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Psicologia do cheque em branco

Jornal do Brasil Paulo Rosenbaum

Numa dessas extraordinárias ironias da vida, a grande prova de que o ex-ministro vitorioso em São Paulo falhou na principal tarefa educacional que é promover o raciocínio crítico, foi sua própria eleição. Nada contra ele, mas tivessem os habitantes do estado mais populoso da nação sido realmente instruídos e treinados na arte de discernimento, não teriam passado um cheque em branco a um preposto do grande chefe. Reconheçam-se seus méritos, que mais desta vez, saiu-se bem na arte da prestidigitação. A República é o atual parque de diversões do grande comandante, que agora elege bem mais que postes: cria bonecos infláveis que enche ou esvazia conforme a veneta.

Somos obrigados a admitir que a paixão por partidos lideres e celebridades façam parte de um mesmo processo psicológico, que merece reflexão e muito estudo. A grande mensagem desta eleição, é, infelizmente…

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Psicologia do cheque em branco 

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Psicologia do cheque em branco

Jornal do Brasil Paulo Rosenbaum

Numa dessas extraordinárias ironias da vida, a grande prova de que o ex-ministro vitorioso em São Paulo falhou na principal tarefa educacional que é promover o raciocínio crítico, foi sua própria eleição. Nada contra ele, mas tivessem os habitantes do estado mais populoso da nação sido realmente instruídos e treinados na arte de discernimento, não teriam passado um cheque em branco a um preposto do grande chefe. Reconheçam-se seus méritos, que mais desta vez, saiu-se bem na arte da prestidigitação. A República é o atual parque de diversões do grande comandante, que agora elege bem mais que postes: cria bonecos infláveis que enche ou esvazia conforme a veneta.

Somos obrigados a admitir que a paixão por partidos lideres e celebridades façam parte de um mesmo processo psicológico, que merece reflexão e muito estudo. A grande mensagem desta eleição, é, infelizmente, uma má notícia. Estamos diante da consolidação da hegemonia personalista. Há quem dê de ombros. Parece sem importância que neófitos apareçam do nada e ganhem as eleições. Mesmo assim, as implicações são trágicas. Captem o significado profundo e a arbitrariedade dessa concentração de força. Com as vontades pessoais, e as vinganças saciadas, quais serão os próximos apetites?

Como tudo apresenta outro lado, o estrondoso fracasso do partido governante no Norte-Nordeste mostra que o Brasil é mais complexo e inapreensível do que se planejava. É o risco que se corre ao reduzir um país tão plural. Mas, o que não foi considerado não é a corrupção mais ou menos generalizada, e sim a reafirmação de que o assalto aos cofres nacionais serviu a “causa maior”. Segundo essa lógica, ela é, de uma só vez, garantia, aval, indulto e endosso. É essa convicção de que as leis devem se adaptar aos propósitos pseudo salvacionistas, que caracteriza a Brasília atual

A redução do eleitor a um elemento amorfo do curral eleitoral é um fenômeno antigo. Mas quando a política manipula as massas e violenta as regras do jogo ai enfrentamos uma nova ameaça. Isso é mais que a representação, é a face concreta, substantiva e presente do mal. Para quem se arrepia, outra versão: o oposto do bem público. A gula centralizadora se revela na enorme concentração de impostos drenados ao Planalto, enquanto os municípios esmolam verbas.

Esta entidade abstrata chamada Estado, sob regime presidencialista concentrador, favoreceu as aventuras dos políticos contemporâneos. O objetivo final é um só: tornar as pessoas presas do medo. Quando milhões de reféns têm a resistência vencida e o vencedor impõe suas estratégia aos vencidos, duas posturas emergem: fanatismo e descrença.

Os fanáticos podem degenerar facilmente para hordas protofascistas (como as que agrediram as pessoas que protestavam contra os condenados no dia da eleição) e carta branca aos radicais entusiasmados pelo crédito eleitoral conquistado. Enquanto os descrentes são uma resposta desesperada ao panorama sórdido que enxergam pela frente. O resultado prático é mais engajamento para aloprados e afastamento, decepção e esgotamento para os demais. O diagnóstico de “fadiga de material” e os “ventos de mudança” são duas polaridades desse mesmo problema.

