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Ética? Vê se se enxerga!
Segundo os dicionários de filosofia “ética” significa “ciência que tem por objeto a apreciação que se aplica na distinção entre o bem e o mal”. Como há confusão de um dicionário para outro, recorri a Aristóteles e cheguei ao que mais se aproxima duma visão contextualizada: “ação que os homens exercem uns sobre os outros”. A palavra grega ethiqké, na raiz etimológica, estudo da moral. Deriva da palavra ethos, que significa “caráter ou ética”. Contudo, é bom que se saiba que ela nunca foi um ingrediente natural, e, por isso, diz-se que a ethiké arete (a virtude ética) se conquista pelo hábito.

Fomos criados com cegueira seletiva, aquela que interdita o reconhecimento dos nossos próprios preconceitos. Os outros, claro, é que não tem ética. Aliás, também só outros têm ideologias, ideias fixas e vícios.

Em miúdos, é licito roubar para doar aqueles que precisam mais do que nós? É ético encarcerar um famélico que para prover sua família, surrupia pão? É perfeitamente legal, mas será justo que um bando de partidos loteie cargos públicos para se perpetuar no controle? Está de acordo com a moralidade pública que a administração, seja lá qual for, finja respeitar a opinião pública para, na sequencia da votação ungi-la com pacotes que trazem arrocho, inflação e impostos? É ético que qualquer um trate a coisa pública como coisa sua, ainda que o termo mais apropriado seja cosa nostra? É compatível com a moral num pais com pacto federativo, que a coalização governante esprema, com retenção de verbas, as unidades federadas que não rezarem na sua cartilha? Faz sentido uma política baseada no ódio?

O gabarito com as respostas ainda não saiu.

O fato é que é difícil cumprir as exigências para ser ético, é preciso cultivar um refinado senso de decência. Já que ninguém se regenera lá dentro, o homem público deveria, a priori, ser honesto. A verdade é que a moral e, particularmente, a moralidade pública nunca teve os alicerces tão relativizados.

A palavra pula fácil da boca, ela é a bandeira, mas também o lugar onde os acusadores se enrolam. Bastardeada, a ética virou mote e agora a moda é bater no peito e dizer que nunca se locupletou, não recebeu denúncia e é sujeito exemplar. Está claro que a esquerda perdeu o rumo – a direita nunca o teve, mas também nunca disse que tinha — e ética passou a ser sinônimo de “fazer bem feito” independente das alianças e apropriações indevidas que se fez e se faz da coisa pública.

E quem fiscaliza os abusos? Decerto não será a recém demissionária comissão de ética da presidência da república. Há dois caminhos, aquele em curso, vale dizer, o que exige progressiva judicialização da política. Ou, o outro, exigir mais dos mecanismos democráticos como, por exemplo instituir “recall”, voto distrital, rediscutir a proporcionalidade no parlamento.

Sem novos ares o interesse em escolher representantes esmorece. Fez com que mais de 25 milhões de pessoas anulassem ou se abstivessem nesta última eleição. Fenômeno subestimado pelos analistas profissionais, mas talvez exatamente ai, a mensagem mais contundente do último pleito: estamos todos de saco cheio da mesmice, da farsa, da caretice, da farra. Não se trata de sacar nomes novos do colete como é a praxe do morubixaba que conta com a conivência e aplausos dos idólatras.

Estivemos por um fio de distância da hegemonia absoluta, e as instituições, reagindo à desconstrução, recuperaram a voz. Alentador, mas vamos controlar as ilusões. Só o fortalecimento da opinião pública, maior vigilância sobre o poder e uma mídia insubmissa, pode nos ajudar no longo aprendizado que é o treino do discernimento.

Provavelmente, a dimensão mais importante de toda essa discussão não esteja em julgar o mundo ou resgatar valores. Voltando para Aristóteles: afinal qual tipo de ação estamos exercendo uns sobre os outros?

Talvez haja uma premissa: ser ético é poder se enxergar!

Paulo Rosenbaum é médico e escritor, é autor de “A Verdade Lançada ao Solo” (Ed. Record)

paulorosenbaum.wordpress.com

Para acessar o link do JB

http://www.jb.com.br/coisas-da-politica/noticias/2012/10/11/etica-ve-se-se-enxerga/