• Uma entrevista sobre Verdades e Solos
  • Resenha de “Céu Subterrâneo” no Jornal da USP
  • A verdade lançada ao solo, de Paulo Rosenbaum. Rio de Janeiro: Editora Record, 2010. Por Regina Igel / University of Maryland, College Park
  • Resenha de “Céu Subterrâneo” por Reuven Faingold (Estadão)
  • Escritor de deserto – Céu Subterrâneo (Estadão)
  • A inconcebível Jerusalém (Estadão)
  • O midrash brasileiro “Céu subterrâneo”[1], o sefer de “A Verdade ao Solo” e o reino das diáforas de “A Pele que nos Divide”.(Blog Estadão)

Paulo Rosenbaum

~ Escritor e Médico Writer and physician

Paulo Rosenbaum

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A teia e o enredo (Estadão)

13 sábado abr 2019

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A teia e o enredo

A teia e o enredo

Paulo Rosenbaum

27 março 2016 | 10:27

“Nem sei mais se são os tempos ou os contra tempos. Sei que pago o preço, o preço do meu bem estar ter se fixado na contra mão de outros com excessivo poder. Processo histórico, preâmbulo revolucionário, estado estável insuportável? Estamos todos num só barco imaginando como e quando o mar nos dividirá. Mas, e se nos descobríssemos embarcações mais fortes daquelas à deriva? E se a constituição não fosse apenas um joguete hermenêutico nas bocas da corte? Não posso culpar ninguém. Minha decisão era só minha e atingiu um estado incontornável.  Mas há ou houve algum suporte coletivo que poderia ter evitado esse desfecho trágico? Até isso ficou para trás. Neste confinamento que já dura meses (nessa escuridão perdi a noção do tempo) essas são as últimas palavras de um juízo que, não tarda, será extinto, infelizmente pela violência, não da maioria que exigia ser emancipada, mas por força da truculência, da chantagem, do medo e das armas. Se alguém puder ter acesso a isso adiante afirmo que  não esmoreço, não esmorecerei. Se vou ser silenciado que seja diante deste protesto, cujo deslacre pertence ao futuro. Admito ter extrapolado limites em alguns momentos mas  ainda” (O bilhete termina abruptamente)

Esse bilhete manuscrito foi achado há apenas seis meses, enterrado na cela secreta número 13. Encontrado numa província ao Sul do Lago, deve ter sido escrito alguns dias antes da acusação de alta traição. Sua datação exata é imprecisa por conta dos incêndios que se seguiram aquilo que hoje conhecemos como o Verdadeiro Golpe. Na época, ainda era tática usada para confundir a opinião pública. Era prática comum daquela agremiação acusar de golpe as forças constitucionalistas, para, então aplicar sua própria modalidade de exceção. As forças da Usul e os blindados assumiram posições em vários estados da federação. Isso foi um pouco antes da caminhada dos 50 milhões, oficialmente a maior concentração pacifica de civis já registrada no planeta. No dia 08 de julho as tropas nacionais, em desavença, se viram frente a frente, contra e a favor do governo, já declarado ilegítimo por praticamente todas as instituições. A operação “Iludir-Frust” desencadeada pelo poder prestes a cair, foi marcada pelo silenciamento da mídia, suspensão dos direitos civis, e toque de recolher em cidades com mais de 100 mil habitantes. Ninguém respeitou. A ameaça de uma conflagração civil fratricida tornava-se eminente. No dia 09 de julho a ordem transmitida em castelhano e ouvida pelos dois lados para “bombardear las fuerzas contra-revolucionarias” deram o alerta e foram também desrespeitadas. Foi somente no dia 10 daquele mesmo julho, com o avanço de tanques e colunas de infantaria vinda das fronteiras do oeste e de cima que o exército de Trasio foi reunificado, e  ainda que salva de tiros e escaramuças tenham sido reportadas em várias localidades, assim como esporádicos choques entre civis, nenhuma gota de sangue foi derramada. Numa estranha e rápida reviravolta, menos de 36 horas a tropa, reunificada e a agressão externa foi rechaçada, e os invasores foram presos e escoltados para além dos limites da cordilheira.

Surpreende que tudo isso tenha chegado a este ponto e tenha acontecido numa escala e volume de desvios inimagináveis. Desde o fim da guerra fria não se testemunhava um Estado dominado por cúpula tão habilidosa na arte de deslegitimar a democracia. Tudo isso aconteceu um pouco antes dos anos 20. Trasio havia sido controlada por uma espécie de poder paralelo que instaurou políticas fiscais autodestrutivas. Praticamente todas as instituições precisaram ajoelhar-se diante do alcance e poder do Estado que prosperava sem oferecer praticamente nenhuma emancipação real — de renda ou autonomia — para seus súditos. Entretanto, como negócio privado dentro do Estado fora um plano considerado bem próximo da perfeição. Sem os acasos e imponderáveis que desfiaram a teia e o enredo, estima-se que talvez tivesse durado mais 50 anos.

Nesta primeira aula de História da Administração do século XXI, disciplina oferecida por esta Universidade em português e inglês, nosso objetivo não é o julgamento do passado, apenas oferecer elementos para interpretar o que realmente aconteceu em Trasio nos últimos 30 anos.

