• Uma entrevista sobre Verdades e Solos
  • Resenha de “Céu Subterrâneo” no Jornal da USP
  • A verdade lançada ao solo, de Paulo Rosenbaum. Rio de Janeiro: Editora Record, 2010. Por Regina Igel / University of Maryland, College Park
  • Resenha de “Céu Subterrâneo” por Reuven Faingold (Estadão)
  • Escritor de deserto – Céu Subterrâneo (Estadão)
  • A inconcebível Jerusalém (Estadão)
  • O midrash brasileiro “Céu subterrâneo”[1], o sefer de “A Verdade ao Solo” e o reino das diáforas de “A Pele que nos Divide”.(Blog Estadão)

Paulo Rosenbaum

~ Escritor e Médico Writer and physician

Paulo Rosenbaum

Arquivos de Categoria: Artigos

26 sexta-feira out 2012

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

≈ Deixe um comentário

Avatar de Paulo RosenbaumPaulo Rosenbaum

O Sequestro do Estado

Autocracia, do grego, autokráteia – força própria, poder absoluto.

Estudos econômicos recentes apresentaram realidades paradoxais. Se por um lado no século XX as condições sócio-sanitárias avançaram, o fosso que separa a extrema pobreza da extrema riqueza aumentou muito e a crise mundial propagada veio para dar o golpe de misericórdia no abismo. Esta incapacidade crônica de resolver o apartamento entre os que podem comer e os que não gozam do direito de perguntar por que continuam famintos, representa bem o malogro da política globalizada como instituição. Mas há um perigo muito maior nessa vergonhosa calamidade. As cinzas tem potencial assustador para gerar lideres totipotentes, os quais, geralmente, ficam à frente de governos cínicos. Facciosos, auto referentes e boquirrotos, eles formam a nova elite politico-econômica. Não vieram de onde vieram, pequena burguesia ou da pobreza para mudar nada, apenas ocuparam um lugar que antes não lhes pertencia…

Ver o post original 692 mais palavras

Compartilhe:

  • Imprimir(abre em nova janela) Imprimir
  • Mais
  • Tweet
  • Compartilhar no WhatsApp(abre em nova janela) WhatsApp
  • Compartilhar no Telegram(abre em nova janela) Telegram
  • Compartilhar no Tumblr
  • Envie um link por e-mail para um amigo(abre em nova janela) E-mail
  • Compartilhar no Reddit(abre em nova janela) Reddit
Curtir Carregando...

O Sequestro do Estado

25 quinta-feira out 2012

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

≈ 1 comentário

Tags

açao penal 470, anomia, autocracia, cala boca, centralismo partidário, Democracia grega, Eleições 2012, elites, hegemonia e monopólio do poder, impunidade, instituições financeiras, Julgamento Mensalão, justiça, manipulação política, mensalão, o pobre, pobres, poder absoluto, política, regimes, sequestro do Estado, significado de justiça

O Sequestro do Estado

Autocracia, do grego, autokráteia – força própria, poder absoluto.

Estudos econômicos recentes apresentaram realidades paradoxais. Se por um lado no século XX as condições sócio-sanitárias avançaram, o fosso que separa a extrema pobreza da extrema riqueza aumentou muito e a crise mundial propagada veio para dar o golpe de misericórdia no abismo. Esta incapacidade crônica de resolver o apartamento entre os que podem comer e os que não gozam do direito de perguntar por que continuam famintos, representa bem o malogro da política globalizada como instituição. Mas há um perigo muito maior nessa vergonhosa calamidade. As cinzas tem potencial assustador para gerar lideres totipotentes, os quais, geralmente, ficam à frente de governos cínicos. Facciosos, auto referentes e boquirrotos, eles formam a nova elite politico-econômica. Não vieram de onde vieram, pequena burguesia ou da pobreza para mudar nada, apenas ocuparam um lugar que antes não lhes pertencia. O problema é que mimetizaram os valores que antes atacavam ferozmente e se tornaram versões aperfeiçoadas dos antigos algozes. Hoje manipulam os mais pobres exatamente como machistas usam as mulheres. O pobre vai de mão em mão, transformado em objeto, sem acesso a ser player do jogo capitalista, oprimido por impostos e feliz por subsistir na miséria. Seu único préstimo é sustentar a autoilusão de que o regime é feito para eles, e por um deles.
A verdade é que regimes totalitários costumam governar com as instituições financeiras, o grande capital acionário e as elites econômicas. Essa dupla miragem impõe à sociedade inteira um efeito colateral. A verdadeira calamidade é que o favorecimento de governos populistas (distingua-se populismo de governo popular) entorpece a capacidade crítica e permite o cala boca da maioria na surdina, sem alarde. Pudera, quem pode falar quando são 70 e tantos por cento de aprovação?
Para conseguir tudo isso foi preciso saciar a fome sem prover renda, substituir educação e melhores condições de vida pela subserviência ao paternalismo de Estado, desqualificação da educação superior, e abandono do critério de mérito e esforço para lograr a ascensão sócio cultural. São rebaixamentos que seduzem. Acabam atingindo a oposição que se viu obrigada a renunciar seu papel fiscalizador e/ou associar-se comportadamente para compor com o governo: assim nasceu a base alugada.
Pois então que respondam os prezados leitores: Em qual República do mundo uma cúpula partidária inteira é condenada por corrupção ativa e os mandatários passam incólumes e continuam se elegendo e aos cúmplices, como se a suprema corte estivesse batendo martelos no açougue? Em qual Pais do mundo o uso da máquina pública é abertamente colocada a serviço de candidatos do regime e não se ouve uma palavra de protesto, uma contestação, um pio? Em qual Nação contemporânea, diante de sucessivos escândalos envolvendo sinistros interesses públicos e privados, a situação cresce e a oposição míngua?

Cautela é vital. A razão mostra que nem todos os políticos podem ser equiparados e o fenômeno motivador da ação penal 470 é essencialmente pluripartidário.

