Tive a honra de ser convidado para participar de um encontro do BRASA (XIV – Congresso Internacional da Associação de Estudos Brasileiros no tema “Textualidade Judaicas na Literatura Brasileira – O Ofício do Escritor) que se realizou na PUC-RJ de 26 a 29 de julho de 2018. A organização ficou ao encargo das Professoras Lysley Nascimento, Nancy Rosenchan e Regina Igel. Na mesa de depoimentos de escritores brasileiros da qual fiz parte, também participaram Luis Krausz, Leila Danziger, Fábio Weintraub, Lucius de Mello e Ronaldo Wrobel. A troca, como convém, foi rica e saimos todos com várias ideias para testes de hipóteses. Sem delimitar uma tese única as apresentações procuraram evidenciar o aspecto múltiplo de judeus e sua produção literária no Brasil, suas influências e desdobramentos. A reflexão sobre o Shoah (Holocausto), o aculturamento, a assimilação, o processo criativo e o papel da memória nos vários autores analisados foram os temas centrais desta e das demais mesas.

Aqui transcrevo em 3 partes o conteúdo relacionado à minha participação como uma contribuição para que o diálogo seja ampliado e prossiga vivo.

Congresso BRASA – PUC-RJ – 27 de JULHO 2018

O midrash brasileiro “Céu subterrâneo”[1], o sefer de “A Verdade ao Solo” e o reino das diáforas de “A Pele que nos Divide”.

Agradecimentos às Professoras Berta Waldmann, Lyslei Nascimento, Nancy Rozenchan e Regina Igel, Gita e Jaco Guiszburg

Berta Waldman que escreveu em sua apresentação do livro:

“Na tradição teológica judaica, especialmente na tradição talmúdica, a interpretação não pretende delimitar um sentido unívoco e definitivo; ao contrário, o respeito pela origem divina do texto impede sua cristalização e sua redução a um sentido único. Assim, o comentário tem antes por objetivo mostrar a profundidade ilimitada da palavra divina e preparar sua leitura infinita, para gerar sempre novas camadas de sentido até então ignoradas.”

Esta observação foi por mim empiricamente verificada. Só assim o autor consegue sentir o impacto na realidade dos leitores, os quais fizeram juízos muito distintos do texto. Aspecto que só enfatiza a recusa dos textos à fixação em uma única interpretação. Ao contrário, quanto mais o autor ouve mais ele enxerga a polissemia involuntária que provocou.

No caso do  livro “Céu Subterrâneo” este aspecto se refletiu em várias camadas do texto:

  1. A) Na fonética – quando cada leitor pronunciava com distintas sonoridades o nome de cada um dos personagens.
  2. B) Na leitura do sentido do que significa “revelação”: fotográfico, metafísico, transparência real e as inumeráveis outras interpretações para a representação da imagem;
  3. C) Na busca de identidade e de sentido: a luta entre a consciência e o ignorado e entre o ceticismo e a recuperação de algum lugar para uma religiosidade não canônica, segundo a etimologia religação;
  4. D) Na análise política: qual seria o impacto do consenso em uma origem comunal para todos os povos? Israel e seus habitantes em sua multiplicidade e diversidade?
  5. E) Na natureza do milagre, que se traduziria em uma realização da própria imanência ou símbolo da transcendência?
  6. F) No amor, em seus distintos planos de interferência nas relações;
  7. G) Na metáfora do Paraíso: do penitencial ao redentor.
  8. H) Na cronologia: os movimentos do tempo e a imposição de uma arqueologia que permita a investigação dos sentidos. As diferenças entre a cronologia e katastasis (a sequência) no analógico e no digital.
  9. I) No papel, complementar ou vital, da imaginação de quem interage com o texto;
  10. J) Na ideia de bloquear o excesso de protagonismo a fim de buscar originalidade, além do estranhamento, é preciso abandonar a identidade e deixar-se orientar pelo ocasional.

