Exílio como Ficção – Sócrates sem perguntas.

Do alto da acrópole o filósofo soube que a democracia também era uma ficção. E, entre a condenação à morte e o ostracismo foi para um canto qualquer em seu último dia vivo. Percebeu que sem nenhum discipulo podia respirar melhor. E respirou. Sem perguntar.

Por dias não tão cerebrais

Melhor ir logo dizendo que indo aos parques com crianças a mente precisa ser desligada.

Para fazer-se pura e simplesmente diversão é necessário abolir a autocritica e a critica.

Não há razão para rir. Mas rimos. E é essa desrazão que faz sentido.

Alguns dias.

Bolha de exesfera

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a película, brilha ativa, nativa,

e flutua com ar sem vínculo

para ir te dar

(sem um pingo)

e a ninguém mais

transparência desnuda

até a matéria resistente

pelo vento que carrega antes do estouro,

durou pouco, mas foi o mundo.

Filosofia para ninguém

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Posso ver (e nao pensem que desejo) como as coisas funcionam por aqui.

Funcionam para que fiquemos conformados e o conforto não é uma virtude. Dizem que devemos agradecer pelo dia a dia, e partilho desta expectativa.

Mas o que seria a vida sem filosofia?

Sócrates, Cícero e talvez Montaigne me dizem mais ou menos a mesma coisa: e se filosofar é aprender a morrer, como não filosofar?

Se tudo está certo — como reza a cartilha da conformidade opressiva — o que temos para fazer além de ser tele(sim, como em um vídeo sem volta)expectadores de uma realidade que passa a nossa frente?

Nosso dia a dia e nossas prioridades, o que fazemos com elas? Vale dizer delas?

Já falei para mim mesmo, advertencia mesmo:

“Por que ainda leio jornais?”

Talvez manter o New York Times ou o Herald Tribune (em papel por favor, há aberração em certas coisas — eu digo não às edições digitais, uma completa calamidade) só para ficar a par de alguma realidade internacional, mas, desgraçadamente, minto, sei que minto.

Minto para mim mesmo sabendo que não há realidade internacional nenhuma. A realidade é um artifício sem importância para quem não pode tolerar que a única realidade é a mediação que se faz através do mundo interno. A vida interior, esta entidade bastardizada pelos filmes superficiais, pelos manuais de auto-ajuda ou pela empolação sórdida da linguagem academica, é a única prova que a vida tem valor.

E o preço que se paga por essa negação crônica não é baixo.

Há uma fatura em trânsito, ainda que num tardo correio.

Neurociência e empáfia

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Milagre me lembra lágrima, ainda que a palavra nos remeta a outros significados etimológicos.

Sempre que um extraordinário acontece recomendamos a palavra. Mas qual a natureza do milagre?

Provavelmente mais banal do que supomos. A natureza do milagre á exatamente forçar-nos à curva do insondável e é exatamente isso que a finada pós-modernidade não permite.

É colocar-nos de frente com um avanço exagerado das técnicas, da confiança excessiva em um domínio frágil, senão perigoso, da própria natureza.

O milagre, neste sentido, é lugar comum, porque o comum é milagroso. Acontece bem na soleira das nossas portas. A respiração e as trocas gazosas são milagres que acontecem 31 vezes por minuto, a manutenção da temperatura corporal humana de 36,8 C (em média) mesmo quando há frio e calor excessivo também é um milagre. Os pequenos milagres tem uma constância absurda e é bom certa humildade para não atribuir tudo ao ocaso evolutivo.

Acreditemos ou não nele, a natureza do milagre é evidenciar o desafio. E o desafio não é só seguir adiante num mundo exagerado, com as tradições em frangalhos, todas elas.

O desafio é reconhecer a extensão da arrogância frente ao que não sabemos, enfrentar a extensão do incognoscível.

O homem pode produzir milagres e assim a ciência demonstra, o inconcebível é imaginar que o dominamos e que nós estamos no controle: sobrenatural empáfia.

Sempre me interessei por robôs mas também sempre lamentei que, pelo menos nas ficções, eles acabassem se insurgindo contra seus criadores. Não é só uma ética duvidosa, em uma palavra, ingratidão, esta das máquinas. É oportuno para mostrar que, como os velhos robôs, nós também podemos nos enganar.

Podemos até prescindir de uma autoria para o Cosmos e substituir todas elas por esse andróide mítico chamado técnica. Se é essa é a grande neurorrevolução, por favor me acordem quando tudo isso ficar um pouco mais interessante.

Tortura ainda

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Como nos torturamos todos os dias.

Não consigo parar de pensar que este é o pedágio. A taxa com que bi-tributamos a sociedade por nossos momentos de felicidade.

Mas a felicidade está ao alcançe de alguém?

Claro que está ao alcançe, só que ela não é encarnável. Ela pode ser pensada, não consegue ser vivida, sentida, experimentada.