Mas há uma diferença, a fundamental: quem ataca a justiça ou a protege.
Os primeiros acham que a lei é uma espécie de guarita, um apêndice governamental, que os cargos de confiança facultam impunidade e, caso derrotados, ainda podem aguardar o indulto. E existem aqueles poucos que sabem que a justiça é a garantia, a única, que nos assegura os direitos individuais, liberdade e equidade. Confundir estes dois tipos e dizer que “são todos iguaizinhos” é embarcar na cortina de fumaça e fazer troça da constituição, como aliás farão os réus e seus padrinhos a partir de domingo a noite, assim que as urnas forem lacradas. Tudo devidamente acobertado por parcela da comunidade intelectual que agora arma a difamação do único poder atualmente independente da República, o Judiciário.

Como exercício de antecipação isso nos deveria fazer pensar que, se nada for feito, em qual tipo de ditadura nos transformaremos adiante.

Ao sequestrar o Estado, esse governo avança lentamente para aplicar os devidos torniquetes contra a liberdade de expressão, como já anunciaram os falcões do partido. O pedido de resgate já não interessa, preferem se apoderar da vítima para sempre. De servidor do povo, o Estado passou a se servir dele para consolidar seu projeto político monológico. O povo somos todos nós, ELES a nova elite, fazendo caixa pelos mais variados motivos. Recomenda-se o recentemente divulgado vídeo com a impressionante entrevista de Hélio Bicudo para entender melhor de quanto se trata. O mensalão foi apenas um detalhe dessa sofisticada maquinação, que não fica nada a dever às táticas dos regimes mais truculentos e autoritários. A julgar pela inércia, o Pais ainda não está pronto para ser passado a limpo, teremos que aguardar outro julgamento, o histórico, para saber a distancia que estivemos da autocracia.

O consolo? Passa por um velho princípio da física, a lei a gravidade. Neste mundo todos os corpos são irresistivelmente atraídos ao solo e tendem à queda, se é que não serão derrubados antes!

Paulo Rosenbaum é médico e escritor. É autor de “A Verdade Lançada ao Solo”(Ed. Record)

Paulorosenbaum.wordpress.com

Para acessar link do JB use:

http://www.jb.com.br/coisas-da-politica/noticias/2012/10/25/o-sequestro-do-estado/

Compartilhe:

  • Imprimir(abre em nova janela) Imprimir
  • Mais
  • Tweet
  • Compartilhar no WhatsApp(abre em nova janela) WhatsApp
  • Compartilhar no Telegram(abre em nova janela) Telegram
  • Compartilhar no Tumblr
  • Envie um link por e-mail para um amigo(abre em nova janela) E-mail
  • Compartilhar no Reddit(abre em nova janela) Reddit
Curtir Carregando...

Populismo blindado e Maquiavel

18 quinta-feira out 2012

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

≈ Deixe um comentário

Tags

aspiração totalitária, centralismo partidário, democracia, eleição em São Paulo segundo turno, Eleições 2012, fins justificam os meios, hegemonia e monopólio do poder, manipulação, maquiavélico, Maquiavel, niccolò machiavelli, política, polis, populismo blindado, segundo turno, silencio premiado, vale tudo, voto útil

Populismo blindado e Maquiavel

Diz-se que tudo que entra na linguagem popular tem razão de ser. Quem já não ofendeu alguém usando a palavra “maquiavélico” ? Mas será que estamos fazendo jus ao filósofo Niccolò Machiavelli (1469-1527)?

Sua famosa frase é mal citada e pessimamente instrumentalizada por políticos de todas as grandezas. Raramente a frase toda é contemplada em seu contexto: “Na conduta dos homens, especialmente dos príncipes, contra a qual não há recurso, os fins justificam os meios.” Ouviram? “Contra a qual não há recurso”, isso significa que, nesse caso, teremos que aceitar resignados as arbitrariedades do príncipe e os meios que sua alteza julgar apropriados para nos governar.

O que está em jogo neste segundo turno das eleições é muito mais que a obvia antecipação da eleição presidencial de 2014: é a tentativa da atual administração federal de consolidar seu populismo blindado. É o atual estilo de governar na América Latina. É imperioso que a sociedade interponha recursos contra o príncipe.

O candidato do governo federal até convenceria como figura que se força à simpatia e a ingenuidade de um acadêmico que está para se tornar político, mas o caso é outro quando se analisa suas companhias. O problema é que ele se tornará mero instrumento nas hábeis mãos de quem o alçou até lá. Nesse caso, o morubixaba já declarou que faturar em sampa é “questão de honra”. Ora, nenhum pleito deveria ser, por definição, questão de honra, pois a política além de ação coletiva, quando colocada a serviço dos caprichos pessoais já degenerou num absolutismo plebiscitário.

Por isso mesmo há que se questionar o famoso aforismo positivista de que “contra fatos não há argumentos.” Há. Muitos. O primeiro deles é que um eventual triunfo do candidato do governo federal em São Paulo representaria a consagração do jeito vale-tudo de fazer política. O que torna a reflexão sobre o mensalão mais assustadora é que ele pode se universalizar e portanto legitimar-se como praxe política. Obviamente, nem todos no partido tem essa índole, mas é público que para os chefes esse é o caminho.

Sim, há uma política baseada em vingança e lealdade revestida com silencio premiado que lembra a lei do bico calado das organizações criminosas. Nesse sentido, estamos todos comprados, comprados pelo sucesso, pela economia acelerada, pelas benesses que o estado promete, pelas vagas no ensino superior, pelo acesso ao consumo.

O problema na verdade é que eles ainda consideram o pais um regime de exceção e o sistema, digno de ser derrubado. Acordem! Encontrar soluções passando por cima das leis é a verdadeira conspiração contra a democracia, não importando os resultados finais. O suborno portanto não vem só da corrupção ativa dos políticos, mas de nossa submissão alienada aos critérios que nos tem sido enfiados garganta abaixo. Diz-se nos fóruns internos do partido que vão “tocar fogo” no país para exorcizar as condenações. Claro, isso será assim que passar as eleições, já que as pesquisas mostram que a esmagadora maioria das pessoas entrevistadas, de todas as classe sociais, acham que as condenações foram justas, que o governo federal esteve envolvido, que gostariam que a impunidade diminuísse. Também já se ouve, à boca pequena, que haverá pressão sobre a presidenta para indultar os réus. Se isso realmente acontecer, a fogueira subirá ao status de incêndio de grandes proporções.

É contra esta lógica que a percepção da opinião pública resiste e aos poucos está aprendendo a se defender.

