• Uma entrevista sobre Verdades e Solos
  • Resenha de “Céu Subterrâneo” no Jornal da USP
  • A verdade lançada ao solo, de Paulo Rosenbaum. Rio de Janeiro: Editora Record, 2010. Por Regina Igel / University of Maryland, College Park
  • Resenha de “Céu Subterrâneo” por Reuven Faingold (Estadão)
  • Escritor de deserto – Céu Subterrâneo (Estadão)
  • A inconcebível Jerusalém (Estadão)
  • O midrash brasileiro “Céu subterrâneo”[1], o sefer de “A Verdade ao Solo” e o reino das diáforas de “A Pele que nos Divide”.(Blog Estadão)

Paulo Rosenbaum

~ Escritor e Médico Writer and physician

Paulo Rosenbaum

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Ainda gravaremos teu nome (blog Estadão)

23 sábado abr 2016

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Ainda gravaremos teu nome

Paulo Rosenbaum

22 abril 2016 | 12:58


Eu ouvi, mas admito, é possível que você não. O que ouço? Uma música nunca executada. Uma sequência de notas, sons instáveis, sem modulação. O melódico que não bloqueia, a voz que vêm pela raiz e transforma o destino. Que emociona sem dó. Ninguém ainda soube explica-la. Não sendo conquistável. Não se deixando apreender. Não sendo reconhecível, teria aparência indescritível. Alguém já disse: “a força de todos os homens e a leveza de nenhum”. Dizem que não ela pode ser reduzida, deduzida ou intuída. Para ela, não há relato único, nem simples. Autocrática, obedece apenas à própria experiência. Não se submete a ninguém a não ser ao próprio sujeito. Não expira. Não hesita. Não se dobra. Nunca pode ser compartilhada. Inquieta, a joia é arisca. Notável quando perdida, desvalorizada quando presente. Quem oprime, nunca a vislumbra. Não pode ser comprada, cooptada ou negociada. Afinal, não eram ricos contra pobres, minorias contra maiorias, nem educados contra ignorantes. Não há uma história natural de sua luta: afinal é costume que oprimidos não reconheçam o opressor como tal. Trata-se do inconfessável temor da emancipação. O desconhecimento aflitivo de um futuro que não prevê comando central. Mas os tiranos tem noção desse trunfo. Contam com ele. Beatificam-no.

O que desconhecem é a força dessa aspiração como necessidade vital. Demanda uma atmosfera que se estende ara além dos corpos. Detém a energia mítica daqueles que, em algum ponto do tempo, souberam. Fizeram e ouviram, nesta ordem.

Só mesmo num dia como hoje, as vésperas da travessia, onde escravos vão, por escolha, deixar a escravidão. Na noite que irão se inclinar como homens livres. Só hoje a liberdade pode nos envolver. À revelia do instante. Para isso, rogamos outro tempo. Um tempo do hoje. De máxima abertura. Da paz olvidada. Da cessação não mencionada.

Hoje, atravessaremos, e, só adiante, notaremos o percurso. O percurso à liberdade.

https://correio.usp.br/service/home/~/156dba5b6d4d51850f15ef56d1addd71.opus?auth=co&loc=pt_BR&id=335312&part=2 (mensagem sonora – copie e cole no seu browser)

 

 

Tags: a travessia, ainda gravaremos teu nome, blog conto de noticia, Blog Estadão Rosenbaum, Delírios pacifistas, Intolerância, liberdade, páscoa, pessach, poesia

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O inexorável destino da arrogância (Blog Estadão)

19 terça-feira abr 2016

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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O inexorável destino da arrogância

Paulo Rosenbaum

18 abril 2016 | 16:03

Não faz muito tempo. Na época vivíamos dias estranhos, torcíamos para que malandros destronassem sócios e ex-comparsas. Havia uma pseudo esquerda, que derrotada, chorava por uma antecipação nostálgica do que era só desejo de justiça social, aquela que nunca vigorou. Enquanto isso, uma direita obtusa comandava um espetáculo que nem lhe pertencia. Hoje, à distância do tempo, é difícil avaliar. Mas, a tragédia da experiência de poder daquele núcleo duro político, mesmo removido e posteriormente processado e preso, não mereceria comemoração. Açoitar a civilidade sem piedade costuma dar nisso. Somos forçados a escolhas que nem pedimos, nem entendemos. Mas é preciso impor particularidades. Não há normalidade alguma aceitar obstrução à justiça. Muitos diagnosticaram que aquele governo caiu pela soberba, o inexorável destino da arrogância.

Tudo começou há algumas décadas. Havia um sistema de castas. Políticos e personalidades tinham o que se chamava de “foro privilegiado” e os membros de um poder interferiam abertamente sobre os demais. A sociedade parecia hipnotizada pela culpa. Nenhum outro País ocidental tinha legislação tão benévola. Em nenhum outro rincão de mundo legislar em causa própria estava tão naturalizado. Todos diziam defender a democracia, que, como hoje sabemos, virou uma vaga noção polissêmica. Sem qualquer valor argumentativo. Ditadores e massas manipuladas os usavam abertamente para defender o que lhes conviesse. Somente em nossos dias soubemos também que nada teria sido fortuito. A brincadeira fiscal era um dos cernes do programa. O “exército industrial de burgueses desempregados” fazia parte essencial da arquitetura da desconstrução. Persistente e determinadamente a desorganização foi sendo sustentada e martelada nas cátedras, na mídia subsidiada, nas reuniões do Partido. Sob o lema já anacrônico na época — “destruir o sistema para reconstrui-los em outras bases” — as anti reformas eram impostas com tal facilidade que os agentes se diziam surpresos com a “mansidão incauta da maioria”. Os slogans se proliferavam para obstaculizar os debates. Com técnica e método tiveram êxito notável. Mitômanos e ingênuos, intelectuais e gente simples, era comum que todos aceitassem as armadilhas. Até que caíram na Rede. Bem que tentaram metamorfoses mudando de perfil, escondendo o currículo e a folha de serviços prestados. Alguns buscaram exílio, negados, pois não havia naqueles Países cláusulas de abrigo por crime comuns.

