• Uma entrevista sobre Verdades e Solos
  • Resenha de “Céu Subterrâneo” no Jornal da USP
  • A verdade lançada ao solo, de Paulo Rosenbaum. Rio de Janeiro: Editora Record, 2010. Por Regina Igel / University of Maryland, College Park
  • Resenha de “Céu Subterrâneo” por Reuven Faingold (Estadão)
  • Escritor de deserto – Céu Subterrâneo (Estadão)
  • A inconcebível Jerusalém (Estadão)
  • O midrash brasileiro “Céu subterrâneo”[1], o sefer de “A Verdade ao Solo” e o reino das diáforas de “A Pele que nos Divide”.(Blog Estadão)

Paulo Rosenbaum

~ Escritor e Médico Writer and physician

Paulo Rosenbaum

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De onde vêm as lágrimas? (Estadão)

13 sábado abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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De Onde vem as lágrimas?

O maniqueísmo é uma foice bi articulada, sua evocação serve de álibi para acusação e defesa. Ao mesmo tempo, um neutralismo relativista assume uma outra  versão dos fatos.  E, do lado purista, a tendência é preservar o manipulador, dando-lhe o titulo da dúvida ou de herói honorário. Demolir o ditador cubano pode não ser a melhor resposta, mas todo adulto com a capacidade cognitiva razoavelmente preservada deve poder compreender  o que significa controlar o poder ininterruptamente por tanto tempo. Uma saga nepótica de mais de 60 anos. Todo acobertamento do preço a se pagar é fruto dessa ingenuidade programática, a omissão calculada, o viés disfarçado de causa justa, ou a simples pitada de falta de escrúpulo  intelectual. A essência desse marketing é o culto à personalidade que apresenta tiranos como libertadores.

À versão de que o ditador proveu seus discípulos com educação saúde e cultura — se verossímil decerto muito aquém da propaganda enganosa  — serve como escusa universal para um regime que funciona na base do slogan: “Oprime, mas faz”. E quem haveria de se importar se ele é tirânico? É uma espécie de autocracia baseada em evidências. Falsas. Isso significa que o método não importa, o resultado, muito bem controlado, é o que vale.

O detalhe incomodo é que um Estado todo provedor e seus apoiadores não se importam muito com os efeitos colaterais de sangue, privação de liberdade e violência institucionalizada contra os inimigos políticos. Também não é grande coisa que, para alcançar a igualdade,  um considerável escape se propague e que a elite governante obtenha a justa regalia.

Mas o que mais surpreende nas lágrimas derramadas pelo ditador é sua trajetória seletiva. Ela vai dos olhos secos, às fendas imaginarias que se cegam à prisão dos dissonantes, deportação de dissidentes (alguém se lembra dos pugilistas cubanos devolvidos?) , dos séquitos prontos para agir como informantes. A lágrima também revela as cristalizações dogmáticas que reduzem argumentos às convicções preexistentes.

Todas as lágrimas contem mais ou menos o mesmo teor. Suponha que as suas lágrimas apareceram pelo ditador morto enquanto as minhas saíram para suas vítimas. Lágrimas compartilham da mesma composição, percorrem as mesmas trajetórias, idênticas pois. Talvez nossas plataformas afetivas sejam outras, ou nossas lentes de mundo tenham sofrido polimentos assimétricos. Só posso dizer que, em comum, temos que sofremos ao mesmo tempo, mas nunca estivemos juntos.

O que nos reparte não são mais nossos sentimentos, mas de onde emergem.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/de-onde-vem-as-lagrimas/

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Trecho não sujeito à Neblina (Estadão)

13 sábado abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Trecho não sujeito a Neblina
Data: 24 de dezembro de 2016 22:20:06 BRST

Ao ler as manchetes, o dia parecia sombrio. Há sinistros por todos os lados. O de sempre, reações desproporcionais, complos e alibis. A união de arbirarios. O acordo dos mandatários. Povos  sem democracia. Califados refeitos com tiranos eleitos.  Sob o terror protegido pelo pudor.  A inação que favorece o atropelador. A extensa rede de apoio ao lobo avulso municiado. A perversao da linguagem que justifica o agressor.

Na subida da serra, outro aviso de perigo. Poderia ser apenas mais uma placa. Cuja direção mudava conforme o vento.  Foi quando percebeu: amanhecer não é tarefa que se escolha. O esperado é sucumbir à avalanche de infortúnios. É aceitar a inoperância.  Avalizar o sacrifício alheio de muitos em beneficio da ideologia privada dos bem pensantes. Mas eis ue foram os homens que fundaram todas as alcateias. Armaram todas as minas, fundiram todo plutonio. O acaso?  Ja obteve seu habeas corpus.

A neblina cedeu e foi possivel ver um pouco mais adiante. Diante da natureza, estamos sós. Nela, a estranha virtude do estoicismo é constitutiva. O dia surge alheio às vontades individuais, e a criação se reorganiza com espantosa autossuficiência. Nossa dependência do surgimento é orgânica. Eis uma neblina que esclarece. Que faz nascer. Estivemos sempre aqui. Muito antes da evolução tínhamos percebido as marés, as correntes retrógradas, os maremotos sincréticos, as ilhas vulcânicas. O caos é só um mar reverso de ocasião. E haverá o teto de passagem que é nosso céu. Pensanos, apenas pensamos emprestar voz ao destino.

