Perdão: uma reflexão sobre Yom Kipúr

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Perdão não faz sentido.

Por que perdoaríamos os desafetos, os inimigos, os injustos e os caluniadores? Os políticos e os agressores? Os egoístas e os censores? Os críticos e os traidores?

Mesmo assim este é o dia. Esse é o dia para fazer isso.

Não se trata de uma superestimulação intelectual, nem de uma adesão acritica ao dogma religioso. Perdão faz parte de uma longa viagem que termina nesta janela aberta.

Atravessemo-la ou recusemo-la. Não importa sua decisão, ela continua real e se recusa a desaparecer.

A janela do perdão fica sobre um espelho muito maior. O tal quadro que nos viabiliza como sujeitos.

Perdoar não é um aceno à ingenuidade mas um passo forçado para a integração. A maturidade real e não aquela que se exige de adultos, que disfarçam as neuroses com a seriedade. Despistamos as angustias com trabalho e carreiras.

Perdoar é dar passo em falso. É…

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Direito de Resposta

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Direito de Resposta

Paulo Rosenbaum

01 outubro 2014

Solicitei faz tempo, mas só chegou hoje. Como consegui? Usei a lei de proteção ao consumidor. Já que o candidato é hoje apresentado como produto, não deveria vir com garantia de devolução? Um juiz aceitou meu argumento. Como nunca tive direito de resposta nem sei por onde começar. A senhora é dona do País? Determina liberdade ou cárcere? Perdão, é que no debate deu essa impressão. E se lhe disséssemos: dispensamos aquele passeio pelo Jardim Venezuela? E se explicássemos que a essência de um estadista é estimular a inclusão? Ou a Sra. acha que o eleitor com candidato derrotado merece ser subjugado? Desaconselhável instigar a luta entre classes. Como meu pai lembra, o próprio Marx teria revisado este e aquele outro tópico do manifesto. Aquele “cada um terá de acordo com suas necessidades”, sempre foi, de longe, o mais problemático. Claro, claro, a senhora diz ser flexível, só não admite remendos na cartilha. Mas não é meio abusivo insinuar uma constituição redigida pelo seu partido? Ainda temos o direito de saber o que a Sra fará assim que assumir, se assumir? Até hoje não tivemos direito de contestar a promessa desviada, a creche na maquete, tijolos sem olarias, escândalos em refinarias. A excelentíssima afirma que a volta da inflação é culpa da crise externa, a queda dos mercados especulação e o fracasso econômico complô internacional e não há malversação. Só para saber, sobrou algo para ser debitado da incompetência? É que ficamos com a impressão de uma grande conspiração. A Sra corre o risco de estar tratando a verdade com a mesma deferência com a qual seus funcionários tratam os números. Deixe-me também explicar Dra. que, caso a senhora prefira o modelo Bolivar essa é a hora de explicita-lo! Estamos a nos indagar o que será que ele tem a ver conosco. Já ia esquecendo: dia 9 de novembro é o aniversário de 25 anos da queda do muro de Berlim. Eu sei, eu sei, não precisa chorar, aquilo doeu na senhora, mas são os nossos tempos. Já que tocamos no assunto, liberdade nunca foi valor pequeno burguês, a democracia não se dobra ao gosto do freguês e não queremos modelo chinês. Quem é pessimista não é direita. É que já existiu uma esquerda arrojada e anti stalinista. Por falar nisso, que papelão! Aquele da ONU foi impagável mas me refiro aquele da imprensa. Se ela não investigar a quem caberá a prerrogativa? Estou sabendo que boa parte da Universidade te apoia, mas quem abandona seu papel crítico, renuncia à análise e vegeta na militância. Não faz diferença? Discordo. Caso queira reformar a República, virar de ponta cabeça as instituições e refazer a nação, anuncie hoje, antes da eleição. Fale dos seus ídolos políticos, do poder dos Conselhos Populares, do futuro da propriedade privada e quais os planos para a instabilidade social. Pode omitir aquela palavra que dá medo no pessoal. No lugar de comuni… use regime que se apropria dos meios de produção e decide para sempre todo o resto. Compreendo, é tentador mudar as regras do jogo no meio da partida, só que tem muita gente com a mesmíssima vontade.

