Uma descida à Makhpelá por Cassionei Petry (Gazeta do Povo)

“Uma descida à Makhpelá

por Gustavo Nogy[14/03/2018] [09:50]

Uma descida à Makhpelá

por Cassionei Niches Petry

Há um tempinho considerável não lia um romance da literatura brasileira contemporânea tão desafiador. Quando falo desafiador, me refiro àquela obra que nos faz juntar as peças para montar um quebra-cabeça intelectual, mas é bom que também não seja hermética, em que só os iniciados consigam entrar. Céu subterrâneo (que nos desafia desde o título), de Paulo Rosenbaum (Editora Perspectiva, 2016, 249 páginas), é uma mistura bem dosada de romance policial (ou de investigação), histórico, metalinguístico e psicológico. O mais importante, porém, é que conta uma boa história.

O narrador-protagonista é Adam Mondale, que se afastou da universidade onde exercia as funções de professor, pesquisador de comportamento animal e diretor do Instituto de Psicologia. Os motivos são as modernizações do curso e os consequentes conflitos com os colegas. Decide dedicar-se à carreira de escritor e obtém uma bolsa que lhe permite viajar para Israel, onde estão suas raízes, já que é descendente de judeus. Isso, porém, só ficamos sabendo depois do primeiro capítulo, em que vemos o personagem sendo aconselhado a não deixar o país por dois policiais que o procuram no seu apartamento. Ele não sabe o motivo e nós, leitores, tampouco o sabemos. Adam passa, então, a narrar os acontecimentos que antecederam a visita indesejada e o enredo começa a se delinear.

“Se pudesse ser honesto, teria que admitir, o verdadeiro agente de toda trama tem que ser o acaso”, afirma o narrador. E é o acaso que o faz encontrar nessa viagem um negativo de máquina fotográfica Polaroide em péssimas condições. Através de um laboratório especializado, consegue revelar a imagem: pés enormes e em torno deles uma porção de letras espalhadas de forma randômica. A busca por entender o que vê o leva ao laboratório do cientista Dr. Hass. Através de um holograma (ou holotrama), a revelação se torna ainda mais surpreendente.

Não gostaria de revelar (percebam a reincidência do verbo) ainda mais do enredo ao leitor. Resta dizer que essa jornada transporta Adam para Hebron, mais precisamente à gruta de Makhpelá, onde estariam sepultados os patriarcas Abraão, Isaac, Jacó e suas mulheres, bem como o primeiro casal bíblico, Adão e Eva. O lugar foi explorado em 1967 por um expedição que levou uma menina de 12 anos, filha de um militar, a entrar na estreita gruta. Paulo Rosenbaum se baseou nesse caso verídico para desenvolver seu romance.

Além do novelo religioso, metafísico e histórico que é desenrolado, a obra traz interessantes reflexões sobre o fazer literário. Conversando com uma espécie de mestre imaginário chamado Assis Beiras (que aparece citado nos agradecimentos do autor no início do livro), Adam Mondale busca conselhos, pois precisa cumprir o compromisso adquirido com a bolsa. Não sabe se vai escrever poesia ou prosa, mas sabe que precisa se livrar do jargão acadêmico. Seu “deimon” alerta: “seja lá o que for escrever, lembre-se, tem que ser arrebatador!”

Paulo Rosenbaum segue o mestre, afinal o conselho era para ele mesmo (que igualmente recebeu uma bolsa para se dedicar à literatura em Israel), e nos presenteia com um romance digno de nota. Resta-me buscar o anterior do escritor, A verdade lançada ao solo, e o recente, de poemas, A pele que nos divide.

*

Cassionei Niches Petry é Mestre em Letras-Leitura e Cognição, professor de Literatura e Línguas Portuguesa e Espanhola no Ensino Médio. Autor dos livros de contos “Arranhões e outras feridas” (Multifoco) e “Cacos e outros pedaços” (Penalux), do romance “Os óculos de Paula”, (Livros Ilimitados) e do livro de crônicas e ensaios “Vamos falar sobre suicídio?” (Kindle/Amazon). Atualmente, é colunista do site Digestivo Cultural, Portal Entretextos e colabora com o Caderno de Sábado do jornal Correio do Povo, de Porto Alegre – RS.”
Leia mais em: https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/gustavo-nogy/uma-descida-makhpela/
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Livro derruba mitos, explica as bases da homeopatia e seu papel na medicina atual

31/03/2007 – 11h08

Livro derruba mitos, explica as bases da homeopatia e seu papel na medicina atual

da Folha Online

Em “Homeopatia – Medicina Sob Medida”, editado pela Publifolha, o médico homeopata Paulo Rosenbaum identifica e contextualiza os fatos presentes em todas as instâncias de interesse do leitor, alinhavando-os com seu arguto raciocínio e amplo conhecimento.