Mas a alçada é mais ampla, a rota indecisa, o sono irregular, o final tardio. Somos uma consciência sem vigilia. Uma singularidade divisa. O limite entre terra e areia. Estamos na locução das praias. No curto gemido dos pássaros. Enquanto o sol nasce, descemos como nunca, ao primeiro dos dias. Ao nunca visto. A primeira rajada. No mármore dourado do nascente gravando os caules. Visitamos as palmeiras e os salgueiros.

Para dizer: espaço.

Nosso canteiro fica bem aqui. O regaço de uma cultura. Arqueólogos  honorários a preservarão . Hoje é um dia primo para resistir às desistências. Para reafirmar a identidade frente aos que pensam ceifa-la. Seja lá qual for a tradição, hoje, a tradução será livre.

Livre-se da imposição, do convencimento, da persuasão. Livre-se daqueles que dizem ter o monopólio da liberdade. Livre-se de quem te assombra pela angústia. Fuja da redoma de enredos pré montados.  Uma festa com luzes não se apaga com discursos. Nao faz renascer com apologias. Não se acende com desconfiança. Uma festa de luzes se faz com pessoas e aproximações. É uma estética da paz. Mas não de qualquer paz. Muito menos daquelas que entenderam o que ela significa e, por isso mesmo, a sabotam.  Da paz que subverte a omissão e a perseguição.  Da paz que tem a coragem de dizer não às nações que se unem para condenar outras ao isolamento, enquanto estas mesmas nações se calam frente às evidencias de injustiças e massacres. A paz é a pré condição unica de terras para todos.  Ainda assim, neste trecho não sujeito à neblina, já ê permitido desejar: feliz dia da sua tradição.

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Surpresa, viramos o ano do avesso (Estadão)

13 sábado abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Surpresa, viramos o ano do avesso.
Data: 29 de dezembro de 2016

Viramos o ano do avesso, e o que procurávamos mesmo? O senso comum fala em sucesso. Os jornais lamentam as previsões fracassadas. A vida institucional não está dizendo coisa com coisa. Foi então que resolvi sacudir a caixa deste ano para ver o que ele continha. Não vi pós verdade. Não saiu nenhuma campanha de desinformação que já não estivesse na grande pauta da pequena mídia. A carta foi marcada, atenção, agora é questão de tempo. Estar alerta e cuidar para que o engano não se promova é a única das coisas essenciais. Reserve ao silêncio e à solidão a oportunidade que você não deu ao diálogo que nunca existiu. Se te disserem: “você não foi suficientemente generoso” recuse imediatamente. Pode ser blefe. Mas para minha surpresa — e para meu desarme — daquele saco amorfo, cheio de potenciais más novas, saiu um bilhete. Um só. Na verdade, uma pequena carta de reconhecimento. Um elogio por um favor. Sim, porque serviços prestados, normalmente remunerados, tem valor definido. Oferta e procura. Leis do mercado e coisa e tal. Neste caso não. Houve esforço, mas não era para tanto. Era uma pessoa falando de amizade e gratidão numa interpretação muito pessoal:

“Prezado, queria agradecer seus cuidados. Suas doações metafísicas, culturais e psicológicas me ajudaram. Ajudaram em aspectos que normalmente a ajuda não cabe. Digo, o cuidar é um verbo, mas ser cuidado está para além do substantivo, mostra uma amizade difícil de qualificar. Bem, isso não importa agora. Sei que nem sempre, vale dizer, quase nunca, esta dimensão é reconhecida. A dedicação ao outro é ofício árduo, e eu me pergunto se isso pode ser mesmo ser ensinado. Acredito que sim. Fora dos muros da faculdade? Fora dos ambientes formais? Fora da vida corporativa?  Talvez até fora da família? Ao receber sua amizade entendi que boas maneiras e gentilezas não bastam. Promessas vagas e compromisso futuro são insuficientes. Os amigos que duram são os que não precisamos jurar amizade. Mas vejo que nossa índole material precisa dos objetos. Para contemplar, para lembrar ou para respirar. Por mais que tentemos, somos feitos de  areia comum, fomos modelados em praias coletivas e nosso destino final é um e o mesmo. Na vida, poucas vezes se tem a oportunidade de agradecer. Agradecer quem te conquistou por respeito, não pela simpatia. Quem soube não te deixar deslizar ao abismo, ainda que para isso, tenha te apontado para ele, feito advertências duras e te colocado de volta à vida sem te iludir ou te seduzir com falsos diálogos. Sim eles podem ser falsos, eu sei bem disso. Nestes casos, o silêncio pode ser mais salutar. Pois é amigo, posso me referir assim a sua pessoa, não?, eu hoje só queria passar para te dar esta pequena carta e te dizer, grato por compreender o que eu cheguei a imaginar como saída. Você me ajudou a ver como pode ser fácil o engano e como o julgamento é penoso, mas vital para enxergar. Que há mais de um caminho. Que talvez para as perguntas que realmente importam não há resposta. Isso é, podem haver várias, mas nada conclusivo. Olhe, até para ser coerente (e a essa altura quem ainda precisa disso?) não vou te prometer retribuição alguma, fica aqui um abraço e a sensação de que me entregar aos seus cuidados bastou pelo ano. É isso, um ano que foi suficiente. Suficiente para poder andar até o próximo. Sinceramente, seu.”

