• Uma entrevista sobre Verdades e Solos
  • Resenha de “Céu Subterrâneo” no Jornal da USP
  • A verdade lançada ao solo, de Paulo Rosenbaum. Rio de Janeiro: Editora Record, 2010. Por Regina Igel / University of Maryland, College Park
  • Resenha de “Céu Subterrâneo” por Reuven Faingold (Estadão)
  • Escritor de deserto – Céu Subterrâneo (Estadão)
  • A inconcebível Jerusalém (Estadão)
  • O midrash brasileiro “Céu subterrâneo”[1], o sefer de “A Verdade ao Solo” e o reino das diáforas de “A Pele que nos Divide”.(Blog Estadão)

Paulo Rosenbaum

~ Escritor e Médico Writer and physician

Paulo Rosenbaum

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Regresso à obscuridade (blog Estadão)

18 domingo set 2016

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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a prisão, blog conto de noticia, democracia, hegemonia e monopólio do poder, justiça, quem criou zoilo?, zelar pela reputação

Brasil

ZELAR PELA Reputação

Regresso à obscuridade

Paulo Rosenbaum

18 Setembro 2016 | 00h21

Repitam conosco:  os crimes  justificam os meios. Os meios explicam os fins. A finalidade perdoa o desvio. O desvio reafirma o heroico. A farsa atende a meta. A justiça muda toda norma. A verdade nunca será deles. A justiça é para todos, os outros. Nossa moral é única. Nossa ética hors concours, portanto, louvem-na ou deixem-nos em paz.

A profusão de frases de efeito caracterizava a República do Slogan, recém destronada.  Destronada, mas ainda não erradicada. O poder que muda de mãos é insuficiente para defenestrar longas impregnações. Falta analisar o aspecto bizarro do triunfo quase absoluto da propaganda. A especulação de que as instituições funcionam perfeitamente não bate com a velocidade com que tudo se esclarece até sua ampla resolução. Ou desvanecimento. A lentidão sempre favoreceu o facínora. Mais do que isso, entroniza, reifica, legitima. Isso explica que mesmo depois de tudo, pequenas multidões ainda sigam a histeria do partido. A exposição do choro em rede sensibilizou plateias. No modelo de marketing ilimitado ganha-se na base da persuasão. O convencimento pela razão se perde no coração dos condoídos. Tudo é pleonasmo que se estende por simulação. Um sentimentalismo dissoluto enterra toda análise. É dentro deste proto teatro que passamos a inverter tudo. O que nós, habitantes da terra dos desvios, precisamos sentir? A consciência estaria dada fôssemos nós vigilantes. Mas não somos exatamente atentos. Nossa seletividade é enganadora. Tendo repudiado direita e esquerda eu também me pego desejando a prisão, o castigo impiedoso, o bota fora exemplar. O objeto do desejo coletivo hoje é indiciamento,  justiçamento, reparação e, se possível, que eles experimentem algo análogo ao que vivenciamos. Reduzimos todas as expectativas ao desejo de prisão. Vibramos com tornozeleiras. Mas, ao mesmo tempo, o sentimento reflui à pena. O indulto para quem sofre. Mesmo aos marginais da República damos chance ao arrependimento. E então tudo se deforma no festival de gradações e atenuantes. É o momento no qual homens, até há pouco considerados inteligentes, submetem-se ao crivo da adulação ideológica. Narram a irrealidade de consensos inexistentes. A história conhece o discurso político com traços psicóticos, assim como seu poder de contágio. A inusitada novidade é a sobrevivência política de gente que cultivou a terra arrasada. De Porto Alegre à Araraquara eles podem ganhar novas imunidades com os álibis do voto popular. Quem passa por momentos mais infelizes, nós todos ou eles? Esta contabilidade do mal feito nunca terá precisão científica. Claro que nem se aproximará do espetáculo da contabilidade criativa azeitada na manteiga, e no virado ao fundo de pensão. Nunca houve golpe agudo. O golpe é outro e é crônico. Foi dado faz tempo quando a democracia, pensando ser representativa, passou a gestar lideranças “naturais” em laboratórios universitários, nas hierarquias intelectuais e em moitas canônicas. Caudilho nenhum nasce feito. Precisa primeiro da bênção dos que o antecederam. Depois, a chancela do segundo escalão dos bem pensantes penitentes. Que vieram de vários partidos. Todos convencidos de que sabem redimir como ninguém o povo sofrido. Depois foi necessário faze-lo ganhar projeção por terra e mar. Pulverizar a memória da sociedade com o expurgo de uma culpa que já durava meio milênio. E, por último, distribui-la, a culpa, nas telas e folhas impressas. Florestas inteiras derrubadas em manchetes favoráveis dedicadas ao líder. Milagre econômico herdado de um prólogo de civilidade. Ao libertador dos oprimidos foi oferecido, na bandeja da redenção, o País inteiro. Por fim eleito, apoio maciço e aprovação ímpar ao ícone das idoneidades máximas. O campeão da probidade.  A tese prometia: um trabalhador nato libertar-nos-ia do trabalho. E não é que foi um êxito absoluto? Com a palavra os 12 milhões de felizardos. Portanto, não basta repetir o surrado “deu no que deu”. Ao Supremo líder da seita e a todos os arquitetos do plano que, com esforço ativo ou passivo, direta ou indiretamente,  nos legaram estes intermináveis dias, só podemos desejar que tenham um bom regresso à obscuridade.

