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Somos todos judeus?

Paulo Rosenbaum

09 janeiro 2015 | 15:52

supermassacre

Escrevo sob forte emoção. Sim, agora está confirmado. Era mesmo o supermercado kosher, judaico, e agora me dizem, a inteligência confessou: não existem lobos solitários. Quatro ficaram sem vida. Deve ser porque alcateias separadas agem melhor. E me pergunto, partilhamos o mesmo mundo? E alguém, por favor responda, qual mundo considera recuperável pessoas que usam sua liberdade para eliminar a dos demais? Então é uma guerra, conflito armado. Neste caso como responsabilizar a omissão do Estado?  Já não era uma tragédia anunciada? Esta já passou, a próxima? Como se elegem alvos? Quanto tempo demora para se reconhecer que uma epidemia de terror não é só evento mimético?

Ocultos ou não em suas consciências, há quem entenda perfeitamente o que se passa. Agora que não é a liberdade de expressão, seria o que? Supressão dos outros. Era para ser assim? Como se identifica o terror? Desconfio que se considerem seres especiais. Ele perguntou na porta da mercearia judaica “você sabe quem eu sou, não?”. Não, não sabemos? Provocar a morte é tomada como passe livre para um mundo melhor. E quem vos ensinou isso? Nenhuma religião ensina ou não deveria ensinar. Os meus amigos acadêmicos acabam de me dizer que a culpa é da xenofobia, do passado colonial, das guerras inacabadas, da culpa judaica. Não discordo completamente, mas, no caso judaico, qual seria a culpa? A ancestral, a atual, a futura? Israel? Em disfarce, um justificacionismo intelectual vergonhoso. O alinhamento ideológico com a barbárie, ainda que atenuado por interpretações históricas criativas.

O discurso do ódio e o incitamento – ativo ou passivo — parece ter uma só direção e ele não conhece ascendência, descendência, idade ou classe social. Trata-se de um mundo forjado no triunfo, disso já sabíamos. Mas há algo novo aqui. E isso explica a perplexidade. Desconhecíamos um princípio narcísico de morte. Por quem serão lembrados? Pela auto extinção? O heroísmo tem enfim novo perfil. Valores como covardia e perversidade são valores neutros, interpretados como parte do martírio exigido. A mancha biográfica transforma-se em distinção. Entre milhões pacíficos eles e seus incontáveis cúmplices e coautores coroam-se como os novos ícones.

Você ainda quer explicar? Esqueça, e não me venha com mas, apesar de, ou considerando bem.

Falo, mas saibam que sou forçado à contenção. Em nossos dias, a sátira é perigosa, expor a injustiça pode virar crime e a espontaneidade pode custar caro. Pressinto que não deveria perguntar mas já que a verdade não pode conhecer prudência, – insisto.

E hoje, o mundo assumirá a próxima tarja?

 “somos todos judeus”.