Ás vezes, a calada solicitude é a forma mais sofisticada de amizade. Ninguém a reconhece, pois ela é propositalmente oculta pela discreta benevolência, como deve ser. Pois quando revirar este ano ou qualquer ano, não procure presentes ou notícias, tente achar bilhetes. Eles podem ter a densidade do inesperado. A perplexidade pode ser uma sensação agradável, mas, talvez, para recebe-la na integra, esvazie-se de tudo especialmente das expectativas. Suas perspectivas agradecem.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/surpresa-virando-o-ano-do-avesso/

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Bauman e o impreciso ponto de sublimação (Estadão)

13 sábado abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Não te disseram? Que havia mais de um ponto de fusão? Que a ebulição poderia ser adiada? Que há um estado que não é intermediário? Que tempos líquidos são outros? Aqueles que ainda não chegaram? Estamos juntos. Juntos, mas perdidos, entre um e outro mar. Mares que não fecham, que não criam, que apenas vivem, e, por isso, afastam as estações, arrastando invernos. Mares que não pensam, nem tomam desprezo como questão pessoal. Estamos sós neste fragmentado pátio de manobras. Como pianos sem cauda, melodias sem contrastes. Se há uma causa? Nossos destinos incertos desacertando as veias, o descompasso das margens, as beiradas. Hoje, navegamos pelo mesmo canal, tive a alegria da incerteza.

Foi quando acordei para o gondoleiro soando a voz:

“Oiiiiiiii”- Oiiiiii”

Era esse o aviso, ele vinha. Aqui, ou em Veneza, canais sobem e descem, nunca esvaziam. Canais mudam de sentido a cada instante. Em suas esquinas, colisões seriam certas e inevitáveis. Com as casas submersas ratos precisaram adaptar o instinto, nós, ainda roemos por vingança. Quando a sublimação perdeu-se na imprecisão e pulou o estado liquido, nossos olhos não puderam mais conversar. Você foi embora antes que eu pudesse te mostrar a instabilidade das águas, a sonoridade dos remos, a vacância da luz, as ondas insistentes, o deslocamento dos pontos fixos, a luz férrea dos cabelos, a qualidade dos vinhos e o ar suspenso.

Você sumiu antes que eu pudesse dizer uma palavra sobre o instável ponto da sublimação. Antes que eu pudesse retornar para jurar que há um valor sequer mencionado. Estamos diante do por do sol único, o por do sol da lua. Apenas ontem os cientistas confirmaram a autonomia do satélite. Só uns poucos desconfiavam: a Lua jamais fez parte da Terra. Se você tivesse ficado eu teria te mostrado como o mínimo contrapeso faz oscilar, como só os lábios alcançam o balanço. Não pense que não compreendo. Entendido: seu olhar despede-se a cada manhã. Sem que eu escape do instante, sem que eu te olhe a sós. Por que tuas mãos sempre apontavam para cima? Devo esperar o céu inteiro ou fazer descer teu palácio? Encomendar as cadeiras para tua dança ou molda-las ao teu convívio? Não sei se consigo enxergar tempos líquidos. Se o sociólogo compreendeu a generalização, o poeta escolheu exaltar o próprio de cada relação.

Não sei, nunca soube, devemos aceitar os sentidos comuns? Se a história é inconcebível, o que de especial dela escaparia? Qual a graça se o padronizado vencesse? Ou se vigorasse a rotina do cronometro? Ou o triunfo da constância? Nenhum autor convence. Por isso, doei um sopro ao vaporetto que me embalava pelo canal. Não é para provocar. É que só hoje senti: Veneza é um múltiplo distribuído pelo mundo. O mediterrâneo inteiro te deixaria surpresa, mas estar aqui muda tudo. Foi por isso, só por isso, que te deixei partir. Enxerguei em tua liberdade a chance de amar. E hoje, que todos os jornais assinam com tintas distantes, que as tipografias ameaçam parar, que os livros impressos narram o refluxo, e que o espirito parece se comportar com a extravagancia das certezas, justo hoje, voltei para reafirmar: estamos vivos num outro presente. O vapor que você acaba de inalar é essa certeza. Só conto com ele para te prometer que, sem nada sólido à vista, renegaremos também o transitório.

Voto em transformar toda efeméride em ofício sagrado, e o presente, a sublime prova de nossa permanência.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/bauman-e-o-impreciso-ponto-de-sublimacao/

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A Mentalidade Preventivista (Estadão)

13 sábado abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

≈ Comentários desativados em A Mentalidade Preventivista (Estadão)

A Mentalidade Preventivista

Era para ser um texto em homenagem ao aniversário desta cidade. Não deu. Pois lá se vão quatro anos do incêndio da boate e a tarda justiça ainda continua fazendo vítimas em série. Em homenagem às famílias, aos que não podem mais se defender da inépcia do Estado e para que — em algum futuro tremendamente remoto — tragédias anunciadas, disfarçadas de fatalidade, não voltem a ocorrer republico no blog, excepcionalmente, o texto “A Dor merece nosso Constrangimento”. Decerto que o imponderável, o imprognosticável,  a  incerteza e o absurdo são tanto perturbadores, como onipresentes na condição humana. Porém, isso não tem nada a ver com pane seca, falta de extintores, erros de cálculos em pontes e viadutos, falha na inteligência, justiça leniente, leis anacrônicas, cárceres inimagináveis, descaso com áreas de risco, e, finalmente, déficit de vigilância para cuidar que as instituições não sejam escravas das corporações.