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Não mais acredito em lágrimas (Blog Estadão)

01 quinta-feira set 2016

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Não mais reconheço lágrimas

Ofuscada a emoção, tudo virou cenário

Achavas realmente que igualar-nos em sofrimento,

Impondo silêncios, tornando princípios, mitos

Desalojando milhões e mudar regras às cegas

Nos condenaria à resignação?

Ah, agora lamentas os que ficaram de fora?

Alguma culpa pelo ônus e exaustão?

Pelo inassimilável custo dessa aventura?

Quem teceu o teatro escuso?

E a impostura dessa moldura?

A justiça, em obstrução, na contramão?

A única vitória é libertar-se sem libertadores

Ou deveríamos ceder à opressão?

Desvincular o abuso, do termo,

Do teu comando ativo, desgoverno.

Nos decretos e acordos que te perpetuaria

Na seda da hegemonia, à nossa revelia

Como nenhum homem é ilha

Devolva-se a República à calma

E às ruas, a alma

Retirada da inação e afasia

A sede que irriga este fim da folia.

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Saio da política para entrar na amnésia coletiva (Blog Estadão)

29 segunda-feira ago 2016

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Saio da política para entrar na amnésia coletiva

Paulo Rosenbaum

29 Agosto 2016 | 13h17

 “Ainda que tivesse perdido a inteligência de suas visões, teria no entanto chegado a vê-las”

 Arthur Rimbaud

Responsabilidade – do latim responsabile, calcado em responsu, de respondere. Dar garantia, palavra, dar fiança, endossar, precaver, seguro, fiador, obrigação.

Ninguém sabe exatamente o que ela esta dizendo, o previsível era mesmo a repetição dos refrões surrados, slogans de campanha, interjeições incompreensíveis e provocações não republicanas. Ela age como se fosse, mas ela não é, inimputável. A tese de que haveria uma insanidade temporária ou algum tipo de lapso causado por um stress super agudo também estão afastadas. Consciente de seus desvios, mas inconfessa convicta, prefere o papel de martírio tardio e de atriz subsidiada, a assumir suas responsabilidades. Menos pela sem precedentes desorganização das contas públicas e muito mais por desmantelar, junto com seu mentor, o próprio País. Sem entrar na avaliação da personalidade, seu penúltimo discurso atravessou a prepotência e desaguou, linear, no vazio de um heroísmo jamais concedido. Como se toda culpa fosse de outrem, vale dizer, os milhões que testemunharam um período político dos mais obscuros. Sua guerrilha agora se direciona à uma compaixão que prima pela secura, e a aridez característica de sua postura desvela o estado permanente de hostilidade. Sua autopiedade e apelo vitimizador não penetram mais em coração algum. Pois ela compõe, junto com seu séquito, uma cenografia tépida e sem contexto. Fosse ela a guerreira que julga ser, concederia a derrota e reconheceria a causa maior- a vida do povo que deveria ter governado – o verdadeiro ganho, seu afastamento definitivo. Fosse ela a dama de ferro que ostentou nas campanhas, libertar-se-ia de sua convicção e observaria a generosidade daqueles que se sacrificam pelo bem comum. Ao invés disso, ela se articula para prorrogar as dificuldades, agita a bandeira de sua própria causa e de seus beneficiários diretos. Usa recursos que não lhe cabem para arregimentar cineastas, políticos, cantores em claques que aceitaram fazer o papel de ventríloquos do inadmissível. Sem perceber claramente, suas ações aceleram sua desconstrução, corroendo os remanescentes fiapos de credibilidade. Claro que, com o capacidade de argumentação empobrecida voltam as palavras de ordem, onde “golpe” virou a exalação mais vulgar. Inútil narrar que, se houve algum, ele ficou patente em sua própria gestão. É mais do que provável de que assim como a superação dos obstáculos epistemológicos, cujo saldo deve ser examinado retrospectivamente, somente gerações adiante notaremos exatamente do que estávamos nos livrando. Só quando despacharmos o entulho petista, suas concessionárias, modelos, filiais, simpatizantes, entusiastas e sobretudo seu insuportável servilismo acrítico poderemos realmente finalizar o balanço da era mais pueril, nociva e absurda de nossa história recente. O discernimento, conquista da racionalidade e do bom senso devem continuar apagados por uma obstinação que perdeu o sentido, a direção e todo suporte. De todo modo, esta última década será conhecida como um apagão dos parâmetros razoáveis da convivência e do respeito pela cultura dialógica. E a culpa, desta vez, não poderá mais ser imputada às redes sociais, aos conservadores nem aos que discordavam do projeto. A toxicidade não provem do ódio, nasce da indignação sem voz.

