A experiencia de Yan dentro da UTI é um dos episódios marcantes da parte III, o encontro com Antiocus ocorre num hospital, ou seja, em muitas passagens há narrativas onde a medicina irrompe-se, explosiva, no texto.

E não só porque a medicina é uma modalidade histórica de conhecer as pessoas, mas, porque os encontros terapêuticos envolvem doses do inesperado. O contra-intuitivo e a surpresa estão a espreita.  Ante qualquer história clínica, profissionais de saúde deveriam ostentar uma placa, bem à vista, “esteja preparado para o imprevisível”.  

O paciente de Yan, Sibelius, ex-adito, ex-drogado, vale dizer, ex-tudo, vai escalar uma montanha nos alpes bernenses e lá, em cima, só lá em cima, percebe que Yan não é mais seu médico.

O impacto gera desdobramentos por toda a história.

Todo culto à personalidade do médico, junto com toda dependência que uma relação de poder assimétrica produz, são pulverizadas de uma só vez.

A exploração da relação médico-paciente ocorre — mas não exclusivamente — porque esse autor aqui e médico. Mas muito mais porque, talvez, na sociedade contemporânea os temas da finitude e da proximidade da morte não podem escapar da medicina. Nem da religião. Mas o médico é esta figura, já nem tão mítica, muito menos cultuada, selecionada para lidar com os começos e com os fins. Por isso, e, para isso, Sibelius faz questionamentos duros que encurralam Yan. 

Escritores médicos são muitos, mas nem sempre inserem os problemas da medicina em seus textos. Isso decerto não acontece por falta de conhecimento da patologia ou de uma abstrata — e superada — discussão do que é ou não científico.

Mesmo assim, é de grande ajuda poder fazer uma narrativa impondo precisão de linguagem e conhecendo problemas clínicos dos personagens, em seus detalhes técnicos.

O que a maioria dos escritores médicos não tem — falha, desinteresse?  pouco importa — é a possibilidade de dar voz efetiva aos sujeitos enfermos. Por isso, é fácil explicar: pouco se fala a partir da perspectiva de quem está doente.

Não é à toa que as pesquisas mostram do que as pessoas reclamam no mundo todo: querem ser ouvidas!

E não é dificil saber porque estas vozes continuam aprisionadas: ela simplesmente não pode ser libertada, sob pena, como já comentou a historiadora da psicanálise Elizabeth Roudinesco, que a medicina deixe de ser “ciência”.

Do lado de cá, Sibelius têm voz. Ele, como ex-tudo, conhece os bastidores das drogas, da dependência química, das clínicas psiquiátricas, dos hospitais, dos ambulatórios. E acaba também conhecendo uma visão da medicina onde o médico se coloca como amigo, um semelhante solidário. E, claro, as vezes, turrão, intratável e ciumento.

Pois é, ao que parece, só se é médico de verdade quando se deixa de ser médico.