Que a mentalidade preventivista se infiltre em quem governa. E, se não, — que as consequências desta falta crônica desabem sobre os omissos, mostrando que quem quer gozar do Poder, quem precisa do Poder, quem está obcecado por ele, tem a obrigação, moral ou criminal, pouco importa, de planejar e, sobretudo, a responsabilidade de antecipar acontecimentos.

A dor merece nosso constrangimento

Devo estar cultivando a insensibilidade, já que não me comoveu o choro nem a circunspeção dos políticos nos funerais. Além disso, temos que suportar o horroroso espetáculo dos apresentadores explorando a biografia das vítimas ou especialistas explicando como os alvéolos são destroçados pela inalação de fumaça. Nesse campo de batalha, só cabem urros, uivos, ritos de contrição. A dor merece nosso constrangimento.

São poucas ou muitas as palavras que podem descrever acuradamente o absurdo. Absurdo é pouco, estultilóquio, limitado, dislate, distante. Precisava de um vocábulo sem precedentes. Pois “galimatias” revela um glossário analógico apropriado para o desastre gaúcho: um acervo de heresias e incoerências disparatadas, coxia de desconchavos, parvoíce chapada, um amontoado de cacaborradas, aranzel, inépcia, chocarrice. Para contornar registros menos recomendáveis ao grande público, cada um deles pode indicar o repertório que se passa pelas nossas cabeças quando tragédias completamente evitáveis parecem inevitáveis.

A falta de decência não é só fazer as coisas sem pensar que outros podem se ferir ou sair lesados. Paira no ar um senso de desproporção, tocado pelo culto ao único mito invicto de nossa era: grana.

Há uma máxima que deveria vir instantaneamente à cabeça de qualquer um: “Tratarei todo filho como se fosse meu”. Passa longe do sentimento predominante. Que dizer dos donos do lugar e dos homens da segurança? Inicialmente, sem perceber a eminente tragédia, impediram pessoas de sair do inferno. Quais as regras a serem seguidas e quais merecem desobediência civil já?

Não sei quantos mais poderiam ter sido salvos da asfixia, da carbonização. Uma vida poupada teria feito toda diferença. Mas havia a barreira do execrável pedágio, a pirotecnia fora de lugar, o entupimento das salas, as formigas espremidas na armadilha.

Não vem ao caso apontar para a banda ou para os proprietários como alvos óbvios de punição e responsabilização criminal. Já que pais e mães tiveram seus futuros cassados, e as vítimas ardem na sombra, seria preferível acompanhar o que o poder público tem a dizer.

Em geral, fiscais são bons burocratas e, raramente, têm consciência de seu papel vital na prevenção dos desastres. Prevenção, lugar-comum, baixa visibilidade, antipopular, mas a única palavra-chave para não termos que ouvir a esfarrapada desculpa “fatalidade”. Isso não é um se, está acontecendo agora. Nas enchentes, na calamidade absoluta que é a segurança pública do país, na incapacidade organizacional para gerir o dia a dia das cidades. A verdade é que, se ainda vivemos ilesos, é por sorte e apesar do Estado. E não se trata de apontar para um único partido. Todos comungam deste mínimo múltiplo comum, a incapacidade de enxergar que toda matéria política caberia numa sentença: governo é para o povo. Submergidos no populismo ignorante, cosmético e estelionatário, quanto dinheiro ainda será arrecadado nas miríades de impostos pagos para fiscalizar e manter as bocas de lobo, as escolas, o passeio publico, a segurança, a defesa civil? E como isso será gasto? Não sabemos e ninguém sabe.

Mark Twain escreveu: “O governo é meramente um servo, meramente um servo temporário: não pode ser sua prerrogativa determinar o que está certo e o que está errado, e decidir quem é um patriota e quem não é. Sua função é obedecer a ordens, não originá-las”.

Só quando os administradores forem imputáveis e sentirem nos bolsos e na privação de liberdade que, se falharem em prevenir o prevenivel sofrerão consequências pesadas, talvez tenham mudanças efetivas no dislate que é o planejamento público no Brasil. Só quando a opinião pública exigir que as apurações não se limitem a dois ou três bodes expiatórios, mas, a quem, de fato, permitiu a vigência do absurdo. Talvez ai, calçados na educação solidária, o respeito aos cidadãos conquistará status de lei.

Na hora dos massacres, a solidariedade autêntica vem das pessoas desvinculadas do poder. Emerge pura da nossa emoção, premida pelo nada, esvaziada de sentido, e lapidada pela voz rouca do abandono. Um sobrevivente do incêndio descreveu “Vi o monte de corpos empilhados uns em cima dos outros, como os judeus no Holocausto”. Ainda que o cenário justifique a analogia, a outra semelhança é a gratuidade com que essas vidas foram incineradas.

Todos nós, civilizados desde o berço, podemos enxergar tragédias como inerentes à condição humana. Rachaduras na placa continental, asteroides, furacões e terremotos são eventos inevitáveis, às vezes inexoráveis. Crematórios, não. A dor merece nosso constrangimento, assim ao menos sofreremos todos juntos. Não entendo bem por que, mas parece que precisamos nos derreter para nos unirem.

