Legado de enganos

Paulo Rosenbaum

domingo 21/09/14

Quem precisa investigar? Estamos à mercê do aparelhamento, causa ou consequência de um poder que aspira hegemonia? Notável que ninguém enxergue os véus da cooptação. A  nudez difusa tornou-se móvel, generalizada, banal. Aparece tanto e por tantos lados que a gravidade se dilui. Se não era uma estratégia? Quem sabe? Mas se tornou um álibi à revelia. A mensagem seria: todos são iguais perante o mal feito. Mas eis que eles tem razão: com quem a sociedade pensa que está lidando? A opinião pública ainda não sabe de sua  irrelevância? Como ousa investigar o que não tem explicação? Por essas e por outras, nossas vidas têm valor cada vez mais relativo. Já os votos, custam um pouco mais: o cálculo é por cabeça. Só eles sabem quanto sangue e suor foi necessário para chegar até lá. E por que justo agora perderiam a viagem? Bem nesta hora, às vésperas do “mais mudanças”? É a mesmíssima imprecisão: nos dados numéricos, nas estações fiscais, nas diatribes diárias. Vivemos dias de expectativas negativas. Anomalia é tomar isso como natural. As bolsas, apenas indicadores especulativos? Se há um mérito no mercado, está exatamente aí. Vêm nos dizer, por indícios fáticos, aquilo que os dados oficiais querem calar: a perturbação não é com a sigla, mas com a falta de clareza. Com a esperteza. Com a indelicadeza. Manobraram os consensos para organizar minigolpes, suavizados por uma oposição amedrontada. O sigilo de Estado em uma democracia não foi concebido em prol de um legado de enganos. Nunca fomos consultados se desejamos modelos não explicitados, acordos secretos, agendas ocultas e vínculos com ditaduras ardilosas. Em vigor o salvo conduto para abolir as regras do jogo com impunidade garantida. E  assim mudar o caráter da República. O atentado à constituição atende por muitos nomes: reforma política, constituinte exclusiva, luta de classes, referendos de ocasião. Desta altura é impossível predizer. Talvez mantenham o Poder, mas não será o mesmo. A oxidação antecede a corrosão. Os sinais, evidentes. A contradição é explosiva: quando os contratos ficam escusos, a vida política não consegue ser pública. Os recursos jorram ao solipsismo partidário. E a maioria? Rumina o mal estar à sombra de um País que deriva sem critérios. E seja quem for o eleito, não sobrará o que salvar. O desgaste foi consumado. Pré anunciada como ato falho, era essa a herança, a maldita. Resta torcer. Talvez nem isso, nunca se pode confiar na memória das torcidas.

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