Subestimada pelas investigações epistemológicas, uma das questões centrais da medicina não tem sido objeto de um estudo essencial: no que a medicina é, por exemplo, distinta da ciência veterinária?

Quais as diferenças metodológicas de apreensão dos sintomas nas duas especialidades? E a terapêutica? De que forma as indústrias farmacêuticas investigam novas drogas? Qual é a metodologia aplicada para avaliar o efeito das substâncias medicinais nos homens e como compara-las aos testes clínicos conduzidos usando animais?

O velho argumento de que a diferença está na irracionalidade dos animais pode ser facilmente derrubada quando se vai até a origem desta informação. Por um erro de tradução a hipótese do filósofo Aristóteles de que o homem é um animal racional em contraposição aos “animais irracionais” foi mantida por mais de dois milênios.

Este filósofo grego, o primeiro a descrever em detalhes o aparelho fonético, escreveu, em sua obra Historia Animalum que os animais apenas usam outra forma de lógica.  Na axiologia judaica o homem é aquele que veio da terra (adamá = terra), uma alusão à sílica. Destarte, o realmente distintivo entre homens e animais repousa em sua capacidade de falar.  Um dos primeiros registros desta especificidade pode ser encontrado na Bíblia Hebraica.  Ao se referir pela primeira vez ao homem, o texto mosaico da Torá, menciona a palavra “medaber”, o falante.

E o que nos torna falantes?

Não é apenas a presença do aparelho fonador, com a laringe e suas conexões neurológicas, pois a maior parte dos mamíferos superiores compartilha de estruturas análogas. Por exemplo, com um aparelho fonador quase idêntico ao nosso por que é que os chimpanzés não relatam sintomas ao médico veterinário? Os sons que emitem, decerto denotam uma linguagem. Junto com as modificações mímicas e corporais pode ser decodificada. O alfabeto de alguns tipos de aves tem sido objeto de estudiosos dos cientistas que já detectaram dezenas de sons que funcionam como uma comunicação de alta especificidade, que significam por exemplo, evocar acasalamento, alerta de perigo, “palavras” de guerra, pedidos de ajuda por saúde e até reclamar de abandono. Sem esquecer dos ultrassons e mensagens subsônicas que várias espécies de insetos estabelecem em suas relativamente curtas jornadas existenciais.

É no entanto, uma pequena, porém decisiva inclinação da cartilagem crico-laríngea que tem lugar nos meses finais da gestação, o que  permite que a articulação dos sons se transforme em palavras – mudança, que, por exemplo, mesmo a maioria dos mamíferos superiores como os símios não apresentam. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5219873/

Esta particularidade associada à maturidade do sistema neurológico que nos conferiu a capacidade de expressão através da linguagem falada. A peculiaridade é que nos transforma em animais produtores de narrativas. E voltando ao estagirita, para ele, o outro elemento que nos diferencia dos animais, além da linguagem falada, é a capacidade de evocar, por um ato de vontade, a memória. Assim, como seres que se expressam pela fala e que conseguem evocar a memória voluntariamente é que podemos dizer que pertencemos ao reino único dos falantes. Superado o reducionismo vamos agora examinar onde estes conceitos podem impactar a medicina.

Se Hipócrates e o Corpus Hipocraticum, seu legado, inventaram a história clinica e, portanto, a medicina técnica, foi Samuel Hahnemann quem sugeriu – meio século antes de Claude Bernard — uma forma de capturar nos estudos experimentais o resultado da ação dos medicamentos quando as pessoas são a eles expostos.

Mas quais resultados?

Trata-se daquilo que o médico de Lyon, Benoit Mure, introdutor da homeopatia no Brasil,  chamou certa vez de “processo verbal”. Pois é destas narrativas capturadas pelas experimentações de medicamentos sobre o homem são, as chamadas patogenesias, que conseguimos obter as sensações, sintomas e vivências do sujeito. Apesar de Hahnemann ter sido glorificado por outras aspectos de sua capacidade científica e criatividade, sem a qual o cientista é apenas um robô compilador de metanálises, sua descoberta de que seria preciso registrar toda a narrativa vivenciada pelo experimentador – assim como a do paciente – passou quase despercebida. Seu livro Fragmenta de Viribus Sive in Sano Corporis Observatis foi no mínimo, subdimensionado. Pois é este registro — comparar os processos verbais induzidos pelas substâncias medicinais aqueles relatados pelos pacientes — permitiria aproximarmo-nos da exatidão das “ciências matemáticas” conforme Hahnemann escreveu em seu texto “Medicina da Experiência”.

Muitas funções, catárticas e não catárticas entram em operação quando alguém chega para relatar o que sente e como sofre. Esta capacidade de extrair uma história clínica com todos os sintomas, a anamnese, não só não é simples, como desafia o modo como os médicos tem sido ensinados nas escolas médicas, especialmente quando se aplica uma pedagogia hiperpragmática.

