Mais Médicos ?

Espanhóis, portugueses e argentinos são maioria no Mais Médicos

A saúde pública no Brasil é precária e os contrastes mais evidentes estão nos grandes centros urbanos. Hospitais que disponibilizam procedimentos de alta complexidade se associam a UBS (unidades básicas de saúde) com atendimentos que oscilam em performance, regularidade e infraestrutura. Em um posto de saúde, falta material de sutura, menos de dez quadras atrás um hospital privado com equipamentos de última geração. O sofisticado convive com o precário e o supérfluo muitas vezes ocupa o lugar do básico.

Para além da desigualdade social do País, convenhamos que a situação acima descrita não é de hoje nem se trata de erro de planejamento recente. Há muito tempo relegou-se o atendimento primário e ambulatorial e deu-se preferência e prioridade aos planejamentos que davam visibilidade a uma saúde publica centrada nos atendimentos secundários e de cunho hospitalocêntrico. Era mais do que imperícia de planejamento, tratava-se de uma estratégia de marketing que traria mais dividendos políticos. A lógica de que a carência no setor era de especialistas invadiu até os tradicionais critérios ambulatoriais, por excelência redutos da atenção primária, e alguém teve a ideia de ofertar clínica de especialidades nestes mesmos locais.

Apesar de precária, a rede publica de saúde apresentou avanços nos últimos 20 anos. A  expansão da oferta de medicamentos subsidiados, o aumento da capacidade de atendimento e um incremento na infraestrutura se fizeram sentir. O PSF, programa de saúde da família foi, dentre todos os programas, um dos mais bem sucedidos porque associou o conceito de saúde comunitária descentralizado com os critérios de atenção primária. Em termos de investimentos em saúde medicina até 2000 o Brasil investia U$ 107/ano e hoje atingimos U$466/ano contra uma média mundial de U$ 571/ano. Ouvimos sempre que este é o possível para se oferecer para a população. Porém quem se dá ao trabalho de debruçar sobre as planilhas, nota que o contexto todo cria um contraste desfavorável. Estamos muito aquém do possível.

Diante dos recursos disponíveis e de uma das cargas tributárias mais elevadas do mundo, os investimentos, mesmo crescentes, encontram-se muito longe das reais necessidades da população e das possibilidades concretas do Estado.

O Pais é carente tanto de hospitais como de UBS, e decerto a concentração de médicos na região Sul-Sudeste é estatisticamente evidente. Entretanto, o número de médicos por cada 1000 habitantes está relativamente adequado para nossa população[1] conforme os dados atualizados até 2011 pelo Banco Mundial e a OMS.

A recente iniciativa do governo federal de estimular a ida de médicos para áreas e municípios que apresentam carência de assistência médica foi tumultuada desde o início. O programa “Mais Médicos” anunciado pelo Ministério da Saúde poderia ser  até acolhido pelas organizações médicas e pela sociedade se não tivesse vindo sob a forma de pacote. O anúncio lembrou a fase do entulho autoritário que nos impingia medidas goela abaixo durante a ditadura. Ou alguém ainda acha que a gritaria de todas as associações médicas e dos médicos foi apenas uma idiossincrasia de classe?

Tudo sempre esteve construído no afogadilho, era para ser a resposta oficial do poder federal às manifestações. Não é só que pegou mal. O timing do anúncio também não ajudou. E agora aparece escancarado o motivo:  Lula lançou o ministro como candidato. A falta de transparência e a construção de uma plataforma política sob o uso de um tema que aflige muito as pessoas não só não passou despercebida pela opinião pública, como o registro de jogada será memorizado. Mais uma prática arrivista do governo para faturar votos. Além disso, o anuncio inicial de que o “mais médicos” iria abonar o exame conhecido como “revalida” para os profissionais de saúde de outros países causou espécie nos meios institucionais que representam as categorias de saúde.

Todos que estão envolvidos com educação e, mais especificamente com o aprendizado médico, sabem que não se trata de mera exigência burocrática. Países dispares em desenvolvimento como Bolívia, Colômbia, Austrália, Canada e Turquia aplicam rigorosos exames a quaisquer profissionais médicos que queiram atuar em seus respectivos territórios.