Sob um consenso nunca antes registrado na história contemporânea das nações, a caminhada teve inicio e apoio maciço. O governo, que já comemorava a vitória soube da reunificação das tropas e do avanço da FRP. O Poder foi sendo sitiado pelas multidões organizadas pela FRP (Forças da Resistência Pacifica) que fluíram de todas as regiões até a cidade de Ilia. Cercada, a cúpula tentou então destruir os documentos da “pasta L”, as mais graves evidências documentais, a essência do material incriminador. Em meio a situação ainda ouvia coros desestimulando a renuncia. Em seguida, a chefe, pessoalmente, tentou transporte junto às companhias de helicópteros. O objetivo de curtíssimo prazo era deixar o Altiplano para buscar exílio no País do meio, mas mesmo as embaixadas consideradas amigas foram instruídas a acionar suas secretarias eletrônicas. Como ninguém mais os atendesse, recorreram às milícias acampadas nos arredores do palácio quando se descobriu que as barracas já haviam sido abandonadas. Já que os motoristas e serviçais também haviam sumido, recorreram às bicicletas. Com disfarces improvisados chegaram até a Esplanada de Ilia, mas foram alcançados por populares antes de chegar ao aeroporto onde haviam combinado sequestrar um Boeing 727. Presos pelos civis foram entregues às tropas e seguiram diretamente para a província do Sul. Quando lá chegaram, com garantias de amplo direito de defesa, foram julgados e condenados por crimes contra a humanidade. A ex chefe saiu sob liberdade condicional em 2030 e alguns anos depois ainda tentou, em vão, se eleger vereadora de uma cidade pequena no extremo sul.O tal bilhete, perdido por quase 20 anos, e recém resgatado, ficou sob poder do novo Tribunal. Desde as reformas dos anos 30 que corrigiram quase todas as distorções ideológicas — do ensino à política —  foram inseridas importantes novas cláusulas para evitar a repetição de uma hegemonia quase perfeita que se instalou na distante República de Trasio. Radicais e populistas de direita e de esquerda foram varridos pelas urnas. Na nova constituição, itens pétreos foram instaladas como salvaguardas estritas contra qualquer tentativa de poder hegemônico. As instituições judiciárias agora poderiam se manter incólumes às pressões, e, protegidas de qualquer ativismo. Doravante, seriam eleitas a partir de listas elaboradas pelo próprio poder judiciário. O novíssimo congresso de Trasio também foi consequência direta daqueles dias turbulentos. Os empresários e suas mega corporações, então condenadas, tiveram que repatriar recursos e suas penas foram substituídas por serviços prestados ao Estado supervisionadas por comissões especiais eleitas pela sociedade. Com a reforma do sistema penal, prisões foram esvaziadas e a violência sofreu inédita diminuição. A infraestrutura que Trasio tem hoje, uma das mais eficientes do mundo, fora também um dividendo direto da ação dessa supervisão praticada por toda a sociedade. Com impostos diminutos, justos e descentralizados a sonegação passou a ser mínima. As disparidades sociais não apenas foram mitigadas como Trasio pulou à condição de 3a economia do mundo (e não a falsa sétima posição, alavancada por influencia do partido) com um planejamento original e completamente renovado.

O que eu acho? A renuncia poderia ter sido um último ato com alguma força e dignidade, e não de covardia. Imagino que vocês queiram saber o nome do autor do bilhete? Pois afirmo que hoje o nome não importa.  Depois de ser resgatado do cárcere de um porão na península próxima ao Lago Sudoeste, ele preferiu apartar-se da vida pública. Escolheu passar seus anos no convívio com a família ainda que seu nome continuasse por décadas na lista de prováveis candidatos à primeiro ministro. Nunca mais se ouviu falar do ex-chefe daquela República. Suspeita-se que, fugitivo, tenha conseguido deixar Trasio, e, sob uma plástica mal sucedida, mas suficientemente desfigurante, tenha vivido e morrido no anonimato numa distante província da Coreia do Norte.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/a-teia-e-o-enredo/

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As respostas estão no subsolo (Estadão)

13 sábado abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos, céu subterrâneo, Livros publicados, Na Mídia

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céu subterrâneo, Editora Perspectiva

AS RESPOSTAS ESTÃO NO SUBSOLO

Novo romance de Paulo Rosenbaum promete entregar respostas e mistérios da origem comum aos seres humanos. Elas não estão no céu que nos protege, mas no subterrâneo que nos sustenta.

Em Céu Subterrâneo, novo romance de Paulo Rosenbaum, a sensação labiríntica de risco e desconcerto infiltram-se pelas páginas e dominam a saga de Adam Mondale, colecionador de câmeras antigas, possuidor de uma córnea defectiva, aspirante a escritor e judeu laico. Em sua personalidade plural e interesse particular, Mondale é regido pelos mistérios que envolvem um antigo e irrecuperável negativo fotográfico, que carrega em si o insuperável da condição humana.

 

Ao receber uma bolsa literária, Adam Mondale embarca no último vôo noturno para Jerusalém, a fim de desvendar os mistérios de um antigo negativo fotográfico. Através de linguagem simples e envolvente, Céu Subterrâneo propõe uma visão crítica das sociedades atuais, divididas entre a exigência de uma racionalidade laica e o apelo da tradição, inclusive religiosa. De formação acadêmica laica, Rosenbaum apresenta em forma de romance, um texto que se equilibra entre ensaio e declaração de princípios, no eterno jogo entre razão, subconsciente e valores sociais.

 

Desci do carro cheio de pressentimentos. Um cheiro me acompanhava na descida. Estava impregnado, mas não sabia se vinha do motorista, da rua, de um incenso ou de uma especiaria esmagada no chão. Saí do carro me arrastando instável e cheio de malas, mochila e sacolas. Sozinho, parei para olhar a viatura branca se distanciando na madrugada. O trajeto já indicava temperaturas de inverno, mas tudo só se confirmou quando parei para respirar fundo. Aquela noite gélida, escura, tinha textura. Do céu roxo gotejava aquilo que os ingleses chamam de freezing rain, gotas intermitentes que transitam entre chuva, neve e garoa. Temi pela região deserta, pelo rigor mortis da quadra, pelo esconderijo do apartamento.
“Qual prédio?”
Minha residência parecia abandonada. Só uma janela acesa no terceiro piso num prédio de quatro andares.
“Ops. Mas aluguei um apartamento no oitavo andar!”
Em todo caso, ignorei o desconforto e caminhei em direção ao here arrastando a mala.
Chamou minha atenção o letreiro de jade do muro que parecia uma lápide do século XIX.
“Montefiore Testemunhals”
Tomei coragem e entrei na viela, desequilibrado pelo piso de pedras irregulares.
Fixei-me então nas calçadas com aqueles blocos enormes: as mãos do arquiteto Herodes estavam por toda parte. A escuridão esfumaçada da neblina retinha o toque noir. Uma sensação às costas indicava que eu estava sendo seguido de perto. De vez em quando eu olhava para trás, mas não surpreendia ninguém.