PS- Não esqueça de mandar felicitações para Angela.

Respeitosamente,

Eleitor e consumidor

A Intermediação II – Blog Estadão

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 A Intermediação II

Paulo Rosenbaum

27 setembro 2014 | 20:12

Já havíamos publicado que o assessor especial para assuntos internacionais, se dispôs a intermediar os conflitos e embarcaria para a região com uma comitiva especial do Partido escolhida a dedo. Se sobrasse tempo, outras áreas seriam incluídas no roteiro. Na pauta: respeito às escolhas de orientação sexual, situação das feministas, proteção às minorias, liberdade de culto, segurança pública e como implementar a democracia plena durante a recessão econômica. Integrantes do Isis aguardavam ansiosos a presença do enviado e teriam declarado “não ver a hora da oportunidade”.

Devido ao fracasso do plano original, e, logo depois do inesquecível discurso na ONU, a presidente, consultando as bases e o assessor especial, resolveu elaborar um plano de emergência. A nota divulgada para a imprensa dizia  “assim como resolvemos a crise econômica e fiscal do Brasil, estamos levando a mesmíssima carta de intenções ao EI, esperando que compreendam que só a transparência, lisura e verdade unem nações.” Ainda não está confirmado, mas a governante passou as últimas horas tentando agendar encontro pessoal com a cúpula, “queremos falar com quem manda”. Foi encaminhada à facção dominante “AF, Adagas Afiadas” Já no aeroporto, antes do embarque, falou aos jornalistas: “Tá lá provadinho: olhando olho no olho deste pessoal, é claro que falo dos carrascos, eles não terão escolha, cederão ao nosso conhecido bom senso e clareza de raciocínio. Aposto meu pescoço como vai dar certo.” A caminho do embarque, a comitiva foi surpreendida com inesperado apoio multipartidário, com carreatas, bandeiras e fanfarras enaltecendo a iniciativa.

Nos cartazes: “Vai firme, presidente”.

Comentários? Usar o link abaixo:

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Quando nos acusam de pessimistas (blog Estadão)

Quando nos acusam de pessimistas

Paulo Rosenbaum

24 setembro 2014 | 17:22

Pessoas tem o hábito de confundir pessimismo com análises desfavoráveis. E realismo, com pensamentos cheios de desejos. O pessimismo pode ser hábito do espírito. Uma retração da esperança. Um viés permanentemente desgostoso. Uma vida regrada pelo não. Talvez a acusação de pessimista guarde relação com a forma pela qual escolhemos apresentar o mundo. Ela só teria alguma chance de ser justa se aceitássemos que existe um estado normal. Uma média psíquica, a qual, tendendo ao otimismo seria a condição inata de todos os sujeitos. A garantia de que isso é impossível encontra-se na leitura das pesquisas eleitorais. A bolsa teme Dilma. Ela sobe, o mercado despenca. O agronegócio desconfia de Marina. Ela sobe e os produtores testemunham safras desvalorizadas. O pânico Aécio não é um fenômeno ainda bem conhecido. Estereótipos ou signos indiciários da verdade? O mesmo fato (a variação para cima e para baixo dos candidatos) enseja pessimismo, especialmente quando uma oposição é morna contra uma situação tórrida. O jogo eleitoral no Brasil, como outros fenômenos, talvez seja único. No fim das contas o que vale não é uma causa, uma ideia, mas o movimento de onda. É costume, ou tradição, tanto faz, que as massas migrem em direção à corrente mais fluida. O voto útil. A menos pior, aquela que não compromete. Ou aquele que não representaria desastre anunciado. A fé aplicada à política carrega extensa bula de contra indicações. Como ninguém lê, a devoção geralmente leva povos aos confins. Não importa para onde estejam nos levando, o que conduz o movimento é a adesão ao rebanho. Por aqui, mesmo quando o encalhe é nítido, o estelionato eleitoral pode ser aplicado sem engasgos. Até mesmo estimulado, com direito a repique no horário nobre. Do contrário, que regime permitiria o uso amplo geral e irrestrito da máquina do Estado com finalidade autopromocional? Fôssemos um lugar menos idiossincrático — nossa incurável refratariedade às normas — só este tema sufocaria os demais. As instituições estariam convulsionadas pela aberração. Em condições normais seria ele próprio a negação absoluta da isonomia de oportunidades, a reafirmação da desigualdade, um símbolo paradoxal e insustentável da destruição do conceito de equidade. Porém, considerando que a normalidade inexiste, e a grosseria é cínica, estas aberrações sequer são mencionadas. Assim como todos os dias negamos a morte, também nos é facultado renegar o status quo do País, ouvir passivamente discursos de metas jamais alcançadas, e considerações sobre a inflação, não a real, a dos preços, mas aquela egóica, que nos tortura com as cores mitômanas do mundo auto-referente.

