Crédito foto Lyslei Nascimento

Encontro do BRASA (XIV – Congresso Internacional da Associação de Estudos Brasileiros no tema “Textualidade Judaicas na Literatura Brasileira – O Ofício do Escritor) Evento que foi realizado na PUC-RJ de 26 a 29 de julho de 2018. A organização ficou ao encargo das Professoras Lyslei Nascimento, Nancy Rosenchan e Regina Igel. Na mesa de depoimentos de escritores brasileiros da qual fiz parte, também participaram Leila Danziger, Ronaldo Wrobel. Luis Krausz, Fábio Weintraub e Lucius de Mello (sequencia na foto da esquerda para direita) A reflexão sobre o Shoah (Holocausto), o aculturamento, a assimilação, o processo criativo e o papel da memória nos vários autores analisados foram os temas centrais desta e das demais mesas. Aqui transcrevo a segunda parte do conteúdo relacionado à minha participação como uma contribuição para que o diálogo seja ampliado e prossiga vivo. Comentários e compartilhamentos serão muito bem-vindos.

Parte 2

Criatividade

A Verdade Lançada ao solo

O que é um escritor?

Alguém que aspira a imortalidade e que, de antemão, sabe que a continuidade indefinida nunca esteve ao seu alcance. Um escritor é portanto um discriminador. Aquele que escolhe – ou está condenado a – viver discriminando palavras, impulsionado a sacrificar algumas em detrimento de outras através do filtro das idiossincrasias. Trata-se de um processo sôfrego. Não há glamour no processo, ainda que o produto final tenha lá alguma potencia para gerar prazer. Então o deleite é estético? Provavelmente narcísico. A vaidade de ter logrado a correta justaposição, o encaixe da palavra certa. O termo “verdade lançada ao solo” (Extraído de um passuk- passagem da Torah, o Pentatêuco, o conjunto dos cinco livros na tradição judaica) refere-se às elaborações e instruções que se hoje se encontram espalhadas pela Terra, e cuja tarefa humana é decodifica-las: qual é o significado das tradições? Como a morte, os mortos e suas memórias entram em nossas vidas? A experiência mística é um estado transmissível? O que é ser justo?

Para Paul Ricoeur “só há um jeito certo de dizer as coisas” mas o escritor não as elege por necessidade ou imposição. A eleição não passa de um capricho. O autor educa-se a duvidar de todas as identidades. Vale dizer, precisa reconstruir-se através de identidades emprestadas: ids alheios, egos em processos de diluição, e neutralização de superegos desfocados. Nem ousem pensar em harmonia. Por mais elaborado que seja seu constructo, todo reino de palavras encontra-se em potencia. Empilhadas.. Desequilibradas. Soldadas por um único pino. E a pilha, é, sempre, bem mais alta do que gostaríamos de admitir. Da potencia ao ato é uma longa distância.

Como reconstituir uma história?

Ninguém precisa ser erudito em letras ou ter pós graduação para executar um romance. Seria aconselhável ter sido um bom leitor, cinéfilo, colecionador ou simplesmente alguém que valorize um readymade. Na verdade, seria um grande aborrecimento aos leitores se, em algum momento, todos os escritores fossem grandes teóricos ou expertocratas em literatura. Precisa antes ser alguém que desmonte e monte a realidade em faixas dimensionais superpostas, porém distintas. Ainda que uma efeméride possa ser motivação para um poema, ela pode não ser suficiente para a construção ficcional. Alguns pensam em algo trivial, outros no arrebatador, eu só penso que o texto é quem nos guia na tarefa de construção das ideias.

A crise do narrador é, sobretudo, a confusão entre narrativa e a imaginação. A saber, uma narração está no contexto de uma saga descritiva, o romance no retorno à subjetividade, o sujeito no centro da história, a realidade subscrita pelo contexto dos processos imaginários, da memória a serviço da invenção, não o contrario.

Seria agora o momento propício para esclarecer a qual escola pertenço? Quando se sabe essa resposta o leitmotiv para criar pode já estar cindido. Sei, por experiência, que a cizânia que o autor comporta, foi/está erigida sobre dor. A dor de saber que jamais se reagrupará completamente, sob pena de perder sua liberdade criadora. A cura para a fragmentação, seria, paradoxalmente, também o fim dos atores em um romance. Em seu complexo de onipotência, o escritor, mesmo desconfiando, acaba dando fé e até incorporando a onisciência de seus personagens. O problema é que eles são critica e paradoxalmente incompletos. Desumanamente parciais. O contraste é evidente: o personagem protagonista de uma ficção deve fazer o leitor entender que não existe uma totalidade totalizante. Ao mesmo tempo deve inspirar compaixão, identidade, empatia ou aversão. O que se sabe é que até hoje nem um único átimo da vida de um sujeito foi jamais integralmente capturado pelas letras.

