Curva da Justiça (Estadão)

Colegas pressionam Celso de Mello a recusar embargos do mensalão

Curva da justiça

O que sairá deste último voto não é o inesperado. No país do carnaval, o surpreendente seria uma guinada magnífica, uma meia bicicleta que pegasse o goleiro de calças curtas.

Não resta a menor dúvida, somos mesmo um bando de leigos. Mas ainda podemos reconhecer quando estamos perto de cerol: linha perigosa que se faz com cacos de vidro moído. Esticada, está prestes a separar de golpe a técnica do sentido. Justo ou não, o trabalho de anos recaiu nas mãos de uma só pessoa. Ele terá o poder de selar destinos e, aos olhos de milhões, redesenhar a concepção de ética.  O decano que decidirá foi aquele que usou as palavras mais articuladas, precisas e enfáticas para se referir aqueles que tentaram sequestrar o Estado, monopoliza-lo ideologicamente para depois reduzi-lo a um parque temático partidário.

Alguém disse que não se importa com o que os jornais dirão amanhã. Mas não estará aí, precisamente, um dos equívocos sobre a representatividade de um poder republicano, o mais importante dentre todos? Ninguém precisa ter medo da mídia. As manchetes não são nem vilãs nem heroínas, apenas estampam o que, as vezes, não se pode enxergar do lado de lá dos gabinetes blindados.

O que os jornais dirão na próxima semana? Que somos um país alegre porque pessoas foram condenadas? Ou que somos uma nação em luto porque réus se safaram por decurso de prazo, leniência ou falseamento, mesmo que involuntário, das regras do jogo?

Ninguém deseja regressar à justiça das turbas que lincham. Ou que a corte submeta, ajoelhada, sua decisão à população. Mas não terá alguma razão quem não compreende por que o princípio de isonomia esteja prestes a ser massacrado? E se as garantias de ampla defesa implicarem em distorções incorrigíveis nos resultados? Se a decisão aceitar novo julgamento passará a mensagem chapa branca que circula no senso comum: alguns são realmente mais iguais que outros? O mais importante nas garantias constitucionais não seria assegurar a isonomia entre os cidadãos? Doravante, teremos todos direitos similares?

Nós, os leigos, endossamos: nada de julgamento político, nada de conflito de interesses. Proíbe-se jogar para satisfazer massas ou tergiversar para buscar garantias seletivas.

Em poucos dias o martelo final descerá. Decisão técnica ou com o espírito da justiça? Ambas devem ter suas razões. Mas são forças que, frequentemente, não conversam e seria muito melhor para todos que não estivessem em litígio.

O dilema moral está posto e raras vezes ele foi tão crucial para o futuro da democracia. Trata-se da restauração da ordem nos poderes, ainda refém da hegemonia do executivo e abalada pelas repercussões do golpe que, ao menos simbolicamente, ainda está vigente. Um cientista social chegou a chamar a expectativa pelos resultados do julgamento de histeria. Exagero. Mas talvez tenha sido só um sonho coletivo idiota. Pensem por um segundo no lado bom da coisa. A nova jurisprudência vai assegurar mais direitos para aqueles que tiverem folego financeiro para recorrer. Resta saber se isso é fazer o ponto voltar para dentro da curva ou eternizar o retardo da justiça.

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Transparência privada e outras opacidades (Estadão)

 Aposentem os espiões

Transparência privada e outras opacidades

Além da notoriedade, que outras características pessoas famosas precisam ter para merecer nossa veneração? Nenhuma. Basta que alguém lhes siga, compartilhe aos milhões, e sejam citados na mídia milhares ou centenas de milhares de vezes.

Pois é esse combustível que, paradoxalmente, leva à abulia crônica na qual nos metemos todos. Aquela que nem os mais poderosos psicofármacos são capazes de corrigir, já que a correção demanda elevação do discernimento, não sua eliminação.

Mas há sim uma função social na adoração das celebridades: contingenciar a imobilidade psicológica das massas. Por aqui, com a mobilidade social provisoriamente assegurada, será preciso lembrar que mais recursos financeiros garantem apenas acúmulo de bens, não patrimônio cultural.

