• Uma entrevista sobre Verdades e Solos
  • Resenha de “Céu Subterrâneo” no Jornal da USP
  • A verdade lançada ao solo, de Paulo Rosenbaum. Rio de Janeiro: Editora Record, 2010. Por Regina Igel / University of Maryland, College Park
  • Resenha de “Céu Subterrâneo” por Reuven Faingold (Estadão)
  • Escritor de deserto – Céu Subterrâneo (Estadão)
  • A inconcebível Jerusalém (Estadão)
  • O midrash brasileiro “Céu subterrâneo”[1], o sefer de “A Verdade ao Solo” e o reino das diáforas de “A Pele que nos Divide”.(Blog Estadão)

Paulo Rosenbaum

~ Escritor e Médico Writer and physician

Paulo Rosenbaum

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O último whats (Estadão)

13 sábado abr 2019

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O último whats

Paulo Rosenbaum

17 dezembro 2015 | 19:13

-Leia isso aqui!

-“Help?”

-Isso, “help!”.

-Chegou quando?

-Meia noite!

-Estranho!

-Quem enviou?

-Não tem remetente, nem destinatário.

-Exato, mensagem na garrafa e parece que milhões de pessoas receberam.

– E a outra chegou um segundo antes!

-“Embargo geral?”

-Essa!

-Por que escreveriam isso?

– Ah, você não imagina?

– Não faço a mínima.

-Eu te listo mil motivos em um minuto.

– Então conta

– Perdemos critério, esvaziamos o bom senso, estamos governados pelo senso comum, a elite sustenta o poder, estamos sob censura, o crime varou a carne, o sistema tolheu as escolhas individuais. A divisão virou guerra. Os dossiês, armas. As discussões, torcidas organizadas. A judicialização, indevida. Carência de justiça devida. Segredos de Estado. Estado democrático sob cerco. Estado com espectro policial. Qualquer um não pediria ajuda?

— Imploraria.

–Foi até discreto, mas assim? Ao cosmos? Para alguém alhures? Ele é um daqueles que ainda acredita no Céu?.

–E você, não?

(silencio intimidador)

– Não?

– Evoco a quinta emenda.

– Isso não vale nada por aqui. Lembra? Aliás, essa Constituinte aqui não sei não.

— Então te digo que no que não acredito: nessa política, na esquerda retrógrada, na direita obtusa, no centro acéfalo.

— Vejo que você não enxerga mesmo. Não percebeu os símbolos na linguagem? Impedimento, bloqueio, intervenção, sigilo de justiça, controle da mídia, restrição, liminares, prisão domiciliar oficial, arbítrio, mordaça. Ninguém precisa decretar “somos um governo tirânico”, é auto evidente. Se não acredita, faça seu próprio levantamento. Te digo que é por ai.

— Certo, mas o mistério persiste: quem digitou “help”?

– E quem não o faria? É help mesmo! Socorro, acudam, alguém faça qualquer coisa.

– Você está insinuando o que? Uma inteligência artificial? Capaz de perceber a bagunça e ainda gritar “socorro”?

– E por que não? Fenômeno raro, já registrado antes. Assim como existe uma inteligência individual de cada órgão do corpo, existe uma espécie de organização autonômica desconhecida, que age à nossa revelia. Só se manifesta em momentos críticos para a humanidade e poucas vezes abaixo do Equador. Transmissões radiofônicas sem origem, impulsos eletromagnéticos que são próximos e ao mesmo tempo não localizáveis, é como se a radiação cósmica de fundo tivesse uma voz, que as vezes até digita.

-Você tá de brincadeira!

– Não brinco com coisa séria!

(Voz celeste embargada: – Céus)

– Você ouviu, ou vai se fingir de surdo.?

-Ouvi, mas não conta, tinha acabado de pingar 3 gotas de Rivotril

(voz celeste grave : – I rest my case) (tradutor automático: Para mim, deu)

– Essa eu ouvi.

(ruídos de tremor de dentes)

– To te falando!

(voz celeste : – Fui)

– Olha aqui, o whats voltou.

– Milagre!

– Mas embargaram só no Brasil?

– Parece que sim.

– Arábia Saudita?

– Não. Isso é coisa muito nossa. Em qual outro lugar na Terra fariam isso?

– O que não entendo é por que uma Inteligência desse porte pediria nossa ajuda?

– Filho, era uma expressão: torrou, excedeu todos os limites, de saco cheio. Entendeu? Nem Ele aguentou!

— Você (se aproxima e sussurra) acha que Ele (aponta ao alto) pode ser anarquista?

(silencio constrangedor)

—No máximo um não alinhado!

– Mas não era brasileiro?