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Livro mostra princípios básicos, história e perspectivas da homeopatia
Livro mostra princípios básicos e história da homeopatia

O livro é um estudo introdutório da homeopatia. Analisa seus princípios básicos, sua história e seu papel importante na atualidade como uma “medicina do sujeito”, centrada no paciente como totalidade viva e voltada para ele.

O título é leitura obrigatória para todos que pretendem se familiarizar com essa forma de tratamento, assim como aqueles que incorporaram de alguma forma a homeopatia ao seu cotidiano ou mesmo pessoas que não a conhecem ou a rejeitam.

O texto de Rosenbaum é claro e enxuto, sendo a homeopatia apresentada com bastante detalhe e definição. Os tratamentos homeopáticos são os que mais aumentam no mundo, pois se baseiam em uma medicina segura e eficaz, baseada na observação clínica e nas narrativas que acolhem a integralidade e a singularidade da pessoa em tratamento.

Ouça comentário do autor Paulo Rosenbaum sobre a homeopatia.

“Homeopatia – Medicina Sob Medida”
Autor: Dr. Paulo Rosenbaum
Editora: Publifolha
Páginas: 160
Quanto: R$ 32
Onde comprar: Nas principais livrarias, pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Publifolha

Homeopatia completa 167 anos no Brasil (Folha de São Paulo)

21/11/2007 – 09h15

Homeopatia completa 167 anos de existência no Brasil

da Folha Online

No dia 21 de novembro de 1840, o médico francês Benoît Mure, responsável por introduzir a homeopatia no Brasil, chegou ao país. E até hoje esta é a data em que se comemora o dia da homeopatia.

Divulgação
Livro mostra princípios básicos, história e perspectivas da homeopatia
Livro mostra princípios básicos e história da homeopatia

A homeopatia baseia-se na observação clínica e nas narrativas que acolhem a integralidade e a singularidade da pessoa em tratamento. Saiba mais sobre os princípios da medicina homeopática . O livro Homeopatia – Medicina Sob Medida, da Publifolha, derruba mitos, explica as bases da homeopatia e seu papel na medicina atual.

Alvo de críticas e polêmicas, a homeopatia muitas vezes não é vista como uma ciência. Em março de 2007, por exemplo, o farmacólogo David Colquhoun, do University College de Londres, afirmou que não há provas que permitam que a homeopatia possa ser considerada uma “ciência”.

Por outro lado, cada vez mais este método vem ganhando reconhecimento. Em abril de 2007, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) liberou o uso do remédio homeopático da dengue que vinha sendo distribuído pela Prefeitura de São José do Rio Preto, interior de SP, e que foi vetado em março pela Secretaria da Saúde do Estado.

De acordo com o médico Paulo Rosenbaum, Docente Fundador e Chefe da Escola de Homeopatia e autor do livro Homeopatia – Medicina Sob Medida, “hoje a institucionalização da homeopatia é um fato”. Atualmente, há 22 escolas filiadas à Associação Médica Homeopática Brasileira que formam especialistas profissionais para praticar medicina, farmácia e odontologia. É considerada a 16ª especialidade médica praticada no país. São quase 10.000 médicos homeopatas cadastrados.

Entretanto, hoje, apenas 157 dos 3.518 municípios do país oferecem homeopatia no SUS. “O método avança nas Universidades e organiza-se inclusive dentro de estruturas hospitalares contemporâneas. Cedo ou tarde, portanto acabará sendo percebida como força imprescindível para melhorar a qualidade do atendimento público”, diz o médico.

“Homeopatia – Medicina Sob Medida”
Autor: Dr. Paulo Rosenbaum
Editora: Publifolha
Páginas: 160
Quanto: R$ 29,90
Onde comprar: Nas principais livrarias, pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Publifolha

Dignidade da Escuta

ARTIGO Dignidade da escuta – PAULO ROSENBAUM

CONTO DE NOTÍCIA, PAULO ROSENBAUM                    Estudante de medicina terá de atuar no SUS;     entidades criticam

Cursos terão 8 anos de duração; representantes da classe veem proposta como ‘paliativa e demagógicaDescription: nício do conteúdo

Curso de medicina passará de 6 para 8 anos de duração a partir de 2015

As manifestações que esbofetearam analistas, estrategistas e marqueteiros ainda tentam conservar um pouco da aura romantica, mas naturalidade não é virtude conquistável.  Destarte, fica nítido que lhes falta a força de uma direção, de uma canalização mais eficiente. Como todos sabem, a perda do lirismo dá lugar a uma maior objetividade.