Quem não quer mudança? Mas, e se for para pior? A maior abstenção desde 1998 — e vai crescer — registra este momento histórico. Como pensava Arnold Toynbee: “O maior castigo para aqueles que não se interessam por política é que serão governados pelos que se interessam”. Mas uma breve analise da realidade mostra que faz todo sentido: para que votar se os melhores são sempre preteridos em função dos mais ardilosos?

Atropela-se, se for preciso mata-se, vale qualquer negócio para chegar ao sucesso. E não é assim por aí no mundo? Na raiz das cifras da abstenção recorde há uma desilusão com a política, pois esperava-se que fosse uma atividade completamente diferente do mundo dos negócios privados que conhecemos. A expectativa, nem sempre consciente, era de que os políticos tivessem a chama sagrada, o velho espírito dos sacerdotes. A diferença, ingenuamente deduzíamos, não poderia estar só no dinheiro publico, muito menos se usado para fins privados.

Em nossas anacrônicas construções mentais, a política tinha que ser e ter um ideal maior, uma lição de abnegação, um exemplo de altruísmo, o jogo limpo. Caretice nossa. Não é nada disso. A real é que ali se concentram os interesses mais materiais, os tipos mais egoístas, as raposas mais espertas, e às vezes a moeda não é só papel moeda, mas poder. Muito poder.

Retire-se o dinheiro e distribua-se melhor o poder com descentralização de impostos, e veremos decrescer o desvio, o mal feito, e o incomparável descalabro com as contas públicas. Mas isso vai contra a “causa”, não faz parte da estratégia. A gravíssima falta de segurança (60 mil assassinatos em um ano, mais que muitas guerras civis) e o renascimento de milícias partidárias truculentas que desrespeitam as normas jurídico-institucionais, toleradas pelo poder central, representam bem os impasses que nos aguardam mais à frente.

A menos que a educação vingue para valer, para sair do imbróglio, precisaremos contar com um grande golpe de sorte.

Paulo Rosenbaum é médico e escritor. É autor de “A Verdade Lançada ao Solo” (Ed. Record)

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O Sequestro do Estado

Autocracia, do grego, autokráteia – força própria, poder absoluto.

Estudos econômicos recentes apresentaram realidades paradoxais. Se por um lado no século XX as condições sócio-sanitárias avançaram, o fosso que separa a extrema pobreza da extrema riqueza aumentou muito e a crise mundial propagada veio para dar o golpe de misericórdia no abismo. Esta incapacidade crônica de resolver o apartamento entre os que podem comer e os que não gozam do direito de perguntar por que continuam famintos, representa bem o malogro da política globalizada como instituição. Mas há um perigo muito maior nessa vergonhosa calamidade. As cinzas tem potencial assustador para gerar lideres totipotentes, os quais, geralmente, ficam à frente de governos cínicos. Facciosos, auto referentes e boquirrotos, eles formam a nova elite politico-econômica. Não vieram de onde vieram, pequena burguesia ou da pobreza para mudar nada, apenas ocuparam um lugar que antes não lhes pertencia…

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O Sequestro do Estado

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O Sequestro do Estado

Autocracia, do grego, autokráteia – força própria, poder absoluto.