Fotografado com beldades em sua banheira de ouro puro, uma destas celebridades internacionais do mundo musical recém explicou: o negócio é fazer com que acreditem que “eles sou eu”.

Parece que funciona. Variações de cultura? Maia, o mundo da ilusão, é, para a cultura hindu, o próprio equívoco. Mas para a nossa serve bem. Para quem quer popularidade a todo preço é uma forma de fidelizar a clientela.

É óbvio que quanto mais se expõe uma personalidade pública, menos privacidade terá. Mas é esse o negócio. Isso é vendido pela indústria da mídia como vantagem. E o que isso tem a ver com espiões? O enorme aparato de escutas, monitoramento e repressão que foi montado a fim de deixar a vida privada desnuda, tem a missão colateral de acobertar a esfera pública.

É assim que a fórmula se fecha: transparência privada/opacidade pública.

Vêm bem a calhar a polêmica sobre o vai-não-vai de Snowden. Não é porque estamos sob holofotes que ameaçam a vida privada que precisamos eleger espiões profissionais e delatores como grandes defensores das liberdades civis.

Há uma avaliação errônea, sobretudo precoce, ao apontá-los como heróis. Repete-se a ingênua celebrização de Assange,– que se recusa a responder aos processos de agressão sexual na Suécia — e agora se encontra sob a proteção do notório perseguidor de jornalistas equatoriano. O resultado final é que, ironicamente, tanto Snowden como Assange devem se tornar popstars sem a menor chance de voltar a usufruir privacidade. E quem foi que disse que é isso que desejam com a perspectiva de publicar best sellers.

Antes de se tornar um business, a fama vinha junto com a maldição da exposição, do narcisismo, do hipnotismo de espelhos. Para em nossos dias quem precisa estar sempre em evidencia serve tanto o escândalo como o boato.

O marketing político não apenas usa, conta com fatos diversionistas para obnubilar eventos mais sérios. Claro que, no caso de Snowden o que ajudou a propagar a indignação mundial não foi só a invasão das privacidades e a deplorável pressão sobre o avião presidencial boliviano. O motor da onda de espanto pelas injustificáveis violações que todos os adultos do mundo occidental estavam cansados de saber, só pode ser explicado pelo gana antinorteamericana, uma das grandes religiões contemporâneas.

Espiões arrependidos são perigosos para todos e costumam ser mais comprometidos que seus mandantes.

Confirmando o entendimento pouco criterioso deste tópico, o mais comum é acusar a imprensa de golpista e tendenciosa. Se é esse o caso, vamos lembrar da contrapartida, há também uma imprensa chapa branca e acrítica. É preferível acreditar que nada seja tão preto no branco. A tarefa de formar a opinião pública é simplesmente supragovernamental e transpartidaria, portanto incompatível com adulação e subserviência ao poder. A imprensa precisa se concentrar em exercer seu insubstituível papel social: informar e opinar criticamente.

Pró ou contra, o foco essencial deve ser restabelecer a crítica. A crítica que o poder não se faz. A crítica que a oposição não pode fazer. Traduzir as vozes que as ruas exprimem hoje com os protestos.

Por isso seria de grande importância examinar o culto à personalidade. Vale para as artes e para a política.Que tal começar a pensar quem são os que ganham com a abolição da crítica e da análise?

Definitivamente, calar a boca não é mais uma opção.

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Mais médicos ? 3

Entidades médicas criticam ações do governo para a saúde e se dizem surpresas

Estudante de medicina terá de atuar no SUS; entidades criticam

Cursos terão 8 anos de duração; representantes da classe veem proposta como ‘paliativa e demagógica

 

Curso de medicina passará de 6 para 8 anos de duração a partir de 2015

 

 

As manifestacoes que esbofetearam analistas, estrategistas e marqueteiros ainda tentam conservar um pouco da aura romantica  e da naturalidade.  Destarte fica nítido que lhes falta a força de uma direção, de uma canalização mais eficiente. Como tudo, sabe-se que o lirismo perdido daria lugar a maior eficiência. Melhor manter a fantasia.