O impeachment a ser definido, para além da figura jurídica do “crime de responsabilidade” — já que o responsável é aquele que assume, lidera, chama para si, patrocina — é o significado de responsabilidade. A pergunta sem contestação é: então quem respondia pelo País senhora? Aqui poucos méritos para a oposição que não conseguia cumprir seu papel e, sim, para as ruas e a opinião pública que, diante da acefalia, decidiu voltar a ser sujeito da própria história. Pode não durar. Aliás, não deve durar. É para lamentar, pois teria energia suficiente para modelar outro tipo de País: quem se esquecerá das maiores manifestações pacificas da história das democracias?

Em dias marcantes como estes, podemos até engolir o non sense, tolerar bravatas e assistir finais melancólicos como o que testemunhamos no plenário do Senado sem manifestar aborrecimentos: é que o saldo final será um estrondoso e extemporâneo sete de setembro.

Mais conteúdo sobre:

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A extinção (blog Estadão)

22 segunda-feira ago 2016

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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A última a falar no Congresso, Yelena Simia, afirmou que já fazia quase 70 anos que um deles havia sido avistado em ambiente doméstico, portanto mais de uma geração separava a data da inauguração do Museu, do período da grande extinção.

— As vezes é muito natural que todas nós nos perguntemos: e se eles ainda estivessem por aqui? O que seria do mundo? Como seriam nossas vidas?

Yelena ouviu vaias ao fundo, fez uma pausa rápida, para, em seguida, dar continuidade à palestra

— Talvez vocês não entendam, mas não faz tanto tempo assim, minha bisavó, imagine, minha bisavó, chegou a ter um em casa. Na época era normal.

As vaias diminuem.

–Eu sei, sei perfeitamente, hoje temos consciência do quanto eles são desnecessários, mas parece que nem todas eram infelizes com eles por perto. Em nossos dias fica bastante claro que depois que desapareceram, o mundo ficou melhor. As guerras estancaram, a violência e a desigualdade diminuíram, ninguém mais precisa suportar desmandos ou ideias dogmáticas fora das Universidades, barbas que espetam, arrogância cabotina, topetes loiros, cavanhaques ridículos, maus hábitos e convenhamos, os banheiros agora são definitivamente lugares limpos. Tanto os acervos fotográficos como todas as evidencias coletadas mostram que todos nasciam com deficiências genéticas de higiene e especula-se, um invencível complexo de superioridade.

Os aplausos começaram a dividir o fundo da sala de conferencias.

— Foi a história natural, e não nós, quem decidiu que eles já tinham cumprido seu ciclo. Quando os casos de autofecundação começaram a surgir e vingar no mundo todo, os cientistas honestos já previam, só poderia haver um desfecho. Os papers estampavam “quando some a função, o futuro é a extinção”.  Escreveram que 50 anos bastavam para que tudo estivesse consumado, foram necessários quase 100.

Aplausos se intensificam

–Vamos recordar a sequencia dos fatos. Nosso gênero conquistou cargos políticos. Passamos a ocupar o núcleo do poder. Em menos de 40 anos tornamo-nos hegemônicas. No início, reagiram com elegância. Diziam-se constrangidos pelos milênios de opressão. Depois, ficaram incrédulos com nossa eficácia na gestão do mundo. Claro que parecia inverossímil, mas me mostrem pelo um dos dinossauros que esperava pelo fim? Trouxe alguns dos jornais daquele período para que vocês todas reflitam. Vejam, por exemplo, esta manchete de março de 2032:

“Os machos agonizam, merecem a extinção?”.

E leiam essa outra, projetada ai no telão

“O masculino em vias de desaparecer?”

Aplausos seguido de gargalhadas. Yelena pede calma.

— Mas foi só quando, inexplicavelmente, os alfa começaram a ficar inférteis que tudo piorou. O golpe mortal foi no orgulho. Reagiram mal e nos ameaçaram com boicotes e sanções. Foi quando passamos a gerar sozinhas, dispensando todo seu provimento e patrimônio genético. Os biólogos logo constataram: somente fêmeas eram viáveis. O que nunca souberam é que nós jamais desejávamos isso, nem mesmo fizemos força para que entrassem em extinção.  Eu confesso, em caráter pessoal, alguma curiosidade em saber como seria ter um exemplar em casa em nossos dias.

Murmúrios azedos.