-Se naturalizou argentino, ontem.

-Então é mesmo o fim.

– O País acabou.

(chega uma mensagem de texto paga com a música dos Beatles: – O País nem começou. PS- Podem me acordar se surgirem novidades. PS2- Por via das dúvidas, o novo passaporte é provisório)

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/o-ultimo-whats/

Tags: blog conto de noticia, Estado democrático, Estado policial, help, inteligência artificial, juízes e o juizo, mensagem na garrafa, milagre, o país acabou?, o último whats, socorro

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Inversão da República (Estadão)

13 sábado abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Inversão da República

Paulo Rosenbaum

25 dezembro 2015 | 05:22

 

Progresso: involuir 20 anos em 13. Retrocesso: modernizar o país. Progresso: desviar dinheiro público para o partido. Retrocesso: penalizar improbidade. Progresso: aparelhar todos os escalões do funcionalismo publico. Retrocesso: aumentar controle de gastos. Progresso: uso de informações privilegiadas para aliados. Retrocesso: meritocracia. Progresso: Riscos públicos na república privada. Retrocesso: Eficiência administrativa. Progresso: distorcer as leis. Retrocesso: poderes independentes. Progresso: aumento do controle sobre as massas. Retrocesso: emancipação das pessoas. Progresso: culto à personalidade e mitificação populista. Retrocesso: democracia participativa. Progresso: demonizar oponentes. Retrocesso: processo dialógico. Progresso: autocracia baseada em consumo. Retrocesso: desenvolvimento baseado em infra estrutura. Progresso Pátria educadora, Retrocesso: País de estudantes.

Progresso: catedráticos militantes Retrocesso: professores críticos. Progresso: não vai ter golpe Retrocesso: leis obedecidas Progresso: poder hegemônico Retrocesso: alternância de poder. Progresso: demonizar a burguesia Retrocesso: pacificar a sociedade. Progresso: transformar velhos talentos em propagandistas do Regime Retrocesso: estimular a leitura. Progresso: status quo Retrocesso: atualização. Progresso: aliança com ditaduras Retrocesso: proximidade com democracias. Progresso: silencio seletivo  Retrocesso: liberdade para a justiça Progresso: chantagem e dossiês Retrocesso: articulação pelas ideias

Progresso: cargos políticos Retrocesso: critérios técnicos Progresso: neooligarquias Retrocesso: horizontalização do desenvolvimento Progresso: maniqueísmo instrumental  Retrocesso: ética e equidade Progresso: flexibilidade moral Retrocesso: responsabilidade fiscal  Progresso : lideranças grandiloquentes  Retrocesso: Estadistas equilibrados. Progresso: infantilização sistemática Retrocesso maturidade analítica. Progresso: neutralizar toda oposição Retrocesso: embates políticos. Progresso: rigidez ideológica Retrocesso: captação dos novíssimos tempos Progresso: centralização de impostos Retrocesso: autonomia federativa Progresso : revisionismo da queda do Muro Retrocesso: contemplação do futuro. Progresso: consagração dos mitômanos Retrocesso: desmistificação dos consagrados Progresso: anomia. Retrocesso: estabilidade Progresso: jogo viciado Retrocesso: regras transparentes Progresso: apesar de você. Retrocesso: amanhã há de ser. Progresso: eleição vitalícia irreversível Retrocesso: impeachment!

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/tag/blog-conto-de-nticia/

Tags: blog Conto de Notícia, Inversão da República, progresso e retrocesso, República inversa

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Poesia de transição (Estadão)

13 sábado abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in A Pele que nos divide- Diáforas Continentais, Artigos, Livros publicados

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Poesia de transição

Paulo Rosenbaum

09 janeiro 2016 | 09:50

 

