• Uma entrevista sobre Verdades e Solos
  • Resenha de “Céu Subterrâneo” no Jornal da USP
  • A verdade lançada ao solo, de Paulo Rosenbaum. Rio de Janeiro: Editora Record, 2010. Por Regina Igel / University of Maryland, College Park
  • Resenha de “Céu Subterrâneo” por Reuven Faingold (Estadão)
  • Escritor de deserto – Céu Subterrâneo (Estadão)
  • A inconcebível Jerusalém (Estadão)
  • O midrash brasileiro “Céu subterrâneo”[1], o sefer de “A Verdade ao Solo” e o reino das diáforas de “A Pele que nos Divide”.(Blog Estadão)

Paulo Rosenbaum

~ Escritor e Médico Writer and physician

Paulo Rosenbaum

Arquivos de Categoria: Artigos

dia internacional em memória das vítimas do holocausto?

27 quinta-feira jan 2011

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Pois que testemunhem:

Os que socorreram

 Os que ficaram

 Os que enfrentaram

 Os carrascos (ainda vivos) das tocas

Os carrascos da vida normal que levam

Os vilões convictos

Os assassinos aflitos

 Os covardes

 Os omissos

Os contemporizadores

Os Estados silentes

Os berços vazios

Os ricos que escaparam

Os que explicam tudo

Os que dizem que é lenda

Os que explicam

Os revisionistas (e sua má matemática)

 Os ingênuos

 Os ímpios

 Os aliados

 Os heróis

 Os falsificadores

 Os contrabandistas

 Os ladrões

 Os pilhadores

 Os sobreviventes (no gemido da culpa)

 Os inocentes

 Os enforcadores

 Os pelotões,  

Os adormecidos

Os historiadores

Os produtores de cinema

Os documentaristas

e todos nós

pois a memória, 

não restitui vidas,

então não há de ser dita.

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P- O que espera de seu livro?

24 segunda-feira jan 2011

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Muito. Mas estou aprendendo aos poucos, diminuir a expectativa. Não tem sido fácil. E, pelo que observo, parece ser um problema generalizado dos autores.

Ontem vi o livro nas estantes de duas livrarias de um Shopping Center. Estava lá, perdido entre tantos títulos. Não há como não fazer considerações sobre o que afinal torna um livro best seller. Não que eu não desejasse isso, mas sempre penso a que custo.

Não. Não é inveja dos escritores que vendem aos milhões mas confronto comigo mesmo. A meta é produzir algo que venda? Adoraria que isso fosse um efeito colateral do talento.

Na verdade penso que seja possível adequar boa literatura aso agrado do grande público.  No meu caso, sinto um problema de apego à linguagem. A minha linguagem. Simplesmente não conseguiria produzir algo que — mesmo com sucesso — descaracterizasse os elementos simbólicos e poéticos que me são tão caros.

Um livro depois de nascido não pertence mais à voce mesmo. Mas va convencer os pais de que os filhos são autonômos.  Dá no mesmo. Voce quer ainda  saber como ele anda, e em quais companhia se diverte e mesmo diante das mais insalubres companhias ele pode estar lá, crescendo bem, saudável.

Espero que meu livro ande só. Que desloque as pessoas do conforto. E até para os que pararem na orelha que ele possa, com efeito, sentir que foi tocado.

Se trato os livros como seres vivos?

Não, não trato, mas olha que é ótima ideia.

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Pelo amor à coisa – Descubra se voce é escritor

23 domingo jan 2011

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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As vezes escrever sem nenhum compromisso é bom. Melhor ainda se for só amor que se tem ao ir formando os textos. Nesse caso, estou mais do que convencido de que muitos podem se beneficiar ao escrever.  Mas melhor,  para o bem geral,  distinguir alívio catártico de literatura.

Que se torça o nariz para a função catártica mas ela é um forte instrumento terapêutico e, também, curativo. Ela tem até um nome na relação médico-paciente e já foi mais explorada na era anterior à psicanálise.

Uma das minhas ideias é reunir pessoas para poder comentar textos em conjunto. Enquanto isso não se concretiza fiz uma lista de algumas caracteristicas para que cada um faça sua própria investigação:

Quando escreve é facilmente distraído por qualquer demanda externa?

Quanto tempo dedica-se a formatar (= a lamber, modelar, trocar, testar, simular, acariciar e as vezes, muitas vezes, deletar) um texto?