Melhor manter o charme da fantasia.                                                                   

Afoito, desmedido, inoportuno e seletivo o governo tenta reagir ao clamor difuso com soluços. Mas ninguém contorna inação, má gestão e desejo de hegemonia com medidas reducionistas.

Além das assincronias o que falta ao poder  é imaginação. A criatividade é que repercute nas expectativas das pessoas. Sua falta exaure até os mais ingênuos.

Sem perspectivas, ainda estamos à mercê de acordos feitos nas cúpulas. No lugar da verdadeira escuta os diálogos privilegiam movimentos organizados, sindicatos e partidos. Faltou só o principal:pessoas comuns, resgatadas da pobreza, recolocadas no cardápio social, e que, agora, desejam algo além do paternalismo subserviente de Estado. O desejo de consumo premente passou a ser item escasso no mercado : a dignidade da escuta.

Uma vez que ela, a escuta, foi esnobada, esperava-se um enfoque suprapartidário e transgovernamental. Também não aconteceu. O partido não permitiu. Pactos que se costuram sob interesses só fazem aumentar o combustível para os desvios. E o mal estar não se cala quando se pressente manipulação, ele se descontrola.

Passar cursos de medicina para 8 anos ao invés dos 6 atuais é o espelho perfeito da cadeia de equívocos. O motivo alegado agora não é mais aquele original, ou seja, a de que não seria para suprir a falta de médicos mas de impedir ou desestimular a especialização precoce. Ora, a especialização precoce tem causas com raízes mais infiltradas que não se resolvem com as canetas alienadas dos gabinetes de Ministros.

Essas mudanças erráticas e a sistemática repetição de improvisos além de não inspirarem seriedade desnudam a falta de planejamento de longo prazo e mostram o desespero para alavancar candidatos a qualquer preço.

Mudar a mentalidade de formação precoce de especialistas é estimular a medicina preventiva e melhorar as condições de trabalho dos clínicos gerais. Como justificar isso quando se construiu por aqui o mito de que mais saúde significa mais hospitais, medicamentos subsidiados, disponibilidade de exames e procedimentos de alta complexidade além de clínicas especializadas com pesada hotelaria?

Mudanças deste porte demandam tempo e acordos. Portanto dependem antes de mudanças profundas e estruturais nos currículo das escolas de medicina e talvez até de uma mudança na mentalidade. Refiro-me à educação em saúde da própria  população.

Enfocar a atenção primária e um atendimento menos hospitalocentrico são as verdadeiras prioridades.

O estimulo a formação de cuidadores não médicos, implantar a Política Nacional de Praticas Complementares — já aprovada pelo Conselho Nacional de Saúde — e enfrentar os grandes interesses econômicos que comandam a saúde suplementar no Brasil seriam outras medidas possíveis.

Para isso não seria necessário só aumentar os já longos anos dos cursos médicos, nem obrigar os estudantes a estagiar dois anos de SUS para obter trabalho médico a baixo custo.

Oferecer formação mais adequada pode passar por melhor remuneração de professores, além do ensino de humanidades num ano básico para todos que aspiram trabalhar nas áreas de saúde. Se provas de aptidão são de difícil execução podemos pensar em estimular habilidades. Não seria má ideia desenvolver os cinco sentidos. Estudos apontam a qualidade da escuta como um das principais critérios de qualidade no atendimento. Isso é arte, mas também técnica. Ainda hoje, na França, vários cursos de medicina oferecem aos alunos de medicina aulas de desenho como matéria obrigatória. São exemplos de como a criatividade pode ser uma tecnologia simples.

Numa sociedade mediada pelo tempo seria fundamental repensar a escuta médica e estimular que os graduandos revalorizassem a relação médico-paciente.

O programa de saúde da família, uma das iniciativas mais bem avaliadas pela população é um exemplo bem sucedido de que é possível encontrar soluções sem rebuscamentos, truques ou invenções frívolas baseadas no imediatismo.

 

Fonte  http://blogs.estadao.com.br/conto-de-noticia/dignidade-da-escuta/

Paralogismos do jornalismo científico (Observatório da Imprensa)

CIêNCIA >

Paralogismos do jornalismo cientifíco

Por Paulo Rosenbaum em 23/01/2007 na edição 417
A vida só apreende a vida pela mediação das unidades de sentido que se elevam acima do fluxo histórico. Wilhelm Dilthey (1833-1912)

Na edição de terça-feira (16/1) New York Times, Dan Hurley publicou um artigo cujo titulo despertou considerável curiosidade dos leitores pelo mundo – ‘Diet Supplements and Safety: Some Disquieting Data’ cuja tradução aproximada poderia ser ‘Suplementos dietéticos e segurança: alguns dados inquietantes’. O articulista apresenta dados perturbadores sobre o uso e repercussões de produtos livremente comercializados como suplementos vitamínicos, óleos essenciais e ervas.