“Ao enxergar tua dispersão, uni-me.”, foi o que escrevi para Fernando Pessoa. O título do livro de Mario Sá Carneiro “Dispersão” antecipou a evidência. O estado das coisas nos varre afora. As versões vivem dos simulacros. O momento nos aflige, e, a distração, é quem colide com a objetividade. A perspectiva, substituída por um horizonte nodoso. É preciso dizer que não é auspicioso viver num lugar como esse. O sub-pensamento lidera as pesquisas de opinião. O lugar onde a tirania emula condescendência. E onde o alinhamento automático substituiu a critica. No reino imune dos sindicatos a República perde seus dentes. Estamos num jogo que já terminou. Facínoras construíram a inimputabilidade eterna. Nossa única esperança é a criatividade, a recusa sistemática, a ironia aguda. O sujeito que sobrevive ao que o preside. É o que restou de uma democracia em andrajos? Querem metáforas? Vazar, lambuzar, melar. É o que mais se ouve. Cada uma delas também tem seus desdobramentos simpáticos. Vazar: evasão, invasão, evasivo. Além disso, o escape. O escape através do qual saímos do Estado infantil para um destino incerto. Lambuzar pode ser o fim da língua a deriva. O término do sugador. O dever não é com todos. Que seja ucraniano, paraguaio, ou português. O importante é subir até a cerca. Sair da fronteira hostil. E enxerga-la é, já, ultrapassa-la. Ali reencontraremos a leveza da vida privada. A emancipação do peso que nunca foi nosso. Que os eleitores se enganem. Que os atores se desengajem. Que os subsídios sequem. Que os milhões sejam unidade. Que os deslumbrados se observem. Que os cantores, ouçam. Que os diretores sejam regidos. Que a inversão se consolide por um dia. Por dentro e por fora. Que a vida esteja em desenlace. Que a liberdade transforme os ossos. Que o tronco migre à folha. Que os heróis sumam. Que os acordes ressurjam. Que a poesia de transição substitua-os.

Tags: blog conto de noticia, blog Rosenbaum Estadão, poesia de transição

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Sobre a resistência da laje (Estadão)

13 sábado abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Sobre a resistência da laje

Paulo Rosenbaum

13 janeiro 2016 | 13:27

 

Leio colunistas que torcem a pena para encaixar suas teses sobre o problema da militância deste governo contra a política de outras nações. Por mais objeções que alguém tenha à política interna de Israel fica patente a particular má vontade com que esta Nação é tratada por este governo. Claro que nada disso indulta a reatividade imatura da chancelaria israelense, a qual, sempre que pode, morde a isca. Mesmo porque, quando se trata de jogo de cena é impossível competir com o partido.

E aqui o simbolismo digno de apreciação: o que os países livres representam para a perspectiva lulopetista de mundo?

É equivocado nomear a gestão de antissemita: hábeis e múltiplos dissimuladores se escondem hoje sob o manto do antissionismo de ocasião. Para um governo que prefere ditaduras de corte pseudo marxista e autocracia de aiatolás a uma democracia estável, ninguém pode se espantar quando criam indisposições artificiais por diferenças ideológicas com outros países.

O problema central do lulopetismo e de seus apoiadores portanto, é com a liberdade de expressão. E não se pode mais considerar só oportunista o endosso tácito dos intelectuais orgânicos do partido a esta e outras celeumas menores, quase todas destituídas de fatos relevantes.

O fato é que as manobras diversionistas protagonizadas pela atual gestão federal para sair das cordas, atingiram proporções esotéricas. Precisamos ser intransigência quando se trata de tentativas de adulterar as regras em pleno andamento da partida. Pois é exatamente isso que o Partido, simulando legalidade, vem fazendo não só com os dispositivos constitucionais, mas com o uso ilimitado de recursos públicos. Penaliza o contribuinte para cooptar o apoio cada vez mais escasso. Há quem finja não entender que as coisas caminham assim. O abuso e a manipulação com que o executivo vem operando para inabilitar, limitar, de qualquer forma engessar os outros poderes, ferem muito mais do que as normas operativas com o qual a República conta para não arrastada a um novo ciclo autocratico.

É preciso eliminar os meios termos quando se deseja esclarecer aos cidadãos o que se passa numa República temerária. Neste sentido, é que parece ser vital explicitar a fusão entre o sistema e todas as forças que o apoiam, contra os interesses da sociedade civil. Só assim estaremos preparados para que os sinais não sejam tomados como carapaças e as tergiversações de praxe, como carapuças.

Cabe recapitular que a democracia não é apenas um conjunto de normas fixas, baseadas nas escolhas que sufragam nomes em eleições periódicas e sucessivas. O jogo democrático envolve regulações suplementares, sutis, baseadas no bem comum, direitos e deveres das minorias, mediados por acordos intersubjetivos. A transgressão desses dispositivos, coincide com a linha demarcatória entre Estado democrático de direito e outros regimes autoritários de governo.

É sob essa sobrevida selvagem diária, que este governo, desaprovado pela maior parte da sociedade, finge ignorar o próprio estrangulamento.

As pessoas apenas se enganam quanto a provável origem do desmantelamento. Como toda jovem democracia que não se mobilizou preventivamente contra os agentes da perpetuação, a eficaz blindagem que construíram, já atingiu algum grau de irreversibilidade.

Portanto, é razoável especular: de qual horizonte surgiria o defenestramento do mal feito organizado, que, por enquanto, nos administra?