Estudos econômicos recentes apresentaram realidades paradoxais. Se por um lado no século XX as condições sócio-sanitárias avançaram, o fosso que separa a extrema pobreza da extrema riqueza aumentou muito e a crise mundial propagada veio para dar o golpe de misericórdia no abismo. Esta incapacidade crônica de resolver o apartamento entre os que podem comer e os que não gozam do direito de perguntar por que continuam famintos, representa bem o malogro da política globalizada como instituição. Mas há um perigo muito maior nessa vergonhosa calamidade. As cinzas tem potencial assustador para gerar lideres totipotentes, os quais, geralmente, ficam à frente de governos cínicos. Facciosos, auto referentes e boquirrotos, eles formam a nova elite politico-econômica. Não vieram de onde vieram, pequena burguesia ou da pobreza para mudar nada, apenas ocuparam um lugar que antes não lhes pertencia. O problema é que mimetizaram os valores que antes atacavam ferozmente e se tornaram versões aperfeiçoadas dos antigos algozes. Hoje manipulam os mais pobres exatamente como machistas usam as mulheres. O pobre vai de mão em mão, transformado em objeto, sem acesso a ser player do jogo capitalista, oprimido por impostos e feliz por subsistir na miséria. Seu único préstimo é sustentar a autoilusão de que o regime é feito para eles, e por um deles.
A verdade é que regimes totalitários costumam governar com as instituições financeiras, o grande capital acionário e as elites econômicas. Essa dupla miragem impõe à sociedade inteira um efeito colateral. A verdadeira calamidade é que o favorecimento de governos populistas (distingua-se populismo de governo popular) entorpece a capacidade crítica e permite o cala boca da maioria na surdina, sem alarde. Pudera, quem pode falar quando são 70 e tantos por cento de aprovação?
Para conseguir tudo isso foi preciso saciar a fome sem prover renda, substituir educação e melhores condições de vida pela subserviência ao paternalismo de Estado, desqualificação da educação superior, e abandono do critério de mérito e esforço para lograr a ascensão sócio cultural. São rebaixamentos que seduzem. Acabam atingindo a oposição que se viu obrigada a renunciar seu papel fiscalizador e/ou associar-se comportadamente para compor com o governo: assim nasceu a base alugada.
Pois então que respondam os prezados leitores: Em qual República do mundo uma cúpula partidária inteira é condenada por corrupção ativa e os mandatários passam incólumes e continuam se elegendo e aos cúmplices, como se a suprema corte estivesse batendo martelos no açougue? Em qual Pais do mundo o uso da máquina pública é abertamente colocada a serviço de candidatos do regime e não se ouve uma palavra de protesto, uma contestação, um pio? Em qual Nação contemporânea, diante de sucessivos escândalos envolvendo sinistros interesses públicos e privados, a situação cresce e a oposição míngua?

Cautela é vital. A razão mostra que nem todos os políticos podem ser equiparados e o fenômeno motivador da ação penal 470 é essencialmente pluripartidário.

Mas há uma diferença, a fundamental: quem ataca a justiça ou a protege.
Os primeiros acham que a lei é uma espécie de guarita, um apêndice governamental, que os cargos de confiança facultam impunidade e, caso derrotados, ainda podem aguardar o indulto. E existem aqueles poucos que sabem que a justiça é a garantia, a única, que nos assegura os direitos individuais, liberdade e equidade. Confundir estes dois tipos e dizer que “são todos iguaizinhos” é embarcar na cortina de fumaça e fazer troça da constituição, como aliás farão os réus e seus padrinhos a partir de domingo a noite, assim que as urnas forem lacradas. Tudo devidamente acobertado por parcela da comunidade intelectual que agora arma a difamação do único poder atualmente independente da República, o Judiciário.

Como exercício de antecipação isso nos deveria fazer pensar que, se nada for feito, em qual tipo de ditadura nos transformaremos adiante.

Ao sequestrar o Estado, esse governo avança lentamente para aplicar os devidos torniquetes contra a liberdade de expressão, como já anunciaram os falcões do partido. O pedido de resgate já não interessa, preferem se apoderar da vítima para sempre. De servidor do povo, o Estado passou a se servir dele para consolidar seu projeto político monológico. O povo somos todos nós, ELES a nova elite, fazendo caixa pelos mais variados motivos. Recomenda-se o recentemente divulgado vídeo com a impressionante entrevista de Hélio Bicudo para entender melhor de quanto se trata. O mensalão foi apenas um detalhe dessa sofisticada maquinação, que não fica nada a dever às táticas dos regimes mais truculentos e autoritários. A julgar pela inércia, o Pais ainda não está pronto para ser passado a limpo, teremos que aguardar outro julgamento, o histórico, para saber a distancia que estivemos da autocracia.

O consolo? Passa por um velho princípio da física, a lei a gravidade. Neste mundo todos os corpos são irresistivelmente atraídos ao solo e tendem à queda, se é que não serão derrubados antes!

Paulo Rosenbaum é médico e escritor. É autor de “A Verdade Lançada ao Solo”(Ed. Record)

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Populismo blindado e Maquiavel

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Populismo blindado e Maquiavel

Diz-se que tudo que entra na linguagem popular tem razão de ser. Quem já não ofendeu alguém usando a palavra “maquiavélico” ? Mas será que estamos fazendo jus ao filósofo Niccolò Machiavelli (1469-1527)?

Sua famosa frase é mal citada e pessimamente instrumentalizada por políticos de todas as grandezas. Raramente a frase toda é contemplada em seu contexto: “Na conduta dos homens, especialmente dos príncipes, contra a qual não há recurso, os fins justificam os meios.” Ouviram? “Contra a qual não há recurso”, isso significa que, nesse caso, teremos que aceitar resignados as arbitrariedades do príncipe e os meios que sua alteza julgar apropriados para nos governar.

