Talvez eu devesse ter dividido o texto em três: mística da literatura, literatura mística e o místico na literatura. Mas não o fiz ainda.

Por enquanto, continuarei falando da mística da literatura para tentar compreender como o processo de criação acontece em mim.

O processo inicial de uma poesia por exemplo, leva pouco menos que um segundo. (atenção: a percepção vêm, a elaboração circulará anos até qualquer desfecho). Ela se faz e se desfaz com a mesma velocidade. Como os sonhos dos quais podemos regastar vestígios — e anotados podem nos fazer “puxar”o enredo todo durante o dia — o processo criativo passa por imagens primordiais. Estas imagens as vezes são palavras puras, imagens internas, e, as vezes, na maioria delas, a captura de uma imagem do mundo sensível.

Ontem vi um “chorão”e a árvore estava parcialmente iluminada pelo sol que descia. Ouvia Eric Satie enquanto dirigia. Aquilo produziu em mim um desejo de transformar aquele conjunto de percepções e sensações em uma poesia. Não o fiz, paguei o preço. A impossibilidade de expressão machuca e como um espinho incapaz de ser localizado, incomoda muito.

Só sei que a poesia do “chorão” traria uma imagem :

fosca exaustão de um sol em tiras,

que se retirava, lentamente,

para que o pingo,

qual folha,

gotejasse no poente avesso.

Não existem outras palavras para a poesia, ela é arbitrária, insensível à critica e não se trata de um capricho de autor, sucesso de estima, nem de poeta refratário mas de sua própria natureza. Uma tirania que, se fosse somente estética, acabaria logo ali.

Espero que dure.