Não virá de Curitiba. Nem das instituições. Muito menos da molecada remunerada que depreda sob demanda. Mesmo que a somatória dos fatores acima possa pressionar o resultado final, quem costuma dar desfecho para uma insustentabilidade política dessa envergadura é um outro fenomeno: autofagia.

O poder, fragmentado por contradições, disputas narcisistas, contravenções pecuniárias, e sobretudo preservação de pescoços, se dividirá progressivamente.

Isso, até que os últimos em condições viáveis despachem os demais. É então, que estes mesmos, num penúltimo ato e sem conflitos existenciais, costumam se arremessar sobre o telhado.

Nosso problema é saber se a laje resiste.

PS- Churrasco só amanhã.

 http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/sobre-a-resistencia-da-laje/

Tags: blindagem, blog conto de noticia, coluna jornal, jogo democrático, regras sutis, Sobre a resistência da Laje

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Política não se discute (Estadão)

13 sábado abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Política não se discute.

Paulo Rosenbaum

20 janeiro 2016 | 13:13

Não_se_discuteX_

Bom dia, para onde vamos?

Bom dia, toca lá para o centro por favor.

Tem um caminho da sua preferência?

Marginal, a faixa do centro está sempre livre!

Isso ai não posso discutir.

Perdão?

O senhor falou de marginal, faixa do centro livre.

Exato!

Prefeito proibiu assuntos polêmicos.

Que?

Não podemos dar trela para os assuntos políticos.

O Sr. esta bem? Estou falando de transito!

Começa assim, depois ninguém sabe onde vai parar

Céus!

Religião também não pode.

Isso é piada.

Humor pode!

Filho, dirija, prometo que fico em silêncio.

O Sr. é fiscal?

Fiscal?

Dizem que colocaram espiões.

(Sussurra e faz mímica indicando ausculta no veiculo)

Chegamos a isso!

O Sr. me desculpe! Olha aqui.

O que é isso?

O cardápio de assuntos permitidos.

Cardápio?

Desses podemos falar, escolha um.

(murmúrios inespecíficos)

Então este aqui. (suspiros) Já ouviu falar do “Os Lusíadas”?

Literatura? Infelizmente não entendo nada.

Então este aqui!

Bom. Esse é a melhor coisa para fugir desses políticos.

Receita de bolo?

Receita de bolo!

 http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/politica-nao-se-discute/

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Working class hero : e agora Luiz? (Estadão)

13 sábado abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Working class hero: e agora Luiz?

Paulo Rosenbaum

04 março 2016 | 13:51

“Working class hero is something to be”

John Lennon

E agora Luiz? Você estava tranquilo. Nós não. Continuamos apreensivos. Volte aqui e converse. Também discordo. O momento não é de comemoração. Nesse momento, o trágico tem mais vigor que a esperança. Por favor, pode responder? Quem é herói da classe trabalhadora? Você? Lech Walesa? Não há nada muito claro? Por isso mesmo pergunto, suas prerrogativas são infalíveis? Nem heróis estão acima da lei. Talvez nem mesmo existam heróis. E mesmo que algum sobrevivesse, você poderia ter sido banido. Talvez um detalhe te interesse. Heróis são menos lembrados do que vilões. Você já parou para considerar? Não, de jeito nenhum, não é tarde, nunca foi tarde. Ninguém está te pedindo para voltar a ser o que o seu marketing ou os carismáticos te assopraram durante todos esses anos. Por um segundo pense nas pessoas traídas. Ou, quem sabe, mude o foco: observe quem está sofrendo mais. Não, não são só teus ex eleitores. Eu sei, eu sei, é só ligar a TV. De fato, ainda existem aqueles que te defendem. Isso, com unhas e dentes. Pense como o símbolo que você já foi.  Uma parte sua, essa do símbolo, poderia estar a salvo, preservada. Não, não tem nada a ver com delação. Qual? Aquela que um homem simples, desculpe, tem razão, não se pode reduzir a isso. Correto. Um trabalhador. Então prossigo. Um trabalhador ter conquistado tanto apoio e estimulado o orgulho de milhões de outros. Messias do povo? Não, isso sempre foi exagero. E por sinal o Sr. não revolucionou nada. Poderia ter feito, mas não fez. Assim admito, a expressão “promovido algum bem” soa mais modesta. Sim, e por que não? Reconheço, é claro. Mas entenda, não é mais suficiente. Sua trajetória foi tortuosa, e, além disso, sua atitude Sr., contribuiu para nos levar a isso. O Sr., com a ajuda do seu partido nos forçou a uma inédita degradação. Não se trata dessa crise econômica. Por favor, agora estamos só nos dois. Não é externa, nem rápida. Passageira? Também não. O que preciso confessar é que ninguém queria a decadência. Ninguém queria mesmo é que a polícia e o judiciário ditassem os rumos. Certo? A oposição também precisa levar um pito. Vai levar. Qual seria então a degradação? Na cultura, nos costumes, no enaltecimento da ignorância. No País mais superficial e melancólico. O Sr. merece do bom e do melhor? Quem não merece? Engano seu. Não é moralismo burguês. Isso se chama “desejo de civilização” e não, nem adianta consultar o advogado. Sabe por que não está no código penal? Porque este é um desejo do espírito. Isso é mais uma evidencia do seu costume de desviar. Não está vendo nada de errado em ter recebido tanto em troca? Isso seria até perdoável. O que não seria? Romper a democracia e coagir o Estado. Perdão, isso não tem desculpa. Sua postura, caro, nos custou muito mais do que o saque da Petrobrás, do BNDES e dos fundos de pensão, que podem falir ou ser saneados. Prezado, entenda o seguinte: culto a personalidade costuma não dar certo. Sua ambição em ser maior do que o República nos custou a fragmentação da nação. Não, nem pensar, não vou parar agora. Os lados estão preparados, assim como o ambiente: a mini guerra civil agenciada dos devotos contra a convicção maniqueísta do outro. De que lado estou? De nenhum, ou melhor do lado de um outro tipo de Estado e de um outro padrão de democracia. Seu assessor concordou em irmos até o fim. Adaptar-se é uma coisa, apologia do crime outra. Seus porta-vozes, aquelas pessoas que, desesperadas, se sentiram na orfandade com seu exemplo? Sim, então por que no lugar de virar a mesa o Sr. não pensa por um minuto na República?