Alguém, a identidade correta sempre ficou indeterminada, teve a ideia inspirada em um velho livro. Penas alternativas não seriam suficientes para recuperar aquela parcela de políticos que cederam suas reputações aos crimes. Mesmo aqueles justificados como empréstimos para um bem maior. A cooptação e seu sinônimo mais conhecido, a corrupção tornava-se institucional. Era o preço a se pagar para fazer do jeito deles. Nas prisões comuns ou de segurança máxima ainda continuaram convictos em seus delitos. A pergunta que a sociedade se fazia à época era “por que a taxa de recuperação dessa gente é tão baixa?” Muito inferior do que a dos detentos comuns. Afinal, ali havia gente pouco educada, mas também aqueles que frequentaram escolas caras e pós graduados em grande centros do saber, nacionais e internacionais.  Estudos mostravam índices mínimos de recuperados e reintegrados à sociedade. Além disso, o cálculo para mantê-los permanentemente monitorados era um peso para o Estado. “As Cidades Reeducativas” surgiram como uma nova concepção. Só depois adotada por outros continentes. Nada mais dentro do espírito de uma nova formação do que condena-los a viver governados por eles mesmos. Estes presídios neo urbanos forjaram uma nova ideia de regeneração e um novíssimo conceito de reintegração social de agentes públicos. Banidos para sempre das funções administrativas para a sociedade, eram condenados a viver as vezes pela vida toda nestas cidades especiais. Gestores públicos devidamente protegidos, passaram a ser obrigados a estagiar lá. O objetivo era observar tudo que não deveria ser feito em gerenciamentos políticos. Um deles concedeu recentemente uma entrevista e sintetizou da seguinte maneira sua experiência: “Meu aprendizado lá foi ter percebido como eles enxergam a função do político. O surpreendente é que a maioria vê o Estado como um desvio de função. Me parece uma visão insanável. Falam sem parar. Repetem slogans incompreensíveis. Outros dedicam seus discursos à família mas não conseguem articular uma frase inteira. O mais estranho é que têm ideias preconcebidas sobre tudo e não aceitam outras formas de enxergar a administração pública. Um deles chegou a me dizer sem nenhum constrangimento — e isso me fez perceber quão perturbados eles ficaram nos anos nos quais reinaram — que “se a sociedade não pode existir do jeito que nós a concebemos, melhor que ela não exista”. Posso dizer que foi proveitoso e didático, só não piso mais ali, todos os estagiários voltaram com náuseas.”

Tags: arrogância, blog conto de noticia, blog estadão, Cidades Reeducativas, democracia, impeachment, inexorável destino da arrogância, o futuro, polissemica democracia

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Justiça em Transe (Blog Estadão)

06 quarta-feira abr 2016

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Justiça em transe

Paulo Rosenbaum

06 abril 2016 | 13:09

“O poeta não tem nenhum poder, não pode remediar mal algum, somente é ouvido quando encomia o mundo, não porém, quando o apresenta como ele é na realidade”

Herman Broch – A Morte de Virgílio

Têm sido vertiginoso, discutível, duvidoso. A advogada explodiu em catarse. O professor de ética jurou que as instituições não estão funcionando na democracia não regulamentada. O jornalista acaba de modular, contundente e ao vivo, a voz de milhões. Futuro alvissareiro? Senhor, observai a faina no campo. Há uma justiça sagrada, na qual a lucidez é temporariamente abolida. Cede espaço ao transe. Para enxergar justiça não basta ciência e jurisprudência: é vital considerar o sentimento dos arredores. Por isso senhor, seria bom constatar que quando a cidadania se entrincheira, ela já foi perdida. O que pedíamos? Algo aparentado a uma visão panorâmica? Que pode até prescindir de líderes. Que sabe que o hiato é temporário. Uma profundidade que, sendo, ao mesmo tempo, inédita e sensível, nos dirigiria como conjunto. Que reagrupasse a fragmentação. Não é o que temos enxergado. O escudo que blinda os que governam não é promissor. Não preserva, enreda, não protege, insufla, não equaliza, perturba. A provocação que fazemos hoje não pode mais se pautar em vereditos isolados, sem contexto, pasteurizados. Não se trata de condenar o destino de muitos para indultar poucos. Nem de fechar as portas à defesa. A busca da paz não pode ser reconhecida até que o horizonte se expanda. Ninguém mais tolera constrições. A letra não merece superpor-se ao espírito das leis.  Não se organiza convívio de dentro das sombras. Nem a tolerância na miséria. Pedimos clareza senhor. É demais? Compreendo. Sim, as razões de Estado! Mas, e quando as razões do Estado vão contra as de toda sociedade. Paciência? O senhor é um devoto da técnica? Um escravo do dever?  Seu perfil é isento? O meu não. Meu partido é o da transparência. Por que então se fecharam na sala? Por que homens públicos tem encontros privados sobre assuntos públicos? Para nos ocultar? O que senhor? Não nos deve satisfação? Talvez. Mas e se não a pedíssemos? E se exigíssemos equidade. Como assim, projeto? Senhor, não endossamos projetos. As pessoas pedem muito pouco dos excelentíssimos e nobres. Não senhor. Dispensamos deferências, assim como regalias. A justiça, pergunto se o senhor já considerou, pode passar a respeitar consensos. Não, não o vosso. Mais de dois séculos foram necessários para que a divisão de poderes estivesse nas normas? A cidadania que chegou ao front Senhor, já pediu agua, não valas de guerra. O senhor pode enxergar o que o Poder está fazendo? Neste minuto? A apenas algumas quadras de vossas excelências? Aonde podem chegar? Difícil predizer não é mesmo? Com quais armas os defenderá? Não lhe parece abusivo? As fronteiras estão abertas Senhor, e nas nossas veias jorram um estranho calor. Portanto, já que a técnica e a ciência nos levaram ao beco, que tal mirar-se nas palavras do poeta? Não aprecia o gênero? Prefere o mistério? Eu já desconfiava. Só posso me despedir explicando: a última estrofe tem ritmo alucinante e uma melodia que a excelência jamais experimentou. Segure-se bem na poltrona, o senhor pode se surpreender.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/justica-em-transe/

