Resenha Crítica de Céu subterrâneo Por Cíntia Moscovith – Jornal Zero Hora

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Cíntia Moscovich: Debaixo da terra

A colunista escreve quinzenalmente no 2° caderno

01/08/2016 – 06h04min | Atualizada em 01/08/2016 – 06h04min

Protagonizado por Adam Mondale, um autor em crise que ganha uma bolsa para viajar a Israel e escrever um romance, a trama se escora nos mistérios que envolvem a gruta de Makhpelá, o Túmulo dos Patriarcas da tradição judaica – daí o “céu subterrâneo” do título –, local que Abraão teria comprado para sepultar Sara e onde estariam enterrados o próprio Abraão, Isaac, Rebeca, Jacó e Lia.

Veja também:
Cíntia Moscovich: Vade retro
Cíntia Moscovich: A rotina do artista

De posse de um velho negativo de máquina polaroide, com o aluguel de um apartamento feito pela Internet, Mondale chega a Jerusalém numa madrugada fria e chuvosa. Ao procurar o endereço, se descobre enganado – e essa é a primeira peripécia da história. A partir daí, o livro se desenvolve em três planos: a aventura em Israel, a construção do romance e o descobrimento pessoal do personagem – inclusive de um misticismo rechaçado mas inescapável. Com tons kafkianos e metalinguísticos, a trama se apresenta com a cronologia alterada, cabendo ao leitor organizar a sucessão dos fatos no tempo.

Dono de uma prosa envolvente, embasada num extenso conhecimento da matéria, Rosenbaum, que é também autor de A verdade lançada ao solo (2010), cria um clima labiríntico, no qual a tensão é alimentada por cortes precisos e informações que surgem em momentos cruciais da narrativa.

Ademais das virtudes inerentes, Céu subterrâneo tem ainda a chancela de uma das respeitadas casas editoriais do país, que completa 50 anos sob o comando de Jacó e Gita Ginsburg. Responsável pela coleção Debates, a Perspectiva publica uma vastíssima gama de assuntos, tendo participado diretamente na formação intelectual (e afetiva) de todos os brasileiros que se debruçam sobre as humanidades. O selo é certeza de edições de qualidade – como é, sem dúvida, o caso de Céu subterrâneo.

http://zh.clicrbs.com.br/rs/entretenimento/noticia/2016/08/cintia-moscovich-debaixo-da-terra-7040569.html#

 

Maiêutica e o Vício em Doutrinar (blog Estadão)

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“Maiêutica – Do grego “maieutitké” – relativo ao parto. Processo utilizado por Sócrates para ajudar a pessoa a trazer ao nível da consciência as concepções latentes em sua mente” Dicionário Etimológico. Antonio Geraldo da Cunha.

Em tempos de cultura pop, enquanto a histeria progride. Reduz tudo à posições políticas cartográficas. Vira mania, enquanto a arte pedagógica vital foi relegada. A proposta de ensino socrática conhecida por maiêutica não foi só desprezada. Deformada, hoje ela está a serviço do vício em doutrinar. Das cátedras às redes sociais, das redações aos programas de auditório, um perturbador ruído de fundo constrange o pensamento. A independência intelectual virou artigo inalcançável. Ao sequestrar o exercício da reflexão trocado por engajamentos doutrinários, a vida parece ficar mais fácil enquanto a educação mingua à sombra de torcidas dispersas. No jogo viciado, leva a melhor quem for mais ruidoso ou cooptar mais público. Nem sempre foi assim. Sem nostalgia, é importante observar que estamos enredados na defensiva. A trincheira está cada vez mais a mão, ainda assim o antônimo desejável de politicamente correto não é o politicamente incorreto, como se tornou comum propagar sem cerimônia ou autocensura. Talvez seja uma outra coisa. Bem menos previsível. Muito mais empírica para estes tempos de legiões de lobos avulsos, onde conspirações secretas de primeira página parecem ser as únicas confluências possíveis. Onde a omissão permissiva vale mais do que a explicitação dolorosa. Será preciso investigar usando todos os serviços de inteligência do mundo porque o establishment faz uso seletivo das palavras, cuidadoso falseamento da ciência e da realidade. A negação permanente desprotege todos. Ninguém ainda lamentou suficientemente o aparelhamento de uma década. Seria o fundamento da critica. O primeiro da lista. Ao obstar o fluxo de pensamento para o substituir pela ordenha mecânica de vozes eleitas por grupos afins, o convívio foi aniquilado. O novo populismo saído diretamente da causa do saber. De onde nunca emergiu muita coisa além de slogans circulares, discursos peremptórios que mimetizam uma filosofia. O saber não é causa emancipada, que sobrevive sem interpretação. Ocorre que, por acaso, ainda pode-se escolher quem será convocado para executa-la. Se os eleitos forem afilhados locais, nepotismo intelectual. Se escolhidos através da mesma meia dúzia de referencias bibliográficas, monopsismo cultural. A redução é clara: não se sabe se a escola deve ser dominada por uma linha partidária ou submeter-se à todas. Essa é a verdadeira dúvida, traduzida na linguagem da polêmica irrelevante. Talvez o conhecimento não merecesse destino tão recortado. Nem as instituições tratamento tão afoito. O medo de enfrentar o extremo, é, no fundo, a compensação neurótica de quem não conseguiu encarar o que chegou até nós. A tocha de brilho fosco. Não a olímpica. Mas a mecha do aposto. A aposta no enunciado de um bem único. De uma unificação impensada, porque impossível. Da ética de monopólio. De opiniões respaldadas em círculos fechados. O que foi a mutação da política senão um consenso cozido entre gabinetes herméticos? Não se espantem se testemunharmos os extremos do pavio se desgarrarem em filiais violentas emancipadas da matriz. Democracias mitômanas e autocracias cínicas são espelhos da mesma atuação. Sairemos do enredo circular quando o dialógico aprender a recusar mentiras prudentes.

Da ignota culpa do cidadão (Blog Estadão)

Já carimbou? Pois não? O que nós, o Estado, precisamos te relatar? Agora é oficial. Terás que conviver com o terror, aceitar a usurpação, renunciar à integridade, rejeitar a transcendência e submeter-se à imanência sem consistência. Nem notaram? Já estão rendidos. O trator pode parar. Vossos corpos, ceifados, prontos para as empilhadeiras. Se não fosse Nice seria Jerusalém, Orlando ou Dacca. Por que insistir neste tema? Ainda acham que vosso infortúnio é pertencer a essa geração? Céus, é claro que não. E quanto às crianças? Elas, que nem tiveram essa chance? De escolher se queriam pertencer. Não nos cabe responder. Como você deve intuir nós não somos responsáveis por muita coisa além da arrecadação.

Esgotadas as possibilidades de qualquer coisa estável,  reduziremos tudo às oscilações. Ao progresso que se conserva. À conservação do nada que progride. Uma instabilidade é só prenúncio, quando vezes já repetimos. Vocês não assistem programas partidários?  E a velocidade digital e os artigos descartáveis? E as facilidades do desconhecido? O xadrez impessoal das Potencias? O núcleo duro do inadiável? Como vocês devem saber essas radicalizações rápidas não se curvam e ninguém mais pode decidir sobre nada seja quem for eleito? Alguém capturou o espírito destes tempos? Terás que compartilhar o horror. Viverás num estado de animação suspensa. Não te será concedida trégua e ainda assim serás coagido a reconhecer nossa hegemonia. O mundo não era má ideia, mas agora, convertido, tornou-se compassivo com os crimes. Nosso delito tem uma vantagem. Insuperável. Podemos nos perdoar ou mudar de discurso, tanto faz.