Ela sangra, mas por enquanto o torniquete bem aplicado resolve.

Ainda dá tempo. Ainda dá. Ainda.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/working-class-hero-e-agora-luiz/

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Novíssima República (Estadão)

13 sábado abr 2019

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Novíssima República

Paulo Rosenbaum

10 março 2016 | 15:32

 

Acredita-se que o primeiro passo para o surgimento de uma nova cultura deve ser ajusta-la à linguagem. Na linguagem de Gramsci, fonte de inspiração para fundamentalistas locais, a tática é promover o que ele classificava como “hegemonia cultural”. Todas as correntes políticas, com maior ou menor domínio teórico, buscaram essa perspectiva. Para conquistar o sucesso nessa empreitada seria vital o domínio do sistema educacional. Encaixa-lo, perverte-lo e impingi-lo para viabilizar o projeto. O modelo ajudou muitos tiranos conseguirem que sociedades inteiras fossem submetidas ao arbítrio, mesmo quando se imaginavam livres da ameaça. Foi assim que depois da queda do muro de Berlim a palavra “comunismo” foi sendo apagada dos partidos e discursos. É assim também com outras expressões como “antissionismo”, atualmente usada consensualmente por esquerda e direita para escamotear a judeofobia, associada ao comprometido termo antissemitismo, também fazem parte destes deslocamentos estratégicos para ocultar termos desgastados perante a opinião publica. Neste sentido, recomendo a leitura do artigo de Roger Cohen do NYT, “Um antissemitismo da esquerda” traduzida e reproduzida neste Estadão. (http://internacional.estadao.com.br/noticias/geral,um-antissemitismo-de-esquerda,10000020266)

A palavra “impostos” é outra que tende a ser suprimida dos léxicos para dar lugar a “contribuição”. Afinal, contribuir, além de soar melhor, reveste-se da aura de espontaneidade participativa com que o Estado precisa contar para enfiar a mão no bolso dos contribuintes. O famoso conceito de Marx  “luta de classes” também foi se dissipando no caldo ralo de expressões como “justiça social” e “isonomia econômica”. “Nós e eles” substituiu com maestria o”ricos contra pobres” pois, sob o manto do sujeito indefinido “nós e eles” podem ser quaisquer agentes sociais, além de sugerir uma proximidade empática com o “nós” contra um distanciamento calculista do “eles”. Substituir terminologias e conservar, na maioria das vezes, o mesmíssimo conceito; para muitas dessas dissonâncias, dá-se o nome equivoco de politicamente correto.