Assim mais uma vez pode se repetir o fenômeno do voto útil em São Paulo, não exatamente contra o ex-ministro da educação mas contra tudo que ele representa, contra quem governará por ele ou com ele, tanto faz. Isso não significa que seu oponente tenha a coalização dos sonhos ou um candidato modelo, mas qual é a alternativa? O problema é que em São Paulo, quiçá no Brasil, sempre foi assim.

O pragmatismo pode funcionar para as alianças e conchavos mas não solucionam questões vitais da cidade. Quando questionados, eles dizem que nada disso interessa e dá-lhe refrão: tiramos milhões da miséria! Aplausos e nada mais que a obrigação do Estado com a justiça social. Mas o que isso tem a ver com crimes comuns, corrupção e aspiração totalitária?

Para fazer uma política justa e alcançar o bem estar que atinja todos, o foco deveria estar nas cidades, no dia a dia dos bairros, dos espaços públicos, na reunião da periferia com o centro. Isso, infelizmente, não acontecerá. Ganhe quem ganhar, as ações serão todas dirigidas e pensadas considerando outro foco, o plano nacional, a maldita rampa.

Uma lástima para os habitantes da polis que, mais desta vez, terão que esperar a vez. Fossem os políticos realmente republicanos não enxergariam mandatos como questão pessoal, nem o poder como instrumento arrivista.

O tênue consolo vem do futuro. À revelia do poder, a opinião pública brasileira amadurece com suor e lágrimas, e é com toda essa umidade que a corrosão da blindagem virá antes do que se pensa.

Paulo Rosenbaum é médico e escritor. É autor de “A Verdade Lançada ao Solo ”Ed. Record.

Paulorosenbaum.wordpress.com

Para acessar link do JB

http://www.jb.com.br/coisas-da-politica/noticias/2012/10/18/populismo-blindado-e-maquiavel/

Compartilhe:

  • Imprimir(abre em nova janela) Imprimir
  • Mais
  • Tweet
  • Compartilhar no WhatsApp(abre em nova janela) WhatsApp
  • Compartilhar no Telegram(abre em nova janela) Telegram
  • Compartilhar no Tumblr
  • Envie um link por e-mail para um amigo(abre em nova janela) E-mail
  • Compartilhar no Reddit(abre em nova janela) Reddit
Curtir Carregando...

Ética? Vê se se enxerga!

11 quinta-feira out 2012

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

≈ Deixe um comentário

Tags

Aristóteles, Últimas Notícias, ética, Comportamento, definição de ética, Eleições 2012, ethos, filosofia, hegemonia e monopólio do poder, mensalão, moralidade pública, morubixaba, recall, Reflexões, significado de justiça, voto distrital

Ética? Vê se se enxerga!
Segundo os dicionários de filosofia “ética” significa “ciência que tem por objeto a apreciação que se aplica na distinção entre o bem e o mal”. Como há confusão de um dicionário para outro, recorri a Aristóteles e cheguei ao que mais se aproxima duma visão contextualizada: “ação que os homens exercem uns sobre os outros”. A palavra grega ethiqké, na raiz etimológica, estudo da moral. Deriva da palavra ethos, que significa “caráter ou ética”. Contudo, é bom que se saiba que ela nunca foi um ingrediente natural, e, por isso, diz-se que a ethiké arete (a virtude ética) se conquista pelo hábito.

Fomos criados com cegueira seletiva, aquela que interdita o reconhecimento dos nossos próprios preconceitos. Os outros, claro, é que não tem ética. Aliás, também só outros têm ideologias, ideias fixas e vícios.

Em miúdos, é licito roubar para doar aqueles que precisam mais do que nós? É ético encarcerar um famélico que para prover sua família, surrupia pão? É perfeitamente legal, mas será justo que um bando de partidos loteie cargos públicos para se perpetuar no controle? Está de acordo com a moralidade pública que a administração, seja lá qual for, finja respeitar a opinião pública para, na sequencia da votação ungi-la com pacotes que trazem arrocho, inflação e impostos? É ético que qualquer um trate a coisa pública como coisa sua, ainda que o termo mais apropriado seja cosa nostra? É compatível com a moral num pais com pacto federativo, que a coalização governante esprema, com retenção de verbas, as unidades federadas que não rezarem na sua cartilha? Faz sentido uma política baseada no ódio?

O gabarito com as respostas ainda não saiu.

O fato é que é difícil cumprir as exigências para ser ético, é preciso cultivar um refinado senso de decência. Já que ninguém se regenera lá dentro, o homem público deveria, a priori, ser honesto. A verdade é que a moral e, particularmente, a moralidade pública nunca teve os alicerces tão relativizados.

A palavra pula fácil da boca, ela é a bandeira, mas também o lugar onde os acusadores se enrolam. Bastardeada, a ética virou mote e agora a moda é bater no peito e dizer que nunca se locupletou, não recebeu denúncia e é sujeito exemplar. Está claro que a esquerda perdeu o rumo – a direita nunca o teve, mas também nunca disse que tinha — e ética passou a ser sinônimo de “fazer bem feito” independente das alianças e apropriações indevidas que se fez e se faz da coisa pública.

E quem fiscaliza os abusos? Decerto não será a recém demissionária comissão de ética da presidência da república. Há dois caminhos, aquele em curso, vale dizer, o que exige progressiva judicialização da política. Ou, o outro, exigir mais dos mecanismos democráticos como, por exemplo instituir “recall”, voto distrital, rediscutir a proporcionalidade no parlamento.

Sem novos ares o interesse em escolher representantes esmorece. Fez com que mais de 25 milhões de pessoas anulassem ou se abstivessem nesta última eleição. Fenômeno subestimado pelos analistas profissionais, mas talvez exatamente ai, a mensagem mais contundente do último pleito: estamos todos de saco cheio da mesmice, da farsa, da caretice, da farra. Não se trata de sacar nomes novos do colete como é a praxe do morubixaba que conta com a conivência e aplausos dos idólatras.

Estivemos por um fio de distância da hegemonia absoluta, e as instituições, reagindo à desconstrução, recuperaram a voz. Alentador, mas vamos controlar as ilusões. Só o fortalecimento da opinião pública, maior vigilância sobre o poder e uma mídia insubmissa, pode nos ajudar no longo aprendizado que é o treino do discernimento.

Provavelmente, a dimensão mais importante de toda essa discussão não esteja em julgar o mundo ou resgatar valores. Voltando para Aristóteles: afinal qual tipo de ação estamos exercendo uns sobre os outros?