–Já imaginaram? Como seria dividir com eles a criação das famílias? Mesmo porque, pelo que tudo indica, parece que esse não era bem o forte deles. Amigas, nós nunca quisemos fundar aquilo que foi designado muito recentemente como “Feministão”. Natureza e evolução fizeram seu trabalho, e, depois de milhões de anos escolheu quem deveria sumir para dar lugar ao gênero que poderia viver para fazer o planeta sobreviver.  Como bem definiu Aristóteles “a natureza faz, não faz nada em vão, só faz, sem instrução,  aquilo que é necessário”. Vamos aceitar este presente e louvar nossa emancipação, sem culpa ou remorso.

— Ao mesmo tempo, é com orgulho que inauguramos nesta data, o Museu do Gênero Desaparecido, que abriga o maior acervo iconográfico, espécimes reais embalsamadas, e uma curadoria especial com os objetos de culto. Só não conseguimos espaço para coleções de álbuns de futebol com figuras carimbadas  da Copa e os carrões potentes. O intuito é mostrar que reconhecemos o quanto eles foram importantes em etapas prévias da humanidade. Sabendo que o tempo não desfaz seus erros nada mais justo prestar esse tributo aos saudosos machos, nossos parentes extintos, e reafirmar como somos reconhecidas por tudo que fizeram.

Yelena termina ovacionada, desce as escadas do palanque agradecendo o entusiasmo com as mãos.

Ao chegar ao camarim, disfarça a nostalgia. “A mãe natureza pode até fazer o que é necessário, alguém precisa avisa-la que não estamos obrigadas a aplaudir”

Certificando-se que a porta está trancada, retira o porta retrato, aproxima-o e chora. Em seguida aperta a fotografia contra o peito.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/a-extincao/

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Derrota na Cultura do Êxito (Blog Estadão)

13 sábado ago 2016

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Admito, fui ver uma sessão de atletismo dos jogos olímpicos. Precisava testemunhar e sobretudo arriscar uma interpretação para um fascínio o qual a princípio me sensibiliza mais pela perplexidade que pelo encantamento. Um aspecto que merece atenção neste revival repaginado do antigo ritualismo grego: quais as finalidades e significados destas reuniões? Supremacia do corpo? Filosofia da superação? Justo numa fase na qual os aspectos estéticos convencionais, os critérios éticos e a própria cultura apolínea estão oscilantes ou sob suspeita?

Destarte, o mais incrível e não menos determinante, parece ser a imaginação dos atletas. Observem como as moças  do salto em altura simulam os voos antes do impulso para superar marcas improváveis. Os nadadores encaram as raias das piscinas como ímãs unidirecionais. Os lançadores antecipam a rota e as vibrações do disco e do martelo. As esgrimistas cogitam esquivas radicais e estocadas clarividentes. Os lutadores derrubam oponentes, muito antes do desenrolar da contenda. As tenistas empurram mentalmente a bola em linhas diagonais ou paralelas em simulações permanentes. Frequentemente balançam as cabeças para torcer ou intuir trajetórias possíveis, fazem gestos repetitivos, obedecem suas superstições, emulam confiança, sonham com o palanque absoluto.

E quanto a derrota? É preciso analisar o símbolo e sua fisiologia. É fundamental penetrar na fenomenologia para bem além da representação dos estados nacionais e do aparente pretexto para exercitar o assim chamado espírito olímpico. Ninguém mais pode aderir incondicionalmente ao ideário de que o que importa é competir independentemente do resultado. A dor e a humilhação, o esforço invencível, o suor que marca a exaustão, este conjunto de trabalho e esforço impõem-se como símbolos majoritários. O orgulho e a hubris reservados para uma minúscula elite de heróis hipertrofiados, ultra-habilidosos, ou talentos da resistência psico-fisica.

Essas categorias já estão auto consagradas na cultura do êxito. O que realmente interessa esmiuçar é o valor inverso. O perdedor. Aquele que se contunde. A derrota é que é o grande tabu. A desonra reservada aos sofredores  sem medalhas que serão ultrapassados. Aqueles que, superados, fracassam. A competição que esmaga os que foram menos treinados e financiados. Ou aqueles que encontram-se dopados para alavancar propagandas político-comerciais. Decerto existe algo mais grave e me limito a mencionar : a naturalização do conceito de que, para alguns, não haverá equidade. Como foram os casos que testemunhei, isolados, mas contundentes. Um atleta negro foi ofendido,  um judoca egípcio recusou-se dar a mão ao seu adversário judeu. O constrangedor silêncio do COI significa que alguns podem ser discriminados sem maiores consequencias para a honra do esporte e em benefício dos patrocinadores.

Todos sabem que o esporte profissional tem um lado obscuro, mas o que interessa mesmo é o apelo à perfeição, o triunfo indiscriminado da performance.