Assim, no Brasil atual, também existem concepções que são muito peculiares ao universo lulopetista e a todos aqueles que vem se destacando na defesa desse governo terminal. Contornar expressões que impactam o senso comum, distorcer condições e contextos e coloca-las sob suspeita é uma espécie de exercício de engano sistemático. Esse é o plano B, já que quase todas as apostas autocráticas malograram enquanto o partido afunda no mal feito movediço gerado pelo desejo de poder. O abuso destes recursos, que adulteram o sentido, e distorcem os procedimentos democráticos se tornaram a estratégia predominante da atual gestão federal: apropriação indébita está sujeita a neo conotação “projeto social”. É possível que liberdade de expressão passe a significar controle da imprensa com censura. Democracia deve ser sinônimo de hegemonia do partido. Todos são iguais perante a lei parece ter sido igualado a “companheiros investigados merecem inimputabilidade ou ministério”. Condução coercitiva pode significar violação do Estado Democrático de Direito. Investigação parece ser sinônimo de abandono da presunção de inocência. E finalmente a grande sacada: seguir a constituição é golpe.

Quando lamurias generalizadas fazem o coro de que nos faltam lideranças criveis, estamos apenas endossando a busca inconsciente por personalidades magnânimas, quando já deveria estar evidente o desastre quando se trata de idolatrar caudilhos populistas, elegendo seus satélites e postes. O hiato de poder que temos pela frente é temerário, mas, comparado com o status da ocupação atual, que venha o vácuo. Apenas a maturidade da própria sociedade proporcionaria o nascimento de lideranças consistentes e não personalistas. Em 13 anos a confiança cedeu lugar a um brutal ceticismo, onde a palavra dos que nos governam não tem mais nenhum valor, salvo uma interpretação reversa. A passagem da indução subliminar para a explicitação da beligerância por parte daqueles que estão prestes a deixar o poder não deveria nos espantar. Espantoso mesmo é a passividade com que a aceitamos. De forma irreversível, e contra a marcha do autoritarismo que quase nos empareda por inteiro, as instituições avançam junto com a população.  Se os agrupamentos intolerantes desejam levar a estratégica às ultimas consequências terão que re-pactuar toda a linguagem. Sugiro que publiquem um glossário próprio, para uso exclusivo entre quatro paredes, dentro e fora dos bivaques que frequentam. O importante é que depois de todas as dores deste prolongado parto, o próximo domingo está prestes a dar a luz. Nascerá forte e será uma menina, Novíssima República.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/novíssima-republica/

Tags: democracia velada, dia 13 de março, Estado democratico de direito, hegemonia e centralismo partidário, linguagem e poder, luta de classes, Marx, Novíssima República

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O mínimo que nos une (Estadão)

13 sábado abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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O mínimo que nos une.

Paulo Rosenbaum

13 março 2016 | 13:10

 

Eu poderia me afundar na neutralidade. Há anos faço isso. Não gosto de concentração, de aglomeração e tenho surtos de claustrofobia., Mas hoje não. Hoje um sentido de agrupamento me invadiu sem avisar. Caminhei quase automaticamente. Cheguei ao núcleo e lá me vi cercado de pessoas com as quais não conseguia enxergar afinidades. Meu esforço era buscar qualquer Identidade, impossível. Continuei andando. O palco era o mesmo, o asfalto tenso com reinvindicações dispares, sem foco. Mas havia uma, comum a maioria. Queriam mudar e exigiam o fim do pesadelo. Foi quando ergui o celular para captar a multidão que levei um cutucão. Era Irma, a amiga perdida, uma das melhores, que me bloqueou lá atrás, quando os escândalos começaram. Todo mundo sabe, os contatos nas redes sociais são voláteis. Com Irma era diferente, uma amiga de infância. 26 anos de contato interrompidos pela estranha devoção ao partido.

–Você, aqui? Enfatizei meu espanto.

— Só vim dar uma olhada.

— E o que me diz?

–É a direita, sempre a direita.

— Vamos começar de novo?

— Não, é só você admitir

— Admitir o que?

— Que traiu a causa.

— Minha causa é a sua causa, e de toda essa gente.

— A minha não! Ela limpou a boca.

— Qual é a sua?

— Você está careca de saber. Justiça social, decência, o fim de toda essa bagunça

— Irma, é o que quase todos querem. Dá uma parada, sinta a realidade.

Ela olha em volta e retorna um olhar negativo

— Bando de burgueses!

— Bando de cidadãos

— Não acredito. Você esqueceu das aulas?

— Fui além. Também fiz questão de desaprender livros

— Bem que me falaram, você cedeu: virou um deles

— “Um deles”? Somos todos “um deles”

— Nada. Eu não! Ela ameaçou se afastar.
— Amiga, demorou, mas só agora percebi que eles não eram republicanos. Por favor, não finja não ver o jogo que eles fingem não jogar.

— Aff. Não embarco nessa.

— É fácil, eu tirei os óculos e ajustei a lente.

— Ok. O que me diz de todos os intelectuais? A maioria fechou com o governo.

— Não é mais unanimidade e você sabe tão bem quanto eu que eles nunca tiveram bom gosto.