Talvez haja uma premissa: ser ético é poder se enxergar!

Paulo Rosenbaum é médico e escritor, é autor de “A Verdade Lançada ao Solo” (Ed. Record)

paulorosenbaum.wordpress.com

Para acessar o link do JB

http://www.jb.com.br/coisas-da-politica/noticias/2012/10/11/etica-ve-se-se-enxerga/

Compartilhe:

  • Imprimir(abre em nova janela) Imprimir
  • Mais
  • Tweet
  • Compartilhar no WhatsApp(abre em nova janela) WhatsApp
  • Compartilhar no Telegram(abre em nova janela) Telegram
  • Compartilhar no Tumblr
  • Envie um link por e-mail para um amigo(abre em nova janela) E-mail
  • Compartilhar no Reddit(abre em nova janela) Reddit
Curtir Carregando...

O discreto heroísmo dos independentes

04 quinta-feira out 2012

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

≈ Deixe um comentário

Tags

andy warhol, Chavez, Clarin, Correa, Escuta Zé ninguém, heróis opressores, imprensa independente, imprensa subsidiada pelo estado, Kirchner, libertadores, libertadores românticos, linguagem, Monopólio de comunicação, silencio dos intelectuais, tempo real das redes, Wilhelm Reich

O discreto heroísmo dos independentes

O advento da democracia deveria ser uma festa onde escolheríamos aqueles destinados a ser frações das nossas vontades e desejos. Será?

O psicanalista Wilhelm Reich (1896-1957), mais um discípulo dissidente de Sigmund, escreveu “Escuta Zé Ninguém” um livro épico. Com uma linguagem accessível, o livro é uma aterrorizante seqüência de constatações sobre a realidade humana. Ele demonstra, com a sutileza de um guerreiro ensanguentado, que não temos jeito. A tendência política da maioria é escolher articulados heróis opressores que, em geral, se contrapõem aos autênticos libertadores românticos. Tomem o panorama eleitoral por testemunha e digam se o que foi grafado prescreveu!

A raiz da crise de autoridade e representação da contemporaneidade tem a ver com a percepção deste psicanalista. E o mundo eletrônico veio para embolar ainda mais o meio campo, já que o perfil dos heróis mudou radicalmente. O mito sempre se construiu na batuta do tempo, e eis uma escala que se modificou completamente. Com o alucinante tempo real das redes, os quinze minutos de fama de Andy Warhol se transformaram num pesadelo para as celebridades políticas. Foram todos condenados aos holofotes diuturnos. O púlpito caiu, junto com os palácios. O escancaramento da privacidade colocou todos, príncipes e pedestres, nús, e no mesmo recinto.

Na nuvem poluída de informação, trocas aleatórias das fontes, as imagens saltaram das telas para nos dominar. A intensidade é tão violenta e rápida que não seria surpresa que os pesquisadores do futuro constatassem epidemia de surtos psicóticos e distúrbios de comportamento induzidos pela simultaneidade de estímulos. Devidamente catalogada pelo Código Internacional de Doenças, a psicose midiática veio para ficar, e será instrumentalizada como o amado argumento dos regimes totalitários: o controle é saudável e a liberdade, nociva.

Mortos os heróis, o que hoje conta é o imediatismo com que conseguem se manter no alto da onda. Esqueçam trajetória, coerência e história pessoal e coloquem imagens fotogênicas, discurso padrão e capacidade de esquiva. Estão aí apresentadas as linhas gerais da nova moeda eleitoral.

Já que o executivo da Google foi em cana e o Jornal “O Estado De São Paulo” ainda encontra-se sob censura, vale levantar mais cedo para acompanhar os próximos capítulos da novela, que, desta vez, se passarão do lado de fora da rede Globo.

O governo argentino acaba de alavancar um pacote de leis contra o grupo editorial Clarin visando coibir aquilo que tem sido chamado de “monopólio de comunicação”. Vários analistas, intelectuais e toda oposição daquele Pais vem alertando para o significado inquietante do uso seletivo da justiça, com finalidade de controlar, se possível emudecer, as vozes criticas dos repórteres e articulistas que ali se manifestam.

Quando se conhece os detalhes da operação, enxerga-se que se trata de algo que supera muito o escândalo. O que está acontecendo com o vizinho do sul tem um nome bem menos charmoso: atentado contra a liberdade de expressão. Um governo popular e eleito tem direito de suprimir as liberdades civis? No entender do neopopismo da américa latina, sim! Não só o direito como um dever maior os chama.

Cabe ressaltar as dessemelhanças evidentes entre nós e los hermanos gringos, para além do futebol e qualidade do churrasco. Na Argentina os intelectuais andam, em sua maioria, escandalizados com o arrocho à liberdade. Ao modo deles gritam e esperneiam como podem.

Lá, há resistência crescente.

No caso brasileiro, o oposto. A exceção de cientistas sociais histriônicos coligados ao poder federal, insistindo na ridícula tese de golpe das elites, a maioria dos nossos intelectuais preferiu se omitir. Já passou da hora de encher as páginas apontando a Brasília atual como seguidora silenciosa do exemplo neo-peronista da dinastia Kirchner, inspirada por companheiros como Correa, Chavez e Evo.

A obsessão pelo controle da mídia é o primeiro mandamento, e mesmo a razão de ser, dos regimes autoritários, já que ela é o único e último respiro que sobrou à sociedade civil para denunciar abusos do poder. Para a sociedade, uma vez rebocado o oxigênio, resta submissão ou morte sob o dreno da imprensa subsidiada – e muito bem paga.

No fundo a raiz de tudo isso já estava lá, descrita por Reich. A mente autoritária “sabe melhor o que é bom para o povo” já que “nunca se fez tanto na história deste país”. Que se aplauda a diminuição das diferenças sociais com a mesma intensidade com que deveríamos vaiar as tentações totalitárias que governo e associados demonstram ter.

Pode ser que não haja imprensa completamente independente em lugar nenhum, mas se tem que haver um novo mito ele estará espalhado no discreto heroísmo das pessoas independentes. Elas é que sempre fizeram toda a diferença.

