• Uma entrevista sobre Verdades e Solos
  • Resenha de “Céu Subterrâneo” no Jornal da USP
  • A verdade lançada ao solo, de Paulo Rosenbaum. Rio de Janeiro: Editora Record, 2010. Por Regina Igel / University of Maryland, College Park
  • Resenha de “Céu Subterrâneo” por Reuven Faingold (Estadão)
  • Escritor de deserto – Céu Subterrâneo (Estadão)
  • A inconcebível Jerusalém (Estadão)
  • O midrash brasileiro “Céu subterrâneo”[1], o sefer de “A Verdade ao Solo” e o reino das diáforas de “A Pele que nos Divide”.(Blog Estadão)

Paulo Rosenbaum

~ Escritor e Médico Writer and physician

Paulo Rosenbaum

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Utopia e cyberespaço

11 sexta-feira fev 2011

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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aspirações impossíveis, O impossível, utopia

A utopia é algo para se desejar.

Não sei ao certo se é algo ou um lugar. Lugar talvez seja mais apropriado. Não precisamos mais das utopias sociais ou estéticas. Precisamos de um lugar.

Pois podemos sentir. Estamos sem lugar. E por isso precisamos um lugar que não é lugar.  Lugar nenhum.

O cyberespaco pode ser o lugar.

O vácuo que faz intermediações entre pessoas. Um espaço onde não chegamos e de onde saem os que se desligam. A utopia é um estado. Um estado interno. Um momento agudo onde não queremos estar em lugar nenhum. Aí temos utopia. Aqui a utopia faz sentido.

Extamente, temos utopia quando vagamos em busca de sentido. De um lugar ao outro. Como ramblers que perderam os documentos para sempre.

Utopia é alegria infundada.

Um perfil para a calma pode definir a utopia?

Não.

Utopia não é calma. Tudo menos calma. A utopia é se desmanchar na marcha diária. Utopia é quase acreditar que podemos contar com o futuro. Qualquer um. Porque assim o presente não pode ser vivido. E é com ele que podemos contar.

Utopia é o presente intensificado. A utopia é uma fronteira não demarcada. E no mapa fica bem aqui. No espaço sem dono que são as emissões dos radares.  Entre uma onda eletromagnética e outra a utopia balança nossas cabeças. E, para respirar melhor, vivemos acesos. 

Utopia, vidraça para a realidade.

Eu?

Já quebrei a minha hoje.

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Assimilação e aculturamento – I

09 quarta-feira fev 2011

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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aculturamento, assimilação, congregação de símiles, relação entre as minorias, sentimento gregario, tribalismo primitivo

Um tema de grande complexidade que “A Verdade Lançada ao solo” tentou esmiuçar.

O que isso significa?

Aculturar-se ou assimilar-se tem sido discutido como um problemas das minorias frente à pressão — massacrante e  exaustiva — das maiorias.

Por que uma pessoa deveria resistir e lutar para manter seus hábitos, suas tradições, as caracteristicas que fundaram sua trajetória?

Por ela mesma. Não pela causa. Não por poder parecer ideologicamente adequado. E sem dúvida não porque isso traga qualquer vantagem.

Pelo contrário. Todos sabem que marchar, resistir, ou simplesmente viver à revelia das pressões por comportamentos padrão, pela regularização homogênea ou a pasteurização social  demanda energia extra e muitos…muitos….mas muitos aborrecimentos.

Não quero convencer nenhum índio, nem ninguém, de que deve voltar para sua aldeia natal e abraçar o tribalismo primitivo (acabo de me imaginar às margens de um rio na babilonia, colhendo um pouco de água para beber, e eu era um dos exilados que escapou dos massacres do império romano, tentando enxergar algum sentido naquelas terras estranhas).

Na verdade, aqui, agora, quero só compartilhar a angústia incurável.

O sentimento gregário e a busca por pertencimento é uma característica de animais racionais e irracionais, entretanto temos sido convencidos que a emancipação é que é libertária. Que os valores são lábeis como os políticos. Que a adaptação exige o desapego, e o desapego demanda um certo esquecimento. Esqueça a herança e viva melhor, talvez fosse um bom motto para essa pregação contemporânea. 

