• Uma entrevista sobre Verdades e Solos
  • Resenha de “Céu Subterrâneo” no Jornal da USP
  • A verdade lançada ao solo, de Paulo Rosenbaum. Rio de Janeiro: Editora Record, 2010. Por Regina Igel / University of Maryland, College Park
  • Resenha de “Céu Subterrâneo” por Reuven Faingold (Estadão)
  • Escritor de deserto – Céu Subterrâneo (Estadão)
  • A inconcebível Jerusalém (Estadão)
  • O midrash brasileiro “Céu subterrâneo”[1], o sefer de “A Verdade ao Solo” e o reino das diáforas de “A Pele que nos Divide”.(Blog Estadão)

Paulo Rosenbaum

~ Escritor e Médico Writer and physician

Paulo Rosenbaum

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Indócil Liberdade (blog Estadão)

29 quarta-feira jun 2016

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Indócil liberdade

Paulo Rosenbaum

29 junho 2016 | 16:11

“Constranger: as três primeiras acepções. 1. compelir, (à cabralina, braço forte, sob pretexto, contra a vontade)  2. restringir (inibição, restrição, refreio, percluso, coibitivo) 3. acanhamento. (modéstia, comedimento, humildade, arder o pejo nas faces pudibundas, envergonhar-se, atomatar-se, ficar cor de pimentão, desprezar a popularidade)”

Quer saber notícias? Elas não são boas. Isso é, conforme a versão. Há uma espécie de adição química as versões. Vão sempre depender do que você quer olhar. As análises tem um único mas gravíssimo defeito, os analistas. Todas estas consequências se devem à causa? Mas que causa é essa perguntou um estudante? Aquela que só nos inclui nas vicissitudes? Aquela em que o público e o privado, emaranhados, estão dando nós?  Estamos cheios de razão, assim como cheios de versões para dar. Mas haveria um suporte unívoco para explicar o quadro? Algum aparato humano que nos aproximasse — por convicção ou exaustão — de uma versão menos viciada, menos cheia de nós mesmos? Haveria uma interpretação cuja neutralidade fosse tão intensa que a transparência de sua índole bastasse?  Alguma que nos trouxesse a verdade? Ah perdão. Já ia me esquecendo. Não há mais verdade alguma. Ou, melhor, ela está onde ninguém ousa pisar. Em nossos tempos a relativização transcendeu Einstein. Um ativismo relativador pronunciou seu veredito: nada pode ser considerado como vero. No máximo verossimilhante. Nenhuma boca pode ser considerada pura.? E, já que não há mais verdade (e pelo visto, nem mesmo critérios jurisprudenciais respeitáveis) podemos nos considerar liberados. Livres para opinar. E quando opino o que me concedem não é só a liberdade poética para tecer uma tese como expor todos meus nervos impregnados com o cinismo da incerteza. Este que vemos em declarações sucessivas depois das denuncias. Este, quando, às vezes pode-se ouvir no final dos noticiários: “nossa produção tentou, mas não conseguimos contato”. Estaremos naquele denial de proporções patológicas, geralmente profetizado e reservado para final de ciclos?

E, de quem estamos afinal falando? Deve, tem que haver, algum consenso mínimo que nos permita dizer quem são eles. De qual material são compostos? Ferro e aço? Serão autônomos que servem à revolução. Que nos execram, digo, nós a sociedade, os chupins aposentados da Nação?  Poderia usar a ironia, mas me assusto com as possibilidades de que estejamos tangenciando a verdade. Os que desinformam, os que violam, aqueles que, ao enunciar diálogo, decretam as conversas? Talvez o tempo tenha escolhido outro ritmo. Talvez nem mesmo o senso comum nos recoloque em acordo. Acordos pressupõem deposição das armas, e, como se sabe, espíritos customizados não se movimentam. No País inaceitável defende-se atentados, impedir professores de exercer seus ofícios não é crime, e torcer pela falência do sistema é uma atividade docente. Quando reclamamos da anomia ninguém suspeitava que o contraponto seria um Estado Policial ou a volta do arbítrio. E ele voltou, pela porta lateral. Na mão de um único poder despejou-se a constituição.

A liberdade, esse bem máximo, pode ser um insulto do lado errado das grades. Mas, mesmo assim, estão a nos persuadir diariamente: as instituições funcionam, o País goza da mais perfeita normalidade, as leis observadas. De um telescópio, em Órion. Eis que viola-se mais do que uma constituição por dia. Mas há algo neles muito mais imperdoável que tudo: nos fazer colar na tela para torcer pelas prisões, debates estúpidos, mentiras de ocasião, propaganda enganosa, corporativismo, seleção de palavras vazias, calada da noite, cargos comissionados, cultura suspeita, gritos estudados, histeria no senado, mortes sem sentido, poesia rebaixada, manchetes encomendadas, balas extraviadas, dossiês cruzados, filas de pedintes, pais sem oficio e mães perdidas.

Ajudaria admitir que o Mal tem alguma existência real. E ele está solto. Não só fora das grades, mas cooptando vozes e ameaçando a liberdade de centenas de milhões. Já me belisquei para comprovar. Não é delírio, mas pode ser um conto do Machado de Assis. Está em “O Alienista”. Há ali algo que está muito perto de se cumprir, para bem além da metáfora. Estamos todos em cana para que um punhado deles usufrua o espaço, limpo de gente, desinfetado das vozes que se opõem, higienizado por leis autocráticas. É duro assumir, mas o País é um imenso constrangimento ilegal, o problema é que só alguns pedidos chegam às cortes. O desafio não é a inteligência, difícil mesmo é ser justo.

É aí que me levanto e me ponho a postos. Dá para sentir que tudo pode mudar. A liberdade é uma entidade apressada e pode se tornar indócil.  Precisamos esquecer que somos pacientes e convencer o carcereiro. Uma hora dessas ele esquece a chave na fechadura.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/indocil-liberdade/

Tags: “O Alienista”, blog conto de noticia, constrangimento ilegal, democracia, indócil liberdade, jogo democrático, lado errado das grades, Machado de Assis, o direito é justo?, o que é justo?, prisão e legalidade, timing da justiça

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Céu a Dois (Blog Estadão)

21 terça-feira jun 2016

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

≈ Deixe um comentário

Querida? Acorde!
Já está na hora?
Ainda não! Quase. Temos que sair daqui, lembra?
Mais 5 minutinhos.
Mas e o Jardim? Quem vai varrer?
Vai você!
Não fui eu que fiz a bobagem.
Tenho que explicar de novo? Vai dar tudo certo, confie em mim. Ele tinha um plano maior para nós.
Melhor ir logo. A arvore está perdendo folhas e o dia já está quase terminando.
Estava sonhando com flores e que um dia vamos saber como aproveitar este lugar.
O Jardim?
Virá com um código de instruções para que a gente e todos os descendentes vivam em paz.
Sério? Quando?
Não sei, mas foi uma promessa dele quando eu estava chorando e Ele veio me consolar.
O que Ele disse?
Que alguém iríamos ser libertados de nós mesmos.
Não faz muito sentido.
Seriam algumas Regras mínimas com valor máximo. No sonho alguém me dizia : “como a constituição americana”. Pequena mas está tudo lá, compactada nos contará a história do mundo, e nós, os personagens centrais. Tudo dependeria da gente. (o marido coça a nuca preocupado)
Do que exatamente você está falando?
Que vamos ter uma longa descendência e que, no fim, teremos paz. Lembra seu medo? Que surgissem facções, guerras tribais, que o pessoal desse errado na vida?
E como é que se evita isso?
O mundo vai substituir salvadores pessoa física, por consciência.  E depois de tudo nós seremos as mães de todos que vivem.
Mães?
Mães! Agora  posso dormir mais um pouco?
Ok, mas os figos do pomar estão caindo de maduros, eu se fosse você melhor você iria lá dar uma olhada.
Pronto, acordei? O que não se faz pelo Amor?
Temos que limpar isso, olha essa bagunça
Isso é justo?
Se não fizermos nada vamos atrair outra cobra.
Ai não. Tudo menos aquela jararaca.
Pois é, vamos à faxina.
E quem criou esse caos?
Pergunte para o teu chapa. Você fala com Ele todos os dias.
(olhar de desconfiança feminina)
Você reclama, mas sabe porque ele fala mais comigo do que com você, não sabe?
Por que?
Porque você veio depois dos mosquitos e Tem dias que você está se achando o rei da cocada preta. Já te falei, Ele não aprecia gente que fica se achando.