O que está em jogo neste segundo turno das eleições é muito mais que a obvia antecipação da eleição presidencial de 2014: é a tentativa da atual administração federal de consolidar seu populismo blindado. É o atual estilo de governar na América Latina. É imperioso que a sociedade interponha recursos contra o príncipe.

O candidato do governo federal até convenceria como figura que se força à simpatia e a ingenuidade de um acadêmico que está para se tornar político, mas o caso é outro quando se analisa suas companhias. O problema é que ele se tornará mero instrumento nas hábeis mãos de quem o alçou até lá. Nesse caso, o morubixaba já declarou que faturar em sampa é “questão de honra”. Ora, nenhum pleito deveria ser, por definição, questão de honra, pois a política além de ação coletiva, quando colocada a serviço dos caprichos pessoais já degenerou num absolutismo plebiscitário.

Por isso mesmo há que se questionar o famoso aforismo positivista de que “contra fatos não há argumentos.” Há. Muitos. O primeiro deles é que um eventual triunfo do candidato do governo federal em São Paulo representaria a consagração do jeito vale-tudo de fazer política. O que torna a reflexão sobre o mensalão mais assustadora é que ele pode se universalizar e portanto legitimar-se como praxe política. Obviamente, nem todos no partido tem essa índole, mas é público que para os chefes esse é o caminho.

Sim, há uma política baseada em vingança e lealdade revestida com silencio premiado que lembra a lei do bico calado das organizações criminosas. Nesse sentido, estamos todos comprados, comprados pelo sucesso, pela economia acelerada, pelas benesses que o estado promete, pelas vagas no ensino superior, pelo acesso ao consumo.

O problema na verdade é que eles ainda consideram o pais um regime de exceção e o sistema, digno de ser derrubado. Acordem! Encontrar soluções passando por cima das leis é a verdadeira conspiração contra a democracia, não importando os resultados finais. O suborno portanto não vem só da corrupção ativa dos políticos, mas de nossa submissão alienada aos critérios que nos tem sido enfiados garganta abaixo. Diz-se nos fóruns internos do partido que vão “tocar fogo” no país para exorcizar as condenações. Claro, isso será assim que passar as eleições, já que as pesquisas mostram que a esmagadora maioria das pessoas entrevistadas, de todas as classe sociais, acham que as condenações foram justas, que o governo federal esteve envolvido, que gostariam que a impunidade diminuísse. Também já se ouve, à boca pequena, que haverá pressão sobre a presidenta para indultar os réus. Se isso realmente acontecer, a fogueira subirá ao status de incêndio de grandes proporções.

É contra esta lógica que a percepção da opinião pública resiste e aos poucos está aprendendo a se defender.

Assim mais uma vez pode se repetir o fenômeno do voto útil em São Paulo, não exatamente contra o ex-ministro da educação mas contra tudo que ele representa, contra quem governará por ele ou com ele, tanto faz. Isso não significa que seu oponente tenha a coalização dos sonhos ou um candidato modelo, mas qual é a alternativa? O problema é que em São Paulo, quiçá no Brasil, sempre foi assim.

O pragmatismo pode funcionar para as alianças e conchavos mas não solucionam questões vitais da cidade. Quando questionados, eles dizem que nada disso interessa e dá-lhe refrão: tiramos milhões da miséria! Aplausos e nada mais que a obrigação do Estado com a justiça social. Mas o que isso tem a ver com crimes comuns, corrupção e aspiração totalitária?

Para fazer uma política justa e alcançar o bem estar que atinja todos, o foco deveria estar nas cidades, no dia a dia dos bairros, dos espaços públicos, na reunião da periferia com o centro. Isso, infelizmente, não acontecerá. Ganhe quem ganhar, as ações serão todas dirigidas e pensadas considerando outro foco, o plano nacional, a maldita rampa.

Uma lástima para os habitantes da polis que, mais desta vez, terão que esperar a vez. Fossem os políticos realmente republicanos não enxergariam mandatos como questão pessoal, nem o poder como instrumento arrivista.

O tênue consolo vem do futuro. À revelia do poder, a opinião pública brasileira amadurece com suor e lágrimas, e é com toda essa umidade que a corrosão da blindagem virá antes do que se pensa.

Paulo Rosenbaum é médico e escritor. É autor de “A Verdade Lançada ao Solo ”Ed. Record.