As vítimas? Ora, são culpadas involuntárias por algum delito, da indiferença social à ganância. Do indesculpável aval à prepotência do passado colonial ao segregacionismo racista. Atenuantes? Tente outra saída. Sempre acharemos um furo para os seus álibis.

Vosso destino? Serão explodidos, envenenados, bombardeados e manietados por uma destas causas ou todas elas em conjunto. Quem se importa? Você que não deu abrigo ao refugiado, que não foi solidário, que não fez doações, também não escapara do nosso radar penitencial. Se tiver a oportunidade de ser trucidado, desconfie de você mesmo. Se quiser achar teu algoz culpe sua natureza egóica insanável, afinal foi ela quem te colocou no paredão.

Cidadãos, ouçam, não é nada pessoal, mas este Estado aqui não mais te protege. Decidiu que têm muito mais o que fazer. Não se ofenda. É que elegemos outras prioridades. Por que você não foi consultado?  Você sabe distinguir a causa justa das suas necessidades pequeno-burguesas? Não? Pois é, por isso mesmo tomamos as rédeas e decidimos quais causas merecem precedência. Vamos resumir para que o Senhor entenda e memorize de uma vez por todas: o sujeito individual perdeu a importância. E o interesse. Deste ponto em diante nós só lidamos com multidões, rebanhos e lobos solitários. O Senhor vai insistir e protocolar uma reclamação? O nosso SAC encontra-se indisponível. Tente depois das eleições, até lá teremos novidades no guichê.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/a-ignota-culpa-do-cidadao/

Os horizontes do Justo (blog Estadão)

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Os horizontes do justo

Paulo Rosenbaum

04 julho 2016 | 11:56

Discordo, e não é só para contrariar o bom humor com que o notável Mario Vargas Lhosa finalizou sua coluna sobre os justos de Israel neste Estadão. Pelo que se vem falando sobre os dilemas contemporâneos de Israel — implicitamente ligado ao shoah e ao destino do povo judeu — o leitor corre o risco de imaginar que tudo pode ser condensado aquele único horizonte. Opressor contra vítima. Dominador e dominado. Segregador e segregado. Destarte, o mais estranho tem sido observar a redução de um conceito muito caro à humanidade — como é o caso do “justo de Israel” — ao guerreiro que se autodenuncia, o combatente que recusa a violência ou o homem que renega, por questões morais, toda hostilidade cometida por sua própria tribo. Justo tem sua raiz na palavra hebraica tzadik que por sua vez deriva da palavra tzedaká, cuja tradução apenas aproximada seria “caridade”. A estas características seria bom acrescentar outras, talvez mais relevantes, decerto mais próximas do conceito original. Ao menos estabelecer uma equivalência analógica. Há um conceito ampliado do justo de Israel,  pois há também o “justo das Nações”: é aquele que se aproxima da santidade. Aqui tomada menos em sua conotação transcendente, mas como sujeito que consegue atingir um estágio de conhecimento e separação que  o habilita a estabelecer um julgamento quase perfeito. São tão poucos e raros aqueles que logram alcançar este patamar que a axiologia foi obrigada a criar a categoria de “intermediário”. Uma espécie de pessoa que, incessantemente, busca a justiça — abarcando também o bastardizado conceito de “justiça social” — mas que, muito provavelmente, não a alcançará. Ao menos através de um modo acabado e idealizado.  Já o justo, de acordo com os critérios da hermenêutica é aquele que atinge o grau máximo de discernimento. Grau que nem sem sempre está de acordo com o que anuncia o senso comum. Esta é uma peculiaridade muito própria do justo; estar oculto e ser minoria entre as minorias. Por sua vez, o justo, quando chamado, manifesta-se por inteiro, a contrapelo, enquanto outros preferem esconder-se na maré do senso comum. Nesta acepção, o justo sempre buscará a paz, sem, no entanto, desfazer-se do direito à existência e, principalmente, sem renunciar à autodefesa. O justo também não é nem um traidor nem alguém que se dispõe à autoimolação. De que valeria um justo sacrificar-se ofendendo os próprios balizamentos éticos? Um equânime que serviria apenas para o endosso de uma violência que não se cala? Israel não é um mar de rosas, muito menos um lugar perfeito. Se a opressão não é justiça, ceifar a vida de inocentes com ataques terroristas menos ainda. Se a ocupação é condenável e uma política colonialista um pesadelo, a resposta jamais será a prescrição de esfaqueamentos aleatórios. Há uma importante distorção na análise da desproporção. Disputas territoriais e questões étnicas tem sido cooptadas como uma causa que vitimiza apenas um lado. O supostamente mais fraco e indefeso. A tragédia, e ela existe, é sempre bilateral. Teorias sócio-psicologicas se esforçam para explicar a preferência pelos fracos e indefesos contra a potencia que subjuga. Mas, uma vez conhecidas, eles não pode servir para endossar o álibi da demonização branca de toda uma sociedade. Há uma critica que oculta, sob o manto do discurso da igualdade, um viés repleto de preconceitos. Se o sionismo demanda ressignificação, isso nada tem a ver com as acusações genéricas e pouco fundamentadas que vem dominando a intelligentsia internacional e fomentando irresponsavelmente a globalização da judeofobia. O discernimento e a honestidade intelectual exigem colocar as coisas nos seus devidos lugares. Uma delas é separar os elementos para análise impedindo a aglutinação que generaliza uma condição particular. Só um Estado com altíssimo grau de consciência permitiria que militares insatisfeitos deponham contra este mesmo Estado, e ainda sejam protegidos em seus direitos pela Suprema Corte, ainda que com algum grau de censura. Deste modo, o “justo de Israel” pode nem mesmo ser uma pessoa. Não sendo uma personalidade, o justo não deve estar onde se supõe que esteja. Pode estar encarnado numa entidade abstrata, numa consciência com grande impacto na realidade. Pode estar exatamente na natureza ímpar de um País que permite que todos, incluindo jornalistas e ex-militares insatisfeitos, possam se expressar. Isso é justo. Mais do que justo.

