• Uma entrevista sobre Verdades e Solos
  • Resenha de “Céu Subterrâneo” no Jornal da USP
  • A verdade lançada ao solo, de Paulo Rosenbaum. Rio de Janeiro: Editora Record, 2010. Por Regina Igel / University of Maryland, College Park
  • Resenha de “Céu Subterrâneo” por Reuven Faingold (Estadão)
  • Escritor de deserto – Céu Subterrâneo (Estadão)
  • A inconcebível Jerusalém (Estadão)
  • O midrash brasileiro “Céu subterrâneo”[1], o sefer de “A Verdade ao Solo” e o reino das diáforas de “A Pele que nos Divide”.(Blog Estadão)

Paulo Rosenbaum

~ Escritor e Médico Writer and physician

Paulo Rosenbaum

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O ano em que vivemos em função do fim (Estadão)

13 sábado abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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O ano no qual vivemos em função do fim.

Não foram só efemérides. Considerem que os tempos são relativos às espécies, Uma libélula vive seis meses, uma abelha um, a mosca doméstica 15 dias, um efemeróptero já na vida adulta, em média, um dia. Num Universo que estima-se tenha 5,3 bilhões de anos, o ciclo que se encerra hoje é apenas mais um. Arbitrário, como todas as decisões culturais. Entretanto, há uma outra linha que interpenetra as unidades que o mensuram. Isso significa que, talvez, o fim do ano possa se misturar com os começos e que os términos não sejam apenas reles finalizações simbólicas.

Por isso, este não foi um ano que apreciamos, nem sequer o vivemos, pode-se dizer que existimos apesar dele. Notem que, como nunca, a espera pelo passagem de um ano para o outro encontra-se anormalmente ampliada, sensorialmente alterada mesmo. Aos milhares pessoas estão afirmando nas redes sociais que o “tempo não passa” que os “365 dias viraram 500” e que “nunca espararam tanto pelo fim do ano”.

Ora, se o tempo é uma constante, por que o incosciente coletivo grita a mesma coisa? Por que o tempo fixou-se num estado de animação suspensa?

Relógios atômicos comprovaram a teoria de que quanto mais alto estamos — por exemplo numa montanha — mais rápido o tempo passa. Einstein previu que o fluxo de tempo pode passar mais lenta ou rapidamente por sofrer dilatação em função da gravidade de um corpo macíco que gera tal distorcão na equação espaço/tempo — o que teoricamente nos permitirá, um dia, viajar através dele.

Arrisco escrever que nossa aflição sobre o tempo orbita outra esfera, ainda que a metáfora do alto e do baixo venha a calhar. Visto de um angulo único este foi um ano repleto de atipias, sempre com baixíssimas expectativas em todas as esferas. Experimentamos inédita sequencia de anomalias institucionais. Uma gangorra psiquica que poucos povos em democracias liberais recentemente experimentaram  com tamanha intensidade.

Se consideramos o tempo psicológico nota-se então o que poderíamos chamar de constrição cronológica. Carregada de angústia incompletas. De tensões não objetivadas, as piores. Então sofremos pelo acumulo? Do que sentimos antes e depois de cada uma das decisões sem critério daqueles que deveriam comandar o País? Governos paralisados por um anestésico de lenta infusão? Como conseguimos sobreviver sob a enxurrada de contradições? Que tal viver sem saber se a República existiria no dia seguinte? Oprimidos por uma crise economica sem precedentes? As ameaças diárias de violência? Os dossies de gaveta? As tentativas de assassinato, e os mais de 60 mil bem sucedidos? Os endossos e retrocessos da corte? O País sob ameaça de um Estado Policial? Uma oposição mimética, que nunca fez oposição? Intelectuais que se curvaram ao Poder? A autocritica interditada nas Universidades? A mídia impactada por novas formas de comunicação? O império do senso comum subjugando os diálogos? Consensos impostos? A incapacidade das forças moderadas? Uma legião de fanáticos à espreita para obstruir qualquer reconstrução? A derrota previsível de um regime corrupto e faccioso? Ou a oscilação entre medo e esperança num próximo mandato?

É como se vivessemos numa baixada, e a cratera, uma depressão escavada por inimterruptas inepcias.

Pois, independentemente de onde te leve a reflexão política e ideológica, cultural ou religiosa, o problema do tempo, neste ano, decerto transcenderá teu dilema filosófico. O tempo originalmente uma escala de referencia geral, exigirá, sobretudo, transformar-se em unidade pessoal.

Daqui para a frente teremos que exceder o momento para nos dirigir à corrente de impressões do aqui agora. Eliminar a nostalgia antecipada e lidar de um outro modo com as torturas do passado. Reter a idealização para ficar na torcida do possível. Talvez o que torne interessante viver em tempos assim é seguir, e ainda que por coação aprender que nossas perspectivas não devem mais estar limitadas pelas expectativas.

Não mais.

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O tão aspirado nunca mais. (Estadão)

13 sábado abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos, Imprensa, Na Mídia

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A Shoah, holocausto, Nunca mais

O tão aspirado “nunca mais”

Já que podemos evocar a memória de acordo com nosso desejo, preferimos dispensar as tragédias, a morte e a destruição. Segundo os biólogos evolucionistas trata-se de uma adaptação. Não suportaríamos ter que conviver com o amontoado de frustrações, negativas, impedimentos, injustiças, o mal feito, o espúrio, o inacabado, a imperfeição, o desprezo, as circunstâncias constrangedoras, os desvios, a insuficiência, as urdiduras da perfídia, o triunfo da malignidade. Mas, e se um pouco de dor, de luto e de sofrimento funcionasse como um antídoto para toda essa mania?  E se conseguissemos nos colocar, no sentido de transferencia absoluta, no lugar do outro? E se ficássemos entregues — que seja uma vez ao ano — à memória dos mal sucedidos, dos perdedores, dos sofredores, da silente agonia dos sem voz, dos invisíveis?

Apontar e erigir monumentos às vitimas do mal feito é uma forma de fixar o insuportável em nossa tendencia à negação.

Um regime político pode exterminar de muitas formas, a mais eficaz contudo — e a história prova a tese — é através do populismo e do culto à personalidade. Exemplo atual é o perfil daqueles que nos prometeram justiça, igualdade de oportunidades e bem estar e, em apenas 13 anos, nos entregaram o País falido. A deseleição ocorre quando há mais deméritos no oponente do que méritos no rival. Foi apenas um espasmo de legítima defesa em meio à inércia, à falta de articulação, à inexistencia de oposição, e hoje, perplexos, nem nos perguntamos mais o que pensar daqueles que persistiriam no erro. Hoje representados por quem torce e milita contra. Evidentemente, para além da habitual desonestidade intelectual, trata-se de histeria anti-republicana, sobretudo guiada pelo velho e cansativo ranço ideológico.

O dia H é o dia da memória das vítimas do holocausto, mas poderia ser expandido para outras vítimas, igualmente criminosas, como as pessoas incineradas na Boite Kiss, nos arrastados em Mariana, em Brumadinho, em Teresópolis, em Angra, nas demais encostas abandonadas do Brasil, nos viadutos que despencam, nas passarelas precárias, nos trilhões sepultados em obras inexistentes. E, também, de todos os extermínios pequenos, médios ou grandes. Aqueles que confiam no Estado todo protetor ainda não sabem que há, bem aqui entre nós uma loucura muito particular: ela impede a compreensão do valor da vida. Nesta insanidade obnubiladora movida à matéria e arrogância está o germe do terror.

Não é só do terrorista comum, estes inimigos da humanidade, que preferem que a causa preceda a sobrevivência e o bem estar. Mas também, e principalmente, o usurpador, aquele que amadurece no trono e não quer mais larga-lo, dos tiranos que se escondem sob slogans e verbetes de ocasião. Se há culpa? Sim acumulada. Sim retida nos decretos. De vários partidos e instituições. Nos alvarás. Nas leis. Exato, assim como as leis raciais de Nuremberg, as vezes o crime tem chancela oficial, é do Governo que passa a usurpar o Estado.

Na Alemanha nacional socialista também foi assim. As legiões que acreditam em correntes ideológicas acima do pensar, da direita à esquerda, ainda existem. Geralmente são aqueles que prometem resgatar nações e promovem genocídios. Contam com o descaso, acreditam na amnésia induzida. Apoiam-se no esquecimento e na prescrição. Sabem que a qualquer momento podem queimar livros, perseguir minorias, mas especialmente imaginam que o sufragio lhes da o direito de pulverizar a memória. Em suas agendas já está registrado: “as manchetes se calam em três semanas”.  Mal sabem que a memória contém um compartimento secreto. A “segunda mente” na definição de Charcot. E ela é surpreendente, capaz de desaguar seu manancial quando menos se espera.