Neste sentido, qual seria o problema em adotar um critério isonômico? Por que não exigir que quem quer que queira atender a população brasileira deve se submeter ao crivo de uma prova de aptidão de linguagem – fundamental – além de um exame teórico-prático? Agora afirma-se que eles serão sim examinados, mas a desconfiança paira sobre cada sílaba desse discurso volátil do executivo. Com quais critérios? Quem controlará já aqueles que entendem de pedagogia médica estão a priori alijados do processo? No delicado campo da saúde humana pressa jamais foi justificativa razoável a não ser para remendar equívocos de planejamento.

Resistentes e desconfiadas, as entidades médicas estão sendo acusadas de corporativistas. Provável, (não menos que os sindicatos e outras categorias profissionais) mas isso tampouco autoriza governo algum a “queimar” etapas para impingir um programa repleto de lacunas estruturais.

O início impunha aos estudantes de medicina que estagiassem no SUS por dois anos – agora reformulado para serviços que funcionariam para residência médica. Tremendo equivoco pedagógico. Somente uma reformulação da educação em ciências da saúde mudaria tal cenário. Não se trata só de repaginar a grade curricular acadêmica, mas antes de treinar e triar melhor os talentos. Uma pedagogia que privilegie a prática generalista, a medicina preventiva e a atenção primária se não cria, ao menos propicia um clima de atuação mais solidária, de mais integração social entre cuidadores e cuidados.

E, neste caso, a vivencia do atendimento comunitário poderia despertar nos estudantes o desejo de vivenciar a medicina social e criar o interesse por um plano de carreira para que seu contato com a população usuária do SUS não fosse apenas uma temporada de serviço obrigatório. Sob um plano razoável de remuneração e infraestrutura habilidades e talentos seriam triados e muitos desejariam permanecer como profissionais de saúde no SUS. Um trabalho duro, desgastante e insalubre como é a atividade médica precisa ser estimulante. E o estímulo de um médico é enxergar melhora da vitalidade das pessoas, isso demanda tempo e contato permanente. Rodízios exagerados ou temporadas tampão não vingam.

Um dos sucessos da medicina comunitária é precisamente o incremento da relação entre médicos, cuidadores e as famílias.  Ou personalizar o atendimento deve ser uma regalia reservada aos usuários dos caros e inacessíveis planos de saúde privados?

Se, de fato, houvesse interesse em aprimorar o sistema de saúde público — isso  beneficiaria indiretamente também usuários de sistemas de saúde complementar  – e todas as instituições médicas e entidades ligadas à saúde deveriam ser convocadas. A Associação Brasileira de Ensino Médico seria uma presença imprescindível e decerto daria importante contribuição para adensar propostas menos provisórias, e mais criteriosas.

Como bem sabem os arquitetos, as reformas as vezes são mais complicadas que demolições completas. É que quanto mais se remenda mais estranho fica o cenário. Diretrizes de políticas públicas tão importantes não podem ser sanadas com esparadrapos.

[1] http://data.worldbank.org/indicator/SH.MED.PHYS.ZS

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Censura sem fim (Estadão)

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Censura sem fim

Para Ruy Mesquita

– O jornal está censurado?

– O termo é um pouco forte. Está sob monitoramento conteudístico.

– Ah! E o que vêm a ser isso?

– Verificaremos todos os dias se o Sr. não está mencionando o nome da pessoa que não deve ser mencionado. Nem fazer referências alusivas, veladas, simbólicas, metafóricas ou alegóricas a eles. Leremos de cabo a rabo buscando menções indiretas que possam identifica-los.

– Censura!

– Depende como o Sr. quer chamar. Censura era na ditadura. Chame de outro nome.

– Verrinário, exprobrador, inconcepto, todos eles se quiser.

– Vocês colocavam a receita de bolo e os Cantos dos Lusíadas. Era engenhoso e todo mundo sabia que a tesoura passou ali. Eu ainda era criança, mas meu pai me dizia o que era.