A ação sossegadora ou catártica é uma função da fala descrita por Muller-Freienfels (Entralgo, 1950). Trata-se de um tipo de função notificadora, pois na intimidade daquele que notifica há nivelação afetiva e, quiçá, sossego. Conforme Pedro Lain Entralgo apontou, “a elocução adequada tem, sempre, ainda que em quantidades muito variáveis, um efeito catártico.”

Trata-se de aspecto tão importante para o constructo relacional que Entralgo ainda divide catarsis ex ore (produzida pela elocução ativa) e catarsis ex auditu determinada pelo fato de se ouvir adequadamente e conclui, afirmando: “Não é possível construir uma doutrina psicoterápica sem discutir a fundo estas duas formas da catarse verbal.”

E, portanto, qualquer aperfeiçoamento deve decorrer de um treino permanente. Vale dizer, trata-se de um destreino, vale dizer, de uma verdadeira reabilitação semiológica.

Por que?

A pedagogia médica limitou-se a ensinar como se captura os sintomas objetivos, capazes de nos oferecer um quadro diagnóstico plausível da patologia. O propósito é essencial, achar e identificar os sintomas em determinada árvore nosológica para que se possa estabelecer o nome correto da moléstia. Em nossos dias, programas e robôs que já podem substituir médicos nesta tarefa de definir o nome da moléstia. E há quem defenda até terminais onde os médicos prescreveriam de centros à distância, dispensando a clássica “medicina feita à cabeceira do enfermo”. Importante que o leitor note que não se trata de anacrônico saudosismo. Com ou sem o apoio da tecno-ciência o diagnóstico nosológico torna-se, isoladamente, insuficiente para determinar qual a melhor terapêutica quando se trata de uma medicina baseada em sujeitos.

Não me refiro exclusivamente à uma medicina específica. Falo sim da medicina lato sensu. Se a medicina de fato deseja recuperar para si a tradição humanista que foi perdendo — e que é clamada pelas sociedades ao redor do mundo como reação à hipertrofia da biotecnologia aplicada às ciências da saúde, precisa deslocar-se do eixo no qual confortavelmente se instalou. E o resgate começaria com a recuperação da linguagem para elucidar o significado do sofrimento de cada um. É preciso recuperar a perspectiva de captar o patognomônico do sujeito, aquilo que o individualiza.

Há aqueles que argumentam que uma divisão de trabalho foi estabelecida e que a mesma deve ser portanto respeitada. Mente e o corpo separados resolveriam um grande problema epistemológico. Neste caso, psiquiatras seriam responsáveis pela primeira parte e os médicos clínicos se encarregariam do monopólio dos transtornos corporais.

Isso também significa que um médico deve se ocupar do tratamento tendo em vista a especificidade da queixa clínica e da moléstia diagnosticada. Ora, essa observação poderia ser uma saída, se, e somente se não houvesse uma crise entrando pela porta da frente da Medicina. De um lado, o dilema preventivista da epidemiologia e da saúde coletiva nos alertando para os custos excessivos na manutenção dos recursos médicos direcionados para as doenças crônicas já estabelecidas, e, de outro, a extrema insatisfação (questionários e estudos multicêntricos indicam que ela é mundial) com os serviços de saúde mundo afora.

A primeira ministra da Grã Bretanha Thereza May, acaba de designar uma tarefa inédita para a Ministra da Saúde, Jackie Doyle-Price: com um orçamento exclusivo de 1.8 milhao de libras, estudar e estabelecer um plano de ação para a prevenção do suicídio. Só no passado houve um alerta dada a epidemia de 4.500 pessoas que ceifaram a própria vida no Reino Unido. A epidemia de depressão e de distúrbios psíquicos havia sido antecipada 30 anos antes. O relatório da OMS publicado em Geneva em 1988, já previa: a maior parte das buscas por atendimento médico até a metade do século XXI não seria por problemas clínicos físicos, mas por queixas relacionadas aos distúrbios funcionais e um difuso mal estar psíquico. Parafraseando o famoso texto de Sigmund Freud deparamos, mais uma vez, com um evidente mal estar na cultura, e na civilização.

A primeira teoria médica adotada era a tóxica: o veneno que vinha de fora era o principal responsável pelo adoecimento. Pois mesmo num ambiente como o que hora vivemos aqui no Brasil não poder ser descartada a hipótese de que uma peçonha psíquica externa esteja sendo injetada no ar, neste momento exato, através das redes sociais,  no ciberespaço e também fora dele. Nada de novo. O psiquiatra alemão Wilhelm Reich já diagnosticara a existência de uma espécie de peste presente no “éter”. Esta “praga” psíquica foi apelidada de peste emocional e ela é tão ou mais nociva que uma epidemia de peste bubônica, tifo ou febre amarela.

E o que aprendemos com a tradição vitalista? Que a susceptibilidade é o aspecto mais determinante – ainda que não o único — para desencadear o adoecimento. Que a primeira perturbação detectável pela natureza do cérebro e do sistema nervoso central se reflete primeiramente no estado anímico das pessoas. A primeiríssima afecção acontece na disposição física e no estado psíquico e isso é particularmente notável em crianças. Em geral, traduz-se por sensações pouco objetivas e, às vezes, de difícil detecção semiológica.

