04 março 2016 | 13:51

“Working class hero is something to be”

John Lennon

E agora Luiz? Você estava tranquilo. Nós não. Continuamos apreensivos. Volte aqui e converse. Também discordo. O momento não é de comemoração. Nesse momento, o trágico tem mais vigor que a esperança. Por favor, pode responder? Quem é herói da classe trabalhadora? Você? Lech Walesa? Não há nada muito claro? Por isso mesmo pergunto, suas prerrogativas são infalíveis? Nem heróis estão acima da lei. Talvez nem mesmo existam heróis. E mesmo que algum sobrevivesse, você poderia ter sido banido. Talvez um detalhe te interesse. Heróis são menos lembrados do que vilões. Você já parou para considerar? Não, de jeito nenhum, não é tarde, nunca foi tarde. Ninguém está te pedindo para voltar a ser o que o seu marketing ou os carismáticos te assopraram durante todos esses anos. Por um segundo pense nas pessoas traídas. Ou, quem sabe, mude o foco: observe quem está sofrendo mais. Não, não são só teus ex eleitores. Eu sei, eu sei, é só ligar a TV. De fato, ainda existem aqueles que te defendem. Isso, com unhas e dentes. Pense como o símbolo que você já foi. Uma parte sua, essa do símbolo, poderia estar a salvo, preservada. Não, não tem nada a ver com delação. Qual? Aquela que um homem simples, desculpe, tem razão, não se pode reduzir a isso. Correto. Um trabalhador. Então prossigo. Um trabalhador ter conquistado tanto apoio e estimulado o orgulho de milhões de outros. Messias do povo? Não, isso sempre foi exagero. E por sinal o Sr. não revolucionou nada. Poderia ter feito, mas não fez. Assim admito, a expressão “promovido algum bem” soa mais modesta. Sim, e por que não? Reconheço, é claro. Mas entenda, não é mais suficiente. Sua trajetória foi tortuosa, e, além disso, sua atitude Sr., contribuiu para nos levar a isso. O Sr., com a ajuda do seu partido nos forçou a uma inédita degradação. Não se trata dessa crise econômica. Por favor, agora estamos só nos dois. Não é externa, nem rápida. Passageira? Também não. O que preciso confessar é que ninguém queria a decadência. Ninguém queria mesmo é que a polícia e o judiciário ditassem os rumos. Certo? A oposição também precisa levar um pito. Vai levar. Qual seria então a degradação? Na cultura, nos costumes, no enaltecimento da ignorância. No País mais superficial e melancólico. O Sr. merece do bom e do melhor? Quem não merece? Engano seu. Não é moralismo burguês. Isso se chama “desejo de civilização” e não, nem adianta consultar o advogado. Sabe por que não está no código penal? Porque este é um desejo do espírito. Isso é mais uma evidencia do seu costume de desviar. Não está vendo nada de errado em ter recebido tanto em troca? Isso seria até perdoável. O que não seria? Romper a democracia e coagir o Estado. Perdão, isso não tem desculpa. Sua postura, caro, nos custou muito mais do que o saque da Petrobrás, do BNDES e dos fundos de pensão, que podem falir ou ser saneados. Prezado, entenda o seguinte: culto a personalidade costuma não dar certo. Sua ambição em ser maior do que o República nos custou a fragmentação da nação. Não, nem pensar, não vou parar agora. Os lados estão preparados, assim como o ambiente: a mini guerra civil agenciada dos devotos contra a convicção maniqueísta do outro. De que lado estou? De nenhum, ou melhor do lado de um outro tipo de Estado e de um outro padrão de democracia. Seu assessor concordou em irmos até o fim. Adaptar-se é uma coisa, apologia do crime outra. Seus porta-vozes, aquelas pessoas que, desesperadas, se sentiram na orfandade com seu exemplo? Sim, então por que no lugar de virar a mesa o Sr. não pensa por um minuto na República?

Ela sangra, mas por enquanto o torniquete bem aplicado resolve.

Ainda dá tempo. Ainda dá. Ainda.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/working-class-hero-e-agora-luiz/