https://editoraperspectivablog.wordpress.com/2016/04/29/as-respostas-estao-no-subsolo/

http://www.editoraperspectiva.com.br/index.php?apg=cat&npr=1094&uid=05062016145628176070148200

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Os horizontes do justo (Estadão)

13 sábado abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos, Na Mídia

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Benoni, justiça, O Intermediário, significado de justiça, tzadik

Os horizontes do justo

Paulo Rosenbaum

04 julho 2016 | 11:56

Discordo, e não é só para contrariar o bom humor com que o notável Mario Vargas Lhosa finalizou sua coluna neste Estadão sobre os justos de Israel. Pelo que se vem falando sobre os dilemas contemporâneos de Israel — implicitamente ligado ao shoah e ao destino do povo judeu — o leitor corre o risco de imaginar que tudo pode ser condensado aquele único horizonte. Opressor contra vítima. Dominador e dominado. Segregador e segregado. Destarte, o mais estranho tem sido observar a redução de um conceito muito caro à humanidade — como é o caso do “justo de Israel” — ao guerreiro que se autodenuncia, o combatente que recusa a violência ou o homem que renega, por questões morais, toda hostilidade cometida por sua própria tribo. Justo tem sua raiz na palavra hebraica tzadik que por sua vez deriva da palavra tzedaká, cuja tradução apenas aproximada seria “caridade”. A estas características seria bom acrescentar outras, talvez mais relevantes, decerto mais próximas do conceito original. Ao menos estabelecer uma equivalência analógica. Há um conceito ampliado do justo de Israel,  pois há também o justo das Nações: é aquele que se aproxima da santidade. Aqui tomada menos em sua conotação transcendente, mas como sujeito que consegue atingir um estágio de conhecimento e separação que  o habilita a estabelecer um julgamento quase perfeito. São tão poucos e raros aqueles que logram alcançar este patamar que a axiologia foi obrigada a criar a categoria de “intermediário”. Uma espécie de pessoa que, incessantemente, busca a justiça — abarcando também o bastardizado conceito de “justiça social” — mas que, muito provavelmente, não a alcançará. Ao menos através de um modo acabado e idealizado.  Já o justo, de acordo com os critérios da hermenêutica é aquele que atinge o grau máximo de discernimento. Grau que nem sem sempre está de acordo com o que anuncia o senso comum. Esta é uma peculiaridade muito própria do justo; estar oculto e ser minoria entre as minorias. Por sua vez, o justo, quando chamado manifesta-se por inteiro, a contrapelo, enquanto outros preferem esconder-se na maré do senso comum. Nesta acepção, o justo sempre buscará a paz, sem no entanto desfazer-se do direito à existência e, principalmente, sem renunciar à autodefesa. O justo também não é nem um traidor nem alguém que se dispõe à autoimolação. De que valeria um justo sacrificar-se ofendendo as próprias balizas éticas? Um equânime que serviria apenas para o endosso de uma violência que não se cala? Israel não é um mar de rosas, muito menos um lugar perfeito. Se a opressão não é justiça, ceifar a vida de inocentes com ataques terroristas menos ainda. Se a ocupação é condenável e uma política colonialista um pesadelo, a resposta jamais será a prescrição de esfaqueamentos aleatórios. Há uma importante distorção na análise da desproporção. Disputas territoriais e questões étnicas tem sido cooptadas como uma causa que vitimiza apenas um lado. O supostamente mais fraco e indefeso. A tragédia, e ela existe, é sempre bilateral. Teorias socio-psicologicas se esforçam para explicar a preferência pelos fracos e indefesos contra a potencia que subjuga. Mas, uma vez conhecidas, eles não pode servir para endossar o álibi da demonização branca de toda uma sociedade. Há uma critica que oculta, sob o manto do discurso da igualdade, um viés repleto de preconceitos. Se o sionismo demanda ressignificação, isso nada tem a ver com as acusações genéricas e pouco fundamentadas que vem dominando a intelligentsia internacional e fomentando a irresponsavelmente a globalização da judeofobia. O discernimento e a honestidade intelectual exigem colocar as coisas nos seus devidos lugares. Uma delas é separar os elementos para analise impedindo a aglutinação que generaliza uma condição particular. Só um Estado com altíssimo grau de consciência permitiria que militares insatisfeitos deponham contra este mesmo Estado, e ainda sejam protegidos em seus direitos pela Suprema Corte, ainda que com algum grau de censura. Deste modo, o “justo de Israel” pode nem mesmo ser uma pessoa. Não sendo uma personalidade, o justo não deve estar onde se supõe que esteja. Pode estar encarnado numa entidade abstrata, numa consciência com grande impacto na realidade. Pode estar exatamente na natureza ímpar de um País que permite que todos, incluindo jornalistas e ex-militares insatisfeitos, possam se expressar. Isso é justo. Mais do que justo.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/os-horizontes-do-justo/#

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Derrota na cultura do êxito (Estadão)

13 sábado abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos, Na Mídia

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Cultura do êxito, Jogos olimpicos

Admito que fui ver uma sessão de aletismo dos jogos olímpicos. Precisava testemunhar e sobretudo arriscar uma interpretação para um fascinio o qual a princípio me sensibiliza mais pela perplexidade que pelo encantamento. Um aspecto que merece atenção neste revival repaginado do antigo ritualismo grego: quais as finalidades e significados destas reuniões?. Supremacia do corpo? Filosofia da superação? Bem nessa fase no qual os aspectos esteticos convencionais, os critérios eticos e a propria cultura apolinea estão oscilantes ou sob suspeita?