Vamos mulher! Pode se mexer?

Aff

Tá vendo?
Vendo o que?
Ficou brava sem motivo.
Pensa que é fácil?

Foi você quem começou.
DR hoje não por favor. Fica na sua que vou falar com Ele
Olha lá o que você vai dizer. Não me comprometa.
Você veio da terra, mas parece feito de porcelana.
(Desolado, o marido balança a cabeça)
Oh Altíssimo, não poderia ter me tirado do barro também? Por que não poderia também ter me modelado com argila? Com todo respeito não acho nada simpático ter vindo da costela dele.
(Marido faz olhar de reprovação e tenta dissuadi-la, pedindo silencio para a esposa)
Agora é que não fico quieta mesmo.
(Marido implora para que esposa pegue leve enquanto espreme as mãos)
Com toda a vênia Senhor, nós, mulheres, somos mais resistentes, amadurecemos mais rápido, temos que ser babás, companheiras, cozinheiras, auxiliar de finanças, promoters, conselheiras, mães (tinha mesmo que doer assim?) e mesmo com toda essa carga nós tínhamos que sair das costelas desse mimado barbudo?
(trovões simpáticos à causa)
Mulher, deu por hoje, dá para parar com isso?
(raios e trovões antipáticos, o Marido se recolhe no canto)
Obrigado Altíssimo, posso continuar?
Veja só, não acho justo ter levado toda a culpa. Eu amo esse homem e nem sei os motivos. Dizem que o Senhor inculcou o prazer nas espécies pela procriação, mas minha intuição não falha: é muito mais do que isso. Além disso, estou apaixonada. Um dia? Em homenagem ao dia se hoje vai haver um dia dos namorados?
(o Esposo não compreende as vozes que vem de cima) (A Esposa faz que sim com a cabeça)
Eu sei, eu sei!
Mas concorda? Segue dizendo a Esposa: nós é que levamos tudo nos ombros, eu diria o mundo nas costas. Se gostaria de ficar mais um pouco por aqui? Um pouco não, para sempre. Está brincando? Amo este lugar, temos absolutamente tudo. Mas o que posso fazer se a tal da árvore ensinou que precisamos de autonomia e que o mérito só pode estar na nossa escolha.
(vento forte e murmúrios de aprovação do céu)
O Senhor quer a lista escrita com todas as reivindicações? Olha, então vou falar com toda a humildade: eu quero que, no futuro, pode ser bem lá na frente, nós, mulheres, estejamos no comando.
Adão fala baixinho “Lá na frente? Até parece”
O que foi que você disse Querido?
Nada, bocejei.
Então, continuando, Altíssimo, queria que lá na frente depois que o Reino do Costelinha ai passasse, o Senhor nos desse uma chance, para eu e minha descendência.
Por exemplo? Deixar que uma nação justa seja comandada por uma mulher?
(O Marido pega no sono)
Altíssimo, adorei conhecer o futuro? O que mais?
Tem também más notícias? Povos que saíram de mim vai ser perseguidos e os outros vão se fingir de mortos? Mas o que é que é isso? Pode parar. Não quero mais saber. Não, sinto muito, mas não dá para ficar calminha com o que o Senhor acaba de me contar. E ainda nem me contou tudo? Faça-me o favor. E O Senhor não vai fazer nada a respeito? Melhor mudar de assunto. Ainda tenho esperanças que o Senhor tome providências. Vou entender um dia? Duvido.
Agora que o marido dormiu vou pedir as coisas mais delicadas. Senhor, com todo respeito: eles não poderiam ser mais limpinhos?
(Trovões de média severidade)
Ok, Ok, Ok, era pedir demais. Vou continuar então: Todo Poderoso, pode me fazer um favor extra? Pode ser? É o seguinte: Poderíamos nascer com menos preocupação com os filhos? Estou grávida não faz nem uma hora e já pensei na matrícula, no que vai ter no lanche, e na formatura na faculdade.

Isso tudo é a natureza feminina? Tudo bem então, só para o Senhor não sair dizendo por ai que nasci teimosa, essa vou ouvir e aceitar mesmo sem entender direito.

E o que mais mais? Ser curiosa assim também tem a ver com nossa natureza? Cientistas e mulheres são? Pode dizer o nome. Einstein. Nome difícil o que tem ele? Ah, ele vai ser sua testemunha. De que, posso perguntar? De que o Senhor não joga dados. Sempre soube, Altíssimo, eu via e comentava com o Esposo como era admirável seu Cuidado com as plantas e com os animais. O Senhor cuida ao mesmo tempo de todo Universo e ainda tem tempo para dar atenção individual para cada criatura? Como é que pode? Claro, só o Todo Poderoso. Não, não, nem sei o que é Corinthians, nem sei o que é time de futebol. O Senhor não vai me explicar? Ok,  não tenho muito interesse mesmo.
Posso continuar? O Senhor acha que eu falo muito não é? Mas já que isso é a minha natureza, deve ser para o bem. Certo?
(Risadas celestes múltiplas)

O que mais gosto em conversar com o Senhor é seu bom humor.

(sons de ruídos ásperos)

Agora que meu marido está roncando, — isso aí não dá para corrigir não? Sabe quanto tempo não prego olho?

(Gargalhadas celestes)

Desculpa Senhor, sei que se diverte com nossas bobagens, mas essa aqui não tem a menor graça. Já mandei ele ir dormir lá perto das goiabeiras. Foi ficando insuportável. O Senhor, aí no Infinito, não tem estes probleminhas, mas a mulher aqui tem que aguentar cada coisa que o Senhor nem pode imaginar. Ah, o Senhor também aguenta? Mas só para comparar: o Senhor é o Rei do Universo, eu sou a Escrava Galáctica do Lar, entende?

(mais risadas cósmicas)

Então me desculpe pelo desabafo. Aliás, me lembrei do bafo. Isso também poderia ser consertado?

Não acredito no que acabo de ouvir. O Senhor está me propondo que eu viva aqui sozinha? Nem pensar. Criar outra igualzinha a mim? Outra companheira para ele? Se chegar perto dele vai ter o que ela merece. De jeito nenhum. O Senhor não me entendeu direito. Não foi bem isso que eu tinha em mente. O que? Ele me diz exatamente a mesma coisa que o senhor acaba de falar: que reclamo e quando ele faz o que eu peço nunca acho que foi suficiente. O Senhor é conservador ou progressista?

(Trovões leves)

Eu sei, eu sei. Me perdoe. Tenho certeza que o Senhor é um juiz imparcial. É que pelo que ouço dizer do futuro, em muitos Países não vai ter toda essa equidade. O Senhor não tem partido? Nem eu, nenhum juiz, nem tribunal deveria ter. Concorda? Eu sabia, estamos do mesmo lado. Ok, sei que estou tomando seu tempo, mas agora estou para terminar.

Se quero outra pessoa? Nunca. Meu esposa é perfeito para mim. Nós nos entendemos em tudo, menos quando ele discorda de mim.

