes com sinais invertidos.

Ref. Não confundir “polarização” com respostas ao absurdo.

Ref.2 “Esquerda e direita unidas, jamais serão vencidas”(Nicanor Parra)

Oposição

Antiga, anacrônica e ultrapassada prática antes comum no sistema político chamado democracia, que consistia em fazer resistência à situação. Hoje desmoralizada e em completo desuso, especialmente na América Latina.

Fundo partidário

O oposto de raso tributário. Prática de legislar recursos marketologicos em causa própria emulando benefício coletivo.

Sin 1. Nomenclatura também usada como sinônimo de “fundo perdido” na linguagem popular.

Sin. 2 – 1.7 bilhão.

Recesso parlamentar

Cantinho escuso reservado para negócios de baixíssimo interesse republicano.

Militantes

Robôs com rebaixamento cognitivo comandados por controle remoto. (Obs- pilhas de fábrica duram muito pouco, recomenda-se reclamar com o produtor)

Fake news

Antônimo contemporâneo  de “eu sou a única verdade”

Transmissão obsessiva-paranóica ininterrupta da rede Cnn.

Ref. Não confundir com má interpretação de texto.

Concertação geral

Indução sistemática de amnésia coletiva.

Sin. Acordão para eleger representante ao cargo máximo com compromisso de conceder anistia ampla, geral e irrestrita aos criminosos institucionais.

Estadista

Espécie política sob risco de extinção. O registro do último espécime foi um avistamento numa floresta austral patagônica. Segundo relatos de testemunhas ele cobria a nudez com tanga de folhas avulsas descartadas de texto constitucional.

Desvio de função

Culto religioso ortodoxo praticado no Brasil por 13 anos.

Ref lit. “O Bessias está indo te entregar”

Constituição federal

Carta sem destinatário conhecido.

Sin. Objeto usado para idiossincrasias hermenêuticas. Rel. interpretações especializadas na arte da distorção.

CPI

Prática de investigação protelatória.

Ref. Simb. analogia na literatura “Para inglês ver”.

Condução coercitiva

Meio de transporte inevitável em grandes centros urbanos brasileiros.

Supremo Corte

Espécie de talho especial muito usado na alta costura.

Ref. Costuma expor decotes por muitos considerados indecorosos.

Acordo nuclear com o Irã

“Plutônio pode? ” Frase atribuída ao líder moderado da Guarda Revolucionária antes de ameaçar despejar material radioativo nos Países que ameaçaram não endossar o pacto.

Kim Jong

Conhecido golpe publicitário narcisista de corte de cabelo

Antissionismo

Doutrina que com pequenas ressalvas éticas prega a destruição dos judeus e de Israel

Antissemitismo

Doutrina que, sem ressalvas, prega a destruição dos judeus e de Israel

Petrobrás

Monopólio em permanente campanha por subsídios da sociedade.

Sin. O combustível mais caro do planeta.

Esquizocracia

Regime político baseado em acordos contraditórios, neologismos e governança baseada em slogans.

Sin. Estado de anomia gerenciado como se houvesse uma estratégia de Estado.

Homens públicos

Sujeitos com vaga noção de diplomacia, economia e estratégias para construir políticas públicas que postulam cargos legislativos com campanhas de marketing bilionárias.

Analog. Frequentemente são notórios iletrados, exímios locutores, ilustres atores amadores, rufiões nas horas vagas, imitadores de auditório, oportunistas fisiológicos que chegaram à linha sucessória, ex membros párias da hierarquia militar que pregam truculência ou eleitos que ocupam efemeramente o mandato alegando sacrifícios em busca de cargos mais altos.

Estado Policial

Movimento messiânico que pregava a solução política universal na suspensão das garantias individuais.

Segunda estância

Lugar onde alguns podem acabar gozando mais liberdade que outros graças às estâncias superiores.

 

 

 

 

 

 

 

Fisiopatologia da culpa e a elisão da linguagem (Blog Estadão)

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É muito provável que quem viu o excelente filme “1945” (Hungria, 2017) ficou apreensivo nas poltronas e saiu com a sensação de ter vivenciado uma experiência única: acompanhar didaticamente as etapas de como opera a fisiopatologia da culpa. Sabe-se que cerca de 250.000 judeus foram mortos nos países do leste europeu depois que o nazismo já havia sido oficialmente derrotado. O filme — que se passa num pequeno vilarejo húngaro — mostra dois judeus vestidos em trajes tradicionais ortodoxos voltando de trem para o que seria sua cidade natal. Sua enigmática chegada agita a vila com apreensões e, mais uma vez, reacende-se — num conhecido e abjeto automatismo — o “problema judaico” como Marx gostava de se referir aquele que seria um elemento estranho e perturbador dentro de suas propostas ideológicas. É sempre assim com doutrinas e ideologias, quando alguém ou alguma coisa não cabe nela, classifique-a como “problema” e, quando ninguém estiver por perto, elimine-a.