Ainda assim quem poderá negar que é belo, notável e admirável.? A duvida não deveria recair sobre outro aspecto? Será bom? Uma prioridade? Os músculos exatos, a massa magra, a oxigenação extra podem não significar exatamente o que o senso comum imagina. Como já previa Hipócrates (aforismo 3, primeira seção) os maratonistas ou hiper-atletas, por exemplo, estão mais sujeitos à morte súbita que os não atletas. Aforismo comprovado só muito recentemente pela medicina contemporânea

Performances e records não valem saúde, nem super treinamento significa, necessariamente, boa forma e longevidade. Mesmo assim, e apesar de tudo, quem controla nosso potencial de envolvimento? O saldo final vai contra a intuição. Permanecemos emocionados com essa vertigem coletiva hipnótica chamada Olimpíada.

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Resenha de “Céu Subterrâneo” no Jornal do Nordeste

10 quarta-feira ago 2016

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Adam Kadmon, Adam Mondale, bolsa literária, céu subterrâneo, ficção, Israel, Marhpelá, significado de justiça

Uma jornada com destino às origens

Tendo como contexto o universo judaico, Paulo Rosenbaum apresenta um “herói acidental” em busca de suas raízes

Jerusalém é o lugar onde o personagem central de “Céu Subterrâneo” busca suas origens

No duelo entre tradição e tecnologias, eclodem ao ser contemporâneo a imersão em dilemas como a integridade da memória e até mesmo o armazenamento destas pegadas, destas manchas espalhadas entre as gerações. Diante do infortúnio de pouco equilibrar tais dados sobre a próprias origem, resta a alternativa de investigar o passado. Uma busca com ares de incansável e cega jornada.

Encerrado neste contexto, o personagem Adam Mondale parte para este encontro pessoal e único. É pelos caminhos e passos de sua perspectiva ácida e atenta que “Céu Subterrâneo”, novo romance do médico e escritor Paulo Rosenbaum se enovela.

A cria fictícia de Rosenbaum aponta um psicólogo, judeu laico e desfilhado (e abstraído) de qualquer origem. Após perder o cargo de diretor em uma conceituada instituição brasileira, Mondale embarca no último voo para Jerusalém. Diante da personalidade plural e do interesse particular, o brasileiro é regido pelos mistérios que envolvem um antigo e irrecuperável negativo fotográfico.

Na mala do viajante e, consequentemente, leitores, estão digressões narrativas baseadas em episódios familiares: a esposa, os pais sobreviventes ao holocausto, a abominável Ditadura Militar brasileira, o desejo de ser escritor e a aposentadoria precoce responsável pela pausa estratégica no cotidiano.

Travessia

Porém, um fator dramático é adicionado à viagem optada por Mondale. Diagnosticado com uma córnea defectiva, o aspirante a investigador corre contra o tempo. A visão, por vezes comprometida, simboliza a descida do protagonista por um corredor de mistérios. Todos, em maior ou menor grau, sempre estaremos cegos ante o desconhecido.

É preciso bravura durante a hospedagem por um território obscuro. Para o também colecionador de câmeras antigas cada detalhe esmiuçado é uma vitória.

A investida individualíssima de Mondale é premiada com a presença de um interlocutor, o amigo Assis Beiras. Entre Brasil e Israel, em meio ao futuro que se demora e um passado cada vez mais distante, a jornada construída por Rosenbaum dispensa o auxílio de uma cronologia uniforme na narrativa. O romance começa com a inesperada visita de policiais israelenses que imediatamente confiscam o passaporte do viajante.

Em seguida, somos jogados dentro de um taxi em direção ao laboratório fotográfico capaz de revelar a misteriosa imagem do negativo. Nesse intervalo, eventos comuns a não nativos como a dificuldade de transporte, comunicação e até mesmo precárias condições do ponto de estadia permeiam a trama. Grande parte desse material resulta da experiência do autor em solo israelense, adquirida após bolsa literária de pesquisa.

Mondale, assim, se perde pelos segredos da gruta da “Makhpelá”. A pretensão é saber se existe realmente no local o “Túmulo dos Patriarcas”, e também do primeiro homem ou de seu protótipo, o “Adam Kadmon” (curiosamente o mesmo nome do protagonista). Estas são chaves pouco precisas colocadas na mesa para o leitor.

“Céu Subterrâneo”, de Paulo Rosenbaum, se destina ao mais profundo mistério que, sem findar, revela a verdade que diz respeito a todos. Muitas vezes, os dilemas tem origem em caminhos mal traçados. Nessa perspectiva, perder-se faz bem.

http://diariodonordeste.verdesmares.com.br/cadernos/caderno-3/uma-jornada-com-destino-as-origens-1.1596916

Livro

Céu Subterrâneo

Paulo Rosenbaum

Perspectiva

2016, 254 páginas

R$ 49

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Resenha Crítica de Céu subterrâneo Por Cíntia Moscovith – Jornal Zero Hora

03 quarta-feira ago 2016

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos, céu subterrâneo, Livros publicados, Na Mídia