(risadas abafadas que escapam das nuvens)

Algum descendente nosso poderia escrever sobre o tamanho do nosso amor? O Senhor vai escalar um sábio para falar da primeira história de amor da humanidade? Que o maior mistério e o grande milagre é o amor entre um homem e uma mulher? Pode haver outros tipos? Qualquer forma de amor vale a pena? Para a redação vai chamar o maior de todos os autores? Salomão? Pode adiantar como é que vai se chamar o livro? Posso eu mesmo dar um nome? Deixe-me ver. Pode ser “Melodia de Amor?” Não, não, muito clichê. E que tal: “Céu a dois?”

(trovões serenos)

O que foi? O Senhor não gostou? Podem entender mal? Então que tal ficar “Cântico dos Cânticos”? Mas, por favor, registre que prefiro “Céu a dois”. Como? Tudo ai é registrado? Tudinho? Dá até um certo medo. Não, não sei o que é grampo. Está muito cedo para falar nisso e prefere fazer uma varredura antes? Está bem, eu aceito. Às vezes sou obediente, só ao Senhor, ok?

(pigarros angelicais)

No caso do Adão queria só pedir para o Criador dar umas últimas lapidadas extras.

Senhor? Posso continuar? Posso chamar você de Senhora? É que as vezes conversando com o marido eu acabei falando espontaneamente “Ela?”

(Sons indecifráveis)

Se sou feminista? Sou, e assumo. Pode escrever ai no seu registro geral : serei a primeira feminista. Se eu não for quem será? Se eu não for por mim quem no meu lugar? Mas é que também fica mais fácil para mim. Mas entendo. Deixa para lá, já me acostumei mesmo a chama-lo de Senhor.

Altíssimo, agora mudando de assunto podemos falar algumas palavras sobre estabilidade? O que eu mais tenho medo lá fora é de cair num desses lugares cheios de bagunça. Onde não existem regras. Onde tudo muda do dia para a noite. Onde não se pode confiar nas instituições. Sabe, tumulto político? Pode quebrar essa para nós? O Senhor faria isso pela gente? Esse aí nunca ouvi falar. Onde fica esse País? Lá mais ao Sul? Por tudo que o Senhor está me falando agora falta muito pouco para esse lugar ser um outro Paraíso. Ah, entendi, dizem que o Senhor nasceu lá? Brasileiro? Não brinca. Ah, claro, lá tudo é bom menos o que? O que é Planalto Central? Entendi, o lugar como um todo é muito legal, a natureza incrível, o povo Ok, mas tem este probleminha. Problemão? E essa aí também é uma mulher? De acordo, vamos tomar cuidado. Ah, mas mesmo lá vai melhorar? O Senhor vai interferir? Pessoalmente? Agradecida. Certeza que meus descendentes ficarão aliviados.

(Adão espreguiça)

Altíssimo, ele não é uma gracinha?

(olhares apaixonados)

Poderia viver com ele em qualquer lugar do Universo. Mas, por gentileza, pense com carinho nas reforminhas que pedi.

Querida? Adão murmura com a voz rouca.

Sim amor?

Faz uma massagem aqui por favor.

Onde?

Ai do lado. Isso ai mesmo. Não sei porque mas minhas costelas acordaram doloridas.
Fui dormir e acordei assim. Houve alguma coisa enquanto eu cochilava? Perdi algo?

Nada querido. Só roguei ao Altíssimo para dar uma melhorada na nossa situação.
Melhorada? Estamos no Paraíso. Se melhorar, estraga.

Eu sei querido, mas eu quero que tudo fique bem.

Minha rainha, de hoje em diante faço tudo o que você quiser.

(Eva pisca para o alto)

Valeu Senhor!

(Trovões se dissipando, o Altíssimo usa seu dimer e reduz a luminosidade)

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/ceu-a-dois/

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Estado a sério – Trem para um (Blog Estadão)

21 terça-feira jun 2016

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Cônscios de tudo que um Estado não deve ser, este blog iniciará uma série de micro crônicas sobre respeito e o relacionamento

que um Estado, levado a sério, deve conservar com cada cidadão. 

“Uma companhia de trens japonesa resolveu preservar aberta a estação de Kami-Shirataki, localizada em Hokkaido.

A curiosidade é que a estação funciona apenas para uma pessoa: a adolescente Kana Harada.”

Extraído da tradução do Daily Mail pelo Jornal Ciência (matéria de Merelyn Cerqueira)

Mais de 25 anos depois Kana voltou à plataforma abandonada, estacionada no mesmo lugar, e a apresentou para as duas filhas adolescentes.

— Viram? Era bem aqui! E era um dia como hoje. O trem chegando fazia a neve jorrar para todos os lados. Eu sempre me acomodada no vagão do meio.

— Mãe, arriscou entusiasmada a mais nova. Um trem só para você?

— É verdade, lembram? Saiu no jornal. Sonho sempre com isso.

— Uma rainha, completou a mais velha, parece história de um livro.

— Eu também pensava isso. Achava egoísmo que ele viesse aqui só para mim. Sentia que eu não merecia aquilo.

— Não merecia? Estranhou Yoko, a mais velha.

— Durante um tempo. Até que meu pai, seu avô, que quase não conversava comigo sentou para explicar uma coisa que nunca esqueci.

— Mãe, você está chorando?

— Lacrimejando, só lacrimejando querida.

— O que o vovô falou?

— Que não devia me sentir culpada, que era exatamente assim que deveria ser.

— Mãe? As duas se voltaram curiosas. O que mais ele disse?

— Disse que todos deveriam saber disso, mas ninguém conseguia perceber.

— Saber o que? As meninas estavam curiosas e sob o frio, exalavam o hálito quente de neblina.

— Que essa preocupação é a verdadeira natureza de um Estado. Que o governo é sério quando se preocupa com o bem estar de cada um.

E é esse exemplo que serve para que continuemos a cuidar uns dos outros. Um lado e outro, as coisas se complementam.

As meninas e a mãe se abraçam, agora também lacrimejam.

PS- (agradeço a Carmen Monteiro que enviou o artigo)

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Céu a Dois (Blog Estadão)

13 segunda-feira jun 2016

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

≈ Deixe um comentário

Céu a Dois

Paulo Rosenbaum

13 junho 2016 | 19:05

Querida? Acorde!
Já está na hora?
Ainda não! Quase. Temos que sair daqui, lembra?
Mais 5 minutinhos.
Mas e o Jardim? Quem vai varrer?
Vai você!
Não fui eu que fiz a bobagem.
Tenho que explicar de novo? Vai dar tudo certo, confie em mim. Ele tinha um plano maior para nós.
Melhor ir logo. A arvore está perdendo folhas e o dia já está quase terminando.
Estava sonhando com flores e que um dia vamos saber como aproveitar este lugar.
O Jardim?
Virá com um código de instruções para que a gente e todos os descendentes vivam em paz.
Sério? Quando?
Não sei, mas foi uma promessa dele quando eu estava chorando e Ele veio me consolar.
O que Ele disse?
Que alguém iríamos ser libertados de nós mesmos.
Não faz muito sentido.
Seriam algumas Regras mínimas com valor máximo. No sonho alguém me dizia : “como a constituição americana”. Pequena mas está tudo lá, compactada nos contará a história do mundo, e nós, os personagens centrais. Tudo dependeria da gente. (o marido coça a nuca preocupado)
Do que exatamente você está falando?
Que vamos ter uma longa descendência e que, no fim, teremos paz. Lembra seu medo? Que surgissem facções, guerras tribais, que o pessoal desse errado na vida?
E como é que se evita isso?
O mundo vai substituir salvadores pessoa física, por consciência.  E depois de tudo nós seremos as mães de todos que vivem.
Mães?
Mães! Agora  posso dormir mais um pouco?
Ok, mas os figos do pomar estão caindo de maduros, eu se fosse você melhor você iria lá dar uma olhada.
Pronto, acordei? O que não se faz pelo Amor?
Temos que limpar isso, olha essa bagunça
Isso é justo?
Se não fizermos nada vamos atrair outra cobra.
Ai não. Tudo menos aquela jararaca.
Pois é, vamos à faxina.
E quem criou esse caos?
Pergunte para o teu chapa. Você fala com Ele todos os dias.
(olhar de desconfiança feminina)
Você reclama, mas sabe porque ele fala mais comigo do que com você, não sabe?
Por que?
Porque você veio depois dos mosquitos e Tem dias que você está se achando o rei da cocada preta. Já te falei, Ele não aprecia gente que fica se achando.