Indócil Liberdade (blog Estadão)

Indócil liberdade

Paulo Rosenbaum

29 junho 2016 | 16:11

“Constranger: as três primeiras acepções. 1. compelir, (à cabralina, braço forte, sob pretexto, contra a vontade)  2. restringir (inibição, restrição, refreio, percluso, coibitivo) 3. acanhamento. (modéstia, comedimento, humildade, arder o pejo nas faces pudibundas, envergonhar-se, atomatar-se, ficar cor de pimentão, desprezar a popularidade)”

Quer saber notícias? Elas não são boas. Isso é, conforme a versão. Há uma espécie de adição química as versões. Vão sempre depender do que você quer olhar. As análises tem um único mas gravíssimo defeito, os analistas. Todas estas consequências se devem à causa? Mas que causa é essa perguntou um estudante? Aquela que só nos inclui nas vicissitudes? Aquela em que o público e o privado, emaranhados, estão dando nós?  Estamos cheios de razão, assim como cheios de versões para dar. Mas haveria um suporte unívoco para explicar o quadro? Algum aparato humano que nos aproximasse — por convicção ou exaustão — de uma versão menos viciada, menos cheia de nós mesmos? Haveria uma interpretação cuja neutralidade fosse tão intensa que a transparência de sua índole bastasse?  Alguma que nos trouxesse a verdade? Ah perdão. Já ia me esquecendo. Não há mais verdade alguma. Ou, melhor, ela está onde ninguém ousa pisar. Em nossos tempos a relativização transcendeu Einstein. Um ativismo relativador pronunciou seu veredito: nada pode ser considerado como vero. No máximo verossimilhante. Nenhuma boca pode ser considerada pura.? E, já que não há mais verdade (e pelo visto, nem mesmo critérios jurisprudenciais respeitáveis) podemos nos considerar liberados. Livres para opinar. E quando opino o que me concedem não é só a liberdade poética para tecer uma tese como expor todos meus nervos impregnados com o cinismo da incerteza. Este que vemos em declarações sucessivas depois das denuncias. Este, quando, às vezes pode-se ouvir no final dos noticiários: “nossa produção tentou, mas não conseguimos contato”. Estaremos naquele denial de proporções patológicas, geralmente profetizado e reservado para final de ciclos?

E, de quem estamos afinal falando? Deve, tem que haver, algum consenso mínimo que nos permita dizer quem são eles. De qual material são compostos? Ferro e aço? Serão autônomos que servem à revolução. Que nos execram, digo, nós a sociedade, os chupins aposentados da Nação?  Poderia usar a ironia, mas me assusto com as possibilidades de que estejamos tangenciando a verdade. Os que desinformam, os que violam, aqueles que, ao enunciar diálogo, decretam as conversas? Talvez o tempo tenha escolhido outro ritmo. Talvez nem mesmo o senso comum nos recoloque em acordo. Acordos pressupõem deposição das armas, e, como se sabe, espíritos customizados não se movimentam. No País inaceitável defende-se atentados, impedir professores de exercer seus ofícios não é crime, e torcer pela falência do sistema é uma atividade docente. Quando reclamamos da anomia ninguém suspeitava que o contraponto seria um Estado Policial ou a volta do arbítrio. E ele voltou, pela porta lateral. Na mão de um único poder despejou-se a constituição.

A liberdade, esse bem máximo, pode ser um insulto do lado errado das grades. Mas, mesmo assim, estão a nos persuadir diariamente: as instituições funcionam, o País goza da mais perfeita normalidade, as leis observadas. De um telescópio, em Órion. Eis que viola-se mais do que uma constituição por dia. Mas há algo neles muito mais imperdoável que tudo: nos fazer colar na tela para torcer pelas prisões, debates estúpidos, mentiras de ocasião, propaganda enganosa, corporativismo, seleção de palavras vazias, calada da noite, cargos comissionados, cultura suspeita, gritos estudados, histeria no senado, mortes sem sentido, poesia rebaixada, manchetes encomendadas, balas extraviadas, dossiês cruzados, filas de pedintes, pais sem oficio e mães perdidas.

Ajudaria admitir que o Mal tem alguma existência real. E ele está solto. Não só fora das grades, mas cooptando vozes e ameaçando a liberdade de centenas de milhões. Já me belisquei para comprovar. Não é delírio, mas pode ser um conto do Machado de Assis. Está em “O Alienista”. Há ali algo que está muito perto de se cumprir, para bem além da metáfora. Estamos todos em cana para que um punhado deles usufrua o espaço, limpo de gente, desinfetado das vozes que se opõem, higienizado por leis autocráticas. É duro assumir, mas o País é um imenso constrangimento ilegal, o problema é que só alguns pedidos chegam às cortes. O desafio não é a inteligência, difícil mesmo é ser justo.

É aí que me levanto e me ponho a postos. Dá para sentir que tudo pode mudar. A liberdade é uma entidade apressada e pode se tornar indócil.  Precisamos esquecer que somos pacientes e convencer o carcereiro. Uma hora dessas ele esquece a chave na fechadura.

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Céu a Dois (Blog Estadão)

Querida? Acorde!
Já está na hora?
Ainda não! Quase. Temos que sair daqui, lembra?
Mais 5 minutinhos.
Mas e o Jardim? Quem vai varrer?
Vai você!
Não fui eu que fiz a bobagem.
Tenho que explicar de novo? Vai dar tudo certo, confie em mim. Ele tinha um plano maior para nós.
Melhor ir logo. A arvore está perdendo folhas e o dia já está quase terminando.
Estava sonhando com flores e que um dia vamos saber como aproveitar este lugar.
O Jardim?
Virá com um código de instruções para que a gente e todos os descendentes vivam em paz.
Sério? Quando?
Não sei, mas foi uma promessa dele quando eu estava chorando e Ele veio me consolar.
O que Ele disse?
Que alguém iríamos ser libertados de nós mesmos.
Não faz muito sentido.
Seriam algumas Regras mínimas com valor máximo. No sonho alguém me dizia : “como a constituição americana”. Pequena mas está tudo lá, compactada nos contará a história do mundo, e nós, os personagens centrais. Tudo dependeria da gente. (o marido coça a nuca preocupado)
Do que exatamente você está falando?
Que vamos ter uma longa descendência e que, no fim, teremos paz. Lembra seu medo? Que surgissem facções, guerras tribais, que o pessoal desse errado na vida?
E como é que se evita isso?
O mundo vai substituir salvadores pessoa física, por consciência.  E depois de tudo nós seremos as mães de todos que vivem.
Mães?
Mães! Agora  posso dormir mais um pouco?
Ok, mas os figos do pomar estão caindo de maduros, eu se fosse você melhor você iria lá dar uma olhada.
Pronto, acordei? O que não se faz pelo Amor?
Temos que limpar isso, olha essa bagunça
Isso é justo?
Se não fizermos nada vamos atrair outra cobra.
Ai não. Tudo menos aquela jararaca.
Pois é, vamos à faxina.
E quem criou esse caos?
Pergunte para o teu chapa. Você fala com Ele todos os dias.
(olhar de desconfiança feminina)
Você reclama, mas sabe porque ele fala mais comigo do que com você, não sabe?
Por que?
Porque você veio depois dos mosquitos e Tem dias que você está se achando o rei da cocada preta. Já te falei, Ele não aprecia gente que fica se achando.

Vamos mulher! Pode se mexer?

Aff

Tá vendo?
Vendo o que?
Ficou brava sem motivo.
Pensa que é fácil?