Freud em seu polêmico livro “Moisés e o Monoteísmo” conta que o que mais o impressionou no povo judeu era uma espécie de persistência quase irracional diante das adversidades. Cita o famoso caso de um dos sábios talmúdicos. Enquanto o Templo de Jerusalém ardia em chamas incinerado pelo exército romano, e quase um milhão de vidas haviam sido ceifadas pela espada, foi ter com o temível governador geral da Judeia que sonhava exterminar os judeus e fundar Aelia Capitolina. Vários tentaram dissuadi-lo da empreitada que poderia lhe custar  a vida. Inúltil. Ele seguiu e foi para até o tirano pedir autorização para transferir seus estudos para um outro local. Ora, por que? Perguntava-se o intrigado médico. Seguir adiante. Alguns chamam de pragmatismo. Outros classificariam de estoicismo patológico. Porém, ao fim e ao cabo, poderia apenas simbolizar um apesar de tudo, apesar de todos, escolher-se vida.

Pois esse espírito afirma que a humanidade pode seguir até um lugar onde cada um poderá ter tempo para se estudar, para sempre.

Quiça assim, e só assim, o tão aspirado “nunca mais” superará o eterno retorno.

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Geração de Neurônios Mortos (Estadão)

13 sábado abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos, Livros publicados

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A Pele que nos divide- Diáforas Continentais, poesia

Roubo no pomar acidental
Na barraca oriental hermafrodita
Rito ideológico (sextenal)
Fina cor,
papoula dourada.

Ri,
das flores maléficas.
Ri,
do inexistente denunciado.

Homicídio no lento sono, paradas curtas,
infinita dedução
Já, ali,
onde as mãos rolavam

o incêndio das aversões continentais!

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Haverá outro código para a Medicina?(Estadão)

13 sábado abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Amazon, Artigos, Imprensa, Na Mídia, O outro código da Medicina (e book) homeopatia, Pesquisa médica

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medicina integrativa, Outro código da Medicina, Samuel Hahnemann

Haverá outro código para a Medicina ?*

10 de abril – data de nascimento de Samuel Hahnemann

O que é um código? Pode ser uma coleção metódica e sistemática de leis, uma coleção de regras sistemáticas de procedimento e conduta, ou um sistema de sinais secretos ou convencionais usados no comércio e na literatura. O título deste livro insinua que pode haver mais de uma compreensão para a medicina, pode haver mais de um código de procedimento e conduta para compreeender saúde e enfermidade. E um não exclue necessariamente o outro. Vários códigos podem conviver e ser simultâneamente usados, sem que um tenha supremacia sobre o outro.

O público que consome livros científicos conhece pouco de medicina preventiva e tem noções muito vagas sobre as medicinas integrativas.  O conceito popular é de que a prevenção não é solução e de que uma medicina menos invasiva como as técnicas das medicinas integrativas pairam aspectos polêmicos. A verdade é que a grande maioria deste público as conhecem apenas superficialmente. Poucos a conhecem como uma medicina que cuida de sujeitos. Outros, não têm a menor idéia de sua abrangente capacidade de atuação que vai dos doentes com patologias severas às pessoas com problemas clínicos sem diagnóstico definido. Enfim que a prevenção pode atuar no indefinível estado chamado de “mal estar”. Este “mal estar” (illness) indevidamente pouco valorizado, também é muito importante na medicina pois aparece muito antes de que a patologia (disease), a doença propriamente dita se organize e apareça na forma de sinais e sintomas. O que menos gente sabe ainda é que a homeopatia interfere em todas estas áreas levando em consideração também o estado de saúde.

E por que o grande público sabe tão pouco sobre ela ou a conhece de forma tão estereotipada?

A homeopatia por exemplo é uma medicina sobrevivente. As provas são sua longa permanência na adversidade e sua lenta, porém sustentada expansão. As referências são escassas em todo tipo de mídia, especialmente quanto aos seus aspectos efetivamente mais interessantes. A omissão crônica do verdadeiro alcance da homeopatia também explica e justifica sua baixa visibilidade.

A homeopatia pode ser definida como um sistema terapêutico de interferência médica baseada em similitude e observação clínica que usa a individualização dos sintomas como sua principal fonte de conhecimento. Trata-se de uma prática médica que ouve estórias, acolhe narrativas e interpreta biografias.Não é fortuito que estejam nascendo movimentos como “Medicina Baseada em Narrativas”, “Medicina sem Pressa”, “Medicina Baseada em Empatia”, “Hermenêutica Médica”

Em “Céu Subterrâneo”,  (romance publicado em 2016 pela editora Perspectiva) trago uma referencia da “História dos Animais” de Aristóteles. Numa determinada passagem ele escreve sobre a memória. Por um erro de interpretação conhecemos a famosa versão de que o homem seria racional em oposição aos animais que estariam descritos como irracionais. Para o filósofo no entanto, a verdadeira distinção seria outra, e está em outra passagem deste mesmo livro: o que nos diferencia dos outros animais não seria a possibilidade de raciocinar pois é evidente que os animais também o fazem. Para o pensador, a grande distinção estaria na capacidade humana para evocar a memória conforme sua vontade. E narra-la.

Cito isso para lembrar que Prof. Walter E. Maffei, importante pesquisador e neuropatologista brasileiro e um dos meus principais mestres. Maffei ilustrava uma de suas aulas na Faculdade de Medicina projetando imagens de gatos. Por que? Afirmava, com razão, que aqueles que tinham as predisposições alérgicas despertada por alguma idiossincrasia, poderiam apresenta-las apenas com a “lembrança” desta experiência. Não seria necessária a presença física de um gato, poderia bastar imaginar à exposição a algum alergeno que não estivesse presente para “excitar” instantaneamente um quadro alérgico. A lembrança de alguém que apresenta sensibilidade ao pelo deste animal poderia desencadear um início de manifestação alérgica. Esse exemplo evidencia pelos menos duas coisas, a incrível sensibilidade do psiquismo e o papel da memoria em nossa saúde.

Muitos aspectos permanecem misteriosos na clínica. Não é incomum que os pacientes desenvolvam estranhas e desconhecidas sensibilidades aos produtos farmaceuticos e alimentícios mais comuns. Ou sujeitos que sentem súbito mal estar quando terremotos estavam para ocorrer a milhares de quilometros dali. Sabemos que muitas pessoas tem perturbações cardio-circulatórias e respiratórias antes e durante os fenomenos climáticos. Existem vários relatos de pressentimentos e sintomas inexplicáveis que normalmente não seriam relevantes para uma aplicação da técnica de tratamento, mas extremamente importantes para compreensão da história clínica de alguns individuos.

Não se trata de um fenomeno religioso ou de uma mistificação. Temos que recordar que, para a genuína investigação científica sempre existirão mais perguntas do que respostas.

O homem não é mero contemplador, de seu habitat ou de seu sistema de tratamento médico. Como todo ser vivo pertence ao ecosistema. O tempo todo age sobre ele e ao mesmo tempo sofre múltiplas influências do meio no qual habita. A meteorobiologia, uma disciplina, nos ensina o poder das meiopragias sobre os seres. Quando aumentam as manchas solares ocorrem ciclos epidemicos de doenças na Terra, as influências climáticas, barométricas e da poluição atmosférica sobre os estados de saúde são clinicamente evidentes.

Também não é infrequente que médicos sejam pegos de surpresa com o que aprendem das experiencias pessoais dos pacientes, de suas sensibilidades e caracteristicas individuais. Estar atento a estes aspectos não se limita a quem pratica qualquer modalidade de terapeutica integrativa, mas a todos que se dedicam a tarefa de cuidar da saúde dos seres humanos e dos animais.

Costumamos dizer que não há mentira em clínica. O que um paciente sente não pode ser julgado no campo estrito da verdade ou da mentira. Para atestar se um sintoma é falso ou verdadeiro não basta fazer uma investigação clínica que confirme ou não a patologia. Todos os sintomas são, de uma forma ou de outra, verdadeiros, pois mesmo as fantasias, delírios e as interpretações fazem parte integrante dos problemas dos sujeitos enfermos.

Médicos, ou qualquer profissional das práticas de saúde precisam ser treinados para acolher o que cada pessoa percebe de anomalo ou estranho no funcionamento de seus órgãos e em sua própria vida. Tudo que o paciente informa deveria ser relevante para o medico cuidador, independentemente da correlação que este estabeleça com alguma enfermidade específica. Isso vale para o generalista e o especialista, para o clinico e o cirurgião.

No mundo todo cresce uma tendência cientifica: passa a ser cada vez mais importante individualizar as doenças. Como toda uma tradição médica vitalista pensava, includindo o próprio Samuel Hahnemann é preciso saber como cada doença impacta a saúde de cada pessoa, pois cada um tem uma forma particular de desenvolve-la e de voltar a ficar saudável. Esta diretriz, preocupação constante de muitos medicos vitalistas na história da medicina, pode fazer toda a diferença.