Vamos mulher! Pode se mexer?

Aff

Tá vendo?
Vendo o que?
Ficou brava sem motivo.
Pensa que é fácil?

Foi você quem começou.
DR hoje não por favor. Fica na sua que vou falar com Ele
Olha lá o que você vai dizer. Não me comprometa.
Você veio da terra, mas parece feito de porcelana.
(Desolado, o marido balança a cabeça)
Oh Altíssimo, não poderia ter me tirado do barro também? Por que não poderia também ter me modelado com argila? Com todo respeito não acho nada simpático ter vindo da costela dele.
(Marido faz olhar de reprovação e tenta dissuadi-la, pedindo silencio para a esposa)
Agora é que não fico quieta mesmo.
(Marido implora para que esposa pegue leve enquanto espreme as mãos)
Com toda a vênia Senhor, nós, mulheres, somos mais resistentes, amadurecemos mais rápido, temos que ser babás, companheiras, cozinheiras, auxiliar de finanças, promoters, conselheiras, mães (tinha mesmo que doer assim?) e mesmo com toda essa carga nós tínhamos que sair das costelas desse mimado barbudo?
(trovões simpáticos à causa)
Mulher, deu por hoje, dá para parar com isso?
(raios e trovões antipáticos, o Marido se recolhe no canto)
Obrigado Altíssimo, posso continuar?
Veja só, não acho justo ter levado toda a culpa. Eu amo esse homem e nem sei os motivos. Dizem que o Senhor inculcou o prazer nas espécies pela procriação, mas minha intuição não falha: é muito mais do que isso. Além disso, estou apaixonada. Um dia? Em homenagem ao dia se hoje vai haver um dia dos namorados?
(o Esposo não compreende as vozes que vem de cima) (A Esposa faz que sim com a cabeça)
Eu sei, eu sei!
Mas concorda? Segue dizendo a Esposa: nós é que levamos tudo nos ombros, eu diria o mundo nas costas. Se gostaria de ficar mais um pouco por aqui? Um pouco não, para sempre. Está brincando? Amo este lugar, temos absolutamente tudo. Mas o que posso fazer se a tal da árvore ensinou que precisamos de autonomia e que o mérito só pode estar na nossa escolha.
(vento forte e murmúrios de aprovação do céu)
O Senhor quer a lista escrita com todas as reivindicações? Olha, então vou falar com toda a humildade: eu quero que, no futuro, pode ser bem lá na frente, nós, mulheres, estejamos no comando.
Adão fala baixinho “Lá na frente? Até parece”
O que foi que você disse Querido?
Nada, bocejei.
Então, continuando, Altíssimo, queria que lá na frente depois que o Reino do Costelinha ai passasse, o Senhor nos desse uma chance, para eu e minha descendência.
Por exemplo? Deixar que uma nação justa seja comandada por uma mulher?
(O Marido pega no sono)
Altíssimo, adorei conhecer o futuro? O que mais?
Tem também más notícias? Povos que saíram de mim vai ser perseguidos e os outros vão se fingir de mortos? Mas o que é que é isso? Pode parar. Não quero mais saber. Não, sinto muito, mas não dá para ficar calminha com o que o Senhor acaba de me contar. E ainda nem me contou tudo? Faça-me o favor. E O Senhor não vai fazer nada a respeito? Melhor mudar de assunto. Ainda tenho esperanças que o Senhor tome providências. Vou entender um dia? Duvido.
Agora que o marido dormiu vou pedir as coisas mais delicadas. Senhor, com todo respeito: eles não poderiam ser mais limpinhos?
(Trovões de média severidade)
Ok, Ok, Ok, era pedir demais. Vou continuar então: Todo Poderoso, pode me fazer um favor extra? Pode ser? É o seguinte: Poderíamos nascer com menos preocupação com os filhos? Estou grávida não faz nem uma hora e já pensei na matrícula, no que vai ter no lanche, e na formatura na faculdade.

Isso tudo é a natureza feminina? Tudo bem então, só para o Senhor não sair dizendo por ai que nasci teimosa, essa vou ouvir e aceitar mesmo sem entender direito.

E o que mais mais? Ser curiosa assim também tem a ver com nossa natureza? Cientistas e mulheres são? Pode dizer o nome. Einstein. Nome difícil o que tem ele? Ah, ele vai ser sua testemunha. De que, posso perguntar? De que o Senhor não joga dados. Sempre soube, Altíssimo, eu via e comentava com o Esposo como era admirável seu Cuidado com as plantas e com os animais. O Senhor cuida ao mesmo tempo de todo Universo e ainda tem tempo para dar atenção individual para cada criatura? Como é que pode? Claro, só o Todo Poderoso. Não, não, nem sei o que é Corinthians, nem sei o que é time de futebol. O Senhor não vai me explicar? Ok,  não tenho muito interesse mesmo.
Posso continuar? O Senhor acha que eu falo muito não é? Mas já que isso é a minha natureza, deve ser para o bem. Certo?
(Risadas celestes múltiplas)

O que mais gosto em conversar com o Senhor é seu bom humor.

(sons de ruídos ásperos)

Agora que meu marido está roncando, — isso aí não dá para corrigir não? Sabe quanto tempo não prego olho?

(Gargalhadas celestes)

Desculpa Senhor, sei que se diverte com nossas bobagens, mas essa aqui não tem a menor graça. Já mandei ele ir dormir lá perto das goiabeiras. Foi ficando insuportável. O Senhor, aí no Infinito, não tem estes probleminhas, mas a mulher aqui tem que aguentar cada coisa que o Senhor nem pode imaginar. Ah, o Senhor também aguenta? Mas só para comparar: o Senhor é o Rei do Universo, eu sou a Escrava Galáctica do Lar, entende?

(mais risadas cósmicas)

Então me desculpe pelo desabafo. Aliás, me lembrei do bafo. Isso também poderia ser consertado?

Não acredito no que acabo de ouvir. O Senhor está me propondo que eu viva aqui sozinha? Nem pensar. Criar outra igualzinha a mim? Outra companheira para ele? Se chegar perto dele vai ter o que ela merece. De jeito nenhum. O Senhor não me entendeu direito. Não foi bem isso que eu tinha em mente. O que? Ele me diz exatamente a mesma coisa que o senhor acaba de falar: que reclamo e quando ele faz o que eu peço nunca acho que foi suficiente. O Senhor é conservador ou progressista?

(Trovões leves)

Eu sei, eu sei. Me perdoe. Tenho certeza que o Senhor é um juiz imparcial. É que pelo que ouço dizer do futuro, em muitos Países não vai ter toda essa equidade. O Senhor não tem partido? Nem eu, nenhum juiz, nem tribunal deveria ter. Concorda? Eu sabia, estamos do mesmo lado. Ok, sei que estou tomando seu tempo, mas agora estou para terminar.

Se quero outra pessoa? Nunca. Meu esposa é perfeito para mim. Nós nos entendemos em tudo, menos quando ele discorda de mim.