Como seu estado mental (psico-afetivo-espiritual) afeta a  qualidade daquilo que está elaborando?

Quando está escrevendo voce pensa no público-alvo em primeiro lugar?

Quando lê o texto de outros voce imediatamente pensa nos seus?  Ou consegue compenetração para embarcar no que está lendo?

As ideias e o processo criativo surgem em algum momento específico? 

Voce obedece a intuição?  

A leitura crítica de algum colega/conhecido/amigo(a)/namorada(o)/esposa/marido pode te desestimular a ponto de voce desistir do texto?

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P-Foi difícil conciliar os fatos históricos que voce inseriu no livro com a linguagem da ficção?

23 domingo jan 2011

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Num romance histórico, com características de ensaio, as vezes, é mesmo difícil não ceder à tentação do didatismo. Isso quer dizer também que a narrativa nos trás ao campo do possível para cada enfoque literário que se quer privilegiar. No meu caso como não sou um teórico da literatura (e acho ótimo que estejam surgindo novos autores fora das Academias de Letras) posso apenas dizer que me esforcei para não tropeçar nestas armadilhas. Mesmo assim alguns diálogos apresentam-se (e só assim poderiam ser apresentados) como idéias e especulações filosóficas colocadas nas bocas dos personagens.

 Alguns leitores que escreveram e gostaram do livro fizeram observações neste sentido:

 Os diálogos entre Yan e Sibelius são inverossímeis pela situação em que  eles estavam

Ou em alguns trechos o livro é muito cerebral.

Ou dizem que em muitos momentos a densidade interfere no fluxo da leitura. 

São todas super bem-vindas. O que posso dizer?

Acho que eles tem razão, mas em minha defesa digo que a verosemelhança costuma desaparecer em momentos de risco e que depende muito de quem está nesta situação. Conhecendo melhor os personagens a tendência é que as pessoas possam perceber que quando se perde o controle pode ocorrer tudo, inclusive excesso de racionalizações.

 Mas algumas questões éticas que Yan e Sibelius se colocam no alto da montanha quando estavam para morrer não são mesmo processos que se resolvem só com narrativas descritivas ou de ação. Os dilemas morais perturbam e desassossegam. Há que entrar nas mentes e extrair-lhes tudo; dos sistemas filosóficos aos sonhos. Neste sentido o livro é mesmo cerebral se considerarmos que mesmo não sendo um tratado nem uma tese ele sugere temas e idéias que precisam se valer da coerência para se sustentar. Para ter a consistência que idealizei não havia como escapar do predomínio das idéias, mas isso parece não ter tirado dele nem a força das imagens nem o perfil poético.

 Alguns leitores gostaram muito dos finais, especialmente das partes I e III. Eu perguntei curioso:

— Por que?

 — Pela beleza!

 Para mim está bom.

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P – Muitas vezes seu texto apresenta uma linguagem que transita entre a prosa e a poesia. Pode comentar um pouco?

21 sexta-feira jan 2011

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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De fato, o texto tem esta característica que voce identificou.

Minha prosa é decorrencia natural da fluidez/elaboração poética.

Mas prefiro começar comentando que sinto que meu texto contém uma mistura de estilos e estas distinções (prosa, prosa-poética, ensaio) não fazem muito sentido para fins de classificação. Isso não tem a ver com uma resistência à qualquer taxionomia literária. Num romance voce pode e deve usar todos os recursos narrativos que estiverem ao alcançe. 

Claro que, alguém como eu, que vim da poesia, sempre vai usar essa referência literária como condutora da linguagem. Uma questão de formação.  Isso significa muitas imagens. Excesso de imagens. Formatação de ideias como imagens. Minha poesia sempre ficou assim configurada. Tudo porque penso por imagens.

Essa tendência foi fundamental para modelar o enredo assim como  a construção do personagem Zult e todos os outros. Todos eles apresentam caracterizações que se destacam por processos muito particulares de linguagem. Isso tem a ver com a técnica tradicional mas muito mais com o que aprendo todos os dias coletando histórias inviduais.  Assim ficamos sabendo que cada um tem uma forma muito particular de se manifestar e que estas caracteristicas da fala são essenciais, identificam as pessoas.

