O que acabo de entitular como “mística da literatura” tanto chocará como provavelmente passará como um texto semi-invisível, quase anônimo, já que este autor apenas fez a estréia em um romance, não é acadêmico de Letras ou jornalista e atualmente não conta com networks

Mesmo assim, ou por isso mesmo, é necessário deixar registrado que a criação é, também, um procedimento místico. Que razão, estilo e método entram como ingredientes coadjuvantes da intuição e da percepção mística. A mística não se refere só a uma vulgata de estados extáticos, e portanto alienados, mas à compreensão que coloca o interno — o inner felling — como origem e vida da inspiração e da motivação. Isso significa que criar é ficar devendo ao fogo, ao fogo do espirito. Significa que para criar não só temos que ter algo a dizer, mas esse dizer deve trazer o espírito mais suavemente, mais apaziguadamente e mais claramente para uma área de mudança.

Que ninguém confunda e fica aqui reiterado: a criação se processa com dor, sob agonia. Torça-se o nariz para esta exortação mas isso não a torna menos veraz.  

A mística portanto têm um caráter polissêmico e audaz. Polissêmico porque têm muitas inserções possíveis: age sobre a mente e o corpo por pressão e torna o autor suscetível o suficiente para formular e trazer as ideias (que geralmente começam com imagens, como Aristóteles pensava) para as letras. Audaz porque é preciso muita coragem para dizer o que viemos para dizer. Parece simples? Não, não é nada simples. E as letras vem sob pressão (sempre pressão, sim, escrever é ser acuado por voce mesmo) dos fonemas. Os sons obedecem parte desta mística que se processa na criação porque é onde estamos mais próximos Dele. Ninguém precisa crer em nada mas isso não significa que não exista.  

Talvez minha enorme fração, predominantente fração decerto, de poeta, ajude ou pelo menos intensifique esse aspecto musical com que as palavras precisam, insistem e se acotovelam para se encaixar nas sentenças.

Como disse em outro lugar, quando surge uma palavra (há quem use a critica para destruir o uso da livre associação como critério literário, mas para dar crédito a esta objeção, teríamos que negar pelo menos boa parte da psicologia — talvez menos a psiconeurologia)  se não atribuíssemos a ela o papel lampejador que ela efetivamente tem, ao menos como primeiro motor. Ela nos coloniza, embaralha a mente, até que seja usada, expelida.  

A mística da literatura, quando se trata do processo criativo, não  está encolhida nem ocupa lugar secundário:  é uma das raras prioridades.