E não só nos resultados diretos, mas em todo processo de adoecimento, convalescença e recuperação. Como lidar com o desconforto? As vezes, um tratamento pode ser dolorido e provocar sofrimento. Para a pessoa enferma é muito importante a assistência, o suporte e a presença de quem cuida. Portanto um aspecto vital de qualquer tratamento é a qualidade do cuidado que o profissional dispensa ao enfermo.

Pode-se encontrar referencias bibliograficas sobre todas as reflexões e informações. Estas reflexões são fruto de décadas de observação e testemunhos da clínica médica nos últimos 30 anos. O presente texto que o leitor tem nas mãos, ou na tela, é uma condensação de um livro, hoje esgotado, que transformei em e-book sob o título “O outro código da medicina”.

As vezes as pessoas perguntam por que diante de sua eficácia e abrangência clinica — especialmente na atenção primária à saúde e na prevenção e tratamento das moléstias crônicas — como se explica que a homeopatia nunca tenha se universalizado como forma de atendimento? Há anos a Organização Mundial de Saúde recomenda as medicinas tradicionais. Uma publicação recente da Escola de Saúde Pública da Universidade de Harvard[1] recomendou o uso de homeopatia nos sistemas de atenção primária à saúde. No Brasil, o SUS teve várias tentativas de ampliar o uso de práticas integrativas. Recentemente, a Suiça organizou uma consulta popular e a homeopatia finalmente entrou como opção terapeutica no sistema público de saúde. Sabe-se que ela já foi reintroduzida no curriculo de escolas de medicina nos EUA. Na Alemanha, além de popular, a homeopatia e as medicinas integrativas tem larga aceitação pelos medicos e também é usada por grande porcentagem de clínicos e especialistas como tratamento complementar. Entretanto o fato persiste: por que nunca conseguiram se universalizar como práticas médicas. Importante tentar responder por que.

São muitos fatores concorrendo simultâneamente. O primeiro e mais importante é a dificuldade para estabelecer núcleos de pesquisa que sejam financiados pelo Estado e independentes da pressão dos poderosos lobbies que comandam a indústria farmaceutica. Sem prover estes centros autonomos de pesquisa com recursos e capacidade política para determinar a prioridade das pesquisas todo avanço farmacotécnico em medicina fica sujeito à lógica dos dividendos das fábricas e sob o controle de oligopolios farmaco-industriais conforme sugeriu ainda no início do século XX o historiador da medicina Henri Sigerist. Não há nenhuma tese conspiratória ou anti-capitalista nesta observação, apenas elementar constatação de fatos. É importante reconhecer os muitos avanços das tecnologias médicas e o papel da indústria farmacêutica, ainda que isso não a transforme em um símbolo de benemerência. E é também justo que se pergunte: por que a indústria não investiria em um ramo tão promissor e potencialmente lucrativo como a de medicamentos homeopáticos que conta com centenas de milhões de consumidores?

Um dos problemas para os interesses mercantis na produção de medicamentos está no fato de que, por exemplo, as substâncias medicinais homeopáticas não têm patente, isso é, constituem um bem público. Trata-se portanto de um conjunto de medicamentos que foram incorporados ao patrimonio da humanidade, já que nenhuma indústria ou indivíduo detém os direitos de propriedade dessas substâncias. Isso significa que sobre estes fármacos não incidem royalties. Exatamente isso que você acaba de ler: nenhuma substância usada nos fármacos empregados na homeopatia possui domínio de patente. Isso explica seu relativo baixo custo. E também explica a quantidade desproporcional de ataques dirigidos contra ela e sua relativa incapacidade de responder a eles com pesquisas subsidiadas.

Evidentemente existem outras dificuldades: a natureza sectária de parte do establishment das medicinas integrativas. Numa compreensível atitude defensiva que emergiu contra as décadas de acusações de ineficácia das doses ultradiluídas, existe neste meio relutancia em fazer a autocrítica necessária para se antecipar e apontar suas próprias deficiências, lacunas e limites de atuação.

Existem praticantes que insistem numa lógica autosuficiente que clama para a medicina integrativa uma emancipação total das demais racionalidades. E também existem aqueles que aceitam abrir mão da teoria que organiza e confere alguma consistência teórica para o método. Porém para qualquer medicina de inspiração vitalista não se pode resumir os benefícios apenas ao “resultado clinico pontual”, e sim ao conunto de potenciais benefícios para a totalidade da pessoa enferma.

O dilema é compreensível: se por um lado ela se apresenta como uma outra lógica médica, por outro, ela precisa em parte assimilar-se à cultura científica corrente se quiser ser levada a sério. Isso significa que a medicina integrativa acaba falhando em se estabelecer, tanto na prática privada como no setor publico, pois não consegue nem evidenciar claramente sua performance clínica, nem se fazer entender pela linguagem contemporânea. Um impasse, que no caso específico da homeopatia, dura quase dois séculos.

O erro fundamental está numa certa recusa inconsciente destas correntes em aceitar que de uma forma ou de outra a única saída para que uma tese seja aceita nas sociedades contemporâneas é sua penetração na cultura através das pesquisas academicas e da discussão com a sociedade. Somente esse pertencimento à cultura garantiria a permanência de uma formulação sofisticada como é a proposta de uma terapeutica pautada no uso dos semelhantes.

Sofisticada, porque pretende, inclusive, retomar um assunto dos mais importantes, e, ao mesmo tempo uma das questões científicas mais negligenciadas da medicina: ainda são raras e escassas pesquisas sobre o como as pessoas se curam.

Notem que hoje já existem núcleos de pesquisa médica que discutem criticamente a validade dos protocolos padrões. O cálculo de risco para alguns procedimentos terapêuticos tem sofrido questionamentos. E uma boa parcela dos pesquisadores já leva cada vez mais a sério o fenomeno chamado superdiagnóstico[2].

As medicinas integrativas devem ser apresentadas não só como alternativas – com todas as suas conotações contra-culturais — mas como um processo que dialoga ao mesmo tempo com a ciências naturais como com as várias áreas das humanidades como a antropologia, filosofia e psicologia. Ao mesmo tempo, precisa ser mais enfática em sua proposta: estabelecer bases teóricas próprias para uma medicina do sujeito emancipada, por exemplo, das teorias psicanalíticas e das mistificações. Portanto, ela deveria ocupar o centro da discussão das ciências humanas com as ciências biológicas.

Temos tempo. Sejamos todos pacientes, a discussão está apenas começando.

[1]A Escola de Saúde Pública de Harvard e o Hospital Beth Israel, afiliado à Faculdade de Medicina de Harvard publicaram recentemente os resultados de um estudo conduzido por Michelle Dossett, MD, PhD e colaboradores incluindo o expert em placebo  Ted Kaptchuk, OMD onde concluem que os estudos conduzidos usando a homeopatia “sugerem potencial beneficio para a saúde publica como redução de uso desnecessário de antibioticoterapia, redução de custos para tratar de algumas doenças do trato respiratório melhora nas depressões relacionadas ao período do pós menopausa, melhora os resultados na saúde de indivíduos com moléstias crônicas e controle de doenças epidêmicas como por exemplo a epidemia de leptospirose em Cuba”

Homeopathy Use by US Adults: Results of a National Survey. Dossett ML, Davis RB, Kaptchuk TJ, Yeh GY. Homeopathy Use by US Adults: Results of a National Survey. Am J Public Health. 2016 Apr; 106(4):743-5.

*O outro Código da Medicina (e-book kindle)

[2] Overdiagnosed – cuja tradução poderia se aproximar de “superdiagnósticado”. Caracteriza-se em valorizar excessivamente os exames subsidiarios e atribuir importância exagerada aos disturbios clínicos que talvez não mercessem tratamento, pois seriam patologias inofensivas ou “amigáveis”. O custo orgânico e psiquico de determinados procedimentos terapêuticos são simplesmente elevados demais para os pacientes.

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A incrível história de uma obsolescência induzida (Blog Estadão)

23 sábado mar 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Nilda Raw – Técnica Mista sobre tela (2016)

A democracia’ o governo do povo, para o povo, pelo povo. Esse é o padrão, o slogan que todos nós fomos treinados a aceitar quando a palavra mágica DEMOCRACIA surge na testeira do jornal, tela do I pad ou no screen dos celulares, certo?Poís algo muito plástico pode estar acontecendo com o conceito neste exato minuto. E não é apenas um mimetismo provisório, de ocasião, é mesmo um caso de mutação. A democracia pode não mais ser definida pelo sentido original que costumavamos atribuir à palavra. A ruptura é ampla e decreta, além de antecipar a instabilidade sobre o futuro próximo. O significante deslocou-se do significado dando origem às metamorfoses que passaram a servir muitos interesses, menos a quem mais interessa, a saber, a multidão, os beneficiados anônimos. Massas habitualmente magnetizadas pelo populismo ou desatentas a ponto de aceitar que se casse silenciosamente o único artício de voz que lhes resta. Refiro-me aos habitantes das democracias que, a despeito de votações, referendos e sufragios, não tem seus desejos atendidos. Observem apenas — sem julgar o mérito da questão — a escolha dos ingleses pelo Brexit (e as subsequentes sabotagens da Casa dos Lords) , as eleições recentes no EUA e Brasil (e a histeria aprioristica generalizada) , a insatisfação crescente com Macron e Merkel (e as inssurreições semi anárquicas especialmente em Paris), e enfim o vergonhoso silencioso silêncio sobre as ditaduras de Maduro e Ortega.