Paulo Rosenbaum é médico e escritor. É autor de “A Verdade lançada ao Solo”(Ed. Record)

Paulorosenbaum.wordpress.com

para fazre comentários acessar o link do JB
http://www.jb.com.br/coisas-da-politica/noticias/2012/10/04/o-discreto-heroismo-dos-independentes/

Compartilhe:

  • Imprimir(abre em nova janela) Imprimir
  • Mais
  • Tweet
  • Compartilhar no WhatsApp(abre em nova janela) WhatsApp
  • Compartilhar no Telegram(abre em nova janela) Telegram
  • Compartilhar no Tumblr
  • Envie um link por e-mail para um amigo(abre em nova janela) E-mail
  • Compartilhar no Reddit(abre em nova janela) Reddit
Curtir Carregando...

Sagração da intolerância

29 sábado set 2012

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

≈ Deixe um comentário

Tags

armenios, assembléia de nações, avanço do fundamentalismo, bascos, charges e blasfêmia, curdos, estado Hebreu, gozação e ofensa, intolerância religiosa, inverno árabe, islamofacismo, islamofobia, jihadismo, mulheres e minorias, nepaleses, ogivas iranianas, omissão, ONU e parcialidade, palestinos, presságio ingenuo, primavera árabe, regime iraniano, sagração da intolerância, tolerância e omissão, valores burgueses, xenofobia

Sagração da intolerância

A primavera chegou tarde demais. O mundo que conhecemos desintegra-se rápido. E desta vez, é mais do que um rito de passagem. Mudanças drásticas são eminentes e estão para acontecer. E o oriente médio está na linha de frente.

Ontem uma charge, hoje um filme provocador, amanhã propaganda picante e depois de amanhã, violência imotivada. As condições e predisposições dos manifestantes estão bem desenvolvidas. Nunca realmente precisaram de razões. O alimento desse ódio se chama pretexto. Infelizmente aquela região sempre foi uma latitude propicia para incendiários.

Meus amigos muçulmanos ficam divididos entre fidelidade e radicalizar a autocrítica. Eu sei, eles sabem e a maioria entende que o verdadeiro islã não tem nada a ver com o que os esses manifestantes demonstram, mas como desconstruir a imagem daqueles que partem para o pau, e midiaticamente dominantes, passam a representar todos?

Publicar charges ofensivas a uma religião, troçar de seitas ou atacar ícones espirituais pode ser considerada uma prática ridícula e coloca em cheque mais o mau gosto do que a tolerância. A paz que esperamos para a região requer comedimento, restrição e respeito mútuo.

O atual elemento bizarro é tentar estabelecer equivalência moral entre uma ofensa – mesmo grave – e os assassinatos epidêmicos que agora assaltam o oriente médio, África, e parte da Ásia.

O que seria do mundo se toda piada ou gozação se transformasse em ofensa, depredação, e morte? Judeus, americanos, religiões e etnias não são atacadas, ridiculizadas e expostas diariamente mundo afora? Inclusive ou especialmente nos jornais árabes, uma das mídias mais hostis ao mundo ocidental? Num mundo instantâneo as reações se cruzam: o crescimento da retórica xenófoba e islamofóbica na Europa coincide com a sagração da intolerância no mundo árabe.

É que esse tipo de jihadismo, assim como todo dogma, não tolera o contraditório, sendo uma espécie de parasitismo religioso que concentra nitroglicerina ao deformar a mensagem do islamismo, a fé autentica de 1,5 bilhão de pessoas. Mas sem que lideranças esclarecidas venham a público para confrontar estas perversões, as massas tendem a se tornar progressivamente ingovernáveis.
Já a parcela da esquerda que, estrategicamente silencia, – para vibrar em casa com vinho tinto — quando embaixadas ocidentais são queimadas, pessoas executadas e crimes são cometidos está, em uma palavra, alucinada. Imagina que a energia liberada pela loucura possa ser de grande serventia para a derrocada final do capitalismo.

Só se esquecem que intelectuais, mulheres e minorias sempre são os segundos nas listas de execução desses comitês revolucionários. Subestimar a capacidade de avanço do fundamentalismo é ignorar os riscos autoritários que essas sociedades representam para a liberdade. Aprendamos pois e fujamos de lugares que não sabem separar Estado e religião. Não que as democracias populistas e seus ecléticos partners estejam lá muito preocupadas com o que chamam de “decadentes valores burgueses”.

Perdeu-se a oportunidade de alguém dizer hoje na ONU que as nações jovens tem os mesmíssimos direitos que as longamente estabelecidas. Ora, o problema das nações transcendem o nacionalismo, barreiras alfandegarias e protecionismos. Não se constroem identidades por decurso de prazo. Os argumentos em defesa do direito da existência de Israel são tão bons como os de qualquer outra nação. O sinistro é que o Estado hebreu parece ser o único que tem esse direito abertamente questionado por aquilo que deveria ser uma assembleia de nações. Uma minoria tem ou não direito natural à vida? Parece que não. E por isso, exatamente por isso que judeus, palestinos, armênios, curdos, catalães, bascos, nepaleses e outras pessoas espalhadas pelo mundo buscam autodeterminação para tentar manter coesão e identidade como povo.

É vital não confundir tolerância com omissão. Tolerância favorece a vida, omissão mata. Pois é inquietante o desvelo com que a comunidade internacional vem encarando as ameaças diárias contra a existência da nação judaica patrocinada pelos apeudeutas do atual regime iraniano e associados.

Os físicos nucleares reconhecem que desarmar ogivas dá muito mais trabalho que criá-las. A escalada acontece quando ninguém quer retirar o dedo do gatilho.

Talvez o recolhimento, a meditação e o perdão possam amenizar os ruídos de guerra, mas, se não, valerá pelo presságio ingênuo que deveria nos dominar mais vezes.

Paulo Rosenbaum é médico e escritor. É autor de “A Verdade Lançada ao Solo”(Ed. Record)

Paulorosenbaum.wordpress.com

Para acessar o link do JB

http://www.jb.com.br/coisas-da-politica/noticias/2012/09/28/sagracao-da-intolerancia/

Compartilhe:

  • Imprimir(abre em nova janela) Imprimir
  • Mais
  • Tweet
  • Compartilhar no WhatsApp(abre em nova janela) WhatsApp
  • Compartilhar no Telegram(abre em nova janela) Telegram
  • Compartilhar no Tumblr
  • Envie um link por e-mail para um amigo(abre em nova janela) E-mail
  • Compartilhar no Reddit(abre em nova janela) Reddit
Curtir Carregando...

