Claro que compreendo porque muitos não gostam de ler alguém com razoável discernimento científico e até filosófico falar sobre “a mística da literatura” ou como Deus é importante no processo criativo.

Céus, o que está acontecendo?

Estão todos embebidos d´náusea! Drogados pela paixão em que se transformou o ceticismo-resistencia como contraponto à crença-establishment.

Mas eis uma discussão que não diz nada fora do ambiente da literatura. Por isso, correndo, voltemos a ela.

Isso quer dizer, e reafirmar, a literatura é mística!

Em miudos, significa que a leitura ainda é uma forma de acesso profético ao mundo. Que o delírio cético pode se igualar ao delírio místico, onde ambos estão anulados como teoremas ou teses filosóficas. 

O que sobra?

O espírito! Sim o espírito com suas  aspirações e suas prisões que cortam todas as carnes.

Vivemos para viver. Se pararmos (não pensarmos) um pouco, veremos: só isso temos.

Não quero mais ver filmes que reiterem o cotidiano. Estou saturado com favelas retratadas em ensaios burlescos intensificando a realidade como padrão. Não preciso e não quero saber de tudo que se passa no mundo ao mesmo tempo. Não quero responder — ainda que me sinto obrigado a, e frequentemente o faça — aos e-mails e os torpedos com presteza neurótica. Não quero viver sob a tutela do estado, da sociedade, dos mestres, da civilidade (principalmente porque é falsa). 

É eu sei, caro Sr, nossa liberdade depende de todas estas obrigações.

Mas pensem por um segundo! Se a liberdade fosse um atributo absoluto e voce não dependesse da KGB psíquica nem da Stasi espiritual para poder viver tranquilo. Se voce pudesse conviver com o que voce é, sem precisar recorrer à tal demencia racionalizadora que coloniza o mundo. Se seus preconceitos pudessem ser vividos sem esmagar ninguém.

A literatura é mística porque ela é um outro possível. Ela nos faz respirar o que, de outro modo, não respiraríamos. A literatura é mística porque produz um transe que nenhum outro é capaz (talvez o cinema, mas pelo que se ve, cada vez menos): podemos conversar e ver conversas.

Isso está acabando.

Na era em que os adolescentes tem cifose precoce por se curvarem demais para responder em seus blackberries  e a vida virtual é mais valorizada que a intimidade em carne e osso, sabemos, intuimos, pelo menos pressentimos, que isso não é aquilo.

Façam um favor a voces mesmos, por alguns instantes durante o dia, recusem a realidade. Voces ouvirão o ruído de fundo caminhando devagar, ele assumirá parte do controle e assim voce poderá, enfim, se descontrolar.

                                                                                      “atestar o total descontrole”

Deus pode falar, assim como as ideias podem viver de novo.

E, por isso, todos nós também.