Tags: equidade, Herman Broch, juízes, juízo, mort de Virgilio, o justo

 

 

 

 

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O insanável preço da neutralidade (Blog Estadão)

01 sexta-feira abr 2016

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Nem me perguntem como. Hoje, evitei a morte ou aprendi a morrer. O que ela representa a não ser o despejo da memória? O exato momento que isso aconteceu não é preciso. Já andava com o coração abalado. O triunfo do injusto não acerta a mente, não deprime a razão, não ofusca a matéria: exaure o sentimento. Foi quando percebi que o País submergiu em um drive in 4D. Tudo parece real, mas pisamos num palco de extensão desconhecida. Num vácuo do cogito. Não penso mais em esquerda e direita. Nem em progresso, principio conservador ou centro. Nada mais me prende ou me sustenta. Abandonei os argumentos. Não valem mais nada. Não são mais essenciais ao convívio.  Com o nazismo evocado, a falsidade ideológica foi holofotizada. A farsa se consolida como discurso. Como interpretação na boca de ex-idealistas, ou na hostilidade difusa. O passado pode não sustentar o futuro, é apenas hábil em perverter o presente. A verdade, foi sendo comprimida em 600 toques. Ou comprada com anúncios pagos à vista. Estamos igualmente perdidos, mas não podemos admitir o extravio generalizado. Não podemos confessar que o cadáver que acabam de solicitar é o embalsamado corpo da sociedade. Inconcebível, mas é possível supor. Os insepultos costumam voltar e pedir justiça. Em outras circunstâncias estaríamos todos juntos quando se trata de um crime. No mesmo pé. Tomando o pulso das coisas. Agindo como sujeitos de uma República. Mas, como todo projeto foi sitiado pela grandeza, estamos impedidos de dominar os fatos que se impuseram sobre nós. A realidade excedeu o onírico. O descontrole guiou-se por pauta própria. O estado policial desceu às diligências, e a realidade de campo tornou-se ingovernável. Poder não é governo. O dinheiro subsidia a política, que, por sua vez recusa-se a deixar o posto. O País que vá à breca. E nossos corações, enfim, se inclinaram ao conforto relativista. Numa cultura hegemônica quem pode falar e ser ouvido? Se a representação está equivocada, deveríamos nos submeter a quem? Aos caprichos do vento? Levados pelas roldanas dos fenômenos? Ou aceitar que o domínio deve mesmo ficar com quem teve maior habilidade para cooptar, corromper e monitorar os demais? Neste caso, a tabela registra 1 milhão para barrar e 400 mil para faltar. E então me permito entrar em estado de duvida.

Duvido da soberania popular, tanto quanto dos pleitos viciados. Duvido de arquivos vivos e dos queimados. Duvido de instituições que esperam o abismo para agir.

E não temos mais previsão. Nem para qual direção caminhar. Deixaremos a crise resolver a crise? Neste caso, qual seria nossa função? E se não quisermos mais ser coagidos a escolher? E se preferíssemos mudar tudo, de hora em hora? E se construíssemos uma representação sem ideologia?  E se escolhermos a equidistância segura dos dardos lançados a esmo? E se julgarmos que não devemos mais depositar nada para ninguém? E se os Sertões contivessem um conselho a ser seguido? A exaustão não é só uma escolha. Ela é o remorso da inação.

Posso, enfim, responder: renuncio.

Renuncio ao poder que discrimina. Renuncio ao contágio destrutivo. Ao tônus das ofensas. Ao desvios de finalidade. Aos postulados de vingança. As pulsões de morte vestidas como juramentos. Quando adiante alguém contar aos netos o que estamos vivenciando, que o façam antecipando: — Perdão. Provavelmente, não conseguirão entender, mas, caso sobrevivamos, ainda carregaremos o ônus da omissão. E pagaremos — em prestações nada suaves — o insanável preço da neutralidade.

