• Uma entrevista sobre Verdades e Solos
  • Resenha de “Céu Subterrâneo” no Jornal da USP
  • A verdade lançada ao solo, de Paulo Rosenbaum. Rio de Janeiro: Editora Record, 2010. Por Regina Igel / University of Maryland, College Park
  • Resenha de “Céu Subterrâneo” por Reuven Faingold (Estadão)
  • Escritor de deserto – Céu Subterrâneo (Estadão)
  • A inconcebível Jerusalém (Estadão)
  • O midrash brasileiro “Céu subterrâneo”[1], o sefer de “A Verdade ao Solo” e o reino das diáforas de “A Pele que nos Divide”.(Blog Estadão)

Paulo Rosenbaum

~ Escritor e Médico Writer and physician

Paulo Rosenbaum

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Justiça e grande justiça, para que servem? (artigo do JB de 2012)

16 terça-feira out 2018

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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19/04 às 05h46 – Atualizada em 19/04 às 05h48

Justiça e grande justiça, para que servem?

Jornal do BrasilPaulo RosenbaumTamanho do Texto:+A–AImprimir

 É justo que o diplomata iraniano com “imunidade diplomática” não seja indiciado pela suspeita do crime de molestar crianças em Brasília? É justo que a presidente da Argentina exproprie a Repsol sem discutir a indenização? É justo que a corte brasileira postergue o julgamento do mensalão até que prevaleça a tese de que ele não passou de “uma conspiração burguesa contra o governo popular”? O jurista dirá que a aplicação da lei não é ciência exata e contempla contextos. É verdade, mas quais os limites para que as regras sejam retorcidas? O fato é que, com tantas contextualizações, já nem se sabe se a justiça pode, de fato, cumprir seu papel constitucional como poder independente.

Claro que aqui neste espaço jornalístico não cabe definição de justiça, pelo menos ao modo dos compêndios de direito. Podemos partir do suposto consenso: a justiça é um dos fundamentos da democracia, portanto da civilização contemporânea.

Será?

Adotássemos outra perspectiva filosófica uma visão, mais ampla, surgiria. Mesmo que, às vezes, confunda-se justiça com hermenêutica jurídica o “senso do justo” inato é raro.

É conhecida a tradição do direito romano, e bem menos conhecida a do direito talmúdico. Nesta última a perspectiva da justiça não é só uma terminologia que se aproxima da ética. A justiça não é monopólio de juízes ou tribunos, religiosos ou laicos. É a justiça do dia a dia realizada e praticada pelos homens comuns. No sentido filosófico é um conceito de justiça que se aproxima da cultura e mistura caridade e  diálogo. Segundo essa hermenêutica somos apenas, quando muito, aspirantes que devem se conformar com a condição de “justos que sofrem”.

Se justiça é termo tão cheio de significados, o que ela é e para que serve?

Na grande justiça podemos enfocar justiça como uma atitude que norteia a vida. Justiça como fundamento poético (estético também) e liberdade.

Sofremos por não ser possível aos seres humanos comuns — aqueles que não nasceram com os devidos pesos e medidas introjetados — escolherem a perfeição. Pois na santa imperfeição sofremos todos e coletivamente, exatamente porque precisamos de justiça. Justiça que não está ao nosso alcance, justiça longínqua, inaccessível, justiça que só a vida teria potencial para oferecer. Mas nem sempre a potência se torna ato. Vira e mexe, saímos dos tribunais com documentos cheios de promessas.

Como a justiça não é inata um dos papéis humanos é tentar criar, contra o senso comum, o que não é espontâneo em nossa natureza. Assim como a indução funciona num experimento científico, a prerrogativa é assumir as responsabilidades das coisas que fazemos. Só renunciando à perfeição podemos repensar nossos papéis. Buscar justiça não é só condenar criminosos, organizar delatores, postergar o direito, marchar contra a corrupção, garantir as posses ou obter ressarcimento. Devemos recuperar a grande justiça. Agir de acordo com consensos éticos, malgrado conscientes da nossa própria brutalidade, omissão e de que sempre tentamos ser mais espertos. Mesmo assim, temos o dever de recusar a rendição às debilidades e vícios moralistas. Somos obrigados a conviver com sombras internas de uma natureza indissipável. Pode ser assimilada se formos mais compreensivos diante da irreversível condição de seres intermediários.

Apenas em parte a alarmante corrupção que corre solta é explicável pela maior transparência. O jogo da atual administração está claro: abafar o que a opinião pública sente na carne. Mas isso nem funciona nem basta. O poder se perdeu e o resgate da credibilidade não é mais tarefa simples. A epidemia de violência que vivenciamos em todo o País, por exemplo, é um dos efeitos colaterais da falta de cultura da justiça lato sensu.    

Em outras palavras, será preciso recuperar, através da cultura, o sentido do justo. Noção, falsamente ingênua, presente nas várias tradições. Por acaso somos justos, sequer razoáveis, no julgamento que fazemos dos outros? Quem denuncia a denúncia de quem denuncia quem denunciou?

É polêmico, mas temos que considerar a hipótese de que já faz tempo que o direito institucional perdeu o sentido filosófico do justo. A sociedade clama justiça como punição. Esqueceu-se do fragmento solidário que torna a justiça uma aliada do cidadão e não seu algoz. Precisamos recuperar essa outra dimensão da justiça. Isso, só isso, já produziria enorme mudanças no mundo prático e no universo político.

*Paulo Rosenbaum é médico e escritor. Autor de “A Verdade Lançada ao Solo” Editora Record.

Para comentar e compartilhar:

http://www.jb.com.br/coisas-da-politica/noticias/2012/04/19/justica-e-grande-justica-para-que-servem/

paulorosenbaum.wordpress.com

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A civilização que não se pergunta.

10 quarta-feira out 2018

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Coisas da Política

08/11 às 06h06

A civilização que não se pergunta

Jornal do BrasilPaulo Rosenbaum, médico e escritor

 

O genial sistema tutorial celebrizado por Sócrates, mas já presente em tradições mais ancestrais como no ensino talmúdico e em escolas orientais, jamais foi superado por nenhum outro método pedagógico. A maiêutica (do grego maieutikos — fazer nascer as ideias) é a arte de instigar o aluno a formular conceitos latentes e estabelecer conexões com a realidade mediante uma sequência dialética de questões. Desde então ela passaria a ser virtude mais interessante que dar as devidas respostas. Num mundo tensionado por imediatismos e pelo saber I-pédico, esta forma de raciocinar perdeu força. Estamos em falta com o professor ateniense especialmente, se considerarmos que esta forma de educar custou-lhe a vida.

Sem perguntas, as respostas nos fazem errar. Internações compulsórias decididas às pressas

Tem sido a praxe política tentar achar respostas antes de formular questões. Sem perguntas, as respostas nos fazem errar. Internações compulsórias decididas às pressas, blitzes contra drogas diante da pandemia que se instalou no país, o clamor nacional pela construção de mais hospitais, planos de seguro saúde oferecidos aos milhares. Tudo isso está acontecendo, sem que se discuta o que é saúde para a sociedade? Para que e para quem vivemos? De onde vem tamanha insatisfação?

O que fazendo com nossas vidas? Quais são e como as questões políticas nos afetam? Às vezes, vale dizer, muita vezes, a ponto de nos fazer adoecer. E para que sofremos tanto? Por que este ou aquele se sagrou vencedor? Apesar de vivermos numa comunidade, não construímos igualdade ou solidariedade. Não é só a violência cotidiana que impede que vivamos em paz, ainda que ela seja uma forma de cassação branca da cidadania, hoje instaurada em pleno vigor.

A dificuldade de encontrar o saudável torna nossas vidas isoladas e apartadas. O obstáculo encontra-se espalhado numa vida pulverizada, redigida pela matéria e pautada por necessidades dispensáveis. Assim como a especulação financeira do capitalismo acionário reduz as perspectivas de produção, a vida ganha menos valor quando não há pelo que lutar.

As maiores taxas de suicídio do mundo estão surpreendentemente localizadas nos países escandinavos, o mesmo sítio onde se concentra o maior índice de países com IDH elevado.  O paradoxo está posto. O isolamento, a solidão e uma vida sem tribulações parecem nos levar ao tédio crônico, enquanto a insegurança, a instabilidade e a falta de perspectivas nos conduzem às portas da depressão. Para um e para outro, a solução pregada será majoritariamente medicinal, induzida por fármacos psicoativos legalizados, drogas ilegais ou o bom e velho álcool.

