Indócil liberdade

Paulo Rosenbaum

29 junho 2016 | 16:11

“Constranger: as três primeiras acepções. 1. compelir, (à cabralina, braço forte, sob pretexto, contra a vontade)  2. restringir (inibição, restrição, refreio, percluso, coibitivo) 3. acanhamento. (modéstia, comedimento, humildade, arder o pejo nas faces pudibundas, envergonhar-se, atomatar-se, ficar cor de pimentão, desprezar a popularidade)”

Quer saber notícias? Elas não são boas. Isso é, conforme a versão. Há uma espécie de adição química as versões. Vão sempre depender do que você quer olhar. As análises tem um único mas gravíssimo defeito, os analistas. Todas estas consequências se devem à causa? Mas que causa é essa perguntou um estudante? Aquela que só nos inclui nas vicissitudes? Aquela em que o público e o privado, emaranhados, estão dando nós?  Estamos cheios de razão, assim como cheios de versões para dar. Mas haveria um suporte unívoco para explicar o quadro? Algum aparato humano que nos aproximasse — por convicção ou exaustão — de uma versão menos viciada, menos cheia de nós mesmos? Haveria uma interpretação cuja neutralidade fosse tão intensa que a transparência de sua índole bastasse?  Alguma que nos trouxesse a verdade? Ah perdão. Já ia me esquecendo. Não há mais verdade alguma. Ou, melhor, ela está onde ninguém ousa pisar. Em nossos tempos a relativização transcendeu Einstein. Um ativismo relativador pronunciou seu veredito: nada pode ser considerado como vero. No máximo verossimilhante. Nenhuma boca pode ser considerada pura.? E, já que não há mais verdade (e pelo visto, nem mesmo critérios jurisprudenciais respeitáveis) podemos nos considerar liberados. Livres para opinar. E quando opino o que me concedem não é só a liberdade poética para tecer uma tese como expor todos meus nervos impregnados com o cinismo da incerteza. Este que vemos em declarações sucessivas depois das denuncias. Este, quando, às vezes pode-se ouvir no final dos noticiários: “nossa produção tentou, mas não conseguimos contato”. Estaremos naquele denial de proporções patológicas, geralmente profetizado e reservado para final de ciclos?

E, de quem estamos afinal falando? Deve, tem que haver, algum consenso mínimo que nos permita dizer quem são eles. De qual material são compostos? Ferro e aço? Serão autônomos que servem à revolução. Que nos execram, digo, nós a sociedade, os chupins aposentados da Nação?  Poderia usar a ironia, mas me assusto com as possibilidades de que estejamos tangenciando a verdade. Os que desinformam, os que violam, aqueles que, ao enunciar diálogo, decretam as conversas? Talvez o tempo tenha escolhido outro ritmo. Talvez nem mesmo o senso comum nos recoloque em acordo. Acordos pressupõem deposição das armas, e, como se sabe, espíritos customizados não se movimentam. No País inaceitável defende-se atentados, impedir professores de exercer seus ofícios não é crime, e torcer pela falência do sistema é uma atividade docente. Quando reclamamos da anomia ninguém suspeitava que o contraponto seria um Estado Policial ou a volta do arbítrio. E ele voltou, pela porta lateral. Na mão de um único poder despejou-se a constituição.

A liberdade, esse bem máximo, pode ser um insulto do lado errado das grades. Mas, mesmo assim, estão a nos persuadir diariamente: as instituições funcionam, o País goza da mais perfeita normalidade, as leis observadas. De um telescópio, em Órion. Eis que viola-se mais do que uma constituição por dia. Mas há algo neles muito mais imperdoável que tudo: nos fazer colar na tela para torcer pelas prisões, debates estúpidos, mentiras de ocasião, propaganda enganosa, corporativismo, seleção de palavras vazias, calada da noite, cargos comissionados, cultura suspeita, gritos estudados, histeria no senado, mortes sem sentido, poesia rebaixada, manchetes encomendadas, balas extraviadas, dossiês cruzados, filas de pedintes, pais sem oficio e mães perdidas.

Ajudaria admitir que o Mal tem alguma existência real. E ele está solto. Não só fora das grades, mas cooptando vozes e ameaçando a liberdade de centenas de milhões. Já me belisquei para comprovar. Não é delírio, mas pode ser um conto do Machado de Assis. Está em “O Alienista”. Há ali algo que está muito perto de se cumprir, para bem além da metáfora. Estamos todos em cana para que um punhado deles usufrua o espaço, limpo de gente, desinfetado das vozes que se opõem, higienizado por leis autocráticas. É duro assumir, mas o País é um imenso constrangimento ilegal, o problema é que só alguns pedidos chegam às cortes. O desafio não é a inteligência, difícil mesmo é ser justo.

É aí que me levanto e me ponho a postos. Dá para sentir que tudo pode mudar. A liberdade é uma entidade apressada e pode se tornar indócil.  Precisamos esquecer que somos pacientes e convencer o carcereiro. Uma hora dessas ele esquece a chave na fechadura.

Indócil liberdade