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A teia e o enredo (Blog Estadão)

27 domingo mar 2016

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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“Nem sei mais se são os tempos ou os contra tempos. Sei que pago o preço, o preço do meu bem estar ter se fixado na contra mão de outros com excessivo poder. Processo histórico, preâmbulo revolucionário, estado estável insuportável? Estamos todos num só barco imaginando como e quando o mar nos dividirá. Mas, e se nos descobríssemos embarcações mais fortes daquelas à deriva? E se a constituição não fosse apenas um joguete hermenêutico nas bocas da corte? Não posso culpar ninguém. Minha decisão era só minha e atingiu um estado incontornável.  Mas há ou houve algum suporte coletivo que poderia ter evitado esse desfecho trágico? Até isso ficou para trás. Neste confinamento que já dura meses (nessa escuridão perdi a noção do tempo) essas são as últimas palavras de um juízo que, não tarda, será extinto, infelizmente pela violência, não da maioria que exigia ser emancipada, mas por força da truculência, da chantagem, do medo e das armas. Se alguém puder ter acesso a isso adiante afirmo que  não esmoreço, não esmorecerei. Se vou ser silenciado que seja diante deste protesto, cujo deslacre pertence ao futuro. Admito ter extrapolado limites em alguns momentos mas  ainda” (O bilhete termina abruptamente)

Esse bilhete manuscrito foi achado há apenas seis meses, enterrado na cela secreta número 13. Encontrado numa província ao Sul do Lago, deve ter sido escrito alguns dias antes da acusação de alta traição. Sua datação exata é imprecisa por conta dos incêndios que se seguiram aquilo que hoje conhecemos como o Verdadeiro Golpe. Na época, ainda era tática usada para confundir a opinião pública. Era prática comum daquela agremiação acusar de golpe as forças constitucionalistas, para, então aplicar sua própria modalidade de exceção. As forças da Usul e os blindados assumiram posições em vários estados da federação. Isso foi um pouco antes da caminhada dos 50 milhões, oficialmente a maior concentração pacifica de civis já registrada no planeta. No dia 08 de julho as tropas nacionais, em desavença, se viram frente a frente, contra e a favor do governo, já declarado ilegítimo por praticamente todas as instituições. A operação “Iludir-Frust” desencadeada pelo poder prestes a cair, foi marcada pelo silenciamento da mídia, suspensão dos direitos civis, e toque de recolher em cidades com mais de 100 mil habitantes. Ninguém respeitou. A ameaça de uma conflagração civil fratricida tornava-se eminente. No dia 09 de julho a ordem transmitida em castelhano e ouvida pelos dois lados para “bombardear las fuerzas contra-revolucionarias” deram o alerta e foram também desrespeitadas. Foi somente no dia 10 daquele mesmo julho, com o avanço de tanques e colunas de infantaria vinda das fronteiras do oeste e de cima que o exército de Trasio foi reunificado, e  ainda que salva de tiros e escaramuças tenham sido reportadas em várias localidades, assim como esporádicos choques entre civis, nenhuma gota de sangue foi derramada. Numa estranha e rápida reviravolta, menos de 36 horas a tropa, reunificada e a agressão externa foi rechaçada, e os invasores foram presos e escoltados para além dos limites da cordilheira.

Surpreende que tudo isso tenha chegado a este ponto e tenha acontecido numa escala e volume de desvios inimagináveis. Desde o fim da guerra fria não se testemunhava um Estado dominado por cúpula tão habilidosa na arte de deslegitimar a democracia. Tudo isso aconteceu um pouco antes dos anos 20. Trasio havia sido controlada por uma espécie de poder paralelo que instaurou políticas fiscais autodestrutivas. Praticamente todas as instituições precisaram ajoelhar-se diante do alcance e poder do Estado que prosperava sem oferecer praticamente nenhuma emancipação real — de renda ou autonomia — para seus súditos. Entretanto, como negócio privado dentro do Estado fora um plano considerado bem próximo da perfeição. Sem os acasos e imponderáveis que desfiaram a teia e o enredo, estima-se que talvez tivesse durado mais 50 anos.

Nesta primeira aula de História da Administração do século XXI, disciplina oferecida por esta Universidade em português e inglês, nosso objetivo não é o julgamento do passado, apenas oferecer elementos para interpretar o que realmente aconteceu em Trasio nos últimos 30 anos.

