Não.

Ainda que ele parta de uma aldeia judaica do século XIX e a desenvoltura da trama esteja sempre ligada a esta trajetória ele é, continua sendo um romance. E numa estrutura de romance o enredo pode levar o leitor a muitos lugares. E portanto não acho que o livro se destine a um nicho único nem a um público especifico. 

Sem querer voltar à sinopse (sempre importante, porém sempre reducionista) “A Verdade Lançada ao Solo” buscou ter a abrangência de um romance filosófico usando os elementos ficcionais para conduzir o leitor a lançar suas próprias conclusões, se é que elas ainda sejam necessárias.  Até certo ponto, pois o livro, especialmente a parte III, é bastante aberto, e as reações a essa abertura têm surpreendido o autor.

Como já me disseram os leitores– alguns enxergando nessa tendência uma beleza extra na trama toda enquanto outros reclamavam — as vezes o fluxo em flash backs torna o livro mais instigante do que trabalhoso.

Como autor, sinceramente, espero que ele esteja conseguindo isso: despertar reações e tirar as pessoas do lugar.

Cada personagem carrega uma fração de todos os outros. Isso significa também que podemos ver representados e nos fazer representar em cada um deles. Claro que o livro foi escrito por um judeu, que, rigorosamente parte de sua condição para narrar o mundo de acordo com suas perspectivas e vivencias.

E, neste sentido talvez os leitores estranhem especialmente se constratarem com outros autores, como por exemplo, escritores onde usa-se a tradição como pano de fundo para uma trama policial. No meu caso, a tradição vem dizer coisas novas sem que ela precise ser reformulada ou descaracterizada como conhecimento espiritual (a ponto de ser reduzida à cultura) traz uma questão problemática e, até certo ponto, insolúvel, que é a questão da assimilação (deixo para comentar depois em uma sequencia de posts).

Mas é claro que as vivencias que os personagem protagonizam — se partem de uma perspectiva existencial etnica — são depois arrastadas à universalização na medida em que vão entrando no mundo, saindo do exilio e abandonando os guetos.

Nesse sentido pensei em trazer fatos concretos (usando um terceiro narrador) para que as pessoas pudessem se familiarizar um pouco mais com uma cultura que tem quase seis milenios. Os tais “fatos” vão desde os anos e locais nos quais as perseguições anteriores ao holocausto ocorriam até eventos que, precariamente interpretados, levaram aos mais diversos preconceitos, cujo exemplo mais comum é o antisemitismo. 

Assim busquei resgatar elementos históricos reais para colocá-los a serviço da compreensão do contexto. Mesmo assim, isso não basta para caracterizar o livro como romance histórico.  Isso porque a ficção ainda é o elemento predominante no enredo.

Sempre foi mais fácil demonizar genericamente uma raça, uma etnia e, eventualmente, toda cultura, que compreender sua trajetória histórica. Neste sentido, o livro tráz mesmo uma dupla defesa:  não só os judeus mas outras minorias podem e devem viver suas peculiaridades etnicas, linguísticas e espirituais sem precisar sentir que estão em débito, ou com crédito, diante da maioria.  Não que a maioria fique passiva, pois, por força da inércia da homogeneidade seria melhor se todos fôssemos quase indiferenciados, pertencentes ao rebanho sem identidade.  

Portanto, para escapar tanto do enaltecimento como da depreciação era necessário mostrar as condições históricas que os judeus sempre enfrentaram, e, para isso, recorri aos fatos.

Por exemplo, as muralhas do gueto italiano de Roma na Idade Média eram uma maquete tenebrosamente perfeita para o posterior confinamento sistemático dos judeus em guetos durante a escalada nazi-fascista na Europa.

Esta “preparação de terreno” foi muito mais ampla do que apenas eventos isolados. Os “libelos de sangue” que ocorreram da Inglaterra à França durante a Alta Idade Média foram eventos que também configuraram uma antecipação macabra para que a “solução final” ganhasse terreno — portanto consistencia — no imaginário dos povos europeus. Mas essa análise não poderia, nem deveria, ser somente histórica; ela deveria estar inserida no contexto da trama.

Por que?

Porque era preciso mostrar que a essencia da atitude existencial não esteve só, como querem fazer crer as tendencias seculares quando se debruçam sobre as religiões, na cultura e nos hábitos tradicionais.

Havia uma essencia, uma qualidade devocional que fazia o amor entre pessoas e o amor delas por Deus ser manifesta e importante, senão vital, na vida cotidiana. Era uma espécie de primeiro sentido para que os homens adorassem o Criador.

E esse era recuperar a alegria simples. Bastava viver. Um direito nem sempre respeitado.  

Se esse sentido primeiro extraviou-se ou foi extraviado dos homens será necessário recupera-lo, sempre. Esse é o oficio humano.

Nesse sentido, e nesse mais do que em qualquer outro, o livro não é mais uma ficção.