Saio da política para entrar na amnésia coletiva

Paulo Rosenbaum

29 Agosto 2016 | 13h17

 “Ainda que tivesse perdido a inteligência de suas visões, teria no entanto chegado a vê-las”

 Arthur Rimbaud

Responsabilidade – do latim responsabile, calcado em responsu, de respondere. Dar garantia, palavra, dar fiança, endossar, precaver, seguro, fiador, obrigação.

Ninguém sabe exatamente o que ela esta dizendo, o previsível era mesmo a repetição dos refrões surrados, slogans de campanha, interjeições incompreensíveis e provocações não republicanas. Ela age como se fosse, mas ela não é, inimputável. A tese de que haveria uma insanidade temporária ou algum tipo de lapso causado por um stress super agudo também estão afastadas. Consciente de seus desvios, mas inconfessa convicta, prefere o papel de martírio tardio e de atriz subsidiada, a assumir suas responsabilidades. Menos pela sem precedentes desorganização das contas públicas e muito mais por desmantelar, junto com seu mentor, o próprio País. Sem entrar na avaliação da personalidade, seu penúltimo discurso atravessou a prepotência e desaguou, linear, no vazio de um heroísmo jamais concedido. Como se toda culpa fosse de outrem, vale dizer, os milhões que testemunharam um período político dos mais obscuros. Sua guerrilha agora se direciona à uma compaixão que prima pela secura, e a aridez característica de sua postura desvela o estado permanente de hostilidade. Sua autopiedade e apelo vitimizador não penetram mais em coração algum. Pois ela compõe, junto com seu séquito, uma cenografia tépida e sem contexto. Fosse ela a guerreira que julga ser, concederia a derrota e reconheceria a causa maior- a vida do povo que deveria ter governado – o verdadeiro ganho, seu afastamento definitivo. Fosse ela a dama de ferro que ostentou nas campanhas, libertar-se-ia de sua convicção e observaria a generosidade daqueles que se sacrificam pelo bem comum. Ao invés disso, ela se articula para prorrogar as dificuldades, agita a bandeira de sua própria causa e de seus beneficiários diretos. Usa recursos que não lhe cabem para arregimentar cineastas, políticos, cantores em claques que aceitaram fazer o papel de ventríloquos do inadmissível. Sem perceber claramente, suas ações aceleram sua desconstrução, corroendo os remanescentes fiapos de credibilidade. Claro que, com o capacidade de argumentação empobrecida voltam as palavras de ordem, onde “golpe” virou a exalação mais vulgar. Inútil narrar que, se houve algum, ele ficou patente em sua própria gestão. É mais do que provável de que assim como a superação dos obstáculos epistemológicos, cujo saldo deve ser examinado retrospectivamente, somente gerações adiante notaremos exatamente do que estávamos nos livrando. Só quando despacharmos o entulho petista, suas concessionárias, modelos, filiais, simpatizantes, entusiastas e sobretudo seu insuportável servilismo acrítico poderemos realmente finalizar o balanço da era mais pueril, nociva e absurda de nossa história recente. O discernimento, conquista da racionalidade e do bom senso devem continuar apagados por uma obstinação que perdeu o sentido, a direção e todo suporte. De todo modo, esta última década será conhecida como um apagão dos parâmetros razoáveis da convivência e do respeito pela cultura dialógica. E a culpa, desta vez, não poderá mais ser imputada às redes sociais, aos conservadores nem aos que discordavam do projeto. A toxicidade não provem do ódio, nasce da indignação sem voz.

O impeachment a ser definido, para além da figura jurídica do “crime de responsabilidade” — já que o responsável é aquele que assume, lidera, chama para si, patrocina — é o significado de responsabilidade. A pergunta sem contestação é: então quem respondia pelo País senhora? Aqui poucos méritos para a oposição que não conseguia cumprir seu papel e, sim, para as ruas e a opinião pública que, diante da acefalia, decidiu voltar a ser sujeito da própria história. Pode não durar. Aliás, não deve durar. É para lamentar, pois teria energia suficiente para modelar outro tipo de País: quem se esquecerá das maiores manifestações pacificas da história das democracias?

Em dias marcantes como estes, podemos até engolir o non sense, tolerar bravatas e assistir finais melancólicos como o que testemunhamos no plenário do Senado sem manifestar aborrecimentos: é que o saldo final será um estrondoso e extemporâneo sete de setembro.