Tags

, , ,

Dedicatórias

Paulo Rosenbaum

23 maio 2016 | 13:45

Ele costumava fazer dedicatórias rápidas, às vezes confusas, outras inspiradas, a maior parte das vezes, como a maioria dos escritores, limitava-se ao protocolar. Só depois do incidente passou a achar que lançamentos de livros deveriam ter outra concepção. Começando pelo título: “Noite de autógrafos” impunha um limite inadmissível ao evento. Primeiro, porque achava que um livro físico, sólido e tridimensional ainda era imbatível na categoria “a melhor invenção dos homens”. Depois passou a entender todo livro impresso como “matéria orgânica a ser decodificada”.

— O livro, sendo uma máquina de diálogos — já que é a interação do sujeito com outra imaginação — produz resultados imprevisíveis.

O episódio o convenceu que era preciso individualizar as mensagens. Precisava deixar uma mensagem pessoal nas páginas daqueles que enfrentavam as filas e, de quebra, estar atento à caligrafia. Achava indelicado, um verdadeiro insulto, ter que se guiar pelos papeizinhos que vinham ajeitados na página inicial com o nome das pessoas. Aquilo só servia para contornar o vexame da amnésia instantânea. Mas considerava que o constrangimento por esquecer o nome da pessoa não deveria ser maior do que não saber quase nada sobre ela. Por qual motivo um desconhecido não mereceria nossa máxima atenção? Ser gentil com estranhos deveria ser encarado como obrigação cívica. O sucesso da individualização, evidente demais para ser renegado. Especialmente numa sociedade que faz questão de massificar, para, depois, valorizar a exclusividade. A verdade é que ninguém mais fica satisfeito só com o tradicional e burocrático “um abraço”, seguido de assinatura e data. Os autores podem ter desenvolvido seus próprios estilos de assinar exemplares, mas ele, por uma dessas curiosas idiossincrasias, não se renderia à média alguma.

A inscrição num livro se aproximaria de um ritual. Sagrado ou profano, o rito não é só um cerimonial burocrático. Quem teria percebido a dimensão simbólica envolvida? Transferir a marca através da tinta para dar confirmação ao novíssimo proprietário! Uma dedicatória, portanto, nunca poderia ser análoga a um contrato, documento bancário ou reconhecimento de firma. Sua tentativa passou a ser captar, às vezes em segundos, por alguma idiossincrasia, particularidade, de qualquer forma, num instante, qualquer elemento pessoal de quem passasse em revista na fila. Mas, como dizia o poeta, tudo é risco. Naquela tarde rabiscou “O justo precede a justiça”. Mal sabia ele que o sujeito para quem escreveu a frase era alguém que, acabara de enfrentar um longo processo, e que, depois soube,  tomou aquela sentença como uma ofensa pessoal.

Os leitores podem não ter consciência, mas o autor/artista, diferentemente de outros profissionais liberais, assim que aceita ser publicado, deixa de ser dono do que produz. Copyrights na língua portuguesa, na era das digitalizações, não passa de um saldo credor sem efetividade. É, deste modo, que o livro foi se tornando um objeto cada vez mais errante, que vaga de mão em mão, de uma estante à outra, ou, então, fica aprisionado em depósitos até que alguém o acolha. Por isso, não se explica a arrogância descontextualizada, o orgulho intelectual e a superioridade imaginária que a maioria dos autores imagina ter sobre os outros mortais.  Já a imortalidade, domínio de outra esfera, nunca esteve garantida, nem para os acadêmicos.

Está mais do que na hora de inverter a honraria. Em prol do leitor.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/dedicatorias/