É neste sentido que o escritor que tem aspirações universais e se vê as voltas com os limites interpostos, sofre. Dos obstáculos na linguagem ao cerceamento de temas da pauta imposto por demandas externas que acabam enquadrando suas pretensões. O escritor deseja imortalidade pensando em obter eternidade. É deste blefe, desta impossibilidade auto-evidente, e desta natureza improvável que se alimenta a verve literária. Mas a casta que a atual safra produziu está mais concentrada em roteiros para TV do que em textos ou palavras. E os critérios de beleza estão em crise, encontram-se mesmo em ampla dissipação. Enquanto isso o vídeo (e o horário eleitoral subsidiado) substitui trágica e lentamente a tradição da escuta. Por isso, talvez, hoje, faria sentido que a literatura se aproximasse mais da música do que do cinema. Entretanto, apontar para tantas debilidades só fortalece a necessidade de que o escritor faça prevalecer seu mundo interior, e ali, obrigar-se à exercitar sua perplexidade e seu espanto.

O momento zero: estranhar-se

O primeiro momento de um escritor é estranhar-se. Não é só assumir o quanto ele oscila e hesita. Estranhar-se no sentido curioso do termo: de fato impressionar-se com o vasto do esconhecido do si mesmo. Entender, como na ciência, que o mais extenso em você mesmo é o quanto você se desconhece. O desconhecido que não é nem autoconsciente nem dominável. Isso significa que escrever exige expor-se às imprevisibilidades:”Pegar em armas contra o mar de calamidades” na boca de Hamlet. Não consentir resignadamente o absurdo quotidiano que nos embebe. Em oposição a tudo e todos é urgente recriar hipóteses contra-intuitivas.

Escrever é, sobretudo, um ato antissocial. E esta liturgia desnecessária só é possível num registro que se oponha a uma certa concepção de cultura e lógica social. Tanto faz no que o escritor acredita, na causa que milita, se apoia um conservador truculento ou é adepto de um autentico pseudo-altruísta, o que importa é o grau de compromisso que ele tem com o que escreve.

As concessões eventuais de qualquer escritor não estão no sistema de notação que ele adota, nem mesmo em sua filiação à uma escola de pensamento, mas na capacidade de levar o leitor a ter, sob o domínio do texto, a ter e recriar suas próprias experiências. Sempre será uma mistura de vidas. A hermenêutica filosófica define bem através dos conceitos de autoformação: entender o processo através do qual você conhece o mundo. A militância dos escritores é tão reducionista e desimportante quanto por exemplo, a sua preferência por isolamente e alienação.

Isaac Bashevis Singer escreveu que se houvesse uma síntese para a missão do escritor seria criar suspense através da hesitação”. Em seu ”Memórias do Exilio” afirma com insistência de que a mobilização do leitor se dá pela tensão, e, nas palavras de James Wood, Milan Kundera reforça a perspectiva do impasse. Quem consultar o significado analógico tanto de “suspense” como de “hesitação” perceberá que ambos recaem na palavra “curiosidade”. Primeira acepção do Etymological Oxford Dictionary – inquisitive – curious – busy – Do Latim Curious – careful – Francis Bacon usa curiosidade no sentido de “trabalho elaborado”. A arte de cativar o leitor, não mais para seduzi-lo à determinada visão de mundo, mas para coopta-lo para “uma clínica da trama”. Portanto toda hesitação responde por uma perplexidade induzida: despertar a curiosidade através do afastamento das repetitivas mensagens do senso comum. Para romper este código é preciso contar com a paciência, no sentido cronológico do termo. Muito provavelmente a maioria dos autores terá apenas reconhecimento póstumo.

A tão aspirada cumplicidade, porém, não poderia ser construída pelo estilo, fortuna crítica, prêmios angariados, ou simplicidade com que o autor se expressa, mas através da marca idiossincrásica presente no fluxo de consciência, esta manifestação muito particular, que faz migrar conteúdos do escritor diretamente para a mente do leitor.

Continua.