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Sagração da intolerância

A primavera chegou tarde demais. O mundo que conhecemos desintegra-se rápido. E desta vez, é mais do que um rito de passagem. Mudanças drásticas são eminentes e estão para acontecer. E o oriente médio está na linha de frente.

Ontem uma charge, hoje um filme provocador, amanhã propaganda picante e depois de amanhã, violência imotivada. As condições e predisposições dos manifestantes estão bem desenvolvidas. Nunca realmente precisaram de razões. O alimento desse ódio se chama pretexto. Infelizmente aquela região sempre foi uma latitude propicia para incendiários.

Meus amigos muçulmanos ficam divididos entre fidelidade e radicalizar a autocrítica. Eu sei, eles sabem e a maioria entende que o verdadeiro islã não tem nada a ver com o que os esses manifestantes demonstram, mas como desconstruir a imagem daqueles que partem para o pau, e midiaticamente dominantes, passam a representar todos?

Publicar charges ofensivas a uma religião, troçar de seitas ou atacar ícones espirituais pode ser considerada uma prática ridícula e coloca em cheque mais o mau gosto do que a tolerância. A paz que esperamos para a região requer comedimento, restrição e respeito mútuo.

O atual elemento bizarro é tentar estabelecer equivalência moral entre uma ofensa – mesmo grave – e os assassinatos epidêmicos que agora assaltam o oriente médio, África, e parte da Ásia.

O que seria do mundo se toda piada ou gozação se transformasse em ofensa, depredação, e morte? Judeus, americanos, religiões e etnias não são atacadas, ridiculizadas e expostas diariamente mundo afora? Inclusive ou especialmente nos jornais árabes, uma das mídias mais hostis ao mundo ocidental? Num mundo instantâneo as reações se cruzam: o crescimento da retórica xenófoba e islamofóbica na Europa coincide com a sagração da intolerância no mundo árabe.

É que esse tipo de jihadismo, assim como todo dogma, não tolera o contraditório, sendo uma espécie de parasitismo religioso que concentra nitroglicerina ao deformar a mensagem do islamismo, a fé autentica de 1,5 bilhão de pessoas. Mas sem que lideranças esclarecidas venham a público para confrontar estas perversões, as massas tendem a se tornar progressivamente ingovernáveis.
Já a parcela da esquerda que, estrategicamente silencia, – para vibrar em casa com vinho tinto — quando embaixadas ocidentais são queimadas, pessoas executadas e crimes são cometidos está, em uma palavra, alucinada. Imagina que a energia liberada pela loucura possa ser de grande serventia para a derrocada final do capitalismo.

Só se esquecem que intelectuais, mulheres e minorias sempre são os segundos nas listas de execução desses comitês revolucionários. Subestimar a capacidade de avanço do fundamentalismo é ignorar os riscos autoritários que essas sociedades representam para a liberdade. Aprendamos pois e fujamos de lugares que não sabem separar Estado e religião. Não que as democracias populistas e seus ecléticos partners estejam lá muito preocupadas com o que chamam de “decadentes valores burgueses”.

Perdeu-se a oportunidade de alguém dizer hoje na ONU que as nações jovens tem os mesmíssimos direitos que as longamente estabelecidas. Ora, o problema das nações transcendem o nacionalismo, barreiras alfandegarias e protecionismos. Não se constroem identidades por decurso de prazo. Os argumentos em defesa do direito da existência de Israel são tão bons como os de qualquer outra nação. O sinistro é que o Estado hebreu parece ser o único que tem esse direito abertamente questionado por aquilo que deveria ser uma assembleia de nações. Uma minoria tem ou não direito natural à vida? Parece que não. E por isso, exatamente por isso que judeus, palestinos, armênios, curdos, catalães, bascos, nepaleses e outras pessoas espalhadas pelo mundo buscam autodeterminação para tentar manter coesão e identidade como povo.

É vital não confundir tolerância com omissão. Tolerância favorece a vida, omissão mata. Pois é inquietante o desvelo com que a comunidade internacional vem encarando as ameaças diárias contra a existência da nação judaica patrocinada pelos apeudeutas do atual regime iraniano e associados.

Os físicos nucleares reconhecem que desarmar ogivas dá muito mais trabalho que criá-las. A escalada acontece quando ninguém quer retirar o dedo do gatilho.

Talvez o recolhimento, a meditação e o perdão possam amenizar os ruídos de guerra, mas, se não, valerá pelo presságio ingênuo que deveria nos dominar mais vezes.

Paulo Rosenbaum é médico e escritor. É autor de “A Verdade Lançada ao Solo”(Ed. Record)

Paulorosenbaum.wordpress.com

Para acessar o link do JB

http://www.jb.com.br/coisas-da-politica/noticias/2012/09/28/sagracao-da-intolerancia/