Destarte, o mais incrível e não menos determinante, parece ser a imaginação dos atletas. Observem como as moças  do salto em altura simulam os voos antes do impulso para superar marcas improváveis. Os nadadores encaram as raias das piscinas como imas unidirecionais. Os lançadores antecipam a rota e as vibracoes do disco e do martelo. Aa esgrimistas cogitam esquivas radicais e estocadas clarividentes. Os lutadores derrubam oponentes, muito antes do desenrolar da contenda. As tenistas empurram mentalmente a bola em linhas diagonais ou paralelas em simulações permanentes. Frequentemente.  balançam as cabecas para torcer ou intuir trajetórias possiveis, fazem gestos repetitivos, obedecem suas superstições, emulam confiança, sonham com o palanque absoluto.

E quanto a derrota? É preciso analisar o símbolo e sua fisiologia. É fundamental penetrar na fenomenologia para bem além da representação dos estados nacionais e do aparente pretexto para exeecitar o assim chamado espírito olimpico. Ninguém mais pode aderir incondicionalmente ao ideário de que o que importa é competir independentemente do resultado. A dor e a humilhação, o esforco invencivel, o suor que marca a exaustão este conjunto de trabalho e esforço impõem-se como simbolos majoritários. O orgulho e a hubris reservados para uma minúscula elite da apreciação de herois hipertrofiados, ultra-habilidosos, ou talentos que viram da resistência psico- fisica.

Essas categorias jà estão auto consagradas na cultura do êxito. O que realmente interessa esmiuçar é o valor inverso. O perdedor. Aquele que se contunde. A derrota é que é o grande tabu, A desonra reservada aos sofredores  sem medalhas que serão ultrapassados.  Aqueles que superados ,fracassam. A competição que esmaga os que foram menos treinados e financiados. Ou aqueles que encontram-se dopados para alavancar propagandas politico comerciais. Decerto existe algo mais grave e me limito a mencionar :a naturalização do conceito de que , para alguns, não haverá equidade.  Como foram os casos testemunhei, isolados, mas contundentes. Um atleta negro foi ofendido,  um judoca egípcio recusou-se dar a mão ao seu adversário judeu. O constrangedor silêncio do COI significa que alguns podem ser discriminados sem maiores consequencias para a honra do esporte e em benefício dos patrocinadores.

Todos sabem que o esporte profissional tem um lado obscuro, mas o que interessa mesmo é o apelo à perfeição o triunfo indiscriminado da performance.

Ainda assim quem poderá negar que é belo, notável e admirável.? A duvida não é outra? Será bom? Uma prioridade? Os músculos exatos, a massa magra, a oxigenação extra podem não significar exatamwnte o que o senso comum imagina. Como já previa Hipócrates (aforismo 3, primeira seção) os maratonistas ou hiperatletas, por exemplo, estão mais sujeitos à morte súbita que os não atletas. Aforismo comprovado só muito recentemente pela medicina contemporânea

Performances e records não valem saúde, nem super treinamento significa neccessariamente boa forma e longevidade. Mesmo assim, e apesar de tudo, quem controla nosso potencial de envolvimento? O saldo final vai contra a intuição. Permanecemos emocionados com essa vertigem coletiva hipnótica chamada Olimpíada

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/derrota-na-cultura-do-exito/

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A derrota da cultura do êxito (Estadão)

13 sábado abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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A derrota na cultura do êxito – agradeço divulgação
Data: 15 de agosto de 2016 17:39:09 BRT

 

Admito, fui ver uma sessão de atletismo dos jogos olímpicos. Precisava testemunhar e sobretudo arriscar uma interpretação para um fascínio o qual a princípio me sensibiliza mais pela perplexidade que pelo encantamento. Um aspecto que merece atenção neste revival repaginado do antigo ritualismo grego: quais as finalidades e significados destas reuniões? Supremacia do corpo? Filosofia da superação? Justo numa fase na qual os aspectos estéticos convencionais, os critérios éticos e a própria cultura apolínea estão oscilantes ou sob suspeita?

Destarte, o mais incrível e não menos determinante, parece ser a imaginação dos atletas. Observem como as moças  do salto em altura simulam os voos antes do impulso para superar marcas improváveis. Os nadadores encaram as raias das piscinas como ímãs unidirecionais. Os lançadores antecipam a rota e as vibrações do disco e do martelo. As esgrimistas cogitam esquivas radicais e estocadas clarividentes. Os lutadores derrubam oponentes, muito antes do desenrolar da contenda. As tenistas empurram mentalmente a bola em linhas diagonais ou paralelas em simulações permanentes. Frequentemente balançam as cabeças para torcer ou intuir trajetórias possíveis, fazem gestos repetitivos, obedecem suas superstições, emulam confiança, sonham com o palanque absoluto.

E quanto a derrota? É preciso analisar o símbolo e sua fisiologia. É fundamental penetrar na fenomenologia para bem além da representação dos estados nacionais e do aparente pretexto para exercitar o assim chamado espírito olímpico. Ninguém mais pode aderir incondicionalmente ao ideário de que o que importa é competir independentemente do resultado. A dor e a humilhação, o esforço invencível, o suor que marca a exaustão, este conjunto de trabalho e esforço impõem-se como símbolos majoritários. O orgulho e a hubris reservados para uma minúscula elite de heróis hipertrofiados, ultra-habilidosos, ou talentos da resistência psico-fisica.

Essas categorias já estão auto consagradas na cultura do êxito. O que realmente interessa esmiuçar é o valor inverso. O perdedor. Aquele que se contunde. A derrota é que é o grande tabu. A desonra reservada aos sofredores  sem medalhas que serão ultrapassados. Aqueles que, superados, fracassam. A competição que esmaga os que foram menos treinados e financiados. Ou aqueles que encontram-se dopados para alavancar propagandas político-comerciais. Decerto existe algo mais grave e me limito a mencionar : a naturalização do conceito de que, para alguns, não haverá equidade. Como foram os casos que testemunhei, isolados, mas contundentes. Um atleta negro foi ofendido,  um judoca egípcio recusou-se dar a mão ao seu adversário judeu. O constrangedor silêncio do COI significa que alguns podem ser discriminados sem maiores consequencias para a honra do esporte e em benefício dos patrocinadores.

