• Uma entrevista sobre Verdades e Solos
  • Resenha de “Céu Subterrâneo” no Jornal da USP
  • A verdade lançada ao solo, de Paulo Rosenbaum. Rio de Janeiro: Editora Record, 2010. Por Regina Igel / University of Maryland, College Park
  • Resenha de “Céu Subterrâneo” por Reuven Faingold (Estadão)
  • Escritor de deserto – Céu Subterrâneo (Estadão)
  • A inconcebível Jerusalém (Estadão)
  • O midrash brasileiro “Céu subterrâneo”[1], o sefer de “A Verdade ao Solo” e o reino das diáforas de “A Pele que nos Divide”.(Blog Estadão)

Paulo Rosenbaum

~ Escritor e Médico Writer and physician

Paulo Rosenbaum

Arquivos de Categoria: Imprensa

Somos os outros (blog Estadão)

12 segunda-feira jan 2015

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos, Imprensa, Na Mídia

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autocracias, emancipação, fusão de horizontes, hermeneutica, os outros, segunda guerra mundial, somos os outros, Stefan Zweig, Umberto Eco, unidade da Europa, valores ocidentais, Victor Hugo

Somos os outros

Paulo Rosenbaum

11 janeiro 2015 | 13:27

MarchaParis 

Para o escritor Victor Hugo, o valor mais importante da democracia é a solidariedade, e acabamos de testemunhar a maior manifestação desde o fim da segunda guerra mundial.  A avaliação histórica é retrospectiva, mas é muito provável que o futuro da Europa, e do mundo, pode estar sendo delineado nestes passos. E não é só pela “Marcha da Unidade”, é pela súbita e inesperada aglutinação de perspectivas. Políticos e povo na praça da República realinharam expectativas. Não é pouco. O símbolo é emocionante, independentemente do resultado concreto, esse já é um fenômeno enigmático. A diversidade, quando resolve se expressar é uma dessas raras forças com potencial para inibir o sectarismo fanático. A loucura será a utopia de uma Europa de fato reunida. Talvez nos termos do artigo de Stefan Zweig  “Da unidade Espiritual da Europa” publicado em 1942. Uma moeda comum, a abolição das fronteiras e a liberdade comercial pode não ter sido o suficiente para alinhar o sonho, um espírito de unidade para o continente.

É preciso ir além da festa da caminhada, da paz fugaz, do momento único. A solução é a aceitação incondicional da emancipação em meio a uma sociedade que se imagina homogênea. A unidade preciso reconhecer a heterogeneidade, inclusive a sectária. Todos os slogans “eu sou” desaguam num leito único, aquele que superaria as aporias, mudaria a vida, intensificaria a civilização para bem além dos valores ocidentais.

Aqueles que querem viver em liberdade e prezam a paz são maioria. Mas como lidar com minorias que usam as concessões das sociedades abertas para bloqueá-las? Que, através da manipulação e da espada, conseguem inclusive interferir nos resultados eleitorais? Como se resolve a preservação dos direitos civis e a questão da vigilância durante a vigência de uma guerra? Pois há uma em curso, como reconheceu o premier francês. Umberto Eco acaba de escrever que “O estado islâmico é uma nova forma de nazismo”. Subestimar a ameaça por considerações vagas, medo ou correção política também merece revisão. A mesma voz que condena a islamofobia, o antissemitismo e todas as formas de racismo precisa reafirmar, ao mesmo tempo, sua objeção ao renascimento do fascismo, religioso ou laico.

Como um estranho rio que brota do deserto, o dia nasceu com força inusitada. A energia é afetiva. “Eu posso ser o outro”, uma espécie de ápice da manifestação solidária. Mesmo que nem todos estejam conscientes da profundidade, sua penetração é infiltrativa, abrangente, difusa. A assunção de que também somos os outros, significa recusar qualquer forma de tirania, de Estado autocrático, de minorias violentas. É provável que não dure, mas, num mundo até ontem inflexível, é possível que a tragédia tenha criado uma oportunidade única:  juntar cidadãos numa inédita fusão de horizontes.

Tags: fusão de horizontes, Marcha da Unidade, Paris, somos os outros, Stephan Zweig, Umberto Eco

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Somos todos judeus?