Afoito, desmedido, inoportuno e seletivo o governo tenta reagir ao clamor difuso com soluços. Mas ninguém contorna inação, má gestao e desejo de hegemonia com medidas frenéticas e reducionistas.

Além de um timing duvidoso e das assincronias o que falta ao poder  é imaginação. A criatividade é que repercute nas expectativas das pessoas. A falta dele nos exaure.

Sem perspectivas, ainda estamos a mercê de acordos feitos nas cúpulas. No lugar da verdadeira escuta os diálogos privilegiam os movimentos organizados e sindicatos e partidos. Falta o principal: aquelas  pessoas comuns, resgatadas da pobreza, recolocadas no cardápio social, e que agora desejam algo além do paternalismo subserviente de Estado. O desejo de consumo é um item em escassez no mercado : a dignidade da escuta.

Uma vez que ela foi esnobada,  esperava-se um enfoque suprapartidário e transgovernamental. Também não aconteceu. O partido não permitiu. Pactos  se costuram sob interesses, o que só faz aumentar o combustível para os desvios. E o mal estar não se cala quando se sente manipulação, ele fica sob descontrole.

Passar cursos de medicina para 8 anos ao invés dos 6 atuais é um espelho perfeito da cadeia de equívocos. O motivo alegado agora não é mais aquele original, ou seja, a de que não seria para suprir a falta de médicos mas de impedir ou desestimular a especializaçao precoce. Ora, a especialização precoce tem causas com raízes mais infiltradas que não se resolvem com as canetas alienadas dos gabinetes de Ministros.

Essas mudanças erráticas e a sistemática repetição de improvisos além de não inspirarem seriedade desnudam a falta de planejamento de longo prazo e mostram o desespero para alavancar candidatos a qualquer preço.

Mudar a mentalidade de formação precoce de especialistas é estimular a medicina preventiva e melhorar as condições de trabalho dos clínicos gerais. Como justificar isso quando se construiu por aqui o mito de que mais saúde significa mais hospitais, medicamentos subsidiados, disponibilidade de exames e procedimentos de alta complexidade além de clínicas especializadas com pesada hotelaria?

Mudanças deste porte demandam tempo e acordos. Portanto dependem antes de mudanças profundas e estruturais nos currículo das escolas de medicina e talvez até de uma mudança na mentalidade. Refiro-me à educação em saúde da própria  população.

Mais médicos? 2

Primeira leva de médicos cubanos chega a Recife em clima de festa

Para além dos cubanos: o totalitarismo de resultados

A polêmica do programa mais médicos agora se direciona francamente ao ideológico. E, a rigor, talvez não seja exatamente um erro, mas um enfoque problemático. Pesquisas encomendadas pelo governo mostram aprovação da vinda de profissionais de outros países, mas está no mesmo escopo da pesquisa que traz a pergunta “você é a favor do combate a corrupção?”ou  “concorda com uma reforma que modernize o país?”. Quem acha que as pessoas não apreciariam que todos tivessem atendimento médico decente? Está na constituição, consta que é um motivos da existência do SUS, enfim, uma das poucas coisas em que há consenso é que a medicina não pode ser submetida às estruturas econômicas mercantilistas.

Então por que tanta polêmica com a vida dos estrangeiros e particularmente dos cubanos? Em debate o ex-ministro da saúde disse que eles viriam por “questões humanitárias”. Questões político-partidárias teria sido uma resposta mais próxima da sinceridade.

Na verdade, tudo isso estava sendo articulado bem antes das manifestações, especialmente com dirigentes da ditadura cubana. O governo federal só esperava a oportunidade propícia para anunciar o convênio secreto. E achou que a teria achado em meio aos dias de pressão máxima, quando as manifestações e o desafio ao poder atingiram o perigeu.