Os médicos e terapeutas são os elementos que recebem, no varejo, todas essas mazelas sociais.  É lá que as pessoas se queixam, isso quando há tempo hábil para que os cuidados formulem frases inteiras — aquilo que os políticos tentam saldar no atacado, eles entram como sujeitos únicos nos hospitais, nos ambulatórios, nas clínicas do SUS e nos consultórios privados. Nota-se uma espécie de praga psíquica generalizada que faz com que 70% dos clínicos gerais (dados de 2005)  prescrevam psicofármacos com incrível regularidade.

Sempre fica uma ponta de dúvida se a humanidade enfim reconhece que caiu, e, deprimida, precisa ter suas demandas aplacadas por drogas.

Há qualquer originalidade nesta resposta?

Claro que em suas mais variadas formas, as substâncias também cumprem seu papel social, ritualizador, catártico, relaxante. Como se vê, reiteradamente precisamos de analgesias psíquicas. É possível aceitar que a divisão entre drogas lícitas e ilícitas é arbitrária, mas será que a solução é liberar as ilícitas? Proibir as lícitas? Os estudos só são ambíguos e contraditórios para quem não sabe que absolutamente todos os fármacos e substâncias medicinais e alimentares deste planeta apresentam, intrinsecamente, vantagens e desvantagens. Depende de quem usa, para que usa, quanto usa. Precisamos saber quem é o sujeito, conhecer suas idiossincrasias, para só depois, talvez, saber por que requisitar a carteirinha de usuário.

O ponto de inflexão aqui é que a medicina e as terapêuticas buscam — e na maior parte das vezes malogram — minimizar o sofrimento humano. E precisamos pensar se a sociedade, da forma como está sendo constituída, permite que sejamos. Que sejamos sujeitos. O problema central é tentar minimizar o sofrimento numa sociedade que o exalta. Ah não? O que achamos da ideia de matar um leão por dia? Como nos sentimos sob ameaça? O que significa viver, permanentemente, sob competição? Como reagimos ao deparar com tantas disparidades econômicas? E que tal, destreinados que estamos para a predação, a sensação compulsória de viver na selva?

A resposta só pode ser outra pergunta: como chegamos a isso?

Pois esta é uma civilização que não pode deixar que os cidadãos exerçam suas individualidades. A peste emocional circula tal qual uma doença altamente infecciosa. Sim, há um contágio metafórico, e ele não só existe como invade tanto quanto os microrganismos patogênicos mais perigosos. Esta é uma civilização que não se pergunta. Ela se ergue mesmo em cima de seres anônimos que não podem, nem querem mais se exercitar como sujeitos. Mas é claro que há um custo alto por tamanha impossibilidade ou renúncia. Quem não exerce a criatividade e sua própria arte paga. Buscar um lugar ao sol, sair do anonimato, fazer circular nossas ideias, e contar com a benevolência da expressão, são as proteções viáveis na era geral da indelicadeza.

Mais do que nunca, precisamos da salvaguarda das artes para que a criação faça  sentido. Ou não?

Paulo Rosenbaum é médico e escritor. É autor de “A Verdade Lançada ao Solo” (Ed. Record)

paulorosenbaum.wordpress.com

 

 

http://www.jb.com.br/coisas-da-politica/noticias/2012/11/08/a-civilizacao-que-nao-se-pergunta/

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O árbitro do sentido (blog Estadão)

07 domingo out 2018

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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O Partido do Sentido

Num belo dia estamos no limiar do que parece ser um equívoco, porém, reconsidere, poderia ser muito pior. Para além dos gags linguísticos e dos reducionismos que o senso comum tem nos pregado no horário de TV subsidiada, estamos observando uma repetição. Uma a mais.

Olhando pelo lado estritamente analítico, nunca fomos tão anacrônicos. Mas, ao mesmo tempo, estamos reagrupando informações para alterar o ritmo do tempo, do qual antes éramos apenas expectadores passivos. Estamos vivendo em uma dimensão que não controlamos bem. Ainda. Pode ser um enorme entanglement effect (efeito de entrelaçamento) em que nós afetamos e somos afetados tal qual as partículas de luz, mesmo separadas, sofrem efeitos similares. Mas também pode ser algum outro fenômeno, desconhecido. Um destes que ninguém diagnostica.

Nosso solo comum é, decerto, maior do que tudo que nos distancia. Para pensar no jantar deste domingo: enquanto a política esfacela relações, quem provoca a secessão e as dissidências, reina incólume. Ainda assim vingar-se não é a resposta: jamais chegaríamos ao primeiro culpado. Enquanto isso inocentes precisam ser protegidos.

Não importa mais de que lado do espectro ideológico as pessoas vivem. O vital subsiste na preservação de algum senso de justiça, e o império do justo não é, nunca foi, a guerra.

A priori, só a paz significa muito. Mesmo nos cantões e nos ringues onde todos vociferam promessas e ameaças é a vontade de sentido que merece ser preservada. É o olhar de cuidado com quem não conta com nada.

E nós? Contamos com o que? Que o Estado faça o que jamais conseguimos aplicar em nossas experiências individuais.? A urna é apenas um símbolo amorfo. O verdadeiro manual é interno e o resultado poderá ser enfim nos reconhecer como povo. Se hoje isso não é possível, o dia chegará. Inexorável. São as ações ordinárias que nos levariam a algum senso de unidade. Quem sabe a tolerância pudesse recomeçar com a autoconsciência despertada por eventos mínimos. E assim, aqueles que defendem o humanismo, os reformadores íntimos dos outros, não exercitariam sua fiscalização sobre os demais.

 

Não sabes do que estou a dizer?

 

Pois vamos de outro modo: vote por sentido. Vote, impiedosamente, mas vote. Vote em mediações. Vote por conciliações. Vote por você — estamos cercados, uns pelos outros. Vote contra a opressão. Vote numa justiça que antecede nomes. Vote sem culto à personalidade. Vote no que é claro e distinto. Vote na ciência que amplie a vida. Vote na tradição que tem lugar no mundo. E vote também no progresso que não destitua o que já foi compreendido. Vote na civilização. Vote considerando parâmetros mais altos daqueles que estão disponíveis. Aproveite e não vote neles, nem nos outros. Vote no convosco. Vote na transparência que comunica. Vote na presença. Vote nos sons que ainda estão por nascer. Vote na ninfa. Vote em quem irá te acompanhar. Vote no que é transição. Vote no fluxo de consciência. Vote e eleja hermenêuticas que protejam. Vote em minorias. Vote no interesse público. Vote contra o desvio de função. Vote por um e por todos. Vote rebaixando a aflição. Vote na urna que amplia teu alcance. Vote na verdade que paira sem saber se aterrissa. Vote contra o refrão. Vote sem levar em conta os slogans. Vote longe das manadas. Vote no interno. Vote para sufocar a mentira acumulada. Vote desconfiando de quem sofisma. Vote abstraindo o carisma. Vote abandonando a supremacia. Vote na intensidade da igualdade. Vote em equidade de oportunidades, nunca de resultados. Vote pelo rodízio de poder. Vote em cores primárias. Vote em estado de liberdade. Vote olhando para além das muralhas. Vote olhando as crianças. Vote enxugando as lágrimas. Vote esquecendo comandos. Vote para resgatar a cidadania. Vote dissolvendo boatos. Vote menosprezando pesquisas. Vote com a noção de processo. Vote sabendo que já é história. Vote como se fosses um juiz imparcial diante de um impasse centra. Vote sob a viseira do passado. Vote como se houvesse um futuro. Vote em um presente.

E se mesmo assim tudo parecer/estiver perdido, vote sabendo que você é o árbitro do sentido.

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Contagem regressiva da Democracia (Blog Estadão)

24 segunda-feira set 2018

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Os populistas nunca saem de moda, mas doravante será preciso escolher entre criminaliza-los ou preservar o sistema democrático.

Para esclarecer será preciso um trabalho de dissecção dos cadáveres que estão ainda na mesa. Ou como se diz em epidemiologia de uma autopsia psicológica do atual cardápio eleitoral. Como se fosse possível, recentemente criaram-se mais subdivisões nas subdivisões pré-existentes. Mulheres, judeus, negros, gays contra e a favor. A simples recusa em mencionar o nome dos candidatos (para não não fazer subir suas estatísticas digitais) mostra o caráter regressivo ao qual a sociedade parece esta sendo conduzida. O resultado tem sido um marketing reverso à revelia. Quanto mais se evita nomear mais exposição se obtém para o sujeito oculto.

Ora, nenhuma classe, etnia ou gênero tem homogeneidade minimamente razoável nas suas escolhas políticas. São todos movimentos forjados para  tomar a palavra e monopoliza-la. Procura naturalizar a  assunção de que se fala por muitos quando é apenas um grupo, mesmo que possa vir a ser numeroso.  Divulga-se então a ideia de que os interesses pessoais, partidários e ideológicos podem ser sequestrados para se tornarem porta vozes de uma suposta maioria.  Pois este é, em princípio, um desserviço à democracia. E a sabotagem não termina ai. Com a capacidade de difusão de robos emprestados e contratados com dinheiro público desviado, a capacidade de espalhar intolerância é maior do que a percepção da armadilha ao qual estamos sendo submetidos.