Mas será possível? Que a demanda por inclusão nos caçe a originalidade. É esse o custo? Se for esse o tributo a pagar penso em duas saídas:  inadimplência  ou sonegação.

Assimilar-se e aculturar-se são, em alguma medida, o passo final para que fiquemos, todos nós, na melancólica semelhança.

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Um homem pode ser muitas coisas. Ao mesmo tempo.

07 segunda-feira fev 2011

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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as múltiplas aptidões das pessoas, ser muitas coisas ao mesmo tempo, talento e escolha profissional, talentos individuais

A primeira parte da frase que entitula este post pertence à Emmanuel Swedenborg. Botânico, místico, diplomata, pesquisador, escritor e astrônomo.

O que significa?

Que não é razoável, muito menos plausível, que as pessoas tenham apenas um único talento.

Ah…mas a carreira exige dedicação exclusiva!

Fomos talhados para uma vida que segue numa direção?

Mas quem quer uma carreira? Os sólidos homens de negócio? Os professores? Os bancários?  O apego está relacionado à ascensão social? E quem não quer isso? Entendo perfeitamente Senhor, mas melhor esclarecer: carreira não tem nada a ver com os atributos plurais das pessoas.

O Senhor discorda? Cada um nasceu para uma coisa específica?

É possível mas posso…aceita uma provocação? Não há problema? O Senhor está disposto a qualquer desafio; entendo.  Ótimo, hoje em dia poucos estão dispostos a se colocar à prova. 

Nunca invejou ninguém — não pelo que possui — mas pelo que é ou pelo que faz? Nunca se pegou cansado da repitação brutal em seu escritório?

Eu sei, eu sei, o Senhor é executivo…viaja muito, trabalha cá e lá, aqui e ali.

Mas o Senhor ouviu o que eu disse? Quantas vezes a rotina não colocou suas perspectivas abaixo? E quantas vezes o Senhor fez o que realmente queria fazer?  

Quer dizer que não tem este problema, está tudo muito “bem resolvido”? Se não tem este problema fico feliz pela ideia da sua bem aventurada completude. Fica o sabor triste da mentira.

Ah! Não? Nenhuma mentira? O Senhor está ofendido? Por favor!!

Sinto pela ofensa mas não retiro uma palavra do que disse. Eu digo já no que o Senhor mente, apesar de não poder dizer por que faz isso. Mas mente e mente com a pior das desculpas: autoengano.

Viu que seu dia a dia não é tão liquido e certo quanto planejava? Que num lance pode ter ideias novas e mudar o curso de história? Da sua história?

O Senhor dispensa conselhos e só vai discutir isso em análise? Pois faz muito bem.  

Mesmo assim e mesmo que não queira ouvir, preciso dizer: o Senhor pode ser muitas coisas ao mesmo tempo.

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07 segunda-feira fev 2011

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Manuscritos, Impressos, I- Pads e o futuro do papel

07 segunda-feira fev 2011

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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desaparecimento da escrita manual, e-books, escriba, escrita manual, I-pads, impressos, manuscritos, sofer

Como se sabe, na era dos i-pads e da digitalização a tendência mundial é que a escrita manual desapareça; e com ela os rascunhos.

Se faz todo sentido que as facilidades tecnológicas ajudem as pessoas obter acesso mais rápido e fácil às coisas e às ideias, o que não parece  fazer muito sentido é que o preço dessa nova aquisição seja o apagamento da precedente.

Tudo para dizer que os manuscritos podem estar com os dias contados, mas talvez a memória de sua utilidade – e beleza — não possa ser simplesmente borrificada de nosso imaginário.

Em várias tradições, inclusive, ou especialmente, na judaica, há a obrigação religiosa espiritual de se produzir textos escritos à mão. Na arte do escriba (sofer) ensina-se desde o preparo do pergaminho até o desenho das linhas guia que receberá cada uma das letras do alfabeto. 

