Yom Hashoah – nenhuma tinta reescreverá a história (blog Estadão)

 

 

 

Max Planck costumava dizer que uma tese estaria condenada quando não houvessem mais pessoas dispostas a defende-la. Neste sentido é possível afirmar que mesmo se todas  as teses estivessem proscritas, o dia de lembrança das vítimas do holocausto nazista sobreviveria.

Por decurso de prazo ou déficit de defensores a história do holocausto que os nazistas infligiram a pelo menos 6 milhões de judeus, permanecerá, mesmo contra todas as forças revisionistas que lutam para borrifa-la. Precisamente aí reside a força do “nunca mais”.

Este é o dia ideal para lembrar outros massacres e genocídios tão hediondos quanto aqueles que os judeus sofreram  — como o genocídio circassiano em 1864 que eliminou 1,5 milhão de seres humanos, o milhão de armênios dizimados pelos turcos entre 1915-1923, o extermínio em Ruanda de 800 mil pessoas da etnia tutsi em 1991 perpetrado pelos hutus  e, recentemente, minorias cristãs praticamente exterminadas pelos militantes terroristas do Estado islâmico, ou as ditaduras Maduro e Assad que hoje esmagam respectivamente o povo venezuelano e sírio — não parecem mobilizar suficientemente a comunidade internacional.

Agora que a Síria assume — num episódio digno de integrar o teatro do absurdo de Alfred Jarry — a presidência do Comitê de desarmamento da ONU e o clérigo chefe do Quds, o  braço armado da Guarda Revolucionária do regime teocrático iraniano, acaba de ameaçar destruir as cidades israelenses de Haifa e Tel Aviv — é difícil imaginar um mundo com inversões tão bizarras.

Neste dia em que se rendem homenagens à memória dos seis milhões de judeus mortos é preciso ir além do slogan “nunca mais”. É preciso, por exemplo, que as mídias jornalística e televisiva parem de produzir manchetes enganosas, como recentemente fez o site Uol.  Pois este portal produziu uma autêntica fake news quando ilustrou  a manchete dos conflitos de Gaza colocando fotos ilustrativas da matéria crianças vitimas dos ataques de armas químicas lançadas contra a população civil pela associação entre Irã-Siria com a colaboração russa.

A retroalimentação contemporânea do velho-novo antissemitismo obedece duas vertentes : 1- a máxima cunhada pelo filósofo francês Bernard Henry-Levy de que as duas grandes religiões  contemporâneas são o antissionismo e o antiamericanismo 2- a construção de uma aberrante imagem negativa a partir de uma política xenofóbica seletiva: é interditado qualquer menção acerca problemas e desafios causados pela maciça imigração para a Europa, porém passou a ser aceitável  que discursos da extrema direita e da extrema esquerda, evoquem de forma quase uníssona toda sua verve antissemita sob o escudo de uma crítica ao Estado de Israel.

Não que o Estado Hebreu não cometa equívocos que estejam acima das cobranças da comunidade internacional, mas chama a atenção o alarmante número de ações que o condenam diplomaticamente. Justo um País que  longe de ser perfeito aceita a igualdade de gêneros, não discrimina minorias, árabes israelenses tem os mesmos direitos e deveres, protege a liberdade religiosa, e acolhe a diversidade humana. A lógica pode ser invertida. É exatamente porque os líderes entendem o que significaria a paz e a criação de dois Estado que apostam na tática do terror. Ao contrário da população lideranças como a do Hamas tem interesses pecuniários evidentes para não desejar a paz. Acusa-se com enorme facilidade o único país com democracia estável no qual nunca houve apartheid, ao contrario do que os detratores argumentam.

Torna-se fundamental analisar a verdadeira desproporção. Quase 70 % das ações de reuniões do Conselho de Segurança foram para discutir sanções contra Israel. Em estudos recentes 66% dos norte americanos não acreditam que o holocausto realmente tenha ocorrido. A Europa registrou a maior onda de ataques contra instituições judaicas. A mais intensa desde o período pré segunda guerra mundial.

Entre nós, mais recentemente, um obscuro suplente do Psol produziu um libelo antissemita clássico, descobriu-se que “militantes de esquerda” da Faculdade de Direito da Usp foram capazes de elaborar um “fichamento” com perfil dos estudantes e ali escancarou-se toda  taxonomia racista e beligerante desse grupo de patrulhadores da vida alheia. Alguém foi ali “fichado”pelos nobres futuros advogados como: “ideologia desconhecida, judia”(ver ilustração). Em outro evento, no ano retrasado, também em pleno campus da Usp em um evento no qual se discutia a matriz ideológica “nacional- desenvolvimentista”, a plateia pediu em coro “o fim de Israel” .

O que isso significa? É literalmente o fim de uma era? O que se ensina nas Universidades? Qual é a versão predominantemente? O sonho de liberdade foi substituído por uma série de equívocos, pregados por uma subsidiada distorção persistente.  E não há uma matriz ideológica única.  Frequentemente a judeofobia emerge de uma esquerda retrógrada que parece estar se unido ao que há de pior da direita, para que ambas vociferem fórmulas históricas malignas, cuja repetição costuma evoluir para a catástrofe.

Já é tempo de uma profunda reavaliação de valores e colocar limites, dando um basta definitivo na insensatez.

Ou não, desceremos coletivamente ao todos contra todos, e colheremos os magníficos frutos do eterno retorno à barbárie.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/yom-hashoah-nenhuma-tinta-reescrevera-a-historia/

Hahnemann, humorismo, e a razão da ética (Blog Estadão)

Paulo Rosenbaum

O prestigiado jornalista Sérgio Augusto trouxe importante informação em sua recente coluna no Caderno Aliás. Evocando os verbetes de um peculiar dicionário imaginário, trouxe, entre tantos tópicos, aquele que me levou a formular o atual artigo.

Ali escreveu: “Homeopata: o humorista da medicina”.  A graça está na brincadeira com a palavra “humor”. Se pensarmos humorista como aquele que conhece bem a antiga terminologia dos “quatro humores” descritos pelo pai da medicina técnica, Hipócrates, ele acertou. Ainda hoje, o aspecto das constituições e temperamentos em medicina pode ter um papel relevante. Um exemplo disso é que a medicina caminha para uma prescrição cada vez mais individualizada — como preconizada pelo médico alemão e fundador da homeopatia Samuel Hahnemann 1755-1843.