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Ética? Vê se se enxerga!

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Ética? Vê se se enxerga!
Segundo os dicionários de filosofia “ética” significa “ciência que tem por objeto a apreciação que se aplica na distinção entre o bem e o mal”. Como há confusão de um dicionário para outro, recorri a Aristóteles e cheguei ao que mais se aproxima duma visão contextualizada: “ação que os homens exercem uns sobre os outros”. A palavra grega ethiqké, na raiz etimológica, estudo da moral. Deriva da palavra ethos, que significa “caráter ou ética”. Contudo, é bom que se saiba que ela nunca foi um ingrediente natural, e, por isso, diz-se que a ethiké arete (a virtude ética) se conquista pelo hábito.

Fomos criados com cegueira seletiva, aquela que interdita o reconhecimento dos nossos próprios preconceitos. Os outros, claro, é que não tem ética. Aliás, também só outros têm ideologias, ideias fixas e vícios.

Em miúdos, é licito roubar para doar aqueles que precisam mais do que nós? É ético encarcerar um famélico que para prover sua família, surrupia pão? É perfeitamente legal, mas será justo que um bando de partidos loteie cargos públicos para se perpetuar no controle? Está de acordo com a moralidade pública que a administração, seja lá qual for, finja respeitar a opinião pública para, na sequencia da votação ungi-la com pacotes que trazem arrocho, inflação e impostos? É ético que qualquer um trate a coisa pública como coisa sua, ainda que o termo mais apropriado seja cosa nostra? É compatível com a moral num pais com pacto federativo, que a coalização governante esprema, com retenção de verbas, as unidades federadas que não rezarem na sua cartilha? Faz sentido uma política baseada no ódio?

O gabarito com as respostas ainda não saiu.

O fato é que é difícil cumprir as exigências para ser ético, é preciso cultivar um refinado senso de decência. Já que ninguém se regenera lá dentro, o homem público deveria, a priori, ser honesto. A verdade é que a moral e, particularmente, a moralidade pública nunca teve os alicerces tão relativizados.

A palavra pula fácil da boca, ela é a bandeira, mas também o lugar onde os acusadores se enrolam. Bastardeada, a ética virou mote e agora a moda é bater no peito e dizer que nunca se locupletou, não recebeu denúncia e é sujeito exemplar. Está claro que a esquerda perdeu o rumo – a direita nunca o teve, mas também nunca disse que tinha — e ética passou a ser sinônimo de “fazer bem feito” independente das alianças e apropriações indevidas que se fez e se faz da coisa pública.

E quem fiscaliza os abusos? Decerto não será a recém demissionária comissão de ética da presidência da república. Há dois caminhos, aquele em curso, vale dizer, o que exige progressiva judicialização da política. Ou, o outro, exigir mais dos mecanismos democráticos como, por exemplo instituir “recall”, voto distrital, rediscutir a proporcionalidade no parlamento.

Sem novos ares o interesse em escolher representantes esmorece. Fez com que mais de 25 milhões de pessoas anulassem ou se abstivessem nesta última eleição. Fenômeno subestimado pelos analistas profissionais, mas talvez exatamente ai, a mensagem mais contundente do último pleito: estamos todos de saco cheio da mesmice, da farsa, da caretice, da farra. Não se trata de sacar nomes novos do colete como é a praxe do morubixaba que conta com a conivência e aplausos dos idólatras.

Estivemos por um fio de distância da hegemonia absoluta, e as instituições, reagindo à desconstrução, recuperaram a voz. Alentador, mas vamos controlar as ilusões. Só o fortalecimento da opinião pública, maior vigilância sobre o poder e uma mídia insubmissa, pode nos ajudar no longo aprendizado que é o treino do discernimento.

Provavelmente, a dimensão mais importante de toda essa discussão não esteja em julgar o mundo ou resgatar valores. Voltando para Aristóteles: afinal qual tipo de ação estamos exercendo uns sobre os outros?

Talvez haja uma premissa: ser ético é poder se enxergar!

Paulo Rosenbaum é médico e escritor, é autor de “A Verdade Lançada ao Solo” (Ed. Record)

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O discreto heroísmo dos independentes

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O discreto heroísmo dos independentes

O advento da democracia deveria ser uma festa onde escolheríamos aqueles destinados a ser frações das nossas vontades e desejos. Será?