Imagino que boa parte das pessoas gostaria de acreditar — por conforto ou omissão — que isso é passado e o antissemitismo é página virada. Pois não é. Não faltam exemplos atuais. Uma parte dos legisladores na Polônia resolveu aderir à estratégia revisionista em alta mundo afora. A novidade agora é abolir o passado ou renegá-lo (o que parece ser cada vez mais tentador quando se fundem caneta e poder) através da criminalização instrumental da linguagem. A partir de agora o uso de expressões como “polish death camps” ou “campos de extermínio poloneses” será rigorosamente punida.  Em recente sessão o parlamento polonês aprovou a resolução, que depois foi aprovada pelo senado, e agora apenas aguarda a sanção presidencial para entrar em vigor. O conteúdo poderia ser engraçado se não representasse um escárnio contra a história e um atentado à livre expressão. A lei em vias de ser aprovada: será crime passível de punição legal e pena que inclui a prisão por até 3 anos de detenção para quem, por exemplo, usar a expressão “campos de extermínio poloneses”. De fato, para sermos justos, os campos onde se naturalizou a chacina e a crueldade contra judeus e outras minorias, foram instalados pelos invasores alemães em território polonês. O que não se consegue explicar — e a justificação funcionaria como confissão — é por que 250.000 judeus encontraram a morte, a espoliação de bens e a expropriação de patrimônio bem depois que os nazistas foram derrotados. A solução imaginada aqui e acolá é apenas uma tentativa ineficiente de reverter a culpa pela conivência de uma parcela da população e governos à época da guerra. Mais eficaz seria mudar esta percepção expondo os horrores de toda forma de intolerância, mas as soluções fáceis e sinistras são as mais caras ao nosso tempo. Virou hábito retorcer os processos históricos, de fato é um dos vícios em nossa era.

O que vale notar é que fenômenos como este denotam — mais frequentes nas extremas esquerda e direita — algo para além do mero revisionismo. É a linguagem que entra em mutação para construir uma elisão instrumental da linguagem. E a armadilha não é só a proibição de narrativas incomodas. A legenda do clube associativo Psol-PT recém publicou uma nota que repudia a presença da comissão LGBT de Israel na parada Gay realizada em São Paulo, por sinal, o único País democrático do oriente médio e também o único que não discrimina esta comunidade. Enquanto isso, os arautos da probidade socialista exaltaram a delegação palestina onde os gays são rotineiramente esfolados vivos. Não é caso isolado, a estupidez política tomou proporções de pandemia e a desonestidade intelectual assumiu o comando naqueles que deveriam ser os grandes centros do saber.

O mesmo engano persistente na análise do acirramento atual entre Israel e as organizações que declararam abertamente em sua “carta”constitucional o desejos de exterminar aquele Estado. A estratégia adotada, e muito bem aplicada, por parte dos grupos terroristas, com destaque para o Hamás que oprime — diante dos olhos inertes do mundo — os cidadãos na faixa de Gaza. Usando táticas da chamada guerra assimétrica e financiado pelos aiatolás iranianos, monarquias árabes  e jihadistas mundiais eles buscam na imolação de sua população civil numa tática para fazer ressaltar a suposta “desproporção” de forças. Apesar de ser patente o desequilibro, nem de longe, ele tem sido transferido à ação. Existem vários relatórios — pouco divulgados por uma imprensa especializada na pré condenação do Estado judaico — que as forças de defesa de Israel têm um dos exércitos que mais se preocupa com a preservação da população civil.

Está acontecendo em tempo real, aqui e agora. Hoje mesmo que é o dia final do Ramadã, o mês de jejum dos islamistas, a população civil de Gaza está sendo “convocada” — a 100 dólares a cabeça — para ir até a cerca que separa os dois territórios para lançar pipas incendiárias, coquetéis molotovs e outros artefatos caseiros, porém mortais, contra a fronteira sul de Israel. A mídia tem se esmerado em cobrir o “lado mais fraco” esquecendo-se que Israel já devolveu Gaza aos palestinos há quase uma década além de fornecer água, combustível e energia aos seus habitantes, a despeito dos mísseis e morteiros que recebe em suas cidades, nos parques e nas escolas do sul do País. Enquanto isso boa parte da ajuda bilionária recebida é direcionada pelos dirigentes palestinos para táticas de guerrilha, compra de material bélico e construção de túneis para infiltrar terroristas Vale dizer, Israel pode cometer erros, mas entre eles nao está a despreocupação com o caráter e espírito humanista que fundou as bases sionista para o retorno dos judeus à sua terra ancestral.