Também faz sentido se pensarmos em outro aspecto do verbete: que através do senso de humor os médicos que a praticam podem funcionar como uma espécie de superego auxiliar da prática médica…

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Hahnemann, humorismo, e a razão da ética (Blog Estadão)

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O prestigiado jornalista Sérgio Augusto em sua recente coluna no Caderno Aliás evocou verbetes de um peculiar dicionário imaginário, ali ele trouxe, entre tantos tópicos, aquele que me levou a formular o atual artigo.

Ali escreveu: “Homeopata: o humorista da medicina”.  A graça está na brincadeira com a palavra “humor”. Se pensarmos humorista como aquele que conhece bem a antiga terminologia dos “quatro humores” descritos pelo pai da medicina técnica, Hipócrates, ele acertou. Ainda hoje, o aspecto das constituições e temperamentos em medicina pode ter um papel relevante. Um exemplo disso é que a medicina caminha para uma prescrição cada vez mais individualizada — como preconizada pelo médico alemão e fundador da homeopatia Samuel Hahnemann 1755-1843.

Também faz sentido se pensarmos em outro aspecto do verbete: que através do senso de humor os médicos que a praticam podem funcionar como uma espécie de superego auxiliar da prática médica. Isso porque cresce pelo mundo a ideia de slow-medecine, (ou medicina com timing) a saber, uma prática que tenta ser mais cuidadosa e menos intervencionista no manejo terapêutico. Isso significa menor grau de “overdiagnosis” ou em tradução livre “superdiagnosticos”, os quais, não infrequentemente, conduzem à práticas e tratamentos invasivos desnecessários, ou, que fazem os pacientes sofrerem riscos aos quais eles não necessariamente precisariam ser submetidos. Considerando que a epidemiologia clínica consiste em colocar numa balança, de um lado o que protege, e, de outro, o que expõe o paciente aos riscos, essa conduta  pode ser a mais racional e adequada para os nossos dias.

Entao, de fato, o jornalista produziu, decerto involuntariamente, um elogio, e ainda prestou uma justa homenagem a  uma especialidade médica reconhecida pelo CFM e usada por milhões de brasileiros e por pelo menos 180 milhões de europeus.

O Prof. Walter E. Maffei, médico neuropatologista e um dos mais eruditos professores de Medicina —cuja docência na PUC e na Santa Casa ajudou a formar gerações de médicos criticos —  ilustrava uma de suas aulas projetando imagens de gatos e afirmando que aqueles que tinham a discrasia alérgica despertada por alguma idiossincrasia poderiam apresenta-las apenas com a “lembrança”desta experiência. Era e é um fato empiricamente constatável para quem quiser reproduzir o experimento que evidencia as relações óbvias porém pouco compreendidas entre as interações mente-corpo.

Ampliando um pouco a abordagem, evoco este aspecto acima diante do excesso de polêmica acerca das práticas integrativas. Às vezes, as pessoas perguntam, diante de sua eficácia e abrangência clinica, especialmente na atenção primária à saúde e no prevenção e tratamento das moléstias crônicas, como se explica que algumas práticas médicas como por exemplo a medicina tradicional chinesa, a medicina Kampô (Medicina japonesa) e a homeopatia nunca tenham se universalizado como formas de atendimento?

Teríamos que lançar mão de uma análise multifatorial. Mas o primeiro e mais importante é a dificuldade para estabelecer núcleos de pesquisa independentes. Sem eles, todo avanço farmacotécnico em medicina fica sujeito à lógica exclusiva dos interesses — e dividendos — ditados pela indústria farmacêutica e seus braços corporativos. Pode parecer, mas esta não é uma tese conspiratória, apenas constatação de fatos que vem se avolumando nas últimas décadas.

E por que a indústria não investiria em um ramo tão promissor e potencialmente lucrativo?

Porque as substâncias medicinais homeopáticas são um bem público, isto é, um conjunto de medicamentos e procedimentos que constituem um patrimônio da humanidade. Isto é, não incidem royalties ou patentes sobre nenhuma substância usada nestes fármacos. Ouso também afirmar que, somadas a estas dificuldades, existe um outro entrave. Trata-se da natureza de uma parte do establishment que defende as integrativas e que se comporta como agremiação futebolística no qual o antagonista é a Big Pharma. O mesmo acontece com aqueles que sempre as atacam com argumentos evasivos “demonstrando”cabalmente sua “ineficiência” ou no fragilíssimo jargão de “ falta de ética.” Trata-se da mesma é repetitiva qualidade de objeção que se faz, por exemplo, à psicanálise.

A compreensível atitude defensiva das práticas integrativas contra as acusações de ineficácia é causa e consequência da relutância em fazer a autocrítica necessária para apontar onde e quando podem atuar, identificando assim suas deficiências e limitações. Para a medicina de inspiração vitalista — cuja tradição remonta à medicina hipocrática — não se pode falar em resultado clinico no singular, mas em ações amplas da terapêutica.

Tanto as correntes que equivocadamente brigam contra o mainframe da ciência, como aquelas que querem uma adaptação absoluta a ponto de abrir mão de seus critérios característicos, se equivocam. Se por um lado ela se apresenta como uma outra lógica médica, de outro, ela precisa assimilar-se à cultura científica corrente se quiser ser levada a sério. Isso significa que a medicina integrativa acaba falhando, pois não consegue nem mudar a chave, nem se fazer entender pela linguagem contemporânea. O erro fundamental está numa recusa inconsciente destas correntes e de seus antípodas  — tanto as que querem se manter como uma casta independente da medicina contemporânea como as que querem se fazer pertencer não importa o sacrifício epistemológico que teriam que fazer — em aceitar que de uma forma ou de outra a única saída para que uma tese seja aceita nas sociedades modernas é sua penetração na cultura através da pesquisa e da discussão. Com a ressalva de que nem toda prática integrativa  apresente legítima consistência para se tornar uma atividade fornecida pelo Estado.