De acordo com os relatórios da Associação Americana do Centro de Controle de Envenenamentos citados Hurley, consumir suplementos vitamínicos e óleos essenciais pode representar um risco epidemiológico significativo para a população. Em 1983 relatou-se 14.006 casos, em 2005 foram 125.595 incidentes relatados a partir de consumo de suplementos vitamínicos e produtos congêneres. Números modestos se comparados ao que o National Institute of Health – em seu relatório de 2006, Congressional Justification – revela no item ‘Por que as pessoas diferem no modo como respondem às drogas’ em relação aos fármacos convencionais, quando lamenta que ‘infelizmente a maior causa de mortes nos Estados Unidos são por reações adversas as drogas'[ver aqui].

De 1989 a 2004, o Food and Drug Administration, continua Hurley, recebeu relatórios com o registro de 260 mortes associadas a ervas medicinais e outros produtos não vitamínicos. São informações relevantes, pois a maior parte destes produtos são livremente comercializados. Em farmácias não ficam sequer atrás de balcões com acesso restrito. Qualquer cidadão, cá ou lá, pode abarrotar sua cesta ou carrinho de supermercado com variedade de produtos do gênero – de vitaminas a compostos naturais industrializados – cuja indicação é, em geral, tanto imprecisa como perigosa.

Funciona ou não?

Apesar do déficit analítico da matéria, aí reside o mérito deste alerta que desmonta a crença do senso comum de que o ‘natural’ – com toda a crítica da mitologia que o termo comporta – é, no máximo, inócuo. Um aspecto inusitado é que Hurley incluiu nesse pacote de substâncias nocivas os medicamentos e ‘produtos’ homeopáticos. Sem muitos detalhes, revela que em 2005 foram 7.049 relatos de reações, incluindo 564 hospitalizações e dois óbitos.

Apenas para situar o problema, apresento breve contexto. Entre boa parte dos pesquisadores que investigam substâncias ultradiluídas acredita-se que elas realmente podem ser nocivas à saúde se ingeridas sem os devidos cuidados, orientação e assistência médica. Não há segredo algum. Estabelecido está que todo fármaco pode induzir reações adversas, das banais às mais potentes. Dependerão diretamente da sensibilidade e das idiossincrasias do sujeito. Por isto mesmo, muitas vezes, a única e abençoada prevenção é a excessiva cautela na utilização de qualquer produto farmacêutico (natural ou não) ou suplemento alimentar.

De todo modo, o que parte da mídia científica mundial, incluindo revistas médicas importantes, tem relatado nas mais recentes polêmicas (e aqui reside o paralologismo) é que as substâncias infinitesimais são suspeitas – não de toxicidade – mas exatamente do oposto. São suspeitas de não apresentarem quaisquer efeitos biológicos detectáveis. Nem in vitro (em laboratórios) nem in vivo (em seres humanos).

É claro que são conclusões parciais, portanto contestáveis uma vez que um olhar hermenêutico determinaria resultados distintos. Experimentações em seres humanos, estudos observacionais e qualidade de vida em saúde, por exemplo, contraditam fortemente estas conclusões de inação.

Eis um aspecto desafiador. Se o Food and Drug Administration pode constatar empiricamente que, sim, há efeitos adversos em fármacos homeopáticos e eles são significativos, como é que, com a obstinação estóica de um mantra, costuma-se acusá-los (eles, os fármacos) de serem substâncias farmacologicamente inertes?

Na verdade, este tem sido o instransponível obstáculo epistemológico, uma espécie de Rubicão da homeopatia desde sua fundação, já que não há suporte científico consensual para explicar o mecanismo de ação dos medicamentos. Isto significa o seguinte: o descarte se dá uma hora pelo mais, outra hora pelo menos. A célebre pergunta ‘funciona ou não funciona?’, doravante passa a carrear insuportável ambigüidade: ‘Funciona. Apenas para intoxicar’. Mas, um momento! Substâncias infinitesimais não são nem mesmo ‘substâncias’ strictu senso. Se não há sequer vestígio de princípio ativo, nem alguma outra evidência validada, como é que podem determinar tais ações?

Vida prática

Deparamos – e o artigo do New York Times é apenas uma pálida amostra – com um diagnóstico superficial de reprodução mecânica e acrítica de dados que reverberam, impactando a sociedade e a comunidade de usuários com desinformação. Só para oferecer uma cifra, calcula-se em cerca de 180 milhões de europeus os consumidores de medicamentos homeopáticos. Além do critério duplo, o surpreendente aqui é o tamanho do paralogismo.