09 sexta-feira jan 2015

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos, Imprensa, Na Mídia

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conflito armado, liberdade de expressão, lobos solitários, passado colonial, somos todos judeus?

Somos todos judeus?

Paulo Rosenbaum

09 janeiro 2015 | 15:52

supermassacre

Escrevo sob forte emoção. Sim, agora está confirmado. Era mesmo o supermercado kosher, judaico, e agora me dizem, a inteligência confessou: não existem lobos solitários. Quatro ficaram sem vida. Deve ser porque alcateias separadas agem melhor. E me pergunto, partilhamos o mesmo mundo? E alguém, por favor responda, qual mundo considera recuperável pessoas que usam sua liberdade para eliminar a dos demais? Então é uma guerra, conflito armado. Neste caso como responsabilizar a omissão do Estado?  Já não era uma tragédia anunciada? Esta já passou, a próxima? Como se elegem alvos? Quanto tempo demora para se reconhecer que uma epidemia de terror não é só evento mimético?

Ocultos ou não em suas consciências, há quem entenda perfeitamente o que se passa. Agora que não é a liberdade de expressão, seria o que? Supressão dos outros. Era para ser assim? Como se identifica o terror? Desconfio que se considerem seres especiais. Ele perguntou na porta da mercearia judaica “você sabe quem eu sou, não?”. Não, não sabemos? Provocar a morte é tomada como passe livre para um mundo melhor. E quem vos ensinou isso? Nenhuma religião ensina ou não deveria ensinar. Os meus amigos acadêmicos acabam de me dizer que a culpa é da xenofobia, do passado colonial, das guerras inacabadas, da culpa judaica. Não discordo completamente, mas, no caso judaico, qual seria a culpa? A ancestral, a atual, a futura? Israel? Em disfarce, um justificacionismo intelectual vergonhoso. O alinhamento ideológico com a barbárie, ainda que atenuado por interpretações históricas criativas.

O discurso do ódio e o incitamento – ativo ou passivo — parece ter uma só direção e ele não conhece ascendência, descendência, idade ou classe social. Trata-se de um mundo forjado no triunfo, disso já sabíamos. Mas há algo novo aqui. E isso explica a perplexidade. Desconhecíamos um princípio narcísico de morte. Por quem serão lembrados? Pela auto extinção? O heroísmo tem enfim novo perfil. Valores como covardia e perversidade são valores neutros, interpretados como parte do martírio exigido. A mancha biográfica transforma-se em distinção. Entre milhões pacíficos eles e seus incontáveis cúmplices e coautores coroam-se como os novos ícones.

Você ainda quer explicar? Esqueça, e não me venha com mas, apesar de, ou considerando bem.

Falo, mas saibam que sou forçado à contenção. Em nossos dias, a sátira é perigosa, expor a injustiça pode virar crime e a espontaneidade pode custar caro. Pressinto que não deveria perguntar mas já que a verdade não pode conhecer prudência, – insisto.

E hoje, o mundo assumirá a próxima tarja?

 “somos todos judeus”.

Tags: lobos solitários, massacre no supermercado kosher, somos todos judeus?

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No futuro todo jornalista terá status de correspondente de guerra (blog Estadão)

07 quarta-feira jan 2015

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos, Imprensa, Na Mídia

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liberdade de expressão

necrologicodevalorXX

 

Ninguém quer falar, mas agora ela se foi. Um último suspiro. Foi hoje pela manhã. Não divulgaram, mas as tentativas de salva-la, não foram só inúteis: evidenciou toda doença e expôs a desproteção sob a qual vivia. O estado já era crítico, mas, sempre nos enganamos com a maquiagem e com as expressões suaves. A verdade é que esteve suprimida para não exaltar ainda mais seus sintomas. Mesmo assim, ninguém percebia bem a gravidade da sua situação. Andava doente, mas mantinha a cabeça erguida. Vinha reclamando da população. Num episódio célebre, notou pessoas se escondendo enquanto a mordaça estava sendo apertada contra sua boca. Com uma lesão na garganta não conseguia mais falar como antes. Enrouquecia todos os dias. Engasgava e precisava ter cuidado com as palavras. Mesmo assim, não faltou um só dia para voltar à carga. Se todos estão testemunhando por que não se manifestam? Nunca conseguiu compreender ou aceitar fingimento. A sociedade teria enfim aprendido a cegueira seletiva dos políticos? Chegou a considerar que vivíamos uma epidemia de estoicismo. Não ver ou se recusar a enxergar num mundo cada vez mais vigiado e controlado.