O que se vê entretanto na linguagem escrita e falada — No Brasil e pelo mundo — sao as velhas e ressuscitadas acusações contra Israel e seus habitantes que sim, lembram a pregação sistemática contra os judeus durante o III Reich alemão. A testeira dos jornais e nas manchetes Israel figura como um vilão a priori, de qualquer forma, em todas as circunstâncias. É sob esta manipulação que vivemos, com o agravante de que isso é muito mais grave do que a mera adulteração das notícias: envolve um esgarçamento da linguagem. Um passo então, para tentar obter o monopólio do pensamento. Assim, a comunicação confessa, sob tortura, que a elisão linguística encontra-se de fato instalada no mainframe. Pois o que será que estes jornalistas e professores universitários aprenderam na graduação sobre o conflito israelo-palestino  senão uma doutrinação maniqueísta reiterada e nada reflexiva de que o Estado hebreu é o algoz e a eternas vítimas são os palestinos. Pois não é  que as “vítimas” escutaram as aulas magistrais e assimilaram a doutrina?

Hoje as lideranças terroristas perceberam que a propaganda de vitimização e falseamento de dados e imagens traz um saldo um pouco mais efetivo e é bem mais econômico do que providenciar a logística para os homens-bomba. A tática tem cobrado um alto preço para os judeus em Israel, mas também fora dele. O que o Ocidente ainda não detectou é o tamanho do arrastão que o aguarda. O preço impagável que essa mesma demonização gerará, como efeito-espelho — sobre as sociedades europeias como um todo. Se os refugiados merecem abrigo, o mesmo não se pode dizer dos jihadistas do Islã radical, que hoje gozam de tolerância excessiva dos países da União Europeia. No entanto, à portas fechadas,  já é possível perceber a insônia em Bruxelas e alguns começam a admitir o tamanho do equivoco em receber milhões sem criar uma estrutura econômica e social que os acolha. E principalmente a indulgência exagerada O excesso de civilidade com a barbárie pode ser um sintoma de falência da cultura, pois como escreveu Isaiah Berlin, “liberdade para os lobos significa morte para as ovelhas”.

Segundo a matéria publicada no NYT, a intenção dos legisladores é redirecionar a culpa que ainda pesa — justificadamente — sobre a Polônia durante a segunda guerra mundial e fazê-la recair, exclusivamente, sobre os nazistas alemães. Este escritor, descendente de judeus poloneses — cujo avô serviu o exército da Polônia  —  tem orgulho de ter ele mesmo uma parcela polonesa e sugere portanto que as autoridades locais abandonem ou reformulem o projeto.

A história já nos ensinou que a farsa, mesmo quando muito bem estruturada, acaba desmontada pela própria força dos eventos e, como um elástico super tensionado, quando não há mais nada artificial que o detenha, volta com violência à posição original, espirrando para longe toda impregnação manipulada. Há um bumerangue à deriva, e ele está vindo com força direto em nossa direção. Desta vez, não desviaremos.

https://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/fisiopatologia-da-culpa-e-a-elisao-na-linguagem/

 

 

O antônimo de político ou o ano no qual (quase) perdemos a paciência. (blog Estadão)

Não é fácil encontrar esperança sendo um leitor de jornais, dando uma volta no quarteirão do bairro, ou sentindo o clima que paira por ai. É preciso negar o que se vê, ou, como querem os psicanalistas, ressignificar a realidade. Isso significa que é altamente provável que o estoicismo seja uma virtude. Viver não contra, mas à revelia das vicissitudes. A reboque das adversidades. E imitando o famoso Príncipe da Dinamarca, Hamlet, pegar em armas contra o mar de calamidades. Ou como o Marques de Pombal diante da Lisboa arrasada pelo terremoto de 1755 quando exortou os seus para “enterrar os mortos e cuidar dos vivos”.  A extrema objetividade pode ser equivocadamente encarada como insensibilidade, mas muito provavelmente seja apenas um indício de alta resistência psíquica. Depois dos atropelos do País, e da inépcia política generalizada, o que nos resta senão sobreviver ao “mar de calamidades” usando as armas disponíveis.

Que ninguém pense que especulo tomado por otimismo, ingenuidade, ou faço uso de antidepressivos (mesmo porque a maioria deles só atua em depressão grave e não sobre a infelicidade reativa ou a depressão com nossa esquizocracia sem resultados). Sou provavelmente muito mais adepto dos preceitos de Schopenhauer do que a maioria dos meus conhecidos, mas a política deveria ser encaminhamento, não pathos.