Todos sabem que o esporte profissional tem um lado obscuro, mas o que interessa mesmo é o apelo à perfeição, o triunfo indiscriminado da performance.

Ainda assim quem poderá negar que é belo, notável e admirável.? A duvida não deveria recair sobre outro aspecto? Será bom? Uma prioridade? Os músculos exatos, a massa magra, a oxigenação extra podem não significar exatamente o que o senso comum imagina. Como já previa Hipócrates (aforismo 3, primeira seção) os maratonistas ou hiper-atletas, por exemplo, estão mais sujeitos à morte súbita que os não atletas. Aforismo comprovado só muito recentemente pela medicina contemporânea

Performances e records não valem saúde, nem super treinamento significa, necessariamente, boa forma e longevidade. Mesmo assim, e apesar de tudo, quem controla nosso potencial de envolvimento? O saldo final vai contra a intuição. Permanecemos emocionados com essa vertigem coletiva hipnótica chamada Olimpíada.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/derrota-na-cultura-do-exito/

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Extinção (Estadão)

13 sábado abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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 A extinção
Data: 22 de agosto de 2016 14:48:28 BRT

A última a falar no Congresso, Yelena Simieva, afirmou que já fazia quase 70 anos que um deles havia sido avistado em ambiente doméstico, portanto mais de uma geração separava a data da inauguração do Museu, do período da grande extinção.

— As vezes é muito natural que todas nós nos perguntemos: e se eles ainda estivessem por aqui? O que seria do mundo? Como seriam nossas vidas?

Yelena ouviu vaias ao fundo, fez uma pausa rápida, para, em seguida, dar continuidade à palestra

— Talvez vocês não entendam, mas não faz tanto tempo assim, minha bisavó, imagine, minha bisavó, chegou a ter um em casa. Na época era normal.

As vaias diminuem.

–Eu sei, sei perfeitamente, hoje temos consciência do quanto eles são desnecessários, mas parece que nem todas eram infelizes com eles por perto. Em nossos dias fica bastante claro que depois que desapareceram, o mundo ficou melhor. As guerras estancaram, a violência e a desigualdade diminuíram, ninguém mais precisa suportar desmandos ou ideias dogmáticas fora das Universidades, barbas que espetam, arrogância cabotina, topetes loiros, cavanhaques ridículos, maus hábitos e convenhamos, os banheiros agora são definitivamente lugares limpos. Tanto os acervos fotográficos como todas as evidencias coletadas mostram que todos nasciam com deficiências genéticas de higiene e especula-se, um invencível complexo de superioridade.

Os aplausos começaram a dividir o fundo da sala de conferencias.

— Foi a história natural, e não nós, quem decidiu que eles já tinham cumprido seu ciclo. Quando os casos de autofecundação começaram a surgir e vingar no mundo todo, os cientistas honestos já previam, só poderia haver um desfecho. Os papersestampavam “quando some a função, o futuro é a extinção”.  Escreveram que 50 anos bastavam para que tudo estivesse consumado, foram necessários quase 100.

Aplausos se intensificam

–Vamos recordar a sequencia dos fatos. Nosso gênero conquistou cargos políticos. Passamos a ocupar o núcleo do poder. Em menos de 40 anos tornamo-nos hegemônicas. No início, reagiram com elegância. Diziam-se constrangidos pelos milênios de opressão. Depois, ficaram incrédulos com nossa eficácia na gestão do mundo. Claro que parecia inverossímil, mas me mostrem pelo um dos dinossauros que esperava pelo fim? Trouxe alguns dos jornais daquele período para que vocês todas reflitam. Vejam, por exemplo, esta manchete de março de 2032:

“Os machos agonizam, merecem a extinção?”.

E leiam essa outra, projetada ai no telão

“O masculino em vias de desaparecer?”

Aplausos seguido de gargalhadas. Yelena pede calma.

— Mas foi só quando, inexplicavelmente, os alfa começaram a ficar inférteis que tudo piorou. O golpe mortal foi no orgulho. Reagiram mal e nos ameaçaram com boicotes e sanções. Foi quando passamos a gerar sozinhas, dispensando todo seu provimento e patrimônio genético. Os biólogos logo constataram: somente fêmeas eram viáveis. O que nunca souberam é que nós jamais desejávamos isso, nem mesmo fizemos força para que entrassem em extinção.  Eu confesso, em caráter pessoal, alguma curiosidade em saber como seria ter um exemplar em casa em nossos dias.

Murmúrios azedos.

–Já imaginaram? Como seria dividir com eles a criação das famílias? Mesmo porque, pelo que tudo indica, parece que esse não era bem o forte deles. Amigas, nós nunca quisemos fundar aquilo que foi designado muito recentemente como “Feministão”. Natureza e evolução fizeram seu trabalho, e, depois de milhões de anos escolheu quem deveria sumir para dar lugar ao gênero que poderia viver para fazer o planeta sobreviver.  Como bem definiu Aristóteles “a natureza faz, não faz nada em vão, só faz, sem instrução,  aquilo que é necessário”. Vamos aceitar este presente e louvar nossa emancipação, sem culpa ou remorso.

— Ao mesmo tempo, é com orgulho que inauguramos nesta data, o Museu do Gênero Desaparecido, que abriga o maior acervo iconográfico, espécimes reais embalsamadas, e uma curadoria especial com os objetos de culto. Só não conseguimos espaço para coleções de álbuns de futebol com figuras carimbadas  da Copa e os carrões potentes. O intuito é mostrar que reconhecemos o quanto eles foram importantes em etapas prévias da humanidade. Sabendo que o tempo não desfaz seus erros nada mais justo prestar esse tributo aos saudosos machos, nossos parentes extintos, e reafirmar como somos reconhecidas por tudo que fizeram.

Yelena termina ovacionada, desce as escadas do palanque agradecendo o entusiasmo com as mãos.