Os alertas iniciais foram dados, ela mesmo se encarregou de acenar. Valores democráticos são frágeis, e tem sempre gente tentada a regular, monitorar e todos sinônimos marotos para driblar a palavra “censura”, costumava dizer. Sem precisar forçar pendia ao bom humor. Tudo era natural nela: a risada, a ironia e a sátira sempre usadas para romper o clima pesado. Tudo se intensificava quando insistiam nas carrancas, lamentos e assuntos sérios. As vezes se questionava. Tinha o direito de ser provocadora? Talvez não, mas isso nunca a intimidava. Era obrigação ser careta? Conter-se na missão de opinar? Defendia-se afirmando o direito de interpretar as notícias e que ela mesma era o último valor pelo qual fazia sentido lutar. Mesmo sem aptidão para profeta, acabou gerando profecias.

Seu leitmotiv? Brincar com a seriedade. Colou na entrada da redação: quanto mais nos levarmos a sério, mais insanos nos tornamos”. Acusada de irreverente quando deparava com culturas menos liberais, escrevia em seu diário que “Minha exigência? A razão da minha existência? Instigar o raciocínio, a crítica, desafiar e informar sem deixar que nos intimidem”. Contam os mais velhos que, certa vez, cercada por intolerantes de todos os lados, e à beira de um linchamento, saiu-se com essa: “Vocês podem acabar me eliminando, mas se é verdade que os valores subjetivos não morrem, sou como o fantasma que assombra. Piadas em dobro reservadas para aqueles que me perseguem”.

Em meio aos milhares de escritos inacabados, acaba de ser encontrado ao lado do corpo, um estudo que ela, A Liberdade de Expressão, esboçou para o próprio epitáfio: “A realidade é absurda: divirtam-se”

Tags: fanatismo jihadico, liberdade de expressão, luto pelo massacre em Paris, necrologico para um valor subjetivo

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/no-futuro-todo-jornalista-tera-status-de-correspondente-de-guerra/

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Intuição para uma jovem democracia (blog Estadão)

05 segunda-feira jan 2015

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos, Imprensa, Na Mídia

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Estadão, FHC, intuição, intuição para uma jovem democracia, jovem democracia, sociedade multilateral

Intuição para uma jovem democracia

Paulo Rosenbaum

05 janeiro 2015 | 21:55

Nos dias turvos que atravessamos, o mais recente artigo de FHC no Estadão, atestou um raro exemplo de lucidez. Ao mesmo tempo, resta uma lacuna que mereceria ser melhor examinada. As sociedades contemporâneas emanam incontáveis matizes de ideários e crenças políticas. Em muitas análises de nossa esdrúxula situação, desaparecem as sutilezas dialéticas, e as nuances da diversidade se reduzem ao preto e branco. É como se os lados se limitassem à duas forças antagônicas, que, num contraponto tanto permanente como conveniente, lutam pelo poder.

Há sinais claros, na linguagem e nas narrativas, que comprovam a insuficiência da taxionomia esquerda – direita. A palavra centro, pervertida e esgarçada pelo fisiologismo de praxe, também deixou de ser relevante. Como se fosse razoável resumir à duas forças o que existe de vivo como protagonismo político no País. É necessário aceitar que nem todas as causas progressistas são justas e boa parte das conservadoras pode não fazer mais sentido. Não é preciso erudição sociológica para entender que é preciso assumir: falta à oposição a coragem de se declarar independente. Essa seria a grande novidade, o verdadeiramente contemporâneo sugerido pelo artigo do ex presidente.

Por outro lado, quem ousa não se alinhar a nenhum dos dois lados, está, automaticamente, sentenciado ao exílio. O exílio de filiação doutrinária, a orfandade intelectual. Esse grupo imenso — desconfio de significava parcela da população — vem sendo arrastado a um lugar sem nome: o limbo político. É como se por falta de pedigree, organização ou confissão doutrinária, não merecessem espaço, partido ou atenção por parte da classe política. São também ignorados por parte dos intelectuais que preferem sustentar seu status quo diante do poder.