Somente essa distinção e pertencimento à cultura garantiria a permanência de uma formulação sofisticada como é a proposta de uma terapêutica pautada, no caso da homeopatia, por exemplo, que usa o princípio dos semelhantes. Aliás o mesmíssimo  princípio usado pela lógica das vacinas para imunizar a população.

Sofisticada, porque pretende inclusive discutir critérios que pouco se discute como, por exemplo, critérios de cura. Uma das mais importante, e, ao mesmo tempo, a mais negligenciada das questões epistemológicas em medicina. Notem que hoje já existem núcleos de pesquisa na medicina que discutem a validade dos protocolos, o cálculo de risco para alguns procedimentos terapêuticos e principalmente o já evocado superdiagnóstico[1].

A homeopatia deve ser apresentada não como uma alternativa com todas suas conotações contra-culturais, mas como um processo que dialoga com a ciência naturais, e, ao mesmo tempo, coloca a necessidade de uma medicina do sujeito descolada da psicanálise, e no centro da discussão das ciências humanas.

Curioso ou apenas idiossincrático que valorizo Samuel Hahnemann mais como filósofo da medicina do que metodólogo da ciência. Isso porque acho que a medicina do sujeito não é um detalhe técnico, mas a base de sua concepção antropológica, a qual, por sinal, adotava uma generosa admissibilidade da diversidade dos homens. Assim ele suprimia, ao mesmo tempo, tanto o caráter moral maniqueísta da visão penitencial do adoecimento, como a redução do corpo ao instrumento objetal que a medicina acabou adotando com uma normatividade perturbadora. É provável que ele desse muitas gargalhadas de tantas teorias a respeito dele e de suas ideias. Talvez devêssemos rir com ele e nos declarar impedidos para fazer afirmações definitivas sobre os misteriosos caminhos da cura. Seria um bom presente de aniversário para quem um dia declarou: “a vida é um clarão”.

[1] Overdiagnose – o superdiagnóstico caracteriza-se em valorizar excessivamente os exames subsidiários e atribuir importância excessiva a distúrbios que talvez não merecessem tratamento, pois seriam patologias inofensivas ou “amigáveis” ou que o custo orgânico e psiquico são demasiadamente elevados para os pacientes.

Pessach: Travessia de Moisés II – Blog Estadão

A Travessia de Moisés II

Haggadah – narrativa, contar a história

Desenho digital

— Senhor?

–Sim?

–O Senhor perdoe, mas assim não vai dar pé…

–Achei que tinha te explicado tudo, o mar de juncos se abrirá e vocês passarão, incólumes, sequinhos, vai dar tudo certo. Eu avisei, evite Schopenhauer. Qual jornal você assina?

(Risos abafados)

— Qual é a graça filho?

— Moisés na língua local, Yekusiel em hebraico.

–Não, não é isso. Perguntei por que você riu?  Seu nome está sempre na ponta da língua.

–Perdão Onipotente. Era só uma força de expressão, sabe, uma dessas metáforas da língua portuguesa.

–Compreendo, lá do….

— Brasil Altíssimo, Brasil.

(Murmúrios desconfiados)

— Ah sei, aquele País lindo, imenso, gente boníssima. Aliás, não foi lá que me conferiram até a cidadania?

— Exato Senhor.

— Aquele pessoal achava mesmo que eu era natural de lá, mas isso foi até acontecer aqueles 6 X 1

— Perdão Senhor, essa foi a Argentina, lembra do Messi?

–Vagamente. Mas não foi depois daquela goleada…que o pessoal

–Isso mesmo, mas foi 7 X 1

— Argentina, Argentina, o que é mesmo?

— Aquele lugar lá embaixo, onde tem até um bom churrasco. Tinha aquele jogador pretensioso que se achava igual ao Pelé, e agora…bom, agora eles tem o papa

— Sei!

— E coitados, os Hermanos gozavam os brasileiros direto até esse cala-boca de 6X1

–Filho, futebol gosto, não é bem nosso foco, diga logo o que quer, sou Eterno, mesmo assim o tempo urge.

–Tenho vergonha! No fundo, no fundo sou um tímido, me falta oratória. Vejo aquele pessoal da tribuna do Senado, falam por horas. Altíssimo, escolhe outro, que tal fazer uma prévia…

–Prévia não. Nem pesquisas de opinião. Falam para quem? Eu mesmo que não prego olho nunca, já dormi várias vezes ouvindo aquelas aporrinhações.

— Senhor, mas é que

–Estou acompanhando, vendo a quantidade de populistas que aparecem todo dia, no começo fiquei preocupado, mas agora percebi que aquele slogan — detesto slogans — rede alguma coisa, o povo não é bobo.

–O Senhor é conservador, progressista, de centro?

— Sou o que Sou.

— Pode parecer insolente mas isso é muito vago. Rei do Universo, por aqui o pessoal só trabalha com código de barras, carimbo, patrulhamento.

(Assobios e vaias)

— Então coloque ai na súmula: acordo conservador, ao meio dia viro progressista e fim do dia sou de centro.

(Estrondosas risadas celestiais, Moisés sorri encabulado)

–Fico sem jeito para contar

–Entre nós não existem segredos, recorda que lá na Terra Santa me abri com você?

–Altíssimo, com toda vênia, D.R. agora não…

–Fale filho, desembuche, tenho todo um Multiverso para cuidar. Agora mesmo recebi mensagem de que tem um buraco negro querendo sugar uma galáxia inteira.

— É que a coisa esta encrespando aqui embaixo

–Sou todo ouvidos!

(Risos celestiais vindos da direção sul)

–Primeiro, essa coisa do gordinho da Corea, a Hillary, o Topete, os aitolás, o ditador sírio, o tirano da Venezuela, o louco das Phillipinas, o estado islâmico e agora tem a Putin que o

–Alto lá, perdeu o respeito?

–Perdão, mas esse é de fato o nome dele

–Prossiga

–Não faz nem oitenta anos e o antissemitismo e a intolerância de todos os tipos crescem assustadoramente. O Senhor já deve ter visto, parece que nenhum destes líderes tem muito amor pelo mundo nem pelas sociedades que governam.

(Trovões e chuva torrencial, granizo ocasional do tamanho de bolas de golfe)

— O que você quer que eu faça?Isso é coisa entre vocês. Que se entendam, ou chamem um psicanalista. Posso recomendar alguns.