(risadas abafadas que escapam das nuvens)

Algum descendente nosso poderia escrever sobre o tamanho do nosso amor? O Senhor vai escalar um sábio para falar da primeira história de amor da humanidade? Que o maior mistério e o grande milagre é o amor entre um homem e uma mulher? Pode haver outros tipos? Qualquer forma de amor vale a pena? Para a redação vai chamar o maior de todos os autores? Salomão? Pode adiantar como é que vai se chamar o livro? Posso eu mesmo dar um nome? Deixe-me ver. Pode ser “Melodia de Amor?” Não, não, muito clichê. E que tal: “Céu a dois?”

(trovões serenos)

O que foi? O Senhor não gostou? Podem entender mal? Então que tal ficar “Cântico dos Cânticos”? Mas, por favor, registre que prefiro “Céu a dois”. Como? Tudo ai é registrado? Tudinho? Dá até um certo medo. Não, não sei o que é grampo. Está muito cedo para falar nisso e prefere fazer uma varredura antes? Está bem, eu aceito. Às vezes sou obediente, só ao Senhor, ok?

(pigarros angelicais)

No caso do Adão queria só pedir para o Criador dar umas últimas lapidadas extras.

Senhor? Posso continuar? Posso chamar você de Senhora? É que as vezes conversando com o marido eu acabei falando espontaneamente “Ela?”

(Sons indecifráveis)

Se sou feminista? Sou, e assumo. Pode escrever ai no seu registro geral : serei a primeira feminista. Se eu não for quem será? Se eu não for por mim quem no meu lugar? Mas é que também fica mais fácil para mim. Mas entendo. Deixa para lá, já me acostumei mesmo a chama-lo de Senhor.

Altíssimo, agora mudando de assunto podemos falar algumas palavras sobre estabilidade? O que eu mais tenho medo lá fora é de cair num desses lugares cheios de bagunça. Onde não existem regras. Onde tudo muda do dia para a noite. Onde não se pode confiar nas instituições. Sabe, tumulto político? Pode quebrar essa para nós? O Senhor faria isso pela gente? Esse aí nunca ouvi falar. Onde fica esse País? Lá mais ao Sul? Por tudo que o Senhor está me falando agora falta muito pouco para esse lugar ser um outro Paraíso. Ah, entendi, dizem que o Senhor nasceu lá? Brasileiro? Não brinca. Ah, claro, lá tudo é bom menos o que? O que é Planalto Central? Entendi, o lugar como um todo é muito legal, a natureza incrível, o povo Ok, mas tem este probleminha. Problemão? E essa aí também é uma mulher? De acordo, vamos tomar cuidado. Ah, mas mesmo lá vai melhorar? O Senhor vai interferir? Pessoalmente? Agradecida. Certeza que meus descendentes ficarão aliviados.

(Adão espreguiça)

Altíssimo, ele não é uma gracinha?

(olhares apaixonados)

Poderia viver com ele em qualquer lugar do Universo. Mas, por gentileza, pense com carinho nas reforminhas que pedi.

Querida? Adão murmura com a voz rouca.

Sim amor?

Faz uma massagem aqui por favor.

Onde?

Ai do lado. Isso ai mesmo. Não sei porque mas minhas costelas acordaram doloridas.
Fui dormir e acordei assim. Houve alguma coisa enquanto eu cochilava? Perdi algo?

Nada querido. Só roguei ao Altíssimo para dar uma melhorada na nossa situação.
Melhorada? Estamos no Paraíso. Se melhorar, estraga.

Eu sei querido, mas eu quero que tudo fique bem.

Minha rainha, de hoje em diante faço tudo o que você quiser.

(Eva pisca para o alto)

Valeu Senhor!

(Trovões se dissipando, o Altíssimo usa seu dimer e reduz a luminosidade)

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/ceu-a-dois/

 

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Não é porque (blog Estadão)

07 terça-feira jun 2016

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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centralismo partidário, conto de notícia, decisões judiciais, democracia, hegemonia e monopólio do poder, justiça, não é porque, paulo rosenbaum, poesia, significado de justiça, utopia

Não é porque

Paulo Rosenbaum

07 junho 2016 | 12:19

Não é porque removemos o entulho que podemos aceitar tudo, não é porque fomos as ruas que nos submeteremos à qualquer faixa, não é porque o crime compensa que nos tornaremos cúmplices, não é porque o progressismo falhou que seremos adeptos do atraso, não é porque a vigilância está mais atenta que aceitaremos o Estado Policial, não é porque a contaminação é geral que a infecção é a mesma, não é porque estamos em casa que as ruas não podem reaparecer, não é porque quem deveria nos representar falha, que a representação faliu, não é porque estamos sem uma boia intacta que usaremos o penúltimo prego, não é porque eles tem foro privilegiado que a maioria merece injustiça, não é porque as indicações foram feitas que a contabilidade de favores pode persistir, não é porque o Poder nos insulta que precisamos recusar a governabilidade, não é porque eles são nacional-desenvolvimentistas que estão errados, não é porque persistem na seletividade dos alvos que aceitaremos tiro ao alvo, não é porque eles foram grampeados que todos nós recusaremos garantias de privacidade, não é porque elegemos heróis que nos cegaremos ao narcisismo, não é porque temos paciência que o inflamação não cresce, não é porque desejamos paz que abandonaremos os motins, não é porque empobrecemos que a dignidade passou a ser um luxo, não é porque perdemos a inocência que hostilizaremos a pureza, não é porque as prisões pululam que teremos equidade, não é porque estamos confusos que não reparamos nas cores, não é porque a corte é soberana que aceitaremos absolutismos, não é porque naturaliza-se a exceção que ela deixa de ser selvagem, não é porque falta civilidade que a cidadania está perdida, não é porque o outono se prolonga que o inverno será relapso, não é porque enxergamos a insanidade que perderemos a lucidez, não é porque estamos aflitos que cassarão nossa voz, não é porque a espiritualidade se desorganizou que submergiremos na matéria, não é porque tudo foi se concentrando que a distribuição será barrada, não é porque os bolsos da pessoa física não se encheram que usurpar o Estado deixou de ser hediondo, não é porque estamos quase paralisados que esgotamos a vitalidade, não é porque preferimos a tolerância que não seremos contundentes, não é porque quem obstaculiza a justiça é quem deveria promove-la que o delito prescreve, não é porque um timing se impôs que ele veio na hora certa, não é porque sou eu quem digo que todos os demais não possam sentir de forma semelhante, não é porque as crianças estão sem infância que nós temos o monopólio da maturidade, não é porque a anomia chegou que não precisamos de parâmetros, não é porque a justiça social se arrasta que ela não avança, não é porque a compassividade nos inunda que a parcialidade pode prevalecer, não é porque podemos entender as motivações dos perversos que eles devem ser tomados como vitimas, não é porque nossa passividade é ancestral que as paixões foram extintas.

E por que ainda estamos aqui, e não lá fora, para berrar não?

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/nao-e-porque/

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Resenha de “Céu Subterrâneo”por Lyslei Nascimento – Revista Maraavi Nascimento publicado na revista Maar

01 quarta-feira jun 2016

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos, céu subterrâneo, Imprensa, Livros publicados

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céu subterrâneo, Hebron, Lyslei Nascimento, Machpela, resenha, revista Maaravi

ROSENBAUM, Paulo. Céu subterrâneo. São Paulo: Perspectiva, 2016. 254p. Da escrita e da arqueologia, modernidade em ruínas
Lyslei Nascimento*

O romance Céu subterrâneo, de Paulo Rosenbaum, surge em um tempo em que o leitor já não cultiva o que não pode ser abreviado. No entanto, amante das grandes narrativas, como se pode constatar desde A verdade lançada ao solo, de 2010, o escritor, ao tentar realizar uma síntese impossível do céu – as coisas do alto, como a espiritualidade – e as subterrâneas – não somente as coisas terrenas, mas aquelas que estariam abaixo nível do chão, como a memória e a identidade – inscreve-se numa poderosa tradição de romancistas como Umberto Eco e Salman Rushdie.