Este lapso de nomenclatura não têm nada de fortuito. A desatenção significa condenar amplas parcelas da população à invisibilidade. Notem que, até hoje, as massas que acorreram às ruas em junho de 2013 não foram devidamente classificadas. Penetras nas teses sociopolíticas, os intrusos não estavam em nenhum script.

Trata-se, lá e agora, de uma multidão cada vez mais expressiva que pretende julgar o mérito das propostas e não de onde elas vêm ou qual viés doutrinário carregam. Portanto existe algo muito mais importante do que esquerda retrógrada e direita golpista. É neste entre, um interregno pouquíssimo explorado, que se encontra a maior parte de gente desencantada. Pessoas que demandam mudanças imediatas. Pessoas impacientes, sedentas por orientação e ações que interrompam o ciclo de desmandos e violações sistemáticas das regras do jogo. Podem ser exigentes e pragmáticas, mas isso não as transforma automaticamente em radicais não democratas. É compreensível que generalizem sua aversão aos políticos, pois são grupos não articulados, que operam na base da indignação sem foco. Aguardam Estadistas que tenham a maleabilidade para compreender que um mundo ideologicamente coeso tornou-se inviável, que a liberdade não pode ser negociada e que é preciso ocupar os espaços para evitar governos com perfil totalitário.

A sociedade multilateral intuiu o perigo. Ela mesma precisa usar as brechas do sistema político para preservar os direitos e obriga-los a descer à ação. Só uma força diagonal, que julgue ideias com autonomia e que não se comporte como bloco ideológico, partido hegemônico ou seita pode prover a união para tirar, enquanto é tempo, nossa jovem democracia do sufoco.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/intuicao-para-uma-jovem-democracia/

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Impopular populismo (blog Estadão)

02 sexta-feira jan 2015

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos, Imprensa, Na Mídia

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a posse, impopular populismo, populismo

Impopular populismo

Paulo Rosenbaum

02 janeiro 2015 | 18:38

 Impopularpopulismo

O que sabíamos? Que nada mudaria. Marasmo vicia. A esperança era de qualquer novidade. Uma surpresa. Criação de última hora. Um tirocínio desconcertante. A palavra bem colocada. A conciliação. Uma autocritica desenhada. Uma frase marcante. Abertura e distensão. Tergiversações inteligentes. Uma sequencia articulada. Meia dúzia de frases estimulantes. Algum momento especial. Estadista revelação. Qualquer insight pautado. Citação surpreendente. A transformação especial. Algum salto qualitativo. Elo, vínculo, conexão verbal.

O que se viu? Hiato absoluto. Litígio entre discurso e método. Neutralidade abusiva. Enfadonhas transmissões. Sínteses sem graça. A graxa da manipulação. Desforra mascarada. A injustiça justificada. O mau gosto. A República partidária. Sub representação do poder. Chantagem empossada. Corrosão de nomes. Vácuo na forma e conteúdo. Diluição da democracia. O mal estar velado. Presenças insossas. Protocolos surdos. A educação vituperada. Slogans bastardos. Refluxo estético. Fracasso da sinceridade. Sinais invertidos. Progresso retrógrado. Monótono carisma. Patética ética. Impopular populismo. Pactos inverossímeis. Cinismo midiático.

O que nos espera? Refluxo à vida privada. Mudar de canal. Ocupar vazios. Cultivar o ócio. Distrair-se com a oposição. Abandonar a análise. Fechar novas sínteses. Mudar de operadora. Dessintonizar a voz do Brasil. Pescar sem vara. Esquecer a seriedade. Tomar “abandonados à própria sorte” como virtude. Esperar as lesmas cruzarem o farol. Rir de si mesmo (deles, a quota se esgotou lá por abril). Blindar-se ao nosso modo. Buscar imunidade não parlamentar. Educar-se. Ajudar vizinhos. Esquecer bibliografias. Mexer na poupança. Não ser pego de surpresa. Evitar pronunciamentos oficiais. Escuta seletiva. Aceitar que nada está perdido. Concluir que, no final, termina bem. Nem sempre, e, pode demorar. Engolir a seco. Proteger-se sem farpas. Viajar sem avisar. Mudar sem mala. Abandonar-se às inconsequências. Mutação de sofrimento. Abandono dos sacrifícios. Rejeitar o penitencial. Esquecer de todas as prescrições, inclusive destas.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/impopular-populismo/