— Entendi bem? O Senhor está perguntando para este seu humilde servo?

— Deixa de modéstia. Aqui em cima tivemos tempo para treinar, exatos 15,3 bilhões e anos, e hoje somos todos co-participativos, economia colaborativa, já superamos o materialismo dialético, o fascismo, o marxismo. E vocês pararam no tempo de direita-esquerda. Aqui não aceitamos nenhuma forma de totalitarismo. Você acha que é fácil gerenciar a multidão de seres celestiais? Eu já mandei muito, hoje tenho um sistema enxuto de comando.

–É que a democracia anda rateando aqui embaixo. Preferem ditadores do que a dureza de uma democracia brigada, os jogos de poder viraram cassinos.

–Engraçado, aqui hoje funciona bem de Alfa ao Omega. As vezes, tem uma ou outra supernova que sai do controle, mas no geral a coisa toda anda. Será que eles nunca leram “Escuta Zé Ninguém” do Wilhelm Reich? É o livro que mais recomendo por aqui.

–Vou anotar.E a Netflix?

–Estava proibido, o pessoal largava tudo e ficava hipnotizado em frente da tela. Mas já faz uns dias ouvi rumores de que aquela ex-presidente impedida detestou uma série. Todo mundo veio fazer pressão. Liberei na hora, pedi para todo staff assistir. Sempre considero educativo liberar coisas proibidas.

— Mas rogo que me responda, o que devo fazer?

–Não sei, mas vocês dão muito trabalho.

(Suspiros com ventania)

–É porque ai em cima tem o Altíssimo na direção, aqui, temos o STF. Céus.

(Palavras fortes ininteligíveis cuja rima final parecia ser …ões)

–O Senhor é o Único que pode nos salvar. A única coisa que peço é um Salvador da Pátria.

–Estou te estranhando, agora deu para puxar Moisés? Só…te escolhi porque você não queria e não indicou nenhum parente para cargo em Estatal.

–É que o Todo Poderoso não pode nem imaginar o que se passa naquele País, dizem que no dia 04 de abril o bicho vai pegar

–Ah, agora saquei, é o Todo Poderoso Timão não é filho?

(hino entoado com louvor e gaitas escocesas)

–O Senhor também é da Fiel?

–Tento ser imparcial, mas vai me dizer que nunca percebeu? Aqui é… (Estrondo)

— Então, continuando, como vou dizer?  O Senhor já deve saber que tem um cara aqui que acha que pode concorrer com o Senhor

–Sério? Olha que é tentador. Aposentadoria, justo agora que querem mexer na previdência. Nem brinca com isso….

–Ele desafia Deus e o mundo e tem se achado acima do bem e do mal

(Murmúrios sarcásticos)

–Coitado. Deve ter tido aulas com filósofos fracos. Pode ir lá e explicar que ninguém está acima da Lei? Será que ele ouviu falar da Magna Carta?

–Foi exatamente o que o Moro disse, o Senhor sabe que ele…

–Sei exatamente, e em tempo real, minha contra-inteligência é show!

–Altíssimo. Todos conhecemos sua Onisciência, mas agora o Senhor me pegou de surpresa: também conhece o Moro? Já sei, foi no twitter?

–Que decepção. Ainda não sabe da minha agenda? Não tenho tempo para estas distrações. Mas já vieram buzinar na minha orelha que o sujeito tem aquela Luz do justo. Esse era o cara. O Obama, que ajudei no começo, era bom de papo mas não entendia nada de caráter alheio.

— E o que me diz dessa fake news que se espalha, o que será da mídia?

(Relâmpagos incendiários)

— Filho, o problema é que vocês são muito crentes, acreditam em tudo. Entrei e sai do orkut no primeiro dia. Hoje só vejo insta e face de vez em quando. Mas as redes me agradam. Sabe por que? Elas são o contraponto do domínio. Sempre lembro do saudoso Isaiah Berlin “liberdade para os lobos significa morte para os cordeiros”

— O mundo está de ponta cabeças mesmo, O Senhor, justo o Senhor, quer que a gente duvide? Deduzo que não há mais esperança?

–Quero que vocês aprendam a arte de fazer autocritica, mas vejo como é doloroso para vocês aprender com os erros. Liberdade é isso. Não ser obrigado a nada. Não obrigar ninguém a nada que seja aviltante.

— Altíssimo, o senhor não é anarquista, é?

— Só as quartas feiras.

(ruídos de tapas na mesa seguidos de gargalhadas intermitentes)

–Mas ainda temos o problema Supremo! E como fica aquele Todo Poderoso que quer ser teu rival? O cara é um encrenqueiro. Pode afundar o País só para salvar a pele.

–O Supremo já anotei, vou tomar providências.

— Mas e aquele que diz que é seu rival, o mais honesto da Via Láctea? Ele se acha, é como dizemos, o rei da cocada preta.

— Parece que tem um pouco de gordura insaturada, até que é saudável.

–O Senhor está me gozando?

(Bocejos )

(Grunhidos reprimidos)

–Você está muito sério Moisés. Relaxe. Permite um conselho médico? Ria.

–Não entendo, vendo tudo isso que está acontecendo pelo mundo e o Senhor me recomenda Rir?

–Rir de si mesmo, garanto, é o melhor remédio. Faço isso pelo menos uma vez por milênio.

–E o que fazer com essas pessoas que apostam no tudo ou nada?

–Você se refere aquele ex-presidente? Faz tempo que ouvi o clamor, uma pena, ela era uma esperança, e é triste o que ele fez com seu próprio povo. Mas ele não me interessa mais, vocês é que dão muita importância para essa gente. Já vi tudo daqui, ele vai espernear, mas, no final, pode escrever, ele morre na praia.

— Senhor?

— Desculpa, indelicadeza minha, metáfora da língua portuguesa. Bingo!! Quero dizer que ele vai sofrer as consequências de seus atos e não vai impor seus caprichos para a sociedade.

— Então rogo, que tal o Senhor dar uma dura pessoalmente? Falar com Ele cara a cara?