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Adam Mondale, céu subterrâneo, Cíntia Moscovith, Editora Perspectiva, Israel, Jacó e Gita Guinsburg, Makhpelá, Resenha Crítica Literatura, Verdade lançada ao solo

Cíntia Moscovich: Debaixo da terra

A colunista escreve quinzenalmente no 2° caderno

01/08/2016 – 06h04min | Atualizada em 01/08/2016 – 06h04min
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Protagonizado por Adam Mondale, um autor em crise que ganha uma bolsa para viajar a Israel e escrever um romance, a trama se escora nos mistérios que envolvem a gruta de Makhpelá, o Túmulo dos Patriarcas da tradição judaica – daí o “céu subterrâneo” do título –, local que Abraão teria comprado para sepultar Sara e onde estariam enterrados o próprio Abraão, Isaac, Rebeca, Jacó e Lia.

Veja também:
Cíntia Moscovich: Vade retro
Cíntia Moscovich: A rotina do artista

De posse de um velho negativo de máquina polaroide, com o aluguel de um apartamento feito pela Internet, Mondale chega a Jerusalém numa madrugada fria e chuvosa. Ao procurar o endereço, se descobre enganado – e essa é a primeira peripécia da história. A partir daí, o livro se desenvolve em três planos: a aventura em Israel, a construção do romance e o descobrimento pessoal do personagem – inclusive de um misticismo rechaçado mas inescapável. Com tons kafkianos e metalinguísticos, a trama se apresenta com a cronologia alterada, cabendo ao leitor organizar a sucessão dos fatos no tempo.

Dono de uma prosa envolvente, embasada num extenso conhecimento da matéria, Rosenbaum, que é também autor de A verdade lançada ao solo (2010), cria um clima labiríntico, no qual a tensão é alimentada por cortes precisos e informações que surgem em momentos cruciais da narrativa.

Ademais das virtudes inerentes, Céu subterrâneo tem ainda a chancela de uma das respeitadas casas editoriais do país, que completa 50 anos sob o comando de Jacó e Gita Ginsburg. Responsável pela coleção Debates, a Perspectiva publica uma vastíssima gama de assuntos, tendo participado diretamente na formação intelectual (e afetiva) de todos os brasileiros que se debruçam sobre as humanidades. O selo é certeza de edições de qualidade – como é, sem dúvida, o caso de Céu subterrâneo.

http://zh.clicrbs.com.br/rs/entretenimento/noticia/2016/08/cintia-moscovich-debaixo-da-terra-7040569.html#

 

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Maiêutica e o Vício em Doutrinar (blog Estadão)

24 domingo jul 2016

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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ética de monopólio, democracias mitomanas, extremistas, maieutica, monopsismo cultural, nepotismo cultural, novo populismo, polêmica irrelevante, politicamente correto e incorreto, significado de justiça, Socrates

“Maiêutica – Do grego “maieutitké” – relativo ao parto. Processo utilizado por Sócrates para ajudar a pessoa a trazer ao nível da consciência as concepções latentes em sua mente” Dicionário Etimológico. Antonio Geraldo da Cunha.

Em tempos de cultura pop, enquanto a histeria progride. Reduz tudo à posições políticas cartográficas. Vira mania, enquanto a arte pedagógica vital foi relegada. A proposta de ensino socrática conhecida por maiêutica não foi só desprezada. Deformada, hoje ela está a serviço do vício em doutrinar. Das cátedras às redes sociais, das redações aos programas de auditório, um perturbador ruído de fundo constrange o pensamento. A independência intelectual virou artigo inalcançável. Ao sequestrar o exercício da reflexão trocado por engajamentos doutrinários, a vida parece ficar mais fácil enquanto a educação mingua à sombra de torcidas dispersas. No jogo viciado, leva a melhor quem for mais ruidoso ou cooptar mais público. Nem sempre foi assim. Sem nostalgia, é importante observar que estamos enredados na defensiva. A trincheira está cada vez mais a mão, ainda assim o antônimo desejável de politicamente correto não é o politicamente incorreto, como se tornou comum propagar sem cerimônia ou autocensura. Talvez seja uma outra coisa. Bem menos previsível. Muito mais empírica para estes tempos de legiões de lobos avulsos, onde conspirações secretas de primeira página parecem ser as únicas confluências possíveis. Onde a omissão permissiva vale mais do que a explicitação dolorosa. Será preciso investigar usando todos os serviços de inteligência do mundo porque o establishment faz uso seletivo das palavras, cuidadoso falseamento da ciência e da realidade. A negação permanente desprotege todos. Ninguém ainda lamentou suficientemente o aparelhamento de uma década. Seria o fundamento da critica. O primeiro da lista. Ao obstar o fluxo de pensamento para o substituir pela ordenha mecânica de vozes eleitas por grupos afins, o convívio foi aniquilado. O novo populismo saído diretamente da causa do saber. De onde nunca emergiu muita coisa além de slogans circulares, discursos peremptórios que mimetizam uma filosofia. O saber não é causa emancipada, que sobrevive sem interpretação. Ocorre que, por acaso, ainda pode-se escolher quem será convocado para executa-la. Se os eleitos forem afilhados locais, nepotismo intelectual. Se escolhidos através da mesma meia dúzia de referencias bibliográficas, monopsismo cultural. A redução é clara: não se sabe se a escola deve ser dominada por uma linha partidária ou submeter-se à todas. Essa é a verdadeira dúvida, traduzida na linguagem da polêmica irrelevante. Talvez o conhecimento não merecesse destino tão recortado. Nem as instituições tratamento tão afoito. O medo de enfrentar o extremo, é, no fundo, a compensação neurótica de quem não conseguiu encarar o que chegou até nós. A tocha de brilho fosco. Não a olímpica. Mas a mecha do aposto. A aposta no enunciado de um bem único. De uma unificação impensada, porque impossível. Da ética de monopólio. De opiniões respaldadas em círculos fechados. O que foi a mutação da política senão um consenso cozido entre gabinetes herméticos? Não se espantem se testemunharmos os extremos do pavio se desgarrarem em filiais violentas emancipadas da matriz. Democracias mitômanas e autocracias cínicas são espelhos da mesma atuação. Sairemos do enredo circular quando o dialógico aprender a recusar mentiras prudentes.