O problema é menos que estes médicos estão vindo em condições legalmente suspeitas, e muito mais os critérios adotados por um poder que acha que pode passar por cima de todas as instituições que representam a sociedade para fazer valer sua vontade através de medidas provisórias. A palavra certa para os empreendimentos desta administração. Provisoriedade. Desprezo pelos critérios técnicos, manipulação da opinião pública e troça à seriedade institucional. Esta é a história natural das medidas cosmético-populistas do lulo-lulismo que gradualmente substitui o lulo-petismo.

Nem merece voltar a discutir que os 400.000 médicos pátrios já seriam suficientes para satisfazer os critérios recomendados pela OMS, ou de que não ajuda muito que estes profissionais sejam agraciados com um regime especial e passem por cima das avaliações e certificações dadas pelas instituições médicas de ensino. Exigências conquistadas à duras penas e que sempre visaram proteger a população. A única forma de poder aferir habilidades e a capacidade de gente que cuida da saúde para oferecer atendimento decente. Na radicalidade, pode-se afirmar que atendimento médico mal feito pode ser pior do que nenhum.

Tudo isso é periférico frente à questão central, obscurecida por picuinhas insignificantes. O que vale mesmo ser discutido é o totalitarismo de resultados que o executivo implementa no país, visando angariar votos e projetar-se adiante através de medidas-tampão. Trata-se de mais um lance de teor autoritário que evidencia o desprezo pelo debate e outro golpe baixo desferido contra o diálogo.

Entre as cartas à redação que o jornal recebeu, estava uma que dizia algo como “nem que estes médicos fossem mudos deveriam vir para tentar melhorar os indicadores de saúde”.

Mas não é a mudez que preocupa, o perturbador é a surdez coletiva aos desmandos.

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Mais Médicos ?

Espanhóis, portugueses e argentinos são maioria no Mais Médicos

A saúde pública no Brasil é precária e os contrastes mais evidentes estão nos grandes centros urbanos. Hospitais que disponibilizam procedimentos de alta complexidade se associam a UBS (unidades básicas de saúde) com atendimentos que oscilam em performance, regularidade e infraestrutura. Em um posto de saúde, falta material de sutura, menos de dez quadras atrás um hospital privado com equipamentos de última geração. O sofisticado convive com o precário e o supérfluo muitas vezes ocupa o lugar do básico.

Para além da desigualdade social do País, convenhamos que a situação acima descrita não é de hoje nem se trata de erro de planejamento recente. Há muito tempo relegou-se o atendimento primário e ambulatorial e deu-se preferência e prioridade aos planejamentos que davam visibilidade a uma saúde publica centrada nos atendimentos secundários e de cunho hospitalocêntrico. Era mais do que imperícia de planejamento, tratava-se de uma estratégia de marketing que traria mais dividendos políticos. A lógica de que a carência no setor era de especialistas invadiu até os tradicionais critérios ambulatoriais, por excelência redutos da atenção primária, e alguém teve a ideia de ofertar clínica de especialidades nestes mesmos locais.

Apesar de precária, a rede publica de saúde apresentou avanços nos últimos 20 anos. A  expansão da oferta de medicamentos subsidiados, o aumento da capacidade de atendimento e um incremento na infraestrutura se fizeram sentir. O PSF, programa de saúde da família foi, dentre todos os programas, um dos mais bem sucedidos porque associou o conceito de saúde comunitária descentralizado com os critérios de atenção primária. Em termos de investimentos em saúde medicina até 2000 o Brasil investia U$ 107/ano e hoje atingimos U$466/ano contra uma média mundial de U$ 571/ano. Ouvimos sempre que este é o possível para se oferecer para a população. Porém quem se dá ao trabalho de debruçar sobre as planilhas, nota que o contexto todo cria um contraste desfavorável. Estamos muito aquém do possível.

Diante dos recursos disponíveis e de uma das cargas tributárias mais elevadas do mundo, os investimentos, mesmo crescentes, encontram-se muito longe das reais necessidades da população e das possibilidades concretas do Estado.

O Pais é carente tanto de hospitais como de UBS, e decerto a concentração de médicos na região Sul-Sudeste é estatisticamente evidente. Entretanto, o número de médicos por cada 1000 habitantes está relativamente adequado para nossa população[1] conforme os dados atualizados até 2011 pelo Banco Mundial e a OMS.