— E por que?

Por isso! Parece que não nos torturamos o suficiente. Nos contaminamos com facilidade com as pequenas traições, com os desmandos mínimos, com a indiferença ativa dos amigos. E como não se deixar contaminar?

— Digam? Digam logo, como não se deixar contaminar?

Estamos imersos, submersos melhor, neste mundo de impressões sensíveis, de pequenas e incomodas rusgas que nos jogam aquele outro Universo. O Universo das relações.

— Mas há qualquer alternativa?

— Talvez não.

Mas como seria melhor entender que a salvação vêm de dentro. Só o mundo interior pode não nos deixar afogar nem nos deixar suspender com a atordoamento da fuga celíflua. Só ele pode deter a fuga da vida. Só ele pode nos deixar entrever uma vida realmente independente.

— Só Ele.

Mas é preciso conservar-se em órbita.

Amigos na rede ou, a farsa das faces.

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Não sei se minha impressão é correta, mas vejo a explosão da modalidade de amigos virtuais de forma pessimista.

Em primeiro lugar a forma como se comunicam é, no mínimo, estranha. O uso do que se chama de “redes sociais” mostra como estamos desesperados por contato. Mas qual é o tipo de contato que desejamos? Talvez o disponível. O único disponível. Com a sociedade nocauteada por esta mistura de carbohidratos e corrupção, ela precisa recorrer.

A falencia, relativamente recente, da vida social real, — e portanto da própria sociedade — as facilidades (e impermeabilidades) que a virtualidade proporciona vem substituindo a presença por meros espectros dessa presença. Não me refiro a todos os covardes que fazem comentários maldosos, espúrios, preconceituosos sob o anonimato e pseudonimos, para depois voltar para sua tocas de má consciência.

Enfoco os que, na impossibilidade de construirem uma vida social familiar ou temática por afinidades e empatias, se iludem à revelia (atenção este autor entende, admite e apoia a ilusão e os os sonhos e sabe, por experiência, que cair na irreal é vital). Isso significa que é uma ilusão sem compartilhamento. O problema todo é que a essencia dessa ilusão é precisamente estar imerso em uma multidão amorfa, sem face. Sem face, é preciso repetir. E repetir parece ser o núcleo duro desta ilusão. O desejo gregário é substituido por uma aproximação vicária, inconsistente.
— Quantos amigos voce formou recentemente?
— Quantas velhas e sólidas amizades voce trocou por letras solidificando-se no seu plasma, enquanto do outro lado voce não tinha ideia do cheiro, da pele, dos olhos. Céus, os olhos. Não, cameras não valem. E as vozes?
— Mas temos skype.
— Não, não vale.

Há um perigo grave, desapercebido, silencioso e brutal no mundo digital e nos espaços cibertecnos — e não, agora não estou com a sensação de que me engano. Somos uma geração de robôs latinos que ensinam seus filhos que na mesa vale ficar postando mensagens enquanto fingimos estar ouvindo o que os outros nos falam.

— E para quem voce escreve?

Provavelmente para ninguém. E eu sei. Sei que meu dilentantismo tem um preço. Mas é que sou consumista quando se trata de buscar ar.

Mal estar contemporâneo, drogas e a medicalização da vida

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Jornal do Brasil

18/06 às 21h15 – Atualizada em 18/06 às 21h29

Mal estar contemporâneo, drogas e a medicalização da vida

Jornal do Brasil

Paulo Rosenbaum

Pelos dados de estudos mundiais extraídos de pesquisas multicêntricas já vivemos uma pandemia global de adições dos mais variados gêneros. Em um canônico paper publicado na JAMA1 em 2000, já se mostrava a tendência que hoje se consolida. Só nos EUA calculava-se então em 67 bilhões de dólares os prejuízos à sociedade pelas adições e dependência de drogas, gerando criminalidade, absenteísmo, e mazelas circulares. Era o impacto econômico, e não as consequências sobre a vida dos sujeitos, que guiavam os Estados na construção de políticas públicas de saúde para combater as drogas. Somente no ano passado a “guerra às drogas” consumiu 100 bilhões de dólares da administração norte-americana. Conforme o debate foi apontando para a inviabilidade crônica de uma política exclusivamente baseada em ações repressivas o budget vêm se deslocando. A polêmica em torno da maconha pode ser emblemática, ainda que seja mera nota de rodapé se comparada ao tamanho do problema das drogas na sociedade contemporânea.