Tags: campanha eleitoral, impopular populismo, patética ética, posse, slogans

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O ano que não enxergamos (blog Estadão)

01 quinta-feira jan 2015

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos, Imprensa, Na Mídia

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alegrias imotivadas, felicidade indistinta, o ano que não enxergamos

 oanoquenãoenxergamos

01 janeiro 2015 | 00:42

Vida é clarão,

tempo não é excedente,

a passagem, ida permanente.

Frente à inércia, felicidade indistinta

alegrias imotivadas, navegação na desrazão.

Nas chantagens do poder,

A nostalgia não tem futuro,

E sob a curadoria do hoje,

só o instante é eminente.

A força do mundo é o agora

só por isso, a luta se sustenta,

a suavidade deixa de ser luxo,

para forjar o tempo,

no desejável extravio do momento.

Tags: ciclos de tempo, mudança de ano, o ano que não enxergamos

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/o-ano-que-nao-enxergamos/

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Árvores (blog Estadão)

29 segunda-feira dez 2014

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos, Imprensa, Na Mídia

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Adão, Amazônia, árvores, bioma, Boissier de Sauvages, conluio de raízes, conspiração vegetal, Lineu, Science magazine

emaranhado4

Nada nem ninguém me convence de que não está em curso um movimento oculto, silencioso, ardiloso, e, em franca expansão. Encontra apoio e expressão nos subsolos das grandes cidades. Aos olhos do senso comum, qualquer epidemia suicida é inapreensível. Um conluio de raízes então, inconcebível. E nenhuma delas era a árvore do conhecimento original.

Dados publicados na revista Science em 2013 estimam que só a Amazônia ainda contenha 390 bilhões delas (http://www.sciencemag.org/content/342/6156/1243092.abstract?sid=f7b609f7-5f22-4e50-9aac-0d332efae19b). Porém estes organismos representam não só a origem do saber no desafio do Adão voluntarioso, como seus frutos já renderam poesia, literatura e arte. Para além do caule da madeira, árvores foram usadas como modelos por cientistas. A partir delas, Lineu e Boissier de Sauvages, classificaram plantas e doenças, respectivamente. Genealogia, organogramas e complexos esquemas de decisão também se inspiraram nelas.

Eis que um dos símbolos da vida, vai agora sendo escoado à uma razão sem sentido, do descuido ao desmatamento. Está no ar. Desde então o clima entre nós e elas vem mudando. Podem confessar, já não é mais mesma coisa. Perto de uma delas, andando ou dirigindo, suspeitas, medo, algum pânico. Não foi só porque ainda ontem uma delas tirou a vida do ocupante de um táxi. Nem pela floresta de 300 troncos arrancados das ruas e parques por tempestades instantâneas. Também não se trata de atribuir características mágicas, exaltar poderes anímicos dos vegetais, nem de repetir a irritante mania dos documentaristas de antropomorfizar a natureza. É normal que qualquer onda de paixão – amorosa ou destrutiva – nos empurre à perplexidade. Mas, quando se trata da última causa remanescente decente, a preservação do bioma, a auto imolação coletiva destes seres com 2 ou mais séculos, comovem muito mais.

As árvores conspiram de noite, e ninguém pode confirmar se a auto imolação é crise de melancolia ou um movimento contra a racionalização da estupidez.

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Impresso (blog Estadão)

26 sexta-feira dez 2014

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos, Imprensa, Na Mídia

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11 dimensões, arte contemporânea, ataque ao limite bidimensional, blog conto de noticia, coacervado, impresso, impressora 4D, nanocordas