Quando nos acusam de pessimistas, eles têm razão.

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Legado de Enganos (blog Estadão)

Legado de enganos

Paulo Rosenbaum

domingo 21/09/14

Quem precisa investigar? Estamos à mercê do aparelhamento, causa ou consequência de um poder que aspira hegemonia? Notável que ninguém enxergue os véus da cooptação. A  nudez difusa tornou-se móvel, generalizada, banal. Aparece tanto e por tantos lados que a gravidade se dilui. Se não era uma estratégia? Quem sabe? Mas se tornou um álibi à revelia. A mensagem seria: todos são iguais perante o mal feito. Mas eis que eles tem razão: com quem a sociedade pensa que está lidando? A opinião pública ainda não sabe de sua  irrelevância? Como ousa investigar o que não tem explicação? Por essas e por outras, nossas vidas têm valor cada vez mais relativo. Já os votos, custam um pouco mais: o cálculo é por cabeça. Só eles sabem quanto sangue e suor foi necessário para chegar até lá. E por que justo agora perderiam a viagem? Bem nesta hora, às vésperas do “mais mudanças”? É a mesmíssima imprecisão: nos dados numéricos, nas estações fiscais, nas diatribes diárias. Vivemos dias de expectativas negativas. Anomalia é tomar isso como natural. As bolsas, apenas indicadores especulativos? Se há um mérito no mercado, está exatamente aí. Vêm nos dizer, por indícios fáticos, aquilo que os dados oficiais querem calar: a perturbação não é com a sigla, mas com a falta de clareza. Com a esperteza. Com a indelicadeza. Manobraram os consensos para organizar minigolpes, suavizados por uma oposição amedrontada. O sigilo de Estado em uma democracia não foi concebido em prol de um legado de enganos. Nunca fomos consultados se desejamos modelos não explicitados, acordos secretos, agendas ocultas e vínculos com ditaduras ardilosas. Em vigor o salvo conduto para abolir as regras do jogo com impunidade garantida. E  assim mudar o caráter da República. O atentado à constituição atende por muitos nomes: reforma política, constituinte exclusiva, luta de classes, referendos de ocasião. Desta altura é impossível predizer. Talvez mantenham o Poder, mas não será o mesmo. A oxidação antecede a corrosão. Os sinais, evidentes. A contradição é explosiva: quando os contratos ficam escusos, a vida política não consegue ser pública. Os recursos jorram ao solipsismo partidário. E a maioria? Rumina o mal estar à sombra de um País que deriva sem critérios. E seja quem for o eleito, não sobrará o que salvar. O desgaste foi consumado. Pré anunciada como ato falho, era essa a herança, a maldita. Resta torcer. Talvez nem isso, nunca se pode confiar na memória das torcidas.