Tampouco há fórmula pronta alguma, pois vivemos a atual fase de torneio para a cidadania olímpica com a prova de cem metros rasos com abismos consecutivos. Ainda assim, não deve nos impedir de enxergar a legião de pavios apagados no fim do túnel. Se houvesse uma generalização, seria viver sem prestar atenção ao excesso de contradições. Viver sem uma pauta. Viver sem ser tutorado. Abolir as bulas prescritivas, inclusive esta aqui. Sem encarar o político como elemento escravizador. A política não é tudo. Mas também, evitar abjura-la. Considerem que, no glossário subjetivo, não existe uma palavra que seja antônimo de política. Decerto não é antipolítica, nem apolítica. Estamos condenados a ela. É ontológico e constitutivo. Notem que mesmo a alienação está nela compreendida. Destarte, podemos vivencia-la sob uma compreensão mais elástica. Sem a ideologia como grade. A vida está sempre sob cerrado teste empírico. Quem abandona as experimentações estará se condenando a praticar inércia, não existência.

Por que será que somos obrigados a nos posicionar sobre tudo? A neutralidade seletiva pode ser higiênica para a saúde mental. Se ninguém é mesmo livre, precisamos assumir. Como Ernst Becker escancarou, somos negadores crônicos da morte. Se não há lugar, Estado ou condições de plena liberdade, e ao cabo, nosso fim terá o mesmíssimo destino, que tal exercer a micro história individual? Como se fosse um épico? Como se o último ato vigorasse a cada segundo? Trata-se de uma questão de proporção: a frequência de normalidade benéfica supera numa proporção de 10 para 1 as anomalias tétricas. O status quo é maçante? Muito melhor do que recusa-lo ou apostar em transformações inoperantes.

É preciso aceitar nossa neurose — mais até, usufrui-la — com a mesma resignação com que o vulcão decide fazer jorrar as perigosas ondas piroclásticas.  Quando se trata da natureza — e como somos parte dela  — mesmo com toda rede de sismógrafos integrados, ainda hoje não se pode prever a eclosão da lava com exatidão matemática. O essência do acaso é nao só a incognoscibilidade, mas o  incontrolável. Se a neurose é mesmo tão incurável como parece, que tal assimila-la?

Isso significa que o bem estar é uma escolha?  Provavelmente não. Quando descobrimos que a principal transcendência não é, nunca foi, exógena pode ser tarde. E se a tomássemos como somente um imenso efeito colateral das nossas posturas?

O mal estar na cultura denunciado por Freud é cíclico e pode nunca chegar ao fim. De qualquer forma, nós continuaremos aqui, de passagem. Somos mais do que teimosos: nunca nos renderemos.

Do extremo centro – blog Estadão

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Em 2013 comecei a contribuir com este valioso jornal. Um dos primeiros artigos publicados no blog “Conto de Noticia” comentava a marcha do movimentos de rua que pediam “Tarifa Zero”. A perplexidade tomou conta da sociedade e ali gerava-se uma reação em cadeia que, ao fim e ao cabo, culminou, três anos depois, com o impeachment e o início do combate à corrupção e aos desvios de função do Estado.

De lá para cá colhemos os frutos dos desmandos do petismo e associados. As forças se reagruparam, novos atores chegaram, mas nenhuma delas mudou essencialmente sua índole oportunista.  O resultado das benesses populistas não tardaria em aparecer. Mais uma vez os habitantes do País marcham para que o Estado assuma responsabilidades indevidas: seremos viciados em subsídios? No País perturbado pelo verdadeiro sítio imposto pelo anarco-sindicalismo, detecta-se a mesma acefalia nas lideranças políticas, a polarização fulanizada e a inação do poder. Sob a maior recessão de sua história republicana o País emudeceu sem um porta-voz razoável.

Ou devemos assumir a esclerose e propor que a solução para a crise institucional que o conjunto de erros criou é abandonar o País à regressão?  Se não for um “Ministério do Desabastecimento” a opção pode ser ‘Gestão baseada em Incompetência’. E apesar de tudo isso, é o que temos. Quem insiste em atropelar o governo com caçambas colocaria quem no lugar? Pois é, por incrível que pareça — à luz da combalida constituição federal — fora o vácuo, não há ninguém melhor à vista.

E todos nos perguntamos:  será preciso inventar o que ninguém pensou para escapar do cerco e do impasse crônico? Qual será a origem da profunda insatisfação que nos assola?

Neste contexto, a única novidade aceitável seria uma mobilização apartidária e pluri institucional que gerasse uma cultura comprometida com o bem estar como premissa fundamental.

Se o País assumiu o perfil de ingovernável, a criação de uma nova cultura pode ser uma forma de ultrapassar os ditames da sociologia tradicional, que, como se vê — também se esgotou como instrumento de análise e estabelecimento do mínimo de previsibilidade política. O mais revolucionário de todos os caminhos não será extrema esquerda ou direita. Se ainda houver saída, será encontrar os atalhos até o extremo centro. Para tanto, será preciso observar alguns pontos:

Em oposição aos clamores das ruas, dispensaremos populistas condenados, golpes militares, eleição de sujeitos fortes, vigorosos e violentos.