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Da ignota culpa do cidadão (Blog Estadão)

18 segunda-feira jul 2016

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Já carimbou? Pois não? O que nós, o Estado, precisamos te relatar? Agora é oficial. Terás que conviver com o terror, aceitar a usurpação, renunciar à integridade, rejeitar a transcendência e submeter-se à imanência sem consistência. Nem notaram? Já estão rendidos. O trator pode parar. Vossos corpos, ceifados, prontos para as empilhadeiras. Se não fosse Nice seria Jerusalém, Orlando ou Dacca. Por que insistir neste tema? Ainda acham que vosso infortúnio é pertencer a essa geração? Céus, é claro que não. E quanto às crianças? Elas, que nem tiveram essa chance? De escolher se queriam pertencer. Não nos cabe responder. Como você deve intuir nós não somos responsáveis por muita coisa além da arrecadação.

Esgotadas as possibilidades de qualquer coisa estável,  reduziremos tudo às oscilações. Ao progresso que se conserva. À conservação do nada que progride. Uma instabilidade é só prenúncio, quando vezes já repetimos. Vocês não assistem programas partidários?  E a velocidade digital e os artigos descartáveis? E as facilidades do desconhecido? O xadrez impessoal das Potencias? O núcleo duro do inadiável? Como vocês devem saber essas radicalizações rápidas não se curvam e ninguém mais pode decidir sobre nada seja quem for eleito? Alguém capturou o espírito destes tempos? Terás que compartilhar o horror. Viverás num estado de animação suspensa. Não te será concedida trégua e ainda assim serás coagido a reconhecer nossa hegemonia. O mundo não era má ideia, mas agora, convertido, tornou-se compassivo com os crimes. Nosso delito tem uma vantagem. Insuperável. Podemos nos perdoar ou mudar de discurso, tanto faz.

As vítimas? Ora, são culpadas involuntárias por algum delito, da indiferença social à ganância. Do indesculpável aval à prepotência do passado colonial ao segregacionismo racista. Atenuantes? Tente outra saída. Sempre acharemos um furo para os seus álibis.

Vosso destino? Serão explodidos, envenenados, bombardeados e manietados por uma destas causas ou todas elas em conjunto. Quem se importa? Você que não deu abrigo ao refugiado, que não foi solidário, que não fez doações, também não escapara do nosso radar penitencial. Se tiver a oportunidade de ser trucidado, desconfie de você mesmo. Se quiser achar teu algoz culpe sua natureza egóica insanável, afinal foi ela quem te colocou no paredão.

Cidadãos, ouçam, não é nada pessoal, mas este Estado aqui não mais te protege. Decidiu que têm muito mais o que fazer. Não se ofenda. É que elegemos outras prioridades. Por que você não foi consultado?  Você sabe distinguir a causa justa das suas necessidades pequeno-burguesas? Não? Pois é, por isso mesmo tomamos as rédeas e decidimos quais causas merecem precedência. Vamos resumir para que o Senhor entenda e memorize de uma vez por todas: o sujeito individual perdeu a importância. E o interesse. Deste ponto em diante nós só lidamos com multidões, rebanhos e lobos solitários. O Senhor vai insistir e protocolar uma reclamação? O nosso SAC encontra-se indisponível. Tente depois das eleições, até lá teremos novidades no guichê.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/a-ignota-culpa-do-cidadao/

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Os horizontes do Justo (blog Estadão)

04 segunda-feira jul 2016

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Tags

blog conto de noticia, direito à autodefesa, hermeneutica, justiça, Justiça social, justice in Israel, Mario Vargas Lhosa, redução de problemas complexos, shoah, Suprema Corte, tzadik, tzedaká