A recente iniciativa do governo federal de estimular a ida de médicos para áreas e municípios que apresentam carência de assistência médica foi tumultuada desde o início. O programa “Mais Médicos” anunciado pelo Ministério da Saúde poderia ser  até acolhido pelas organizações médicas e pela sociedade se não tivesse vindo sob a forma de pacote. O anúncio lembrou a fase do entulho autoritário que nos impingia medidas goela abaixo durante a ditadura. Ou alguém ainda acha que a gritaria de todas as associações médicas e dos médicos foi apenas uma idiossincrasia de classe?

Tudo sempre esteve construído no afogadilho, era para ser a resposta oficial do poder federal às manifestações. Não é só que pegou mal. O timing do anúncio também não ajudou. E agora aparece escancarado o motivo:  Lula lançou o ministro como candidato. A falta de transparência e a construção de uma plataforma política sob o uso de um tema que aflige muito as pessoas não só não passou despercebida pela opinião pública, como o registro de jogada será memorizado. Mais uma prática arrivista do governo para faturar votos. Além disso, o anuncio inicial de que o “mais médicos” iria abonar o exame conhecido como “revalida” para os profissionais de saúde de outros países causou espécie nos meios institucionais que representam as categorias de saúde.

Todos que estão envolvidos com educação e, mais especificamente com o aprendizado médico, sabem que não se trata de mera exigência burocrática. Países dispares em desenvolvimento como Bolívia, Colômbia, Austrália, Canada e Turquia aplicam rigorosos exames a quaisquer profissionais médicos que queiram atuar em seus respectivos territórios.

Neste sentido, qual seria o problema em adotar um critério isonômico? Por que não exigir que quem quer que queira atender a população brasileira deve se submeter ao crivo de uma prova de aptidão de linguagem – fundamental – além de um exame teórico-prático? Agora afirma-se que eles serão sim examinados, mas a desconfiança paira sobre cada sílaba desse discurso volátil do executivo. Com quais critérios? Quem controlará já aqueles que entendem de pedagogia médica estão a priori alijados do processo? No delicado campo da saúde humana pressa jamais foi justificativa razoável a não ser para remendar equívocos de planejamento.

Resistentes e desconfiadas, as entidades médicas estão sendo acusadas de corporativistas. Provável, (não menos que os sindicatos e outras categorias profissionais) mas isso tampouco autoriza governo algum a “queimar” etapas para impingir um programa repleto de lacunas estruturais.

O início impunha aos estudantes de medicina que estagiassem no SUS por dois anos – agora reformulado para serviços que funcionariam para residência médica. Tremendo equivoco pedagógico. Somente uma reformulação da educação em ciências da saúde mudaria tal cenário. Não se trata só de repaginar a grade curricular acadêmica, mas antes de treinar e triar melhor os talentos. Uma pedagogia que privilegie a prática generalista, a medicina preventiva e a atenção primária se não cria, ao menos propicia um clima de atuação mais solidária, de mais integração social entre cuidadores e cuidados.

E, neste caso, a vivencia do atendimento comunitário poderia despertar nos estudantes o desejo de vivenciar a medicina social e criar o interesse por um plano de carreira para que seu contato com a população usuária do SUS não fosse apenas uma temporada de serviço obrigatório. Sob um plano razoável de remuneração e infraestrutura habilidades e talentos seriam triados e muitos desejariam permanecer como profissionais de saúde no SUS. Um trabalho duro, desgastante e insalubre como é a atividade médica precisa ser estimulante. E o estímulo de um médico é enxergar melhora da vitalidade das pessoas, isso demanda tempo e contato permanente. Rodízios exagerados ou temporadas tampão não vingam.

Um dos sucessos da medicina comunitária é precisamente o incremento da relação entre médicos, cuidadores e as famílias.  Ou personalizar o atendimento deve ser uma regalia reservada aos usuários dos caros e inacessíveis planos de saúde privados?