E por que o centro está sendo desativado, vale dizer, estraçalhado pelo voto? Sobre quem deve recair o ônus de ter levado a sociedade a ter que já escolher — em incrível antecipação desesperançosa — entre quem será mais fácil votar contra e derrotar em 2022?  Sim, pois este é a aritimética de uma exaustão que nos trouxe até este momento. Sim, é chegada a hora de apontar para os omissos e toda classe política que nos fez herdar a obscena polarização. O diagnóstico obvio têm apontado para os partidos políticos como um todo. Locupletaram-se nos últimos anos e são os grandes responsáveis, pois sua cooptação — por ideologia ou ambições de poder e censitárias — ocorreu a céu aberto, explicitamente, em plena luz do dia. A mordaça exerceu seu papel emudecedor não pela censura, não pela restrição da liberdade, mas pela via do excesso de denúncias. Se todos são culpados ninguém pode assumir a culpa. não se pode funalizar pessoa ou partido. Trata-se de alta astucia de um jogo ganha-ganha onde quem sempre leva a melhor são os conhecidos predadores, nunca a sociedade.

O culto à personalidade, alimentado pela perspectiva de redenção mítica, foi outra fonte da mazela que agora atinge a todos, indiscriminadamente. Exalçado por entidades religiosas e confirmado como salvador por movimentos sociais regados com dinheiro da casta sindical o culto à personalidade terminou o serviço de descaracterização dos programas partidários. Exterminou o projeto de uma agenda programática como fundamento da política. Desmontou o centro democrático. Além disso, tivemos a fabulosa ajuda de um regime proto-policial que ajudou a construir o perigoso consenso de que a única coisa necessária para ser um Estadista é não ter uma ficha corrida. Nada mais defectivo e falso. O candidado além de probo, deveria ter mostrado sua capacidade de administração, sua experiência em tangenciar temas dificeis, e capacidade intelectual e temperança para opinar, argumentar e contra-argumentar. Nada disso se viu nos candidatos que vieram substituir os presos e os impedidos de se reeleger para nos incomodar com seus repertório de sensos comuns.

O outro fator, talvez este o mais grave foi a negligente perturbadora afasia das instituições. Ninguém prefere explicitar, mas é notório que o sistema juridico começou a apresentar falhas gravissimas. Ao usurpar atribuições dos outros poderes sem que as outras instituições lhes fizesse frente, a hipertrofia da toga asfixiou a representatividade popular. Foi assim possivel para Roussef e outros constitucionalmente inelegíveis agora tornarem-se presentes nas urnas digitais à prova de balas. Condenados em três instâncias burlarem as normas e se apresentarem como ícones da moralidade pública. Votações reiteradas para julgar nomes e não princípios ou dilemas da constituição. Hermenêuticas seletivas aplicadas ao gosto dos clientes.

Nos últimos dias o quadro tornou-se pesadelo, grave atentado político, ameaça de indulto, agressão contra jornalistas, insultos destempero e convocação à violência. E, na mistura de temas, até um ex-ministro, abusando da manipulação e escancarando sua desonestidade intelectual abusou dos termos fascista e nazista. O disparate do membro da comissão da ONU, foi acusar um dos candidatos de “nazista e sionista” equiparando a doutrina do nacional socialismo alemão com o direito dos judeus a retornar a Israel. Do outro lado, a tentação atual é de revisionismo tosco ao propagar que os “nazis” eram bolcheviques travestidos com suásticas e de que a nunca existiu ditadura militar ou tortura (sic)

O estado abusivo com que o sistema político tem tratado os contribuintes e a reiterada malversação do interesse público fecha o quadro de um painel deprimente, onde o desvio de função do Estado é tão absoluto, que sabota a razão da existência de um  governo. Painel aberto para inspirações anárquicas e anomicas.  Por fim, mas não menos importante, a semi nulidade da oposição. Reféns do sucesso provisório que era uma fraude: a 5a economia do mundo, decerto, de 10a categoria. O resultado foi previsível, a sedução nos custou caro: vivemos 13 anos sem oposição. Nem a remoção cirurgica e benéfica da ex presidente não pode ser contabilizado a favor desta oposição, já que foi um ato que dependeu basicamente das 10 milhões de pessoas que estiveram nas ruas para amedrontar o establishment e o pressionarem a adiar o caos. Além disso, nas entrelinhas, o impeachment esteve muito perto de obter o aval lulopetista, já que até os fiéis súditos passaram a mostrar desaprovação à catastrófica escolha do poste feminino que Luis Ignácio pinçou de algum obscuro rincão burocrático. Tudo isso com o beneplácito de parte da mídia que endossou ou fez a aprovação velada ao projeto de poder. Não são os votos que estão consolidados, é o pathos político que já está bem sucedido e pago.

Temos agora que compreender a provável eleição de um populista das extremas com olhos analíticos. Não haverão surpresas. Já com enfoque preventivista e a preservação da saúde mental prescreveria:

Alienação para os próximos 4 anos.

Estoicismo para os próximos 10.

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Livro de Coisa Nenhuma

20 quinta-feira set 2018

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Livro de coisa nenhuma

Por

Paulo Rosenbaum

1 de abril de 2014

Nada, Do latim, Nata, scilicet res, coisa nascida, da elipse do não (res) {non} nata) e perda do res passou a significar coisa nenhuma.) Antenor Nascentes e Aurelio B. Holanda

Foi um tema investigado. Milan Kundera lhe dedicou um capítulo inteiro. Falamos sobre o implausível projeto de Flaubert para executar um livro sobre o nada. Dá para entender o fascínio. O nada sempre figurou como possibilidade literária.

Nada pode ser muitas coisas. Zero, nulo, vazio, absolutamente não, sem importância, insubstancial, infinitesimal, dez reis de mel coado, não ser, não estar, em branco.

E, já aí, na insuficiência das sinonímias, começam as digressões. É que, fora o texto técnico stricto sensu, tudo é, ou acaba em digressão.Qualquer narrativa criada precisa desdobrar seus temas, buscar os caminhos do suspense, criar enredos. O escritor francês esperava contornar os caminhos do romance para atingir o reducionismo perfeito?

Onde estaria este esvaziamento criativo? O nada essencial estaria presente, in situ, um trilionésimo de segundo antes do big-bang? O momento que foi apelidado de singularidade? Talvez, a única verdadeira? Segue a pergunta que obseda todos: o que precedia o nada?

E se o fascínio do escritor francês fosse menor ambicioso e estivesse só na não possibilidade? Um romance no qual a poesia resignificasse a prosa. Que essa mantivesse seu esqueleto e enredo. Uma história contada sem que o ritmo concedesse demasiado espaço ao formalismo, nem que o deslumbramento pelas palavras fosse diluído pelos temas.

Impossível escrever sobre o nada sem o texto em branco. Apesar da veemente negação de legião de biógrafos, há desconfiança de que o famoso livro sobre o nada tenha sido mais que um presságio inconcluso.

Em 2009, numa dessas artimanhas do destino, o bibliotecário chefe da Biblioteca Nacional da França, François Rivoll, afirmou ter encontrado, junto com os originais da peça“O Candidato”, uma folha com o monograma: G.F. Só. Não havia registro ou indexação. Nenhuma assinatura ou qualquer sinal indiciário do autor.

Teria aquela folha única, potencia para mudar o curso da literatura?

Somente revelado em 2013 “O livro sobre coisa nenhuma” enfim não era só uma página em branco:

“Registro do som da perplexidade. Um dicionário vazio. Era a confissão da angústia. A inverdade do tempo. Era o passado que continha o futuro. O livro sobre coisa nenhuma é a própria vida, porque, incontável, ela é outra singularidade.”

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O fim da democracia – este artigo só será lido aqui, não está na minha coluna do JB!

