Uma entrevista sobre Verdades e Solos

P- Por que tanto tempo para escrever o livro?

Perfeccionismo. Sou perfeccionista, como uma vez brinquei com um amigo “perfeccionismo paralisante”. O prematuro me horroriza. Demorou porque ele me ocupou dia e noite e porque o tempo não pode e não deve ser regido intuitivamente. O tempo, na verdade, não importa.

P- Na sinopse redigida na orelha do livro, afirma-se que o livro se refere à “morte da transcendência, o fim da história, ao massacre da natureza, e a elevação da ciência ao patamar de dogma”. Voce poderia esclarecer os leitores?

Note que o texto afirmou “depois dos decretos que sucessivamente anunciaram”, por um lado isso quer dizer um pouco da natureza autoritária com que os intelectuais costumam anunciar as verdades e, de outro, como se costuma subestimar as necessidades e desejos que guiam a humanidade. Vamos começar do mais difícil “a morte da transcendência”. Quando Nietzsche enunciou que “Deus estava morto” antecipou uma realidade ou trouxe de forma provocativa um problema, talvez o problema do homem contemporâneo:  o que, quem é Deus, onde estamos em relação às aspirações transcendentes? Isso está entrelaçado com as afirmações do famoso autor acadêmico que anunciou o “fim da história” (anos depois, reviu sua própria tese, concluindo por sua terrível precocidade) jamais poderia concluir, naquela altura, que ela, a história, explodiria o porão e escapuliria derrubando, por exemplo, as torres gêmeas. A inauguração do XXI foi um imponderável que, no entanto, provocou inegável e radical rearranjo de forças pelo mundo. E assim não só as religiões ganharam mais relevância na análise histórica como o lugar de Deus para a humanidade deslocou-se violentamente. Deus está vivo, e não pelo desejo dos homens.

P- E o “massacre da natureza”, não é um pouco dramático…

Mas é mesmo dramático. Não me refiro ao uso político com que os partidos verdes (sou daltônico sabe, talvez isso interfira na avaliação) usam a destruição do habitat para alavancar o vazio de suas plataformas. Me refiro à tenebrosa predição de Arthur C. Clarke de que, em algum momento, jocosamente (as profecias podem começar como alusões infantis) disse que “os dinossauros desapareceram porque não tinham um programa espacial”. É um fato. Não é necessário esforçar-se para buscar analogias sofisticadas. Por que, por exemplo, a NASA tem investido macicamente em geoastronomos? Há uma nova corrida espacial: a ver quem acha o planeta mais habitável dentro de um raio de distância factível para as próximas gerações.  Isso é grave. Gravíssimo. Um sinal da tragédia. Significa que uma parte de establisment está considerando, seriamente, que a Terra não será mais viável num futuro não muito distante. Assim como uma gerontoburocracia como a que regeu a URSS nos anos da guerra fria não se importaria muito em pulverizar atomicamente o mundo, há hoje burocratas menos idosos que podem não ter enorme interesse em preservar o mundo, já perdido> A tecnociencia também já anunciou que poderá nos salvar do excesso de tecnologia com mais tecnologia.

Dificil acreditar. Bacon que o diga.

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