Os horizontes do justo

Paulo Rosenbaum

04 julho 2016 | 11:56

Discordo, e não é só para contrariar o bom humor com que o notável Mario Vargas Lhosa finalizou sua coluna sobre os justos de Israel neste Estadão. Pelo que se vem falando sobre os dilemas contemporâneos de Israel — implicitamente ligado ao shoah e ao destino do povo judeu — o leitor corre o risco de imaginar que tudo pode ser condensado aquele único horizonte. Opressor contra vítima. Dominador e dominado. Segregador e segregado. Destarte, o mais estranho tem sido observar a redução de um conceito muito caro à humanidade — como é o caso do “justo de Israel” — ao guerreiro que se autodenuncia, o combatente que recusa a violência ou o homem que renega, por questões morais, toda hostilidade cometida por sua própria tribo. Justo tem sua raiz na palavra hebraica tzadik que por sua vez deriva da palavra tzedaká, cuja tradução apenas aproximada seria “caridade”. A estas características seria bom acrescentar outras, talvez mais relevantes, decerto mais próximas do conceito original. Ao menos estabelecer uma equivalência analógica. Há um conceito ampliado do justo de Israel,  pois há também o “justo das Nações”: é aquele que se aproxima da santidade. Aqui tomada menos em sua conotação transcendente, mas como sujeito que consegue atingir um estágio de conhecimento e separação que  o habilita a estabelecer um julgamento quase perfeito. São tão poucos e raros aqueles que logram alcançar este patamar que a axiologia foi obrigada a criar a categoria de “intermediário”. Uma espécie de pessoa que, incessantemente, busca a justiça — abarcando também o bastardizado conceito de “justiça social” — mas que, muito provavelmente, não a alcançará. Ao menos através de um modo acabado e idealizado.  Já o justo, de acordo com os critérios da hermenêutica é aquele que atinge o grau máximo de discernimento. Grau que nem sem sempre está de acordo com o que anuncia o senso comum. Esta é uma peculiaridade muito própria do justo; estar oculto e ser minoria entre as minorias. Por sua vez, o justo, quando chamado, manifesta-se por inteiro, a contrapelo, enquanto outros preferem esconder-se na maré do senso comum. Nesta acepção, o justo sempre buscará a paz, sem, no entanto, desfazer-se do direito à existência e, principalmente, sem renunciar à autodefesa. O justo também não é nem um traidor nem alguém que se dispõe à autoimolação. De que valeria um justo sacrificar-se ofendendo os próprios balizamentos éticos? Um equânime que serviria apenas para o endosso de uma violência que não se cala? Israel não é um mar de rosas, muito menos um lugar perfeito. Se a opressão não é justiça, ceifar a vida de inocentes com ataques terroristas menos ainda. Se a ocupação é condenável e uma política colonialista um pesadelo, a resposta jamais será a prescrição de esfaqueamentos aleatórios. Há uma importante distorção na análise da desproporção. Disputas territoriais e questões étnicas tem sido cooptadas como uma causa que vitimiza apenas um lado. O supostamente mais fraco e indefeso. A tragédia, e ela existe, é sempre bilateral. Teorias sócio-psicologicas se esforçam para explicar a preferência pelos fracos e indefesos contra a potencia que subjuga. Mas, uma vez conhecidas, eles não pode servir para endossar o álibi da demonização branca de toda uma sociedade. Há uma critica que oculta, sob o manto do discurso da igualdade, um viés repleto de preconceitos. Se o sionismo demanda ressignificação, isso nada tem a ver com as acusações genéricas e pouco fundamentadas que vem dominando a intelligentsia internacional e fomentando irresponsavelmente a globalização da judeofobia. O discernimento e a honestidade intelectual exigem colocar as coisas nos seus devidos lugares. Uma delas é separar os elementos para análise impedindo a aglutinação que generaliza uma condição particular. Só um Estado com altíssimo grau de consciência permitiria que militares insatisfeitos deponham contra este mesmo Estado, e ainda sejam protegidos em seus direitos pela Suprema Corte, ainda que com algum grau de censura. Deste modo, o “justo de Israel” pode nem mesmo ser uma pessoa. Não sendo uma personalidade, o justo não deve estar onde se supõe que esteja. Pode estar encarnado numa entidade abstrata, numa consciência com grande impacto na realidade. Pode estar exatamente na natureza ímpar de um País que permite que todos, incluindo jornalistas e ex-militares insatisfeitos, possam se expressar. Isso é justo. Mais do que justo.

Tags: caridade e justiça social, do justo e da justiça, Do justo e razão da justiça, Elie Wiesel, Hebron, Israel, justice in Israel, justo das nações, Mario Vargas Lhosa, minorias, Suprema Corte, tzadik e tzedaká, tzedaká e tzadik

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