Só um contundente caminho do meio que seja ideologicamente fraco — pois flexível —  traduzido por um comportamento intolerante com toda radicalidade politicamente correta. Destarte, trata-se da própria sobrevivência da democracia. Pois a obsessão com o politicamente correto não examina, oculta. Não dialoga, decreta. Não amplia, reduz. É o próprio berço que embala as Fake News. Desprovida de curiosidade intelectual a postura de que possam existir itens do pensamento que são inegociáveis petrifica a vida e a política. Aparente paradoxo? Esta acusação desfaz-se ao verificarmos quantos assuntos estão “cientificamente” decididos peremptoriamente pelos formadores de opinião que editam os slogans e os estamentos do Poder. E isso também acontece nas redações dos jornais e no Congresso, nas Universidades e nas militâncias partidárias, nas ruas e nas casas. O que naturalizamos como o monitoramento manipulador do que é o correto nada mais é que senso comum racionalizado pelo maniqueísmo. É o tutorar que trava todas as pautas, uma vez que a busca por consenso pressupõe ceder à argumentação e não odiar mortalmente o interlocutor.

Só uma visão plástica e sensível pode mudar a política que se acostumou a contemplar a realidade à luz da convicção. Há mais homens coerentes e de opiniões fortes nos gabinetes produtores de catástrofes sociais do que podemos supor.

Por que será que o  suspiro atual da sociedade é por um líder político não profissional —  que por uma incompreensão ou preguiça intelectual a mídia insiste em traduzir por antipolítico? Porque a política tradicional expandiu a dissonância entre o poder e as necessidades das pessoas (eufemismo para povo) e já há a percepção clara de que a super especialização de um profissional do voto pode ser insuficiente para captar as reais necessidades e problemas contemporâneos. No imaginário coletivo só alguém “externo” poderia compreender e encaminhar essas demandas.

Plausível ou não é assim que a fantasia cresce na opinião publica.

Precisamos de mais homens e mulheres, tanto maleáveis como refinados, que só consigam trabalhar em equipe. Será preciso dispensar lideranças carismáticas que monopolizam decisões, poder e impostos. O sempre lúcido Roberto Romano escreveu: só a descentralização dará conta de amenizar a corrupção. Mesmo que prendam todos, especialmente aqueles que afundaram a economia, que as empresas sejam penalizadas, o Estado Policial para o qual hoje caminhamos pode apenas suprimi-la provisoriamente. Por outro lado, se ainda somos uma federação, será necessário fortalece-la através da pulverização da concentração da arrecadação. Essa medida teria o potencial para encaminhar uma solução de longo prazo.

Esta é a diferença entre medidas paliativas temporárias e soluções estruturais através de políticas de estado.

Aqui vem a segunda parte. Nenhum Estado laico pode imaginar que seus políticos podem prescindir de algum aprendizado filosófico e psicológico sobre si mesmos. Obviamente, existe um entrave chamado delta tempo. Reformar o legislador é uma tarefa que requer séculos e paciência. O espírito de conciliação que alguns vem propondo para apaziguar o País só poderia ser alcançado se todos assumissem suas responsabilidades.

Sem autocritica, a reconciliação não passa de recalque.

O famoso psiquiatra austríaco Viktor Frankel, ex prisioneiro em quatro campos de concentração da Alemanha nazista, explicou a um entrevistador perplexo que ele proporia abolir o item da constituição americana que preconizava a “busca da felicidade”*

Diante do intrigado ar do jornalista, o psiquiatra afirmou que se desejamos alcançar a felicidade e o bem estar eles não devem ser buscados. Os discursos de estímulo à autoajuda são um blefe, um engodo institucionalizado. Finalmente, Frankel entende felicidade e bem estar como “efeitos colaterais da auto transcendência do homem”, isto é, promover o bem estar e servir à sociedade sem esperar reciprocidade ou benefícios. Não se trata de principio religioso nem de um estamento político, mas de um mergulho em sua experiência pessoal que reemergiu como percepção das muitas dimensões do homem.

Não seria a índole perfeita para o político? Será muito exigir isso de um homem público?

Possivelmente.

Mas podemos começar a exigir de nós mesmos.

*”And hold these truths to be self-evident, that all men are created equal, that they are endowed by their Creator with certain unalienable Rights, that among these are Life, Liberty and the pursuit of Happiness”

Yom Hashoah – nenhuma tinta reescreverá a história (blog Estadão)

 

 

 

Max Planck costumava dizer que uma tese estaria condenada quando não houvessem mais pessoas dispostas a defende-la. Neste sentido é possível afirmar que mesmo se todas  as teses estivessem proscritas, o dia de lembrança das vítimas do holocausto nazista sobreviveria.