17 segunda-feira set 2018

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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https://paulorosenbaum.com.br/2013/06/07/o-fim-da-democracia-este-artigo-so-esta-aqui-nao-tentem-acha-lo-na-minha-coluna-do-jb/

Avatar de Paulo RosenbaumPaulo Rosenbaum

A história ensina que a democracia é o melhor sistema de governo já inventado, e encontrou o apogeu entre os gregos no século de Péricles. Só que seu aperfeiçoamento leva tanto tempo e tomamos tanto na cabeça que ninguém pode garantir que sobreviveremos para ver seu triunfo. Os direitos civis estão ameaçados pelos governos que se autoperpetuam no poder e pelos que gritam por aí que temos “excesso de direitos humanos”. Eles podem dar as mãos e valsar, porque ambos sonham com ditaduras. Poder autocrático e gente que tem nostalgia da ditadura militar fazem parte do mesmo saco.  O primeiro porque acredita tanto na própria capacidade que sonha com um país sem imprensa livre e sem oposição (desejos quase realizados na Argentina e na Venezuela) e os segundos, aqueles que espalham vídeos e bobagens com “saudades do golpe”, são movidos pela fantasia das coisas arrumadas, da ordem à base do…

Ver o post original 664 mais palavras

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O midrash brasileiro “Céu subterrâneo”[1], o sefer de “A Verdade ao Solo” e o reino das diáforas de “A Pele que nos Divide”.(Blog Estadão)

13 segunda-feira ago 2018

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Tive a honra de ser convidado para participar de um encontro do BRASA (XIV – Congresso Internacional da Associação de Estudos Brasileiros no tema “Textualidade Judaicas na Literatura Brasileira – O Ofício do Escritor) que se realizou na PUC-RJ de 26 a 29 de julho de 2018. A organização ficou ao encargo das Professoras Lysley Nascimento, Nancy Rosenchan e Regina Igel. Na mesa de depoimentos de escritores brasileiros da qual fiz parte, também participaram Luis Krausz, Leila Danziger, Fábio Weintraub, Lucius de Mello e Ronaldo Wrobel. A troca, como convém, foi rica e saimos todos com várias ideias para testes de hipóteses. Sem delimitar uma tese única as apresentações procuraram evidenciar o aspecto múltiplo de judeus e sua produção literária no Brasil, suas influências e desdobramentos. A reflexão sobre o Shoah (Holocausto), o aculturamento, a assimilação, o processo criativo e o papel da memória nos vários autores analisados foram os temas centrais desta e das demais mesas.

Aqui transcrevo em 3 partes o conteúdo relacionado à minha participação como uma contribuição para que o diálogo seja ampliado e prossiga vivo.

Congresso BRASA – PUC-RJ – 27 de JULHO 2018

O midrash brasileiro “Céu subterrâneo”[1], o sefer de “A Verdade ao Solo” e o reino das diáforas de “A Pele que nos Divide”.

Agradecimentos às Professoras Berta Waldmann, Lyslei Nascimento, Nancy Rozenchan e Regina Igel, Gita e Jaco Guiszburg

Berta Waldman que escreveu em sua apresentação do livro:

“Na tradição teológica judaica, especialmente na tradição talmúdica, a interpretação não pretende delimitar um sentido unívoco e definitivo; ao contrário, o respeito pela origem divina do texto impede sua cristalização e sua redução a um sentido único. Assim, o comentário tem antes por objetivo mostrar a profundidade ilimitada da palavra divina e preparar sua leitura infinita, para gerar sempre novas camadas de sentido até então ignoradas.”

Esta observação foi por mim empiricamente verificada. Só assim o autor consegue sentir o impacto na realidade dos leitores, os quais fizeram juízos muito distintos do texto. Aspecto que só enfatiza a recusa dos textos à fixação em uma única interpretação. Ao contrário, quanto mais o autor ouve mais ele enxerga a polissemia involuntária que provocou.

No caso do  livro “Céu Subterrâneo” este aspecto se refletiu em várias camadas do texto:

  1. A) Na fonética – quando cada leitor pronunciava com distintas sonoridades o nome de cada um dos personagens.
  2. B) Na leitura do sentido do que significa “revelação”: fotográfico, metafísico, transparência real e as inumeráveis outras interpretações para a representação da imagem;
  3. C) Na busca de identidade e de sentido: a luta entre a consciência e o ignorado e entre o ceticismo e a recuperação de algum lugar para uma religiosidade não canônica, segundo a etimologia religação;
  4. D) Na análise política: qual seria o impacto do consenso em uma origem comunal para todos os povos? Israel e seus habitantes em sua multiplicidade e diversidade?
  5. E) Na natureza do milagre, que se traduziria em uma realização da própria imanência ou símbolo da transcendência?
  6. F) No amor, em seus distintos planos de interferência nas relações;
  7. G) Na metáfora do Paraíso: do penitencial ao redentor.
  8. H) Na cronologia: os movimentos do tempo e a imposição de uma arqueologia que permita a investigação dos sentidos. As diferenças entre a cronologia e katastasis (a sequência) no analógico e no digital.
  9. I) No papel, complementar ou vital, da imaginação de quem interage com o texto;
  10. J) Na ideia de bloquear o excesso de protagonismo a fim de buscar originalidade, além do estranhamento, é preciso abandonar a identidade e deixar-se orientar pelo ocasional.

Solidão: processo criativo  

Viajar é enfrentar fechos e desfechos desconhecidos. A minha experiência em Israel quando fui contemplado com uma bolsa literária para lá escrever pode ser classificada de muitas maneiras: eclética, abrupta, estranha e milagrosa. Eclética porque foi feita por intermédio de um roteiro errático, quase impulsivo. Fora o roteiro mínimo, viajei ao sabor da vontade (e) dos eventos. A minha revelia experimentei o anti-terapêutico. Com o perdão dos psicanalistas, abandonei-me para, por um período, deixar de ser mais o sujeito da própria historia. É sempre preciso reafirmar que a solidão, a improvisação e a migração errática são fatores chaves, pode-se mesmo dizer condicionais para qualquer empreendimento literário.

O leitor tem um papel quase messiânico: e o único que pode assim preencher a incompletude do autor. Vale dizer, modelar as lacunas voluntárias e involuntárias que o escritor vai “perdendo” pelo trajeto. A professora Lyslei Nascimento enxergou em “Céu Subterrâneo” referências cruzadas com a obra de Walter Benjamin: escavar é escavar-se. Ou seja, Israel é um espaço do mundo que comporta vários extratos no plano cultural e arqueológico. Quem recentemente visitou as escavações ao largo do Kotel (o Muro Ocidental) em Jerusalém pode testemunhar que hoje Israel é um país com vasta exploração do subsolo, e o foco não é o petróleo. A auto-escavação que se organiza de dentro para fora, e também no sentido inverso, apresenta na região uma incidência incomum. O acaso é o outro tema importante. Dentro da axiologia judaica, ele é uma espécie de disfarce elegante para alcançar uma finalidade não aparente, pré-concebida e, às vezes, indecifrável, que nos impulsiona em direção à compreensão dos destinos individuais. A trama criada nesta segunda ficção tem no negativo de uma polaroide achada por Adam Mondale um de seus eixos. Um instantâneo que realça o momento e que, ao mesmo tempo, tem o poder de nos conduzir à uma outra realidade.

O registro da imagem também funciona como um indicio de que algo do inteligível subsiste somente no original e que, muito provavelmente, pode não estar presente nas cópias. Só os originais conteriam aquilo que os múltiplos e interpretações das interpretações recusam. Isso não significa desprezo pelos comentaristas, como se pode constatar na rica tradição das mischnaiots (inscrições como comentários) nos textos canônicos e suas anotações marginais. Mas como acessar o original?

Portanto, interpretar o interpretado tem um valor hermenêutico muito distinto de esmiuçar o texto inaugural.   Dependemos desse auto-esclarecimento para sentir que estamos nos completando ou identificando, já que, por natureza, somos seres que precisam evocar a memória que nunca passa e que nos compõe como seres históricos.

Aristóteles, em seu História dos animais, ao definir os seres humanos na notável distinção entre humanos e animais, escreveu que era esse o aspecto central daquilo que nos diferenciava dos assim chamados “animais irracionais”. Tratava-se, contudo, de um equivoco histórico, apenas parcialmente corrigido. E ele ocorreu em função de um incrível erro de tradução do copista. Foram necessários mais de dois milênios para que algum filólogo curioso se debruçasse sobre o texto e notificasse a humanidade do engano, vale dizer, a má acepção com que a palavra grega foi tomada. Na novíssima leitura, o que nos diferenciaria das outras espécies não seria a falta de racionalidade ou razão, mas a capacidade de evocar, à nossa vontade, todas as lembranças e ainda contar com a capacidade para verbalizá-las.

“Aristóteles atribuiu outro gênero de inteligência aos animais, muito diferente do consagrado ‘irracional’. A grande distinção entre animais e humanos era outra: “Muitos animais têm memória e são passíveis de instrução; mas nenhuma outra criatura, exceto o homem, pode evocar o passado através da vontade”3.

O domínio da memória e o tempo é que fundamentam a criação em um romance. O personagem Adam Mondale, não esqueçam, representa, segundo a cultura judaica o idish kait, o primeiro falante ou simplesmente o “falante” (medaber). E a ele é quem foi conferida a missão de nomear as coisas do mundo.

Para que(m) escrever?