E por que?

Os alodemocratas, estas lideranças inovadores e criativas deram um jeito de não atender as demandas populares em seus países sob as mais diferentes alegações. Por exemplo, o sociólogo português Boaventura Sousa Santos, conhecido ideólogo de inspiração marxista, recentemente revelou sua grandiloquente síntese: “vivemos em sociedades politicamente democráticas, mas socialmente fascistas”. Exatamente: o sistema é perfeito, quem não presta são os povos. A justificativa cultuada por quem se alinha com este sistema de notação é incrível: sem modéstia recorre-se ao mais puro maniqueísmo instrumental ideologicamente engessado para afirmar que tudo que não for progressista é inferior ou simplesmente “mau”. Não é uma peça original: em função do estado de desinformação dos enormes contingentes de seres incultos contumazes, desconhecedores crônicos, eleitores inabeis e politicamente manipulados eles costumam declarar em manchetes e artigos:  “mais desta vez vocês escolheram errado”. Assim grita o establishment para enfim profetizar

— “Não se preocupem, nós retificaremos vossas decisões”.

Enganados, iludidos e sem conhecimento de causa os eleitores, claro, elegeram um péssimo caminho, quando o que conviria seria mesmo é a boa e velha meta que o establishment decretou. Atenção: a terapêutica do sistema não é só o bem personificado na Terra, é o único viável. O único que serviria para prosseguir com o projeto original, ainda que ninguém saiba bem o que seria isso. A ludopatia do socialismo utópico do “quase acerto”? O capitalismo de Estado que se orgulha de poder funcionar prescindindo de sujeitos livres? Portanto, o ingrediente chave para negar o que a maioria realmente deseja e expressa através dos votos parece estar se tornando um padrão. Ele se utiliza também de uma espécie de justificacionismo que encontrou quase perfeita universalização no aforismo do Pelé. Lá atrás, o Rei do Futebol afirmara que o “povo não estava preparado para votar”, antecipando que nunca esteve, nem estará. Mas já que precisamos manter a gestalt há quem ainda o justifique pois afinal foram gestões consecutivas do partido dos trabalhadores que nos trouxeram até o abismo atual, abismo que a deseleição corrigiu apenas parcialmente, uma vez que as forças, vale dizer, as torcidas organizadas derrotadas, a inabilidade do governo aprendiz e o neutralismo instrumental ainda formam um conjunto impagável. Impagável,  porém épico: ele se expressa através do coro nonsense:”tomara que dê errado”.

Apesar do montante de irracionalidades, a democracia seguiria oscilante rumo a sua teleologia maior, conseguir acomodar os conflitos, assegurar segurança com liberdade e prover o bem estar da maior parte dos cidadãos de uma nação. Entretanto, a aristocracia residual em união fisiológica absoluta com parte da elite intelectual deliberou que o rumo deve, prudentemente, ignorar a opinião pública. Ou induzia-la a acreditar nos dogmas por persuasão sistemática. A outra fórmula teria sido arquitetada pelo conjunto de intelectuais e mentes brilhantes, apoiada por consensos censitários invioláveis e sustentada pelo longo histórico da tradição de instituições corporativas. Foi assim que a fragmentação do poder foi sendo instaurada na República através dos perigosos e inflamatórios jogos de justiça. Atenção, pois não se trata mais da independencia de poderes. É outra coisa que está em cima do tabuleiro: dados lançados numa mesa sem o conhecimento público. O jogo de bastidores, de onde os escritórios do Poder centralizado emanam suas estratégias. E onde os segredos do “todos contra todos” são cultuados e desenvolvidos. É assim que, da direita à esquerda, vem crescendo a indústria de intolerantes, terroristas avulsos com alcatéias digitais, além de novos e velhos bodes expiatórios, tendo sempre como arquétipo obcessivo os judeus.

O ponto nodal para adrestrar as massas incautas é definir o quantun de consciência necessária para traçar o próprio destino um “povo” (um eufemismo para distinguir as massas dos bem pensantes) precisa ter para ter suas decisões chanceladas e, quem sabe, ter o direito de traçar o próprio destino.A alternativa é ter a emancipação e a liberdade canceladas e, para isso, inventar um neologismo qualquer.

Que tal Alodemocracia esclarecida?

 

 

ttps://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/a-incrivel-historia-de-uma-obsolescencia-induzida/

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O tão aspirado”nunca mais” (Blog Estadão)

28 segunda-feira jan 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Aelia Capitolina, Boite Kiss, Brumadinho, Freud, google, holocausto, Leis de Nuremberg, Mariana, Nacional socialismo alemão

 

Já que podemos evocar a memória de acordo com nosso desejo, preferimos dispensar as tragédias, a morte e a destruição. Segundo os biólogos evolucionistas trata-se de uma adaptação. Não suportaríamos ter que conviver com o amontoado de frustrações, negativas, impedimentos, injustiças, o mal feito, o espúrio, o inacabado, a imperfeição, o desprezo, as circunstâncias constrangedoras, os desvios, a insuficiência, as urdiduras da perfídia, o triunfo da malignidade. Mas, e se um pouco de dor, de luto e de sofrimento funcionasse como um antídoto para toda essa mania?  E se conseguissemos nos colocar, no sentido de transferencia absoluta, no lugar do outro? E se ficássemos entregues — que seja uma vez ao ano — à memória dos mal sucedidos, dos perdedores, dos sofredores, da silente agonia dos sem voz, dos invisíveis?

Apontar e erigir monumentos às vitimas do mal feito é uma forma de fixar o insuportável em nossa tendencia à negação.

Um regime político pode exterminar de muitas formas, a mais eficaz contudo — e a história prova a tese — é através do populismo e do culto à personalidade. Exemplo atual é o perfil daqueles que nos prometeram justiça, igualdade de oportunidades e bem estar e, em apenas 13 anos, nos entregaram o País falido. Uma deseleição ocorre quando há mais deméritos no regime viciado do que méritos no rival. Foi apenas um espasmo de legítima defesa em meio à inércia, à falta de articulação, à inexistencia de oposição, e hoje, perplexos, nem nos perguntamos mais o que pensar daqueles que persistiriam no erro. Hoje representados por quem torce e milita contra. Evidentemente, para além da habitual desonestidade intelectual, trata-se de histeria anti-republicana, sobretudo guiada pelo velho e cansativo ranço ideológico.

O dia H é o dia da memória das vítimas do holocausto, mas poderia ser expandido para outras vítimas, igualmente criminosas, como as pessoas incineradas na Boite Kiss, nos arrastados em Mariana, em Brumadinho, em Teresópolis, em Angra, nas demais encostas abandonadas do Brasil, nos viadutos que despencam, nas passarelas precárias, nos trilhões sepultados em obras inexistentes. E, também, de todos os extermínios pequenos, médios ou grandes. Aqueles que confiam no Estado todo protetor ainda não sabem que há, bem aqui entre nós uma loucura muito particular: ela impede a compreensão do valor da vida. Nesta insanidade obnubiladora movida à matéria e arrogância está o germe do terror.

Não é só do terrorista comum, estes inimigos da humanidade, que preferem que a causa preceda a sobrevivência e o bem estar. Mas também, e principalmente, o usurpador, aquele que amadurece no trono e não quer mais larga-lo, dos tiranos que se escondem sob slogans e verbetes de ocasião. Se há culpa? Sim acumulada. Sim retida nos decretos. De vários partidos e instituições. Nos alvarás. Nas leis. Exato, assim como as leis raciais de Nuremberg, as vezes o crime tem chancela oficial, é do Governo que passa a usurpar o Estado.

Na Alemanha nacional socialista também foi assim. As legiões que acreditam em correntes ideológicas acima do pensar, da direita à esquerda, ainda existem. Geralmente são aqueles que prometem resgatar nações e promovem genocídios. Contam com o descaso, acreditam na amnésia induzida. Essa  é a estratégia que recriou o vergonhoso e pandemico antissemitismo de nossos dias. Apoiam-se no esquecimento e na prescrição. Sabem que a qualquer momento podem queimar livros, perseguir minorias, mas especialmente imaginam que o sufragio lhes da o direito de pulverizar a memória.  Em suas agendas já está registrado: “as manchetes se calam em três semanas”.  Mal sabem que a memória contém um compartimento secreto. A “segunda mente” na definição de Charcot. E ela é surpreendente, capaz de desaguar seu manancial quando menos se espera.