Sagração da intolerancia

28 sexta-feira set 2012

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

≈ Deixe um comentário

http://m.jb.com.br/coisas-da-politica/noticias/2012/09/28/sagracao-da-intolerancia/

Compartilhe:

  • Imprimir(abre em nova janela) Imprimir
  • Mais
  • Tweet
  • Compartilhar no WhatsApp(abre em nova janela) WhatsApp
  • Compartilhar no Telegram(abre em nova janela) Telegram
  • Compartilhar no Tumblr
  • Envie um link por e-mail para um amigo(abre em nova janela) E-mail
  • Compartilhar no Reddit(abre em nova janela) Reddit
Curtir Carregando...

Poesia para a política

20 quinta-feira set 2012

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

≈ 1 comentário

Tags

centralismo partidário, ceticismo, democracia, didática constitucional, disputa prefeitura de são Paulo, eleição e criatividade, Estado e Religião, Estado e religião separação, hegemonia e monopólio do poder, homens públicos, IDH, impunidade, Indice de Desenvolvimento Humano, instrumentalização da religião, Jorge Amador, juros campeões do mundo, justiça, liberalismo, liberdade, literatura e política, literatura para politicos, materialismo, mentiras prudentes, minorias, novelas de TV, poesia, pragmatismo, senso comum, STF, trópicos trsites, tristes trópicos, violencia, voto distrital

Poesia para a política

Em joules, quanta energia torramos nos últimos tempos com desvios de verbas, corrupção, favorecimentos, informações privilegiadas, fraudes, impostos escorchantes, uso político da máquina, mentiras prudentes, juros campeões do mundo?

Não creio que seja possível mensurar em joules ou em qualquer outra escala física o tamanho da hemorragia que todas estas forças, juntas, representam. Elas esgotam e impedem o País de encontrar um jeito mais civilizado de avançar. Essas forças atuam como fantasmas, parasitas que assombram os rumos de quem quer viver em paz.

É verdade que o STF está dando uma demonstração de que as previsões do PT de que só os outros são desorganizados despencou ladeira abaixo. Não contavam com uma justiça que tardou, mas agiu, um promotor obstinado, uma sequencia de investigações que tinham cabeças, troncos e membros. Com as previsões de impunidade se dissipando alguma justiça recairá sobre quem tutelou os paus-mandados.

O espetáculo é página virada, o problema é o que faremos depois? No dia seguinte? Isso é o que importa. Até quando seremos platéia? Como não há uma discussão que ultrapasse o nível das torcidas organizadas e a crítica fica restrita aos circuitos acadêmicos cativos das ideologias, o perigo será a opinião pública, saciada pelas punições, voltar a colocar as barbas de molho. Essa é fórmula certa para repetir erros e vivermos de mensalão em mensalão.

Pois o que deveríamos tentar descobrir não será outra coisa? Não seria restituir a poesia da política? Quem ainda se digna à composição em que a atitude dos homens públicos é comandada pelo bem comum? Nós, o povo, queremos mais, de preferência gente decente. Mas quem pode falar de ética sem derrapar na demagogia ou afundar no senso comum?

Realismo, pragmatismo, socialismo, materialismo, liberalismo já tiveram sua vez e falharam. Já a poesia do mundo mora na construção de esperanças, não mais num discurso de coletividades anônimas. Ninguém mais se reconhece nessa generalização reducionista das novelas de TV e do discurso político. Para devolver um pouco de criatividade, estes cérebros sobrecarregados de interesses pessoais precisam de doses progressivas de resubjetivação. Políticos e agentes do poder deveriam ser obrigados à leitura de ficção como fez Jorge Amador com os policiais na cidade de Neza no México. Segundo ele, a leitura além dos benefícios éticos, “enriquece indiretamente as experiências das pessoas”.

Para nosso desespero sentimos que sai eleição entra eleição faltam políticos com projetos políticos de longo termo, que não se extinguem com mandatos. Afirma-se que isso é porque o Brasil só tem partidos fracos. Não me convence. Aliás, entre o centralismo partidário do planalto e a tese da geléia geral das agremiações fico com a segunda opção. Só ações transgovernamentais e suprapartidárias deveriam sustentar a vida pública. Quem sabe assim não tenhamos que amargar mais uma década sendo a sexta economia do mundo com saúde, educação e segurança dissonantes e com um IDH perto da ducentésima posição.

A prova que estamos retrocedendo é a recente instrumentalização da religião nas eleições para o cargo de prefeito em São Paulo, que ameaça se repetir País afora. Ela é grave porque evidencia que a separação entre Estado e religião tem ficado engavetada na didática constitucional.

Os trópicos são realmente tristes e não é um problema de latitude!

Isso até que o bem comum não seja mais uma quimera sonhada pelos habitantes e desprezada por quem faz política.

Paulo Rosenbaum é médico e escritor. É autor de “A Verdade lançada ao Solo” (Ed. Record)

Paulorosenbaum.wordpress.com

Para comentar, acessar o linkdo JB

http://www.jb.com.br/coisas-da-politica/noticias/2012/09/20/poesia-para-a-politica/

Compartilhe:

  • Imprimir(abre em nova janela) Imprimir
  • Mais
  • Tweet
  • Compartilhar no WhatsApp(abre em nova janela) WhatsApp
  • Compartilhar no Telegram(abre em nova janela) Telegram
  • Compartilhar no Tumblr
  • Envie um link por e-mail para um amigo(abre em nova janela) E-mail
  • Compartilhar no Reddit(abre em nova janela) Reddit
Curtir Carregando...

Cabeça de eleitor e eficiencia excessiva

13 quinta-feira set 2012

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

≈ Deixe um comentário

Tags

Ana de Hollanda, autoregulação, cabeça de eleitor, capitalismo acionário, capitalismo da globalização, centros de pesquisas e pesquisadores independentes, deficit público, Democracia grega, dia da libertação do eleitor, eficiencia excessiva, em quem eles votam, novela política, organismo e política, politicos e autenticidade, porque eles votam, Richard Stone, Richerd Stone, tecnomedicina, University Cambridge

Cabeça de eleitor e eficiência excessiva

Desde a fundação da democracia grega um mistério perdura: o que afinal se passa na cabeça do eleitor?