Leia no Blog “Conto de Notícia” no Estadão

http://blogs.estadao.com.br/conto-de-noticia/censura-sem-fim/

Bonus de criatividade (Estadão)

Governo estuda punir mascarados em protestos com até dez anos de prisão

Soldadinhos subsidiados estão a postos para a net conferência. Atentos, todos puderam ouvir a preleção da chefia: pessoal, destruam apenas “objetos simbólicos do poder econômico”

No dia marcado todos apareceram na sede. Até que eles estavam quietos quando o holerite vivo começou a circular. Afinal, em tempos de capitalismo selvagem deve haver algum grau de acomodação (eles preferem chamar de adaptação provisória) das idiossincrasias contra o dinheiro.

Bandeja esvaziada, abriu-se espaço para perguntas da plateia. Superado o constrangimento inicial, lá pelas tantas, alguém  levantou a mão e o líder do partido, distribuidor de cachês e guia ideológico o atendeu sem muito entusiasmo

– Pode perguntar.

– Tem extra?

– Extra?

– É tio, hora extra.

– Não, nem carteira assinada!

– Mas e aquele papo de “produtividade”?

– Reavaliamos a proposta. Isso ai não vai ser possível.

– Mas não é justo. Eu visto a camisa. Na última desci o cassete, meti porrada e arregacei o dobro da moçada. Viu o filminho? E agora vocês vêm com essa merreca? Não, não, não  tem condição.

– Filho, usamos doações e verba partidária, por enquanto não vai dar para pagar bônus de produtividade.

– Ô tio, ai complica! Não dá para bolar outra coisa?

– Vamos pensar, vamos pensar…

(Em sua cabeça o slogan já estava formulado:  “índice de destruição patrimonial”. Ele achava que era bom nisso)

– Sua sugestão irá para a plenária.

 –Dá esse força aí! Fala lá que é investimento, avisa que tem que colocar a mão no bolso se eles querem ver o circo pegar fogo.

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Postes em branco (Estadão)

 

Havana critica ações ilegais dos EUA após criação de ‘Twitter cubano’

Ser informado instiga? Ter acesso ao conhecimento subverte? Há limites éticos para produzir acesso universal à informação? Quais as fronteiras éticas entre esclarecimento, convencimento e persuasão?

Durante a segunda guerra folhetos antinazistas, alguns redigidos por escritores como Thomas Mann, foram lançados sobre as populações da Alemanha nazista. O longo e icônico poema “Liberdade, eu escrevo teu nome” de Paul Eluard, contrabandeado para o Reino Unido, teve as estrofes impressas alguns anos depois de terem sido escritas, para serem lançadas pelos aliados sobre a França ocupada.

Guardadas as devidas proporções, guerra de informação sempre foi um front. Hoje, algumas campanhas que viriam a calhar se os países que gozam liberdades democráticas pudessem informar habitantes de outros territórios dessa preciosa qualidade. Que boa notícia saber que não seremos reduzidos a sucursais do Estado.

Sugestão de campanhas imediatas para países com censura: aspergir folhetos com cortes de cabelo revolucionários sobre a Coreia do Norte. Pulverizar países fundamentalistas, onde mulheres estão proibidas de dirigir, com imagens fortes de ocidentais ao volante. O mais prático serão drones descarregando panfletos.

Em outros lugares, é mais prático infestar o ciberespace com mensagens eletrônicas. Sobre o Caribe, informar aos hermanos sobre a existência de regiões curiosas, onde existe revezamento de poder, mais de um partido e liberdade de expressão.

Aos venezuelanos, diante dos apagões, será necessário recorrer as faixas nas ruas, nelas, pediremos perdão por nossa vergonhosa omissão. Para brasileiros usuários de internet, mais próximo das eleições, um recado conciso, mas de grande valor: alertar sobre cheques e postes em branco.