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Corações vagabundos (Blog Estadão)

Corações vagabundos

Paulo Rosenbaum

terça-feira 16/09/14

Quando o filosofo Hans Georg Gadamer, um dos fundadores da hermenêutica filosófica, publicou seu “Verdade e Método”, alguns sugeriram que o título mais adequado de sua obra deveria ser “Verdade ou Método”: a primeira não poderia ser exatamente compatível com a prerrogativa reducionista que as metodologias costumam lançar mão para “recortar o objeto de estudo.”  […]

Quando o filosofo Hans Georg Gadamer, um dos fundadores da hermenêutica filosófica, publicou seu “Verdade e Método”, alguns sugeriram que o título mais adequado de sua obra deveria ser “Verdade ou Método”: a primeira não poderia ser exatamente compatível com a prerrogativa reducionista que as metodologias costumam lançar mão para “recortar o objeto de estudo.”  Numa campanha vale tudo, a verdade vale menos, e a máquina caça-níqueis em busca de votos é a única realidade. Com tudo isso, ataques, tergiversações e escândalos a todo vapor, e, ainda assim, teremos mais um pleito. A mais nova manobra foi induzir os artistas a emprestar seu prestígio. A militância é uma espécie de cegueira induzida.  Farás tudo que teu mestre mandar, não como ficção de Orwell, mas realidade para a imensa quantidade de gente que se recusa a pensar sem cabrestos.  Os artistas que apoiam o poder tentam transferir sua popularidade à presidente. Apoio e enaltecimento não deixam de ser, ao fim e ao cabo, indicação de poste.  Gente com nome na praça artística deveria ter o cuidado de separar a ideologia do prestígio que acumula. Só precisam aceitar um ônus inerente à este tipo de operação: a taxa de rejeição funciona de forma analógica.

O que mais impressiona é a borracha moral das festas da propaganda política. Para bem além da estética degradada, o triunfo do marketing político contemporâneo é uma garantia de empobrecimento dos debates. O que seria significativo explicitar ao eleitor torna-se efeméride, o superficial ocupa o centro da meta. Não seria mais honesto uma espécie de retiro dos candidatos, longe de assessores e publicitários soprando o que pode e o que não deve ser dito? A agenda negativa que permite desconstruir, é da mesma matriz que pode, depois, negar que se prometeu qualquer coisa. A palavra, que valia bem pouco, pode estar sumindo como referência simbólica de confiança.

Circula um boato na ENDI, a escola nacional de desconstrução de imagens, frequentada por nove entre dez figurões da política. Por que as crenças religiosas pessoais são apontadas como empecilho a uma governança adequada, enquanto perdura silêncio e ninguém menciona ideologias como as verdadeiras armadilhas antidemocráticas? Pois são tão ou mais perniciosas que a fé pessoal de cada candidato. Enquanto a crença pessoal pode ser controlada, os governantes tem plena liberdade para impor suas inspirações político-filosófico-econômicas. Assim,  o materialismo histórico poderia ser equiparado aos que militam nas igrejas e os profetas do liberalismo econômico teriam alguma equiparação com fundamentalistas.

Ser oposição é uma arte mais dura do que se supunha. Requer destemor para enfrentar a opinião pública iludida e, eventualmente, arcar com uma derrota que insufle racionalidade. Pois, qual é a reclamação? Que não parece ser a razão que triunfa ao final dos pleitos. De fato. Antes, vigora um certo apreço à comoção programática, aos apelos diversionistas, ao emocional, que descongelado, migra ao voto. Em época de eleição, nossos corações vagabundos trabalham mais do que deveriam.