Se, de fato, houvesse interesse em aprimorar o sistema de saúde público — isso  beneficiaria indiretamente também usuários de sistemas de saúde complementar  – e todas as instituições médicas e entidades ligadas à saúde deveriam ser convocadas. A Associação Brasileira de Ensino Médico seria uma presença imprescindível e decerto daria importante contribuição para adensar propostas menos provisórias, e mais criteriosas.

Como bem sabem os arquitetos, as reformas as vezes são mais complicadas que demolições completas. É que quanto mais se remenda mais estranho fica o cenário. Diretrizes de políticas públicas tão importantes não podem ser sanadas com esparadrapos.

[1] http://data.worldbank.org/indicator/SH.MED.PHYS.ZS

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Censura sem fim (Estadão)

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Censura sem fim

Para Ruy Mesquita

– O jornal está censurado?

– O termo é um pouco forte. Está sob monitoramento conteudístico.

– Ah! E o que vêm a ser isso?

– Verificaremos todos os dias se o Sr. não está mencionando o nome da pessoa que não deve ser mencionado. Nem fazer referências alusivas, veladas, simbólicas, metafóricas ou alegóricas a eles. Leremos de cabo a rabo buscando menções indiretas que possam identifica-los.

– Censura!

– Depende como o Sr. quer chamar. Censura era na ditadura. Chame de outro nome.

– Verrinário, exprobrador, inconcepto, todos eles se quiser.

– Vocês colocavam a receita de bolo e os Cantos dos Lusíadas. Era engenhoso e todo mundo sabia que a tesoura passou ali. Eu ainda era criança, mas meu pai me dizia o que era.

Leia no Blog “Conto de Notícia” no Estadão

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Bonus de criatividade (Estadão)

Governo estuda punir mascarados em protestos com até dez anos de prisão

Soldadinhos subsidiados estão a postos para a net conferência. Atentos, todos puderam ouvir a preleção da chefia: pessoal, destruam apenas “objetos simbólicos do poder econômico”

No dia marcado todos apareceram na sede. Até que eles estavam quietos quando o holerite vivo começou a circular. Afinal, em tempos de capitalismo selvagem deve haver algum grau de acomodação (eles preferem chamar de adaptação provisória) das idiossincrasias contra o dinheiro.

Bandeja esvaziada, abriu-se espaço para perguntas da plateia. Superado o constrangimento inicial, lá pelas tantas, alguém  levantou a mão e o líder do partido, distribuidor de cachês e guia ideológico o atendeu sem muito entusiasmo

– Pode perguntar.

– Tem extra?

– Extra?

– É tio, hora extra.

– Não, nem carteira assinada!

– Mas e aquele papo de “produtividade”?

– Reavaliamos a proposta. Isso ai não vai ser possível.

– Mas não é justo. Eu visto a camisa. Na última desci o cassete, meti porrada e arregacei o dobro da moçada. Viu o filminho? E agora vocês vêm com essa merreca? Não, não, não  tem condição.

– Filho, usamos doações e verba partidária, por enquanto não vai dar para pagar bônus de produtividade.

– Ô tio, ai complica! Não dá para bolar outra coisa?

– Vamos pensar, vamos pensar…

(Em sua cabeça o slogan já estava formulado:  “índice de destruição patrimonial”. Ele achava que era bom nisso)

– Sua sugestão irá para a plenária.

 –Dá esse força aí! Fala lá que é investimento, avisa que tem que colocar a mão no bolso se eles querem ver o circo pegar fogo.

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Postes em branco (Estadão)

 

Havana critica ações ilegais dos EUA após criação de ‘Twitter cubano’

Ser informado instiga? Ter acesso ao conhecimento subverte? Há limites éticos para produzir acesso universal à informação? Quais as fronteiras éticas entre esclarecimento, convencimento e persuasão?

Durante a segunda guerra folhetos antinazistas, alguns redigidos por escritores como Thomas Mann, foram lançados sobre as populações da Alemanha nazista. O longo e icônico poema “Liberdade, eu escrevo teu nome” de Paul Eluard, contrabandeado para o Reino Unido, teve as estrofes impressas alguns anos depois de terem sido escritas, para serem lançadas pelos aliados sobre a França ocupada.