Ficaríamos assim: um dos jornais mais influentes do mundo anuncia que medicamentos homeopáticos envenenam. Mas até bem pouco não havia nada ali nos frascos, apenas água. Efeitos seriam apenas miragens dos crentes, efeitos-placebo. Pois assim posto, ou está em curso uma notável epidemia de efeitos-placebo nos centros de monitoramento de envenenamentos ou um fenômeno que, verificado, deveria encabeçar a lista de investigações gerando, inclusive, fomento público para pesquisas.

O corolário seguiria com as seguintes inquietações: serão falsos os remédios? Há venenos ativos nas doses infinitesimais? Se há, tudo deve ser reavaliado. As restrições sobre a veracidade da ação deveriam ser substituídas por desejo de conhecer melhor esses acidentes clínicos, surgidos na vida prática da sociedade mais industrializada do planeta. Seria cabível pensar que tais fatos ocorrem porque – sem teorias conspiratórias, mas apenas suposições comerciais – todas as indústrias farmacêuticas estimulam o consumo e a automedicação?

Teorias e verificações

Mas há outra opção mais arrojada: avaliar sociologicamente o que está acontecendo com o jornalismo científico. Sabemos que a lógica em si mesma é insuficiente para dar conta de exigências e possibilidades de validade que, conforme nos mostrou Thomas Kuhn, ampara-se em valores e necessidades de uma dada cultura, em um determinado momento histórico.

Ou seja, impõe-se reconhecer a não universalidade e a não univocacidade dos padrões normativos de uma determinada ciência. Em seu clássico a Estrutura das Revoluções Cientificas, Kuhn nos avisou que há um único aspecto inadiável na análise do desenvolvimento das teorias e verificações cientificas: a psicosociologia da ciência e a compreensão das motivações, sentidos e significados de seus discursos. Ele sabia exatamente a duração e o alcance desta formulação.

Neste caso, a pauta é urgente.

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Médico, mestre em Medicina Preventiva, doutor em Ciências pela FMUSP e integrante do Grupo de Racionalidades Médicas do IMS-UERJ; autor de Entre arte e Ciência (Editora Hucitec) e Homeopatia, Medicina sob medida (Publifolha), entre outros

Cultura da violência e autocrítica: quando o poder deixa de ser republicano

Cultura da violência e autocrítica: quando o poder deixa de ser republicano

Jornal do Brasil PAULO ROSENBAUM 

Quem teve a oportunidade de assistir aos recentes documentários sobre os movimentos políticos armados no Brasil no período da ditadura militar, recentemente exibidos (TV Brasil), pode perceber tanto o tom emocional como a ausência de autocrítica nos depoimentos. Faltou análise: a luta armada no Brasil foi um grave erro histórico da esquerda, e, bem instrumentalizada pela ditadura, atrasou a legitimidade social da luta pela democracia – e não a acelerou, conforme reza o culto em nichos autorreferentes.

Sim, aquelas pessoas resistiram à ditadura através da violência: “É que não víamos outra saída” – relatou um deles, voz embargada, depois de narrar os terríveis detalhes dos momentos de tortura. Pois, esse é o momento onde os caldos entornam: quando não se vê saída. É preocupante a falta de autocrítica em significativa parcela da esquerda brasileira. Talvez a autocrítica seja mesmo incompatível com a manutenção do poder. Nesse sentido, o poder passa a não ser mais um valor republicano. Vide todos os puristas que sempre acabam no limbo, enxotados e caçados pelos chefões pragmáticos.

Enquanto isso, a oposição encolhe toda vez que depara com os índices de aprovação da administração federal atual. Mas não foram os anos de estabilidade prévios, da era Itamar Franco-FHC, em boa parte responsáveis pela boa condução da economia que o governo do PT herdou e manteve?

A grande oportunidade histórica para que a oposição testasse os limites da nossa jovem democracia foi durante o auge do escândalo do mensalão. Bateu o pânico! Temia-se mexer com o poder de Lula propondo seu afastamento nos moldes do impeachmentAlguém decidiu gritar “guerra civil”. Isso bastou. A oposição, covarde, calou-se. Pudera, também estava enroscada em seus próprios imbróglios, na arrecadação de verbas partidárias. Pois, ao calar, tanto oposição como mídia estão sendo apagadas, questão de tempo até que a borracha as desfenestre do horizonte político.

Muito perigosa essa falta de perspectiva de alternância real no poder. Vivemos sob um anacrônico nepotismo num governo cheiro de parentes, com franco aparelhamento do Estado por um único regime partidário, cosmeticamente pulverizado na chamada “base de apoio”. A autocrítica deveria partir do próprio PT que precisaria compreender – ou entende perfeitamente, e tem outros planos? – que sem oposição não há jogo democrático possível. A forma amadora e displicente com que a crise na segurança pública vem sendo tratada e a incapacidade de gerenciar o conflito de interesses no executivo corrói a governabilidade e ameaça diretamente as conquistas alcançadas desde a redemocratização do Brasil.