Busquei aplicar esse conhecimento aos personagens. Algo muito diferente de um “estilo”, pois enquanto a construção dos perfis tem que obedecer uma verosemelhança e uma certa naturalidade, ainda que intuitiva, os “estilos” em geral são falsos, induzem ao superficial, partem de uma premissa reducionista. 

Na primeira parte o uso de uma linguagem mais formal faz todo sentido pela época histórica no qual o enredo se passa. Mas mesmo ali não existe linealidade: há momentos de poesia, de prosa poética, de ensaio, e todos eles se fundem numa narrativa muito pessoal.

Na segunda parte apesar de Yan e Sibelius estarem numa situação perigosa eles vêm de uma formação acadêmica, e frequentemente, o texto sublinha essa artificialidade. Muitas vezes eles mesmos se denunciam. Fazem auto recriminações quando se pegam sendo muito “civilizados” ou excessivamente polidos numa situação que embruteceria qualquer um. Isso até que a situação chega no limite.  Ai… só mesmo lendo.   

A terceira parte é um capitulo extenso. Continuo depois.

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Galeria

19 quarta-feira jan 2011

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

≈ 4 Comentários

Esta galeria contém 13 imagens.

 

P- Qual o propósito da criação do seu blog?

18 terça-feira jan 2011

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

≈ 2 Comentários

O proposito é difundir meu trabalho.

Apesar da minha relutância  — pois tinha muitas resistencias em recorrer a um veiculo deste tipo para poder ter um trabalho reconhecido — concedi à realidade. 

Simplesmente não há como fazer um trabalho literário ser conhecido se voce apenas se render ao mérito das letras ou confiar na justiça poética (ela existe, mas pode ser lenta e tardia como a aplicação das leis). Não sei se há ou não este mérito no meu trabalho — ainda que prefira acreditar que sim — mas sem que  as pessoas ouçam, vejam ou conheçam o que voce faz, o que se pode esperar?

Não só os espaços das mídias são exiguos e disputados como nós autores sem inserções pré construídas não temos a menor chance já que competimos com ícones, celebridades e gente consagrada (não importa o campo original em que elas atuem) o que convenhamos diminui muito as chances de ser veiculado.

Depois fui descobrindo uma função catártica no blog e que só me aguçou a curiosidade para prosseguir num documentário que ainda pretendo organizar: investigar como se dá o processo criativo.

Este assunto me interessa como médico e  como escritor. E tudo que une as duas características temáticas são leitmotivs.

Por último diria que a construção da linguagem (assim como a desconstrução necessária para se obter o produto) torna o oficio do escritor infindo, se ele quer ter o texto cada vez mais elegante e filtrado de todo artificialismo ele precisa investir em si mesmo. Ter algum orgulho.

Não se trata de enaltecer-se ou “fazer marketing da própria imagem”. Pelo contrário, isso promove o sujeito e não o que realmente interessa, a criação. Mas se trata sim de expor-se mais, arriscar-se mais, duvidar mesmo se o que a maioria gosta não é fruto da pressão social, dos oligopólios midiáticos que ditam, explicita ou sublimarmente, o que as pessoas devem gostar, como podem se comportar, quais os critérios estéticos, éticos e semânticos que devem dominar as pautas jornalísticas.

É claro que preferiria espaços mais amplos e visíveis e isso talvez trouxesse certa visibilidade e reconhecimento que é todo autor deseja.

Encontrei esse caminho e sou grato ao pessoal da Record e da Fsb por terem dados todos os incentivos para que eu pudesse construir um espaço livre e digressivo onde posso, sobretudo, conversar com os leitores.

Mesmo aqueles que não podem me ouvir.

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P-O livro está repleto de anagramas, pequenos segredos e labirintos. O que pode nos falar sobre eles?

17 segunda-feira jan 2011

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Obviamente posso falar pouco.

Os segredos e labirintos — parte integrante da linguagem romanesca — têm várias funções: manter o leitor atento (pois deve estar consciente que a desatenção ou a leitura muito fugaz pode depois lhe custar atenção dobrada) e trazer a hesitação e o suspense como eixos importantes da narrativa.  

Não acho que seria benéfico adiantar os enigmas que busquei plantar na trama mas posso antecipar (isso já é muito e espero não ser repreendido) que eles se distribuem homogenamente pelo texto.

Por favor leitores: avisem se descobrirem.

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P- Yan e Sibelius escolhem uma montanha nos Alpes para fazer a escalada. Pode nos explicar o contexto desta escolha?