Fedra, o senso comum versus a literatura

Como especulava o diplomata, botânico, astrônomo, filósofo e biologo Emmanuel Swedenborg, todo homem pode ser muitas coisas ao mesmo tempo. Na literatura é quase obrigatório ser. Por que tantos jornalistas entram na literatura? Talvez a facilidade inicial de acesso à linguagem tenha o papel preponderante nesta escolha (os médicos também entram certamente por alguma outra facilidade) mas fica evidente que a formulação da linguagem no caso dos jornalistas e críticos de literatura precisa incorporar uma multiplicidade de aportes se desejam arriscar-se na ousadia criativa. E o ensaio é a prova de que a literatura se opõe à filosofia, vale dizer, enquanto a memoria criativa dá o tônus da primeira, a reflexão epistemológica sobre a existência orienta a segunda. Não é infrequente que o critico e o jornalista se debrucem sobre a literatura muitas vezes sob o sistema de notação da filosofia. O resultado costumar ser binário: endosso ou recusa. E este julgamente será feito de acordo com valores mais axiológicos do que literários. Também pode ocorrer o reverso: quando o é o próprio romancista ou o poeta transformam a literatura em apologéticas narrativas politicas do quotidiano.

Hélène Cixous em “Do Retrato à Finnegans Wake” (in “Joyce e o Romance Moderno”, Coleção Documentos, s.d) desenvolve uma teoria. Em oposição ao texto Fedra de Platão, James Joyce enxerga a literatura de forma quase prescritiva (pharmakon). Sua oposição, segundo Cixous, pode se resumir à famosa objeção socrática de que tudo que não se atém à filosofia acaba sendo doxa. Se para Sócrates a literatura é a alienação à lógica que favorece a dispersão reflexiva, portanto politica, para Joyce é a linguagem, instrumentalizada pela imaginação, que permite impactar, sobressaltar, mudar, enfim elevar a tensão e o contraste, à harmonia e a um estado de exasperação ao sujeito. O processo de elaboração obriga – como efeito colateral — o escritor a ter mais tempo para se estudar. É possível que o leitor mimetize um movimento similar? E, enfim, a pergunta cientifica que vem perturbando a psicanálise: a literatura cura?

Talvez não, talvez nada. Mas, e se ela trouxesse elementos de cuidado? De cuidado que misturasse componentes e, ao aportar identificações artificiais, de narradores, criadores e criaturas — criasse percepções que escapassem do esmagamento promovido pelo senso comum? E se ela gerasse um painel tão diverso dos estados humanos que introduzisse interferências?

A escrita como estado idiossincrásico de consciência.

Existe no processo do autor uma vontade, uma espécie de predisposição subjetiva que faz com que se incorpore um modo muito particular ou idiossincrásico de interpretar o mundo. Porém, essa hermenêutica não está ajustada a nenhuma lógica particular, e, apesar de todos os esforços racionalizadores, muito menos à adesão as correntes teóricas. Antes, vincula-se a um momento de abstração, de transe, aquele que faz emergir uma peculiar forma de analisar o mundo.

Um jornaleiro inquieto em sua banca.

O som timpânico da terra descendo sobre o caixão num sepultamento.

Uma nuvem única que obstaculiza o sol.

E onde estaria afinal a genealogia do fluxo de consciência? Sobre o qual se sabe tão pouco? Concordando com Bergson, a potencia criativa não pode ser reduzida aos processos atuais de mapeamento das áreas neurofisiológicas. Para o filósofo, a unidade neurológica seria apenas o buffer acumulador, encarregado de exonerar os processos, jamais sua origem exclusiva.A escrita, quando aspira a originalidade recusa o mecanicismo e adota uma lógica vitalista.

A poesia, condutora da prosa

Há um aspecto do processo criativo que gostaria de explicitar. Para o poeta a criação de um poema emerge de um snapshot, “o primeiro ponto vivente” do qual falava Willian Harvey sobre o coração, quando descobriu a circulação do sangue, a totalidade síntese, o resumo do abismo, aquele instante com potencial para emular uma ficção.

A Verdade lançada ao solo

A prosa pode, assim, nascer de um verso. Vale dizer, em um poema podem aparecer aspectos embrionários para o futuro desenvolvimento da prosa. O momento de síntese faz emergir um conjunto de imagens que pode ou não dar vida a um texto mais longo, poesia, crônica, prosa (conto ou uma ficção extensa). A imagem, aliás, pode ser o ponto zero que antecede inclusive a confecção de um texto.

[1] Palestra sobre Céu subterrâneo, São Paulo, Editora Perspectiva, 2016.

 

 

 

 

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Brasa – Pretextos e texturas da literatura 2 – Criatividade (Blog Estadão)

13 segunda-feira ago 2018

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Crédito foto Lyslei Nascimento

Encontro do BRASA (XIV – Congresso Internacional da Associação de Estudos Brasileiros no tema “Textualidade Judaicas na Literatura Brasileira – O Ofício do Escritor) Evento que foi realizado na PUC-RJ de 26 a 29 de julho de 2018. A organização ficou ao encargo das Professoras Lyslei Nascimento, Nancy Rosenchan e Regina Igel. Na mesa de depoimentos de escritores brasileiros da qual fiz parte, também participaram Leila Danziger, Ronaldo Wrobel. Luis Krausz, Fábio Weintraub e Lucius de Mello (sequencia na foto da esquerda para direita) A reflexão sobre o Shoah (Holocausto), o aculturamento, a assimilação, o processo criativo e o papel da memória nos vários autores analisados foram os temas centrais desta e das demais mesas. Aqui transcrevo a segunda parte do conteúdo relacionado à minha participação como uma contribuição para que o diálogo seja ampliado e prossiga vivo. Comentários e compartilhamentos serão muito bem-vindos.

Parte 2

Criatividade

A Verdade Lançada ao solo

O que é um escritor?

Alguém que aspira a imortalidade e que, de antemão, sabe que a continuidade indefinida nunca esteve ao seu alcance. Um escritor é portanto um discriminador. Aquele que escolhe – ou está condenado a – viver discriminando palavras, impulsionado a sacrificar algumas em detrimento de outras através do filtro das idiossincrasias. Trata-se de um processo sôfrego. Não há glamour no processo, ainda que o produto final tenha lá alguma potencia para gerar prazer. Então o deleite é estético? Provavelmente narcísico. A vaidade de ter logrado a correta justaposição, o encaixe da palavra certa. O termo “verdade lançada ao solo” (Extraído de um passuk- passagem da Torah, o Pentatêuco, o conjunto dos cinco livros na tradição judaica) refere-se às elaborações e instruções que se hoje se encontram espalhadas pela Terra, e cuja tarefa humana é decodifica-las: qual é o significado das tradições? Como a morte, os mortos e suas memórias entram em nossas vidas? A experiência mística é um estado transmissível? O que é ser justo?

Para Paul Ricoeur “só há um jeito certo de dizer as coisas” mas o escritor não as elege por necessidade ou imposição. A eleição não passa de um capricho. O autor educa-se a duvidar de todas as identidades. Vale dizer, precisa reconstruir-se através de identidades emprestadas: ids alheios, egos em processos de diluição, e neutralização de superegos desfocados. Nem ousem pensar em harmonia. Por mais elaborado que seja seu constructo, todo reino de palavras encontra-se em potencia. Empilhadas.. Desequilibradas. Soldadas por um único pino. E a pilha, é, sempre, bem mais alta do que gostaríamos de admitir. Da potencia ao ato é uma longa distância.

Como reconstituir uma história?

Ninguém precisa ser erudito em letras ou ter pós graduação para executar um romance. Seria aconselhável ter sido um bom leitor, cinéfilo, colecionador ou simplesmente alguém que valorize um readymade. Na verdade, seria um grande aborrecimento aos leitores se, em algum momento, todos os escritores fossem grandes teóricos ou expertocratas em literatura. Precisa antes ser alguém que desmonte e monte a realidade em faixas dimensionais superpostas, porém distintas. Ainda que uma efeméride possa ser motivação para um poema, ela pode não ser suficiente para a construção ficcional. Alguns pensam em algo trivial, outros no arrebatador, eu só penso que o texto é quem nos guia na tarefa de construção das ideias.

A crise do narrador é, sobretudo, a confusão entre narrativa e a imaginação. A saber, uma narração está no contexto de uma saga descritiva, o romance no retorno à subjetividade, o sujeito no centro da história, a realidade subscrita pelo contexto dos processos imaginários, da memória a serviço da invenção, não o contrario.