Paulo Rosenbaum é médico e escritor. É autor de “A Verdade Lançada ao Solo” (Ed. Record) e “Céu Subterrâneo” (Ed. Perspectiva)

paulorosenbaum.wordpress

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/a-mentalidade-preventivista/ ‎

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A Mentalidade Preventivista (Estadão)

13 sábado abr 2019

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A Mentalidade Preventivista

Era para ser um texto em homenagem ao aniversário desta cidade. Não deu. Pois lá se vão quatro anos do incêndio da boate e a tarda justiça ainda continua fazendo vítimas em série. Em homenagem às famílias, aos que não podem mais se defender da inépcia do Estado e para que — em algum futuro tremendamente remoto — tragédias anunciadas, disfarçadas de fatalidade, não voltem a ocorrer republico no blog, excepcionalmente, o texto “A Dor merece nosso Constrangimento”. Decerto que o imponderável, o imprognosticável,  a  incerteza e o absurdo são tanto perturbadores, como onipresentes na condição humana. Porém, isso não tem nada a ver com pane seca, falta de extintores, erros de cálculos em pontes e viadutos, falha na inteligência, justiça leniente, leis anacrônicas, cárceres inimagináveis, descaso com áreas de risco, e, finalmente, déficit de vigilância para cuidar que as instituições não sejam escravas das corporações.

Que a mentalidade preventivista se infiltre em quem governa. E, se não, — que as consequências desta falta crônica desabem sobre os omissos, mostrando que quem quer gozar do Poder, quem precisa do Poder, quem está obcecado por ele, tem a obrigação, moral ou criminal, pouco importa, de planejar e, sobretudo, a responsabilidade de antecipar acontecimentos.

A dor merece nosso constrangimento

Devo estar cultivando a insensibilidade, já que não me comoveu o choro nem a circunspeção dos políticos nos funerais. Além disso, temos que suportar o horroroso espetáculo dos apresentadores explorando a biografia das vítimas ou especialistas explicando como os alvéolos são destroçados pela inalação de fumaça. Nesse campo de batalha, só cabem urros, uivos, ritos de contrição. A dor merece nosso constrangimento.

São poucas ou muitas as palavras que podem descrever acuradamente o absurdo. Absurdo é pouco, estultilóquio, limitado, dislate, distante. Precisava de um vocábulo sem precedentes. Pois “galimatias” revela um glossário analógico apropriado para o desastre gaúcho: um acervo de heresias e incoerências disparatadas, coxia de desconchavos, parvoíce chapada, um amontoado de cacaborradas, aranzel, inépcia, chocarrice. Para contornar registros menos recomendáveis ao grande público, cada um deles pode indicar o repertório que se passa pelas nossas cabeças quando tragédias completamente evitáveis parecem inevitáveis.

A falta de decência não é só fazer as coisas sem pensar que outros podem se ferir ou sair lesados. Paira no ar um senso de desproporção, tocado pelo culto ao único mito invicto de nossa era: grana.

Há uma máxima que deveria vir instantaneamente à cabeça de qualquer um: “Tratarei todo filho como se fosse meu”. Passa longe do sentimento predominante. Que dizer dos donos do lugar e dos homens da segurança? Inicialmente, sem perceber a eminente tragédia, impediram pessoas de sair do inferno. Quais as regras a serem seguidas e quais merecem desobediência civil já?

Não sei quantos mais poderiam ter sido salvos da asfixia, da carbonização. Uma vida poupada teria feito toda diferença. Mas havia a barreira do execrável pedágio, a pirotecnia fora de lugar, o entupimento das salas, as formigas espremidas na armadilha.

Não vem ao caso apontar para a banda ou para os proprietários como alvos óbvios de punição e responsabilização criminal. Já que pais e mães tiveram seus futuros cassados, e as vítimas ardem na sombra, seria preferível acompanhar o que o poder público tem a dizer.

Em geral, fiscais são bons burocratas e, raramente, têm consciência de seu papel vital na prevenção dos desastres. Prevenção, lugar-comum, baixa visibilidade, antipopular, mas a única palavra-chave para não termos que ouvir a esfarrapada desculpa “fatalidade”. Isso não é um se, está acontecendo agora. Nas enchentes, na calamidade absoluta que é a segurança pública do país, na incapacidade organizacional para gerir o dia a dia das cidades. A verdade é que, se ainda vivemos ilesos, é por sorte e apesar do Estado. E não se trata de apontar para um único partido. Todos comungam deste mínimo múltiplo comum, a incapacidade de enxergar que toda matéria política caberia numa sentença: governo é para o povo. Submergidos no populismo ignorante, cosmético e estelionatário, quanto dinheiro ainda será arrecadado nas miríades de impostos pagos para fiscalizar e manter as bocas de lobo, as escolas, o passeio publico, a segurança, a defesa civil? E como isso será gasto? Não sabemos e ninguém sabe.

Mark Twain escreveu: “O governo é meramente um servo, meramente um servo temporário: não pode ser sua prerrogativa determinar o que está certo e o que está errado, e decidir quem é um patriota e quem não é. Sua função é obedecer a ordens, não originá-las”.

Só quando os administradores forem imputáveis e sentirem nos bolsos e na privação de liberdade que, se falharem em prevenir o prevenivel sofrerão consequências pesadas, talvez tenham mudanças efetivas no dislate que é o planejamento público no Brasil. Só quando a opinião pública exigir que as apurações não se limitem a dois ou três bodes expiatórios, mas, a quem, de fato, permitiu a vigência do absurdo. Talvez ai, calçados na educação solidária, o respeito aos cidadãos conquistará status de lei.