Freud em seu polêmico livro “Moisés e o Monoteísmo” conta que o que mais o impressionou no povo judeu era uma espécie de persistência quase irracional diante das adversidades. Cita o famoso caso de um dos sábios talmúdicos. Enquanto o Templo de Jerusalém ardia em chamas incinerado pelo exército romano, e quase um milhão de vidas haviam sido ceifadas pela espada, foi ter com o temível governador geral da Judeia que sonhava exterminar os judeus e fundar Aelia Capitolina. Vários tentaram dissuadi-lo da empreitada que poderia lhe custar  a vida. Inútil. Ele seguiu e foi para até o tirano pedir autorização para transferir seus estudos para um outro local. Ora, por que? Perguntava-se o intrigado médico. Seguir adiante. Alguns chamam de pragmatismo. Outros classificariam de estoicismo patológico. Porém, ao fim e ao cabo, poderia apenas simbolizar um apesar de tudo, apesar de todos: escolhe-se vida.

Pois esse espírito afirma que a humanidade pode seguir até um lugar onde cada um poderá ter tempo para se estudar, para sempre.

Quiça assim, e só assim, o tão aspirado “nunca mais” superará o mito do eterno retorno.

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Despertar para a noite (Blog Estadao)

18 sexta-feira jan 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Despertar para a noite, holocausto, Lyslei Nascimento

https://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/despertar-para-a-noite/

No recém lançado livro “Despertar para a noite e outros ensaios” (Quixote-Do, Belo Horizonte, 2018, 178p.) Lyslei Nascimento faz uma abordagem multifacetada sobre a Shoah (extermínio de judeus pelo regime nacional socialista alemão, também conhecido pelo nome Holocausto) e, ao mesmo tempo, lança um facho de esclarecimento sobre o retorno (ou o fim de uma curta hibernação?) do antissemitismo.  Nas palavras do prefaciador, Wander Melo Miranda, “na forma de vestígios, rastros ou resíduos, a reminiscência se constitui no intervalo entre  o não contar para esquecer e o narrar para sobreviver”.

Ao analisar livros e filmes, Nascimento atravessa um vertiginoso painel de autores e cenas que não só impressionam pela amplitude e erudição, mas por trazer à vida uma literatura não solicitada. Isto é, a apresentação cultural, das vozes não audíveis, as escassas, aquelas ainda — e para sempre — indizíveis, que – numa era na qual, erroneamente, considerava-se sepultado o espectro de intolerância étnico-racial –  não encontram mais lugar para testemunhar. Como afirma a ensaísta no capítulo em que evoca dois poetas brasileiros que se ocuparam do tema da Shoah, Vinicius de Moraes e Jorge Amado:

“A imperiosa necessidade de se revisitar o episódio da Shoah, delinea-se, para o escritor e para o leitor, como um empreedimento impossível de ser apreendido e contornado, mas nunca soterrado”.

Isso significa que a escavação se processa em camadas e , assim como o arqueólogo, autor e leitor recolhem, por intermédio do paradigma indiciário daquele que foi um dos mais abomináveis eventos, para, enfim reconstituir aquilo que Carlo Ginzburg chamou de “micro-história”.

Ela prossegue: “Cercar o fato histórico em sua barbárie e contorná-lo pela palavra ou pela arte, costurando textos e registros infames, é sobretudo, lançar-se numa tarefa que, de antemão, já se anuncia como incompleta, residual, bárbara”.

Nascimento passeia com leveza e destreza no seu campo de análise que é o da  literatura comparada e consegue, por meio das muitas referências culturais e historiográficas, situar o leitor para além do campo da indignação pura e da perplexidade paralisante: nos faz pensar nos aspectos multifacetados da Shoah, investindo de um lado na “voz dos vencidos” e, de outro, situando a catástrofe no campo de uma fenomenologia ainda incompreensível.

Sem ceder ao obscurantismo e tal qual a metodologia das discussões talmúdicas, a autora se recusa ao reducionismo: não existe um “à guisa de uma conclusão”, nem mesmo uma insinuação de desfecho.  É que a extensão da terra devastada do que também já foi chamado de “o maior drama da história ocidental” e as repercussões transgeracionais do genocídio organizado pelos nazistas sempre impedirão qualquer síntese, e, provavelmente, obnubilarão a tentação da explicação única, cabal.

Um livro essencial, sólido, concebido e escrito em um período histórico no qual até a busca pela verdade tornou-se estéril e rarefeita.

Abaixo o Blog fez uma entrevista com a autora*:

Como te ocorreu a ideia deste conjunto de textos?

– A Shoah (Holocausto) é um tema caro aos Estudos Judaicos aos quais tenho me dedicado desde o início de minha carreira, nos idos de 1990, na UFMG. Na Literatura e nas Artes em geral, o tema é especialmente importante porque põe em xeque nossa capacidade de reagir em momentos em que o mal e a violência parecem obliterar o que há de humano em nós. Refletir sobre a arte em condições adversas como foi a Segunda Guerra Mundial sempre me estimulou à pesquisa, ao estudo e à reflexão. O livro Despertar para a noite e outros ensaios sobre a Shoah apresenta, assim, a seleção de algumas de minhas reflexões sobre esse tema.

Há muito material relacionado aos registros da Shoah, qual foi o critério para fazer esta seleção?

– A Shoah, apesar do vasto e importante material produzido pela história, pelo cinema, pela literatura e artes em geral, ainda sofre reveses de discursos revisionistas e negacionistas. No mundo e, infelizmente, também no Brasil. Nesse sentido, o critério para a seleção desses ensaios foi, basicamente, estudar alguns escritores e artistas que, à contrapelo dessa tentativa de esquecimento e de soterramento contemporâneos, produzem suas obras como alertas à valorização e ao respeito à vida.

Muito interessante e oportuno o resgate feito por Vinicius e Jorge Amado, qual foi sua primeira impressão? Por outro lado, há uma certa escassez de registros fílmicos sobre o Holocausto produzidos no Brasil, concorda? Ao que atribui essa escassez?  

– Há muitos artistas brasileiros não judeus que contribuíram não só com ações, mas com um olhar lúcido sobre a Shoah a partir da arte. Tanto Amado quanto Vinícius, nas imagens da Judia de Varsóvia e dos mortos no campo de concentração, empreendem uma reação a certo silêncio de artistas e intelectuais, naquele período, por intermédio da força expressiva da palavra poética. Nenhum dos dois textos é passivo, omisso ou produz um elogio do soterramento e do esquecimento. As metáforas utilizadas por esses poetas brasileiros são terríveis, porém, elas revelam a necessidade de, mais do que um fantasma ou de um esqueleto, termos, sempre, diante de nós, que nossa capacidade de indignar-se diante da violência deve ser um aprendizado e uma tarefa contínuos do humano. Há textos fundamentais de Carlos Drummond de Andrade e Guimarães Rosa (ambos com atuação política importante no período), Hilda Hilst, Maria José de Queiroz, só para citar alguns escritores, que esperam que os leitores e pesquisadores os visitem em nossos tempos sombrios. Minha intenção, assim, foi trazer aos leitores dos grandes romances de Jorge Amado e aos admiradores das canções de Vinicius de Moraes, uma face esplêndida ainda a se descobrir desses autores. Sobre os filmes, eu diria que o impacto da Shoah sobre os nossos realizadores ainda está por acontecer. Há inúmeras e inspiradoras histórias a serem contadas, principalmente, a dos sobreviventes e dos refugiados que vieram para o Brasil.

O que descobriu de interessante na relação entre ciganos e judeus (filme Trem da vida, de Radu Mihaileanu). A questão do humor na Shoah merece cuidados extras ou como você escreve “não é fácil fazer humor muito menos com a catástrofe”.

– Ciganos, judeus, homossexuais, adversários políticos e outras tantas vítimas do Nazismo foram massacrados por um regime totalitário que intentava abolir diferenças como uma política violenta de Estado. No caso dos ciganos, a maioria ágrafos, o drama histórico é especialmente grave. O recurso à memória dá-se, muitas vezes, pela escrita. Assim, a valorização das histórias de vida, da oralidade e do posterior registro desses relatos é de suma importância. No filme de Mihaileanu, é revelador que os ciganos sejam aproximados aos judeus, tradicionalmente considerados “o povo do Livro”. Na Shoah, no entanto, ficou evidente a igualdade da condição humana, independente de quaisquer fatores culturais ou religiosos. No filme, a música e a dança ilumina essa igualdade e não é a diferença que se faz presente. Acredito que essa é lição de Mihaileanu para o nosso tempo: buscar as aproximações, não as divergências.

Qual o aspecto mais relevante e que destacaria na sua análise do romance de Richard Zimler Os anagramas de Varsóvia?

– De toda a produção ficcional contemporânea que tem a Shoah como tema, esse romance de Zimler é um dos mais instigantes. A trama policial marcada pela contingência da segregação, a experiência do gueto, põe o leitor diante da crueldade estampada na tortura, no assassinato sumário e na violação de todos os direitos do indivíduo, a série de crimes contra crianças dentro do gueto, reafirma a quase onipotência do mal e sua materialidade, no entanto, apesar de tudo, nesse espaço, pode surgir uma luz. No romance de Zimler, afirma-se que todos os templos são metáforas do corpo humano, logo, é o corpo que dá origem a um conceito de sagrado. O crime e o assassinato são, no romance, uma forma de desarranjar o mundo, retirar dele tudo o que haveria de sagrado. A ficção de Zimler é, nesse sentido, humanística, no desafio de se aproximar do limite dessa expressão.