Compre curtidas

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Compre curtidas

Paulo Rosenbaum

segunda-feira 08/09/14

Já faz algum tempo que o “compre curtidas” oferece serviços. Alguém descobriu que oferecer o conforto do apreço virtual pago é um grande negócio. Na tabela de preços, antecipo, não têm pechincha. Uma curtida talvez signifique mais que a aquisição do apreço, pode estar no aplicativo narcisista que criamos. Numa sociedade autorreferente, a valorização está […]

Já faz algum tempo que o “compre curtidas” oferece serviços. Alguém descobriu que oferecer o conforto do apreço virtual pago é um grande negócio. Na tabela de preços, antecipo, não têm pechincha. Uma curtida talvez signifique mais que a aquisição do apreço, pode estar no aplicativo narcisista que criamos. Numa sociedade autorreferente, a valorização está em que os outros endossem nosso próprio umbigo. Que graça poderia ter apreciar uma foto, post, ou filme só para nosso deleite? Por isso, compungidos a compartilhar, fazemos as honras, esperando aval. Delegamos o ônus do julgamento das nossas preferências ao mundo externo. Mesmo que essa escolha acabe sendo debitada da conta de nossa autenticidade. Para que o espectador encampe a proposta, aceitamos concessões que sacrificam a única mensagem que faria sentido transmitir, e morremos como original. É mais do que não ter graça, passa a não ter significado fazer a descoberta, se essa não for, imediatamente, comunicada a outrem. O imediatamente não é fortuito, a temporalidade cobra um papel fundamental nos vínculos virtuais. Trata-se de uma espécie de comportamento simbiótico instantâneo. Vale dizer, precisamos que reconheçam que nossa auto referencia é não só válida, como a autenticação do nosso gosto. Ainda que o gosto pessoal possa a vir a ser descartado como não essencial. O importante é agradar as massas. O exemplo abaixo, pode não ilustrar isso diretamente, mas serve como reflexão.

Um conhecido escritor, por pressão de sua assessoria de imprensa, negociou num pacote de 10.000 curtidas com garantia de aproximadamente 500 comentários. Inicialmente, vibrou com os números que fariam inveja aos amigos, despertariam curiosidade nos editores e o mais importante: novos leitores. O segredo garantido, já que ninguém costuma desconfiar de inflação. Pois a euforia durou pouco, o desgosto um tanto mais. Não porque os comentários não tivessem alguma pertinência, o oposto. No meio daqueles assalariados do discurso, mercenários uniformizados para jogar conversa fora, havia gente com talento. Talvez, considerou, gente tão desesperada como ele. Descobriram que nossa era não remunera inteligência, muito menos composição de textos não especializados. Assim, o que era para ser uma capitalização triunfal, sob a artificialidade para projetar o autor à fama, tornou-se contraproducente. Como se sabe, purismo e ideologia sempre foram inimigos da vida prática. E ninguém mais duvida, a ética inferniza os negócios. O comércio, que transforma o espontâneo e amigos virtuais em vil mercadoria, gerou grave bloqueio criativo. Finalmente, o escritor, parcialmente refeito, se animou em responder cada comentário. Foi quando vislumbrou a saída, não para o fluxo de consciência, mas para o fluxo de caixa. Abandonando a poesia e o romance, passou a oferecer serviços pagos nas redes sociais. Ganhou folego, abandonou a aspiração de ser imortal. Trabalha hoje para um candidato ao senado, redigindo discursos para o horário eleitoral e sumiu das redes sociais.

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Fe no Estado laico (blog Estadao)

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Fé no Estado laico

Paulo Rosenbaum

quarta-feira 03/09/14

Compreende-se a preocupação de que uma candidatura macule o estado laico, pressuposto constitucional e político de uma República Federativa. Paradoxalmente não é exatamente isso o mais inquietante nesta disputa presidencial. Mas sim, o enfoque adotado para atacar a primeira colocada nas pesquisas. Um articulista, por exemplo, acaba de advogar que crentes, religiosos ou apenas otimistas […]