Na hora dos massacres, a solidariedade autêntica vem das pessoas desvinculadas do poder. Emerge pura da nossa emoção, premida pelo nada, esvaziada de sentido, e lapidada pela voz rouca do abandono. Um sobrevivente do incêndio descreveu “Vi o monte de corpos empilhados uns em cima dos outros, como os judeus no Holocausto”. Ainda que o cenário justifique a analogia, a outra semelhança é a gratuidade com que essas vidas foram incineradas.

Todos nós, civilizados desde o berço, podemos enxergar tragédias como inerentes à condição humana. Rachaduras na placa continental, asteroides, furacões e terremotos são eventos inevitáveis, às vezes inexoráveis. Crematórios, não. A dor merece nosso constrangimento, assim ao menos sofreremos todos juntos. Não entendo bem por que, mas parece que precisamos nos derreter para nos unirem.

Paulo Rosenbaum é médico e escritor. É autor de “A Verdade Lançada ao Solo” (Ed. Record) e “Céu Subterrâneo” (Ed. Perspectiva)

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A insensatez não merece solidariedade (Estadão)

13 sábado abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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A insensatez não merece solidariedade
IMG_0396

O mundo está pontilhado. não só por polaridades sem consistência — que alguns ainda entendem por direita e esquerda — mas pela descontinua marcha da insanidade que parece ter a velocidade das infecções. Sim, a peste emocional descrita por Willien Reich é uma anterioridade cronológica que não é uma inferioridade lógica. Se não tenho uma analise melhor a oferecer do que o preciso editorial de ontem deste Estadão que os leitores permitam a exposição de tópicos. A democracia deveria ser consenso, mas populocratas perceberam que surfam melhor na adversidade. Isso é, faturam mais quando conseguem o enfraquecimento institucional para, ao final, desmilingui-las, remodelando-as ao gosto. Com tal feito os de sempre esperam poder governar — isso é o que imaginam que fazem — sem fiscais por perto. Já vivemos o Estado policial, e, para quem reparar bem, ele só pode existir quando todos os outros mecanismos deixaram de operar. A resposta à falta cívica e à corrupção jamais poderia ser a abolição seletiva das leis.

Todo tirano pode dizer que faz isso, revogar leis para promover justiça, com a melhor das intenções. O desafio é exatamente organizar o Estado sem desarticular o que a sociedade levou séculos construindo. Apesar da estética duvidosa a ascensão de um novo gênero de político — que são tudo menos apolíticos —  não é só um sintoma isolado da falha grave dos antecessores. Esta nova classe de políticos representam o protesto, inútil, contra a ideologia de um funcionalismo viciado, que por sua vez gerou distorções em cadeia: no papel decisivo da divisão de poderes, criando importantes reflexos nos meios de comunicação. A mídia organizada precisa recuperar a neutralidade se pretende não ser substituída.

O risco é chegarmos ao futuro somente com acusações de fake news de parte a parte. Filtros aplicados à realidade dependem, hoje, do viés com que o furo editorial é dado. Uma mesma notícia sofre com manchetes à moda da casa. A verdade não foi só interditada. Sob o pretexto de desmistifica-la ela acabou vitima do excesso de interpretações. De nenhuma forma foi um caso isolado. Quando a cautela condenou virtudes para coroar vicissitudes — desde que declamassem ideologias — a verdade foi demonizada sem chances de defesa. Seus advogados destituídos para dar lugar a dativos despreparados para redigir um simples habeas corpus.

Corre-se o risco de que quando enfim terminarem de passar o País a limpo, ninguém mais saberá como redesenha-lo. A sede por justiça — que nunca foi tão tarda — passou a ser substituída por linchamentos eletrônicos. Por que ninguém ainda concebeu um sentido mais amplo e sofisticado de justiça do que a privação da liberdade? Por exemplo, os políticos que fossem condenados por provas incontestáveis? O que será que as cortes poderiam ordenar como penas alternativas: prestação de serviços à comunidade? Não foi exatamente ai que falharam? Isso seria pedagógico para os casos considerados recuperáveis? Uma pena alternativa seria faze-los viver a experiência de não serem adequadamente governados, desta vez sem poder, sem carros blindados e sem auxílio moradia.  Não seria vingança. A submissão de legisladores corruptos à maus legisladores seria uma experiência sobretudo didática.

Os procuradores tem razão que prejuízo à economia não é razão suficiente para frear investigações.  O mal feito recorrerá e voltaremos ao circuito do horror fiscal liderado desta vez liderado por algum tipo de neo lulopetismo com novos e velhos associados. Mas que estas corajosas pessoas também aceitem frear o ímpeto voluntarista, importante como motor inicial, mas completamente dispensável em fases mais adiantadas como as atuais. A indução geral ao clamor de uma justiça que passa por cima dos preceitos constitucionais vai contra o principio geral que nortearia à aspiração por condições mais justas e equânimes. Se a alegação é de muitos políticos e alguns empresários construiram alianças estratégicas para legislar em causa própria, a generalização só interessa aos que desejam se safar em meio ao oceano coalhado de denúncias.

A civilidade com a canalha é essencial. A elegância política, um estilo a ser preservado. Não podemos morder a isca cuidadosamente preparada nas águas rasas da República. O anzol está preparado para que, em nome de alguma virtude abstrata, aceitemos banimentos, apoiemos discriminação, difundamos intolerância e espalhemos ódio gratuito com clicks impensados. Nossa vingança será recusar enlouquecer junto com todos eles. A insensatez não merece solidariedade.

