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O discreto heroísmo dos independentes

O advento da democracia deveria ser uma festa onde escolheríamos aqueles destinados a ser frações das nossas vontades e desejos. Será?

O psicanalista Wilhelm Reich (1896-1957), mais um discípulo dissidente de Sigmund, escreveu “Escuta Zé Ninguém” um livro épico. Com uma linguagem accessível, o livro é uma aterrorizante seqüência de constatações sobre a realidade humana. Ele demonstra, com a sutileza de um guerreiro ensanguentado, que não temos jeito. A tendência política da maioria é escolher articulados heróis opressores que, em geral, se contrapõem aos autênticos libertadores românticos. Tomem o panorama eleitoral por testemunha e digam se o que foi grafado prescreveu!

A raiz da crise de autoridade e representação da contemporaneidade tem a ver com a percepção deste psicanalista. E o mundo eletrônico veio para embolar ainda mais o meio campo, já que o perfil dos heróis mudou radicalmente. O mito sempre se construiu na batuta do tempo, e eis uma escala que se modificou completamente. Com o alucinante tempo real das redes, os quinze minutos de fama de Andy Warhol se transformaram num pesadelo para as celebridades políticas. Foram todos condenados aos holofotes diuturnos. O púlpito caiu, junto com os palácios. O escancaramento da privacidade colocou todos, príncipes e pedestres, nús, e no mesmo recinto.

Na nuvem poluída de informação, trocas aleatórias das fontes, as imagens saltaram das telas para nos dominar. A intensidade é tão violenta e rápida que não seria surpresa que os pesquisadores do futuro constatassem epidemia de surtos psicóticos e distúrbios de comportamento induzidos pela simultaneidade de estímulos. Devidamente catalogada pelo Código Internacional de Doenças, a psicose midiática veio para ficar, e será instrumentalizada como o amado argumento dos regimes totalitários: o controle é saudável e a liberdade, nociva.

Mortos os heróis, o que hoje conta é o imediatismo com que conseguem se manter no alto da onda. Esqueçam trajetória, coerência e história pessoal e coloquem imagens fotogênicas, discurso padrão e capacidade de esquiva. Estão aí apresentadas as linhas gerais da nova moeda eleitoral.

Já que o executivo da Google foi em cana e o Jornal “O Estado De São Paulo” ainda encontra-se sob censura, vale levantar mais cedo para acompanhar os próximos capítulos da novela, que, desta vez, se passarão do lado de fora da rede Globo.

O governo argentino acaba de alavancar um pacote de leis contra o grupo editorial Clarin visando coibir aquilo que tem sido chamado de “monopólio de comunicação”. Vários analistas, intelectuais e toda oposição daquele Pais vem alertando para o significado inquietante do uso seletivo da justiça, com finalidade de controlar, se possível emudecer, as vozes criticas dos repórteres e articulistas que ali se manifestam.

Quando se conhece os detalhes da operação, enxerga-se que se trata de algo que supera muito o escândalo. O que está acontecendo com o vizinho do sul tem um nome bem menos charmoso: atentado contra a liberdade de expressão. Um governo popular e eleito tem direito de suprimir as liberdades civis? No entender do neopopismo da américa latina, sim! Não só o direito como um dever maior os chama.

Cabe ressaltar as dessemelhanças evidentes entre nós e los hermanos gringos, para além do futebol e qualidade do churrasco. Na Argentina os intelectuais andam, em sua maioria, escandalizados com o arrocho à liberdade. Ao modo deles gritam e esperneiam como podem.

Lá, há resistência crescente.

No caso brasileiro, o oposto. A exceção de cientistas sociais histriônicos coligados ao poder federal, insistindo na ridícula tese de golpe das elites, a maioria dos nossos intelectuais preferiu se omitir. Já passou da hora de encher as páginas apontando a Brasília atual como seguidora silenciosa do exemplo neo-peronista da dinastia Kirchner, inspirada por companheiros como Correa, Chavez e Evo.

A obsessão pelo controle da mídia é o primeiro mandamento, e mesmo a razão de ser, dos regimes autoritários, já que ela é o único e último respiro que sobrou à sociedade civil para denunciar abusos do poder. Para a sociedade, uma vez rebocado o oxigênio, resta submissão ou morte sob o dreno da imprensa subsidiada – e muito bem paga.

No fundo a raiz de tudo isso já estava lá, descrita por Reich. A mente autoritária “sabe melhor o que é bom para o povo” já que “nunca se fez tanto na história deste país”. Que se aplauda a diminuição das diferenças sociais com a mesma intensidade com que deveríamos vaiar as tentações totalitárias que governo e associados demonstram ter.

Pode ser que não haja imprensa completamente independente em lugar nenhum, mas se tem que haver um novo mito ele estará espalhado no discreto heroísmo das pessoas independentes. Elas é que sempre fizeram toda a diferença.

Paulo Rosenbaum é médico e escritor. É autor de “A Verdade lançada ao Solo”(Ed. Record)

Paulorosenbaum.wordpress.com

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