Crises explosivas na segurança pública – atuais e futuras – eram favas contadas. Afinal, entre as 50 cidades mais violentas no mundo oito estão no Brasil. Como esperar outra coisa? Traficantes e gente muito perigosa ainda hoje conseguem celulares nas cadeias e operam livremente lá de dentro. Que o governo se vire e assuma responsabilidades. Donos de um monstruoso superávit fiscal, que construam planos de carreira e salários para policiais, bombeiros, educadores e profissionais da saúde, junto com reformulação educacional na formação de todas essas pessoas. Dinheiro há, o que não existe são critérios justos para firmar as prioridades.

A verdade é que continuamos cultuando a violência. Com que facilidade se parte para o pau, se agride, se rouba! A polícia entra em greve, e hordas aproveitam para assassinar. Ninguém é culpado, mas há culpa. Recentemente, um dirigente do PSDB convocou a militância para “partir para cima”.  Espero que haja consenso de que não é exatamente isso que se espera de um líder. Toda confrontação fermenta intolerância e anomia. Numa cultura segregacionista como a nossa precisamos encarar os problemas como adultos e convocar a paz.

Sonhamos com outras formas de organização da sociedade, vale dizer, uma frente suprapartidária que reunisse gente lúcida, mas que ainda não tivesse perdido as esperanças na República, gente que tenha pertinácia mas não gula pelo poder, gente que tenha ideais originais mas que não seja refém das ideologias. É delírio? Então esqueçam, mas respeitem a loucura.

A violência é a não saída e o esgotamento de todas as formas de trato civilizado. Haim Omer, um psicólogo brasileiro-israelense da Universidade de Tel Aviv, desenvolve há décadas uma técnica psicológica de solução de conflitos, reconhecida mundialmente e já aplicada em vários países. Ela é inspirada na resistência não violenta de Gandhi. Não seria má ideia arejar um pouco a cabeça para se refrescar com boas ideias para achar as novas saídas: as que estão por aí, enferrujaram.

Que a paz esteja com as portas abertas.

 

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Céu Subterrâneo (Isto é)

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Blogueiro do jornal O Estado de S. Paulo, o escritor Paulo Rosenbaum lança em São Paulo, nesta terça-feira, 17, o livro “Céu Subterrâneo”. Médico, pós-doutor em Ciência, poeta e romancista, Rosenbaum é também autor de “A verdade lançada ao Solo”, publicado em 2010.

O novo romance tem como pano de fundo o universo do judaísmo – se passa na cidade de Hebron, na Cisjordânia – e conta a história de um escritor que viaja para Israel em busca de suas raízes. O ‘herói acidental’ tem características particulares para tornar a leitura convidativa e cativamente.

O autor também publica crônicas e poesia no ‘Estadão’, no blog Conto de Notícia

Totens da Perplexidade (Jornal Rascunho)

Sujeitos indefinidos peregrinam nas nações entre benfeitorias sem transcendência, laicismos imprecisos. Não se veem campos, sinais de gritos, angústia das […]

> Por PAULO ROSENBAUM

Ilustração: Rafa Camargo

Sujeitos indefinidos
peregrinam nas nações
entre benfeitorias sem transcendência,
laicismos imprecisos.
Não se veem campos, sinais de gritos, angústia das vítimas
mas, em cada parada,
a cada pequena entranha,
e, dentro da floresta negra,
cavernas preservadas, coleções intactas, predação canônica
a seleção, naturalmente objetivada
pela negação de qualquer sentido.
Não interessa que não vistes,
(nem quem nunca viu),
não importa o alimento dos dizimados
nem quem fez menos silêncio
no vapor da constância.

Saberemos quando vivermos
fora dos esconderijos desacreditados
na sonolência programada
entre qualidades instáveis,
que estão, como nós, extintas.
Nos rios sem leito, paisagens sobre trilhos
no protocolo superado, a melancolia,
e enquanto o mundo repensa uma paz
os resíduos evaporados
fazem do sensorial
a travessia que importa.

No solo tingido,
como furos de flauta
alternam sons,
das curvas do mundo
na atenuação final das vidas.

Se estamos aqui, ainda e assim
permanecemos, no tempo exato
é que nossos olhos
retêm o não expresso
e, como trens, invadimos o mundo com troncos negros
que moem cores,
para fixar nelas,
a medida do carbono.

Da matéria que se impõe
e referenda o espírito,
subtraindo contextos das proporções extremas
atraídas à latitude da ilusão.