Impresso Impresso Paulo Rosenbaum 24 dezembro 2014 | 19:52

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Coincidencia ou não acordei pensando que nunca me acostumei com algumas idissincrasias da arte contemporânea. O ataque às telas concebido por artistas dos anos 60 queria desconstruir a bidimensionalidade nas artes. Hoje, sentado em frente à novíssima impressora, segui as instruções do manual. Tentei decodificar sensações, escrevi uma série de notas curtas. Inspirado na teoria de que vivemos não em três dimensões, mas em meio às nanocordas, segundo os físicos dispersas em onze dimensões. Decidi incluir aspectos da personalidade, fragmentos da memória, e milhares de imagens armazenadas. E, em meio a falta de um ruído cósmico de fundo, usei o monumental som da chuva. Registrei num único arquivo e mandei. Não era jato de tinta, laserjet, plotter nem 3D. Uma impressora 4D de última geração acabara de chegar. Presente inusitado, para que exatamente serviria aparato tão avançado para quem não é artista nem tem um comércio de variedades? Telefonei para agradecer ao doador e ouvi que estava “distribuindo para pessoas curiosas”. Escolhi a neutralidade para ouvir sua síntese: – Desenhe e introduza tudo que puder, misture bem e vamos ver o que sai. Prepare-se. Sem a menor paciência para mistérios já contabilizava como fracassada a experiencia do liquidificador digital metabolizando aquele coacervado subjetivo. Era só mais uma falsa promessa política da tecnologia redentora. Mesmo assim fiz. Coletei dados, misturei e joguei para o buffer. Imediatamente a impressora encrencou. Despluguei-a da corrente elétrica, mas a máquina parecia seguir seu curso de trabalho. Adormeci na mesa, e, as vezes, acordava com a emissão de um soluço. Atestar um fenômeno não é justifica-lo ou compreende-lo: acordei e o que vi pôs à prova meu ceticismo. Havia uma peça acabada. O objeto vibrava brilhante e vivo do lado de fora, na bandeja onde a máquina despejou sua confecção. Levantei abalado. O narcisismo não ofereceu resistencia à réplica e ajoelhei para examinar a peça. Eu estava impresso.

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O Viés (blog Estadão)

19 sexta-feira dez 2014

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos, Imprensa, Na Mídia

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ideologia e armadilha, O Viés, sistemas de notação

O viés

Paulo Rosenbaum

19 dezembro 2014 | 11:10

perspectiveXX

Em algum momento pode ter sido um recurso instrumental ímpar. Fui seu defensor intransigente. Militei a seu lado. Pesquisei para refazer os caminhos da compreensão que ela inspirava. Uma das conquistas da racionalidade contra as tentações obscurantistas. Mas, a hora chega para todos. É preciso admitir a derrota. Pode ser o único final possível quando o tudo truncado vai prevalecendo sobre a liberdade. Chega de ideologias! As análises, tomadas pelo fervor da convicção, política, religiosa, antirreligiosa, ética, estética e histórica são contagiosas. Texto e o contexto sofrem, esmagados pela pena prévia que descarregará na tinta da impressora. Ficamos sujeitos a acreditar em premissas da convicção alheia, sem que ao menos, tenham sido devidamente explicitadas.

Consideram a análise de alguém que – não importando o cenário real — avaliza todas as ações governamentais. Aquela que considera apenas contingencial, e, talvez, até mesmo justificável, que a partir da colonização partidária do Estado algum progresso tenha sido gerado. Vale também, ainda que menos, para quem não admite um pingo de valor nesta administração federal. Algum pingo há.

A análise ideológica, confundida com sistema de notação, submetida e gerada a partir destas convicções mereceria, em nome das boas normas acadêmicas, algum tipo de reserva editorial. Sugere-se “parte envolvida”, “conflito de interesse” ou apenas “cometi o voto crítico”. O problema ultrapassou a política, escapou para todas as praças. Na bolsa de ideias, a objetividade foi sequestrada pelo voluntarismo partisão. A crítica virou instrumento político. A análise morre quando não se pode sustentar a crítica sem sofrer a classificação padrão, aquela que cabe no refrão da desqualificação.

É verdade, partimos de um ponto, mas a análise profissional do ideólogo não parece ter conseguido, como pediu André Gide, esquecer de todos os livros (de preferência, depois de lidos). Foi substituída pela carta de intenção: só se finca o pé onde outros já pisaram. Pode ser mais fácil, mas exatamente por isso, ceifa a originalidade, essencial na leitura do mundo. As ideologias têm levado à escravidão de filiação política, bibliográfica, de nicho e de público alvo. O viés, no lugar de evitar a cumplicidade com quem mata pela causa ou com quem mata para bloquear a causa, impulsiona o crime intelectual: endosso da opressão.