Seria agora o momento propício para esclarecer a qual escola pertenço? Quando se sabe essa resposta o leitmotiv para criar pode já estar cindido. Sei, por experiência, que a cizânia que o autor comporta, foi/está erigida sobre dor. A dor de saber que jamais se reagrupará completamente, sob pena de perder sua liberdade criadora. A cura para a fragmentação, seria, paradoxalmente, também o fim dos atores em um romance. Em seu complexo de onipotência, o escritor, mesmo desconfiando, acaba dando fé e até incorporando a onisciência de seus personagens. O problema é que eles são critica e paradoxalmente incompletos. Desumanamente parciais. O contraste é evidente: o personagem protagonista de uma ficção deve fazer o leitor entender que não existe uma totalidade totalizante. Ao mesmo tempo deve inspirar compaixão, identidade, empatia ou aversão. O que se sabe é que até hoje nem um único átimo da vida de um sujeito foi jamais integralmente capturado pelas letras.

É neste sentido que o escritor que tem aspirações universais e se vê as voltas com os limites interpostos, sofre. Dos obstáculos na linguagem ao cerceamento de temas da pauta imposto por demandas externas que acabam enquadrando suas pretensões. O escritor deseja imortalidade pensando em obter eternidade. É deste blefe, desta impossibilidade auto-evidente, e desta natureza improvável que se alimenta a verve literária. Mas a casta que a atual safra produziu está mais concentrada em roteiros para TV do que em textos ou palavras. E os critérios de beleza estão em crise, encontram-se mesmo em ampla dissipação. Enquanto isso o vídeo (e o horário eleitoral subsidiado) substitui trágica e lentamente a tradição da escuta. Por isso, talvez, hoje, faria sentido que a literatura se aproximasse mais da música do que do cinema. Entretanto, apontar para tantas debilidades só fortalece a necessidade de que o escritor faça prevalecer seu mundo interior, e ali, obrigar-se à exercitar sua perplexidade e seu espanto.

O momento zero: estranhar-se

O primeiro momento de um escritor é estranhar-se. Não é só assumir o quanto ele oscila e hesita. Estranhar-se no sentido curioso do termo: de fato impressionar-se com o vasto do esconhecido do si mesmo. Entender, como na ciência, que o mais extenso em você mesmo é o quanto você se desconhece. O desconhecido que não é nem autoconsciente nem dominável. Isso significa que escrever exige expor-se às imprevisibilidades:”Pegar em armas contra o mar de calamidades” na boca de Hamlet. Não consentir resignadamente o absurdo quotidiano que nos embebe. Em oposição a tudo e todos é urgente recriar hipóteses contra-intuitivas.

Escrever é, sobretudo, um ato antissocial. E esta liturgia desnecessária só é possível num registro que se oponha a uma certa concepção de cultura e lógica social. Tanto faz no que o escritor acredita, na causa que milita, se apoia um conservador truculento ou é adepto de um autentico pseudo-altruísta, o que importa é o grau de compromisso que ele tem com o que escreve.

As concessões eventuais de qualquer escritor não estão no sistema de notação que ele adota, nem mesmo em sua filiação à uma escola de pensamento, mas na capacidade de levar o leitor a ter, sob o domínio do texto, a ter e recriar suas próprias experiências. Sempre será uma mistura de vidas. A hermenêutica filosófica define bem através dos conceitos de autoformação: entender o processo através do qual você conhece o mundo. A militância dos escritores é tão reducionista e desimportante quanto por exemplo, a sua preferência por isolamente e alienação.

Isaac Bashevis Singer escreveu que se houvesse uma síntese para a missão do escritor seria criar suspense através da hesitação”. Em seu ”Memórias do Exilio” afirma com insistência de que a mobilização do leitor se dá pela tensão, e, nas palavras de James Wood, Milan Kundera reforça a perspectiva do impasse. Quem consultar o significado analógico tanto de “suspense” como de “hesitação” perceberá que ambos recaem na palavra “curiosidade”. Primeira acepção do Etymological Oxford Dictionary – inquisitive – curious – busy – Do Latim Curious – careful – Francis Bacon usa curiosidade no sentido de “trabalho elaborado”. A arte de cativar o leitor, não mais para seduzi-lo à determinada visão de mundo, mas para coopta-lo para “uma clínica da trama”. Portanto toda hesitação responde por uma perplexidade induzida: despertar a curiosidade através do afastamento das repetitivas mensagens do senso comum. Para romper este código é preciso contar com a paciência, no sentido cronológico do termo. Muito provavelmente a maioria dos autores terá apenas reconhecimento póstumo.

A tão aspirada cumplicidade, porém, não poderia ser construída pelo estilo, fortuna crítica, prêmios angariados, ou simplicidade com que o autor se expressa, mas através da marca idiossincrásica presente no fluxo de consciência, esta manifestação muito particular, que faz migrar conteúdos do escritor diretamente para a mente do leitor.

Continua.

 

 

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Jacques Lacan: Joyce era louco? (Blog Estadão)

13 segunda-feira ago 2018

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos, Imprensa

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Brasa, Criatividade, Fluxo de consciência, Joyce era louco?, judaísmo, Lacan, linguagem, Palestra Literatura Rio de Janeiro, PUC RJ

 

James Joyce – Página Inicial de “Finnegans Wake” (1a edição 1939)

Encontro do BRASA (XIV – Congresso Internacional da Associação de Estudos Brasileiros no tema “Textualidades Judaicas na Literatura Brasileira – O Ofício do Escritor) Evento que foi realizado na PUC-RJ de 26 a 29 de julho de 2018. A organização ficou ao encargo das Professoras Lyslei Nascimento, Nancy Rosenchan e Regina Igel. Na mesa de depoimentos de escritores brasileiros da qual fiz parte, também participaram Leila Danziger, Ronaldo Wrobel. Luis Krausz, Fábio Weintraub e Lucius de Mello. A reflexão sobre o Shoah (Holocausto), o aculturamento, a assimilação, o processo criativo e o papel da memória nos vários autores analisados foram os temas centrais desta e das demais mesas. Agradecimento especial a Professora Berta Waldmann. Aqui transcrevo a terceira e última parte do conteúdo relacionado à minha participação como uma contribuição para que o diálogo seja ampliado e prossiga vivo.

Comentários e compartilhamentos serão muito bem-vindos.

Jacques Lacan: Joyce era louco?

O anti senso comum

Escrever também pressupõe o abandono das auto-evidencias. Isso é, romper com as expectativas emprestadas do senso comum. Tchekhov pregava como técnica para o conto deixar pontas abertas, pistas sem seguimento, indícios soltos sem perspectivas conclusivas. Isso significa mudar sistematicamente a perspectiva com o qual se constrói, por exemplo, a narrativa jornalística. Kundera em seu “Arte do Romance” explica “…a razão cartesiana corroía um após outro os valores herdados da Idade Média. Mas, no momento da vitória parcial da razão é o irracional puro (a força querendo apenas o seu querer) que se apossará do cenário do mundo, porque não haverá mais nenhum sistema de valores comumente admitido que possa lhes fazer obstáculo”

É neste vácuo e só neste nada hegemônico hiato que o criativo pode trazer uma contribuição inesperada.

Usar padrões de sua força criativa e imaginária (distintas, como veremos a seguir) é instrumentalizar recursos como a ansiedade e a angustia em uma direção. Se a literatura é um arte correlata da sublimação? Possivelmente sim. O texto é a garantia de que estamos atentos aos sinais do mundo, seus signos e significados, mas não submissos a ele. Essa distinção é vital para que o autor não se torna – ou seja reduzido – a ser um porta voz dos panfletos políticos de sua época.

O engajamento atual, que beira o ridículo, é um sinal de alerta para a literatura e suas jaulas ideológicas. Por mais que as pessoas que compõem a intelligentsia do momento desejem, elas não podem enquadrar toda oposição em categorias taxonômicas, geralmente desqualificadoras. Exemplo disso é a acima aludida hiper ideologização das ideias, a execração das tradições religiosas e até mesmo de qualquer tradição, o culto ao cotidiano como único tema digno de figurar na literatura. Isso exemplifica de certa forma a leva de autores que por mais oficinas literárias que façam e por mais apadrinhamentos políticos que tenham não conseguem produzir nada além de um conjunto de textos datados.

O Personagem

Apesar das críticas à ingenuidade dessa hipótese, sim, eles podem não ter vida autonomica, mas eis que os personagens exigem uma vida quase emancipada do autor, e isso está além de uma impressão vaga, trata-se de uma constatação empírica. Significa que o apartamento da literatura dela mesma exige que os escritores abandonem seus domicílios fixos e passem a migrar como ramblers. Neste sentido faria bem a todo personagem encarnar fragmentos do mito do “judeu errante”.