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A Paz começa com perguntas. (Estadão)

Paulo Rosenbaum

terça-feira 22/07/14

É preciso alguma frieza para exercer a autocrítica em meio ao fogo, mas também é preciso saber que nem tudo que sua tribo faz está correto, só porque é sua tribo. Em muitos aspectos o governo de Israel pode estar errando, mas o julgamento não pode se assentar na acusação de fazer a defesa da […]

É preciso alguma frieza para exercer a autocrítica em meio ao fogo, mas também é preciso saber que nem tudo que sua tribo faz está correto, só porque é sua tribo. Em muitos aspectos o governo de Israel pode estar errando, mas o julgamento não pode se assentar na acusação de fazer a defesa da população de ataques violentos. Para quem quer discutir a questão do ponto de vista legal, leia o artigo de Christopher Greenwood, “Self Defense” na Enciclopedia Max Planck de Leis Internacionais. Num País com democracia estável e com muitas vozes, a praxe é falta de consenso. Isso colocado, a demonização a qual Israel — e, por tabela, judeus — estão sendo submetidos só não é sem precedentes, porque o holocausto é, em termos históricos, um evento recente. Não bastasse a desproporcional quantidade de citações desqualificadores de Israel nas redes sociais e na mídia, o abuso de comparações descabidas, o discurso agora está centrado na ideia de que a injustiça está na desproporcionalidade das forças. Só por má consciência, ignorância ou incapacidade intelectual de discernimento um País que tem um milhão e meio de árabes israelenses, a maioria muçulmana, poderia ser acusado de limpeza étnica ou genocídio, sem gerar escândalo. Mas não só ele não aconteceu como a acusação vêm sendo replicada e endossada por intelectuais. A maioria são aqueles de sempre, que tem uma militância (desconfie sempre deste gênero) que parece apagar os traços de treinamento na arte de pensar. Essa situação chega a ser mais grave do que a própria guerra, porque reedita o apoio aos períodos em que os povos eram ritualisticamente demonizados. Para a maioria, a distinção entre antissionismo e antissemitismo tornou-se apenas retórica. Entretanto, quem precisa ser convencido da desproporcionalidade não são as forças de defesa de Israel, mas as lideranças que se ocupam em espalhar o terror. Quem contesta, que então defina melhor: o que significa construir túneis embaixo de hospitais, mesquitas e centros residenciais? O que representa para essas pessoas manter foguetes nos céus dirigidos especificamente contra populações civis? E é precisamente esse o ponto central. Muito provavelmente Israel aceitaria o cessar fogo e a abertura de fronteiras. Desde que se garantisse que o fluxo de armas, mísseis e material bélico fosse substituído por alimentos e infra estrutura para os habitantes de Gaza. E quem pode garantir isso? A ONU? Os EUA? Os países da Península? A Comunidade Europeia? Ontem, um dos líderes do Hamas condicionou a trégua ao direito de resistir. Chegaríamos ao seguinte paradoxo, e preparem-se para o nonsense: reivindicam do algoz a liberdade de obter aparatos e tecnologia bélica para ataca-lo. Curiosamente, Israel vem sendo pressionado neste sentido! Mesmo correndo o risco de ser deslegitimado, a contradição apontada tem a estranha mania de sobreviver às personalizações. É inusitado que os esforços pela legítima defesa dos civis de um País sejam colocados em cheque, só porque no imaginário social os habitantes deste País tenham propensão ao sacrifício diante de quem explicita seu desejo de extermínio.São tempos nos quais já é impossível acreditar que quaisquer esforços racionais sejam suficientes para demover quem já tem todas as respostas. A paz começa com perguntas.

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Fé no Estado Laico (Estadão)