— Vou mandar um recadinho pelas urnas. Nada de plim-plim, só voto impresso. Como assim urnas inauditáveis? Nem por aqui aceitamos mais isso.

— Altíssimo, vai uma dica: se for falar não mande recado pelos advogados, — a bolada que estão faturando — mas, se for através deles, o Senhor terá que gastar seu francês

–Depois daquele vexame dos entreguistas de Vichy fiquei com bode, também dei um tempo no alemão.

— “Eles estão totalmente acovardados” “Vou te mandar o Bessias” “Tem que manter isso, viu?”

— O que?

–Foi um ato falho, é que às vezes essas frases vem na minha cabeça. Na verdade, o que eu quis dizer é que o Senhor quem terá que resolver isso.

–O pessoal ainda está vaiando políticos? Se não me engano começou na copa do mundo, com aquela senhora. Lembro de ter notado que ela não levava nada na esportiva. Isso muito me irrita.

–Sim, e agora o povo perdeu a paciência com todos eles e estão jogando omeletes na caravana.

–Pena, vaia é divina, ovo frito só na manteiga e não adianta me justificar, eu aceito nenhuma forma de violência e proíbo vingança.

–E o que me aconselha? Estou perdido e essa noite tenho um povo inteiro para libertar da escravidão.

–Entra na fila rapá.

–Como?

— Aguarde em linha, confie, sua vez chegará.

— Ah, já vi tudo, então o Senhor também é a favor do politicamente correto?

–E não fui eu quem inventou o conceito de correto, já o politicamente é coisa de vocês.

— Mas o que devemos fazer? Estão falando em conflagração, guerra civil, hecatombe, fim da humanidade. Estou realmente desesperado Altíssimo.

–Sabe quanto tempo ouço essa lenga-lenga catastrofista?

–Então, só me responda mais uma coisa, pode ser?

(Bocejo ensurdecedor)

–Desde que não seja parecida com aquela entrevista que fizeram com o Serginho.

— O Sr. não gostou?

–Não fosse o juiz teria sido maçante. O que a imprensa fez com a criatividade que doei? Ninguém perguntou sobre os planos de destruir a democracia. E teve aquele que quis explorar fatos banais quando haviam tantas prioridades para perguntar ao homem.

–E a lei sobre o abuso de autoridade?

— Não opino sobre isso por conflito de interesse. Já fui acusado disso.

–Mas é que essa constituição, vou te contar Senhor

— Constituição, para dar certo, tem que ser curta. Há quase três milênios atrás Eu te soprei aquele decálogo, e Ah, se todo mundo usasse o Paraíso seria ai mesmo.

— Parece que estão dizendo que não existe inferno.

–Acho que ele existe, na imaginação dos homens, ou, como queria Sartre, o inferno são os outros.

— E a hermeneutica para decifrar essa constituição?

–Filho, sempre recomendo uma carta curta como a americana. Pensa que só conversei com você? Expliquei passo a passo para o Thomas Jeffersson. Copie e cole. Já deu, certo?

–Ok, posso fazer só mais uma pergunta, juro.

— Quer mesmo sacudir esse parlamento?  De um jeito de propor a seguinte emenda constitucional: doravante nenhuma lei nova será criada enquanto aquelas que existem não forem cumpridas.

–Eles vão pirar.

(Risos sarcásticos contidos)

(Moisés levanta a mão para perguntar)

–Posso fazer uma última pergunta?

–Manda.

–O mundo vai acabar?

–Moisés querido, toca prá frente, o mundo mal começou.

Feliz pessach, feliz páscoa.

Pessach e a Travessia de Moisés II – http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/pessach-e-a-travessia-de-moises-ii/

Heráclito e a opacidade da justiça – Blog Estadão

“o povo deve bater-se em defesa da lei, como se bate em defesa das muralhas”

Heráclito de Éfeso (séc VI-V A.E.C – fragmento 44)

Opaco – acampto, adiáfano, impérveo à luz, sombrio, turvo, escuro, nublado, fúmeo, fuliginoso, nubífero.

Entraram no mesmo rio diversas vezes, mas, desta vez, contrariando o filósofo, saíram como entraram, iguaizinhos. A defesa do poder para que o poder prossiga, incólume, com o endosso dessa escolta. Para estar completa, a legalidade precisa estar acompanhada de legitimidade. E, tal completude só se (re)conhece pelo exemplo. Pela experiência. O único check in que interessa, caras excelências, é entrar no espaço aéreo dos problemas do País e jogar luz sobre a carta constitucional. Mas, naquela que poderia ser vossa penúltima sessão, parece que o correio não encontrou o destinatário, e a carta, extraviada, ficou à deriva em alguma repartição pública obscura, esperando que uma liminar surgida por geração espontânea subisse à superfície do recinto. Milagroso, pois nao?

Assim como na sábia advertência de Freud de que “toda interpretação fora de análise é um agressão” todo teatralização fora dos palcos representa uma ameaça muito além das aparências. Diante de milhões de testemunhas a sociedade e a opinião pública — que já valiam pouco — foram devidamente ajustadas à sua leiga insignificância.  Enquadradas em uma jaula sem poder expressar a angústia da incerteza. Amordaçadas enquanto viam seus direitos escoarem sob os insultos indignos de uma luta corporativa não explicitada. O conflito de interesse foi abolido e ninguém foi avisado? O que se viu sim, foi que o juízo foi suspenso. O que se esperava da justiça é um pouco mais do que o protocolo e a aplicação mecânica das leis. Ficou patente que o Estado e a sociedade não tem proteção quando se trata de defensores que dominam o charme francofônico.

Afinal, punições deveriam estar atentas ao contexto, assim como os perdões, anistias e habeas corpus. O respeito à hierarquia precisa de um teto. Assim como um jurista requer um piso comum. E a decisão do colegiado exige um efeito vinculante com a moralidade pública. Acima da qual a obediência torna-se omissão, e a distorção, cumplicidade. A hermenêutica de ocasião é fruto de um pleno repleto de parcialidades ideológicas. E o valor das instituições está exatamente em suplantar a fulanização, esquecer, temporariamente, o individual para penetrar no campo dos interesses do conjunto de sujeitos. O gênero de sentimento que se gera no País quando um condenado é menos desigual que os demais está para bem além da perplexidade. O planalto central e seus recintos encastelados ignoram o que se passa nos demais relevos. Nenhum desce ao solo. Não acreditam em erosão. Não detectam o que percorre a alma do homem comum: a sensação de que as regras — contrariando o princípio cartesiano e toda herança iluminista — não podem ser aplicadas de acordo com critérios obscuros e indistintos.