16 domingo jan 2011

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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As montanhas sempre traduziram metáforas de buscas. Colinas, topos e montanhas — além do perigo progressivo — prometem o ar que se renova e a rarefação, o perigo da digressão mística e o ambiente que desloca as pessoas da visão crônica de vales e planícies.  

Na literatura, as escaladas sempre tiveram papel importante.  Por motivos diferentes médico e paciente (Yan e Sibelius) queriam escapar do Brasil. Não seria a mesma coisa um temporada numa praia do sul da Bahia ou uma aventura no pantanal matogrossense. Primeiro porque estavam saturados de seus contextos pessoais e ligavam a surmenage ao país. Não aguentavam mais o ambiente político, acadêmico ou existencial.

Sibelius estava à  exaustão, Como professor universitário semi banido e ex-dependente químico queria ver se uma temporada de férias separado de seu ambiente, pudesse trazer de volta a paz perdida.

Mas não era só isso.

Sibelius pensava que uma aventura radical como escalar uma montanha alpina trouxesse para ele a inspiração perdida, a regeneração que não mais enxergava da planície. Cogitou montanhas andinas mas descartou-as porque só a aclimatação para subir o Acongagua, por exemplo, demoraria dois meses. As montanhas suissas, por sua vez, estavam muito mais acessíveis com as sucessivas crises européias e o esvaziamento progressivo do forum econômico em Davos. Enfim surgiu a oportunidade.

Outro fator que colaborou para que Sibelius escolhesse a localização para a  subida era verificar in loco as “vantagens do degelo”. Este era o slogan da empresa de ecoturismo que tentava  vender o pacote depois que áreas inacessiveis de vários topos europeus ficaram mais exploráveis.  Yan por sua vez estava se despedindo da vida  acadêmica e precisava aliviar a tensão que acumulava como médico. A apresentação de seu trabalho “Falha de Instinto” em Berna foi abolutamente providencial. O paper tinha causado  tumulto no Brasil e tinha sido aceito por “pares” em revistas científicas com reserva editorial.  Yan sabia que era um trabalho polêmico. Mas isso é que o deixava mais motivado. Depois que voltou a uma vida simples e abandonou suas pretensões acadêmicas queria alcançar a paz despretenciosa. Mas só isso já era uma enorme pretensão.  Estava muito impressionado também pela experiência que teve com o grego que invadiu seu plantão trazendo informações que desestabilizariam qualquer um.  Yan foi abalado.

Outro aspecto que unia o interesse dos dois  era a forte amizade que se estabelecera entre eles durante os anos em que Sibelius esteve em tratamento.

Os dois eram fascinados pelo gelo e pela neve. A neve havia inspirado Yan muitas vezes em poemas que as vezes permaneciam em estado de oficina por dez, vinte anos. Sibelius tinha menos atração pelo frio mas já não aguentava mais ficar passar os verões em pousadas baratas “pé na praia”. Estava já com a pele torrada e ali o vício era muito mais tentador e acessível. Em crise com a última namorada e mais uma vez sob risco de ser cassado na Universidade quis se afastar de tudo que conhecia.  

E foi numa tarde cheia de lentidão que decidiram fazer a empreitada que poderia ser só mais uma extensão das férias. Idealizaram a montanha mágica e não perceberam o potencial de insanidade que as aventuras exigem de quem quer se arriscar.

Nunca poderiam imaginar que as circunstâncias mudariam dramaticamente e que, menos de alguns dias depois do desembarque em Zurique, estariam lutando para sobreviver. Contando milgalhas, espremendo-se para ganhar calor, especulando sobre a morte próxima.   

A jornada de Yan e Sibelius tem a marca apagada de uma verosimilitude que pode, e deve, ser sentida na pele.

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P – Há um público específico para o livro?

13 quinta-feira jan 2011

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Não.

Ainda que ele parta de uma aldeia judaica do século XIX e a desenvoltura da trama esteja sempre ligada a esta trajetória ele é, continua sendo um romance. E numa estrutura de romance o enredo pode levar o leitor a muitos lugares. E portanto não acho que o livro se destine a um nicho único nem a um público especifico. 

Sem querer voltar à sinopse (sempre importante, porém sempre reducionista) “A Verdade Lançada ao Solo” buscou ter a abrangência de um romance filosófico usando os elementos ficcionais para conduzir o leitor a lançar suas próprias conclusões, se é que elas ainda sejam necessárias.  Até certo ponto, pois o livro, especialmente a parte III, é bastante aberto, e as reações a essa abertura têm surpreendido o autor.