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Viagens alienantes (Estadão)

13 sábado abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Seria preciso lavar tudo. Busquei refugio no maior rio do mundo. Sai do Amazonas, desci o Madeira e, do nada, de uma folha circular, boiando, saiu a libélula em zigzag. Arrastada pelo vento, ficou paralela ao rio e as asas beliscaram as águas. Estranho foi ter sido fisgado pela melancolia. Algum sinal de morte ali? Mudei o ritmo do remo e quando enxerguei já estava do outro lado. Na margem esquerda. A Floresta é o último reduto de origem, não há nada mais inicial, primevo, vestigial.  Não há nenhum lugar que o homem não tenha pisado. A mata virgem é a exceção. Ali só há tempo incólume. Por que mesmo vim? Em um País no qual tudo virou policia e bandido, tribunais e cadeia, passear de canoa foi uma resposta à vida.  Viver, ou, dar sentido para o fim. Nenhum desespero é definitivo. Deixar que o medo vigore é perder-se na vigência permanente. Mas, por favor, que ninguém tolha nossa hermenêutica. Reinterpretar o mundo milhares de vezes ao dia não é consolo, é salvação. A única remanescente. O Negro já tem igarapés coloridos. Graves e coloridos. Escolhidos a dedo pelo destino caudaloso. Então, virei à direita quando o riacho emborcou na mata. Mergulhei a cabeça na água. Era morna como o gelo tímido. Submergi as mãos e a pele saiu com a oleosidade de maré.  A maré doce dos afluentes. Fluido dos milênios, a água leve e dura se espalhou através do leito úmido das milhões de eras. Bilhões de florações. Aqui, números falam de outras cifras. Desci com a galocha ensopada e parei: estava diante do primeiro caule. O Paraíso, terá sumido?  Quando foi que o perdemos? Lembrei da prosa, da transiberiana, da sombra das sequoias americanas, das encostas secas dos desertos orientais, dos povos sumidos, de índios escondidos. Planícies de areia, outrora também, selvas. Outrora éramos todos selva. Muito antes das erosões. E todos erravam sem saber. Vagaram sem conhecer. Não sabiam o que já tinham e desconheciam o pertencimento. Só tomamos noção do equilíbrio quando o perdemos. Também é assim com a liberdade.  Pensei nas jaulas e gaiolas. Nas trancas e nas travas. Imaginei os bilhões sem ar. Os cubículos daqueles que não podem mais sentir as imensidões.  Risquei o cobertor seco de folhagem úmida para ver terra. Preta. Negra como o rio Negro. Era tinta pura, degradada como o solo, que imanta nossos olhos.  Enxuguei a  testa que passou a exalar memórias. O caminho progredia sob meu remo enquanto tentava esquecer dos jornais, desassimilar livros, impedir que a flutuação dos mercados não me cegasse para os instantes dentro daqueles caules gigantescos. A civilização deve acordar só depois de estar alheia a tudo. Descobri a alienação, o perdão irrefletido, o desvio de todos os sistemáticos. Quem me dera obter a amnésia das analises, e descansar com as sínteses do instinto. Mas as imagens urbanas e quotidianas ainda me perseguiam. Nem percebi o calor, que transpirava de dentro. Tateei seringueiras maciças com suas seivas abandonadas. Vi a ferrugem das motosserras mutiladas. Remexi no artesanato jogado nos ribeirões, e, senti o talento em potencia. Notei o barulho da respiração, abafado pelos grifos de pássaros, pássaros que agudos, injetavam seus perfis atravessando as nuvens. O Céu só é visível de cima, ou, do leito dos rios. As sombras seguiam em camadas sem assombrar as copas. Sem relógio ou bússola pensei em erguer ali, na hora, uma novíssima fundação. A humanidade de um só. A consciência compactada em um. Estacionei perto de um formigueiro suspenso. O aroma adocicado mudou o ar. A história só se desembrulha no desfecho. Sentei sem perceber que pequenos animais me rodeavam. Lembrei de gente que nunca mais voltou das expedições. Dos embrenhos sem retorno. Dos indícios de mateiros sem orientação. Dos sinais de galhos que cicatrizaram para confirmar que não há retorno. Soube que já não voltaria. E que, de agora em diante não vou torcer pelas regras, que o curso siga sua natureza e os campos se encharquem. Só assim a floresta sobreviverá para os habitantes. Pela penúltima vez olhei as margens: extraviar-se é a melhor forma de bendizer.

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A República em Apuros (Estadão)

13 sábado abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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A República em Apuros

Não é só pela pedrada

nem pela divisão artificial

nem as barricadas induzidas

Por bloqueios de petróleo,

mas pela recorrência mitômana

pela insistência fanática

em políticas erráticas

pelo engodo de sempre

Violações da constituição

contra o cidadão

Em vias obstruídas,

o saque das liberdades

Sob prisões urbanas

de entulho ordinário

até que a linguagem

entre em deformação

e a defesa de quem trabalha

desmistifique a trapaça do narrador

e a perversão das notícias,

a sina, de que, no limite

da margem, estreita

para além de esquerda-direita

no abismo de sofismas

no trilho das encostas

nas apostas sem futuro

nos trens sem carros

que abusam do silencio

da concessão passiva

ao ciclo de perigos

na suspeição de amigos

estamos a idolatrar

o demérito

enxergar as cortinas de fumaça

até nos convencer da astúcia

da trapaça

Para enxergar o solo da República

E retirar a democracia

do apuro

Será preciso defenestrar déspotas

desmanchar suas auras

suas retóricas avidas

de poder a todo custo

diluir o embuste das palavras

reconstituir o diálogo

exigirá interlocutores

sem medo das pautas

sem coação dos mitos

eleitos sem o vício

dos pleitos

Salvar

Salvar

Mais conteúdo sobre:

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Eis o Rascunho (Estadão)

13 sábado abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Rascunhar: “fazer um esboço” XVI, Do cast Rascuñar. Rascunho XVII.  Do cast Rascuño. ( Cunha, Antonio G. Dicionário Etimológico)

O filosofo vaticinou a era: a do desaparecimento dos rascunhos. De fato, pareciam mortos, moribundos. Os note books, i-pads, processadores de texto, laptops e enfim os i-phones com seus aplicativos e parafernálias parecem tê-lo sepultado sem as devidas honras. Também descobriríamos — como acabamos de ouvir do Ministério Público — a face sinistra dos rascunhos. A mandatária que deveria ter usado os canais apropriados como instrumentos legais para manter os assuntos sigilosos do Governo usava rascunhos para acobertar a pilhagem do Estado. Evidentemente as páginas não oficiais já foram usadas na forma de bilhetinhos para encomendar assassinatos, geração de intrigas, lista de inimigos, obstrução à justiça, crimes comuns e outras morbidades políticas.

Mas o mais importante talvez não esteja, ainda que inestimável para discernimento, no caráter policial dos rascunhos. É que, sem eles, seriamos privados de notas em cadernos de campo, poemas rabiscados em guardanapos, ideias esboçadas em folhas avulsas com e sem pauta, anotações marginais em livros e versões prototipais muitas vezes surpreendentes. Tudo isso estaria perdido nos lixões.

Nos conformaríamos em ler somente as teses prontinhas, livros acabados, edições bem cuidadas, sem erros, sem lacunas, e principalmente sem atos falhos. Não perceberíamos tão bem  as metáforas obsedantes que perseguem a cabeça dos escritores, os equívocos depois reprocessados dos ensaístas, a permanente incerteza dos pesquisadores. Sem os rascunhos, não teríamos os cadernos de Darwin, os escritos secretos de Newton, as anotações de Gauguin, os desenhos criptográficos de Da Vinci, as duas preciosas versões do Grande Sertões de Guimarães Rosa (visite-os na impressionante Brasiliana Usp) ou os diários de Kafka.  A extinção do rascunho pode ter sido um golpe letal no que Carlo Guizburg certa vez nomeou como paradigma indiciário. Ele nos conta que a elucidação de autoria de obras nas pinturas nas antigas galerias italianas — levada adiante através de uma metodologia proposta pelo médico forense Morelli e usada por Freud — estaria mais nos pequenos detalhes quase inimitáveis do que no “jeitão”, ou seja na tipicidade do óleo sobre tela. Tanto o  falsificador como o imitador esmeravam-se em copiar o estilo, vale dizer o estereótipo, e raramente se preocupavam com minúcias como sombra, brilho dos olhos, unhas, disposição das sobrancelhas.  Tivéssemos só tipografias limpinhas e impecáveis desconheceríamos livros com anotações e desenhos rabiscados dentro e fora do texto. Um dos mais recentes e importantes achados foi feito por George Koppelman e Daniel Wechsler e publicado sob o título “Shakespeare’s Beehive” (Colméia de Shakespeare) — ainda inédito em português — quando encontraram num depósito leiloado no Canadá um impressionante dicionário, o “Alviare” de 1580, com prováveis anotações manuscritas de Shakespeare.

A verdade é que, sem os rascunhos, estaríamos condenados à indesejável utopia que Jorge Luis Borges chamou de “la pagina de la perfeccion“. Ela não existe, mas não é que a pasteurização das edições tornou isso quase possível. Os exemplares saem já prontos, triplamente revisados. A indústria editorial e seus agentes esforçaram-se para torná-los inquestionáveis, assépticos, e sua higienização virou o símbolo de um produto quase perfeito.

Mas e se quiséssemos conhecer não só o item acabado? E se disséssemos que gostaríamos de saber mais das etapas, do processo mental de elaboração, de como os originais emergiam de forma bruta das cabeças dos autores? E se precisássemos de uma visão panorâmica das palavras desencaminhadas, das ideias perdidas, dos extravios  iniciáticos de cada artista? Seria uma imperdoável indiscrição? Uma curiosidade ilícita? Ou a inquietude intelectual nos autorizaria a investigar as referencias culturais que afinal nos forjou até o limite? E se a chave para entender a história realmente estivesse nos detalhes, nas omissões voluntárias, nos textos descartados ou destruídos nas lareiras e trituradoras de papel? Sem o rascunho estaríamos todos cegos aos devaneios, aos atalhos descartados, à intimidade desconhecida, à faceta oculta da imaginação.

De toda forma parece que O Rascunho insiste em sobreviver. E é por essa notável e contra-intuitiva persistência que recomendo a leitura e assinatura de um importante e resiliente Jornal de Literatura publicado desde 2000 em Curitiba chamado exatamente de “Rascunho”, eis uma amostra : http://rascunho.com.br/o-direito-ao-silencio/.

PS- Acabo de salvar este texto como rascunho.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/eis-o-rascunho/

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