 Por que, como escreveu David Grossman, os escritores que escrevem e escreverão sobre o Holocausto “estão de antemão fadados ao fracasso”?

– Talvez porque estejamos diante de uma violência tão inimaginável que a linguagem não consiga abarcá-la por completo. A partir desse ponto de vista, a situação-limite da Shoah é sombria. No entanto, não estamos num vazio, mas entre fragmentos, ruínas e cinzas, “coisas” em estado de dicionário, como queria Carlos Drummond de Andrade, que parecem trazer de longe, ou de não tão longe na história, “entre o ser e as coisas”, vozes que não podem ser apagadas. Talvez Grossman esteja dizendo ao leitor que o escritor torna-se, quando se trata da memória da Shoah, um razoável copista em meio a um mundo que não faz mais sentido se tomado em uma imaginária grandeza. Por isso, a aproximação entre poesia, narrativa e enciclopédia, em suas formas mais contemporâneas, parece por em xeque não só uma teoria da poesia pós-Auschwitz e a sentença adorniana que sobre ela recai, mas uma possibilidade de leveza, a da imagem do romancista que, como queria Italo Calvino, sobreleva o peso do mundo. Nesse sentido, mesmo sabendo que não conseguirá tudo, o escritor, o artista, e nós, os leitores, devemos ser incansáveis. O fracasso, portanto, em Grossman, é o nosso mote para a tarefa infinita de se estar atento ao mal e aos seus efeitos sobre a humanidade.

No caso de Moacyr Scliar e de suas repercussões sobre o microcosmos de um bairro de Porto Alegre: qual é o papel do regional na percepção da Catástrofe?

– A máxima atribuída a Leon Tolstoi de que quando se está falando da aldeia está-se falando do mundo pode ser aproximada a toda obra de Scliar. Quando o escritor constrói o bairro judaico do Bom Fim, no romance A Guerra no Bom Fim, muito das aldeias pintadas por Marc Chagall também estão ali evocadas. Então, o microcosmos, a “aldeia”, que é o bairro do Bom Fim, no Brasil, é um modelo literário em miniatura do que ocorre no mundo. Primorosamente, a Segunda Grande Guerra é o que emoldura o pequeno país do Bom Fim. Entremeados à notícias do front, os jogos de guerra encenados pelas crianças reproduzem, em escala menor, os desastres ocorridos na Europa. Scliar, nesse sentido, é um mestre da microficção que espelha e desloca, pela fantasia, a macro-história.

Seu texto que dá nome ao livro atravessa a obra de Primo Levi e Elie Wiesel e o pensamento de Walter Benjamin, especialmente, quando este grafou “nunca houve um Monumento da cultura que não tenha sido também um monumento da barbárie”. Então, qual seria o leitmotiv de um autor para narrar um fato histórico – sob a ficção ou fora dela – se ela sempre será “incompleta, residual e bárbara”?

– A necessidade de acordar para a “noite”, como sugere Wiesel, em A noite, é uma lição para os nossos tempos. Não é possível atravessar os dias como se estivéssemos num sono profundo. Há que se despertar, há que se sonhar, mas, de olhos abertos. Por força de valorizarmos, em extremo, a cultura, por vezes, esquecemos de nossa humanidade. Estar atento à barbárie do excesso de racionalidade também é um desafio. Não podemos nos esquecer que o Nazismo foi possível numa nação que produziu os mais sensacionais escritores, músicos e artistas de todos os tempos, a Alemanha. Equilibrar-se, portanto, entre o sono (o sonho) e a vigília é fundamental. Vivemos num tempo de monumentos estéreis, nesse sentido, os “pequenos relatos” que escapam à grandiloquência devem ser trazidos à luz, sem mistificações.

Após teu valioso levantamento historiográfico, depois de Auschwitz ainda existe espaço para a presença cotidiana da transcendência e da mística ou o mundo judaico ficou impregnado pelo ceticismo?

– Sempre haverá espaço para a poesia, para a ficção, para a arte. Disso depende a nossa sobrevivência. O ceticismo é, também, uma forma de ficcionalizar a própria incredulidade, não é? A transcendência vazia ou a mística que oblitera a razão, a meu ver, devem ser sempre questionadas. Sobre a presença judaica no mundo, gostaria de citar o Rabino Henry Sobel. Para ele, a missão do judeu não é tornar o mundo mais judaico, mas tornar o mundo mais humano.

https://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/despertar-para-a-noite/

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*Lyslei Nascimento é doutora em Letras: Literatura Comparada pela Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG, onde é, atualmente, professora de Teoria da Literatura e Literatura Comparada, editora da Arquivo Maaravi: Revista Digital de Estudos Judaicos da UFMG e coordenadora do Núcleo de Estudos Judaicos da UFMG.

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Medicina do Falante (Blog Estadão)

10 sábado nov 2018

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Subestimada pelas investigações epistemológicas, uma das questões centrais da medicina não tem sido objeto de um estudo essencial: no que a medicina é, por exemplo, distinta da ciência veterinária?

Quais as diferenças metodológicas de apreensão dos sintomas nas duas especialidades? E a terapêutica? De que forma as indústrias farmacêuticas investigam novas drogas? Qual é a metodologia aplicada para avaliar o efeito das substâncias medicinais nos homens e como compara-las aos testes clínicos conduzidos usando animais?

O velho argumento de que a diferença está na irracionalidade dos animais pode ser facilmente derrubada quando se vai até a origem desta informação. Por um erro de tradução a hipótese do filósofo Aristóteles de que o homem é um animal racional em contraposição aos “animais irracionais” foi mantida por mais de dois milênios.

Este filósofo grego, o primeiro a descrever em detalhes o aparelho fonético, escreveu, em sua obra Historia Animalum que os animais…

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Medicina do Falante (Blog Estadão)

08 quinta-feira nov 2018

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Subestimada pelas investigações epistemológicas, uma das questões centrais da medicina não tem sido objeto de um estudo essencial: no que a medicina é, por exemplo, distinta da ciência veterinária?

Quais as diferenças metodológicas de apreensão dos sintomas nas duas especialidades? E a terapêutica? De que forma as indústrias farmacêuticas investigam novas drogas? Qual é a metodologia aplicada para avaliar o efeito das substâncias medicinais nos homens e como compara-las aos testes clínicos conduzidos usando animais?

O velho argumento de que a diferença está na irracionalidade dos animais pode ser facilmente derrubada quando se vai até a origem desta informação. Por um erro de tradução a hipótese do filósofo Aristóteles de que o homem é um animal racional em contraposição aos “animais irracionais” foi mantida por mais de dois milênios.

Este filósofo grego, o primeiro a descrever em detalhes o aparelho fonético, escreveu, em sua obra Historia Animalum que os animais apenas usam outra forma de lógica.  Na axiologia judaica o homem é aquele que veio da terra (adamá = terra), uma alusão à sílica. Destarte, o realmente distintivo entre homens e animais repousa em sua capacidade de falar.  Um dos primeiros registros desta especificidade pode ser encontrado na Bíblia Hebraica.  Ao se referir pela primeira vez ao homem, o texto mosaico da Torá, menciona a palavra “medaber”, o falante.

E o que nos torna falantes?

Não é apenas a presença do aparelho fonador, com a laringe e suas conexões neurológicas, pois a maior parte dos mamíferos superiores compartilha de estruturas análogas. Por exemplo, com um aparelho fonador quase idêntico ao nosso por que é que os chimpanzés não relatam sintomas ao médico veterinário? Os sons que emitem, decerto denotam uma linguagem. Junto com as modificações mímicas e corporais pode ser decodificada. O alfabeto de alguns tipos de aves tem sido objeto de estudiosos dos cientistas que já detectaram dezenas de sons que funcionam como uma comunicação de alta especificidade, que significam por exemplo, evocar acasalamento, alerta de perigo, “palavras” de guerra, pedidos de ajuda por saúde e até reclamar de abandono. Sem esquecer dos ultrassons e mensagens subsônicas que várias espécies de insetos estabelecem em suas relativamente curtas jornadas existenciais.

É no entanto, uma pequena, porém decisiva inclinação da cartilagem crico-laríngea que tem lugar nos meses finais da gestação, o que  permite que a articulação dos sons se transforme em palavras – mudança, que, por exemplo, mesmo a maioria dos mamíferos superiores como os símios não apresentam. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5219873/

Esta particularidade associada à maturidade do sistema neurológico que nos conferiu a capacidade de expressão através da linguagem falada. A peculiaridade é que nos transforma em animais produtores de narrativas. E voltando ao estagirita, para ele, o outro elemento que nos diferencia dos animais, além da linguagem falada, é a capacidade de evocar, por um ato de vontade, a memória. Assim, como seres que se expressam pela fala e que conseguem evocar a memória voluntariamente é que podemos dizer que pertencemos ao reino único dos falantes. Superado o reducionismo vamos agora examinar onde estes conceitos podem impactar a medicina.