Esses escritores se esmeram em construir suas tramas a partir do que Italo Calvino chamou de hiperromance ou romance enciclopédico, uma narrativa marcada pela tensão entre o peso e a leveza, a exatidão e a multiplicidade. Na contramão do desejo de brevidade, eles oferecem ao leitor uma narrativa densa, cheia de camadas, idas e vindas, jogos temporais e espaciais, intertextos sofisticados, buscas quase infinitas de duplos e fantasmagorias, além de uma concepção fundamental da literatura como conhecimento. O convite à leitura é, portanto, nesses autores, um desafio à viagem, à investigação.

Na trama de Rosenbaum, um escritor viaja para Israel em busca de si, de sua inscrição numa tradição da qual ele acredita ser “desafilhado”. Por isso, não é só um ponto de vista que é sugerido pela expressão paradoxal “céu subterrâneo”, mas também um jogo entre o fora e o dentro, a exclusão e a inclusão, que está em perspectiva. O que se percebe, nesse sentido, é que a narrativa vai se adensando e um enigma precisa ser decifrado pelo personagem e pelo leitor, que se veem diante de um labirinto, com suas ruas e ruelas, falsas entradas e ilusórias saídas – tudo muito bem arquitetado para fazer perder tanto o personagem quanto o leitor. Decifrar ou ser devorado parece ser o que, irremediavelmente, impele o protagonista, “o estranho que se estranha”, para o que seria a sua busca pela verdade, pela resolução do que a ele, e ao leitor, se impõe como um problema, real ou psicológico. Inquérito e investigação, em construções análogas as de Edgar

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Arquivo Maaravi: Revista Digital de Estudos Judaicos da UFMG. Belo Horizonte, v. 10, n. 18, maio 2016. ISSN: 1982 3053.

Alan Poe, a concepção do amigo Assis Beiras, faz lembrar Conan Doyle com o célebre parceiro de Sherlock Holmes: um Dr. Watson tropical. Escavando e recordando, como queria Walter Benjamin, as referências à narrativa de enigma e de investigação policial não são gratuitas. Torna se, assim, o narrador o investigador de si mesmo, de suas origens, e o leitor o seu cúmplice.

O que Adam Mondale deseja em sua tentativa de desvendar um passado ancestral judaico e, é preciso dizer, coletivo? Desentranhar se ou ali se inscrever, de forma singular? A sua busca de uma imagem da sepultura de Adão, o homem primordial, não é banal ou retórica, mas se dá a partir de leituras e releituras, de livros, de imagens, de tradições que vão desarmando interpretações cristalizadas e armando outras, mais precárias, porém sutis. Nesse sentido, o romance trata de coisas desaparecidas, ou soterradas, e das inexistentes, ou imaginárias.

A referência a um código pictórico, como o Jardim das delícias terrenas, de Hieronymus Bosch, por exemplo, e fotográfico, como o negativo da Polaroide encontrado e seu correspondente holograma, são explorados no uso de um vocabulário ambíguo, que pode ser tomado em vários sentidos. Desse modo, revelação, iluminação ou negativo são termos que podem ser levados às últimas consequências interpretativas. Assim, a fotografia, que poderia ser uma prova de realidade, e a busca que o narrador realiza, são postas em xeque, fazendo surgir sombras ou delírios, tudo muito bem entretecido com reflexões pungentes sobre a escrita e dilemas de um escritor na contemporaneidade.

Quase como um místico à deriva, ou um voyeur, numa irônica condição de sofrer de uma doença nos olhos, cuja “córnea é riscada”, prejudicando lhe a visão perfeita, destaca se o caráter de colecionador de câmeras e filmes antigos (marcando o que seria a modernidade em ruínas) e as múltiplas facetas do personagem como professor, psicólogo, fotógrafo e detetive (buscando apreender a fugidia condição do escritor pós moderno). O texto aponta para o que, em certa medida, Ricardo Piglia afirmou sobre a escrita atual: o gênero policial, em todos os seus desdobramentos, é o grande gênero moderno que inunda o mundo contemporâneo.

Narra se uma viagem ou um crime. Que outra coisa se pode narrar? . Às vezes, as duas coisas, é preciso ressaltar. Sob essa dupla sentença, Piglia parece refletir sobre as estratégias de construção textual presentes no romance de Rosenbaum. Sobreposta à viagem a Israel, e, em Israel, a viagem a Hebron, além da busca pela

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Arquivo Maaravi: Revista Digital de Estudos Judaicos da UFMG. Belo Horizonte, v. 10, n. 18, maio 2016. ISSN: 1982 3053.

fotografia que desvelaria o segredo, a metáfora da arqueologia traduz, de forma contundente, a investigação que o protagonista realiza de si e do outro, espelhando, com requinte, a estrutura narrativa do romance.

A partir de um negativo fotográfico encontrado na Caverna dos Patriarcas, a Gruta de Macpelá, o narrador sai a campo em investigação. O complexo, localizado na antiga cidade de Hebron, depois do Monte do Templo, é o segundo local mais sagrado para os judeus e venerado, também, por cristãos e muçulmanos. Todos eles, com algumas variações, afirmam que é o lugar onde foram enterrados os quatro casais bíblicos, daí o nome “Macpelá” ser uma referência à câmara de sepultamento desses casais, ou seja, a caverna dos túmulos dos casais: Adão e Eva; Abraão e Sara; Isaque e Rebeca, Jacó e Lea.

As cidades de Rosenbaum, tal qual as de Cidades invisíveis, de Italo Calvino, aparecem especulares, refletidas, em dupla exposição, sendo atravessadas pelo narrador, com seu olhar avariado, diluindo as fronteiras, fazendo com que os limites sejam intercambiáveis. Jerusalém e Hebron prefigurariam, assim, espaços sagrados e profanos, espelhamentos de textos que são desfolhados ou revelados em suas entranhas a partir de referências ao campo semântico da fotografia, da arqueologia e da narrativa de enigma.

O passado, as ruínas, os restos mortais são iluminados pela escrita e pela investigação, como uma prova, no tempo presente, de algo que só chega a ser minimamente delineado. —“Prova? Você agora está escavando?”, pergunta a esposa de Adam. —“Estamos pesquisando”, ele responde.

Ressalte se, nessa citação, que a pergunta se apresenta no singular, mas a resposta, apesar de só poder ser também nesse diapasão, porque não há, explicitamente, outra pessoa junto a Adam, acontece no plural. Essa configuração múltipla do personagem é dúbia e está explícita em suas muitas facetas, na complexa conformação de seus vários eus. Ou seja, esse personagem também se apresenta a partir de “camadas arqueológicas” da vida presente com as passadas, relações conflituosas com a culturas e a tradição judaica, angústias e influências de textos e imagens que leu e escreveu ou fotografou.

Evidentemente que a ideia de duplo, presente desde o título do romance, tem, no nome do narrador, Adam, espelhando sua busca por Adão, e Macpelá, o nome da gruta que sugere o túmulo dos casais, além das cidades de Hebron e Jerusalém –

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Arquivo Maaravi: Revista Digital de Estudos Judaicos da UFMG. Belo Horizonte, v. 10, n. 18, maio 2016. ISSN: 1982 3053.

com suas ruínas e reconstruções trazidas à luz, por escavações – na arqueologia, sua metáfora mais instigante. Por intermédio da comparação do passado de uma cidade com o passado psíquico, Sigmund Freud, em O mal estar na cultura, reflete sobre o que o leitor pode analogamente vislumbrar na busca de Adam em Céu subterrâneo. Em vez de Roma, a cidade que insurge e ressurge do passado é Hebron, fazendo falar, a um só tempo, as vozes da tradição – de um tempo imemorial e mítico, que parece estar soterrado no passado – com índices do moderno e da contemporaneidade, como a fotografia, a computação gráfica, o holograma.

