Corações vagabundos

Paulo Rosenbaum

terça-feira 16/09/14

Quando o filosofo Hans Georg Gadamer, um dos fundadores da hermenêutica filosófica, publicou seu “Verdade e Método”, alguns sugeriram que o título mais adequado de sua obra deveria ser “Verdade ou Método”: a primeira não poderia ser exatamente compatível com a prerrogativa reducionista que as metodologias costumam lançar mão para “recortar o objeto de estudo.”  […]

Quando o filosofo Hans Georg Gadamer, um dos fundadores da hermenêutica filosófica, publicou seu “Verdade e Método”, alguns sugeriram que o título mais adequado de sua obra deveria ser “Verdade ou Método”: a primeira não poderia ser exatamente compatível com a prerrogativa reducionista que as metodologias costumam lançar mão para “recortar o objeto de estudo.”  Numa campanha vale tudo, a verdade vale menos, e a máquina caça-níqueis em busca de votos é a única realidade. Com tudo isso, ataques, tergiversações e escândalos a todo vapor, e, ainda assim, teremos mais um pleito. A mais nova manobra foi induzir os artistas a emprestar seu prestígio. A militância é uma espécie de cegueira induzida.  Farás tudo que teu mestre mandar, não como ficção de Orwell, mas realidade para a imensa quantidade de gente que se recusa a pensar sem cabrestos.  Os artistas que apoiam o poder tentam transferir sua popularidade à presidente. Apoio e enaltecimento não deixam de ser, ao fim e ao cabo, indicação de poste.  Gente com nome na praça artística deveria ter o cuidado de separar a ideologia do prestígio que acumula. Só precisam aceitar um ônus inerente à este tipo de operação: a taxa de rejeição funciona de forma analógica.

O que mais impressiona é a borracha moral das festas da propaganda política. Para bem além da estética degradada, o triunfo do marketing político contemporâneo é uma garantia de empobrecimento dos debates. O que seria significativo explicitar ao eleitor torna-se efeméride, o superficial ocupa o centro da meta. Não seria mais honesto uma espécie de retiro dos candidatos, longe de assessores e publicitários soprando o que pode e o que não deve ser dito? A agenda negativa que permite desconstruir, é da mesma matriz que pode, depois, negar que se prometeu qualquer coisa. A palavra, que valia bem pouco, pode estar sumindo como referência simbólica de confiança.

Circula um boato na ENDI, a escola nacional de desconstrução de imagens, frequentada por nove entre dez figurões da política. Por que as crenças religiosas pessoais são apontadas como empecilho a uma governança adequada, enquanto perdura silêncio e ninguém menciona ideologias como as verdadeiras armadilhas antidemocráticas? Pois são tão ou mais perniciosas que a fé pessoal de cada candidato. Enquanto a crença pessoal pode ser controlada, os governantes tem plena liberdade para impor suas inspirações político-filosófico-econômicas. Assim,  o materialismo histórico poderia ser equiparado aos que militam nas igrejas e os profetas do liberalismo econômico teriam alguma equiparação com fundamentalistas.

Ser oposição é uma arte mais dura do que se supunha. Requer destemor para enfrentar a opinião pública iludida e, eventualmente, arcar com uma derrota que insufle racionalidade. Pois, qual é a reclamação? Que não parece ser a razão que triunfa ao final dos pleitos. De fato. Antes, vigora um certo apreço à comoção programática, aos apelos diversionistas, ao emocional, que descongelado, migra ao voto. Em época de eleição, nossos corações vagabundos trabalham mais do que deveriam.