O psicanalista Wilhelm Reich (1896-1957), mais um discípulo dissidente de Sigmund, escreveu “Escuta Zé Ninguém” um livro épico. Com uma linguagem accessível, o livro é uma aterrorizante seqüência de constatações sobre a realidade humana. Ele demonstra, com a sutileza de um guerreiro ensanguentado, que não temos jeito. A tendência política da maioria é escolher articulados heróis opressores que, em geral, se contrapõem aos autênticos libertadores românticos. Tomem o panorama eleitoral por testemunha e digam se o que foi grafado prescreveu!

A raiz da crise de autoridade e representação da contemporaneidade tem a ver com a percepção deste psicanalista. E o mundo eletrônico veio para embolar ainda mais o meio campo, já que o perfil dos heróis mudou radicalmente. O mito sempre se construiu na batuta do tempo, e eis uma escala que se modificou completamente. Com o alucinante tempo real das redes, os quinze minutos de fama de Andy Warhol se transformaram num pesadelo para as celebridades políticas. Foram todos condenados aos holofotes diuturnos. O púlpito caiu, junto com os palácios. O escancaramento da privacidade colocou todos, príncipes e pedestres, nús, e no mesmo recinto.

Na nuvem poluída de informação, trocas aleatórias das fontes, as imagens saltaram das telas para nos dominar. A intensidade é tão violenta e rápida que não seria surpresa que os pesquisadores do futuro constatassem epidemia de surtos psicóticos e distúrbios de comportamento induzidos pela simultaneidade de estímulos. Devidamente catalogada pelo Código Internacional de Doenças, a psicose midiática veio para ficar, e será instrumentalizada como o amado argumento dos regimes totalitários: o controle é saudável e a liberdade, nociva.

Mortos os heróis, o que hoje conta é o imediatismo com que conseguem se manter no alto da onda. Esqueçam trajetória, coerência e história pessoal e coloquem imagens fotogênicas, discurso padrão e capacidade de esquiva. Estão aí apresentadas as linhas gerais da nova moeda eleitoral.

Já que o executivo da Google foi em cana e o Jornal “O Estado De São Paulo” ainda encontra-se sob censura, vale levantar mais cedo para acompanhar os próximos capítulos da novela, que, desta vez, se passarão do lado de fora da rede Globo.

O governo argentino acaba de alavancar um pacote de leis contra o grupo editorial Clarin visando coibir aquilo que tem sido chamado de “monopólio de comunicação”. Vários analistas, intelectuais e toda oposição daquele Pais vem alertando para o significado inquietante do uso seletivo da justiça, com finalidade de controlar, se possível emudecer, as vozes criticas dos repórteres e articulistas que ali se manifestam.

Quando se conhece os detalhes da operação, enxerga-se que se trata de algo que supera muito o escândalo. O que está acontecendo com o vizinho do sul tem um nome bem menos charmoso: atentado contra a liberdade de expressão. Um governo popular e eleito tem direito de suprimir as liberdades civis? No entender do neopopismo da américa latina, sim! Não só o direito como um dever maior os chama.

Cabe ressaltar as dessemelhanças evidentes entre nós e los hermanos gringos, para além do futebol e qualidade do churrasco. Na Argentina os intelectuais andam, em sua maioria, escandalizados com o arrocho à liberdade. Ao modo deles gritam e esperneiam como podem.

Lá, há resistência crescente.

No caso brasileiro, o oposto. A exceção de cientistas sociais histriônicos coligados ao poder federal, insistindo na ridícula tese de golpe das elites, a maioria dos nossos intelectuais preferiu se omitir. Já passou da hora de encher as páginas apontando a Brasília atual como seguidora silenciosa do exemplo neo-peronista da dinastia Kirchner, inspirada por companheiros como Correa, Chavez e Evo.

A obsessão pelo controle da mídia é o primeiro mandamento, e mesmo a razão de ser, dos regimes autoritários, já que ela é o único e último respiro que sobrou à sociedade civil para denunciar abusos do poder. Para a sociedade, uma vez rebocado o oxigênio, resta submissão ou morte sob o dreno da imprensa subsidiada – e muito bem paga.

No fundo a raiz de tudo isso já estava lá, descrita por Reich. A mente autoritária “sabe melhor o que é bom para o povo” já que “nunca se fez tanto na história deste país”. Que se aplauda a diminuição das diferenças sociais com a mesma intensidade com que deveríamos vaiar as tentações totalitárias que governo e associados demonstram ter.