Céu subterrâneo, em níveis e desníveis, em estratos, espelhamentos, conformações e deformações, anseia que o leitor o atravesse, pari passu com o narrador. A busca obsessiva de Adam “pelo negativo” de uma imagem que todos julgam perdida, no entanto, não é vã. O leitor deverá acompanhá lo por cidades e grutas, da superfície para o interior, num espaço labiríntico. Sem esquecer, todavia, que escavar se é, também, ferir se, e que quanto mais profunda a incursão na memória ancestral, mais ele pode se elevar, para, na superfície, respirar e sobreviver.

* Lyslei Nascimento é Professora Associada na Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais, coordenadora do Núcleo de Estudos Judaicos e bolsista de produtividade do CNPQ.

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Arquivo Maaravi: Revista Digital de Estudos Judaicos da UFMG. Belo Horizonte, v. 10, n. 18, maio 2016. ISSN: 1982 3053.

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Dedicatórias (Blog Estadão)

23 segunda-feira maio 2016

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Blog Estadão Rosenbaum, dedicatórias, lilivro como máquina de diálogos, Literatura

Dedicatórias

Paulo Rosenbaum

23 maio 2016 | 13:45

Ele costumava fazer dedicatórias rápidas, às vezes confusas, outras inspiradas, a maior parte das vezes, como a maioria dos escritores, limitava-se ao protocolar. Só depois do incidente passou a achar que lançamentos de livros deveriam ter outra concepção. Começando pelo título: “Noite de autógrafos” impunha um limite inadmissível ao evento. Primeiro, porque achava que um livro físico, sólido e tridimensional ainda era imbatível na categoria “a melhor invenção dos homens”. Depois passou a entender todo livro impresso como “matéria orgânica a ser decodificada”.

— O livro, sendo uma máquina de diálogos — já que é a interação do sujeito com outra imaginação — produz resultados imprevisíveis.

O episódio o convenceu que era preciso individualizar as mensagens. Precisava deixar uma mensagem pessoal nas páginas daqueles que enfrentavam as filas e, de quebra, estar atento à caligrafia. Achava indelicado, um verdadeiro insulto, ter que se guiar pelos papeizinhos que vinham ajeitados na página inicial com o nome das pessoas. Aquilo só servia para contornar o vexame da amnésia instantânea. Mas considerava que o constrangimento por esquecer o nome da pessoa não deveria ser maior do que não saber quase nada sobre ela. Por qual motivo um desconhecido não mereceria nossa máxima atenção? Ser gentil com estranhos deveria ser encarado como obrigação cívica. O sucesso da individualização, evidente demais para ser renegado. Especialmente numa sociedade que faz questão de massificar, para, depois, valorizar a exclusividade. A verdade é que ninguém mais fica satisfeito só com o tradicional e burocrático “um abraço”, seguido de assinatura e data. Os autores podem ter desenvolvido seus próprios estilos de assinar exemplares, mas ele, por uma dessas curiosas idiossincrasias, não se renderia à média alguma.

A inscrição num livro se aproximaria de um ritual. Sagrado ou profano, o rito não é só um cerimonial burocrático. Quem teria percebido a dimensão simbólica envolvida? Transferir a marca através da tinta para dar confirmação ao novíssimo proprietário! Uma dedicatória, portanto, nunca poderia ser análoga a um contrato, documento bancário ou reconhecimento de firma. Sua tentativa passou a ser captar, às vezes em segundos, por alguma idiossincrasia, particularidade, de qualquer forma, num instante, qualquer elemento pessoal de quem passasse em revista na fila. Mas, como dizia o poeta, tudo é risco. Naquela tarde rabiscou “O justo precede a justiça”. Mal sabia ele que o sujeito para quem escreveu a frase era alguém que, acabara de enfrentar um longo processo, e que, depois soube,  tomou aquela sentença como uma ofensa pessoal.

Os leitores podem não ter consciência, mas o autor/artista, diferentemente de outros profissionais liberais, assim que aceita ser publicado, deixa de ser dono do que produz. Copyrights na língua portuguesa, na era das digitalizações, não passa de um saldo credor sem efetividade. É, deste modo, que o livro foi se tornando um objeto cada vez mais errante, que vaga de mão em mão, de uma estante à outra, ou, então, fica aprisionado em depósitos até que alguém o acolha. Por isso, não se explica a arrogância descontextualizada, o orgulho intelectual e a superioridade imaginária que a maioria dos autores imagina ter sobre os outros mortais.  Já a imortalidade, domínio de outra esfera, nunca esteve garantida, nem para os acadêmicos.

Está mais do que na hora de inverter a honraria. Em prol do leitor.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/dedicatorias/

Tags: Blog Estadão Rosenbaum, dedicatórias, idiossincrasias, lançamento de livros, noite de autógrafos

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Céu Subterrâneo – Cultura Estadão

16 segunda-feira maio 2016

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Paulo Rosenbaum lança livro ‘Céu Subterrâneo’ em São Paulo

Heverton Nascimento – O Estado de S. Paulo

16 Maio 2016 | 11h 33 – Atualizado: 16 Maio 2016 | 12h 22

“Céu Subterrâneo” tem a tradição judaica como pano de fundo e conta a história da busca de um intelectual por suas raízes

Blogueiro do Estadão, o escritor Paulo Rosenbaum lança em São Paulo, nesta terça-feira,17, o livro “Céu Subterrâneo”. Médico, pós-doutor em Ciência, poeta e romancista, Rosenbaum é também autor de “A verdade lançada ao Solo”, publicado em 2010.

O novo romance tem como pano de fundo o universo do judaísmo – se passa na cidade de Hebron, na Cisjordânia – e conta a história de um escritor que viaja para Israel em busca de suas raízes. O ‘herói acidental’ tem características particulares para tornar a leitura convidativa e cativamente.

O autor também publica crônicas e poesia no ‘Estadão’, no blog Conto de Notícia

Serviço

Lançamento: Livro ‘Céu Subterrâneo’, de Paulo Rosenbaum

Quando: terça-feira, 17 de maio, às 18h30

Local: Livraria Cultura do Conjunto Nacional – Térreo da Loja – São Paulo

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Spleen político (Blog Estadão)

15 domingo maio 2016

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos, Imprensa, Livros publicados

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blog Estadão, céu subterrâneo, ficção, hegemonia e monopólio do poder, impeachment, literatura brasileira, retrocesso, significado de justiça, spleen político

Spleen político

Paulo Rosenbaum

15 maio 2016 | 18:19

Spleen – A Spongy gland above the kidney, supposed by the ancients to be the seat of anger and ill-humoured, melancholy in Skeat, W.W. Etymological Dictionary of the English Language. Oxford, 1882 

Num lugar distante, depois de uma intensa conflagração não violenta, que não era nem exceção nem golpe, uma epidemia de depressão assolou o País continental. Um tipo de distúrbio jamais detectado pela medicina. Reconhecendo a calamidade a Organização Mundial de Saúde classificou o fenômeno como “spleen político”. Como zumbis, pessoas e tribos sem filiação vagavam pelas ruas tentando encontrar algum código, pistas, de qualquer forma algum sistema de identidade que permitisse qualquer reagrupamento. Parecia impossível. Os grupos anti e a favor se insultavam mesmo tendo passado quase dois anos do embate que determinou a reclusão de boa parte da elite governante. As divisões eram perturbadoras. Havia gente contra e a favor da Cultura. Contra e a favor da Sociedade. Contra e a favor das Instituições. Sim à censura, contra e a favor da ditadura. O País chegou muito perto de ter o nível médio de inteligência rebaixado por uma agencia de classificação de risco psíquico.