Foi você quem começou.
DR hoje não por favor. Fica na sua que vou falar com Ele
Olha lá o que você vai dizer. Não me comprometa.
Você veio da terra, mas parece feito de porcelana.
(Desolado, o marido balança a cabeça)
Oh Altíssimo, não poderia ter me tirado do barro também? Por que não poderia também ter me modelado com argila? Com todo respeito não acho nada simpático ter vindo da costela dele.
(Marido faz olhar de reprovação e tenta dissuadi-la, pedindo silencio para a esposa)
Agora é que não fico quieta mesmo.
(Marido implora para que esposa pegue leve enquanto espreme as mãos)
Com toda a vênia Senhor, nós, mulheres, somos mais resistentes, amadurecemos mais rápido, temos que ser babás, companheiras, cozinheiras, auxiliar de finanças, promoters, conselheiras, mães (tinha mesmo que doer assim?) e mesmo com toda essa carga nós tínhamos que sair das costelas desse mimado barbudo?
(trovões simpáticos à causa)
Mulher, deu por hoje, dá para parar com isso?
(raios e trovões antipáticos, o Marido se recolhe no canto)
Obrigado Altíssimo, posso continuar?
Veja só, não acho justo ter levado toda a culpa. Eu amo esse homem e nem sei os motivos. Dizem que o Senhor inculcou o prazer nas espécies pela procriação, mas minha intuição não falha: é muito mais do que isso. Além disso, estou apaixonada. Um dia? Em homenagem ao dia se hoje vai haver um dia dos namorados?
(o Esposo não compreende as vozes que vem de cima) (A Esposa faz que sim com a cabeça)
Eu sei, eu sei!
Mas concorda? Segue dizendo a Esposa: nós é que levamos tudo nos ombros, eu diria o mundo nas costas. Se gostaria de ficar mais um pouco por aqui? Um pouco não, para sempre. Está brincando? Amo este lugar, temos absolutamente tudo. Mas o que posso fazer se a tal da árvore ensinou que precisamos de autonomia e que o mérito só pode estar na nossa escolha.
(vento forte e murmúrios de aprovação do céu)
O Senhor quer a lista escrita com todas as reivindicações? Olha, então vou falar com toda a humildade: eu quero que, no futuro, pode ser bem lá na frente, nós, mulheres, estejamos no comando.
Adão fala baixinho “Lá na frente? Até parece”
O que foi que você disse Querido?
Nada, bocejei.
Então, continuando, Altíssimo, queria que lá na frente depois que o Reino do Costelinha ai passasse, o Senhor nos desse uma chance, para eu e minha descendência.
Por exemplo? Deixar que uma nação justa seja comandada por uma mulher?
(O Marido pega no sono)
Altíssimo, adorei conhecer o futuro? O que mais?
Tem também más notícias? Povos que saíram de mim vai ser perseguidos e os outros vão se fingir de mortos? Mas o que é que é isso? Pode parar. Não quero mais saber. Não, sinto muito, mas não dá para ficar calminha com o que o Senhor acaba de me contar. E ainda nem me contou tudo? Faça-me o favor. E O Senhor não vai fazer nada a respeito? Melhor mudar de assunto. Ainda tenho esperanças que o Senhor tome providências. Vou entender um dia? Duvido.
Agora que o marido dormiu vou pedir as coisas mais delicadas. Senhor, com todo respeito: eles não poderiam ser mais limpinhos?
(Trovões de média severidade)
Ok, Ok, Ok, era pedir demais. Vou continuar então: Todo Poderoso, pode me fazer um favor extra? Pode ser? É o seguinte: Poderíamos nascer com menos preocupação com os filhos? Estou grávida não faz nem uma hora e já pensei na matrícula, no que vai ter no lanche, e na formatura na faculdade.

Isso tudo é a natureza feminina? Tudo bem então, só para o Senhor não sair dizendo por ai que nasci teimosa, essa vou ouvir e aceitar mesmo sem entender direito.

E o que mais mais? Ser curiosa assim também tem a ver com nossa natureza? Cientistas e mulheres são? Pode dizer o nome. Einstein. Nome difícil o que tem ele? Ah, ele vai ser sua testemunha. De que, posso perguntar? De que o Senhor não joga dados. Sempre soube, Altíssimo, eu via e comentava com o Esposo como era admirável seu Cuidado com as plantas e com os animais. O Senhor cuida ao mesmo tempo de todo Universo e ainda tem tempo para dar atenção individual para cada criatura? Como é que pode? Claro, só o Todo Poderoso. Não, não, nem sei o que é Corinthians, nem sei o que é time de futebol. O Senhor não vai me explicar? Ok,  não tenho muito interesse mesmo.
Posso continuar? O Senhor acha que eu falo muito não é? Mas já que isso é a minha natureza, deve ser para o bem. Certo?
(Risadas celestes múltiplas)

O que mais gosto em conversar com o Senhor é seu bom humor.

(sons de ruídos ásperos)

Agora que meu marido está roncando, — isso aí não dá para corrigir não? Sabe quanto tempo não prego olho?

(Gargalhadas celestes)

Desculpa Senhor, sei que se diverte com nossas bobagens, mas essa aqui não tem a menor graça. Já mandei ele ir dormir lá perto das goiabeiras. Foi ficando insuportável. O Senhor, aí no Infinito, não tem estes probleminhas, mas a mulher aqui tem que aguentar cada coisa que o Senhor nem pode imaginar. Ah, o Senhor também aguenta? Mas só para comparar: o Senhor é o Rei do Universo, eu sou a Escrava Galáctica do Lar, entende?

(mais risadas cósmicas)

Então me desculpe pelo desabafo. Aliás, me lembrei do bafo. Isso também poderia ser consertado?

Não acredito no que acabo de ouvir. O Senhor está me propondo que eu viva aqui sozinha? Nem pensar. Criar outra igualzinha a mim? Outra companheira para ele? Se chegar perto dele vai ter o que ela merece. De jeito nenhum. O Senhor não me entendeu direito. Não foi bem isso que eu tinha em mente. O que? Ele me diz exatamente a mesma coisa que o senhor acaba de falar: que reclamo e quando ele faz o que eu peço nunca acho que foi suficiente. O Senhor é conservador ou progressista?

(Trovões leves)

Eu sei, eu sei. Me perdoe. Tenho certeza que o Senhor é um juiz imparcial. É que pelo que ouço dizer do futuro, em muitos Países não vai ter toda essa equidade. O Senhor não tem partido? Nem eu, nenhum juiz, nem tribunal deveria ter. Concorda? Eu sabia, estamos do mesmo lado. Ok, sei que estou tomando seu tempo, mas agora estou para terminar.

Se quero outra pessoa? Nunca. Meu esposa é perfeito para mim. Nós nos entendemos em tudo, menos quando ele discorda de mim.

(risadas abafadas que escapam das nuvens)

Algum descendente nosso poderia escrever sobre o tamanho do nosso amor? O Senhor vai escalar um sábio para falar da primeira história de amor da humanidade? Que o maior mistério e o grande milagre é o amor entre um homem e uma mulher? Pode haver outros tipos? Qualquer forma de amor vale a pena? Para a redação vai chamar o maior de todos os autores? Salomão? Pode adiantar como é que vai se chamar o livro? Posso eu mesmo dar um nome? Deixe-me ver. Pode ser “Melodia de Amor?” Não, não, muito clichê. E que tal: “Céu a dois?”

(trovões serenos)

O que foi? O Senhor não gostou? Podem entender mal? Então que tal ficar “Cântico dos Cânticos”? Mas, por favor, registre que prefiro “Céu a dois”. Como? Tudo ai é registrado? Tudinho? Dá até um certo medo. Não, não sei o que é grampo. Está muito cedo para falar nisso e prefere fazer uma varredura antes? Está bem, eu aceito. Às vezes sou obediente, só ao Senhor, ok?

(pigarros angelicais)

No caso do Adão queria só pedir para o Criador dar umas últimas lapidadas extras.

Senhor? Posso continuar? Posso chamar você de Senhora? É que as vezes conversando com o marido eu acabei falando espontaneamente “Ela?”

(Sons indecifráveis)

Se sou feminista? Sou, e assumo. Pode escrever ai no seu registro geral : serei a primeira feminista. Se eu não for quem será? Se eu não for por mim quem no meu lugar? Mas é que também fica mais fácil para mim. Mas entendo. Deixa para lá, já me acostumei mesmo a chama-lo de Senhor.

