A medicina, grosso modo, não parece ter nada a ver com a literatura. Mas uma leitura mais atenta da prática médica modifica rapidamente essa visão. A medicina é uma possibilidade relacional importante. E a relação entre médicos e pacientes mostra que os problemas da humanidade “explodem” na cara da medicina como já apontamos em nosso documentário sobre o tema “O nome do Cuidado”. (Ateliê Editorial, 2009)

Claro que em quase todas as outras atividades humanas esta relação também se manifesta, porém na medicina ela é mais direta, intensa. Há, necessariamente, por exemplo, drama e  sofrimento. Isso significa que a interlocução entre terapeutas e pacientes deve colocar a atividade como grande produtora primária de diálogos e imagens, a maioria muito fortes. A medicina é, nesse sentido, um grande manancial de temas e enredos. Não é nada fortuito a explosão de seriados americanos em que os médicos figuram como estrelas ou vilões, de qualquer forma protagonistas relevantes. Relevantes porém cosmeticamente apresentados sob estereótipos, distorções caricaturais, e, a maior parte das vezes, figuras beócias.

Além disso, distorcem violentamente — prestando um desserviço à causa da medicina , sim ela é uma causa também – quando enfocam a patologia como o cerne de todos os problemas. E ela não é. Ao esquecer do sujeito ou segmentá-lo ao ponto de deixá-lo irreconhecível as séries de TV (repetindo uma redução que a vida real se encarrega de fazer) a medicina é apresentada como uma oficina excêntrica onde se misturam — a ponto de confundir — peças vivas e alta tecnologia.   

De qualquer forma um médico — com habilidade literária consistente — pode ter menos trabalho em adaptar sua ficção à verossemelhança pois parece que ela já está lá, organizada, e, em linhas gerais, pré-construída. 

Além do sofrimento intrínseco — e dos dramas correspondentes — o contato com a morte é um aspecto importante a ser considerado no elo entre medicina e literatura. A morte é evento comum, quase banal. Debalde, na vivência subjetiva de cada um de nós que conhecíamos quem faleceu, ela é um tabu. Sempre uma excepcionalidade, que, em boa parte pela formação ingênua que recebem, os estudantes de medicina pensam poder combater. Muitas vezes, ela pode ser adiada, evitada, contornada, provisoriamente postergada, mas eis um inimigo verdadeiramente imbatível.

Nesse sentido, a medicina tem um forte componente literário já que aos médicos — mesmo aqueles mais insensíveis — resta lidar (em diálogos ou no silêncio da observação) com sujeitos que não vão bem.

Vidas fracassadas — na matéria ou no espírito — de algum modo entram através das portas dos consultórios e hospitais, trazendo carga, biografias e sintomas. Infelizmente, nem sempre elas se tornam vísíveis.

Continuo.