Se Hipócrates e o Corpus Hipocraticum, seu legado, inventaram a história clinica e, portanto, a medicina técnica, foi Samuel Hahnemann quem sugeriu – meio século antes de Claude Bernard — uma forma de capturar nos estudos experimentais o resultado da ação dos medicamentos quando as pessoas são a eles expostos.

Mas quais resultados?

Trata-se daquilo que o médico de Lyon, Benoit Mure, introdutor da homeopatia no Brasil,  chamou certa vez de “processo verbal”. Pois é destas narrativas capturadas pelas experimentações de medicamentos sobre o homem são, as chamadas patogenesias, que conseguimos obter as sensações, sintomas e vivências do sujeito. Apesar de Hahnemann ter sido glorificado por outras aspectos de sua capacidade científica e criatividade, sem a qual o cientista é apenas um robô compilador de metanálises, sua descoberta de que seria preciso registrar toda a narrativa vivenciada pelo experimentador – assim como a do paciente – passou quase despercebida. Seu livro Fragmenta de Viribus Sive in Sano Corporis Observatis foi no mínimo, subdimensionado. Pois é este registro — comparar os processos verbais induzidos pelas substâncias medicinais aqueles relatados pelos pacientes — permitiria aproximarmo-nos da exatidão das “ciências matemáticas” conforme Hahnemann escreveu em seu texto “Medicina da Experiência”.

Muitas funções, catárticas e não catárticas entram em operação quando alguém chega para relatar o que sente e como sofre. Esta capacidade de extrair uma história clínica com todos os sintomas, a anamnese, não só não é simples, como desafia o modo como os médicos tem sido ensinados nas escolas médicas, especialmente quando se aplica uma pedagogia hiperpragmática.

A ação sossegadora ou catártica é uma função da fala descrita por Muller-Freienfels (Entralgo, 1950). Trata-se de um tipo de função notificadora, pois na intimidade daquele que notifica há nivelação afetiva e, quiçá, sossego. Conforme Pedro Lain Entralgo apontou, “a elocução adequada tem, sempre, ainda que em quantidades muito variáveis, um efeito catártico.”

Trata-se de aspecto tão importante para o constructo relacional que Entralgo ainda divide catarsis ex ore (produzida pela elocução ativa) e catarsis ex auditu determinada pelo fato de se ouvir adequadamente e conclui, afirmando: “Não é possível construir uma doutrina psicoterápica sem discutir a fundo estas duas formas da catarse verbal.”

E, portanto, qualquer aperfeiçoamento deve decorrer de um treino permanente. Vale dizer, trata-se de um destreino, vale dizer, de uma verdadeira reabilitação semiológica.

Por que?

A pedagogia médica limitou-se a ensinar como se captura os sintomas objetivos, capazes de nos oferecer um quadro diagnóstico plausível da patologia. O propósito é essencial, achar e identificar os sintomas em determinada árvore nosológica para que se possa estabelecer o nome correto da moléstia. Em nossos dias, programas e robôs que já podem substituir médicos nesta tarefa de definir o nome da moléstia. E há quem defenda até terminais onde os médicos prescreveriam de centros à distância, dispensando a clássica “medicina feita à cabeceira do enfermo”. Importante que o leitor note que não se trata de anacrônico saudosismo. Com ou sem o apoio da tecno-ciência o diagnóstico nosológico torna-se, isoladamente, insuficiente para determinar qual a melhor terapêutica quando se trata de uma medicina baseada em sujeitos.

Não me refiro exclusivamente à uma medicina específica. Falo sim da medicina lato sensu. Se a medicina de fato deseja recuperar para si a tradição humanista que foi perdendo — e que é clamada pelas sociedades ao redor do mundo como reação à hipertrofia da biotecnologia aplicada às ciências da saúde, precisa deslocar-se do eixo no qual confortavelmente se instalou. E o resgate começaria com a recuperação da linguagem para elucidar o significado do sofrimento de cada um. É preciso recuperar a perspectiva de captar o patognomônico do sujeito, aquilo que o individualiza.

Há aqueles que argumentam que uma divisão de trabalho foi estabelecida e que a mesma deve ser portanto respeitada. Mente e o corpo separados resolveriam um grande problema epistemológico. Neste caso, psiquiatras seriam responsáveis pela primeira parte e os médicos clínicos se encarregariam do monopólio dos transtornos corporais.

Isso também significa que um médico deve se ocupar do tratamento tendo em vista a especificidade da queixa clínica e da moléstia diagnosticada. Ora, essa observação poderia ser uma saída, se, e somente se não houvesse uma crise entrando pela porta da frente da Medicina. De um lado, o dilema preventivista da epidemiologia e da saúde coletiva nos alertando para os custos excessivos na manutenção dos recursos médicos direcionados para as doenças crônicas já estabelecidas, e, de outro, a extrema insatisfação (questionários e estudos multicêntricos indicam que ela é mundial) com os serviços de saúde mundo afora.

A primeira ministra da Grã Bretanha Thereza May, acaba de designar uma tarefa inédita para a Ministra da Saúde, Jackie Doyle-Price: com um orçamento exclusivo de 1.8 milhao de libras, estudar e estabelecer um plano de ação para a prevenção do suicídio. Só no passado houve um alerta dada a epidemia de 4.500 pessoas que ceifaram a própria vida no Reino Unido. A epidemia de depressão e de distúrbios psíquicos havia sido antecipada 30 anos antes. O relatório da OMS publicado em Geneva em 1988, já previa: a maior parte das buscas por atendimento médico até a metade do século XXI não seria por problemas clínicos físicos, mas por queixas relacionadas aos distúrbios funcionais e um difuso mal estar psíquico. Parafraseando o famoso texto de Sigmund Freud deparamos, mais uma vez, com um evidente mal estar na cultura, e na civilização.

A primeira teoria médica adotada era a tóxica: o veneno que vinha de fora era o principal responsável pelo adoecimento. Pois mesmo num ambiente como o que hora vivemos aqui no Brasil não poder ser descartada a hipótese de que uma peçonha psíquica externa esteja sendo injetada no ar, neste momento exato, através das redes sociais,  no ciberespaço e também fora dele. Nada de novo. O psiquiatra alemão Wilhelm Reich já diagnosticara a existência de uma espécie de peste presente no “éter”. Esta “praga” psíquica foi apelidada de peste emocional e ela é tão ou mais nociva que uma epidemia de peste bubônica, tifo ou febre amarela.

E o que aprendemos com a tradição vitalista? Que a susceptibilidade é o aspecto mais determinante – ainda que não o único — para desencadear o adoecimento. Que a primeira perturbação detectável pela natureza do cérebro e do sistema nervoso central se reflete primeiramente no estado anímico das pessoas. A primeiríssima afecção acontece na disposição física e no estado psíquico e isso é particularmente notável em crianças. Em geral, traduz-se por sensações pouco objetivas e, às vezes, de difícil detecção semiológica.

Dai a semiologia que aprendida em faculdades de medicina e ciências da saúde ser rigorosamente insuficiente para diagnosticar o mal estar sub clinico (illness) que antecede o aparecimento e desenvolvimento da própria moléstia (disease). E é precisamente neste momento que as medicinas integrativas — como uma modalidade de medicina preventiva — poderiam ajudar imensamente as pessoas e impedir a hiper concentração em atendimento terciário em hospitais e clínicas de especialidades. O atendimento de alta complexidade ficaria para a maior parte dos casos agudos e emergências, e assim sobrariam recursos humanos e capacidade para intervir e cuidar das moléstias crônicas.

Outro aspecto crítico que as ciências da saúde deve reconhecer é que apesar da fala e da narrativa se mostrarem como elementos semiológicos pertinentes e úteis existe uma enorme dificuldade para que os clínicos reaprendam a valorizar o que apreendem destas narrativas. Para que saber qual lado do corpo é mais atingido? Qual a finalidade de registrar sonhos? O que significam as sensações fugazes como “sensação de corpo desmanchando” “cabeça leve”, “do meu ouvido direito sai um vento” “a insônia piora depois das 3 horas da madrugada” “dor de cabeça como se alguém estivesse rosqueando um parafuso na testa” “se como chocolate é como se meu rosto desaparecesse” “sinto tontura quando ouço barulhos altos” ou “quando vejo noticiário político minha boca espuma”. Fora este último, todos os outros foram extraídos de narrativas reais, de experimentadores que expuseram seus sintomas a quem conduziu as experimentações. São as chamadas idiossincrasias, aquelas que mais individualizam os problemas clínicos das pessoas.