Estivemos nos olhos
respiramos nas noites de cristais
recusamos o esfacelamento e o genocídio com certezas do impossível.
Testemunhamos a violência do descuido,
até que a perplexidade
gere seus totens.

Paulo Rosenbaum

pauloRosenbaum-254x250

É médico e escritor. Autor de sete livros na área médica e organizador de outros dois. Publicou o romance A verdade lançada ao solo (Record). É colunista do Jornal do Brasil, na seção Coisas da política. Edita o blog Conto de notícia, publicado regularmente n’O Estado de São Paulo.

O direito ao sagrado

Filosofia & Ciências

02/01/2013

O direito ao sagrado*

Paulo Rosenbaum | Jornal do Brasil

Há um problema sério com a abordagem dos assuntos políticos no Brasil: são sempre os mesmos. Isso tolhe a criatividade dos articulistas e analistas. Na era geral da inconsequência, tudo vai virando uma coisa só. Observem que na guerra das versões o peso das palavras se emancipou do conteúdo, e tudo depende do poder de quem opina. Os argumentos não valem mais, o que conta é o cacife do partido, a força do time, as armas da facção. A verdade é que estamos perdendo a capacidade de análise e entramos de cabeça na guerra de versões. Ficamos reduzidos a um medíocre “contra e a favor”. O julgamento que exaustivamente comentamos já teve tanto o veredito de “político e fruto da mídia golpista” como “o país está sendo passado a limpo”. Como a verdade é um valor oscilante, o mais provável é que nem um nem outro.

Quem ainda pode aturar mensalão com seus círculos infernais? Sucedido por desmandos e conjuntura excepcional desperdiçada? Estamos carecas de saber que, unha e carne, poder e o mal feito chegaram às vias de fato. As mentiras e a negação sistemática são apenas desdobramentos do caos disparado quando se tenta normatizar o vale-tudo. Por isso mesmo temos que reconhecer, já deu. Se ainda prezamos o presente, nossa reinvindicação deveria ser mudanças profundas no bioma político-cultural.

Precisamos de gente que lidere sem se identificar com liderança, humanistas não catedráticos que capturem o que as pessoas sentem, planejadores que entendam o que fazem e legisladores que coloquem as gerações futuras em perspectiva. Não faria nada mal que os intelectuais falassem o não óbvio. Partidos que reconhecessem seus erros pelo bem coletivo. Pois, enquanto o poder republicano estiver nas mãos de gente que bate no peito e se comporta corporativamente, estamos condenados. Condenados a postergar um comportamento republicano.

Não se trata de achar que o passado é melhor que o futuro. Mas também não se trata de viver só pelo futuro. O presente não merece ser mero resíduo, aquilo que sobra do embate entre o que foi e o que será. Se fôssemos resumir nossa era: ganhamos agilidade, perdemos espontaneidade, adquirimos instrumentos científicos, perdemos a sabedoria, temos abundância do comum, nossa carência é do raro, individual e característico de cada um.

Estamos sendo esmagados, e entre as façanhas da produção incessante, o abusivo acúmulo de matéria e supérfluos. Criamos mais do que podemos consumir, enquanto nosso apetite vira insaciável. Mas não será desta vez que o mundo acabará, ainda que haja muito para moer e muitos moinhos por enfrentar.

O que hoje nos aflige coletivamente é a impossibilidade imediata de acesso ao bem-estar. Em qualquer de suas versões. Ele teria que ser palpável, mas não conduzido só pela realidade objetiva.

Em qual mundo podemos exprimir melhor nossas fragilidades, idiossincrasias e talentos? No do Manifesto Comunista? No planeta das lojas de grife? Quem sabe, entrando na competição selvagem, vestindo a camisa da empresa e dando rasteiras por cargos? Nos estádios de futebol, nas livrarias, nos templos? No filme Cosmópolis, um magnata yuppie qualquer, gênio das finanças, diante do tédio infinito, passa o dia criando demandas para preencher seu insuportável ócio. O filme pode ser controvertido, mas arranha uma metáfora oportuna. Há um oco extraordinário em nossa civilização, e, ao que se saiba, originalmente não nascemos empalhados.

No século marcado pelo ressurgimento das religiões e pelo renascimento de uma busca que transcende ideologias políticas, reina um sentimento paradoxal, difícil de assumir: pelo que lutar? Se nem mesmo as tradições podem oferecer respostas, tampouco sabemos se ainda as queremos. Decerto, não as mesmas de sempre. Estamos fartos das explicações standard da política, da autoajuda, do ceticismo e do fanatismo, do conservadorismo e da vanguarda. Nem a academia nem as artes acompanham a velocidade da sociedade. A alienação é um consolo, mas está longe de ser uma saída.

