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Novíssima República

Acredita-se que o primeiro passo para o surgimento de uma nova cultura deve ser ajusta-la à linguagem. Na linguagem de Gramsci, fonte de inspiração para fundamentalistas locais, a tática é promover o que ele classificava como “hegemonia cultural”. Todas as correntes políticas, com maior ou menor domínio teórico, buscaram essa perspectiva. Para conquistar o sucesso nessa empreitada seria vital o domínio do sistema educacional. Encaixa-lo, perverte-lo e impingi-lo para viabilizar o projeto. O modelo ajudou muitos tiranos conseguirem que sociedades inteiras fossem submetidas ao arbítrio, mesmo quando se imaginavam livres da ameaça. Foi assim que depois da queda do muro de Berlim a palavra “comunismo” foi sendo apagada dos partidos e discursos. É assim também com outras expressões como “antissionismo”, atualmente usada consensualmente por esquerda e direita para escamotear a judeofobia, associada ao comprometido termo antissemitismo, também fazem parte destes deslocamentos estratégicos para ocultar termos desgastados perante a opinião publica. Neste sentido, recomendo a leitura do artigo de Roger Cohen do NYT, “Um antissemitismo da esquerda” traduzida e reproduzida neste Estadão. (http://internacional.estadao.com.br/noticias/geral,um-antissemitismo-de-esquerda,10000020266)

A palavra “impostos” é outra que tende a ser suprimida dos léxicos para dar lugar a “contribuição”. Afinal, contribuir, além de soar melhor, reveste-se da aura de espontaneidade participativa com que o Estado precisa contar para enfiar a mão no bolso dos contribuintes. O famoso conceito de Marx  “luta de classes” também foi se dissipando no caldo ralo de expressões como “justiça social” e “isonomia econômica”. “Nós e eles” substituiu com maestria o”ricos contra pobres” pois, sob o manto do sujeito indefinido “nós e eles” podem ser quaisquer agentes sociais, além de sugerir uma proximidade empática com o “nós” contra um distanciamento calculista do “eles”. Substituir terminologias e conservar, na maioria das vezes, o mesmíssimo conceito; para muitas dessas dissonâncias, dá-se o nome equivoco de politicamente correto.

Assim, no Brasil atual, também existem concepções que são muito peculiares ao universo lulopetista e a todos aqueles que vem se destacando na defesa desse governo terminal. Contornar expressões que impactam o senso comum, distorcer condições e contextos e coloca-las sob suspeita é uma espécie de exercício de engano sistemático. Esse é o plano B, já que quase todas as apostas autocráticas malograram enquanto o partido afunda no mal feito movediço gerado pelo desejo de poder. O abuso destes recursos, que adulteram o sentido, e distorcem os procedimentos democráticos se tornaram a estratégia predominante da atual gestão federal: apropriação indébita está sujeita a neo conotação “projeto social”. É possível que liberdade de expressão passe a significar controle da imprensa com censura. Democracia deve ser sinônimo de hegemonia do partido. Todos são iguais perante a lei parece ter sido igualado a “companheiros investigados merecem inimputabilidade ou ministério”. Condução coercitiva pode significar violação do Estado Democrático de Direito. Investigação parece ser sinônimo de abandono da presunção de inocência. E finalmente a grande sacada: seguir a constituição é golpe.

Quando lamurias generalizadas fazem o coro de que nos faltam lideranças criveis, estamos apenas endossando a busca inconsciente por personalidades magnânimas, quando já deveria estar evidente o desastre quando se trata de idolatrar caudilhos populistas, elegendo seus satélites e postes. O hiato de poder que temos pela frente é temerário, mas, comparado com o status da ocupação atual, que venha o vácuo. Apenas a maturidade da própria sociedade proporcionaria o nascimento de lideranças consistentes e não personalistas. Em 13 anos a confiança cedeu lugar a um brutal ceticismo, onde a palavra dos que nos governam não tem mais nenhum valor, salvo uma interpretação reversa. A passagem da indução subliminar para a explicitação da beligerância por parte daqueles que estão prestes a deixar o poder não deveria nos espantar. Espantoso mesmo é a passividade com que a aceitamos. De forma irreversível, e contra a marcha do autoritarismo que quase nos empareda por inteiro, as instituições avançam junto com a população.  Se os agrupamentos intolerantes desejam levar a estratégica às ultimas consequências terão que re-pactuar toda a linguagem. Sugiro que publiquem um glossário próprio, para uso exclusivo entre quatro paredes, dentro e fora dos bivaques que frequentam. O importante é que depois de todas as dores deste prolongado parto, o próximo domingo está prestes a dar a luz. Nascerá forte e será uma menina, Novíssima República.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/novíssima-republica/

 

 

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