Compreende-se a preocupação de que uma candidatura macule o estado laico, pressuposto constitucional e político de uma República Federativa. Paradoxalmente não é exatamente isso o mais inquietante nesta disputa presidencial. Mas sim, o enfoque adotado para atacar a primeira colocada nas pesquisas. Um articulista, por exemplo, acaba de advogar que crentes, religiosos ou apenas otimistas gnósticos, tem uma espécie de “falha no desenvolvimento neural”(sic). Pode ter sido a desnutrição na infância, mas tambem alguma causa idiopática, isto é, sem origem conhecida. O colunista ficou devendo nada aos defensores do determinismo e das teorias eugênicas. Entendam: quem crê pode estar seriamente enfermo. Corre o risco de ter adquirido uma espécie de mutação, e é essa aberração que torna determinados sujeitos susceptíveis e vulneráveis. Vulneráveis e propensos à fé. Tendência extremamente perigosa, pois o crente desafia o fundamentalismo cientificista, que, por sua vez já tinha encontrado quase todas as respostas. Cabe um paralelo com a mazelas que acometiam os refusiniks da ex-URSS. Só para lembrar, para os malucos que questionavam o regime e o estado policial comunista, os psiquiatras tratavam de arrumar uma temporada em “clínicas de recuperação política” e, para os politicamente irrecuperáveis, uma estadia, com todas as despesas pagas por trabalhos forçados, no arquipélago Gulag.

Guardadas as devidas proporções, os ataques contra a ex-ministra do meio ambiente tem a mesma inspiração autoritária. Equivoco principista, pois parte do pressuposto que acreditar é um erro, enquanto o ceticismo é a única forma correta para interpretar o mundo. O objetivo é colar na candidata e em quem mais ousar recusar o materialismo histórico, algum rótulo desqualificador ao sabor da campanha: evangélica, Collor, Jânio, sonhática ou ex-petista traidora. Na última hora este último foi vetado pelo marketing por ter migrado do pejorativo à virtude.

Que diferença pode fazer se o sujeito tem este ou aquele sistema de notação, se é místico, joga tarô ou come macrô, desde que, assumido o cargo público saiba distinguir uma coisa da outra? E qual o problema se o sujeito acredita em estrelas e saturno na casa sete? E se resolver cultuar pedras, andar na ponta dos pés em dias ímpares, venerar o sol ou simplesmente aceitar a existência de mistérios que escapam à racionalidade? A liberdade para acreditar deve ter o mesmo estatuto que a defesa da descrença. Para desgraça dos controladores, os homens públicos, tirando robôs e postes, também são dotados de idiossincrasias e personalidades próprias.

Não é preciso ter fé na candidata para explicitar a injustiça que ela sofre por parte dos defensores da atual administração federal. Na verdade, os insultos desferidos contra a ex-senadora ocultam uma outra índole, inconfessável. E está para além do âmbito da calúnia e da difamação. Encontra-se no preconceito de classe, na intolerância com dissidentes e, principalmente, na insuperável inveja pelo poder aglutinador que ela demonstrou, ainda que à revelia de seu próprio temperamento.

Deveria constar da garantia de direitos individuais: toda pessoa tem o direito de acreditar no que bem entender, sem ter que se submeter ao bullying político.

Isso torna curiosíssimo a celeuma e as críticas pela suposta incoerência da candidata em relação à causa gay, quando ao mesmo tempo, que está sendo impiedosamente julgada e condenada. A ré confessa é “culpada” por acreditar que exista um Criador. Não custa perguntar: então era esse o moralismo seletivo dos progressistas? Não será preferível a ética conservadora confessa? Nos novos tempos autoritários o iluminismo monopartidário nem se preocupa mais em esconder a tentação de monitorar o pensamento das pessoas.

O laicismo do Estado precisa ser ressignificado. O Estado precisa ser duplamente emancipado: das religiões e das ideologias.

