Num romance histórico, com características de ensaio, as vezes, é mesmo difícil não ceder à tentação do didatismo. Isso quer dizer também que a narrativa nos trás ao campo do possível para cada enfoque literário que se quer privilegiar. No meu caso como não sou um teórico da literatura (e acho ótimo que estejam surgindo novos autores fora das Academias de Letras) posso apenas dizer que me esforcei para não tropeçar nestas armadilhas. Mesmo assim alguns diálogos apresentam-se (e só assim poderiam ser apresentados) como idéias e especulações filosóficas colocadas nas bocas dos personagens.

 Alguns leitores que escreveram e gostaram do livro fizeram observações neste sentido:

 Os diálogos entre Yan e Sibelius são inverossímeis pela situação em que  eles estavam

Ou em alguns trechos o livro é muito cerebral.

Ou dizem que em muitos momentos a densidade interfere no fluxo da leitura. 

São todas super bem-vindas. O que posso dizer?

Acho que eles tem razão, mas em minha defesa digo que a verosemelhança costuma desaparecer em momentos de risco e que depende muito de quem está nesta situação. Conhecendo melhor os personagens a tendência é que as pessoas possam perceber que quando se perde o controle pode ocorrer tudo, inclusive excesso de racionalizações.

 Mas algumas questões éticas que Yan e Sibelius se colocam no alto da montanha quando estavam para morrer não são mesmo processos que se resolvem só com narrativas descritivas ou de ação. Os dilemas morais perturbam e desassossegam. Há que entrar nas mentes e extrair-lhes tudo; dos sistemas filosóficos aos sonhos. Neste sentido o livro é mesmo cerebral se considerarmos que mesmo não sendo um tratado nem uma tese ele sugere temas e idéias que precisam se valer da coerência para se sustentar. Para ter a consistência que idealizei não havia como escapar do predomínio das idéias, mas isso parece não ter tirado dele nem a força das imagens nem o perfil poético.

 Alguns leitores gostaram muito dos finais, especialmente das partes I e III. Eu perguntei curioso:

— Por que?

 — Pela beleza!

 Para mim está bom.