Solidão: processo criativo  

Viajar é enfrentar fechos e desfechos desconhecidos. A minha experiência em Israel quando fui contemplado com uma bolsa literária para lá escrever pode ser classificada de muitas maneiras: eclética, abrupta, estranha e milagrosa. Eclética porque foi feita por intermédio de um roteiro errático, quase impulsivo. Fora o roteiro mínimo, viajei ao sabor da vontade (e) dos eventos. A minha revelia experimentei o anti-terapêutico. Com o perdão dos psicanalistas, abandonei-me para, por um período, deixar de ser mais o sujeito da própria historia. É sempre preciso reafirmar que a solidão, a improvisação e a migração errática são fatores chaves, pode-se mesmo dizer condicionais para qualquer empreendimento literário.

O leitor tem um papel quase messiânico: e o único que pode assim preencher a incompletude do autor. Vale dizer, modelar as lacunas voluntárias e involuntárias que o escritor vai “perdendo” pelo trajeto. A professora Lyslei Nascimento enxergou em “Céu Subterrâneo” referências cruzadas com a obra de Walter Benjamin: escavar é escavar-se. Ou seja, Israel é um espaço do mundo que comporta vários extratos no plano cultural e arqueológico. Quem recentemente visitou as escavações ao largo do Kotel (o Muro Ocidental) em Jerusalém pode testemunhar que hoje Israel é um país com vasta exploração do subsolo, e o foco não é o petróleo. A auto-escavação que se organiza de dentro para fora, e também no sentido inverso, apresenta na região uma incidência incomum. O acaso é o outro tema importante. Dentro da axiologia judaica, ele é uma espécie de disfarce elegante para alcançar uma finalidade não aparente, pré-concebida e, às vezes, indecifrável, que nos impulsiona em direção à compreensão dos destinos individuais. A trama criada nesta segunda ficção tem no negativo de uma polaroide achada por Adam Mondale um de seus eixos. Um instantâneo que realça o momento e que, ao mesmo tempo, tem o poder de nos conduzir à uma outra realidade.

O registro da imagem também funciona como um indicio de que algo do inteligível subsiste somente no original e que, muito provavelmente, pode não estar presente nas cópias. Só os originais conteriam aquilo que os múltiplos e interpretações das interpretações recusam. Isso não significa desprezo pelos comentaristas, como se pode constatar na rica tradição das mischnaiots (inscrições como comentários) nos textos canônicos e suas anotações marginais. Mas como acessar o original?

Portanto, interpretar o interpretado tem um valor hermenêutico muito distinto de esmiuçar o texto inaugural.   Dependemos desse auto-esclarecimento para sentir que estamos nos completando ou identificando, já que, por natureza, somos seres que precisam evocar a memória que nunca passa e que nos compõe como seres históricos.

Aristóteles, em seu História dos animais, ao definir os seres humanos na notável distinção entre humanos e animais, escreveu que era esse o aspecto central daquilo que nos diferenciava dos assim chamados “animais irracionais”. Tratava-se, contudo, de um equivoco histórico, apenas parcialmente corrigido. E ele ocorreu em função de um incrível erro de tradução do copista. Foram necessários mais de dois milênios para que algum filólogo curioso se debruçasse sobre o texto e notificasse a humanidade do engano, vale dizer, a má acepção com que a palavra grega foi tomada. Na novíssima leitura, o que nos diferenciaria das outras espécies não seria a falta de racionalidade ou razão, mas a capacidade de evocar, à nossa vontade, todas as lembranças e ainda contar com a capacidade para verbalizá-las.

“Aristóteles atribuiu outro gênero de inteligência aos animais, muito diferente do consagrado ‘irracional’. A grande distinção entre animais e humanos era outra: “Muitos animais têm memória e são passíveis de instrução; mas nenhuma outra criatura, exceto o homem, pode evocar o passado através da vontade”3.

O domínio da memória e o tempo é que fundamentam a criação em um romance. O personagem Adam Mondale, não esqueçam, representa, segundo a cultura judaica o idish kait, o primeiro falante ou simplesmente o “falante” (medaber). E a ele é quem foi conferida a missão de nomear as coisas do mundo.

Para que(m) escrever?