Sob um consenso nunca antes registrado na história contemporânea das nações, a caminhada teve inicio e apoio maciço. O governo, que já comemorava a vitória soube da reunificação das tropas e do avanço da FRP. O Poder foi sendo sitiado pelas multidões organizadas pela FRP (Forças da Resistência Pacifica) que fluíram de todas as regiões até a cidade de Ilia. Cercada, a cúpula tentou então destruir os documentos da “pasta L”, as mais graves evidências documentais, a essência do material incriminador. Em meio a situação ainda ouvia coros desestimulando a renuncia. Em seguida, a chefe, pessoalmente, tentou transporte junto às companhias de helicópteros. O objetivo de curtíssimo prazo era deixar o Altiplano para buscar exílio no País do meio, mas mesmo as embaixadas consideradas amigas foram instruídas a acionar suas secretarias eletrônicas. Como ninguém mais os atendesse, recorreram às milícias acampadas nos arredores do palácio quando se descobriu que as barracas já haviam sido abandonadas. Já que os motoristas e serviçais também haviam sumido, recorreram às bicicletas. Com disfarces improvisados chegaram até a Esplanada de Ilia, mas foram alcançados por populares antes de chegar ao aeroporto onde haviam combinado sequestrar um Boeing 727. Presos pelos civis foram entregues às tropas e seguiram diretamente para a província do Sul. Quando lá chegaram, com garantias de amplo direito de defesa, foram julgados e condenados por crimes contra a humanidade. A ex chefe saiu sob liberdade condicional em 2030 e alguns anos depois ainda tentou, em vão, se eleger vereadora de uma cidade pequena no extremo sul.O tal bilhete, perdido por quase 20 anos, e recém resgatado, ficou sob poder do novo Tribunal. Desde as reformas dos anos 30 que corrigiram quase todas as distorções ideológicas — do ensino à política —  foram inseridas importantes novas cláusulas para evitar a repetição de uma hegemonia quase perfeita que se instalou na distante República de Trasio. Radicais e populistas de direita e de esquerda foram varridos pelas urnas. Na nova constituição, itens pétreos foram instaladas como salvaguardas estritas contra qualquer tentativa de poder hegemônico. As instituições judiciárias agora poderiam se manter incólumes às pressões, e, protegidas de qualquer ativismo. Doravante, seriam eleitas a partir de listas elaboradas pelo próprio poder judiciário. O novíssimo congresso de Trasio também foi consequência direta daqueles dias turbulentos. Os empresários e suas mega corporações, então condenadas, tiveram que repatriar recursos e suas penas foram substituídas por serviços prestados ao Estado supervisionadas por comissões especiais eleitas pela sociedade. Com a reforma do sistema penal, prisões foram esvaziadas e a violência sofreu inédita diminuição. A infraestrutura que Trasio tem hoje, uma das mais eficientes do mundo, fora também um dividendo direto da ação dessa supervisão praticada por toda a sociedade. Com impostos diminutos, justos e descentralizados a sonegação passou a ser mínima. As disparidades sociais não apenas foram mitigadas como Trasio pulou à condição de 3a economia do mundo (e não a falsa sétima posição, alavancada por influencia do partido) com um planejamento original e completamente renovado.

O que acho? A renuncia poderia ter sido um último ato com alguma força e dignidade, e não de covardia. Imagino que vocês queiram saber o nome do autor do bilhete? Pois afirmo que hoje o nome não importa.  Depois de ser resgatado do cárcere de um porão na península próxima ao Lago Sudoeste, ele preferiu apartar-se da vida pública. Escolheu passar seus anos no convívio com a família ainda que seu nome continuasse por décadas na lista de prováveis candidatos à primeiro ministro. Nunca mais se ouviu falar do ex-chefe daquela República. Suspeita-se que, fugitivo, tenha conseguido deixar Trasio, e, sob uma plástica mal sucedida, mas suficientemente desfigurante, tenha vivido e morrido no anonimato numa distante província da Coreia do Norte.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/a-teia-e-o-enredo/

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Vou te dizer o que é golpe: (blog Estadão)

22 terça-feira mar 2016

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Atual, especial para juristas que execram a justiça!

Avatar de Paulo RosenbaumPaulo Rosenbaum

Vou te dizer o que é golpe:

Paulo Rosenbaum

06 novembro 2014 | 17:54

vou_te_dizer_golpeXXjpg

O transe que tomou conta do país, longe do fim, agora decanta alguma clareza.  O da saturação. Notou que cada pedra do muro de Berlim, guardada como souvenir ou vendida em leilões on line, revela um significado que te escapa? Sinto não ter te convencido que não queremos mais controle. Que o Estado que te seduz não nos interessa. É o anti-desejo do mundo. Que recusamos menos liberdade, não importa o que você ofereça em troca? Se somos minoria? Até anteontem. Parece que teu consolo, e a de muitos outros, é diagnosticar  indignação como sintoma de direita. Calma. A insatisfação sem dono é um junho que ainda paira no ar. Nem progressista, nem conservador. Lembra que vocês criaram o ensaio “massas sem rumo”. A mesma que agora buscou respiro nas urnas. Que desafiou teus planos tiranos…

Ver o post original 299 mais palavras

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A máscara do establishment

18 sexta-feira mar 2016

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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A máscara do establishment