Ninguém precisa de poesia. Como apontam pragmáticos e inimigos da subjetividade, talvez ela não sirva para nada. Ainda assim, palavras tem o potencial para nos livrar de uma trama sinistra, da qual o senso comum nem desconfia.
Por trás de toda fanfarra totalitária está o elemento que ninguem previu. Para que um Estado totalitário se instale é preciso contar com algo além da cegueira das maiorias. Tampouco bastam ideólogos e intelectuais de arrimo, os sustentáculos acadêmicos do regime. No debate numa grande Universidade sobre os recentes protestos pode-se perceber o mal estar quando alguém da plateia perguntou:
–E os intelectuais? Como se posicionam nesta história toda? (das manifestações maciças por todo País)
Entre pigarros e acenos para o chão, a sala se encheu de constrangimento. Tudo devidamente racionalizado com as indevidas evasivas.
A rigor só há uma função decente para intelectuais, assim como para a imprensa: vigiar e cobrar o poder de suas responsabilidades. Não importa quem governe. Aliás, o vigor da academia e da informação está na crítica, não na aquiescência, jamais na cumplicidade. Tudo que deviam evitar é chapa branca e uniformes dos partidos.
Mesmo agora, depois da perplexidade inicial o núcleo duro que dá respaldo ao governo não parece arredar pé. Escolheram sustentar o engano a consentir e proceder uma revisão vital. Para muitos deles, assumir erros é capitular, examinar erros é fraqueza e a autocrítica não passa de punição. Mas qual é a ciência que se sustenta sem elas?
A reação da legião uniformizada surpreende mesmo os mais pessimistas. Esperava-se que diante da claríssima contestação popular, pudessem conceder que houveram desvios graves. A flexibilidade doutrinária seria enxergar que todos fomos grosseiramente ultrapassados pelos fatos.
Sempre que bem pensantes se alinharam a projetos hegemônicos de poder a história os desmascarou. Salvo exceções, a análise retrospectiva mostrou que estavam do lado errado: muitos deram legitimidade para o uso do poder contra a população e a sociedade. Os que resistiram aos conluios não sobreviveram inteiros.
Sem generalizar, ninguém se exime de omissão. Estiveram respaldando os partidos que agora negam tudo para se livrar dos apuros em que nos meteram.
Por intuição, sabíamos que o poder esteve tentado a usurpar direitos individuais a fim de atender supostas necessidades coletivas. Para tanto foi necessário que se criasse o sentimento de servidor da pátria. Só que a ousadia vêm ultrapassando todos os limites razoáveis. Promulgou-se o decreto de que doravante categorias profissionais serão escaladas para a semi-escravidão. É muito significativo que tenham escolhido estudantes de medicina para suprir inépcias crônicas de seguidas administrações federais. No mínimo, há flagrante violação da constituição federal e das leis do trabalho escravo sancionada pela OIT do qual o Brasil é signatário. Em teoria, o servidor, antes de ser reduzido pelos administradores a uma unidade vigiável com RG, teria sido um cidadão de carne e osso, com direito à liberdade, autodeterminação e privacidade.
Isso significa mais ou menos o seguinte; a educação totalitária – a qual testemunhamos — precede o estado totalitário – cuja instalação está sendo cozida no vapor.

De @bengurion para @bibi: Auschwitz hoje. (Estadão)

De @bengurion para @bibi: Auschwitz hoje.

Paulo Rosenbaum

26 janeiro 2015 | 18:23

debengurion

Bibi, na santa paz na qual me encontro hoje fui chamado às pressas. Amigo, esqueça memorandos e encare esta comunicação como um telegrama urgente. Não houve escolha: por aqui, quando te sacodem de madrugada, é como ser convocado. Enquanto era balançado me explicavam, amanhã faz 70 anos que as tropas russas libertaram o campo de extermínio de Auschwitz.

Vim mais para ouvir, mas se você abrir uma exceção, forneço um par de conselhos. Nossa extraordinária desvantagem na mídia não pode servir como desculpa. Não, não, nisso estamos de acordo, as críticas mais benevolentes, da esquerda à direita, amiúde mostram pouca, vale dizer quase nenhuma, simpatia por Israel. São vícios do discurso. Não compreendo também, há algo de irracional, inexplicável, atávico e insondável. Até já perguntei para a chefia, mas parece que o assunto é altamente classificado. Vai entender.  Mesmo assim, há sempre aquela parcela que merece um “por que?” A direita sempre foi o que foi. Por que essa cara? Não tem nada de indireta. Falo como um velho socialista olhando nos teus olhos. Não é provocação. Aliás, como esses pensadores esperam credibilidade se militam no lugar de manter o foco na análise? Você acha que é a propaganda? É possível. Comentava com os companheiros de nuvem, nunca, nem na época mais fértil da minha imaginação, poderia conceber o retorno de um clima tão hostil contra minorias. O mal que considerávamos superado foi reativado, separatismo, intolerância e xenofobias. Desta altura, terrorismo parece um termo desgastado, mudem para inimigos públicos da humanidade. Na sigla ficaria IPH.