Por decurso de prazo ou déficit de defensores a história do holocausto que os nazistas infligiram a pelo menos 6 milhões de judeus, permanecerá, mesmo contra todas as forças revisionistas que lutam para borrifa-la. Precisamente aí reside a força do “nunca mais”.

Este é o dia ideal para lembrar outros massacres e genocídios tão hediondos quanto aqueles que os judeus sofreram  — como o genocídio circassiano em 1864 que eliminou 1,5 milhão de seres humanos, o milhão de armênios dizimados pelos turcos entre 1915-1923, o extermínio em Ruanda de 800 mil pessoas da etnia tutsi em 1991 perpetrado pelos hutus  e, recentemente, minorias cristãs praticamente exterminadas pelos militantes terroristas do Estado islâmico, ou as ditaduras Maduro e Assad que hoje esmagam respectivamente o povo venezuelano e sírio — não parecem mobilizar suficientemente a comunidade internacional.

Agora que a Síria assume — num episódio digno de integrar o teatro do absurdo de Alfred Jarry — a presidência do Comitê de desarmamento da ONU e o clérigo chefe do Quds, o  braço armado da Guarda Revolucionária do regime teocrático iraniano, acaba de ameaçar destruir as cidades israelenses de Haifa e Tel Aviv — é difícil imaginar um mundo com inversões tão bizarras.

Neste dia em que se rendem homenagens à memória dos seis milhões de judeus mortos é preciso ir além do slogan “nunca mais”. É preciso, por exemplo, que as mídias jornalística e televisiva parem de produzir manchetes enganosas, como recentemente fez o site Uol.  Pois este portal produziu uma autêntica fake news quando ilustrou  a manchete dos conflitos de Gaza colocando fotos ilustrativas da matéria crianças vitimas dos ataques de armas químicas lançadas contra a população civil pela associação entre Irã-Siria com a colaboração russa.

A retroalimentação contemporânea do velho-novo antissemitismo obedece duas vertentes : 1- a máxima cunhada pelo filósofo francês Bernard Henry-Levy de que as duas grandes religiões  contemporâneas são o antissionismo e o antiamericanismo 2- a construção de uma aberrante imagem negativa a partir de uma política xenofóbica seletiva: é interditado qualquer menção acerca problemas e desafios causados pela maciça imigração para a Europa, porém passou a ser aceitável  que discursos da extrema direita e da extrema esquerda, evoquem de forma quase uníssona toda sua verve antissemita sob o escudo de uma crítica ao Estado de Israel.

Não que o Estado Hebreu não cometa equívocos que estejam acima das cobranças da comunidade internacional, mas chama a atenção o alarmante número de ações que o condenam diplomaticamente. Justo um País que  longe de ser perfeito aceita a igualdade de gêneros, não discrimina minorias, árabes israelenses tem os mesmos direitos e deveres, protege a liberdade religiosa, e acolhe a diversidade humana. A lógica pode ser invertida. É exatamente porque os líderes entendem o que significaria a paz e a criação de dois Estado que apostam na tática do terror. Ao contrário da população lideranças como a do Hamas tem interesses pecuniários evidentes para não desejar a paz. Acusa-se com enorme facilidade o único país com democracia estável no qual nunca houve apartheid, ao contrario do que os detratores argumentam.

Torna-se fundamental analisar a verdadeira desproporção. Quase 70 % das ações de reuniões do Conselho de Segurança foram para discutir sanções contra Israel. Em estudos recentes 66% dos norte americanos não acreditam que o holocausto realmente tenha ocorrido. A Europa registrou a maior onda de ataques contra instituições judaicas. A mais intensa desde o período pré segunda guerra mundial.

Entre nós, mais recentemente, um obscuro suplente do Psol produziu um libelo antissemita clássico, descobriu-se que “militantes de esquerda” da Faculdade de Direito da Usp foram capazes de elaborar um “fichamento” com perfil dos estudantes e ali escancarou-se toda  taxonomia racista e beligerante desse grupo de patrulhadores da vida alheia. Alguém foi ali “fichado”pelos nobres futuros advogados como: “ideologia desconhecida, judia”(ver ilustração). Em outro evento, no ano retrasado, também em pleno campus da Usp em um evento no qual se discutia a matriz ideológica “nacional- desenvolvimentista”, a plateia pediu em coro “o fim de Israel” .

O que isso significa? É literalmente o fim de uma era? O que se ensina nas Universidades? Qual é a versão predominantemente? O sonho de liberdade foi substituído por uma série de equívocos, pregados por uma subsidiada distorção persistente.  E não há uma matriz ideológica única.  Frequentemente a judeofobia emerge de uma esquerda retrógrada que parece estar se unido ao que há de pior da direita, para que ambas vociferem fórmulas históricas malignas, cuja repetição costuma evoluir para a catástrofe.