Paulo Rosenbaum

17 março 2016 | 08:42

Podem me prender, processar, ou me enfiar num furgão preto chapa fria, mas não lutei contra o autoritarismo, junto com a família, para testemunhar isso. Entendia e compreendia a neutralidade de tantos. Também tenho amigos e ex-amigos que se calaram com medo de ofender quem ainda acreditava no projeto que ultraja a República. No entanto, ao contrario deles, não só é nosso dever criticar o Poder, como é previsível que, num futuro não muito distante, a maioria reconhecerá o equívoco. Mais do que isso, irão admitir, inclusive, que se o petismo degenerado tivesse sucesso na implementação do golpe totalitário, todos correriam risco, risco de nem poder mais emitir suas opiniões. Depois de obstaculizar a justiça, a liberdade seria o próximo alvo. Isso já seria um grande motivo para contestá-los, ou não? Hoje parece distante, mas, na época, estávamos todos colados, bem ao lado de uma ardilosa opressão silenciosa. Agora, tudo mudou. Todo sul do continente se cansou. A apropriação indevida, a justiça inconclusa, a probidade em público, a canalhice privada, as migalhas ofertadas, o populismo que subsidia, os parâmetros sem critério, as transgressões impossíveis, a impunidade naturalizada. Nesta análise não há moralismo, apenas consciência de que o predomínio é ilegítimo. A ilegalidade não merece mais ser tratada com neutralidade, nem distancia. O contraditório pode ser respeitado, a bizarra defesa de um Estado movido pelo crime, não. Aqueles que persistem em endossar perderão o rótulo de sonhadores, e já não podem ser poupados. Para obstruir, é preciso coragem. E a ousadia pode ser predatória. Mostram-se dentes sob a pauta do oportunismo. A constituição, pisoteada, sendo rasurada, com ou sem registros em latim. A Democracia que, ainda imatura não constituiu defesa eficiente contra as brechas autodestrutivas, pode, sem aviso prévio, sofrer avarias graves. Mecanismos regulatórios e as garantias individuais sobrevivem, e não pelo mérito deste governo. Um estado policial é um pesadelo. Paradoxalmente, o juiz Moro teve razões de sobra para cercar-se de evidencias forenses. Ou há alguma outra forma para controlar um regime que se fundamentou no registro do crime? Que o legalizou em troca do projeto? Antes que se abafem as instruções, a liberdade precisa coibir a tentação hegemônica. O monarca que sonha em destruir evidencias precisa ser afastado. Seus subalternos detidos. Seu poder ceifado. Sua sócia impedida. Antes fosse que o crime mais grave a posse do sítio, triplex ou objetos. Se a acusação fosse clara, a fraude seria usar a democracia para estilhaça-la. As instituições sôfregas, cambaleantes, ainda soluçam, ainda podem sangrar, a ferida seguirá contaminada. Contra um gigantesco aparelhamento exige-se minucioso desmonte. Pois as pessoas não apenas se cansaram: já mudaram os cânticos. Os tambores esticados, mas ainda não percutidos. Já as vozes, podem ser ouvidas à distância. Sabem o que mais? A civilidade se consumou diante do escárnio, do autoritarismo mascarado, dos beócios grampeados ao poder. Naqueles que se fixam, com ou sem foro privilegiado. Aliás, toda questão poderia se concentrar nesta única palavra. “Privilégio” afronta a equidade, o sentimento constitutivo da justiça. Mas quem enxerga isso? Pendurados às margem dos palácios eles precisam continuar, se acham no direito de persistir. Com aval de intelectuais comprometidos. Poderia ser um escândalo, mas trata-se de um planejamento mistificador. Uma técnica que paralisou oponentes. Que encheu de arrependimento a burguesia e amordaçou a sociedade. A popularidade sempre assombrou críticos e inibiu discordâncias. Afinal, dissidências tiram votos. Num sistema completamente imperfeito todos querem estar no orçamento. O veneno triunfou, por algum tempo. Colou em milhões por mais de uma década. Ocorre que o apego ao poder, tem seu espelho. Do outro lado comporta uma natureza explosiva, incontrolável, com potencia para inflamar os governados. E combustões se propagam. Mesmo aqueles que se deixaram abandonar à sedução de uma motivação idealista, hoje esvaziada de sentido, nem mesmo eles podem ignorar: de fato, o establishment hoje luta pela causa: causa própria.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/a-mascara-do-establishment/
Tags: blog conto de notícias, grampos, ilegalidade e ilegitimidade, máscara do establishment, o que é justo?, realidade

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O mínimo que nos une (blog Estadão)

14 segunda-feira mar 2016

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos, Imprensa

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O mínimo que nos une.

Paulo Rosenbaum

13 março 2016 | 13:10

 

Eu poderia me afundar na neutralidade. Há anos faço isso. Não gosto de concentração, de aglomeração e tenho surtos de claustrofobia., Mas hoje não. Hoje um sentido de agrupamento me invadiu sem dar aviso. Caminhei quase automaticamente. Cheguei ao núcleo e lá me vi cercado de pessoas com as quais não tinha afinidades. Meu esforço era buscar qualquer identidade, parecia impossível. Continuei andando. O palco era o mesmo, o asfalto tenso com pedidos dispares, sem foco. Mas havia uma, comum à maioria. Queriam mudar. Exigiam o fim do pesadelo. Foi quando ergui o celular para captar a multidão que levei um cutucão. Era Irma, a amiga perdida, uma das melhores, que me bloqueou lá atrás, quando os escândalos começaram. Todo mundo sabe, os contatos nas redes sociais são voláteis. Com Irma era diferente, uma amiga de infância. 26 anos de contato interrompidos pela estranha devoção ao partido.

–Você, aqui? Enfatizei meu espanto.

— Só vim dar uma olhada.

— E o que me diz?

–É a direita, sempre a direita.

— Vamos começar de novo?

— Não, é só você admitir

— Admitir o que?

— Que traiu a causa.

— Minha causa é a sua causa, e de toda essa gente.

— A minha não! Ela limpou a boca.

— Qual é a sua?

— Você está careca de saber. Justiça social, decência, o fim de toda essa bagunça

— Irma, é o que quase todos querem. Dá uma parada, sinta a realidade.

Ela olha em volta e retorna um olhar negativo

— Bando de burgueses!

— Posso dizer bando de cidadãos!

— Não acredito, esqueceu das aulas?

— Fui além. Também fiz questão de desaprender livros

— Bem que me falaram, você cedeu: virou um deles.