Altíssimo, agora mudando de assunto podemos falar algumas palavras sobre estabilidade? O que eu mais tenho medo lá fora é de cair num desses lugares cheios de bagunça. Onde não existem regras. Onde tudo muda do dia para a noite. Onde não se pode confiar nas instituições. Sabe, tumulto político? Pode quebrar essa para nós? O Senhor faria isso pela gente? Esse aí nunca ouvi falar. Onde fica esse País? Lá mais ao Sul? Por tudo que o Senhor está me falando agora falta muito pouco para esse lugar ser um outro Paraíso. Ah, entendi, dizem que o Senhor nasceu lá? Brasileiro? Não brinca. Ah, claro, lá tudo é bom menos o que? O que é Planalto Central? Entendi, o lugar como um todo é muito legal, a natureza incrível, o povo Ok, mas tem este probleminha. Problemão? E essa aí também é uma mulher? De acordo, vamos tomar cuidado. Ah, mas mesmo lá vai melhorar? O Senhor vai interferir? Pessoalmente? Agradecida. Certeza que meus descendentes ficarão aliviados.

(Adão espreguiça)

Altíssimo, ele não é uma gracinha?

(olhares apaixonados)

Poderia viver com ele em qualquer lugar do Universo. Mas, por gentileza, pense com carinho nas reforminhas que pedi.

Querida? Adão murmura com a voz rouca.

Sim amor?

Faz uma massagem aqui por favor.

Onde?

Ai do lado. Isso ai mesmo. Não sei porque mas minhas costelas acordaram doloridas.
Fui dormir e acordei assim. Houve alguma coisa enquanto eu cochilava? Perdi algo?

Nada querido. Só roguei ao Altíssimo para dar uma melhorada na nossa situação.
Melhorada? Estamos no Paraíso. Se melhorar, estraga.

Eu sei querido, mas eu quero que tudo fique bem.

Minha rainha, de hoje em diante faço tudo o que você quiser.

(Eva pisca para o alto)

Valeu Senhor!

(Trovões se dissipando, o Altíssimo usa seu dimer e reduz a luminosidade)

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Estado a sério – Trem para um (Blog Estadão)

Cônscios de tudo que um Estado não deve ser, este blog iniciará uma série de micro crônicas sobre respeito e o relacionamento

que um Estado, levado a sério, deve conservar com cada cidadão. 

“Uma companhia de trens japonesa resolveu preservar aberta a estação de Kami-Shirataki, localizada em Hokkaido.

A curiosidade é que a estação funciona apenas para uma pessoa: a adolescente Kana Harada.”

Extraído da tradução do Daily Mail pelo Jornal Ciência (matéria de Merelyn Cerqueira)

Mais de 25 anos depois Kana voltou à plataforma abandonada, estacionada no mesmo lugar, e a apresentou para as duas filhas adolescentes.

— Viram? Era bem aqui! E era um dia como hoje. O trem chegando fazia a neve jorrar para todos os lados. Eu sempre me acomodada no vagão do meio.

— Mãe, arriscou entusiasmada a mais nova. Um trem só para você?

— É verdade, lembram? Saiu no jornal. Sonho sempre com isso.

— Uma rainha, completou a mais velha, parece história de um livro.

— Eu também pensava isso. Achava egoísmo que ele viesse aqui só para mim. Sentia que eu não merecia aquilo.

— Não merecia? Estranhou Yoko, a mais velha.

— Durante um tempo. Até que meu pai, seu avô, que quase não conversava comigo sentou para explicar uma coisa que nunca esqueci.

— Mãe, você está chorando?

— Lacrimejando, só lacrimejando querida.

— O que o vovô falou?

— Que não devia me sentir culpada, que era exatamente assim que deveria ser.

— Mãe? As duas se voltaram curiosas. O que mais ele disse?

— Disse que todos deveriam saber disso, mas ninguém conseguia perceber.

— Saber o que? As meninas estavam curiosas e sob o frio, exalavam o hálito quente de neblina.

— Que essa preocupação é a verdadeira natureza de um Estado. Que o governo é sério quando se preocupa com o bem estar de cada um.

E é esse exemplo que serve para que continuemos a cuidar uns dos outros. Um lado e outro, as coisas se complementam.

As meninas e a mãe se abraçam, agora também lacrimejam.

PS- (agradeço a Carmen Monteiro que enviou o artigo)

Céu a Dois (Blog Estadão)

Céu a Dois

Paulo Rosenbaum

13 junho 2016 | 19:05

Querida? Acorde!
Já está na hora?
Ainda não! Quase. Temos que sair daqui, lembra?
Mais 5 minutinhos.
Mas e o Jardim? Quem vai varrer?
Vai você!
Não fui eu que fiz a bobagem.
Tenho que explicar de novo? Vai dar tudo certo, confie em mim. Ele tinha um plano maior para nós.
Melhor ir logo. A arvore está perdendo folhas e o dia já está quase terminando.
Estava sonhando com flores e que um dia vamos saber como aproveitar este lugar.
O Jardim?
Virá com um código de instruções para que a gente e todos os descendentes vivam em paz.
Sério? Quando?
Não sei, mas foi uma promessa dele quando eu estava chorando e Ele veio me consolar.
O que Ele disse?
Que alguém iríamos ser libertados de nós mesmos.
Não faz muito sentido.
Seriam algumas Regras mínimas com valor máximo. No sonho alguém me dizia : “como a constituição americana”. Pequena mas está tudo lá, compactada nos contará a história do mundo, e nós, os personagens centrais. Tudo dependeria da gente. (o marido coça a nuca preocupado)
Do que exatamente você está falando?
Que vamos ter uma longa descendência e que, no fim, teremos paz. Lembra seu medo? Que surgissem facções, guerras tribais, que o pessoal desse errado na vida?
E como é que se evita isso?
O mundo vai substituir salvadores pessoa física, por consciência.  E depois de tudo nós seremos as mães de todos que vivem.
Mães?
Mães! Agora  posso dormir mais um pouco?
Ok, mas os figos do pomar estão caindo de maduros, eu se fosse você melhor você iria lá dar uma olhada.
Pronto, acordei? O que não se faz pelo Amor?
Temos que limpar isso, olha essa bagunça
Isso é justo?
Se não fizermos nada vamos atrair outra cobra.
Ai não. Tudo menos aquela jararaca.
Pois é, vamos à faxina.
E quem criou esse caos?
Pergunte para o teu chapa. Você fala com Ele todos os dias.
(olhar de desconfiança feminina)
Você reclama, mas sabe porque ele fala mais comigo do que com você, não sabe?
Por que?
Porque você veio depois dos mosquitos e Tem dias que você está se achando o rei da cocada preta. Já te falei, Ele não aprecia gente que fica se achando.

Vamos mulher! Pode se mexer?

Aff

Tá vendo?
Vendo o que?
Ficou brava sem motivo.
Pensa que é fácil?