Ao estudar etimologicamente a palavra “droga” somos convidados a aceitar várias acepções. Isso amplia nossa capacidade de dialogar e enfocar melhor os problemas que temos pela frente. Droga, segundo Antenor Nascentes — vem do neerlandes droogen, “seco” ou mercadoria enxuta, do persa “darú”, medicina e do grego trochisckos “pílula”e ainda do eslavo dorg, caro. Com tamanha polissemia, não podemos mesmo querer que seja matéria simples. Droga é medicamento, droga é cara, droga gera dependência, droga ao mesmo tempo significa medicamento, veneno, tóxico ou bálsamo. No sentido mais convencional droga é entendida hoje como um recurso que a medicina e a ciência dispõem para melhorar, aliviar, paliar e curar pessoas de seus padecimentos físicos ou psíquicos. E a ciência contemporânea progrediu muito nas tentativas de encontrar substâncias mais eficientes e abrangentes. Mas eis um campo onde – para desespero dos estatísticos – as generalizações são temerárias. Não se pode falar em drogas boas ou más. O mesmo se refere aos alimentos, pois que somos extraordinariamente heterogêneos em todos os sentidos.

Siga o link para ler até o fim

http://www.jb.com.br/sociedade-aberta/noticias/2011/06/18/mal-estar-contemporaneo-drogas-e-a-medicalizacao-da-vida/

Prioridades

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Quais são nossas prioridades? Ou seria melhor dizer, quem são elas?

A pergunta já valeria uma reflexão.

Mas, aqui, como em qualquer rincão da Terra, não há tempo para reflexões. Estamos muito ocupados em listar as coisas que faremos nos próximos dias.

A agenda subjetiva, aquela da qual não há como se ocupar, estará, mais um vez, vazia.

Alguém poderá até conseguir, consultando o manual de auto-ajuda, citar suas prioridades, mas estas, assim que listadas, não valem mais.

Não sabemos delas. Este é o drama.

Todo drama.

Mal estar contemporâneo: notícias, diversão e indigestão sensorial I

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O número de fenômenos, diários, que nos deixam atônitos, beira o inacreditável. Reparem bem. Absolutamente. Começamos pela TV que destila, sob milhões de frequencias ondulatórias, suas imagens. O vídeo,(do grego – imagem) diferentemente da voz, tem um tipo de mensagem que nos impõe invasão.

Enquanto a voz e a leitura conversam, o video penetra. Enquanto as primeiras são amigáveis, trazendo e provocando interlocutores, o outro impinge, faz correr em nossos vasos suas proposições opressoras. Tanto mais, quanto mais falta conteúdo. Por favor Senhor, traga-nos textos, dramas, conversas ou informações, mas please, com conteúdo. Nós, o povo, merecemos mais que robôs declamando textos, filtros editoriais superficiais ou poluição de imagens que, a titulo de nos colocar a par de tudo o tempo todo em prazos reais, esmagam nossos sonhos. Cair na irreal não só ajuda a recuperar o espírito, ela, a irrealidade, o torna mais apto, mais fluente, mais lúcido. O excesso de real entorpece, emudece e submerge a mente no circulo sem labirinto.

O pior é não percebermos esse soro moderno correndo em nós. É gravíssimo e perigoso, e o poros, comprometidos. De qualquer forma, tenham a paciencia para observar que, em um único telejornal — em sua formatação aparentemente entremeada com propagandas quando ele todo é formatado para propagandear — podemos testemunhar o mundo despencando.

Compreendo perfeitamente o que certa vez um paciente, sedentário convicto, me disse. Quando fez exercicios para controlar seus níveis exagerados de colesterol por conselho médico seu lipidograma teve expressiva piora. Intrigado, quis saber detalhes do paradoxo. Fui obrigado, me disse, a colocar a esteira na sala e fazia os exercícios vendo Jornal Nacional. Era destestável e eu praguejava contra aquelas informações, uma verdadeira tortura. Como se despertado pela nossa conversa, associou as duas coisas. Me limitei a fazer a expressão de cumplicidade neurótica.

Sim, as informações, as imagens, e o excesso de impressões podem nos afundar. Ninguém precisa ficar recluso em mosteiro de Montserrat para ficar livre disso. Basta encarar o bombardeamento de impressões a que somos submetidos por telas planas, monitores de plasma ou espelhos.

Sim , esse massacre tem um custo. E o preço pode ser o que venho chamando de indigestão sensorial. Esta espécie de “dispepsia subjetiva” acontece no dia a dia. Depende, claro da sensibilidade, do contexto, do momento de cada um. Mas ele está por ai. Por todos os lados. Sugiro que a cada 30 minutos de exposição a estes tsunamis digitais passivos tenhamos uma hora e meia de eliminações regulares. Desdobre-se para poder se expressar. Esvazie-se sempre. Aliás, esta é a verdadeira meditação. Melhor se for através de uma atividade criativa. Mas atenção: isso não significa erguer uma nação de artistas plásticos, apenas alimentar-se das delicadezas da consciencia.

Nunca é demais lembrar da máxima da literatura sapiencial oriental evocada por Borges: o “mal vem do mais”.