Como já me disseram os leitores– alguns enxergando nessa tendência uma beleza extra na trama toda enquanto outros reclamavam — as vezes o fluxo em flash backs torna o livro mais instigante do que trabalhoso.

Como autor, sinceramente, espero que ele esteja conseguindo isso: despertar reações e tirar as pessoas do lugar.

Cada personagem carrega uma fração de todos os outros. Isso significa também que podemos ver representados e nos fazer representar em cada um deles. Claro que o livro foi escrito por um judeu, que, rigorosamente parte de sua condição para narrar o mundo de acordo com suas perspectivas e vivencias.

E, neste sentido talvez os leitores estranhem especialmente se constratarem com outros autores, como por exemplo, escritores onde usa-se a tradição como pano de fundo para uma trama policial. No meu caso, a tradição vem dizer coisas novas sem que ela precise ser reformulada ou descaracterizada como conhecimento espiritual (a ponto de ser reduzida à cultura) traz uma questão problemática e, até certo ponto, insolúvel, que é a questão da assimilação (deixo para comentar depois em uma sequencia de posts).

Mas é claro que as vivencias que os personagem protagonizam — se partem de uma perspectiva existencial etnica — são depois arrastadas à universalização na medida em que vão entrando no mundo, saindo do exilio e abandonando os guetos.

Nesse sentido pensei em trazer fatos concretos (usando um terceiro narrador) para que as pessoas pudessem se familiarizar um pouco mais com uma cultura que tem quase seis milenios. Os tais “fatos” vão desde os anos e locais nos quais as perseguições anteriores ao holocausto ocorriam até eventos que, precariamente interpretados, levaram aos mais diversos preconceitos, cujo exemplo mais comum é o antisemitismo. 

Assim busquei resgatar elementos históricos reais para colocá-los a serviço da compreensão do contexto. Mesmo assim, isso não basta para caracterizar o livro como romance histórico.  Isso porque a ficção ainda é o elemento predominante no enredo.

Sempre foi mais fácil demonizar genericamente uma raça, uma etnia e, eventualmente, toda cultura, que compreender sua trajetória histórica. Neste sentido, o livro tráz mesmo uma dupla defesa:  não só os judeus mas outras minorias podem e devem viver suas peculiaridades etnicas, linguísticas e espirituais sem precisar sentir que estão em débito, ou com crédito, diante da maioria.  Não que a maioria fique passiva, pois, por força da inércia da homogeneidade seria melhor se todos fôssemos quase indiferenciados, pertencentes ao rebanho sem identidade.  

Portanto, para escapar tanto do enaltecimento como da depreciação era necessário mostrar as condições históricas que os judeus sempre enfrentaram, e, para isso, recorri aos fatos.

Por exemplo, as muralhas do gueto italiano de Roma na Idade Média eram uma maquete tenebrosamente perfeita para o posterior confinamento sistemático dos judeus em guetos durante a escalada nazi-fascista na Europa.

Esta “preparação de terreno” foi muito mais ampla do que apenas eventos isolados. Os “libelos de sangue” que ocorreram da Inglaterra à França durante a Alta Idade Média foram eventos que também configuraram uma antecipação macabra para que a “solução final” ganhasse terreno — portanto consistencia — no imaginário dos povos europeus. Mas essa análise não poderia, nem deveria, ser somente histórica; ela deveria estar inserida no contexto da trama.

Por que?

Porque era preciso mostrar que a essencia da atitude existencial não esteve só, como querem fazer crer as tendencias seculares quando se debruçam sobre as religiões, na cultura e nos hábitos tradicionais.

Havia uma essencia, uma qualidade devocional que fazia o amor entre pessoas e o amor delas por Deus ser manifesta e importante, senão vital, na vida cotidiana. Era uma espécie de primeiro sentido para que os homens adorassem o Criador.

E esse era recuperar a alegria simples. Bastava viver. Um direito nem sempre respeitado.  

Se esse sentido primeiro extraviou-se ou foi extraviado dos homens será necessário recupera-lo, sempre. Esse é o oficio humano.

Nesse sentido, e nesse mais do que em qualquer outro, o livro não é mais uma ficção.

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