A Europa não aprende? Os algozes se reciclam? Se o nazismo tem uma nova cara é preciso arrancar sua máscara. A liberdade de existir não deve preceder a de expressão? É claro que com o volume de agregados antissemitas e anti-israelenses tenho dificuldade em enxergar a distinção entre uns e outros. De acordo, é só ver o que acaba de acontecer na capital Argentina. Vergonhoso, mas auto evidente. Ao fim e ao cabo, dá no mesmo. Se estou fechado com sua posição? Confesso que oscilo,  concordo e discordo de sua condução política.

É claro que vejo o risco e compreendo a agitação. Ninguém por aqui quer que Auschwitz e as outras fábricas de extermínio sejam só símbolos da tragédia. E garanto, nem aqui nem ai vamos esquecer o que aconteceu. Nunca. Mas é que vendo da perspectiva que tenho hoje, o mundo mal começou. Prefiro que o Shoah se transforme em espírito de recuperação para toda a humanidade. Lembra-se? Nenhuma palavra será a última, muito menos o principio de todas as outras. Dialética é assim mesmo, mas quem entende? Pois deveriam, imagine uma civilização com o espírito talmúdico?

Não deboche deste antigo batalhador. Temos defeitos como insistem em apontar, mas que tal fazer valer nossas virtudes? A principal delas, subvalorizada. Ou você conhece alguém com nossa capacidade de superação? Fica até chato, mas qual povo duvida tanto de tudo?  Nós, que superamos o conceito de blasfêmia e heresia, escolhemos o bom humor. Há outro nome para questionar o universo e arguir até a palavra divina? Não ficamos tentando achar novos sentidos para cada palavra? Pode ser irritante, mas cada povo com suas idiossincrasias. Com elas é que fomos nos tornando mais tolerantes. O que torna um País único não são decretos ou exigências formais, mas capacidade de conversar. Você está enganado. Não sou nenhum ingênuo colega. Sei que fanáticos não tem conserto, mas que tal prevenir conversões em massa?

Nem perguntei, ainda há tempo? Sei que está trabalhando no discurso para o Congresso.

Mais um minuto, bem conciso. Falo do status quo do nosso povo em nossa terra, mas falo principalmente do mundo atormentado em que vocês vivem. Você só quer o bem do  povo? É o que todos dizem. Mas e se não for suficiente? Você enxerga a situação como um todo? Sabe desarmar os espíritos? É só isso que interessa. Não, não quero saber de chips, nem das últimas tecnologias da defesa. Certo, certo, abaixo do equador fale como revertemos a crise hídrica usando o mar.  Escute mais uns segundos. Não, não falo dos profetas hebreus, nem de religião, falo de cultura e de homens de Estado. Gente palpável no agora. Quantos pensaram estar mudando o mundo? Mas cá de longe dá para ver, a maioria só administrou um status quo indesejável. Quanto desperdício de biografia. Há muita gente interessada em entornar o caldo. Não sabe o que é isso? Você?

É evidente que todos aqui apreciamos e achamos mais do que justa sua participação na marcha de Paris, mas permite? Aqueles acenos do pessoal da linha de frente pegou mal: não cabe aclamação no luto. Agora posso dizer o panorama que vejo ? O caráter judaico da terra não pode, não deve, ser dado por decreto. O que? Não, não, [riso rouco] nem sonho mais com paz. Minha fantasia recorrente é convívio tenso, mas justo. No estilo do pedido de Amós. Não, não o profeta, o escritor. Dois Estados, lado a lado, sem falsas identidades. Paciência eu tenho de sobra. A chefia reclama todos os dias “quando vão perceber que o oxigênio vêm da atmosfera comum?” Já que ninguém vai mesmo sair dai, que tal tomarmos a iniciativa e estabelecer as condições para que cada um ocupe seu lugar. Sim, ao sol. Nunca ninguém conquistou corações e mentes com chumbo.

Dia desses, no meio da rodinha enquanto jogava xadrez com Isahiah Berlin, cometi mais um daqueles aforismos: a melhor defesa é o ataque, diplomático.