Pode ser que não haja imprensa completamente independente em lugar nenhum, mas se tem que haver um novo mito ele estará espalhado no discreto heroísmo das pessoas independentes. Elas é que sempre fizeram toda a diferença.

Paulo Rosenbaum é médico e escritor. É autor de “A Verdade lançada ao Solo”(Ed. Record)

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Sagração da intolerância

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Sagração da intolerância

A primavera chegou tarde demais. O mundo que conhecemos desintegra-se rápido. E desta vez, é mais do que um rito de passagem. Mudanças drásticas são eminentes e estão para acontecer. E o oriente médio está na linha de frente.

Ontem uma charge, hoje um filme provocador, amanhã propaganda picante e depois de amanhã, violência imotivada. As condições e predisposições dos manifestantes estão bem desenvolvidas. Nunca realmente precisaram de razões. O alimento desse ódio se chama pretexto. Infelizmente aquela região sempre foi uma latitude propicia para incendiários.

Meus amigos muçulmanos ficam divididos entre fidelidade e radicalizar a autocrítica. Eu sei, eles sabem e a maioria entende que o verdadeiro islã não tem nada a ver com o que os esses manifestantes demonstram, mas como desconstruir a imagem daqueles que partem para o pau, e midiaticamente dominantes, passam a representar todos?

Publicar charges ofensivas a uma religião, troçar de seitas ou atacar ícones espirituais pode ser considerada uma prática ridícula e coloca em cheque mais o mau gosto do que a tolerância. A paz que esperamos para a região requer comedimento, restrição e respeito mútuo.

O atual elemento bizarro é tentar estabelecer equivalência moral entre uma ofensa – mesmo grave – e os assassinatos epidêmicos que agora assaltam o oriente médio, África, e parte da Ásia.

O que seria do mundo se toda piada ou gozação se transformasse em ofensa, depredação, e morte? Judeus, americanos, religiões e etnias não são atacadas, ridiculizadas e expostas diariamente mundo afora? Inclusive ou especialmente nos jornais árabes, uma das mídias mais hostis ao mundo ocidental? Num mundo instantâneo as reações se cruzam: o crescimento da retórica xenófoba e islamofóbica na Europa coincide com a sagração da intolerância no mundo árabe.

É que esse tipo de jihadismo, assim como todo dogma, não tolera o contraditório, sendo uma espécie de parasitismo religioso que concentra nitroglicerina ao deformar a mensagem do islamismo, a fé autentica de 1,5 bilhão de pessoas. Mas sem que lideranças esclarecidas venham a público para confrontar estas perversões, as massas tendem a se tornar progressivamente ingovernáveis.
Já a parcela da esquerda que, estrategicamente silencia, – para vibrar em casa com vinho tinto — quando embaixadas ocidentais são queimadas, pessoas executadas e crimes são cometidos está, em uma palavra, alucinada. Imagina que a energia liberada pela loucura possa ser de grande serventia para a derrocada final do capitalismo.

Só se esquecem que intelectuais, mulheres e minorias sempre são os segundos nas listas de execução desses comitês revolucionários. Subestimar a capacidade de avanço do fundamentalismo é ignorar os riscos autoritários que essas sociedades representam para a liberdade. Aprendamos pois e fujamos de lugares que não sabem separar Estado e religião. Não que as democracias populistas e seus ecléticos partners estejam lá muito preocupadas com o que chamam de “decadentes valores burgueses”.

Perdeu-se a oportunidade de alguém dizer hoje na ONU que as nações jovens tem os mesmíssimos direitos que as longamente estabelecidas. Ora, o problema das nações transcendem o nacionalismo, barreiras alfandegarias e protecionismos. Não se constroem identidades por decurso de prazo. Os argumentos em defesa do direito da existência de Israel são tão bons como os de qualquer outra nação. O sinistro é que o Estado hebreu parece ser o único que tem esse direito abertamente questionado por aquilo que deveria ser uma assembleia de nações. Uma minoria tem ou não direito natural à vida? Parece que não. E por isso, exatamente por isso que judeus, palestinos, armênios, curdos, catalães, bascos, nepaleses e outras pessoas espalhadas pelo mundo buscam autodeterminação para tentar manter coesão e identidade como povo.