A força de um romance atual põe em evidencia portanto duas máximas: a história que corre paralela ao real, isso é a história que a história nunca pode registrar, pois é aquela que faz parte da chave inconsciente das micro histórias subjetivas individuais (e relacionais). Para esta não é suficiente fazer amplas varreduras enciclopédicas. A outra máxima, mas não menos importante, é a assunção de que os personagens – para adquirir uma existência fora do texto – precisam, de algum modo aniquilar/neutralizar as idiossincrasias do autor. Isso significa que há uma luta entre as características com o qual o autor tentar modelar seus personagens e a existência autodeterminada do personagem – que paradoxalmente não é externa – a qual exige uma vida independente, e de uma autoria única.

Despertar o senso de intriga é, necessariamente, atrair o leitor para uma armadilha benévola. Nem sempre o arrebatador é belo.  Sua raíz etimológica vem de arrepitare, roubar, resgatar, tomar à força. Ofertar a isca até o lugar mais apropriado para alcançar o destinatário final. Tomar de assalto o leitor. Isso pode – e frequentemente é – confundido com fazer concessões. Agradar o leitor, valha-me, é visto com desdém. Para além do valor estético da concessão, existem de fato aquelas lavras que rebaixam o nível do escritor ao invés de oferecer alguma ascese.

Insano Joyce

É sempre perturbadora a pergunta de Jacques Lacan: afinal “Joyce era louco?”

A depender de qual área psicológica se apropriasse da pergunta ela seria afirmativa. Mas, num sentido distinto daquele que o senso comum e a psiquiatria atribuem à loucura. Joyce emulava a loucura para escrever. Empresta sua pena à demanda errática (mas com rigoroso controle do timing) aos seus inquilinos provisórios. A transitória esquizofrenia auto-induzida de um escritor é a única razão para justificar sua liberdade. E, também, sua única motivação para a migração da energia psíquica à capacidade criativa, isto é, sua volição redirecionada à imaginação.

Usar padrões de sua força imaginária é também instrumentalizar recursos como a ansiedade e a angustia em uma direção. Seria a literatura uma arte correlata da sublimação? Para alguns possivelmente. O texto de ficção seria uma garantia de que estamos atentos aos sinais do mundo, seus signos e significados, mas não necessariamente submissos a ele. Essa distinção é vital para que o autor não seja reduzido a um porta voz dos panfletos políticos de sua época.

Exemplo claro disso é a execração das tradições religiosas, dos elementos místicos (que impregnam indiscriminadamente o dia a dia tanto do crente quanto do agnóstico), e até mesmo de qualquer tradição lato sensu. Eis que o culto ao cotidiano e dos problemas sociais tornaram-se os únicos temas dignos de figurar na literatura. Entretanto, só a hesitação produz conflito. E só a curiosidade intrusiva é capaz de construir a densidade que estrutura os enredos ficcionais. Tudo depende dela, mas não só dela, para tornar o romance um símbolo das ações do homem.

Um oficio que nesta já esgotada pós modernidade pede, implora, urge: o restabelecimento de sentidos, de preferencia, novíssimos.

https://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/

 

 

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O SUS e as fronteiras epistemológicas (Blog Estadão)

Destacado

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos, Na Mídia, O outro código da Medicina (e book) homeopatia, Pesquisa médica, Prática clínica

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O Sus e as Fronteiras epistemológicas

“Avistar uma fronteira, é, já, ultrapassa-la”

Gaston Bachelard

Paulo Rosenbaum, PhD. Doutor em Ciências (USP) Mestre e Pós doutor em Medicina Preventiva pela FMUSP

Em resposta ao artigo “O SUS contra a ciência” dia 17/07/18 publicado na seção “Espaço aberto” de autoria de Natalia Pasternak Taschner e Alicia Kowaltowski.

O artigo de hoje das duas autoras acima trata de um tema importante, mas é de tal forma reducionista e desinformador que pode ser ele mesmo considerado como duvidoso em termos de acurácia científica. A contradição começa com o título escolhido: “O Sus contra a ciência”. Ele evoca o que há de pior em termos de maniqueísmo científico e epistemológico e trata uma questão cara à saúde pública com desleixo e uma perturbadora despreocupação com a ética. O grande mérito do artigo poderia ser trazer para a discussão os graves problemas de saúde pública, mas adotou uma abordagem confrontadora, e infelizmente o mérito potencial do nobre espaço acabou desperdiçado como um grande equivoco. Superando os problemas deste libelo anacrônico, teço, a seguir alguns comentários baseados em um dos trabalhos que desenvolvi no trabalho academico na FMUSP.

A história da medicina tem sido contada apenas parcialmente, sempre privilegiando as concepções e práticas hegemonicamente sancionadas na atualidade. Existe mais de uma outra forma racional de responder aos desafios colocados à medicina em sua trajetória histórica. O resgate da tradição empírico-vitalista, da qual a homeopatia é a principal herdeira, redimensiona essa trajetória. Esta outra versão da história nos fala do fato homeopático e das suas possibilidades para viabilizar projetos de intervenção não restritos à funcionalidade mecânica do organismo.

Se isto vem ocorrendo na práxis da biomedicina, deve-se à consciência instintiva de seus protagonistas, uma vez que a formação acadêmica não capacita os médicos para esta modalidade de intervenção. Compreende-se, então, que seus protagonistas experimentem enormes dificuldades em readaptar essa visão não mecânica a seus curricula práticos, uma vez que a pedagogia dispensada ao médico ainda centra-se substancialmente nesta única dimensão. Ou seja, há, sim, um despertar para outras dimensões do adoecer, a percepção de que este não está circunscrito ao problema biológico. No entanto, este outro modo método de enxergar e avaliar a doença e seu tratamento ainda encontra poucas condições de viabilizar-se pela carência de agentes no campo operacional.

As medicinas tradicionais entre os quais encontram-se a homeopatia, a medicina oriental, a auryveda,já foram demasiadamente castigadas e perseguidas por ideologias médicas e sistemas racionais onipotentes, cujas repercussões fizeram-se sentir na maturação de seus programas. Não se trata, porém, de uma condição especial da homeopatia e da medicina oriental. Este é um problema inerente à competição, anteriormente referida, entre programas científicos. Numa época em que a pluralidade metodológica parece arrefecer a competição entre paradigmas, algo inusitado pode estar ocorrendo: as práticas integrativas correm o risco de tornarem-se algozes de si mesmas, caso não saibam trabalhar com suas próprias contradições e reorganizar a teoria a partir do que dela emana como produto. Fica clara a completa impossibilidade de continuar a esquivar-se de interagir com as outras disciplinas e repartir este legado, herdado dos sucessivos conflitos que as caracterizaram em suas órbitas históricas.

Para tanto não basta que uma epistemologia “emprestada” de outros saberes possa corrigir as insuficiências metodológico-conceituais, mesmo que seja baseada naquilo que emerge da prática ou através das discussões teóricas. Assim, não serão os os químicos, físicos, psicanalistas, historiadores da ciência ou a tradição biomédica aqueles que trarão a luz que falta. Essa luz deverá surgir do próprio incômodo e inquietude salutar que impõe-se aos que sentem a necessidade de produzir suas evidências: os médicos que praticam outras formas de medicina. Nota-se que isto já está acontecendo e ocupando certos nichos do conhecimento, ainda que de forma tímida e pouco produtiva.

Devemos insistir na interlocução, que será difícil, assimétrica, tortuosa. Mas não é mesmo a tensão que instiga e excita o ânimo do pesquisador? Com a mesma obstinação, contudo, deve-se cuidar para que o produto inicial da interlocução venha a partir do interior, neste caso, a partir do conjunto de vivências produzidas pela própria homeopatia.

Segundo Henri Bergson (1936: 15), a “pesquisa científica é um diálogo entre a mente e os fatos”, portanto, uma construção científica é, por excelência, um diálogo referido a uma interlocução entre uma realidade eleita e uma mente disposta a percebê-la.

As práticas integrativas (recomendadas pela OMS e a OPAS como uma forma inteligente de assistência médica na atenção primária) constituem-se como um saber com aplicatio, mas são bem mais do que isto. Por acaso as autoras se deram ao trabalho de pesquisar e informar isso aos leitores deste jornal? Decerto não. O fato é que as medicinas integrativas construiram um método, um acordo intersubjetivo que vigia sua própria execução. Trata-se de uma filosofia médica (uma iatrofilosofia particular) com tradição suficientemente forte para reivindicar que suas formas de conhecer o sujeito, seu adoencimento, cuidado e cura sejam recolocadas como uma das possibilidades de teoria do conhecimento em medicina.

Se o que hoje se discute dentro dos distintos modelos científicos, tais como a teoria da complexidade e a teoria do caos, obtém status epistemológico em biologia, comparáveis mesmo ao que a teoria da relatividade ou a teoria quântica obtiveram na física, existem percepções que compõem o saber integrativo que devem perceber o valor e fecundidade de sua efetiva e positiva colaboração.