Foi você quem começou.
DR hoje não por favor. Fica na sua que vou falar com Ele
Olha lá o que você vai dizer. Não me comprometa.
Você veio da terra, mas parece feito de porcelana.
(Desolado, o marido balança a cabeça)
Oh Altíssimo, não poderia ter me tirado do barro também? Por que não poderia também ter me modelado com argila? Com todo respeito não acho nada simpático ter vindo da costela dele.
(Marido faz olhar de reprovação e tenta dissuadi-la, pedindo silencio para a esposa)
Agora é que não fico quieta mesmo.
(Marido implora para que esposa pegue leve enquanto espreme as mãos)
Com toda a vênia Senhor, nós, mulheres, somos mais resistentes, amadurecemos mais rápido, temos que ser babás, companheiras, cozinheiras, auxiliar de finanças, promoters, conselheiras, mães (tinha mesmo que doer assim?) e mesmo com toda essa carga nós tínhamos que sair das costelas desse mimado barbudo?
(trovões simpáticos à causa)
Mulher, deu por hoje, dá para parar com isso?
(raios e trovões antipáticos, o Marido se recolhe no canto)
Obrigado Altíssimo, posso continuar?
Veja só, não acho justo ter levado toda a culpa. Eu amo esse homem e nem sei os motivos. Dizem que o Senhor inculcou o prazer nas espécies pela procriação, mas minha intuição não falha: é muito mais do que isso. Além disso, estou apaixonada. Um dia? Em homenagem ao dia se hoje vai haver um dia dos namorados?
(o Esposo não compreende as vozes que vem de cima) (A Esposa faz que sim com a cabeça)
Eu sei, eu sei!
Mas concorda? Segue dizendo a Esposa: nós é que levamos tudo nos ombros, eu diria o mundo nas costas. Se gostaria de ficar mais um pouco por aqui? Um pouco não, para sempre. Está brincando? Amo este lugar, temos absolutamente tudo. Mas o que posso fazer se a tal da árvore ensinou que precisamos de autonomia e que o mérito só pode estar na nossa escolha.
(vento forte e murmúrios de aprovação do céu)
O Senhor quer a lista escrita com todas as reivindicações? Olha, então vou falar com toda a humildade: eu quero que, no futuro, pode ser bem lá na frente, nós, mulheres, estejamos no comando.
Adão fala baixinho “Lá na frente? Até parece”
O que foi que você disse Querido?
Nada, bocejei.
Então, continuando, Altíssimo, queria que lá na frente depois que o Reino do Costelinha ai passasse, o Senhor nos desse uma chance, para eu e minha descendência.
Por exemplo? Deixar que uma nação justa seja comandada por uma mulher?
(O Marido pega no sono)
Altíssimo, adorei conhecer o futuro? O que mais?
Tem também más notícias? Povos que saíram de mim vai ser perseguidos e os outros vão se fingir de mortos? Mas o que é que é isso? Pode parar. Não quero mais saber. Não, sinto muito, mas não dá para ficar calminha com o que o Senhor acaba de me contar. E ainda nem me contou tudo? Faça-me o favor. E O Senhor não vai fazer nada a respeito? Melhor mudar de assunto. Ainda tenho esperanças que o Senhor tome providências. Vou entender um dia? Duvido.
Agora que o marido dormiu vou pedir as coisas mais delicadas. Senhor, com todo respeito: eles não poderiam ser mais limpinhos?
(Trovões de média severidade)
Ok, Ok, Ok, era pedir demais. Vou continuar então: Todo Poderoso, pode me fazer um favor extra? Pode ser? É o seguinte: Poderíamos nascer com menos preocupação com os filhos? Estou grávida não faz nem uma hora e já pensei na matrícula, no que vai ter no lanche, e na formatura na faculdade.

Isso tudo é a natureza feminina? Tudo bem então, só para o Senhor não sair dizendo por ai que nasci teimosa, essa vou ouvir e aceitar mesmo sem entender direito.

E o que mais mais? Ser curiosa assim também tem a ver com nossa natureza? Cientistas e mulheres são? Pode dizer o nome. Einstein. Nome difícil o que tem ele? Ah, ele vai ser sua testemunha. De que, posso perguntar? De que o Senhor não joga dados. Sempre soube, Altíssimo, eu via e comentava com o Esposo como era admirável seu Cuidado com as plantas e com os animais. O Senhor cuida ao mesmo tempo de todo Universo e ainda tem tempo para dar atenção individual para cada criatura? Como é que pode? Claro, só o Todo Poderoso. Não, não, nem sei o que é Corinthians, nem sei o que é time de futebol. O Senhor não vai me explicar? Ok,  não tenho muito interesse mesmo.
Posso continuar? O Senhor acha que eu falo muito não é? Mas já que isso é a minha natureza, deve ser para o bem. Certo?
(Risadas celestes múltiplas)

O que mais gosto em conversar com o Senhor é seu bom humor.

(sons de ruídos ásperos)

Agora que meu marido está roncando, — isso aí não dá para corrigir não? Sabe quanto tempo não prego olho?

(Gargalhadas celestes)

Desculpa Senhor, sei que se diverte com nossas bobagens, mas essa aqui não tem a menor graça. Já mandei ele ir dormir lá perto das goiabeiras. Foi ficando insuportável. O Senhor, aí no Infinito, não tem estes probleminhas, mas a mulher aqui tem que aguentar cada coisa que o Senhor nem pode imaginar. Ah, o Senhor também aguenta? Mas só para comparar: o Senhor é o Rei do Universo, eu sou a Escrava Galáctica do Lar, entende?

(mais risadas cósmicas)

Então me desculpe pelo desabafo. Aliás, me lembrei do bafo. Isso também poderia ser consertado?

Não acredito no que acabo de ouvir. O Senhor está me propondo que eu viva aqui sozinha? Nem pensar. Criar outra igualzinha a mim? Outra companheira para ele? Se chegar perto dele vai ter o que ela merece. De jeito nenhum. O Senhor não me entendeu direito. Não foi bem isso que eu tinha em mente. O que? Ele me diz exatamente a mesma coisa que o senhor acaba de falar: que reclamo e quando ele faz o que eu peço nunca acho que foi suficiente. O Senhor é conservador ou progressista?

(Trovões leves)

Eu sei, eu sei. Me perdoe. Tenho certeza que o Senhor é um juiz imparcial. É que pelo que ouço dizer do futuro, em muitos Países não vai ter toda essa equidade. O Senhor não tem partido? Nem eu, nenhum juiz, nem tribunal deveria ter. Concorda? Eu sabia, estamos do mesmo lado. Ok, sei que estou tomando seu tempo, mas agora estou para terminar.

Se quero outra pessoa? Nunca. Meu esposa é perfeito para mim. Nós nos entendemos em tudo, menos quando ele discorda de mim.

(risadas abafadas que escapam das nuvens)

Algum descendente nosso poderia escrever sobre o tamanho do nosso amor? O Senhor vai escalar um sábio para falar da primeira história de amor da humanidade? Que o maior mistério e o grande milagre é o amor entre um homem e uma mulher? Pode haver outros tipos? Qualquer forma de amor vale a pena? Para a redação vai chamar o maior de todos os autores? Salomão? Pode adiantar como é que vai se chamar o livro? Posso eu mesmo dar um nome? Deixe-me ver. Pode ser “Melodia de Amor?” Não, não, muito clichê. E que tal: “Céu a dois?”

(trovões serenos)

O que foi? O Senhor não gostou? Podem entender mal? Então que tal ficar “Cântico dos Cânticos”? Mas, por favor, registre que prefiro “Céu a dois”. Como? Tudo ai é registrado? Tudinho? Dá até um certo medo. Não, não sei o que é grampo. Está muito cedo para falar nisso e prefere fazer uma varredura antes? Está bem, eu aceito. Às vezes sou obediente, só ao Senhor, ok?

