A máscara do establishment

Paulo Rosenbaum

17 março 2016 | 08:42

Podem me prender, processar, ou me enfiar num furgão preto chapa fria, mas não lutei contra o autoritarismo, junto com a família, para testemunhar isso. Entendia e compreendia a neutralidade de tantos. Também tenho amigos e ex-amigos que se calaram com medo de ofender quem ainda acreditava no projeto que ultraja a República. No entanto, ao contrario deles, não só é nosso dever criticar o Poder, como é previsível que, num futuro não muito distante, a maioria reconhecerá o equívoco. Mais do que isso, irão admitir, inclusive, que se o petismo degenerado tivesse sucesso na implementação do golpe totalitário, todos correriam risco, risco de nem poder mais emitir suas opiniões. Depois de obstaculizar a justiça, a liberdade seria o próximo alvo. Isso já seria um grande motivo para contestá-los, ou não? Hoje parece distante, mas, na época, estávamos todos colados, bem ao lado de uma ardilosa opressão silenciosa. Agora, tudo mudou. Todo sul do continente se cansou. A apropriação indevida, a justiça inconclusa, a probidade em público, a canalhice privada, as migalhas ofertadas, o populismo que subsidia, os parâmetros sem critério, as transgressões impossíveis, a impunidade naturalizada. Nesta análise não há moralismo, apenas consciência de que o predomínio é ilegítimo. A ilegalidade não merece mais ser tratada com neutralidade, nem distancia. O contraditório pode ser respeitado, a bizarra defesa de um Estado movido pelo crime, não. Aqueles que persistem em endossar perderão o rótulo de sonhadores, e já não podem ser poupados. Para obstruir, é preciso coragem. E a ousadia pode ser predatória. Mostram-se dentes sob a pauta do oportunismo. A constituição, pisoteada, sendo rasurada, com ou sem registros em latim. A Democracia que, ainda imatura não constituiu defesa eficiente contra as brechas autodestrutivas, pode, sem aviso prévio, sofrer avarias graves. Mecanismos regulatórios e as garantias individuais sobrevivem, e não pelo mérito deste governo. Um estado policial é um pesadelo. Paradoxalmente, o juiz Moro teve razões de sobra para cercar-se de evidencias forenses. Ou há alguma outra forma para controlar um regime que se fundamentou no registro do crime? Que o legalizou em troca do projeto? Antes que se abafem as instruções, a liberdade precisa coibir a tentação hegemônica. O monarca que sonha em destruir evidencias precisa ser afastado. Seus subalternos detidos. Seu poder ceifado. Sua sócia impedida. Antes fosse que o crime mais grave a posse do sítio, triplex ou objetos. Se a acusação fosse clara, a fraude seria usar a democracia para estilhaça-la. As instituições sôfregas, cambaleantes, ainda soluçam, ainda podem sangrar, a ferida seguirá contaminada. Contra um gigantesco aparelhamento exige-se minucioso desmonte. Pois as pessoas não apenas se cansaram: já mudaram os cânticos. Os tambores esticados, mas ainda não percutidos. Já as vozes, podem ser ouvidas à distância. Sabem o que mais? A civilidade se consumou diante do escárnio, do autoritarismo mascarado, dos beócios grampeados ao poder. Naqueles que se fixam, com ou sem foro privilegiado. Aliás, toda questão poderia se concentrar nesta única palavra. “Privilégio” afronta a equidade, o sentimento constitutivo da justiça. Mas quem enxerga isso? Pendurados às margem dos palácios eles precisam continuar, se acham no direito de persistir. Com aval de intelectuais comprometidos. Poderia ser um escândalo, mas trata-se de um planejamento mistificador. Uma técnica que paralisou oponentes. Que encheu de arrependimento a burguesia e amordaçou a sociedade. A popularidade sempre assombrou críticos e inibiu discordâncias. Afinal, dissidências tiram votos. Num sistema completamente imperfeito todos querem estar no orçamento. O veneno triunfou, por algum tempo. Colou em milhões por mais de uma década. Ocorre que o apego ao poder, tem seu espelho. Do outro lado comporta uma natureza explosiva, incontrolável, com potencia para inflamar os governados. E combustões se propagam. Mesmo aqueles que se deixaram abandonar à sedução de uma motivação idealista, hoje esvaziada de sentido, nem mesmo eles podem ignorar: de fato, o establishment hoje luta pela causa: causa própria.

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