Já que a análise contemporânea desceu a isso, voltar-se aos textos e recuperar a síntese pode ser — na mordacidade de Schopenhauer — uma forma de protestar contra tantas perucas autorais.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/o-vies/

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Devoradores de sentido (blog Estadão)

19 quarta-feira nov 2014

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos, Imprensa

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devoradores de sentido\, Freud, Montaigne

As vezes, é chegada a hora de admitir: temos que abandonar a busca de saídas. É que saídas são onerosas. Saídas são desgastantes. Já tivemos a quota de saídas heroicas, missionárias, messiânicas e totalizantes. Nada imobiliza mais do que tudo ou nada. Isso porque é mais provável que uma quimera anteceda uma solução. A democracia, assim como outros conceitos sofisticados apresenta couro grosso com telhado de cristal. Uma exigência mínima é que um governo assuma o ônus de governar. Sem isso, vivemos a corte grotesca com aval para desgostos. Há tanto para menear a cabeça e recusar que talvez nem seja mais o caso de acusar ou acumular ressentimentos.

Se é impossível colocar o senso comum no pódio é mais difícil que a filosofia dos neuroexperts deem conta da complexidade. Ela desconcerta. Vibra em cadeia. Bate na testa. Comanda um exército de erros de previsões. Desbanca os oráculos. Quebra a banca. Muda o tempo e desorienta para nos humilhar com suas inconstâncias e extravagâncias. O mundo tem menos guerras? Mata menos? A civilização avança? Para alivio de Freud o ancião mal estar na cultura, vem sendo, enfim, superado? Engraçado. Não é a sensação. As estatísticas precisam ouvir mais o sentido que os números. Da violência sectária do Oriente Médio, às incursões separatistas na Europa, dos flagelos contra a natureza às demandas crescentes de consumo, ficamos devendo. Eis que legiões de intelectuais validam o inescrupuloso. Estudantes de medicina, mimetizam, eles também, o exato oposto do cuidado. E o anti-cuidado não é só não cuidar, mas abuso, retrocesso, tortura e discurso justificacionista como técnicas de domínio.

Não faz sentido. Somos devedores de sentido. Nos tornamos devoradores de sentido. Não alcançamos mais sentido nos pequenos sentidos diários. Desprezamos um Montaigne por dia negando o seu “não te basta viver?”. Abominamos um Camus por semana, pois, de fato, o que significa ser feliz em meio à infelicidade coletiva? E quem no mundo de hoje autoriza digressões? Podemos nos dar ao luxo? Destas e de outras reflexões? Quando se percebe como cresce o húmus: totalitarismos, extremismos e califados. Nossas lágrimas são ladrões da dor. Vermelhas de intolerância. De rubras, foram às cinzas. Estamos, sem tirar nem por, no viés do mundo. Num interregno das passagens. Suspensos, não temos mais eixos e desandamos.

Agora nem se pode despejar mais nada nas costas das contradições do capitalismo. Trata-se de algo bem mais ordinário, em sua mais binária acepção. A esperança remanescente está na jactância do comum, no refluxo à vida privada, no calor de uma pequena infinitesimalidade de medida pessoal. Olhar e ver. Emprestar vozes. Somar pingos à tempestade. E ousar ser. Contra todas as revogações em contrário. Intensificar a ousadia quando te dizem que é perigoso. Quando a maioria já se rendeu. Manifestar-se quando todos já murcharam em suas rotinas. Esqueça quem só procura. Quem acha é quem tem a presunção do acerto, da vida não fracassada e da participação justa. E a honra de ter encontrado o que nunca imaginaria? Ninguém pode pedir que esqueçamos do mal feito, a crueldade, os perversos, e a violência ruidosa, mas vale recomendar: que não sejam tomados como a medida de todas as coisas. Aliás, de coisa nenhuma. Em desuso, a paz é o único ingrediente que neutraliza todos os outros.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/devoradores-de-sentido/

Tags: Albert Camus, democracia e telhado de cristal, devoradores de sentido, Freud, Montaigne

Paulo Rosenbaum
rosenbau@usp.br

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