A rigor a medicina não é ciência, segundo Canguilhén a medicina já foi classificada epistemologicamente como “ciencia operativa” pois nela repousa uma quantidade incomensurável de processos complexos que não terminam quando se confecciona a prescrição, ainda idealizada como o ato derradeiro da atividade médica. A rigor, a discussão está apenas começando, uma vez que deve-se considerar a imprevisibilidade das comunicações e a imensa variabilidade de resposta dos sujeitos em suas distintas reações e respectivas idiossincrasias. Isto vale especialmente para a medicina em sua dimensão arte, quando a cada nova consulta estas comunicações se processam de um sujeito ao outro.

As medicinas integrativas precisam começar a reaprender com sua própria construção teórica, que deverá emergir de uma prática cuidadosa, que saiba, como bem diz o aforismo hipocrático, considerar que “a arte é longa, a ocasião fugidia e a experiência enganadora, o juízo difícil” (Hipócrates, 1838).

A arte é longa, porquanto tanto os comentaristas ocidentais como Hahnemann, ao invés de facilitar o trabalho e montar um sistema no qual se poderia usar o antigo sistema das nosologias para prescrever, afirmaram o valor do particular sobre o geral. “Criaram”, assim, um desafio hermenêutico nas reduções propostas pelas generalizações a partir das classificações de doenças. O cogito hahnemanniano sugere, então, que deve existir também uma nosologia do particular, do incomum, forçosamente também do impreciso. Cria uma inversão de valores, um contrapensamento, que contém em si mesmo uma das peças-chave do seu método, um problema digno de investigação para qualquer epistemólogo contemporâneo. O fato adquire aqui estatuto de idéia fecunda. Isso hoje se reflete no crescimento de medicina baseada em narrativas, a slowmedecine, a rejeição aos hiperdiagnósticos e uma orientação cada vez mais cuidadosa para o desenvolvimento de uma medicina mais individualizada.

A ocasião é fugidia já que para aprender não basta uma série de experiências mesmo que metodologizadas e organizadas. Escapa, no domínio da subjetividade do paciente, uma série de elementos fundamentais, o que automaticamente transforma em quase quimera a busca de uma inapreensível essência do sujeito. Os pacientes, assim como as substâncias medicinais, “escapam-nos” por entre os dedos, porque não somos suficientemente aparelhados para detectar o que há ali de curável e de curativo, respectivamente. O sujeito que sofre procura ajuda, alívio para seu sofrimento, qualquer ajuda pode lhe dar um suporte positivo. Muitas vezes isto pode resultar em processos transferenciais adequados, medicamentos criteriosamente escolhidos a partir de diagnósticos individuais, mas deve-se admitir que nem sempre eles são suficientes.

Os médicos debruçam-se sobre representações de fragmentos (sintomas) para cuja interpretação buscam analogias em outros (experimentações) para capturar a natureza da afecção de tipos singulares. A unidade no indivíduo é fato, mas o que muitas vezes capturamos são apenas as intermitências (sintomas e queixas) desta unidade. Quando se vê um medicamento bem escolhido agir, enxerga-se ali somente uma maior coerência entre estas intermitências. Podemos passar a perceber uma retomada da ritmicidade do conjunto. E então, na evolução clínica, pode-se observar como, para que e para onde este sujeito em reconstrução está indo. Por isso trata-se de um disparate a defesa da tese de que há uma e somente única forma correta de exercer a medicina.

A experiência é enganadora porque jamais poderemos traduzir completamente uma vivência subjetiva, como é o caso da anamnese e relação médico-pacienite, de acordo com uma assepsia metodológica. Mas de fato, como professa o primeiro aforismo hipocrático, aquilo que se conhecia até experimentar torna-se uma retradução de fragmentos de vivências que obriga o médico a comparar com aqueles que se colhe em cada consulta. E em cada nova consulta de um mesmo paciente, enxerga-se outros fragmentos, com os quais muitas vezes, entre transferências e contratransferências, se misturam médico e paciente.

O juízo é difícil porque é necessário possuir potencial e instrumental éticos suficientemente amadurecidos. Assim, pode ser preciso retroceder diante de um juízo já feito. Devemos, como um magistrado diante de um caso de múltiplas possibilidades, instruir o processo, deixando o mínimo de vestígio de nossas mãos sobre a decisão, mas sabendo que sempre restará uma margem de interpretação, de liberdade no ato de julgar. O juízo é difícil porque nossa capacidade de perceber o “sujeito-tema” resvala nas nossas próprias metáforas.

“Mas é completamente diferente com o tratamento de objetivos, cuja natureza essencial consiste de operações vitais – o tratamento, a saber, da estrutura humana viva para levá-la de uma condição não saudável para uma saudável (que é a terapêutica) e a disciplina da mente humana para desenvolver e exaltá-la (que é a educação). Em ambos os casos, o tema sobre o qual trabalhamos não deve ser considerado e tratado de acordo com as leis físicas e químicas como os metais do metalúrgico, a madeira do lenhador ou o tecido e as cores do tintureiro. É impossível, portanto, que ambos, médico e professor, quando cuidando da mente ou do corpo, devam necessitar de um conhecimento antecipado de seu sujeito-tema, que possa conduzi-lo pela mão até o término do seu trabalho, assim como obter, talvez, um conhecimento das propriedades físicas e químicas dos materiais que ajude e conduza o metalúrgico, o curtidor e outros artesões até a perfeição dos seus. A vocação de ambos demanda outro tipo de conhecimento, assim como seu objeto, um indivíduo vivo, é completamente diferente.”

(Hahnemann, sobre o valor dos sistemas especulativos em medicina, 1984: 491-492).

É verdade que nem todas as praticas integrativas são válidas e que pode haver, entre elas, práticas pseudocientíficas. Algumas, sem o olhar atento de quem deve ter formação médica, podem ser, de fato, lesivas ao paciente. Destarte as medicnas integrativas exercidas com rigor e ética tem nas mãos, em síntese, uma possibilidade concreta de intervir no sujeito, desenvolveu uma semiologia generosa, podendo interferir na maior parte das enfermidades crônicas. É claro que encontram-se algumas lacunas: insuficiência teórica, já que uma reformulação de alguns pressupostos se faz necessária; restrições do arsenal terapêutico frente à diversidade humana e a assunção das atuais limitações e dificuldades para demonstrar a ação de sua eficácia terapêutica.

Na presente ausência de estruturas hospitalares adequadas (ou serviços que ao menos aceitem-na como uma possibilidade), como viabilizar todas as opções possíveis nos casos agudos e nas emergências? Como agir coerentemente e com responsabilidade clínica frente àquelas enfermidades que requerem suporte adicional, como reabilitação, cirurgias eletivas e até mesmo drogas convencionais? Estas todas são questões que, apesar de estarem aparentemente no âmbito da prática, merecem um melhor acolhimento nas futuras discussões epistemológicas.

Outro aspecto importante é o espaço e o tempo ocupados durante uma consulta. Este “tempo” pode ser visto como um obstáculo, quando se dimensiona em que tipo de sociedade vivemos. Ao mesmo tempo, representa um positivo resgate solidário no trato entre pessoas. Trata-se de um tempo absolutamente necessário para que o terapeuta possa reconstruir a história patográfica e biográfica do paciente. Tempo também precioso para que um “outro” possa ser traduzido por si mesmo para o terapeuta. Tempo para praticar a auto-observação, consiga ele se fazer entender ou não por nós, terapeutas, seus interlocutores. Suponhamos que possamos ensinar aos médicos que se deve equiparar a destreza com o cuidado, a perícia com a suavidade, e que tanto a acurácia como a efetividade devem ser pensadas, também, prospectivamente. Por que não ensinar aos médicos que se deve, sim, atender às doenças, mas ouvindo-se simultaneamente as metáforas daqueles que as apresentam que, de maneira uníssona, reclamam cuidados e escuta.

Este pode ser um sensível “termômetro” da potencial capacidade ética e compassiva do ato de cuidar. Também representa uma enorme economia aos contribuintes já que os procedimentos são em sua maioria ambulatoriais, portanto muito menos dispendiosos e o atendimento mais pessoal e artesanal possui enorme potencial para evitar intervenções desncessárias. Além de, quando for o caso, encaminhar e triar melhor os casos que precisam de atenção mais especializada e/ou hospitalar.

Talvez, aparentemente, as medicinas integrativas como medicina do sujeito não sejam a terapêutica mais adequada à lógica das sociedades atuais onde tempo representa apenas dinheiro e poder.

Mas, talvez, isso mesmo é que faça dela uma alternativa assistencial fundamental.

https://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/o-sus-e-as-fronteiras-epistemologicas/

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