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Fé no Estado laico

Paulo Rosenbaum

quarta-feira 03/09/14

Compreende-se a preocupação de que uma candidatura macule o estado laico, pressuposto constitucional e político de uma República Federativa. Paradoxalmente não é exatamente isso o mais inquietante nesta disputa presidencial. Mas sim, o enfoque adotado para atacar a primeira colocada nas pesquisas. Um articulista, por exemplo, acaba de advogar que crentes, religiosos ou apenas otimistas […]

Compreende-se a preocupação de que uma candidatura macule o estado laico, pressuposto constitucional e político de uma República Federativa. Paradoxalmente não é exatamente isso o mais inquietante nesta disputa presidencial. Mas sim, o enfoque adotado para atacar a primeira colocada nas pesquisas. Um articulista, por exemplo, acaba de advogar que crentes, religiosos ou apenas otimistas gnósticos, tem uma espécie de “falha no desenvolvimento neural”(sic). Pode ter sido a desnutrição na infância, mas tambem alguma causa idiopática, isto é, sem origem conhecida. O colunista ficou devendo nada aos defensores do determinismo e das teorias eugênicas. Entendam: quem crê pode estar seriamente enfermo. Corre o risco de ter adquirido uma espécie de mutação, e é essa aberração que torna determinados sujeitos susceptíveis e vulneráveis. Vulneráveis e propensos à fé. Tendência extremamente perigosa, pois o crente desafia o fundamentalismo cientificista, que, por sua vez já tinha encontrado quase todas as respostas. Cabe um paralelo com a mazelas que acometiam os refusiniks da ex-URSS. Só para lembrar, para os malucos que questionavam o regime e o estado policial comunista, os psiquiatras tratavam de arrumar uma temporada em “clínicas de recuperação política” e, para os politicamente irrecuperáveis, uma estadia, com todas as despesas pagas por trabalhos forçados, no arquipélago Gulag.

Guardadas as devidas proporções, os ataques contra a ex-ministra do meio ambiente tem a mesma inspiração autoritária. Equivoco principista, pois parte do pressuposto que acreditar é um erro, enquanto o ceticismo é a única forma correta para interpretar o mundo. O objetivo é colar na candidata e em quem mais ousar recusar o materialismo histórico, algum rótulo desqualificador ao sabor da campanha: evangélica, Collor, Jânio, sonhática ou ex-petista traidora. Na última hora este último foi vetado pelo marketing por ter migrado do pejorativo à virtude.

Que diferença pode fazer se o sujeito tem este ou aquele sistema de notação, se é místico, joga tarô ou come macrô, desde que, assumido o cargo público saiba distinguir uma coisa da outra? E qual o problema se o sujeito acredita em estrelas e saturno na casa sete? E se resolver cultuar pedras, andar na ponta dos pés em dias ímpares, venerar o sol ou simplesmente aceitar a existência de mistérios que escapam à racionalidade? A liberdade para acreditar deve ter o mesmo estatuto que a defesa da descrença. Para desgraça dos controladores, os homens públicos, tirando robôs e postes, também são dotados de idiossincrasias e personalidades próprias.

Não é preciso ter fé na candidata para explicitar a injustiça que ela sofre por parte dos defensores da atual administração federal. Na verdade, os insultos desferidos contra a ex-senadora ocultam uma outra índole, inconfessável. E está para além do âmbito da calúnia e da difamação. Encontra-se no preconceito de classe, na intolerância com dissidentes e, principalmente, na insuperável inveja pelo poder aglutinador que ela demonstrou, ainda que à revelia de seu próprio temperamento.

Deveria constar da garantia de direitos individuais: toda pessoa tem o direito de acreditar no que bem entender, sem ter que se submeter ao bullying político.

Isso torna curiosíssimo a celeuma e as críticas pela suposta incoerência da candidata em relação à causa gay, quando ao mesmo tempo, que está sendo impiedosamente julgada e condenada. A ré confessa é “culpada” por acreditar que exista um Criador. Não custa perguntar: então era esse o moralismo seletivo dos progressistas? Não será preferível a ética conservadora confessa? Nos novos tempos autoritários o iluminismo monopartidário nem se preocupa mais em esconder a tentação de monitorar o pensamento das pessoas.

O laicismo do Estado precisa ser ressignificado. O Estado precisa ser duplamente emancipado: das religiões e das ideologias.