Querem saber qual é o problema? Querem saber o que assola, melancolicamente, o homem comum? A ideia de que ele tem doravante algum dever para com um Estado que não lhe concede direitos. Ou, se concede, os arbitra com rigorosas imposições e pitadas de tirania. Um Estado que lhe caça a voz para empresta-la — com batedores oficiais remunerados pelo erário — a quem deveria tê-la perdido. É isso, prezada corte, que sente o homem comum. Não estamos a falar do militante médio. Ou do filiado graúdo do partido. Nem de um inimputável que parece ostentar as hastes para instrumentalizar marionetes infláveis. Falamos do povo, que com dificuldades, acha incompreensível — porque de fato é — que a alta magistratura exceda-se, justo ela que deveria ser o parâmetro da justa medida, da coisa imparcial, do meio termo em prol da vida das pessoas.

Sim, perfeitamente, sabemos que vocês não jogam para a grande plateia — destarte não deveriam jogar também à pequena — isso ficou claro. O que não ficou claro é por que a transparência virou um segredo de Estado? Um acordo de decisões monocráticas? Nem precisavam declarar, é evidente que os excelentíssimos não acham relevante a opinião pública.  Entretanto, pergunto se lhes ocorreu um detalhe importante, o qual, talvez, merecesse vossa atenção: a opacidade da justiça tende ou não a transforma-la em uma outra coisa?

E se essa coisa não for nem a justiça, nem o direito?  E se for apenas a aplicação das regras a uma conveniência política que sacrifica a paz social por um conluio que, já se vê,  não só  não cicatrizará como exporá a chaga a mais completa degeneração? Chega de sigilo. A vossa revelia todo enigma estará às claras. Aprendam que nada, literalmente nada, pode pressionar mais o homem comum do que a incerteza sobre sua liberdade.

Especialmente quando a liberdade de um significa prisão para os demais.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia

Terror do Opressor – Poema do livro “A Pele que nos Divide” – Blog Estadão

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Terror do opressor

Lava-te agora com o precioso cânhamo
Do teu poderoso homicídio
Tão forte a gosma da corrupção
Que jamais enxaguará teu extermínio.

Se censurar foi o teu meio
E conceder-nos matança
Foi a tua redundância.

Não haverá um só meio
Que não conheça a revolta, o centeio.

Explodindo teu glutão palácio
Ferveremos tua condolência
Abençoando-te com tortura sem violência

O abuso nas tuas insígnias
Não é a estampa do horror,
Mas a forma como compeles dor.

E teus fiéis servos perpetuam
Tua doutrina mundana
Imprimindo a consciência tirana.

Faremos ainda com que cantes
A infinidade de nossos levantes.

E a tirania da tua democracia
Farás apenas com que murmures
– Sim, o poder com sangue tecia,
Posto que nada é eterno pelo tempo que dure.

Quando assim, vier-nos então
Teu submisso pedido de clemência,
Enlouqueceremos de euforia, demência.
Finalizaremos teu sepulcro com pó,
E te embalsaremos
Não com a glória de um faraó
Mas com a solenidade que temos.

Conservaríamos viva a tua alma,
Para que cada um expurgue o termo
Na tua imagem, o que foi teu governo.

O Poder Viciado (blog Estadão)

O PODER VICIADO

O poder viciado? Hoje ele tem uma prioridade. A única. Precisam escapar do juízo, dos jurados, dos julgamentos. Poderíamos inferir muitas coisas, discordar do uso abjeto com que os infortúnios são usados. Ficar indignados em detectar como a manipulação política nos direciona nas causas e consequências do trágico.

Mas, em nome da nitidez é bom que se diga, antes de tudo,  que a vereadora carioca, neste evento, foi vítima de um ato de terror.  Assim como todo transeunte, como os policiais, como os cidadãos que não puderam contar com ninguém e, agora, abandonados em suas sepulturas. É preciso suspender o juízo ideológico para declarar que nada justifica a morte de inocentes. E, ao mesmo tempo, tudo se justifica no combate contra aqueles que matam inocentes. Sim, inocentes. A maioria. Mas qual maioria? A maioria encontra-se submetida. A maioria está amarrada. A maioria está engessada pela inércia. Tolhida pelas explosões de informações contraditórias plantadas pela realidade, as naturais e as artificiais. Com todos os fuzis à mostra é preciso explicitar: sem expor a marca do cassino que representa — há mais de uma rede apostando pesado no “todos contra todos”.

Todo mundo sabe, a guerra é contra os civis, mais de 60.000 mortos por ano. Sete assassinatos por dia. Para além da epidemia de homicídios quem se importa com a dor individual? Quem só pensa no acerto de contas? Sob o prédio imponente da orla arrematado pelos graúdos e impunes chefes do crime, os mandantes controlam as câmeras com drones. Dominam completamente o ciclo malévolo que criaram. Trafico de influencia e desvio de função. Tempo de latência e pesquisas de opinião. Tudo se mistura num turbilhão de medo e confusão.

Aqueles que se dizem contra hegemônicos montam a escada para alcançar definitiva e permanentemente a hegemonia. Ninguém precisa supor isso. Não depende de interpretação. Eles confessam em suas timelines, em seus blogs, em seus programas partidários: é isso mesmo. Com a cabeça feita pelos psicofármacos das drogarias ou pelos fármacos sem patente, negociadas por um punhado de pacotes, que prometem vender a leveza perdida, afinal a grande demanda atual é anestesiar toda má consciência. A violência é o ópio do povo.