Minha estima e votos de sucesso,

Shalom,

David

Os Cristais do Muro (Estadão)

Os cristais do Muro

Paulo Rosenbaum

09 novembro 2014 | 16:54

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Esta noite, Kristallnacht. Será contada como resumo de todas as outras. A areia compacta se misturou ao fogo. E o calor, guiou a flama ao mundo. A mesma que incinera livros e pessoas. Livros e pessoas. Repare e repita. Livros e pessoas livros e pessoas, livros pessoas. Até que sumam as distinções. Falta pouco. Uma página após outra. Uma pessoa após outra. As mesmas almas. As mesmas linhas. A mesma gramatura. Os temas é que mudam. Uma noite de cristais não é, nunca foi, só uma noite. E os cristais, não são só, estilhaços. Os destroços que deixam, inauguraram uma fase chamada fim. O concurso da exclusão. A obrigação do mal. Ela declara o ciclo: a peste emocional é viral. E tuas mãos, hoje, não trançam mais as pedras. Nos gatilhos eletrônicos, o rancor é digital. A violência ousa justificação. Os ossos não apontam, silenciam. A cor da intolerância já se adapta. A impossibilidade do outro vive das invisibilidades. Do ódio difuso. Se todas as narrativas estivessem aqui, talvez, tua boca falaria com tuas palavras. Mas, quem foi perdeu a voz. Exceto pelas memórias, eles hoje só respiram nos céus. E é nesta data dupla. Um quarto de século atrás, outro muro recebeu marteladas. Quando a destruição recobra seu caráter reconstitutivo. Os resíduos, relíquias. O tijolo, cristal. A regeneração vem dos que veneram a liberdade. As mudanças, pelas mãos que negam a hegemonia. Ao custo de vidas potenciais e heróis sem identidade. Por isso, eis a noite propensa a ser dia. Dia no qual cacos se fundiram ao concreto. Juntos, inscreveram a recusa infinda na história. Num lema, provisório, impreciso, incondicional, mas, como poucas vezes antes, presente: nunca mais.

O Curador (Estadão)

O Curador

Paulo Rosenbaum

11 junho 2015 | 12:07

retrogradoUU

–Sente-se!

–Obrigado, falamos de pé mesmo. Um aspecto chamou muito nossa atenção em seu parecer. Na justificativa para  a decisão, o que significa ter aparecido numa só linha: “retrógrado”?

–O oposto da evolução, retrocesso, regressão, marcha à ré? Ficou claro?

–Conciso ele é. Queremos saber como elaborou veredito tão embasado.

–Vocês estão conscientes que é irrevogável, não? Cá entre nós: o que ele fala me incomoda. não incomoda vocês?

– Queremos ouvir exemplos.

–Nossa opinião política, por exemplo, é oposta a dele. Este autor escreve naquele outro jornal, e ele seleciona os assuntos sobre os quais escreve.

– E a Senhora não? Com quais obras dele está familiarizada?

– Queridos. Adotamos outro critério. Ler, ler, isso é coisa do passado. Não é mais necessário. A palavra chave hoje é “quem”. Só precisamos ver onde você escreve, os temas e quem compartilha, e dali já sacamos todo perfil.

–Teu parecer foi dado sem análise?

– Haja! Acabei de explicitar a nova metodologia!

– Estamos nos referindo à análise de conteúdo. Lembra do último concurso de literatura?

–Combinamos não tocar nesse assunto.

– Estamos escolhendo ou vetando sem examinar o conteúdo?

– Chame de faro literário, intuição clínica. Bato o olho, e, de cara, já vejo se é alguém que faz sentido ou vai me atrapalhar a feira.

– Atrapalhar? Mas não era uma mesa com debate? Pluralidade de ideias? Abertura ao contraditório?

– Amor, isso aqui não é o Supremo. Quero nomes consagrados, que garanta público, precisamos de mídia e consistência.

–Consistência e unanimidade?

–É gente está do lado certo da história, pessoas do partido, pessoal que converge

– Convergir lembrou aqueles coros que recitavam monólogos

– Além disso, ouvi falar que ele é conservador.

–Só porque gosta de pickles?

(Risos)

–Hilário. Vão querer encrenca? Também sei engrossar. É ele ou eu. Faço curadoria dinâmica, aquela que bem entendo, estamos conversados?

–Perfeitamente. Critérios claros, princípios equânimes e plena exposição dos conflitos de interesse.