Guardadas as devidas proporções, guerra de informação sempre foi um front. Hoje, algumas campanhas que viriam a calhar se os países que gozam liberdades democráticas pudessem informar habitantes de outros territórios dessa preciosa qualidade. Que boa notícia saber que não seremos reduzidos a sucursais do Estado.

Sugestão de campanhas imediatas para países com censura: aspergir folhetos com cortes de cabelo revolucionários sobre a Coreia do Norte. Pulverizar países fundamentalistas, onde mulheres estão proibidas de dirigir, com imagens fortes de ocidentais ao volante. O mais prático serão drones descarregando panfletos.

Em outros lugares, é mais prático infestar o ciberespace com mensagens eletrônicas. Sobre o Caribe, informar aos hermanos sobre a existência de regiões curiosas, onde existe revezamento de poder, mais de um partido e liberdade de expressão.

Aos venezuelanos, diante dos apagões, será necessário recorrer as faixas nas ruas, nelas, pediremos perdão por nossa vergonhosa omissão. Para brasileiros usuários de internet, mais próximo das eleições, um recado conciso, mas de grande valor: alertar sobre cheques e postes em branco.

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A Paz começa com perguntas. (Estadão)

Paulo Rosenbaum

terça-feira 22/07/14

É preciso alguma frieza para exercer a autocrítica em meio ao fogo, mas também é preciso saber que nem tudo que sua tribo faz está correto, só porque é sua tribo. Em muitos aspectos o governo de Israel pode estar errando, mas o julgamento não pode se assentar na acusação de fazer a defesa da […]

É preciso alguma frieza para exercer a autocrítica em meio ao fogo, mas também é preciso saber que nem tudo que sua tribo faz está correto, só porque é sua tribo. Em muitos aspectos o governo de Israel pode estar errando, mas o julgamento não pode se assentar na acusação de fazer a defesa da população de ataques violentos. Para quem quer discutir a questão do ponto de vista legal, leia o artigo de Christopher Greenwood, “Self Defense” na Enciclopedia Max Planck de Leis Internacionais. Num País com democracia estável e com muitas vozes, a praxe é falta de consenso. Isso colocado, a demonização a qual Israel — e, por tabela, judeus — estão sendo submetidos só não é sem precedentes, porque o holocausto é, em termos históricos, um evento recente. Não bastasse a desproporcional quantidade de citações desqualificadores de Israel nas redes sociais e na mídia, o abuso de comparações descabidas, o discurso agora está centrado na ideia de que a injustiça está na desproporcionalidade das forças. Só por má consciência, ignorância ou incapacidade intelectual de discernimento um País que tem um milhão e meio de árabes israelenses, a maioria muçulmana, poderia ser acusado de limpeza étnica ou genocídio, sem gerar escândalo. Mas não só ele não aconteceu como a acusação vêm sendo replicada e endossada por intelectuais. A maioria são aqueles de sempre, que tem uma militância (desconfie sempre deste gênero) que parece apagar os traços de treinamento na arte de pensar. Essa situação chega a ser mais grave do que a própria guerra, porque reedita o apoio aos períodos em que os povos eram ritualisticamente demonizados. Para a maioria, a distinção entre antissionismo e antissemitismo tornou-se apenas retórica. Entretanto, quem precisa ser convencido da desproporcionalidade não são as forças de defesa de Israel, mas as lideranças que se ocupam em espalhar o terror. Quem contesta, que então defina melhor: o que significa construir túneis embaixo de hospitais, mesquitas e centros residenciais? O que representa para essas pessoas manter foguetes nos céus dirigidos especificamente contra populações civis? E é precisamente esse o ponto central. Muito provavelmente Israel aceitaria o cessar fogo e a abertura de fronteiras. Desde que se garantisse que o fluxo de armas, mísseis e material bélico fosse substituído por alimentos e infra estrutura para os habitantes de Gaza. E quem pode garantir isso? A ONU? Os EUA? Os países da Península? A Comunidade Europeia? Ontem, um dos líderes do Hamas condicionou a trégua ao direito de resistir. Chegaríamos ao seguinte paradoxo, e preparem-se para o nonsense: reivindicam do algoz a liberdade de obter aparatos e tecnologia bélica para ataca-lo. Curiosamente, Israel vem sendo pressionado neste sentido! Mesmo correndo o risco de ser deslegitimado, a contradição apontada tem a estranha mania de sobreviver às personalizações. É inusitado que os esforços pela legítima defesa dos civis de um País sejam colocados em cheque, só porque no imaginário social os habitantes deste País tenham propensão ao sacrifício diante de quem explicita seu desejo de extermínio.São tempos nos quais já é impossível acreditar que quaisquer esforços racionais sejam suficientes para demover quem já tem todas as respostas. A paz começa com perguntas.

