O inexorável destino da arrogância

Paulo Rosenbaum

18 abril 2016 | 16:03

Não faz muito tempo. Na época vivíamos dias estranhos, torcíamos para que malandros destronassem sócios e ex-comparsas. Havia uma pseudo esquerda, que derrotada, chorava por uma antecipação nostálgica do que era só desejo de justiça social, aquela que nunca vigorou. Enquanto isso, uma direita obtusa comandava um espetáculo que nem lhe pertencia. Hoje, à distância do tempo, é difícil avaliar. Mas, a tragédia da experiência de poder daquele núcleo duro político, mesmo removido e posteriormente processado e preso, não mereceria comemoração. Açoitar a civilidade sem piedade costuma dar nisso. Somos forçados a escolhas que nem pedimos, nem entendemos. Mas é preciso impor particularidades. Não há normalidade alguma aceitar obstrução à justiça. Muitos diagnosticaram que aquele governo caiu pela soberba, o inexorável destino da arrogância.

Tudo começou há algumas décadas. Havia um sistema de castas. Políticos e personalidades tinham o que se chamava de “foro privilegiado” e os membros de um poder interferiam abertamente sobre os demais. A sociedade parecia hipnotizada pela culpa. Nenhum outro País ocidental tinha legislação tão benévola. Em nenhum outro rincão de mundo legislar em causa própria estava tão naturalizado. Todos diziam defender a democracia, que, como hoje sabemos, virou uma vaga noção polissêmica. Sem qualquer valor argumentativo. Ditadores e massas manipuladas os usavam abertamente para defender o que lhes conviesse. Somente em nossos dias soubemos também que nada teria sido fortuito. A brincadeira fiscal era um dos cernes do programa. O “exército industrial de burgueses desempregados” fazia parte essencial da arquitetura da desconstrução. Persistente e determinadamente a desorganização foi sendo sustentada e martelada nas cátedras, na mídia subsidiada, nas reuniões do Partido. Sob o lema já anacrônico na época — “destruir o sistema para reconstrui-los em outras bases” — as anti reformas eram impostas com tal facilidade que os agentes se diziam surpresos com a “mansidão incauta da maioria”. Os slogans se proliferavam para obstaculizar os debates. Com técnica e método tiveram êxito notável. Mitômanos e ingênuos, intelectuais e gente simples, era comum que todos aceitassem as armadilhas. Até que caíram na Rede. Bem que tentaram metamorfoses mudando de perfil, escondendo o currículo e a folha de serviços prestados. Alguns buscaram exílio, negados, pois não havia naqueles Países cláusulas de abrigo por crime comuns.

Alguém, a identidade correta sempre ficou indeterminada, teve a ideia inspirada em um velho livro. Penas alternativas não seriam suficientes para recuperar aquela parcela de políticos que cederam suas reputações aos crimes. Mesmo aqueles justificados como empréstimos para um bem maior. A cooptação e seu sinônimo mais conhecido, a corrupção tornava-se institucional. Era o preço a se pagar para fazer do jeito deles. Nas prisões comuns ou de segurança máxima ainda continuaram convictos em seus delitos. A pergunta que a sociedade se fazia à época era “por que a taxa de recuperação dessa gente é tão baixa?” Muito inferior do que a dos detentos comuns. Afinal, ali havia gente pouco educada, mas também aqueles que frequentaram escolas caras e pós graduados em grande centros do saber, nacionais e internacionais.  Estudos mostravam índices mínimos de recuperados e reintegrados à sociedade. Além disso, o cálculo para mantê-los permanentemente monitorados era um peso para o Estado. “As Cidades Reeducativas” surgiram como uma nova concepção. Só depois adotada por outros continentes. Nada mais dentro do espírito de uma nova formação do que condena-los a viver governados por eles mesmos. Estes presídios neo urbanos forjaram uma nova ideia de regeneração e um novíssimo conceito de reintegração social de agentes públicos. Banidos para sempre das funções administrativas para a sociedade, eram condenados a viver as vezes pela vida toda nestas cidades especiais. Gestores públicos devidamente protegidos, passaram a ser obrigados a estagiar lá. O objetivo era observar tudo que não deveria ser feito em gerenciamentos políticos. Um deles concedeu recentemente uma entrevista e sintetizou da seguinte maneira sua experiência: “Meu aprendizado lá foi ter percebido como eles enxergam a função do político. O surpreendente é que a maioria vê o Estado como um desvio de função. Me parece uma visão insanável. Falam sem parar. Repetem slogans incompreensíveis. Outros dedicam seus discursos à família mas não conseguem articular uma frase inteira. O mais estranho é que têm ideias preconcebidas sobre tudo e não aceitam outras formas de enxergar a administração pública. Um deles chegou a me dizer sem nenhum constrangimento — e isso me fez perceber quão perturbados eles ficaram nos anos nos quais reinaram — que “se a sociedade não pode existir do jeito que nós a concebemos, melhor que ela não exista”. Posso dizer que foi proveitoso e didático, só não piso mais ali, todos os estagiários voltaram com náuseas.”