Ao chegar ao camarim, disfarça a nostalgia. “A mãe natureza pode até fazer o que é necessário, alguém precisa avisa-la que não estamos obrigadas a aplaudir”

Certificando-se que a porta está trancada, retira o porta retrato, aproxima-o e chora. Em seguida aperta a fotografia contra o peito.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/a-extincao/

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Ponha-se no lugar do outro (Estadão)

13 sábado abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Ponha-se no lugar do outro
Data: 27 de setembro de 2016 17:26:48 BRT
Há alguns anos uma Faculdade de Medicina de São Paulo resolveu criar um núcleo de ensino experimental. Em um dos módulos a proposta era uma inversão das funções. O estudante de medicina ficaria no lugar do paciente e vice versa. O resultado foi chocante. Deveria durar três meses, não sobreviveu duas semanas. Quem desistiu foram os aprendizes de medicina.  Não suportaram ficar no lugar dos pacientes. Desta lição fica claro que não se tratou de má vontade, incomodo com a hierarquia, nem de algum gênero de preconceito. O que os impactou foi a aflição. A sensação de solidão. O desamparo e a falta de diálogo. O que parece óbvio é que ainda há muito o que fazer para melhorar a percepção dos profissionais de saúde em relação aos seus objetos. O problema pode estar exatamente nesta palavra, objeto. É evidente que existem médicos solidários e humanistas, e talvez, a maioria desejaria uma maior aproximação com seus pacientes. Mas não só o  tempo escasso  como a mediação da tecno-ciência obstaculiza esse contato. Quando se trata de diagnósticos de doenças mais graves este hiato se agudiza dramaticamente. Não basta o paciente ser orientado sobre a patologia, nem mesmo é o suficiente que a sequencia do tratamento seja esmiuçada por panfletos, manuais de apoio ou SACs. A dificuldade está em outro lugar: lidar com a demanda subjetiva dos pacientes, os quais, via de regra, sentem-se perdidos e muitas vezes, pouco acolhidos. O mar de duvidas só tende à expansão, pois a consulta dos leigos aos sites e às informações on line tornaram-se inevitáveis, ela tornou-se necessária para preencher as lacunas. A maioria deles não são confiáveis como fonte de informação. Mas isso nào importa. Não basta atender demandas de perguntas protocolares e não completamente respondidas. Frequentemente a busca não é saber mais da doença, mas o que fazer com todas as informações sobre ela. Então, num mundo repleto de explicações virtuais um silencio aflitivo se instala na cabeça daqueles que precisam de assistência. Muitos sentem como se houvesse uma faca pendente sobre suas cabeças. E, muito provavelmente, nenhum médico possa, com seus conhecimentos, sozinho ou contando com ajuda,, desarmar essa sensação. Talvez seja mesmo um vazio insanável. Decerto uma maior preocupação com o Cuidado poderia, ao menos, prevenir uma parte desse sofrimento. Que não deveria ser encarado como inexorável. Não se pode aceitar a doença nem como um fenômeno abstrato, muito menos a penitência como parte integrante da moléstia. Além disso, a percepção subjetiva é, muito provavelmente, mútua. Os dois lados tem suas impressões.  É natural que o médico tente se proteger fantasiando que ele controla os fatos objetivos. Mas ele desconsidera que  também sofrerá o impacto de comunicar um diagnóstico, um prognóstico ou a difícil decisão de usar um tratamento mais invasivo ou arriscado. Lidar com os limites da vida e a proximidade da morte tem consequências diretas e indiretas, que se dirigem para os dois lados da maca. O significado de um paciente receber uma notícia mais dura é subestimado no atual modelo de relação médico-paciente. Se mesmo uma única palavra como a excessivamente utilizada “sobrevida” pode fazer a diferença no imaginário do doente, imaginem as avarias causadas pela distância e pela dificuldade de comunicação. Muitas vezes, quem se submete ao tratamento já se sente condenado, antes mesmo de saber quais suas chances de sobreviver à moléstia ou ao tratamento. Outros tantos relatam que se vêm diante de um estado  animação suspensa. Se por um lado compreende-se a necessidade por parte dos médicos de falar a verdade nua e crua é necessário saber que um veredicto clínico pode funcionar ao modo de pena de morte. Ou de prisão perpétua.  Por isso mesmo é necessário que a ciência da saúde prevaleça e tenha o cuidado de proteger as pessoas. Deixa-las menos vulneráveis à crueza e às tecnicalidades reducionistas com que algumas decisões clínicas são feitas. Mesmos os exames mais sofisticados e elaborados que utilizam as tecnologias mais avançadas, inevitavelmente contém algum grau de imprecisão, pois dependem de interpretação. Para muitos pode parecer surpresa mas nem os epistemológicos acham que a medicina seja ciência. No máximo a definem como ciência operativa. Neste sentido, o médico sempre deparará com limites. Se quiser ser exclusivamente técnico rejeitará sua percepção, seu olho clínico e seu felling.  Ajudar o paciente a tomar as decisões é sempre melhor do que impô-las à sua revelia  Sabemos que a medicina não tem todas as respostas, muitas vezes, infelizmente, poucas. De qualquer forma, admitir que a relação médico-paciente é uma construção sutil e imprescindível entre duas pessoas já seria um bom recomeço.
http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/ponha-se-no-lugar-do-outro/

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Dos abusos intelectuais (Estadão)

13 sábado abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Dos abusos intelectuais

 

Paulo Rosenbaum

11 Outubro 2016 | 15h38

Alguns professores e articulistas vem afirmando que identificaram uma luta perturbadora e obscurantista contra o intelectualismo. Na verdade, como todo campo especulativo pode ser apenas mais um diagnóstico precipitado. A crescente objeção pode ser contra a abundância de intelectuais que abusam da inteligência das audiências. Que generalizam o irrepetível. Que asseguram que detém a fórmula. Que vislumbram o que sequer imaginam. Que enquadram o que não pode ser classificado. Que tomam hipóteses por teses comprovadas. Que asseguram a instabilidade e desestabilizam o que tranquilizaria. Como confiar em distorções prudentes? Como aceitar posturas peremptórias onde deveria prevalecer o esforço para contornar os dogmas? Caberia exatamente aos intelectuais que se tomam por notáveis exceções do senso comum — pois supostamente pensariam melhor que a média — assumir seus equívocos antes mesmo que estes tivessem sido exibidos de forma humilhante em praça pública. Mas, antes, muitos consideram demais fazer concessões à realidade. Imaginam que a coerência tem um valor unívoco, muito maior do que toda autocritica. E, assim, o erro erudito, que era apenas uma hipótese científica falseável se transforma em mito. Dai ao slogan repetitivo é só mais um deslize justificacionista.