(pigarros angelicais)

No caso do Adão queria só pedir para o Criador dar umas últimas lapidadas extras.

Senhor? Posso continuar? Posso chamar você de Senhora? É que as vezes conversando com o marido eu acabei falando espontaneamente “Ela?”

(Sons indecifráveis)

Se sou feminista? Sou, e assumo. Pode escrever ai no seu registro geral : serei a primeira feminista. Se eu não for quem será? Se eu não for por mim quem no meu lugar? Mas é que também fica mais fácil para mim. Mas entendo. Deixa para lá, já me acostumei mesmo a chama-lo de Senhor.

Altíssimo, agora mudando de assunto podemos falar algumas palavras sobre estabilidade? O que eu mais tenho medo lá fora é de cair num desses lugares cheios de bagunça. Onde não existem regras. Onde tudo muda do dia para a noite. Onde não se pode confiar nas instituições. Sabe, tumulto político? Pode quebrar essa para nós? O Senhor faria isso pela gente? Esse aí nunca ouvi falar. Onde fica esse País? Lá mais ao Sul? Por tudo que o Senhor está me falando agora falta muito pouco para esse lugar ser um outro Paraíso. Ah, entendi, dizem que o Senhor nasceu lá? Brasileiro? Não brinca. Ah, claro, lá tudo é bom menos o que? O que é Planalto Central? Entendi, o lugar como um todo é muito legal, a natureza incrível, o povo Ok, mas tem este probleminha. Problemão? E essa aí também é uma mulher? De acordo, vamos tomar cuidado. Ah, mas mesmo lá vai melhorar? O Senhor vai interferir? Pessoalmente? Agradecida. Certeza que meus descendentes ficarão aliviados.

(Adão espreguiça)

Altíssimo, ele não é uma gracinha?

(olhares apaixonados)

Poderia viver com ele em qualquer lugar do Universo. Mas, por gentileza, pense com carinho nas reforminhas que pedi.

Querida? Adão murmura com a voz rouca.

Sim amor?

Faz uma massagem aqui por favor.

Onde?

Ai do lado. Isso ai mesmo. Não sei porque mas minhas costelas acordaram doloridas.
Fui dormir e acordei assim. Houve alguma coisa enquanto eu cochilava? Perdi algo?

Nada querido. Só roguei ao Altíssimo para dar uma melhorada na nossa situação.
Melhorada? Estamos no Paraíso. Se melhorar, estraga.

Eu sei querido, mas eu quero que tudo fique bem.

Minha rainha, de hoje em diante faço tudo o que você quiser.

(Eva pisca para o alto)

Valeu Senhor!

(Trovões se dissipando, o Altíssimo usa seu dimer e reduz a luminosidade)

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/ceu-a-dois/

 

Não é porque (blog Estadão)

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Não é porque

Paulo Rosenbaum

07 junho 2016 | 12:19

Não é porque removemos o entulho que podemos aceitar tudo, não é porque fomos as ruas que nos submeteremos à qualquer faixa, não é porque o crime compensa que nos tornaremos cúmplices, não é porque o progressismo falhou que seremos adeptos do atraso, não é porque a vigilância está mais atenta que aceitaremos o Estado Policial, não é porque a contaminação é geral que a infecção é a mesma, não é porque estamos em casa que as ruas não podem reaparecer, não é porque quem deveria nos representar falha, que a representação faliu, não é porque estamos sem uma boia intacta que usaremos o penúltimo prego, não é porque eles tem foro privilegiado que a maioria merece injustiça, não é porque as indicações foram feitas que a contabilidade de favores pode persistir, não é porque o Poder nos insulta que precisamos recusar a governabilidade, não é porque eles são nacional-desenvolvimentistas que estão errados, não é porque persistem na seletividade dos alvos que aceitaremos tiro ao alvo, não é porque eles foram grampeados que todos nós recusaremos garantias de privacidade, não é porque elegemos heróis que nos cegaremos ao narcisismo, não é porque temos paciência que o inflamação não cresce, não é porque desejamos paz que abandonaremos os motins, não é porque empobrecemos que a dignidade passou a ser um luxo, não é porque perdemos a inocência que hostilizaremos a pureza, não é porque as prisões pululam que teremos equidade, não é porque estamos confusos que não reparamos nas cores, não é porque a corte é soberana que aceitaremos absolutismos, não é porque naturaliza-se a exceção que ela deixa de ser selvagem, não é porque falta civilidade que a cidadania está perdida, não é porque o outono se prolonga que o inverno será relapso, não é porque enxergamos a insanidade que perderemos a lucidez, não é porque estamos aflitos que cassarão nossa voz, não é porque a espiritualidade se desorganizou que submergiremos na matéria, não é porque tudo foi se concentrando que a distribuição será barrada, não é porque os bolsos da pessoa física não se encheram que usurpar o Estado deixou de ser hediondo, não é porque estamos quase paralisados que esgotamos a vitalidade, não é porque preferimos a tolerância que não seremos contundentes, não é porque quem obstaculiza a justiça é quem deveria promove-la que o delito prescreve, não é porque um timing se impôs que ele veio na hora certa, não é porque sou eu quem digo que todos os demais não possam sentir de forma semelhante, não é porque as crianças estão sem infância que nós temos o monopólio da maturidade, não é porque a anomia chegou que não precisamos de parâmetros, não é porque a justiça social se arrasta que ela não avança, não é porque a compassividade nos inunda que a parcialidade pode prevalecer, não é porque podemos entender as motivações dos perversos que eles devem ser tomados como vitimas, não é porque nossa passividade é ancestral que as paixões foram extintas.

E por que ainda estamos aqui, e não lá fora, para berrar não?

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/nao-e-porque/

Resenha de “Céu Subterrâneo”por Lyslei Nascimento – Revista Maraavi Nascimento publicado na revista Maar

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ROSENBAUM, Paulo. Céu subterrâneo. São Paulo: Perspectiva, 2016. 254p. Da escrita e da arqueologia, modernidade em ruínas
Lyslei Nascimento*

O romance Céu subterrâneo, de Paulo Rosenbaum, surge em um tempo em que o leitor já não cultiva o que não pode ser abreviado. No entanto, amante das grandes narrativas, como se pode constatar desde A verdade lançada ao solo, de 2010, o escritor, ao tentar realizar uma síntese impossível do céu – as coisas do alto, como a espiritualidade – e as subterrâneas – não somente as coisas terrenas, mas aquelas que estariam abaixo nível do chão, como a memória e a identidade – inscreve-se numa poderosa tradição de romancistas como Umberto Eco e Salman Rushdie.

Esses escritores se esmeram em construir suas tramas a partir do que Italo Calvino chamou de hiperromance ou romance enciclopédico, uma narrativa marcada pela tensão entre o peso e a leveza, a exatidão e a multiplicidade. Na contramão do desejo de brevidade, eles oferecem ao leitor uma narrativa densa, cheia de camadas, idas e vindas, jogos temporais e espaciais, intertextos sofisticados, buscas quase infinitas de duplos e fantasmagorias, além de uma concepção fundamental da literatura como conhecimento. O convite à leitura é, portanto, nesses autores, um desafio à viagem, à investigação.