— “Um deles”? Somos todos “um deles”

— Nada. Eu não! Ela ameaçou se afastar.

— Amiga, demorou, mas percebi: eles não eram republicanos. Não finja não ver o jogo que eles fingem não jogar.

— Aff. Não embarco nessa.

— É fácil, tirei os óculos e ajustei a lente.

— Ok. O que me diz de todos os intelectuais? A maioria fechou com o governo.

— Não é mais unanimidade e você sabe tão bem quanto eu que eles nunca tiveram bom gosto.

— Gosto? Por favor…

— Faz o seguinte, que tal confiar mais na experiência do que na sua inteligência?

— Não dá, eu ainda tinha um fiapo de esperança

— Tenha. Olha isso! E apontei para todos ali.

— Estou vendo e isso só reforça o que eu já tinha concluído.

— O que Irma?

— Que somos incompatíveis.

— E o que faremos?

— Cada um fica na sua.

— Abandonar o ideal e ficarmos com o mínimo que nos une?

Ela deu de ombros e foi se afastando, mas deu tempo para gritar

— Tem certeza?

Ela só virou o pescoço e usou a mão em concha para falar de volta

— Vou te desbloquear.

E foi desaparecendo, acenando de costas um longo tchau.

Me afastei da multidão para analisar a conversa. Desbloquear pode ter sido um sinal. Sinal de uma união possível e não ideal. De que o diálogo poderia voltar a fluir. De que uma democracia nunca é perfeita, comporta contrários e não anula ninguém. Que a incompatibilidade era uma espécie de cortina de fumaça de uma fogueira que nenhum de nós dois criou.

Me voltei em direção à gigantesca massa de gente e lá me entreguei ao êxtase. O êxtase do pertencimento.

 

Tags: blog conto de noticia, conto de notícia, dia 13 de março, impeachment, o mínimo que nos une

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Novíssima República (blog Estadão)

10 quinta-feira mar 2016

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Novíssima República

Acredita-se que o primeiro passo para o surgimento de uma nova cultura deve ser ajusta-la à linguagem. Na linguagem de Gramsci, fonte de inspiração para fundamentalistas locais, a tática é promover o que ele classificava como “hegemonia cultural”. Todas as correntes políticas, com maior ou menor domínio teórico, buscaram essa perspectiva. Para conquistar o sucesso nessa empreitada seria vital o domínio do sistema educacional. Encaixa-lo, perverte-lo e impingi-lo para viabilizar o projeto. O modelo ajudou muitos tiranos conseguirem que sociedades inteiras fossem submetidas ao arbítrio, mesmo quando se imaginavam livres da ameaça. Foi assim que depois da queda do muro de Berlim a palavra “comunismo” foi sendo apagada dos partidos e discursos. É assim também com outras expressões como “antissionismo”, atualmente usada consensualmente por esquerda e direita para escamotear a judeofobia, associada ao comprometido termo antissemitismo, também fazem parte destes deslocamentos estratégicos para ocultar termos desgastados perante a opinião publica. Neste sentido, recomendo a leitura do artigo de Roger Cohen do NYT, “Um antissemitismo da esquerda” traduzida e reproduzida neste Estadão. (http://internacional.estadao.com.br/noticias/geral,um-antissemitismo-de-esquerda,10000020266)

A palavra “impostos” é outra que tende a ser suprimida dos léxicos para dar lugar a “contribuição”. Afinal, contribuir, além de soar melhor, reveste-se da aura de espontaneidade participativa com que o Estado precisa contar para enfiar a mão no bolso dos contribuintes. O famoso conceito de Marx  “luta de classes” também foi se dissipando no caldo ralo de expressões como “justiça social” e “isonomia econômica”. “Nós e eles” substituiu com maestria o”ricos contra pobres” pois, sob o manto do sujeito indefinido “nós e eles” podem ser quaisquer agentes sociais, além de sugerir uma proximidade empática com o “nós” contra um distanciamento calculista do “eles”. Substituir terminologias e conservar, na maioria das vezes, o mesmíssimo conceito; para muitas dessas dissonâncias, dá-se o nome equivoco de politicamente correto.

Assim, no Brasil atual, também existem concepções que são muito peculiares ao universo lulopetista e a todos aqueles que vem se destacando na defesa desse governo terminal. Contornar expressões que impactam o senso comum, distorcer condições e contextos e coloca-las sob suspeita é uma espécie de exercício de engano sistemático. Esse é o plano B, já que quase todas as apostas autocráticas malograram enquanto o partido afunda no mal feito movediço gerado pelo desejo de poder. O abuso destes recursos, que adulteram o sentido, e distorcem os procedimentos democráticos se tornaram a estratégia predominante da atual gestão federal: apropriação indébita está sujeita a neo conotação “projeto social”. É possível que liberdade de expressão passe a significar controle da imprensa com censura. Democracia deve ser sinônimo de hegemonia do partido. Todos são iguais perante a lei parece ter sido igualado a “companheiros investigados merecem inimputabilidade ou ministério”. Condução coercitiva pode significar violação do Estado Democrático de Direito. Investigação parece ser sinônimo de abandono da presunção de inocência. E finalmente a grande sacada: seguir a constituição é golpe.