Por que isso importa?

Talvez não importe. A sobrevivência dos artesãos é que importa. Estudos mostram que há diferenças significativas entre  papel e tela no que se refere a absorção do material (seja ela cognitiva, sensorial, táctil ou metafísica)  E a diferença deve ser mais do que aquela que existe entre o mundo tridimensional e o mundo virtual. A diferença é voce projetar sua luz no lugar de ter a luz projetada em voce, como comentou certa vez o cineasta Godfrey Reggio falando das diferenças entre cinema e televisão.

O manuscrito de Zult é mais uma prova da vitalidade do papel. Ele, por exemplo, sobreviverá a todo tipo de apagão.

E eles virão.

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P- Ainda a relação entre medicina e literatura (III)

03 quinta-feira fev 2011

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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A experiencia de Yan dentro da UTI é um dos episódios marcantes da parte III, o encontro com Antiocus ocorre num hospital, ou seja, em muitas passagens há narrativas onde a medicina irrompe-se, explosiva, no texto.

E não só porque a medicina é uma modalidade histórica de conhecer as pessoas, mas, porque os encontros terapêuticos envolvem doses do inesperado. O contra-intuitivo e a surpresa estão a espreita.  Ante qualquer história clínica, profissionais de saúde deveriam ostentar uma placa, bem à vista, “esteja preparado para o imprevisível”.  

O paciente de Yan, Sibelius, ex-adito, ex-drogado, vale dizer, ex-tudo, vai escalar uma montanha nos alpes bernenses e lá, em cima, só lá em cima, percebe que Yan não é mais seu médico.

O impacto gera desdobramentos por toda a história.

Todo culto à personalidade do médico, junto com toda dependência que uma relação de poder assimétrica produz, são pulverizadas de uma só vez.

A exploração da relação médico-paciente ocorre — mas não exclusivamente — porque esse autor aqui e médico. Mas muito mais porque, talvez, na sociedade contemporânea os temas da finitude e da proximidade da morte não podem escapar da medicina. Nem da religião. Mas o médico é esta figura, já nem tão mítica, muito menos cultuada, selecionada para lidar com os começos e com os fins. Por isso, e, para isso, Sibelius faz questionamentos duros que encurralam Yan. 

Escritores médicos são muitos, mas nem sempre inserem os problemas da medicina em seus textos. Isso decerto não acontece por falta de conhecimento da patologia ou de uma abstrata — e superada — discussão do que é ou não científico.

Mesmo assim, é de grande ajuda poder fazer uma narrativa impondo precisão de linguagem e conhecendo problemas clínicos dos personagens, em seus detalhes técnicos.

O que a maioria dos escritores médicos não tem — falha, desinteresse?  pouco importa — é a possibilidade de dar voz efetiva aos sujeitos enfermos. Por isso, é fácil explicar: pouco se fala a partir da perspectiva de quem está doente.

Não é à toa que as pesquisas mostram do que as pessoas reclamam no mundo todo: querem ser ouvidas!

E não é dificil saber porque estas vozes continuam aprisionadas: ela simplesmente não pode ser libertada, sob pena, como já comentou a historiadora da psicanálise Elizabeth Roudinesco, que a medicina deixe de ser “ciência”.

Do lado de cá, Sibelius têm voz. Ele, como ex-tudo, conhece os bastidores das drogas, da dependência química, das clínicas psiquiátricas, dos hospitais, dos ambulatórios. E acaba também conhecendo uma visão da medicina onde o médico se coloca como amigo, um semelhante solidário. E, claro, as vezes, turrão, intratável e ciumento.

Pois é, ao que parece, só se é médico de verdade quando se deixa de ser médico.

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P – Como a relação entre medicina e literatura aparece em “A Verdade Lançada ao Solo”? (II)

02 quarta-feira fev 2011

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Na segunda parte Yan e Sibelius levam a relação entre médico e paciente ao seu máximo teste, à sua máxima tensão: tornaram-se amigos. Quando isso acontece, perde-se uma possibilidade, mas, em compensação, muitas outras perspectivas aparecem.