Estavam inventando? Não. Exageraram? Não importa, pois não existe mentira na clínica. Mesmo se uma criança diga que ela não gosta de peixe e sua mãe, espantada, afirma que quase muito raramente este alimento é oferecido em casa. A aversão ao peixe deve ser levada em consideração, já que a linguagem expressa o imaginário. E ele possui uma realidade em si. Independentemente da checagem dos fatos.

No entanto, estes elementos, aparentemente parasitas, são importantes não somente para fazer valer o poderoso efeito catártico da consulta, mas também para adensar o conhecimento da pessoa enferma. Samuel Hahnemann muito tempo antes do médico alemão  Otto Schwartz em seu “Psicogênese dos sintomas corporais” já fazia as devidas correlações entre as emoções e as perturbações na saúde.

Mas isso valeria, também, para avaliar o contexto do aparecimento dos sintomas. E tudo isso depende de que? Da linguagem, dos sintomas comunicados através da fala. Outro aspecto que precisa ser desenvolvido é investigar melhor como ocorrem as curas. Pesquisadores notaram que a maior parte dos estudos epidemiológicos são destinados a compreender como as doenças surgem e evoluem, mas são bem mais raros investigações científicas que tentam apreender como elas são curadas.

Pesquisadores israelenses estudando curas espontâneas de AIDS, em países africanos, acabaram descobrindo novas substâncias por elucidar aspectos muito peculiares sobre o auto reciclagem do sistema imune frente à agressão de microrganismos.

Por que então a insistência em retomar uma medicina do falante, onde a tecnologia entra apenas como subsidiária, acessória? Porque a necessidade é premente. Porque as pessoas precisam se expressar como se sentem e não apenas serem fonte de pesquisa de sintomas para formação de um diagnóstico.

Portanto, ao chegar neste ponto, precisamos aceitar que a medicina especificamente humana é a medicina do falante. De quem pode expressar a modalidade das suas queixas e sofrimentos, com contexto e características individuais. Eis a provável origem que Hahnemann atribui aos sintomas particulares e peculiares em detrimento dos sintomas gerais e comuns. E aqui, transcende-se as medicinas integrativas.

Que ganho extraordinário para toda a semiologia médica se os médicos apenas pudessem reconhecer de que não há uniformidade absoluta na apresentação de sintomas quando o foco não é exclusivamente a doença, mas o sujeito com seus sintomas, perturbações e sensações.

Além disso, seria um ganho adicional a qualquer semiologia médica caso os sintomas não servissem somente para prover uma classificação e encaixe em alguma árvore nosológica, mas sim, exaltar a compreensão da própria pessoa. Esta semiologia generosa, mediada pelas palavras, teria potencial para regenerar o rapport, a tão desgastada relação médico-paciente, com a grande vantagem de estar baseado em um encontro. Num contato interhumano solidário e afetuoso, que viria a calhar como uma espécie de lugar neutro, um oásis em meio a tanta hostilidade, turbulência e mal estar.

*Conferência proferida no Congresso Brasileiro de Homeopatia, Curitiba, outubro de 2018

https://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/a-medicina-do-falante/

 

 

 

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Daltonismo para estrelas (blog Estadão)

04 domingo nov 2018

 

O biógrafo Peter Gay nos conta que quando o fundador da psicanálise estava para escapar dos nazistas com um salvo conduto, embarcando num trem de Viena rumo a Londres, a SS exigiu-lhe que assinasse um documento. Freud precisava atestar que havia sido “bem tratado” pela tropa de elite nazista. Sigmund impulsivamente rabiscou:

“Eu recomendo a Gestapo”.

Os recentes ataques contra judeus guardam evidente relação com o excesso de menções negativas contra Israel desrepresadas acriticamente em toda mídia mundial. É preciso denunciar que — sob o disfarce de antissionismo — o País dos hebreu virou uma metáfora obsedante para a imprensa. Aqui no Brasil, assistimos recentemente as falsas comunicações de crime como pseudo suásticas “plantadas”em corpo e paredes. Isso bastou para excitar o clima de antissemitismo latente em parte da sociedade. No dia  01/11/2018, o escritor Luis Fernando Veríssimo escreveu em sua coluna semanal do Estadão, “Os omissos”, onde lançou mão da alusão às estrelas usadas para identificar os inimigos do Estado na Alemanha nazista.

Em resposta, aquilo que poderia ter sido interpretado apenas como ironia do escritor gaúcho, a FIERJ (Federacao Israelita do Rio de Janeiro) emitiu uma nota de repúdio, choveram cartas de parentes de sobreviventes do holocausto, além de manifestações individuais acusando o artigo nas redes sociais. Todas elas mostravam indignação. Apesar de parcialmente justificáveis, não alcançaram o núcleo duro do real problema representado pelo artigo. Na carta resposta redigida por LFV, afirma que só quem não conhece sua história pessoal e de sua família poderia imaginar que o texto carregasse elementos de antissemitismo. De fato, confirmado por depoimentos de pessoas que conhecem a trajetória histórica, assim parece ser.

Destarte, o articulista fez uma analogia direta entre as opiniões do novo presidente eleito com o nazismo (ainda que, como afirmou em sua carta-resposta “não o considerar nazista”) quando o regime nacional socialista alemão levou adiante uma política implacável de perseguição aos membros do partido comunista daquele País. Assim, aparentemente, quando afirma no final do artigo, a frase estéticamente duvidosa “por lá deu certo” referindo-se à missão de limpeza étnica e ideologica do III Reich, é que ele nos introduz ao centro da polêmica.

O que de fato interessava ao partido dos trabalhadores do estado germânico desde 1933 era o extermínio de tudo que fosse dissensso, todas as formas de oposição, e a anulação do contraditório, sob a prática — legal e constitucional, referendada por juízes da Suprema Corte, através das Leis de Nuremberg — de expurgos e assassinatos. Pois ali, o daltonismo para as estrelas era oportuno. Se a perseguição às minorias fazia distinção apenas formal para a cor das estrelas “amarela para judeus, vermelha para comunistas e triangulo rosa para homosexuais”, o grande foco de eliminação sistemática para além das objeções poliíticas, era mesmo a etnia judaica. Contando com amplo esforço de marketing para forçar a identificação dos comunistas com judeus, sem esquecer do conceito ariano de “arte degenerada” que também procurava expandir a identificação dos artistas com a corrupção dos hábitos da sociedade. Apesar de tudo isso, nunca foi segredo que o foco fanático dos seguidores de Adolph estava concentrado no “Judenrein” ou “territórios livres de judeus”.

Portanto, o que afinal o citado colunista subestimou?

Acurácia e sensibilidade.

Sensibilidade quando fez associações a um tema como o holocausto, que vem sendo ostensivamente banalizado. Mastigado e colocado junto com outras mazelas do senso comum, o genocídio de seis milhões de pessoas tem aparecido aqui e ali como um conflito ideológico delimitado. A liberdade de expressão não pode prescindir do humor e da ironia e até permite que se tripudie sobre determinados episódios da história, mesmo aqueles mais terríveis. Além disso, a liberdade de um autor não deve ser colocada sob judice quando idissincrasias são atingidas. Mesmo assim, é necessário se constranger frente à dor dos demais.

Acurácia, já que não se pode desprezar o timing nem desconsiderar o contexto. Escrever é um ato político. Pois é aí que enxergo o descaso. Qualquer articulista tem como obrigação ética, se não, estética, de calibrar melhor seus alvos, especialmente em meio às várias comoções simultâneas que testemunhamos: o triste episódio do crime de ódio recém perpretado contra judeus dentro de uma sinagoga em Pittsburg — o pior da história americana — o antissemitismo jihadista em alarmante alta na Europa, as parábolas farsescas de que milicias neo-nazistas estavam na iminencia de assumir a administração do País. Ou, caso recuse a calibragem, que tal amplia-la para melhor situar e servir o leitor?

Ao insistir em afirmar aquilo que os nazistas fizeram com as minorias frizando que “por lá deu certo” o escritor descerrou um dos arquétipos de sofrimento mais impactantes da história. Se a ironia pode funcionar como denúncia, advertência e alerta, também pode insinuar um tom prescritivo: “é assim que se faz bem feito”. Às vezes, não é a leitura racional que impregna o leitor, mas a assimilação subliminar, afetiva. Foi isso que aconteceu.

O “politicamente correto” tem sido uma forma de amenizar, quiça disfarçar, a dureza nua e crua dos eventos, e, ser jocoso, é uma das formas mais refinadas de comunicação literária como Freud demonstrou acima. Contudo é recomendável cuidado com o sarcasmo ambíguo. Corre-se o desnecessário risco da ofensa. O caminho correto para a  dessensibilização não é, nunca foi, o da psicanálise selvagem. Até a libertação dos tabús, exige respeito ao sofrimento alheio.

Não é pedir muito, bastaria mais sensibilidade.

Faço votos que o colunista a recobre rapidamente, ainda em nossos dias.

https://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/daltonismo-para-estrelas/

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