Quando lamurias generalizadas fazem o coro de que nos faltam lideranças criveis, estamos apenas endossando a busca inconsciente por personalidades magnânimas, quando já deveria estar evidente o desastre quando se trata de idolatrar caudilhos populistas, elegendo seus satélites e postes. O hiato de poder que temos pela frente é temerário, mas, comparado com o status da ocupação atual, que venha o vácuo. Apenas a maturidade da própria sociedade proporcionaria o nascimento de lideranças consistentes e não personalistas. Em 13 anos a confiança cedeu lugar a um brutal ceticismo, onde a palavra dos que nos governam não tem mais nenhum valor, salvo uma interpretação reversa. A passagem da indução subliminar para a explicitação da beligerância por parte daqueles que estão prestes a deixar o poder não deveria nos espantar. Espantoso mesmo é a passividade com que a aceitamos. De forma irreversível, e contra a marcha do autoritarismo que quase nos empareda por inteiro, as instituições avançam junto com a população.  Se os agrupamentos intolerantes desejam levar a estratégica às ultimas consequências terão que re-pactuar toda a linguagem. Sugiro que publiquem um glossário próprio, para uso exclusivo entre quatro paredes, dentro e fora dos bivaques que frequentam. O importante é que depois de todas as dores deste prolongado parto, o próximo domingo está prestes a dar a luz. Nascerá forte e será uma menina, Novíssima República.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/novíssima-republica/

 

 

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Working Class Hero (Blog Estadão)

04 sexta-feira mar 2016

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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04 março 2016 | 13:51

“Working class hero is something to be”

John Lennon

E agora Luiz? Você estava tranquilo. Nós não. Continuamos apreensivos. Volte aqui e converse. Também discordo. O momento não é de comemoração. Nesse momento, o trágico tem mais vigor que a esperança. Por favor, pode responder? Quem é herói da classe trabalhadora? Você? Lech Walesa? Não há nada muito claro? Por isso mesmo pergunto, suas prerrogativas são infalíveis? Nem heróis estão acima da lei. Talvez nem mesmo existam heróis. E mesmo que algum sobrevivesse, você poderia ter sido banido. Talvez um detalhe te interesse. Heróis são menos lembrados do que vilões. Você já parou para considerar? Não, de jeito nenhum, não é tarde, nunca foi tarde. Ninguém está te pedindo para voltar a ser o que o seu marketing ou os carismáticos te assopraram durante todos esses anos. Por um segundo pense nas pessoas traídas. Ou, quem sabe, mude o foco: observe quem está sofrendo mais. Não, não são só teus ex eleitores. Eu sei, eu sei, é só ligar a TV. De fato, ainda existem aqueles que te defendem. Isso, com unhas e dentes. Pense como o símbolo que você já foi. Uma parte sua, essa do símbolo, poderia estar a salvo, preservada. Não, não tem nada a ver com delação. Qual? Aquela que um homem simples, desculpe, tem razão, não se pode reduzir a isso. Correto. Um trabalhador. Então prossigo. Um trabalhador ter conquistado tanto apoio e estimulado o orgulho de milhões de outros. Messias do povo? Não, isso sempre foi exagero. E por sinal o Sr. não revolucionou nada. Poderia ter feito, mas não fez. Assim admito, a expressão “promovido algum bem” soa mais modesta. Sim, e por que não? Reconheço, é claro. Mas entenda, não é mais suficiente. Sua trajetória foi tortuosa, e, além disso, sua atitude Sr., contribuiu para nos levar a isso. O Sr., com a ajuda do seu partido nos forçou a uma inédita degradação. Não se trata dessa crise econômica. Por favor, agora estamos só nos dois. Não é externa, nem rápida. Passageira? Também não. O que preciso confessar é que ninguém queria a decadência. Ninguém queria mesmo é que a polícia e o judiciário ditassem os rumos. Certo? A oposição também precisa levar um pito. Vai levar. Qual seria então a degradação? Na cultura, nos costumes, no enaltecimento da ignorância. No País mais superficial e melancólico. O Sr. merece do bom e do melhor? Quem não merece? Engano seu. Não é moralismo burguês. Isso se chama “desejo de civilização” e não, nem adianta consultar o advogado. Sabe por que não está no código penal? Porque este é um desejo do espírito. Isso é mais uma evidencia do seu costume de desviar. Não está vendo nada de errado em ter recebido tanto em troca? Isso seria até perdoável. O que não seria? Romper a democracia e coagir o Estado. Perdão, isso não tem desculpa. Sua postura, caro, nos custou muito mais do que o saque da Petrobrás, do BNDES e dos fundos de pensão, que podem falir ou ser saneados. Prezado, entenda o seguinte: culto a personalidade costuma não dar certo. Sua ambição em ser maior do que o República nos custou a fragmentação da nação. Não, nem pensar, não vou parar agora. Os lados estão preparados, assim como o ambiente: a mini guerra civil agenciada dos devotos contra a convicção maniqueísta do outro. De que lado estou? De nenhum, ou melhor do lado de um outro tipo de Estado e de um outro padrão de democracia. Seu assessor concordou em irmos até o fim. Adaptar-se é uma coisa, apologia do crime outra. Seus porta-vozes, aquelas pessoas que, desesperadas, se sentiram na orfandade com seu exemplo? Sim, então por que no lugar de virar a mesa o Sr. não pensa por um minuto na República?

Ela sangra, mas por enquanto o torniquete bem aplicado resolve.

Ainda dá tempo. Ainda dá. Ainda.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/working-class-hero-e-agora-luiz/

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