As pessoas relatavam sintomas semelhantes e muitas sensações análogas. Um filósofo decidiu fazer o registro de suas entrevistas.  Os testes psicométricos informavam estranhos depoimentos:

— Qual é a sua sensação com a situação atual?

— É como ter tirado um peso enorme das costas, mas sem nenhum alivio.

Outras avaliavam o inverso:

— Agora sinto o peso sobre o qual as outras pessoas falavam. Ele migrou para mim.

— Elas se livraram de algo, que agora parece ter grudado na gente.

–Estou carregando um fardo estranho, só sei que não é meu.

Na análise da pesquisa, o comum entre elas é que os dois grupos, aparentemente antagônicos, não conseguiam enxergar saídas.

— O que sinto? Não consigo conversar com ninguém.

— A culpa é deles, as pessoas não conseguem mais conversar.

— Não quero falar com eles, o fanatismo é incurável.

— Eu me pergunto o que eles querem. Estão numa seita ou partido?

Na época, o coordenador das pesquisas, Terco Mora, arriscou um ensaio publicado em jornal de grande circulação:

“A falta de perspectiva se tornou tão intensa que o alivio por ter se livrado de uma tirania assemelhava-se ao de ter se livrado de uma patologia grave: ou seja mesmo livrando-se dela, sentimos que não houve ganho algum. Velhos clínicos discordariam, assim como no aforismo de Heráclito de Éfeso “ninguém entra duas vezes no mesmo rio”. Assim como nunca um corpo afetado por uma doença jamais tem restituição integral, a experiência de ter sido tiranizado e a redescoberta que só as ruas esvaziam palácios, marcará a memória coletiva. Apesar de muitos terem apostado na amnésia, prevejo que o País nunca mais será o mesmo. Para conservar sua feição essencial as Democracias precisam renunciar à toda tentação populista. Devíamos reconsiderar Descartes: Penso, logo não milito. Massas não costumam grudar umas às outras. Para unificar um País é preciso, antes, reduzirmo-nos às unidades.”

Antes da reviravolta, Terco foi preso e processado por um dos tribunais magnânimos. Viveu exilado em Fernando de Noronha, na época transformada em colônia penal. Anos depois da crise, foi reincorporado à Universidade. Promotor de diálogo, fundou o Ministério do Bem Estar, que presidiu até falecer. Os efeitos vieram depois, na forma de bônus imateriais. Sob sua gestão, o IDH do País teve inédito avanço e as transformações foram evidentes. Numa rara entrevista concedida para uma emissora de rádio de Brasília Terco resumiu o segredo que nos fez superar a atmosfera de spleen político:

— Suas pesquisas foram fundamentais para mudar o ambiente político, o Senhor poderia explicar qual é o mais importante indicador de felicidade?

— As relações entre as pessoas.

_____________________________________________________________________

Prezados amigos do blog e colegas jornalistas, convido todos para o lançamento do meu livro “Céu Subterrâneo” que acaba de ser editado pela editora Perspectiva. Trata-se de uma ficção escrita a partir de uma estadia em Israel e definido pela professora titular de literatura da USP Berta Waldmann, que assina a apresentação, como “Um Midrash brasileiro”. Também contei com a preciosa apresentação da Professora Lyslei Nascimento da UFMG que elaborou a orelha do livro. A lista de pessoas para agradecer é bastante extensa. Pretendo fazer isso pessoalmente. Então amigos, será dia 17/05 as 18:30 na livraria Cultura do Conjunto Nacional. Agradeço antecipadamente a quem puder vir, compartilhar e divulgar para outras pessoas. Um grande abraço, Paulo Rosenbaum

Convite - JPEG

 

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Vaga, República, Vaga (Blog Estadão)

09 segunda-feira maio 2016

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Vaga, Republica, Vaga

Paulo Rosenbaum

09 maio 2016 | 18:10

Reparem nos cargos, nos bigodes, na carga espessa de um regime em frangalhos. A única obsessão é preservar-se nas alturas de um gloria rota. Eis eminencia do grande espasmo, o final. O time que acelera sua força contra quem deveria estar protegido. O cinismo justaposto com o discurso das medidas excepcionais. O Traçado é curvo. As trapaças costumam atropelar quem enuncia a vitória previa. O jogo não está ganho,nunca. Mas quem é serio precisa assumir e propagar: as instituições funcionam. Mal. São capengas. Foram montadas em cima de um corpo em decomposição. Na contenda continua, o reparo pode ser o fim. A tentação é violenta, mas a loucura só exalta tiranos. Empodera quem aposta na anomia. Estamos numa poderosa antevéspera. O Pais declina de sua condição, pois gerar instabilidade era um imperativo para o projeto. Uma premissa para os artifícios da selva montada nos municípios. Quebrar o sistema, nos sonhos fanáticos, é poder brincar de “Pátria idealizada”. Montaram essa anti-civilização que atende pelo nome de projeto político. A política, não podendo mais ser assim chamada, constrói-se agora no plano de uma resistência sem cabeças. Numa horizontalidade amorfa, líderes insípidos e carismáticos sanguíneos usurparam os espaços regimentais.

Os apoiadores do regime se ocultam numa ignorância estudada. Quem gastou tinta e papel para escrever “fora Cunha” sabia muito bem o que queria. “Fora Cunha” agora significava “emaranhado agora”. E quem endossou o slogan anti cunha, sob o signo da exceção, também. Eis que os alvos, moveis, não mais comportam miras. Só há um transtorno, uma vítima, um exílio e um ostracismo: das pessoas que querem viver em paz num País que não oferece garantias mínimas à cidadania. Contra a arrogância e a platitude dos filósofos que bradam a má consciência, existe uma população esmagada, atreladas a conflitos e disputas que ela não escolheu, e, por isso, jamais as mereceria. O palco de arrelia é uma espécie de estágio final, a farra terminal, o suspiro do demiurgo. A tirania costuma eliminar um último dejeto, o mais abjeto e repulsivo, aquele que deflagra o contágio.

O que ninguém contava mesmo é com a vigília de uma multidão outrora dispersa. Ninguém previu a multiplicidade das pessoas que, por intuição, decodificou a psicologia de massas. Não foi através dos bem pensantes. Nem dos eruditos. Aliás, precisamos aprender a não contar com eles. Se algo está para acontecer foi por um mérito autodidata, o qual, por sequelas contínuas e arbitrariedades normativas pressionaram as respostas. Resposta que nasceu sob o embolo da luta pela sobrevivência. E quem gosta de se encostar nas definições fáceis como “direitistas”, “Moralistas” e “conservadores” pode perder o último fiapo de prestígio intelectual remanescente. A complexidade é arredia às etiquetas. Não se pode colar esteriótipos em 93% da população. A sublevação que ascende foi pelos insistentes atentados à justiça. Uma justiça que, lenta, naufraga pela sucessão de golpes abaixo da linha aceitável.

A calma é, neste momento, um antídoto invisível. Mas é a ela que devemos recorrer. Basta saber que o desespero costuma ser a efeméride dos desfechos. A antítese dos acordos. Os consensos em estilhaços correm à reboque dos conchavos regados à pré-datados. E, mais uma vez, assistimos, vulneráveis a República que Vaga. Mas o que define uma República senão aqueles que tornam viva? Que a preenchem? Não há mais soberania em lado nenhum. A mordaça contra a opinião pública pode vigorar por hora. Mas, é a história que enfim nos autoriza a comunicar. Temos todo tempo do mundo para fazer saber: nós os governados viemos para ficar.

Tags: barrados pelo Maranhão, impeachment, o efemero, política

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