Quando nos acusam de pessimistas

Paulo Rosenbaum

24 setembro 2014 | 17:22

Pessoas tem o hábito de confundir pessimismo com análises desfavoráveis. E realismo, com pensamentos cheios de desejos. O pessimismo pode ser hábito do espírito. Uma retração da esperança. Um viés permanentemente desgostoso. Uma vida regrada pelo não. Talvez a acusação de pessimista guarde relação com a forma pela qual escolhemos apresentar o mundo. Ela só teria alguma chance de ser justa se aceitássemos que existe um estado normal. Uma média psíquica, a qual, tendendo ao otimismo seria a condição inata de todos os sujeitos. A garantia de que isso é impossível encontra-se na leitura das pesquisas eleitorais. A bolsa teme Dilma. Ela sobe, o mercado despenca. O agronegócio desconfia de Marina. Ela sobe e os produtores testemunham safras desvalorizadas. O pânico Aécio não é um fenômeno ainda bem conhecido. Estereótipos ou signos indiciários da verdade? O mesmo fato (a variação para cima e para baixo dos candidatos) enseja pessimismo, especialmente quando uma oposição é morna contra uma situação tórrida. O jogo eleitoral no Brasil, como outros fenômenos, talvez seja único. No fim das contas o que vale não é uma causa, uma ideia, mas o movimento de onda. É costume, ou tradição, tanto faz, que as massas migrem em direção à corrente mais fluida. O voto útil. A menos pior, aquela que não compromete. Ou aquele que não representaria desastre anunciado. A fé aplicada à política carrega extensa bula de contra indicações. Como ninguém lê, a devoção geralmente leva povos aos confins. Não importa para onde estejam nos levando, o que conduz o movimento é a adesão ao rebanho. Por aqui, mesmo quando o encalhe é nítido, o estelionato eleitoral pode ser aplicado sem engasgos. Até mesmo estimulado, com direito a repique no horário nobre. Do contrário, que regime permitiria o uso amplo geral e irrestrito da máquina do Estado com finalidade autopromocional? Fôssemos um lugar menos idiossincrático — nossa incurável refratariedade às normas — só este tema sufocaria os demais. As instituições estariam convulsionadas pela aberração. Em condições normais seria ele próprio a negação absoluta da isonomia de oportunidades, a reafirmação da desigualdade, um símbolo paradoxal e insustentável da destruição do conceito de equidade. Porém, considerando que a normalidade inexiste, e a grosseria é cínica, estas aberrações sequer são mencionadas. Assim como todos os dias negamos a morte, também nos é facultado renegar o status quo do País, ouvir passivamente discursos de metas jamais alcançadas, e considerações sobre a inflação, não a real, a dos preços, mas aquela egóica, que nos tortura com as cores mitômanas do mundo auto-referente.

Quando nos acusam de pessimistas, eles têm razão.

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