Yan sabe que uma relação médico-paciente — originalmente assimétrica —  que se estabiliza como uma relação entre sujeitos, pode mudar tudo. Em nossos dias essa mudança vai ocorrendo cada vez mais raramente. Principalmente neste século, a era da “expertocracia”. Isso vai muito além da pauta da medicina. Numa sociedade onde tributamos aos especialistas a palavra final, o veredito, o diagnóstico, o vaticínio, enfim o decreto, quase não se pode estabelecer relações autênticas.

Por isso Yan não sabe se quer mais ser médico, clínico geral, ou psiquiatra. Não sabe se quer obedecer as convenções que pedem e regulam as normas profissionais.  Como ser autêntico se o que se pede é a dissecção entre razão e emoção entre frieza técnica e envolvimento curativo.

Yan quer trazer os pacientes para outro lugar, aquele de  protagonistas de suas histórias. E para isso ele deve ser Yan, somente Yan, nada mais que Yan.

Nada de Dr. Talb.

Nada de Prof. Dr.

Nada de citações,

Longe das academias.

Yan quer limpar da vida todo artificialismo.

Como viram, ele sonha alto!

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P – Como a relação entre medicina e literatura aparece em “A Verdade Lançada ao Solo”?

02 quarta-feira fev 2011

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Ela aparece em todas as partes e de diversas formas. Há personagens médicos, pacientes, práticos, taumaturgos, enfermeiras  e hospitais. A medicina, mas mais do que a medicina a questão da saúde e da doença, é o tipo de ofício que sempre permeará as relações sociais e, portanto, as narrativas.

Na primeira parte Zult narra suas experiências — com os médicos de sua e de outras épocas —  e percebe que um rabino, especialmente se for também filósofo, precisa aprender a lidar com as questões práticas da saúde.

Ele sabe disso, porque, ao se dispôr a ouvir narrativas, os problemas humanos cairão sobre ele. O que muitas vezes, a maior parte das vezes, determinará a intervenção, modulará seus conselhos e até definirá rezas e jejuns.  

Por outro lado, ele sempre fica perplexo com a falta de humildade dos médicos que, as vezes, fazem suas predições sem conhecer o contexto com o qual estão lidando. Neste sentido, Zult tem uma enorme vantagem: ele sabe ouvir. Essa audição generosa força o encontro entre sujeitos como a forma mais elevada de relação, e isso cura.

Pode parecer estranho para muitos, mas é a relação que(m) cura. E se ela é curativa não é pelo exorcismo, nem pelo alívio catártico. É pelo estar aí.

 Não  se trata de subestimar os medicamentos, as sangrias ou as rezas. Mas aqui se trata de compreender que uma “consulta” — seja ela de que matiz for — é um tremendo instrumento para fazer surgir perspectivas. As novas.

A sabedoria judaica sempre foi pródiga em produzir interferências através dos recursos de linguagem. Freud e todos os psicanalistas das mais variadas tendências, mesmo à contragosto,  precisaram beber — alguns se enxarcaram — dessa fonte.

Zult sabe tudo isso, e aproveita ao máximo sua capacidade para, com habilidade, explorar esse caminho.

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P – Qual é a relação entre medicina e literatura?

01 terça-feira fev 2011

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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A medicina, grosso modo, não parece ter nada a ver com a literatura. Mas uma leitura mais atenta da prática médica modifica rapidamente essa visão. A medicina é uma possibilidade relacional importante. E a relação entre médicos e pacientes mostra que os problemas da humanidade “explodem” na cara da medicina como já apontamos em nosso documentário sobre o tema “O nome do Cuidado”. (Ateliê Editorial, 2009)

Claro que em quase todas as outras atividades humanas esta relação também se manifesta, porém na medicina ela é mais direta, intensa. Há, necessariamente, por exemplo, drama e  sofrimento. Isso significa que a interlocução entre terapeutas e pacientes deve colocar a atividade como grande produtora primária de diálogos e imagens, a maioria muito fortes. A medicina é, nesse sentido, um grande manancial de temas e enredos. Não é nada fortuito a explosão de seriados americanos em que os médicos figuram como estrelas ou vilões, de qualquer forma protagonistas relevantes. Relevantes porém cosmeticamente apresentados sob estereótipos, distorções caricaturais, e, a maior parte das vezes, figuras beócias.