Já é tempo de uma profunda reavaliação de valores e colocar limites, dando um basta definitivo na insensatez.

Ou não, desceremos coletivamente ao todos contra todos, e colheremos os magníficos frutos do eterno retorno à barbárie.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/yom-hashoah-nenhuma-tinta-reescrevera-a-historia/

Hahnemann, humorismo, e a razão da ética (Blog Estadão)

Paulo Rosenbaum

O prestigiado jornalista Sérgio Augusto trouxe importante informação em sua recente coluna no Caderno Aliás. Evocando os verbetes de um peculiar dicionário imaginário, trouxe, entre tantos tópicos, aquele que me levou a formular o atual artigo.

Ali escreveu: “Homeopata: o humorista da medicina”.  A graça está na brincadeira com a palavra “humor”. Se pensarmos humorista como aquele que conhece bem a antiga terminologia dos “quatro humores” descritos pelo pai da medicina técnica, Hipócrates, ele acertou. Ainda hoje, o aspecto das constituições e temperamentos em medicina pode ter um papel relevante. Um exemplo disso é que a medicina caminha para uma prescrição cada vez mais individualizada — como preconizada pelo médico alemão e fundador da homeopatia Samuel Hahnemann 1755-1843.

Também faz sentido se pensarmos em outro aspecto do verbete: que através do senso de humor os médicos que a praticam podem funcionar como uma espécie de superego auxiliar da prática médica…

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Hahnemann, humorismo, e a razão da ética (Blog Estadão)

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O prestigiado jornalista Sérgio Augusto em sua recente coluna no Caderno Aliás evocou verbetes de um peculiar dicionário imaginário, ali ele trouxe, entre tantos tópicos, aquele que me levou a formular o atual artigo.

Ali escreveu: “Homeopata: o humorista da medicina”.  A graça está na brincadeira com a palavra “humor”. Se pensarmos humorista como aquele que conhece bem a antiga terminologia dos “quatro humores” descritos pelo pai da medicina técnica, Hipócrates, ele acertou. Ainda hoje, o aspecto das constituições e temperamentos em medicina pode ter um papel relevante. Um exemplo disso é que a medicina caminha para uma prescrição cada vez mais individualizada — como preconizada pelo médico alemão e fundador da homeopatia Samuel Hahnemann 1755-1843.

Também faz sentido se pensarmos em outro aspecto do verbete: que através do senso de humor os médicos que a praticam podem funcionar como uma espécie de superego auxiliar da prática médica. Isso porque cresce pelo mundo a ideia de slow-medecine, (ou medicina com timing) a saber, uma prática que tenta ser mais cuidadosa e menos intervencionista no manejo terapêutico. Isso significa menor grau de “overdiagnosis” ou em tradução livre “superdiagnosticos”, os quais, não infrequentemente, conduzem à práticas e tratamentos invasivos desnecessários, ou, que fazem os pacientes sofrerem riscos aos quais eles não necessariamente precisariam ser submetidos. Considerando que a epidemiologia clínica consiste em colocar numa balança, de um lado o que protege, e, de outro, o que expõe o paciente aos riscos, essa conduta  pode ser a mais racional e adequada para os nossos dias.

Entao, de fato, o jornalista produziu, decerto involuntariamente, um elogio, e ainda prestou uma justa homenagem a  uma especialidade médica reconhecida pelo CFM e usada por milhões de brasileiros e por pelo menos 180 milhões de europeus.

O Prof. Walter E. Maffei, médico neuropatologista e um dos mais eruditos professores de Medicina —cuja docência na PUC e na Santa Casa ajudou a formar gerações de médicos criticos —  ilustrava uma de suas aulas projetando imagens de gatos e afirmando que aqueles que tinham a discrasia alérgica despertada por alguma idiossincrasia poderiam apresenta-las apenas com a “lembrança”desta experiência. Era e é um fato empiricamente constatável para quem quiser reproduzir o experimento que evidencia as relações óbvias porém pouco compreendidas entre as interações mente-corpo.

Ampliando um pouco a abordagem, evoco este aspecto acima diante do excesso de polêmica acerca das práticas integrativas. Às vezes, as pessoas perguntam, diante de sua eficácia e abrangência clinica, especialmente na atenção primária à saúde e no prevenção e tratamento das moléstias crônicas, como se explica que algumas práticas médicas como por exemplo a medicina tradicional chinesa, a medicina Kampô (Medicina japonesa) e a homeopatia nunca tenham se universalizado como formas de atendimento?