O fim supremo (Blog Estadão)

O fim supremo

Paulo Rosenbaum

sábado 30/08/14

O fim supremo “O fim supremo de um regime não é governar e refrear pelo temor, nem extorquir obediência; mas, pelo contrário livrar todo homem do receio, para que ele possa viver na maior tranquilidade possível; em outras palavras, favorecer o seu direito natural de existir e trabalhar, sem dano para si e para outrem” […]

 

“O fim supremo de um regime não é governar e refrear pelo temor, nem extorquir obediência; mas, pelo contrário livrar todo homem do receio, para que ele possa viver na maior tranquilidade possível; em outras palavras, favorecer o seu direito natural de existir e trabalhar, sem dano para si e para outrem” Baruch Spinoza

Meu caro Baruch,

Esta frase não sai da minha cabeça “direito natural de existir e trabalhar, sem dano para si e para outrem” Sua síntese é tão simples. Por que não pode ser assim? Livrar-nos dos receios? É o que mais temos, receio, medo, pânico. Não, não é o caso de psicanálise. Nossa enfermidade é política. Ela substituiu quase todas as patologias. Confiar em quer governa? Tranquilidade? Bem comum real? O senhor nem imaginaria. Por aqui, nada é tranquilo. Sobressaltos todos os dias. Desconhecemos essa tal vida sem receios. Exato, por aqui todo homem levanta e trabalha. Só não sabe se chega ao fim do dia. Não, não é porque os trópicos são tristes. Desculpe, o Sr. fez confusão: não temos siesta! Nós dormimos no ponto. O Sr. não captou? Perdão, era só uma expressão local. O que não sabemos é se vamos sobreviver a mais quatro anos. Quer detalhes? O problema é que tudo é instável, as regras mudam, e estamos no navio da incerteza. Eu sei disso. Um nosso conterrâneo, Rosa, também escreveu parecido: viver é perigoso. Te consulto para saber se precisa ser assim?

Se seu nome é conhecido? Não é popular. Muitos estudaram sua obra “Ética”. Adoramos sua visão de natureza e temos um paraíso quase intacto. Alguns professores são especialistas no Sr., mas hoje é o partido que filosofa por eles. Não, acho que não fui claro. Existem vários partidos, mas têm um que o Sr. não botaria fé. É curioso eu sei. Melhor nem falar demais. O Sr. saberia o que é “extorquir obediência e refrear pelo temor” se passasse uma temporada aqui. Na Holanda se escapava da fogueira, aqui, a inquisição têm outros métodos.

A democracia? Vai mal. Os homens que determinam nossos dias se concentram em suas finalidades supremas. Para muitos, o Estado substituiu as pessoas. Para outros, liberdade é um luxo desnecessário. Sim, é obrigatório colocar os programas no papel, mas é que eles também controlam as borrachas, se é que me entende. Nós, o povo? Infelizmente não fomos incluídos.

Baruch, confio em seu discernimento: o que fazer? Pode nos dar uma luz? As opções? Aqui, uma afunda o País e o projeto é o próprio poder, a outra diz que que fará o novo e não é igual a ninguém, mas nos perguntamos: se ela não é igual a ninguém, quem será e qual novo fará? Dedução perfeita. Dá-se preferência às promessas e pessoas, que consistência e seriedade. Não estamos enxergando futuro e o aqui agora não está moleza. Não. Nunca desespero, e já lhe comprovei isso antes.

Perdoe a intrusão, mas não terias algum estadista de plantão? Uma carta na manga? Por falar nisso, sem querer abusar, a Chefia está acordada?

Sei que aí já é tarde! Claro, compreendo perfeitamente, as lentes precisam de mais polimento. O Senhor aceita encomendas por e-mail?