Isso é um intelectual?

Nosso atual status de ausência de diálogo significa que, para desarticular a progressiva indignação do senso comum com os excessos dos intelectuais — sem mergulhar no mérito de justificativas políticas ou da devoção ideológica — acusa-se toda a plateia de não ter entendido corretamente o papel do pensador na sociedade. Mas essa aversão nada mais é do que o arrastado resultado de uma distorção ainda mais longa. O papel do pensador é para além de analista social, um crítico do poder e de seus protagonistas. O que ocorreu na última década no Brasil, quiçá no mundo, é que uma parcela significativa da elite universitária passou a defender consensos costurados num endogenismo quase tribalista. Em geral à revelia do meio e da população. Mais do que defesa da causa pregava-se um gênero específico de agenda política que passava a ser corroborada por contaminação. A disciplina foi cooptada, professa-se  liturgias, não aulas. O sistema de notação se transformou em uma tragédia pois reforça o erro. E a filiação intelectual uma herança de sangue onde o leigo deve engolir o que o mestre disse.  Isso é, aceitava-se que aquilo que parecia consenso era de fato o resultado de um grande acordo. O acordo que o mundo inteligente e bem pensante concebeu para todos os mortais. Não lhes ocorreu que nenhuma teoria tem um átimo da consistência da realidade. Nada mais distante do mundo empírico do que a persistência da especulação baseada em ideias multiabrangentes. E esta pan-agenda foi expandida de tal forma que passou a demandar engajamentos cada vez mais alinhados. O resultado previsível é que o compromisso determinou o obscurecimento progressivo do sentido analítico destes agentes. Não se tratava mais de pesquisa e análise mas de vulgarizar sínteses construídas por sectarismos engajados. Será ainda preciso ir muito adiante para perceber o fracasso que estas diretrizes legaram à educação e à sociedade. Será preciso purificar — esta é a palavra com todo seu peso filológico  — as cátedras dos vícios doutrinários.  O estrago produzido por tal estágio de encarceramento mental não é mais monopólio de progressistas ou de conservadores. Ainda que a esquerda tenha obtido êxito em sua semi hegemonia, a tentação abusiva é a mesma do outro lado. O perfil para ditar muito similar. Este protagonismo sacrificou ao momento não só as ideias como o próprio papel de quem precisa repensar o processo da história que nos fez herdar este impensável instante da República.

Os intelectuais deveriam, antes de lamentar, apreciar a desconfiança que inspiraram. A decência os obrigaria a uma retratação. A honra e a honestidade à uma revisão completa. Não é realista, poucos o farão. Estão demasiadamente preocupados com a imagem pública para a plateia. E aflitos com o rótulo da capa. Ainda não notaram que o espelho, quando descasca, reflete apenas fuligem.

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Atualidade de Hipócrates- Medicina que convém a cada um (Estadão)

13 sábado abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Paulo Rosenbaum

18 Outubro 2016 | 22h41

 

Atualidade de Hipócrates (460 a.c. – 370 a.c.):  Medicina que convém a cada um

            A obra de Hipócrates é vasta e a autoria dos textos polêmica. Entretanto, superando-se a questão da autenticidade autoral, o conjunto de obras deixado pelo fundador da técnica médica – disponibilizados aqui em 10 volumes –, permanece indelével e surpreendentemente atual. Segundo o autor Charles Lichtenthaeler, “a história da medicina poderia ser resumida como retornos sucessivos a Hipócrates”. De fato, se pensarmos no conhecimento (e revalorização) do saber empírico, na capacidade observacional e na sistematização adquirida para narrar o que pode ser constatado a partir das evidências clínicas produzidas ou testemunhadas, esta afirmação ganha ainda mais consistência. O “retorno sucessivo a Hipócrates” não se dá por nostalgia de reviver suas obras, mas porque ele resume o “fazer” da arte médica. É isso que torna esta coleção única e justifica seu enquadramento no seleto grupo dos clássicos.

Embora pouco se saiba da vida do contemporâneo de Sócrates e Demócrito – as informações vieram de Platão e dos eruditos alexandrinos do século iii – há consenso que Hipócrates fundou a era técnica em medicina. Como? Através da invenção da história clínica. A coleção deste autor, conhecida como corpus hipocrático foi ampliada por seus seguidores da escola de Cós – que pautavam suas – contemporâneos e sucessivos compiladores, além de gerações de comentaristas posteriores. Hoje, a maioria dos historiadores da medicina admite que, dentre todos os textos, aqueles que mais sintetizam seu saber e aplicatio, são essas pequenas sentenças, os aforismos, palavra de origem grega cuja etimologia significa “delimitação” ou “distinção”, “separação”. Os aforismos médicos tornaram-se populares entre médicos e pupilos justamente pela forma prática e acessível que este tipo de disposição de texto era capaz de fornecer. Pode-se dizer que todo o corpus hipocrático encontra um perfeito abstract precisamente nestas sentenças. Ainda que o conjunto de obras hipocrático seja uma das coleções mais conhecidas da história da medicina, os leitores e pesquisadores precisam compreender que jamais se tratou de um patrimônio exclusivo da medicina. Na verdade, foi a partir do poder empírico e suas aplicações práticas que gerações de escritores, poetas, cientistas, filósofos e até estadistas foram influenciados por suas deduções, especulações e experiências.