Teríamos que lançar mão de uma análise multifatorial. Mas o primeiro e mais importante é a dificuldade para estabelecer núcleos de pesquisa independentes. Sem eles, todo avanço farmacotécnico em medicina fica sujeito à lógica exclusiva dos interesses — e dividendos — ditados pela indústria farmacêutica e seus braços corporativos. Pode parecer, mas esta não é uma tese conspiratória, apenas constatação de fatos que vem se avolumando nas últimas décadas.

E por que a indústria não investiria em um ramo tão promissor e potencialmente lucrativo?

Porque as substâncias medicinais homeopáticas são um bem público, isto é, um conjunto de medicamentos e procedimentos que constituem um patrimônio da humanidade. Isto é, não incidem royalties ou patentes sobre nenhuma substância usada nestes fármacos. Ouso também afirmar que, somadas a estas dificuldades, existe um outro entrave. Trata-se da natureza de uma parte do establishment que defende as integrativas e que se comporta como agremiação futebolística no qual o antagonista é a Big Pharma. O mesmo acontece com aqueles que sempre as atacam com argumentos evasivos “demonstrando”cabalmente sua “ineficiência” ou no fragilíssimo jargão de “ falta de ética.” Trata-se da mesma é repetitiva qualidade de objeção que se faz, por exemplo, à psicanálise.

A compreensível atitude defensiva das práticas integrativas contra as acusações de ineficácia é causa e consequência da relutância em fazer a autocrítica necessária para apontar onde e quando podem atuar, identificando assim suas deficiências e limitações. Para a medicina de inspiração vitalista — cuja tradição remonta à medicina hipocrática — não se pode falar em resultado clinico no singular, mas em ações amplas da terapêutica.

Tanto as correntes que equivocadamente brigam contra o mainframe da ciência, como aquelas que querem uma adaptação absoluta a ponto de abrir mão de seus critérios característicos, se equivocam. Se por um lado ela se apresenta como uma outra lógica médica, de outro, ela precisa assimilar-se à cultura científica corrente se quiser ser levada a sério. Isso significa que a medicina integrativa acaba falhando, pois não consegue nem mudar a chave, nem se fazer entender pela linguagem contemporânea. O erro fundamental está numa recusa inconsciente destas correntes e de seus antípodas  — tanto as que querem se manter como uma casta independente da medicina contemporânea como as que querem se fazer pertencer não importa o sacrifício epistemológico que teriam que fazer — em aceitar que de uma forma ou de outra a única saída para que uma tese seja aceita nas sociedades modernas é sua penetração na cultura através da pesquisa e da discussão. Com a ressalva de que nem toda prática integrativa  apresente legítima consistência para se tornar uma atividade fornecida pelo Estado.

Somente essa distinção e pertencimento à cultura garantiria a permanência de uma formulação sofisticada como é a proposta de uma terapêutica pautada, no caso da homeopatia, por exemplo, que usa o princípio dos semelhantes. Aliás o mesmíssimo  princípio usado pela lógica das vacinas para imunizar a população.

Sofisticada, porque pretende inclusive discutir critérios que pouco se discute como, por exemplo, critérios de cura. Uma das mais importante, e, ao mesmo tempo, a mais negligenciada das questões epistemológicas em medicina. Notem que hoje já existem núcleos de pesquisa na medicina que discutem a validade dos protocolos, o cálculo de risco para alguns procedimentos terapêuticos e principalmente o já evocado superdiagnóstico[1].

A homeopatia deve ser apresentada não como uma alternativa com todas suas conotações contra-culturais, mas como um processo que dialoga com a ciência naturais, e, ao mesmo tempo, coloca a necessidade de uma medicina do sujeito descolada da psicanálise, e no centro da discussão das ciências humanas.

Curioso ou apenas idiossincrático que valorizo Samuel Hahnemann mais como filósofo da medicina do que metodólogo da ciência. Isso porque acho que a medicina do sujeito não é um detalhe técnico, mas a base de sua concepção antropológica, a qual, por sinal, adotava uma generosa admissibilidade da diversidade dos homens. Assim ele suprimia, ao mesmo tempo, tanto o caráter moral maniqueísta da visão penitencial do adoecimento, como a redução do corpo ao instrumento objetal que a medicina acabou adotando com uma normatividade perturbadora. É provável que ele desse muitas gargalhadas de tantas teorias a respeito dele e de suas ideias. Talvez devêssemos rir com ele e nos declarar impedidos para fazer afirmações definitivas sobre os misteriosos caminhos da cura. Seria um bom presente de aniversário para quem um dia declarou: “a vida é um clarão”.

[1] Overdiagnose – o superdiagnóstico caracteriza-se em valorizar excessivamente os exames subsidiários e atribuir importância excessiva a distúrbios que talvez não merecessem tratamento, pois seriam patologias inofensivas ou “amigáveis” ou que o custo orgânico e psiquico são demasiadamente elevados para os pacientes.