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O número de fenômenos, diários, que nos deixam atônitos, beira o inacreditável. Reparem bem. Absolutamente. Começamos pela TV que destila, sob milhões de frequencias ondulatórias, suas imagens. O vídeo,(do grego – imagem) diferentemente da voz, tem um tipo de mensagem que nos impõe invasão.

Enquanto a voz e a leitura conversam, o video penetra. Enquanto as primeiras são amigáveis, trazendo e provocando interlocutores, o outro impinge, faz correr em nossos vasos suas proposições opressoras. Tanto mais, quanto mais falta conteúdo. Por favor Senhor, traga-nos textos, dramas, conversas ou informações, mas please, com conteúdo. Nós, o povo, merecemos mais que robôs declamando textos, filtros editoriais superficiais ou poluição de imagens que, a titulo de nos colocar a par de tudo o tempo todo em prazos reais, esmagam nossos sonhos. Cair na irreal não só ajuda a recuperar o espírito, ela, a irrealidade, o torna mais apto, mais fluente, mais lúcido. O excesso de real entorpece, emudece e submerge a mente no circulo sem labirinto.

O pior é não percebermos esse soro moderno correndo em nós. É gravíssimo e perigoso, e o poros, comprometidos. De qualquer forma, tenham a paciencia para observar que, em um único telejornal — em sua formatação aparentemente entremeada com propagandas quando ele todo é formatado para propagandear — podemos testemunhar o mundo despencando.

Compreendo perfeitamente o que certa vez um paciente, sedentário convicto, me disse. Quando fez exercicios para controlar seus níveis exagerados de colesterol por conselho médico seu lipidograma teve expressiva piora. Intrigado, quis saber detalhes do paradoxo. Fui obrigado, me disse, a colocar a esteira na sala e fazia os exercícios vendo Jornal Nacional. Era destestável e eu praguejava contra aquelas informações, uma verdadeira tortura. Como se despertado pela nossa conversa, associou as duas coisas. Me limitei a fazer a expressão de cumplicidade neurótica.

Sim, as informações, as imagens, e o excesso de impressões podem nos afundar. Ninguém precisa ficar recluso em mosteiro de Montserrat para ficar livre disso. Basta encarar o bombardeamento de impressões a que somos submetidos por telas planas, monitores de plasma ou espelhos.

Sim , esse massacre tem um custo. E o preço pode ser o que venho chamando de indigestão sensorial. Esta espécie de “dispepsia subjetiva” acontece no dia a dia. Depende, claro da sensibilidade, do contexto, do momento de cada um. Mas ele está por ai. Por todos os lados. Sugiro que a cada 30 minutos de exposição a estes tsunamis digitais passivos tenhamos uma hora e meia de eliminações regulares. Desdobre-se para poder se expressar. Esvazie-se sempre. Aliás, esta é a verdadeira meditação. Melhor se for através de uma atividade criativa. Mas atenção: isso não significa erguer uma nação de artistas plásticos, apenas alimentar-se das delicadezas da consciencia.

Nunca é demais lembrar da máxima da literatura sapiencial oriental evocada por Borges: o “mal vem do mais”.