Alguns se tornaram mais conhecidos e populares: “as pessoas constitucionalmente obesas estão muito mais sujeitas à morte súbita do que as magras” (segunda seção, 44); “os doentes com tétano morrem em quatro dias; se ultrapassam o quarto dia, curam-se” (quinta seção, 6); ou, ainda, “as feridas em torno das quais caem os pelos são de mau caráter” (sexta seção, 4). E assim, passaram à cultura. O médico medieval hebreu Moisés Ben Maimon, ou Maimônides, afirma ter testemunhado que, desde a infância, muitos tinham o hábito de decorar trechos dos aforismos hipocráticos nas escolas e confirma que “muitos são memorizados mesmo por quem não pratica a medicina”. Esta conquista e esta difusão científica só acontecem quando um livro encontra ressonância e gera efeitos. O nome e a obra de Hipócrates continuam, portanto, estritamente ligados ao desenvolvimento seminal da filosofia como ética e práxis médica. É o caso, por exemplo, dos volumes que abordam a dieta e a nutrição, a importância da anamnese e exame corporal, a ideia da perturbação fisiológica como propulsora da enfermidade, da analogia entre a natureza e o sujeito e dos limites e alcance ético da arte de curar. Particularmente importante é a hodierna correlação entre o habitat e as e maneiras de adoecer e recuperar a saúde. Mais contemporânea ainda é sua recomendação de individualizar a abordagem clinica: é o que convém que deve ser feito.

Distanciando-nos dos aspectos reverencial e mítico que a personalidade daquele médico grego ainda conserva em nossos dias – e de um possível viés laudatório deles decorrentes – não podemos deixar de insistir na surpreendente e inusitada contemporaneidade da sabedoria hipocrática. Em muitas das seções, a leitura atenta revela uma acurácia descritiva, prognóstica e, por vezes, terapêutica (que as vezes colocava ele mesmo em dúvida), esta última, ainda hoje, reconhecida. É esse pertencimento que perdura sobre uma suposta “desatualização” cronológica de uma obra que vem de tão longe.

Isso também não significa que seus escritos devam readquirir – como já tiveram – aura oracular e dogmática Como concluiu o médico e pesquisador Pedro Laín Entralgo, se a capacidade prognóstica e semiológica da escola de Cós era espantosa, sua terapêutica era pobre e contava com escassos recursos. Por fim, deixemos um trecho que desvela a filosofia médica de sua escola: “A vida é curta, a arte é longa, a ocasião fugidia, a experiência enganosa, o julgamento difícil. O médico deve fazer não apenas o que é conveniente para o doente, mas também com que o próprio doente, os assistentes, e as circunstâncias exteriores concorram para isso.” (Aforismo I). Definitivamente, devemos um retorno a Hipócrates.

Obs- Exte texto foi a base para a minha apresentação das Obras Completas de Hipócrates na Biblioteca Brasiliana Mindlin – Com as obras completas de Hipócrates (tradução do grego de E. Littrée) disponíveis para consulta e download gratuito no site da USP.

https://www.bbm.usp.br/node/209

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/atualidade-de-hipocrates-a-medicina-que-convem-a-cada-um/

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Consciência em modo tranquilidade (Estadão)

13 sábado abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Consciência em modo tranquilidade

Paulo Rosenbaum

27 Outubro 2016 | 10h44


A devastação, política ou não, tem um sentido inalcançável. Uma direção incoesa e errática. Não se sabe se as terras foram arrasadas por desejo ou exaustão, sonho ou perversão. Te disseram que sumiríamos nos desvios? Que o convés seria esvaziado e estaria livres de motins? Escuta, estas aglomerações de sujeitos que julgavas mortas ou desativadas contem vida. Homens e mulheres cuja potência foi impedida de virar ato. Como? Não se sente responsável? Sabem senhores para qualquer ação pública ou privada, é essencial aprender a noção de falha? Alguma ideia dos malefícios? Qualquer perspectiva de nos dirigir uma palavra com a expressão constrita?

Perfeitamente. Vossa aflição nunca foi a nossa. Não parece. O conjunto das pessoas comuns nunca esteve com a Violência do Poder. Estava do lado que elege. Não foi preciso compreender?

Senhor, vosso poder embarcou no intangível. E como se sabe a violação carrega suas consequências. Os senhores fizeram a fusao dos poderes a frio, não será fácil separa-los na chapa quente. Se será um drama ? Estamos somente no seu inicio. Chefete, joguete, topete são rimas previsíveis. Já o Vosso público não é mais vosso mas também não e mais de ninguém.

Cansaram de migrar famintos por lideres. Estão agora absorvidos por necessidades incompreensíveis , pelo poder como sobrevivência e resgate de qualquer horizonte. Curioso que foi um horizonte assim que foi recentemente cooptado. O Senhor não o viu? Pois é, nem outros milhões.  Não senhores, os passageiros sao vocês. Aqueles que negam o desejo de uma dignidade mínima.

Se estamos em uma democracia?. Depende. Enxerga-se o alcance da tragédia ? As agruras do sofrimento individual? A sonolência do legislador diante do frenesi? E a peste? Não é dessa peste que falamos senhor. Esta é o resultado de milhões de conversões infundadas. Esta esta se decantando — como habitualmente — fora de sua capacidade de apreensão. São as famílias em apuros. As pessoas que nem chegaram a ser adultos, mas perderam precocemente a jovialidade. Esqueceram o sentido do valor do que fazer. Se vocês são culpados por tudo? Decerto não e ate mesmo o imperdoável costuma proscrever. O demérito está na reincidência, na vossa convicta e reiterada fama de impassíveis.

Como fica a causa? Oh Senhor, nunca houve. Noite a Noite os sonhos se refazem na imaginação dos sujeitos. E o Estado deve apenas obedece-los. A causa Senhor não está em seu posto. Nem sua função é intocável nem sua emulação de nobreza convence.

Se seus dias terminarem da forma mais melancólica concebida não nos acorde. Hoje merecemos dormir o sono dos que esperaram a justiça e está em nossos planos acordar na orla de uma praia que Vossa Excelência nunca poderá compreender: a da consciência em modo tranquilidade.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/consciencia-em-modo-tranquilidade/

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