As montanhas sempre traduziram metáforas de buscas. Colinas, topos e montanhas — além do perigo progressivo — prometem o ar que se renova e a rarefação, o perigo da digressão mística e o ambiente que desloca as pessoas da visão crônica de vales e planícies.  

Na literatura, as escaladas sempre tiveram papel importante.  Por motivos diferentes médico e paciente (Yan e Sibelius) queriam escapar do Brasil. Não seria a mesma coisa um temporada numa praia do sul da Bahia ou uma aventura no pantanal matogrossense. Primeiro porque estavam saturados de seus contextos pessoais e ligavam a surmenage ao país. Não aguentavam mais o ambiente político, acadêmico ou existencial.

Sibelius estava à  exaustão, Como professor universitário semi banido e ex-dependente químico queria ver se uma temporada de férias separado de seu ambiente, pudesse trazer de volta a paz perdida.

Mas não era só isso.

Sibelius pensava que uma aventura radical como escalar uma montanha alpina trouxesse para ele a inspiração perdida, a regeneração que não mais enxergava da planície. Cogitou montanhas andinas mas descartou-as porque só a aclimatação para subir o Acongagua, por exemplo, demoraria dois meses. As montanhas suissas, por sua vez, estavam muito mais acessíveis com as sucessivas crises européias e o esvaziamento progressivo do forum econômico em Davos. Enfim surgiu a oportunidade.

Outro fator que colaborou para que Sibelius escolhesse a localização para a  subida era verificar in loco as “vantagens do degelo”. Este era o slogan da empresa de ecoturismo que tentava  vender o pacote depois que áreas inacessiveis de vários topos europeus ficaram mais exploráveis.  Yan por sua vez estava se despedindo da vida  acadêmica e precisava aliviar a tensão que acumulava como médico. A apresentação de seu trabalho “Falha de Instinto” em Berna foi abolutamente providencial. O paper tinha causado  tumulto no Brasil e tinha sido aceito por “pares” em revistas científicas com reserva editorial.  Yan sabia que era um trabalho polêmico. Mas isso é que o deixava mais motivado. Depois que voltou a uma vida simples e abandonou suas pretensões acadêmicas queria alcançar a paz despretenciosa. Mas só isso já era uma enorme pretensão.  Estava muito impressionado também pela experiência que teve com o grego que invadiu seu plantão trazendo informações que desestabilizariam qualquer um.  Yan foi abalado.

Outro aspecto que unia o interesse dos dois  era a forte amizade que se estabelecera entre eles durante os anos em que Sibelius esteve em tratamento.

Os dois eram fascinados pelo gelo e pela neve. A neve havia inspirado Yan muitas vezes em poemas que as vezes permaneciam em estado de oficina por dez, vinte anos. Sibelius tinha menos atração pelo frio mas já não aguentava mais ficar passar os verões em pousadas baratas “pé na praia”. Estava já com a pele torrada e ali o vício era muito mais tentador e acessível. Em crise com a última namorada e mais uma vez sob risco de ser cassado na Universidade quis se afastar de tudo que conhecia.  

E foi numa tarde cheia de lentidão que decidiram fazer a empreitada que poderia ser só mais uma extensão das férias. Idealizaram a montanha mágica e não perceberam o potencial de insanidade que as aventuras exigem de quem quer se arriscar.

Nunca poderiam imaginar que as circunstâncias mudariam dramaticamente e que, menos de alguns dias depois do desembarque em Zurique, estariam lutando para sobreviver. Contando milgalhas, espremendo-se para ganhar calor, especulando sobre a morte próxima.   

A jornada de Yan e Sibelius tem a marca apagada de uma verosimilitude que pode, e deve, ser sentida na pele.