Além disso, distorcem violentamente — prestando um desserviço à causa da medicina , sim ela é uma causa também – quando enfocam a patologia como o cerne de todos os problemas. E ela não é. Ao esquecer do sujeito ou segmentá-lo ao ponto de deixá-lo irreconhecível as séries de TV (repetindo uma redução que a vida real se encarrega de fazer) a medicina é apresentada como uma oficina excêntrica onde se misturam — a ponto de confundir — peças vivas e alta tecnologia.   

De qualquer forma um médico — com habilidade literária consistente — pode ter menos trabalho em adaptar sua ficção à verossemelhança pois parece que ela já está lá, organizada, e, em linhas gerais, pré-construída. 

Além do sofrimento intrínseco — e dos dramas correspondentes — o contato com a morte é um aspecto importante a ser considerado no elo entre medicina e literatura. A morte é evento comum, quase banal. Debalde, na vivência subjetiva de cada um de nós que conhecíamos quem faleceu, ela é um tabu. Sempre uma excepcionalidade, que, em boa parte pela formação ingênua que recebem, os estudantes de medicina pensam poder combater. Muitas vezes, ela pode ser adiada, evitada, contornada, provisoriamente postergada, mas eis um inimigo verdadeiramente imbatível.

Nesse sentido, a medicina tem um forte componente literário já que aos médicos — mesmo aqueles mais insensíveis — resta lidar (em diálogos ou no silêncio da observação) com sujeitos que não vão bem.

Vidas fracassadas — na matéria ou no espírito — de algum modo entram através das portas dos consultórios e hospitais, trazendo carga, biografias e sintomas. Infelizmente, nem sempre elas se tornam vísíveis.

Continuo.

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Idéias, acontecimento, contemplação.

31 segunda-feira jan 2011

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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As vezes temos uma idéia e ela é, já, acontecimento. Exige apenas que disponhamos de tempo.

O tempo é uma chave importante.

Como pensava Montaigne, as vezes basta viver. Isso significa que a literatura sapiencial não foi abalada pela subliteratura de auto ajuda. Em outras palavras o ócio e a vida improdutiva tem sua razão de ser.  Quando pensamos que o dia foi um desperdício, sempre temos que amenizar o gosto pela auto-desmontagem,

Por acaso não existimos?

O Senhor não vê desta forma?

Eu respeito, posso terminar?

Não há nada “improdutivo” se levarmos em consideração que a produção tem uma dimensão interna, subjetiva. É verdade que no mundo palpável, de carne e osso, onde tempo representa dividendos, isso parece  não fazer sentido.

O Senhor deseja falar sobre o sentido? Não pode aceitar que neste mundo sejamos liderados pela subjetividade?

O sentido, Senhor, como deve saber, não nasce feito.  

Ele é talvez o trabalho, o único trabalho. O mais difícil e exaustivo ofício humano. Eu sei que para o Senhor não há espaço para tamanha digressão, mas posso insistir um pouco mais?

A contemplação virá pela entrega. Pela entrega ao seu próprio desejo. Claro que temos que pagar as contas Senhor. O que não temos é que ser apenados a ter esse como único destino.

O “obterás o sustento através do suor do teu rosto” não pode, nem deve obliterar as nossas aspirações. Aquelas, da agenda subliminar.

Ah? Não sabe do que se trata?

Senhor, a agenda subjetiva, não é só uma rotina de compromissos, nela é que vivem as ideias que nos trarão ao bom, se é que saudável, desconforto.  

É assim, assim que a contemplação pode vir a ser uma fábrica de perspectivas (mas não de falas premissas).

Senhor, não se pede que acredite em mim. Mas, por favor, (posso rogar?) tenha sua própria experiência.

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