Fedra, o senso comum versus a literatura

Como especulava o diplomata, botânico, astrônomo, filósofo e biologo Emmanuel Swedenborg, todo homem pode ser muitas coisas ao mesmo tempo. Na literatura é quase obrigatório ser. Por que tantos jornalistas entram na literatura? Talvez a facilidade inicial de acesso à linguagem tenha o papel preponderante nesta escolha (os médicos também entram certamente por alguma outra facilidade) mas fica evidente que a formulação da linguagem no caso dos jornalistas e críticos de literatura precisa incorporar uma multiplicidade de aportes se desejam arriscar-se na ousadia criativa. E o ensaio é a prova de que a literatura se opõe à filosofia, vale dizer, enquanto a memoria criativa dá o tônus da primeira, a reflexão epistemológica sobre a existência orienta a segunda. Não é infrequente que o critico e o jornalista se debrucem sobre a literatura muitas vezes sob o sistema de notação da filosofia. O resultado costumar ser binário: endosso ou recusa. E este julgamente será feito de acordo com valores mais axiológicos do que literários. Também pode ocorrer o reverso: quando o é o próprio romancista ou o poeta transformam a literatura em apologéticas narrativas politicas do quotidiano.

Hélène Cixous em “Do Retrato à Finnegans Wake” (in “Joyce e o Romance Moderno”, Coleção Documentos, s.d) desenvolve uma teoria. Em oposição ao texto Fedra de Platão, James Joyce enxerga a literatura de forma quase prescritiva (pharmakon). Sua oposição, segundo Cixous, pode se resumir à famosa objeção socrática de que tudo que não se atém à filosofia acaba sendo doxa. Se para Sócrates a literatura é a alienação à lógica que favorece a dispersão reflexiva, portanto politica, para Joyce é a linguagem, instrumentalizada pela imaginação, que permite impactar, sobressaltar, mudar, enfim elevar a tensão e o contraste, à harmonia e a um estado de exasperação ao sujeito. O processo de elaboração obriga – como efeito colateral — o escritor a ter mais tempo para se estudar. É possível que o leitor mimetize um movimento similar? E, enfim, a pergunta cientifica que vem perturbando a psicanálise: a literatura cura?

Talvez não, talvez nada. Mas, e se ela trouxesse elementos de cuidado? De cuidado que misturasse componentes e, ao aportar identificações artificiais, de narradores, criadores e criaturas — criasse percepções que escapassem do esmagamento promovido pelo senso comum? E se ela gerasse um painel tão diverso dos estados humanos que introduzisse interferências?

A escrita como estado idiossincrásico de consciência.

Existe no processo do autor uma vontade, uma espécie de predisposição subjetiva que faz com que se incorpore um modo muito particular ou idiossincrásico de interpretar o mundo. Porém, essa hermenêutica não está ajustada a nenhuma lógica particular, e, apesar de todos os esforços racionalizadores, muito menos à adesão as correntes teóricas. Antes, vincula-se a um momento de abstração, de transe, aquele que faz emergir uma peculiar forma de analisar o mundo.

Um jornaleiro inquieto em sua banca.

O som timpânico da terra descendo sobre o caixão num sepultamento.

Uma nuvem única que obstaculiza o sol.

E onde estaria afinal a genealogia do fluxo de consciência? Sobre o qual se sabe tão pouco? Concordando com Bergson, a potencia criativa não pode ser reduzida aos processos atuais de mapeamento das áreas neurofisiológicas. Para o filósofo, a unidade neurológica seria apenas o buffer acumulador, encarregado de exonerar os processos, jamais sua origem exclusiva.A escrita, quando aspira a originalidade recusa o mecanicismo e adota uma lógica vitalista.

A poesia, condutora da prosa

Há um aspecto do processo criativo que gostaria de explicitar. Para o poeta a criação de um poema emerge de um snapshot, “o primeiro ponto vivente” do qual falava Willian Harvey sobre o coração, quando descobriu a circulação do sangue, a totalidade síntese, o resumo do abismo, aquele instante com potencial para emular uma ficção.

A Verdade lançada ao solo

A prosa pode, assim, nascer de um verso. Vale dizer, em um poema podem aparecer aspectos embrionários para o futuro desenvolvimento da prosa. O momento de síntese faz emergir um conjunto de imagens que pode ou não dar vida a um texto mais longo, poesia, crônica, prosa (conto ou uma ficção extensa). A imagem, aliás, pode ser o ponto zero que antecede inclusive a confecção de um texto.

[1] Palestra sobre Céu subterrâneo, São Paulo, Editora Perspectiva, 2016.