Não se pode prever como cada um vota, mas hoje em dia existem rastreamentos — tracking eles chamam — que capturam tendências e movimentos eleitorais com irritante precisão. Como será que conseguem? Como sondam mentes tão oscilantes e indecisas? Certo, há voto consolidado, fiado e até o cabresto de transferência: uma espécie de aberração moderna que induz o eleitor a votar em quem alguém indica.

Temos uma presidente e agora ex-ministros que querem o posto. Pode até ser que um ou outro estivesse preparado para a função, mas por que sempre aparentam desconforto? Lembram muito aqueles marionetes que gostariam de se livrar dos ventríloquos mas já esqueceram como é a própria voz. As vezes, o único mérito foi ter sido ungido pelo chefe e convencido pela claque de robôs. Depois é que chega a dificuldade em se manter nas próprias pernas e a indisfarçável e humilhante co-dependencia do criador. Desta vez o preço do apoio foi a cabeça de Ana de Hollanda, autosuficiente demais.

Recentemente economistas da Universidade Cambridge sentenciaram o capitalismo como o melhor sistema econômico inventado pelo homem. A ressalva é que é importante: não estão se referindo ao capitalismo dos últimos 30 anos. Esse capitalismo recente, chamado de ”acionário”, é feito para beneficiar uma parcela mínima das pessoas. Financista, protecionista e autorreferente ele faz parte de uma corruptela, um desencaminhamento do pensamento econômico. E assim é porque o que o regula não é a busca por sistemas de produção que se retroalimentam. O que o capitalismo da globalização busca é a satisfação do capital de curtíssimo prazo, a verdadeira obsessão dos acionistas de tempo real.

Retomando ideias de Richard Stone, premio Nobel de economia de 1984, suspeita-se que estamos sendo vítimas de excesso de eficiência. Sim é isso mesmo! Em outras palavras seria preciso colocar “areia” na engrenagem do sistema para que este freasse o ritmo frenético. A ideia é boa, senão revolucionária, porque vai no contrafluxo das ordens do dia: alta lucratividade, eficácia, azeitamento da máquina, em uma frase, mais de tudo.

Em resumo, é como se fosse necessário uma moderação que interrompa o excesso de imediatismo. Já que ele se revelou um monstro fora de controle. Como se precisássemos saber menos para deixar que o tempo ajeite as coisas antes de muda-las à toque de terabites por segundo.

A analogia com o corpo também faz sentido. Se a cada oscilação metabólica fizéssemos intervenções, muito provavelmente não duraríamos até o fim da adolescência. Numa sociedade inundada por informações on-line aumenta o perigo do intempestivo.

É preciso deixar que opere uma lei pouco conhecida – inclusive por parte da tecnomedicina — chamada de autoregulação. Conceito em decadência já que temos a ilusão de que é o instante que nos coloca no topo do observatório.

O que isso tem a ver com a primeira parte do artigo? É numa era como essa onde se requer máxima eficácia como premissa de sucesso que nos acomodamos com a exigência dos imediatismos políticos.

Controle a inflação gerando mais déficit público. Aumente o consumo sem desenvolver serviços e infraestrutura. Deixe que a segurança pública colapse. Ressuscite a máxima do “centrão”: é dando que se recebe. São as regras de ouro no manual do mau gestor. Aderir aquele que promete mais vantagens no curtíssimo prazo. É assim que votamos guiados pelo estomago, orientados pela náusea, e as vezes só para impedir que lá cheguem aqueles que nos parecem repulsivos. O eleitor vive com a corda no pescoço e com as mãos sobre o nariz.

A maior parte daqueles que deveriam nos representar perdem ou já perderam as marcas de identidade. Viraram personas, máscaras públicas descartáveis que usam a cada quatro anos. Farsa que teve inicio nas leis de exceção do regime militar e que se prolonga neste prólogo de democracia.

O problema é que haveria formas para escolher com menos inexatidão nossos representantes. Como câmeras abertas 24 horas em cima dos candidatos seriam politicamente inviáveis, a outra perspectiva seria propor debates surpresa. Sem regras previamente conhecidas dos assessores. Escolhido um ambiente inusitado teriam que mostrar quem são e como pensam apartados de seus progenitores políticos. Para a maioria deles seria um desastre. Infortúnio de uns, sorte de todos nós!

Esta obrigação à autenticidade seria uma data memorável: o dia da libertação do eleitor.

Paulo Rosenbaum é médico e escritor. É autor de “A Verdade Lançada ao Solo”(Ed. Record)

paulorosenbaum.wordpress.com

Compartilhe:

  • Imprimir(abre em nova janela) Imprimir
  • Mais
  • Tweet
  • Compartilhar no WhatsApp(abre em nova janela) WhatsApp
  • Compartilhar no Telegram(abre em nova janela) Telegram
  • Compartilhar no Tumblr
  • Envie um link por e-mail para um amigo(abre em nova janela) E-mail
  • Compartilhar no Reddit(abre em nova janela) Reddit
Curtir Carregando...

Das heranças, narcisismos e ópio eleitoral

06 quinta-feira set 2012

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

≈ Deixe um comentário

Tags

atençao primária à saúde, ópio, ópio e marketing político, bons vinhos, Crise de credibilidade, crise entre PSDB e PT, estratégia mitômana, FHC, hegemonia e monopólio do poder, john lennon, lulismo, poder, práticas integrativas, Rei Salomão, sociedade de consumo, Tarso Genro, utopia branda, vicio político

Das heranças, narcisismos e ópio eleitoral.

O Rei Salomão já sabia, a vaidade é um osso duro. Ela pode se transformar num problema insolúvel, o narcisismo. E diante dos espelhos, aqueles que gozam de poder conseguem os melhores closes, acima dos demais mortais.

É universal, o poder obscurece a crítica. De qual outro modo constatar que cada líder – do síndico de prédio ao presidente — se acha o rei da cocada preta. Os avanços desde a redemocratização – projeto longe de estar consolidado – vão sendo enterrados pela enxurrada de acusações mútuas. Normal a troca de farpas, anormal é levá-la a sério.

A verdade incômoda é que sem FHC não haveria Lula. Sem o plano real não existiria estabilização e sem ela não viveríamos o ciclo atual. Mesmo não sendo tudo isso, parece unanimidade que o país melhorou do ponto de vista econômico. Tomara que a bolha perdure.