Na trama de Rosenbaum, um escritor viaja para Israel em busca de si, de sua inscrição numa tradição da qual ele acredita ser “desafilhado”. Por isso, não é só um ponto de vista que é sugerido pela expressão paradoxal “céu subterrâneo”, mas também um jogo entre o fora e o dentro, a exclusão e a inclusão, que está em perspectiva. O que se percebe, nesse sentido, é que a narrativa vai se adensando e um enigma precisa ser decifrado pelo personagem e pelo leitor, que se veem diante de um labirinto, com suas ruas e ruelas, falsas entradas e ilusórias saídas – tudo muito bem arquitetado para fazer perder tanto o personagem quanto o leitor. Decifrar ou ser devorado parece ser o que, irremediavelmente, impele o protagonista, “o estranho que se estranha”, para o que seria a sua busca pela verdade, pela resolução do que a ele, e ao leitor, se impõe como um problema, real ou psicológico. Inquérito e investigação, em construções análogas as de Edgar

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Alan Poe, a concepção do amigo Assis Beiras, faz lembrar Conan Doyle com o célebre parceiro de Sherlock Holmes: um Dr. Watson tropical. Escavando e recordando, como queria Walter Benjamin, as referências à narrativa de enigma e de investigação policial não são gratuitas. Torna se, assim, o narrador o investigador de si mesmo, de suas origens, e o leitor o seu cúmplice.

O que Adam Mondale deseja em sua tentativa de desvendar um passado ancestral judaico e, é preciso dizer, coletivo? Desentranhar se ou ali se inscrever, de forma singular? A sua busca de uma imagem da sepultura de Adão, o homem primordial, não é banal ou retórica, mas se dá a partir de leituras e releituras, de livros, de imagens, de tradições que vão desarmando interpretações cristalizadas e armando outras, mais precárias, porém sutis. Nesse sentido, o romance trata de coisas desaparecidas, ou soterradas, e das inexistentes, ou imaginárias.

A referência a um código pictórico, como o Jardim das delícias terrenas, de Hieronymus Bosch, por exemplo, e fotográfico, como o negativo da Polaroide encontrado e seu correspondente holograma, são explorados no uso de um vocabulário ambíguo, que pode ser tomado em vários sentidos. Desse modo, revelação, iluminação ou negativo são termos que podem ser levados às últimas consequências interpretativas. Assim, a fotografia, que poderia ser uma prova de realidade, e a busca que o narrador realiza, são postas em xeque, fazendo surgir sombras ou delírios, tudo muito bem entretecido com reflexões pungentes sobre a escrita e dilemas de um escritor na contemporaneidade.

Quase como um místico à deriva, ou um voyeur, numa irônica condição de sofrer de uma doença nos olhos, cuja “córnea é riscada”, prejudicando lhe a visão perfeita, destaca se o caráter de colecionador de câmeras e filmes antigos (marcando o que seria a modernidade em ruínas) e as múltiplas facetas do personagem como professor, psicólogo, fotógrafo e detetive (buscando apreender a fugidia condição do escritor pós moderno). O texto aponta para o que, em certa medida, Ricardo Piglia afirmou sobre a escrita atual: o gênero policial, em todos os seus desdobramentos, é o grande gênero moderno que inunda o mundo contemporâneo.

Narra se uma viagem ou um crime. Que outra coisa se pode narrar? . Às vezes, as duas coisas, é preciso ressaltar. Sob essa dupla sentença, Piglia parece refletir sobre as estratégias de construção textual presentes no romance de Rosenbaum. Sobreposta à viagem a Israel, e, em Israel, a viagem a Hebron, além da busca pela

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fotografia que desvelaria o segredo, a metáfora da arqueologia traduz, de forma contundente, a investigação que o protagonista realiza de si e do outro, espelhando, com requinte, a estrutura narrativa do romance.

A partir de um negativo fotográfico encontrado na Caverna dos Patriarcas, a Gruta de Macpelá, o narrador sai a campo em investigação. O complexo, localizado na antiga cidade de Hebron, depois do Monte do Templo, é o segundo local mais sagrado para os judeus e venerado, também, por cristãos e muçulmanos. Todos eles, com algumas variações, afirmam que é o lugar onde foram enterrados os quatro casais bíblicos, daí o nome “Macpelá” ser uma referência à câmara de sepultamento desses casais, ou seja, a caverna dos túmulos dos casais: Adão e Eva; Abraão e Sara; Isaque e Rebeca, Jacó e Lea.

As cidades de Rosenbaum, tal qual as de Cidades invisíveis, de Italo Calvino, aparecem especulares, refletidas, em dupla exposição, sendo atravessadas pelo narrador, com seu olhar avariado, diluindo as fronteiras, fazendo com que os limites sejam intercambiáveis. Jerusalém e Hebron prefigurariam, assim, espaços sagrados e profanos, espelhamentos de textos que são desfolhados ou revelados em suas entranhas a partir de referências ao campo semântico da fotografia, da arqueologia e da narrativa de enigma.

O passado, as ruínas, os restos mortais são iluminados pela escrita e pela investigação, como uma prova, no tempo presente, de algo que só chega a ser minimamente delineado. —“Prova? Você agora está escavando?”, pergunta a esposa de Adam. —“Estamos pesquisando”, ele responde.

Ressalte se, nessa citação, que a pergunta se apresenta no singular, mas a resposta, apesar de só poder ser também nesse diapasão, porque não há, explicitamente, outra pessoa junto a Adam, acontece no plural. Essa configuração múltipla do personagem é dúbia e está explícita em suas muitas facetas, na complexa conformação de seus vários eus. Ou seja, esse personagem também se apresenta a partir de “camadas arqueológicas” da vida presente com as passadas, relações conflituosas com a culturas e a tradição judaica, angústias e influências de textos e imagens que leu e escreveu ou fotografou.

Evidentemente que a ideia de duplo, presente desde o título do romance, tem, no nome do narrador, Adam, espelhando sua busca por Adão, e Macpelá, o nome da gruta que sugere o túmulo dos casais, além das cidades de Hebron e Jerusalém –

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com suas ruínas e reconstruções trazidas à luz, por escavações – na arqueologia, sua metáfora mais instigante. Por intermédio da comparação do passado de uma cidade com o passado psíquico, Sigmund Freud, em O mal estar na cultura, reflete sobre o que o leitor pode analogamente vislumbrar na busca de Adam em Céu subterrâneo. Em vez de Roma, a cidade que insurge e ressurge do passado é Hebron, fazendo falar, a um só tempo, as vozes da tradição – de um tempo imemorial e mítico, que parece estar soterrado no passado – com índices do moderno e da contemporaneidade, como a fotografia, a computação gráfica, o holograma.

Céu subterrâneo, em níveis e desníveis, em estratos, espelhamentos, conformações e deformações, anseia que o leitor o atravesse, pari passu com o narrador. A busca obsessiva de Adam “pelo negativo” de uma imagem que todos julgam perdida, no entanto, não é vã. O leitor deverá acompanhá lo por cidades e grutas, da superfície para o interior, num espaço labiríntico. Sem esquecer, todavia, que escavar se é, também, ferir se, e que quanto mais profunda a incursão na memória ancestral, mais ele pode se elevar, para, na superfície, respirar e sobreviver.

* Lyslei Nascimento é Professora Associada na Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais, coordenadora do Núcleo de Estudos Judaicos e bolsista de produtividade do CNPQ.

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