Dai a semiologia que aprendida em faculdades de medicina e ciências da saúde ser rigorosamente insuficiente para diagnosticar o mal estar sub clinico (illness) que antecede o aparecimento e desenvolvimento da própria moléstia (disease). E é precisamente neste momento que as medicinas integrativas — como uma modalidade de medicina preventiva — poderiam ajudar imensamente as pessoas e impedir a hiper concentração em atendimento terciário em hospitais e clínicas de especialidades. O atendimento de alta complexidade ficaria para a maior parte dos casos agudos e emergências, e assim sobrariam recursos humanos e capacidade para intervir e cuidar das moléstias crônicas.

Outro aspecto crítico que as ciências da saúde deve reconhecer é que apesar da fala e da narrativa se mostrarem como elementos semiológicos pertinentes e úteis existe uma enorme dificuldade para que os clínicos reaprendam a valorizar o que apreendem destas narrativas. Para que saber qual lado do corpo é mais atingido? Qual a finalidade de registrar sonhos? O que significam as sensações fugazes como “sensação de corpo desmanchando” “cabeça leve”, “do meu ouvido direito sai um vento” “a insônia piora depois das 3 horas da madrugada” “dor de cabeça como se alguém estivesse rosqueando um parafuso na testa” “se como chocolate é como se meu rosto desaparecesse” “sinto tontura quando ouço barulhos altos” ou “quando vejo noticiário político minha boca espuma”. Fora este último, todos os outros foram extraídos de narrativas reais, de experimentadores que expuseram seus sintomas a quem conduziu as experimentações. São as chamadas idiossincrasias, aquelas que mais individualizam os problemas clínicos das pessoas.

Estavam inventando? Não. Exageraram? Não importa, pois não existe mentira na clínica. Mesmo se uma criança diga que ela não gosta de peixe e sua mãe, espantada, afirma que quase muito raramente este alimento é oferecido em casa. A aversão ao peixe deve ser levada em consideração, já que a linguagem expressa o imaginário. E ele possui uma realidade em si. Independentemente da checagem dos fatos.

No entanto, estes elementos, aparentemente parasitas, são importantes não somente para fazer valer o poderoso efeito catártico da consulta, mas também para adensar o conhecimento da pessoa enferma. Samuel Hahnemann muito tempo antes do médico alemão  Otto Schwartz em seu “Psicogênese dos sintomas corporais” já fazia as devidas correlações entre as emoções e as perturbações na saúde.

Mas isso valeria, também, para avaliar o contexto do aparecimento dos sintomas. E tudo isso depende de que? Da linguagem, dos sintomas comunicados através da fala. Outro aspecto que precisa ser desenvolvido é investigar melhor como ocorrem as curas. Pesquisadores notaram que a maior parte dos estudos epidemiológicos são destinados a compreender como as doenças surgem e evoluem, mas são bem mais raros investigações científicas que tentam apreender como elas são curadas.

Pesquisadores israelenses estudando curas espontâneas de AIDS, em países africanos, acabaram descobrindo novas substâncias por elucidar aspectos muito peculiares sobre o auto reciclagem do sistema imune frente à agressão de microrganismos.

Por que então a insistência em retomar uma medicina do falante, onde a tecnologia entra apenas como subsidiária, acessória? Porque a necessidade é premente. Porque as pessoas precisam se expressar como se sentem e não apenas serem fonte de pesquisa de sintomas para formação de um diagnóstico.

Portanto, ao chegar neste ponto, precisamos aceitar que a medicina especificamente humana é a medicina do falante. De quem pode expressar a modalidade das suas queixas e sofrimentos, com contexto e características individuais. Eis a provável origem que Hahnemann atribui aos sintomas particulares e peculiares em detrimento dos sintomas gerais e comuns. E aqui, transcende-se as medicinas integrativas.

Que ganho extraordinário para toda a semiologia médica se os médicos apenas pudessem reconhecer de que não há uniformidade absoluta na apresentação de sintomas quando o foco não é exclusivamente a doença, mas o sujeito com seus sintomas, perturbações e sensações.

Além disso, seria um ganho adicional a qualquer semiologia médica caso os sintomas não servissem somente para prover uma classificação e encaixe em alguma árvore nosológica, mas sim, exaltar a compreensão da própria pessoa. Esta semiologia generosa, mediada pelas palavras, teria potencial para regenerar o rapport, a tão desgastada relação médico-paciente, com a grande vantagem de estar baseado em um encontro. Num contato interhumano solidário e afetuoso, que viria a calhar como uma espécie de lugar neutro, um oásis em meio a tanta hostilidade, turbulência e mal estar.

*Conferência proferida no Congresso Brasileiro de Homeopatia, Curitiba, outubro de 2018

https://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/a-medicina-do-falante/