 

 

Terrorismo intelectual

Terrorismo Intelectual

Paulo Rosenbaum

quarta-feira 27/08/14

 Não compreendo por que ainda me surpreendo. Já deveríamos estar acostumados, mas não se conhecem casos de imunidade natural contra perversões na cátedra. Depois dos vitupérios emanados pela irreconhecível esquerda de antanho, depois do lançamento do modelo “pijama de campo de concentração” da grife famosa, e, finalmente, depois das marchas de alemães e franceses pedindo […]

Não compreendo por que ainda me surpreendo. Já deveríamos estar acostumados, mas não se conhecem casos de imunidade natural contra perversões na cátedra. Depois dos vitupérios emanados pela irreconhecível esquerda de antanho, depois do lançamento do modelo “pijama de campo de concentração” da grife famosa, e, finalmente, depois das marchas de alemães e franceses pedindo câmara de gás, redescobrimos que o requinte chegou ao campus. Novas formas de degola a frio desembarcaram no mercado: jihadismo intelectual laico, ou simplesmente, terrorismo intelectual.

Sempre se soube do suporte que intelectuais emprestaram para causas nobres, humanitárias e em defesa da justiça e das minorias oprimidas. Eis o que o sociólogo e militante português Boaventura de S. Santos acaba de publicar artigo numa revista brasileira, no qual evoca e justifica a extinção de um Estado. É claro que não se trata da China, Estado Islâmico ou Andorra. É evidente, ele se refere a Israel. E em quem mais poderia se concentrar? Como outras características as avessas em nossa era, a tradição da elite intelectual tem migrado da ponderação analítica dos fatos — conforme rogava Bertrand Russell — para a redação de peças ideológicas, auto laudatórias e, em alguns casos, contendo grosseiras distorções da razão.

Pudemos registrar a força e penetração da verve antissemita, especialmente entre a esclerosada esquerda latino americana, que descobriu não ter mais causas decentes para defender. Muitos acadêmicos laureados e literatos premiados nunca fizeram parte deste glorioso passado humanista no qual se advogava em favor da tolerância e liberdade, e não se privava do pensamento às custas dos instintos e preferências ideológicas da estação. Não poucos ideólogos a esquerda e a direita demonstraram apreço por teorias eugênicas e chegaram mesmo a oferecer suporte teórico às racionalizações racistas, disfarçadas de conveniências sociológicas.

A estupidez devota do acadêmico português é icônica e supera quase tudo que se viu em matéria de aventura e deturpação.  Isso acontece quando um intelectual começa a achar que pode predizer vida e morte, vale dizer, quais Estados nacionais merecem sobreviver. Do alto de sua auto referencia partisã, o acadêmico — supõe-se que é assim que doutrina seus alunos — propõe soluções mirabolantes, sem a menor consciência ou capacidade de apreensão da realidade de solo. O passo seguinte será vaticinar quais países devem ser extintos e coordenar as etapas do desmonte da Nação com a qual ele não simpatiza. Ao se unir aos que trabalham para deslegitimar Israel ele, automaticamente, legitima grupos terroristas para que prossigam a luta contra o “inimigo sionista” e resistam ao “colonialismo imperial norte americano”. Faz sentido, e ele não está só em sua guerra santa, versão materialismo histórico. Pois aí, uma vez atingido o ponto, já se pode relativizar a natureza perversa do jihadismo internacional. Aquele que deliberadamente sequestra, crucifica, assassina e lança foguetes contra alvos civis. Desconstruindo o direito de legítima defesa, pois se trata do “mal”, do “problema judeu”, a cumplicidade torna-se mais confortável e já se pode encaixar terroristas sob categorias mais amenas, tais como “combatentes”, “resistência”, e “milicianos”. De quebra, com a anacrônica índole maniqueísta bem disfarçada, sentem-se livres para renomear o alvo usando a pecha mais desqualificadora possível. É dentro dessa cortina da fumaça da linguagem, que se pode afirmar que os judeus são, por exemplo, os criminosos nazistas dos nossos tempos, e, ainda, sair aplaudido pela multidão beócia, em franca síndrome de abstinência de bodes expiatórios.

http://blogs.estadao.com.br/conto-de-noticia/terroristasintelectuais/