— Gosto? Por favor…

— Faz o seguinte, que tal confiar mais na sua experiência do que na sua inteligência?

— Não dá, eu ainda tinha um fiapo de esperança

— Tenha. Olha isso! E apontei para todos ali.

— Estou vendo e isso só reforça o que eu já tinha concluído.

— O que Irma?

— Que somos incompatíveis.

— E o que faremos ?

— Cada um fica na sua.

— Abandonar o ideal e ficarmos com o mínimo que nos une?

Ela deu de ombros e foi se afastando, mas deu tempo para gritar

— Tem certeza?

Ela só virou o pescoço e usou a mão em concha para falar de volta

— Vou te desbloquear.

E foi desaparecendo, acenando de costas um longo tchau.

Me afastei da multidão para analisar a conversa. Desbloquear pode ter sido um sinal. Sinal de uma união possível e não ideal. De que o diálogo poderia voltar a fluir. De que uma democracia nunca é perfeita, comporta contrários e não anula ninguém. Que a incompatibilidade era uma espécie de cortina de fumaça de uma fogueira que nenhum de nós dois criou.

Me voltei em direção à gigantesca massa de gente e lá me entreguei ao êxtase. Ao êxtase do pertencimento.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/o-minimo-que-nos-une/

Tags: blog conto de noticia, conto de notícia, dia 13 de março, impeachment, o mínimo que nos une

Paulo Rosenbaum
rosenbau@usp.br

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Lutam pela causa, causa própria (Estadão)

13 sábado abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Lutam pela causa, causa própria

Paulo Rosenbaum

16 março 2016 | 23:48

Podem me prender, processar, ou me enfiar num furgão preto sem chapas, mas não lutei, junto com minha família para ver isso. Se aqui é o fim do mundo, pode acabar logo. Hoje parece distante, mas na época estávamos colados, bem ao lado da opressão. Agora, tudo mudou. Todo sul do continente se cansou. A apropriação indevida, a justiça inconclusa, os parâmetros sem critério, as transgressões impossíveis, a impunidade naturalizada. Nesta análise não há moralismo, apenas que o domínio segue ilegítimo. A ilegalidade não merece mais ser tratada com neutralidade, nem distancia. Os que persistem em endossar perderam o rótulo de sonhadores e já não podem ser poupados. Para obstruir é preciso coragem. E a ousadia pode ser predatória. Mostram-se os dentes sob a pauta do oportunismo. A constituição, pisoteada, sendo rasurada, com ou sem registros em latim. A Democracia que, ainda imatura não constituiu defesa eficiente contra as brechas autodestrutivas, pode, sem aviso prévio, sofrer avarias graves. Mecanismos regulatórios e as garantias individuais sobrevivem, e não pelo mérito deste governo. Um estado policial é um pesadelo. Paradoxalmente, e por isso mesmo, o juiz Moro tem suas razões. Ou há alguma outra forma para controlar um regime que se fundamentou no crime? Que o legaliza em troca do projeto? Antes que se abafem as instruções, a liberdade precisa coibir a tentação hegemônica. O monarca que sonha em destruir evidencias precisa ser afastado. Seus subalternos detidos. Sua sócia impedida. Antes fosse que o crime mais grave estivesse na posse do sítio ou do triplex. Se a acusação fosse clara, o crime é usar a democracia para estilhaça-la. As instituições sôfregas, cambaleantes, ainda soluçam, e ainda podem sangrar. Contra o gigantesco aparelhamento exige-se minucioso desmonte. Pois as pessoas não apenas se cansaram: já mudaram os cânticos. Os tambores esticados, mas ainda não percutidos. Já as vozes podem ser ouvidos à distância. Sabe o que mais? A civilidade se consumou diante do escárnio, do autoritarismo mascarado, dos beócios grampeados ao poder. Naqueles que se fixam, com ou sem foro privilegiado. Aliás, toda questão poderia se concentrar nesta única palavra. “Privilégio” afronta a equidade, o sentimento constitutivo da justiça. Mas quem enxerga isso?  Pendurados às margem dos palácios eles precisam continuar. Trata-se de um planejamento mistificador. Uma técnica que paralisou oponentes. Que encheu de arrependimento  a burguesia. A popularidade sempre assombrou críticos e inibiu as discordâncias. Afinal dissidências tiram votos. Num sistema completamente imperfeito todos querem estar no orçamento. O ardil triunfou, por um tempo. Colou em milhões por mais de uma década. Ocorre que o apego ao poder, senhores, comporta uma natureza explosiva, incontrolável, com potencia para inflamar os governados. E as combustões se propagam. Mesmo aqueles que se deixaram abandonar à sedução de uma motivação, hoje já esvaziada de qualquer sentido, nem eles podem ignorar: de fato, eles ainda hoje lutam pela causa, causa própria.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/lutam-pela-causa-causa-propria/