Estas duas últimas administrações federais são tão codependente e, de certa forma, integram um projeto de continuidade involuntário. O PSDB pode ter errado e continua errando, agora como oposição. Se houver insistência neste caminho — o desacertada opção em não enfrentar com força a popularidade do lulismo, a oposição terá dias ainda mais difíceis. E o preço desta afasia é que deixa o caminho aberto para grupelhos barulhentos que vociferam, apostando na paralisia do País.

O mérito do artigo de FHC que gerou a reação da presidente foi ter condensado numa única frase o pesado diagnóstico: a gula petista por hegemonia. Não é de agora. Isso vem lá de longe. O velho Brizola já sabia. Todos que acreditaram no partido refundado anunciado por Tarso Genro depois do escândalo do mensalão viram que nem uma só viga subiu. Não foram só as alianças espúrias e o desmantelamento do discurso da ética, que veio junto com a queda livre do hoje incomodo conceito. É a recusa em admitir os erros, seguindo o exemplo do chefe, tornou-se tática coletiva. O notável nessa convicta estratégia mitômana é a desqualificação da autocrítica, um dos poucos métodos para o aperfeiçoamento político.

Há um resultado prático que emerge da guerra insana entre o PSDB e o PT: elas catapultam oportunistas que surfam na perplexidade do eleitorado. O atual líder das pesquisas em São Paulo é uma espécie de prova empírica de que isso é bem real. Há uma crise de credibilidade generalizada que traz o eleitor para a mesma descrença do torcedor quando descobre que o jogador tem um seguro bilionário das pernas. Ninguém mais faz nada pela causa nem sua a camisa por altruísmo. Vamos encarar, essa é uma sociedade de consumo.

O doping não é proibido nas práticas esportivas? Pois o TSE poderia passar a entender marketing e propaganda política, do modo como estão atualmente dispostos, como tentativa de dopar e viciar eleitores. Assessores cochichando qual é a melhor forma de tergiversar, é o ópio infundido. A última palavra em falta de escrúpulos é o uso das mães como laranjas para favorecer os projetos políticos de governadores e ex-ministros. Até a mãe no meio eles colocam! O resultado geral é um ilusionismo, profissionalmente realizado, que destrói a possibilidade do eleitor discernir onde está e mesmo se há qualquer autenticidade nos candidatos.

Precisamos de novidades, não exatamente de caras novas. Aqui e ali esperanças correm por fora e o eleitor, diferentemente dos políticos profissionais, precisa exercer a critica na hora de votar e colocar mais exigência em suas escolhas. Temos que estudar o catálogo e riscar os supérfluos do menu. Vai sobrar quase nada.

Como estamos em uma sociedade segmentada e ainda não temos o voto distrital temos que nos contentar com segmentação dos votos. Cada um deve escolher candidatos de acordo com preocupações locais e que afetam diretamente sua comunidade. Alguém que transita entre literatura e medicina, por exemplo, escolheria prefeitos e vereadores que se preocupassem com a saúde das cidades. Isso é, que se propusessem junto com a população e demais partidos, torná-las mais habitáveis e acolhedoras. Claro que isso passaria pelos temas do meio ambiente e cultura, além das propostas práticas e criativas para dar ênfase a atenção primária à saúde incluindo técnicas e práticas integrativas (o que excluiria de cara os candidatos que querem solucionar tudo com hospitais).

Se quiser amadurecer a democracia, diferentemente dos bons vinhos, precisa ser agitada, exposta às intempéries e até mesmo surrada. Sem isso, vai para o vinagre.

Prefiro a utopia branda de John Lennon. Imaginem se funciona!

Paulo Rosenbaum é médico e escritor. É autor de “A Verdade Lançada ao Solo” (Ed. Record)

Para comentar acessar o link do JB

http://www.jb.com.br/coisas-da-politica/noticias/2012/09/06/herancas-narcisismos-e-opio-eleitoral/
http://www.jb.com.br/coisas-da-politica/noticias/2012/09/06/herancas-narcisismos-e-opio-eleitoral/

Compartilhe:

  • Imprimir(abre em nova janela) Imprimir
  • Mais
  • Tweet
  • Compartilhar no WhatsApp(abre em nova janela) WhatsApp
  • Compartilhar no Telegram(abre em nova janela) Telegram
  • Compartilhar no Tumblr
  • Envie um link por e-mail para um amigo(abre em nova janela) E-mail
  • Compartilhar no Reddit(abre em nova janela) Reddit
Curtir Carregando...
← Posts mais Antigos
Posts mais Recentes →

Artigos Estadão

Artigos Jornal do Brasil

https://editoraperspectivablog.wordpress.com/2016/04/29/as-respostas-estao-no-subsolo/

Entrevista sobre o Livro

aculturamento Angelina Jolie anomia antiamericanismo antijudaismo antisemitismo artigo aspirações impossíveis assessoria assessoria de imprensa assessoria editorial atriz autocracia autor autores A Verdade Lançada ao Solo açao penal 470 blog conto de noticia Blog Estadão Rosenbaum Censura centralismo partidário centros de pesquisas e pesquisadores independentes ceticismo consensos conto de notícia céu subterrâneo democracia Democracia grega devekut dia do perdão drogas editora editoras Eleições 2012 eleições 2014 Entretexto entrevista escritor felicidade ao alcançe? Folha da Região hegemonia e monopólio do poder holocausto idiossincrasias impunidade Irã Israel judaísmo justiça liberdade liberdade de expressão Literatura livros manipulação Mark Twain masectomia medico mensalão minorias Montaigne Obama obras paulo rosenbaum poesia política prosa poética revisionistas do holocausto significado de justiça Socrates totalitarismo transcendência tribalismo tzadik utopia violencia voto distrital
Follow Paulo Rosenbaum on WordPress.com

  • Assinar Assinado
    • Paulo Rosenbaum
    • Junte-se a 30 outros assinantes
    • Já tem uma conta do WordPress.com? Faça login agora.
    • Paulo Rosenbaum
    • Assinar Assinado
    • Registre-se
    • Fazer login
    • Denunciar este conteúdo
    • Visualizar site no Leitor
    • Gerenciar assinaturas
    • Esconder esta barra
%d