Que tal reconquistar um direito, que, por prurido intelectual ou endurecimento da alma, nunca foi reivindicado? O direito ao sagrado.


Esta notícia foi publicada no site Jornal do Brasil em 13 de Dezembro de 2012. Todas as informações nela contidas são de responsabilidade do autor.

Também publicado no site da Secretaria de Educação do Paraná. http://www.filosofia.seed.pr.gov.br/modules/noticias/article.php?storyid=474

Paternar (Blog Estadão)

Também publicado no portal da Glorinha Cohen

PATERNAR – POR PAULO ROSENBAUM

340_especial_1_1Paternar é sobretudo uma experiência transformadora que altera a percepção do dever individual e coletivo.


Não é infrequente que evoquemos o peculiar fenômeno superprotetor das mães italianas e judias e não existe esta correspondência para pais. É evidente que a paternidade tem ficado como um pano de fundo, um detalhe do mundo em uma era de ressignificação do papel dos gêneros. Há infinitas categorias de pais, há aquele que pregam que “tem que rir a cada 15 minutos”, pais proféticos, cientistas, estimuladores, críticos, artistas, aventureiros, construtores, plantadores, artesãos, instrutores, escritores, médicos e professores. Há, sob o espectro do pai, um sentimento que transcende a categoria de autor, na verdade a paternidade apresenta, paradoxalmente, um importante desapego à autoria. Diz-se na tradição judaica que o mundo só pode passar a ter autodeterminação quando o Pai celestial decidiu contrair-se. Não é fortuito que um movimento de recolhimento/expansão, o tzimtzum, também conhecido hoje como big-bang, tenha dado origem ao Cosmos.

Observemos o verbete pai na linguagem dos sinônimos: genitor, aba, gerador, autor dos dias de alguém, primogenitor e procriador. Sem contexto, pode-se facilmente confundir com uma visão opressiva do patriarcado. A paternidade tem ficado sob suspeita, junto com tudo que se refere aos temas da masculinidade. Mas nem tudo no masculino e na paternidade são subprodutos da cultura chauvinista e opressora. Há sinais antigos de que os homens buscam uma forma de compartilhar responsabilidades. Cita-se, por exemplo, um velho rito de solidariedade na cultura irlandesa na qual o marido simula sentir as dores do parto enquanto a mulher dá a luz.* Há, na paternidade, especialmente na contemporânea, aspectos desconhecidos, sequer pesquisados, que poderiam desinregecer o debate.** Pois há um novíssimo pai, aquele que vem emergindo através das mudanças sócio-culturais e que pode “paternar” dividindo direitos e deveres com a companheira.

Na minha experiencia pessoal, a paternidade apresentou a primeira grande revelação com as primeiras palavras das minhas filhas: “Mammãe”. Mais adiante, quando uma delas se referiu ao Criador como “Ela”. Se até o gênero do Onipresente estava em questão, ali já se antevia: o mundo paterno merecia mesmo uma requalificação.

O símbolo que caracteriza o pai é, sobretudo, o de um renunciador, alguém que escolhe anular-se para que os seus sucessores possam existir. Poder-se-ia ir mais longe e parafrasear Freud quando fala das mães, o bom pai é aquele que se torna aos poucos desnecessário.

Será?

A paternidade não é apenas uma efeméride que se encerra quando a autonomia filial toma corpo. Os pais adotivos mostram também que a colaboração genética é apenas um, provavelmente não o mais relevante tópico. Aspectos como prover, cuidar e proteger perduram simbolicamente para além da presença ou existência física daqueles que assumem os filhos. Paternar é, sobretudo, uma experiência transformadora que altera a percepção do dever individual e coletivo. E mesmo com tanta diversidade o que conta é a relação única que, como filhos, desenvolvemos com eles. Do ponto de vista do pai o mais espantoso é, mesmo sem usufruir a sensação de acolher filhos durante nove meses, é poder colaborar na geração de um dos frutos mais curiosos da natureza: sementes que podem viver e gerar árvores muito diferentes daquelas que lhes deram origem.

* **Cf. Rosenbaum, Silvia Fernanda R. “Permanência a Transformação, Paternidade na Revista Pais e Filhos” Dissertação de Mestrado, PUC-SP 1998.


Paulo Rosenbaum – Médico e escritor, assina a coluna semanal “Coisas da Política”, no JB – Jornal do Brasil.

Possui graduação em Medicina pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP-1986), mestrado em Medicina (Medicina Preventiva) pela Universidade de São Paulo (1999) e doutorado em Ciências pela Universidade de São Paulo (2005), pós doutor pela Universidade de São Paulo.(2010). Saiba mais.