É vital não confundir tolerância com omissão. Tolerância favorece a vida, omissão mata. Pois é inquietante o desvelo com que a comunidade internacional vem encarando as ameaças diárias contra a existência da nação judaica patrocinada pelos apeudeutas do atual regime iraniano e associados.

Os físicos nucleares reconhecem que desarmar ogivas dá muito mais trabalho que criá-las. A escalada acontece quando ninguém quer retirar o dedo do gatilho.

Talvez o recolhimento, a meditação e o perdão possam amenizar os ruídos de guerra, mas, se não, valerá pelo presságio ingênuo que deveria nos dominar mais vezes.

Paulo Rosenbaum é médico e escritor. É autor de “A Verdade Lançada ao Solo”(Ed. Record)

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Sagração da intolerancia

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Poesia para a política

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Poesia para a política

Em joules, quanta energia torramos nos últimos tempos com desvios de verbas, corrupção, favorecimentos, informações privilegiadas, fraudes, impostos escorchantes, uso político da máquina, mentiras prudentes, juros campeões do mundo?

Não creio que seja possível mensurar em joules ou em qualquer outra escala física o tamanho da hemorragia que todas estas forças, juntas, representam. Elas esgotam e impedem o País de encontrar um jeito mais civilizado de avançar. Essas forças atuam como fantasmas, parasitas que assombram os rumos de quem quer viver em paz.

É verdade que o STF está dando uma demonstração de que as previsões do PT de que só os outros são desorganizados despencou ladeira abaixo. Não contavam com uma justiça que tardou, mas agiu, um promotor obstinado, uma sequencia de investigações que tinham cabeças, troncos e membros. Com as previsões de impunidade se dissipando alguma justiça recairá sobre quem tutelou os paus-mandados.

O espetáculo é página virada, o problema é o que faremos depois? No dia seguinte? Isso é o que importa. Até quando seremos platéia? Como não há uma discussão que ultrapasse o nível das torcidas organizadas e a crítica fica restrita aos circuitos acadêmicos cativos das ideologias, o perigo será a opinião pública, saciada pelas punições, voltar a colocar as barbas de molho. Essa é fórmula certa para repetir erros e vivermos de mensalão em mensalão.

Pois o que deveríamos tentar descobrir não será outra coisa? Não seria restituir a poesia da política? Quem ainda se digna à composição em que a atitude dos homens públicos é comandada pelo bem comum? Nós, o povo, queremos mais, de preferência gente decente. Mas quem pode falar de ética sem derrapar na demagogia ou afundar no senso comum?

Realismo, pragmatismo, socialismo, materialismo, liberalismo já tiveram sua vez e falharam. Já a poesia do mundo mora na construção de esperanças, não mais num discurso de coletividades anônimas. Ninguém mais se reconhece nessa generalização reducionista das novelas de TV e do discurso político. Para devolver um pouco de criatividade, estes cérebros sobrecarregados de interesses pessoais precisam de doses progressivas de resubjetivação. Políticos e agentes do poder deveriam ser obrigados à leitura de ficção como fez Jorge Amador com os policiais na cidade de Neza no México. Segundo ele, a leitura além dos benefícios éticos, “enriquece indiretamente as experiências das pessoas”.

Para nosso desespero sentimos que sai eleição entra eleição faltam políticos com projetos políticos de longo termo, que não se extinguem com mandatos. Afirma-se que isso é porque o Brasil só tem partidos fracos. Não me convence. Aliás, entre o centralismo partidário do planalto e a tese da geléia geral das agremiações fico com a segunda opção. Só ações transgovernamentais e suprapartidárias deveriam sustentar a vida pública. Quem sabe assim não tenhamos que amargar mais uma década sendo a sexta economia do mundo com saúde, educação e segurança dissonantes e com um IDH perto da ducentésima posição.

A prova que estamos retrocedendo é a recente instrumentalização da religião nas eleições para o cargo de prefeito em São Paulo, que ameaça se repetir País afora. Ela é grave porque evidencia que a separação entre Estado e religião tem ficado engavetada na didática constitucional.

Os trópicos são realmente tristes e não é um problema de latitude!

Isso até que o bem comum não seja mais uma quimera sonhada pelos habitantes e desprezada por quem faz política.

Paulo Rosenbaum é médico e escritor. É autor de “A Verdade lançada ao Solo” (Ed. Record)

Paulorosenbaum.wordpress.com

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http://www.jb.com.br/coisas-da-politica/noticias/2012/09/20/poesia-para-a-politica/