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A máscara do establishment (Estadão)

13 sábado abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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A máscara do establishment

Paulo Rosenbaum

17 março 2016 | 08:42

 

Podem me prender, processar, ou me enfiar num furgão preto chapa fria, mas não lutei contra o autoritarismo, junto com a família, para testemunhar isso. Entendia e compreendia a neutralidade de tantos. Também tenho amigos e ex-amigos que se calaram com medo de ofender quem ainda acreditava no projeto que ultraja a República. No entanto, ao contrario deles, não só é nosso dever criticar o Poder, como é previsível que, num futuro não muito distante, a maioria reconhecerá o equívoco. Mais do que isso, irão admitir, inclusive, que se o petismo degenerado tivesse sucesso na implementação do golpe totalitário, todos correriam risco, risco de nem poder mais emitir suas opiniões. Depois de obstaculizar a justiça, a liberdade seria o próximo alvo. Isso já seria um grande motivo para contestá-los, ou não? Hoje parece distante, mas, na época, estávamos todos colados, bem ao lado de uma ardilosa opressão silenciosa. Agora, tudo mudou. Todo sul do continente se cansou. A apropriação indevida, a justiça inconclusa, as migalhas ofertadas, o populismo que subsidia, os parâmetros sem critério, as transgressões impossíveis, a impunidade naturalizada. Nesta análise não há moralismo, apenas consciência de que o predomínio é ilegítimo. A ilegalidade não merece mais ser tratada com neutralidade, nem distancia. O contraditório pode ser respeitado, a bizarra defesa de um Estado movido pelo crime, não. Aqueles que persistem em endossar perderão o rótulo de sonhadores, e já não podem ser poupados. Para obstruir, é preciso coragem. E a ousadia pode ser predatória. Mostram-se dentes sob a pauta do oportunismo. A constituição, pisoteada, sendo rasurada, com ou sem registros em latim. A Democracia que, ainda imatura não constituiu defesa eficiente contra as brechas autodestrutivas, pode, sem aviso prévio, sofrer avarias graves. Mecanismos regulatórios e as garantias individuais sobrevivem, e não pelo mérito deste governo. Um estado policial é um pesadelo. Paradoxalmente, o juiz Moro teve razões de sobra para cercar-se de evidencias forenses. Ou há alguma outra forma para controlar um regime que se fundamentou no registro do crime? Que o legalizou em troca do projeto? Antes que se abafem as instruções, a liberdade precisa coibir a tentação hegemônica. O monarca que sonha em destruir evidencias precisa ser afastado. Seus subalternos detidos. Seu poder ceifado. Sua sócia impedida. Antes fosse que o crime mais grave a posse do sítio, triplex ou objetos. Se a acusação fosse clara, a fraude seria usar a democracia para estilhaça-la. As instituições sôfregas, cambaleantes, ainda soluçam, ainda podem sangrar, a ferida seguirá contaminada. Contra um gigantesco aparelhamento exige-se minucioso desmonte. Pois as pessoas não apenas se cansaram: já mudaram os cânticos. Os tambores esticados, mas ainda não percutidos. Já as vozes, podem ser ouvidas à distância. Sabem o que mais? A civilidade se consumou diante do escárnio, do autoritarismo mascarado, dos beócios grampeados ao poder. Naqueles que se fixam, com ou sem foro privilegiado. Aliás, toda questão poderia se concentrar nesta única palavra. “Privilégio” afronta a equidade, o sentimento constitutivo da justiça. Mas quem enxerga isso?  Pendurados às margem dos palácios eles precisam continuar, se acham no direito de persistir. Com aval de intelectuais comprometidos. Poderia ser um escândalo, mas trata-se de um planejamento mistificador. Uma técnica que paralisou oponentes. Que encheu de arrependimento a burguesia e amordaçou a sociedade. A popularidade sempre assombrou críticos e inibiu discordâncias. Afinal, dissidências tiram votos. Num sistema completamente imperfeito todos querem estar no orçamento. O veneno triunfou, por algum tempo. Colou em milhões por mais de uma década. Ocorre que o apego ao poder, tem seu espelho. Do outro lado comporta uma natureza explosiva, incontrolável, com potencia para inflamar os governados. E combustões se propagam.  Mesmo aqueles que se deixaram abandonar à sedução de uma motivação idealista, hoje esvaziada de sentido, nem mesmo eles podem ignorar: de fato, o establishment hoje luta pela causa: causa própria.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/a-mascara-do-establishment/

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