Estamos submissos a uma omissão programada e programática de um Estado abúlico. Por planos de sabotagem rabiscado em bilhetes. De uma pacificação que acabou como capitulação ao fuzilamento da sociedade. O Estado que não funciona é cúmplice. Os interesses sociais de quem deveria zelar pela sociedade há muito deixaram de ser direitos coletivos. É possível sentir na pele que o poder age a favor de quem demonstra força. De quem a exerce sem relutância. Com balas, com sangue frio, com a mira em punho, com truculência profissional, como usurpação das funções. Nas contundentes palavras de Viktor Frankel — psiquiatra sobrevivente do Shoah que fundou a corrente conhecida por logoterapia:

“O sistema político está comprometido porque o poder está nas mãos de minorias que usam o poder de forma indecente.  Só existem duas raças: a raça das pessoas decentes e a raça dos indecentes”.

Cedo ou tarde a decência terá que impor sua paz.

Resenha de “Céu Subterrâneo” no Jornal da USP

Resenha de Céu Subterrâneo no Jornal da USP (por Larissa Lopes)

Paulo Rosenbaum

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Home > Cultura > Busca por identidade e fuga do anonimato são temas de romance

Busca por identidade e fuga do anonimato são temas de romance

“Céu Subterrâneo”, de Paulo Rosenbaum, retrata a angústia existencial de um professor universitário aposentado compulsoriamente

Por Larissa Lopes – Editorias: Cultura

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Paulo Rosenbaum - Foto: Cecília Bastos/USP Imagens
Paulo Rosenbaum, autor de Céu Subterrâneo – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

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Desde a Antiguidade, o homem se questiona sobre sua origem, seu propósito e sua vocação. A angústia dessas dúvidas sufoca aqueles que aspiram a ser lembrados pela história, mas estão à mercê da trivialidade. Adam Mondale, protagonista do romance Céu Subterrâneo, segunda obra do médico Paulo Rosenbaum, começa a se incomodar com essa angustiante possibilidade após se aposentar compulsoriamente da vida acadêmica.

Depois de dedicar sua carreira ao estudo do comportamento de animais e ter exercido o cargo de diretor do Instituto…

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Seis Milhões – Dia das vítimas do Holocausto

 

SEIS MILHÕES

I

Os seis estão bem aqui.

posso senti-los
 sob meus pés,

regulares, como todas as descidas,

rítmicos como gelos.

intensos como arestas

No declive de gênero fantasiados de corporações 
nos trens improvisados,

como máquinas de extração enquanto metrificavam judeus

a IBM e a Krupp
 acendiam os fornos da despensa

Do trem, digo
 não era noite ou fumaça

e de todos os dias,

o carrasco detinha 
os trilhos da proficiência

Não vi campos,
nem sinais de gritos, ou angústia das vítimas

senti cada parada
cada pequena que viveu nas cavernas preservadas nas coleções intactas
ou na predação canônica

A seleção naturalmente objetivada pela negação da naturalidade.

Não me interessa que não vi, (nem quem não viu),

Nem quem soprou seu silêncio para o vapor da constância,

de quem preferiu as mãos
 que alimentam quem dizima.

Só saberemos quando vivermos nos esconderijos desacreditados

na sonolência de nossos

dedos ou nas qualidades extintas,

como nós,

extintos.

Não importa (nunca importou) o cultivo,

mas a produção,

o apreço por resultados,

o rastreamento de objetos

que com vida ou sem melancólica será,

Aí temos o protocolo superado a experiência romântica

sustentada na escala

Enquanto o mundo pensa em paz,

Na calma capturada do carvão dos ossos

A travessia que importa

Usa força do solo como tingimento,

E, como furos em flautas 
alternam sons com acendimento

de vela perfiladas,

nas presenças sem sequência.
na curva do mundo

Na atenuação final de vidas em estudo

Porque nossos olhos retêm 
o não expresso

E, como trens, invadimos o mundo com troncos negros

Na matéria que se impõe como referendo do espírito,

Agulham nossos dias com palheiros e, à latitude da ilusão.

Aterram o assombramento

Tudo, tudo mesmo 
é para que essa perplexidade

gere totens 
e olhos sem braços

nos alcancem
 em noite de cristais, pogroms ou vidraças

nos nomes que esfacelem a realidade,

que, sem chances, observa 
a violência do descuido

Mas a noite, sim, anônima

Impõe a presença

Recontada ao infinito

Mesmo que cada grão do carbono esgotado

Entupa de maturidade as nações

Achamos que, 
do tabuleiro de onde estiver, deves absorver tuas regras.

II

Para infortúnio geral

Somos um passado atento

Seis milhões nas curvas

Assistidos com a brutalidade da demora

O esquecimento do mundo

A carga excessiva

Que impressiona apenas
os tolhidos da cena

(Em Stuttgart testemunham-se monumentos nos quais as vítimas são eles)

Mesmo à distância do meio do atlântico

Estancaremos perto do nada

Só faz 70 anos

Os campos estavam nos libertando da vida

Enquanto a eugenia dos doutores 
do partido

Subiam de incenso na mente do povo do silêncio

Ah, estamos em comunhão

Mas, para registros futuros jamais

o barômetro do céu agirá aqui-agora

como o esmagamento do ali-afora.

 

STUTTGART–PARIS JUNHO.2007

 

A Pele que nos divide

A Pele que nos divide Diáforas Continentais – Poesia (2018)

 

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/seis-milhoes-dia-das-vitimas-do-holocausto/

Diatribe contra a distorção como método filosófico (Blog Estadão)

A verdade é que não há uma pós verdade, assim como não existe uma má filosofia. Existem filosofias bem estruturadas, abrangentes, limitadas, algumas incompreensíveis ou de baixa consistência. Já se poder afirmar que aquilo que fazem todos os defensores do ex presidente usando punhos e sentimentalismo —  às vésperas de uma condenação — merece ser nomeado como um sistema filosófico. Poderíamos chama-lo de muitos nomes, mas o mais adequado seria enquadra-lo na categoria distorção.

O distorcionismo como sistema filosófico consiste na desqualificação sistemática de todos os argumentos da racionalidade vigente e substitui-los por um misto de teorias conspiratórias, culto à personalidade e apego messiânico. Outro item que não pode faltar ao método é manter sempre por perto um arsenal de pedras contra qualquer um que se insurja contra a ideologia da distorção. A técnica da distorção também inclui acusar o mundo de hostilidades e ódio, enquanto detém-se o monopólio da vingança e da disseminação da litigância.  É claro que não deixa de causar curiosidade qual tipo de mente é ainda hoje susceptível  à influência e submissão de um líder com as características do ex presidente Lula, hoje visivelmente perturbado e já tendo incorporado as suas vicissitudes a missão de salvador. Salvador de todos aqueles que exerceram conjuntamente o mal feito.