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Fé no Estado Laico (Estadão)

Ninguém precisa de poesia. Como apontam pragmáticos e inimigos da subjetividade, talvez ela não sirva para nada. Ainda assim, palavras tem o potencial para nos livrar de uma trama sinistra, da qual o senso comum nem desconfia.
Por trás de toda fanfarra totalitária está o elemento que ninguem previu. Para que um Estado totalitário se instale é preciso contar com algo além da cegueira das maiorias. Tampouco bastam ideólogos e intelectuais de arrimo, os sustentáculos acadêmicos do regime. No debate numa grande Universidade sobre os recentes protestos pode-se perceber o mal estar quando alguém da plateia perguntou:
–E os intelectuais? Como se posicionam nesta história toda? (das manifestações maciças por todo País)
Entre pigarros e acenos para o chão, a sala se encheu de constrangimento. Tudo devidamente racionalizado com as indevidas evasivas.
A rigor só há uma função decente para intelectuais, assim como para a imprensa: vigiar e cobrar o poder de suas responsabilidades. Não importa quem governe. Aliás, o vigor da academia e da informação está na crítica, não na aquiescência, jamais na cumplicidade. Tudo que deviam evitar é chapa branca e uniformes dos partidos.
Mesmo agora, depois da perplexidade inicial o núcleo duro que dá respaldo ao governo não parece arredar pé. Escolheram sustentar o engano a consentir e proceder uma revisão vital. Para muitos deles, assumir erros é capitular, examinar erros é fraqueza e a autocrítica não passa de punição. Mas qual é a ciência que se sustenta sem elas?
A reação da legião uniformizada surpreende mesmo os mais pessimistas. Esperava-se que diante da claríssima contestação popular, pudessem conceder que houveram desvios graves. A flexibilidade doutrinária seria enxergar que todos fomos grosseiramente ultrapassados pelos fatos.
Sempre que bem pensantes se alinharam a projetos hegemônicos de poder a história os desmascarou. Salvo exceções, a análise retrospectiva mostrou que estavam do lado errado: muitos deram legitimidade para o uso do poder contra a população e a sociedade. Os que resistiram aos conluios não sobreviveram inteiros.
Sem generalizar, ninguém se exime de omissão. Estiveram respaldando os partidos que agora negam tudo para se livrar dos apuros em que nos meteram.
Por intuição, sabíamos que o poder esteve tentado a usurpar direitos individuais a fim de atender supostas necessidades coletivas. Para tanto foi necessário que se criasse o sentimento de servidor da pátria. Só que a ousadia vêm ultrapassando todos os limites razoáveis. Promulgou-se o decreto de que doravante categorias profissionais serão escaladas para a semi-escravidão. É muito significativo que tenham escolhido estudantes de medicina para suprir inépcias crônicas de seguidas administrações federais. No mínimo, há flagrante violação da constituição federal e das leis do trabalho escravo sancionada pela OIT do qual o Brasil é signatário. Em teoria, o servidor, antes de ser reduzido pelos administradores a uma unidade vigiável com RG, teria sido um cidadão de carne e osso, com direito à liberdade, autodeterminação e privacidade.
Isso significa mais ou menos o seguinte; a educação totalitária – a qual testemunhamos — precede o estado totalitário – cuja instalação está sendo cozida no vapor.