O distorcionismo contumaz tem como principio fundante a ideia de que se o seu argumento não for coincidente com o do seu oponente ele será vandalizado, desconstruído e boicotado. Especialmente nos meios em que existe o prevalece o controle tácito de filósofos militantes ou sindicalistas subsidiados. Há muito tempo a questão central deixou de ser a corrupção — tudo somado até aqui e sem incluir a caixa preta do BNDES, cerca de um trilhão — assim como a ética na política, outrora o principal slogan do partido. Partido que aliás relativizou de tal modo o aforismo, que construiu um verdadeiro universo hermenêutico paralelo com auxilio de magistrados com notório talento, para o legislativo atual.

Neste mundo especial e bizarro no qual o petismo tenta subsistir incólume, não foi doloroso nem difícil a associação natural, quase inercial,  às forças e pessoas que constituam o que tinha de mais atrasado no País. Isso foi feito com timing e estrtégia para logo depois, acusar os demais de conservadores decrépitos. Outro recurso muito utilizado é a ideia de que a prevaricação para acumulo pessoal é muito mais grave do que a o desvio de função do Estado. Ideia marota, que parece ter colado em parte da mídia, mas senhores, deveria ser auto evidente que a pilhagem da República para perverter a democracia é uma transgressão da ordem da traição, a outra apenas ação ordinária dos punguistas de praxe.

Recuso-me a chama-los todos estúpidos, pois há gente inteligente e culta entre aqueles que ainda suspiram ao ouvir o nome do líder.  Também refuto a tese de que existiria uma doença mental de base neuropsiquiátrica para aqueles que defendem e justificam todos esses anos nos quais fomos conduzidos por postes acéfalos.  Muitos analistas, perplexos, desistiram de encontrar uma solução lógica para o fenômeno. Entretanto, advogo outra explicação.

Precisamos aceitar que a raiz filosófica da distorção como método filosófico é de base afetiva. O apego, a paixão por defender por tanto tempo um projeto suicida e não republicano, a falta de critica e de autocritica, são elementos que denotam e reforçam essa hipótese. Mas, talvez a essência do projeto, aquele que ludibriou milhões por tanto tempo esteja exatamente em um fenômeno conhecido chamado de ‘quase acerto’.

Explico através do flagelo que é o vício em jogos.

O que atrai o viciado em jogos de azar é a perspectiva errônea de que ao final da rodada na roleta sairá vencedor, pois “quase deu certo”.  Quem estuda o tema — existem ambulatórios especializados para estas pessoas — já sabe que que a ilusão não é a de ganhar, mas de “quase ganhar”. É esta sensação de “quase acerto” que parece disparar o impulso de excitação neuro-sensorial destas pessoas a se lançarem em novas apostas. Não importa quantos salários foram comprometidos, quantas joias, casas penhoradas e patrimônios o sujeito já tenha deixado na mão dos donos destes cassinos. É, portanto, a ilusão, mas disfarçada de “esperança “, “fome zero” ou ‘país sem pobreza” que  estaria na raiz na defesa apaixonada e violenta dos projetos fracassados.

Pode dar errado milhões de vezes, mas isso não tem a menor importância. Os aditos costumam ser crentes resilientes. O desejo de acreditar é, portanto, muito maior do que as experiências empíricas que já cansaram de evidenciar a bancarrota.

Outro ponto caro ao distorcionismo é a cegueira seletiva. Ainda que toda sua vizinhança esteja desempregada é mais do que provável que isso possa ser  atribuído a algum fator circunstancial, de responsabilidade exógena, gerado por uma crise externa, o asteroide destruidor que se aproxima ou o desmatamento do Saara.  Desvios trilionários seriam obras tão ancestrais que ninguém poderia rastreá-los, portanto, ninguém deve ser acusado de nada.

Há, evidentemente, um problema de dosimetria. Recusando de pés juntos que o sequestro do Estado foi fruto de um plano ardiloso é sempre mais conveniente colocar a culpa nos demais. Horrorizados, os intelectuais orgânicos do lulupetismo recusam o que se diz nas redes sociais e apesar dos blogs clandestinos e dos ataques comprados e publicados nas revistas e jornais, acusam as redes de espalharem inverdades do senso comum.  O banner  que andou circulando por ai, “nunca tão poucos pilharam tanto de tanta gente” é dentre todos o mais odiado.

De que outro maneira justificar o comportamento de torcida sectária que apresentam? Ao abandonar a seara analítica os bem pensantes do partido caíram na armadilha, e agora apoiam abertamente demiurgos, que amanhã podem se voltar contra eles. Assim, o distorcionismo avança como um sistema de notação perverso, mas não ilógico, cuja finalidade é a conservação autocrática do poder. E caso não seja possível, o plano é impedir que outra sociedade exista, caso triunfe um modelo social que não é aquele que preconizam.

Neste funk do totalitarismo maquiado de luta social é que o discurso desta neofilosofia repousa. A democracia deveria se preocupar com o avanço de sistemas como esse? Talvez, mas se este ramo da filosofia cresceu sob a vigência dela, da democracia, só o seu aprofundamento poderia salva-la. Clamar sua destruição ou evocar histerias de ocasião não é a resposta que a maioria do povo que sonha com uma vida mais civilizada, aceita. Trata-se de um falso paradoxo explorado por quem quer também suprimi-la do outro lado com ações e respostas truculentas. Estamos então entre a zona cinzenta do populismo e o fio da navalha da opressão e já não se pode esperar que a inspiração para uma concertação geral brote nos gabinetes de Brasília.

Nem mesmo de pessoas que dominam as cúpulas das estruturas partidárias. A sociedade precisa formar um novíssimo consenso, excêntrico, de fora para dentro, à revelia do sistema. Consenso daquilo que não quer para o País. O que ela quer, caso passemos desta fase,  pode ser deixado para quando tivermos assegurado que a política deixe de lado os cassinos.