– Vocês podem se retirar, e tenham todos um bom dia. O último apague a luz, por gentileza,

A Comissão sai e chega a enxaqueca violenta. De dentro do silêncio pulsátil e obscuro exclama: “vou aparelhar mesmo, bando de moralistas, udenistas de ocasião”. “Deixa estar. Aproveito o Congresso de hoje a tarde para denunciar essa perseguição”.

Tabu, ou, o politicamente correto (Estadão)

Tabu, ou, o politicamente correto

Paulo Rosenbaum

09 julho 2015 | 01:12

irrelevante

O politicamente correto pode conservar o nome, mas talvez não seja político, nem correto. Pouquíssimo dialógico, produz mais dissonâncias que aproximações. De obras de Monteiro Lobato banidas ou censuradas nas escolas por supostos trechos racistas até a cartilha subsidiada pelo MEC com erros crassos propositais para não criar “constrangimento” em quem têm dificuldades no uso da língua, o politicamente correto se transformou numa bandeira com um simbolismo inquietante.

Chegamos a um mais do que improvável paradoxo: o senso comum não tem muito mais para oferecer, enquanto uma enorme quantidade de percepções e pensamentos precisam ser coibidos em nome de uma espécie de consenso que é apenas uma suposição apriorística, um tabu.

Foi a recente frase do Nobel de medicina sobre as peculiaridades de trabalhar com mulheres em laboratórios que gerou outro quinhão histérico de litigantes. Mas, o curioso, é que não se trata de extrema suscetibilidade, mas, antes, de um ilícito subjetivo cometido contra um glossário fixo e predeterminado. A intolerância de gênero, se é que aquele Dr. realmente externou algo assim, não é só dele. As redes fervilharam com ataques, às vezes contra uma opinião insossa e irrelevante. Quando há algum mérito no que foi pronunciado o que valeria a pena discutir é a opinião, não se ela está ou não na lista de frases que podemos aceitar no concílio imaginário que demarca a fronteira entre correto e incorreto. Neste sentido, é a hipocrisia pactuada e um maniqueísmo primitivo, disfarçado de debate democrático, quem comanda o cenário. O mesmo se deu até pouquíssimo tempo quando se discutia se algum governante poderia sofrer impeachment, deveria renunciar ou se novas eleições mereceriam ser convocadas. Por sinal, o que importa se o ex-apresentador conhece ou desconhece o cantor morto?

A onda é ampla e infame, sobretudo preconceituosa. Exemplo recente está naqueles que recentemente aderiram à campanha de ex roqueiro do Pink Floyd, que, pretendendo isolar Israel, fez uso seletivo e arbitrário do conceito de discriminação étnica. É só mais uma amostra de pactos baseados em insuficiências e inconsistências. A velocidade das transmissões e retransmissões na web, confronta a reflexão. Acusações de superfície, vazamentos e insinuações caluniosas operam o mesmo estrago que fatos ou evidencias significativas. E assim, a sociedade vai caminhando com construção de estereótipos nocivos, contando com ampla e impressionante aceitação, impulsionada através das replicações acríticas nas redes sociais e na mídia. Ao largo da aceitação das diferenças, a onda de tabu endossa o racismo com destaque para o especialista:  o partisã de boatos. Subordinar ideias à difamação ou reduzir alguém a nada em algumas horas, por uma frase, uma entrevista ou um pulso no Twitter, mostram a velocidade e denotam a pobreza cultural contemporânea.

São exatamente os mesmos que julgam terem construído consensos aqueles que mais se mostram violentos quando alguém trata de explicitar quão diferentes somos. Eis o supremo paradoxo: na linguagem politicamente correta as diferenças estão proibidas, e é a sua explicitação que dispara sinais eletrônicos que acionam o bullying tolerado. A luta de classes migrou, por caminhos inusitados, para um estranhamento mútuo das peculiaridades, de pessoas, grupos, nichos e raças. E a desinibição propagada através de perfis falsos, anonimato ou a certeza de impunidade, produzem legiões de franco atiradores digitais. Recrutar terroristas, convocar gente para qualquer tipo de ação nas ruas ou simplesmente entrar atacar e sair, tornou-se uma vulgarização pop. Às vezes, bem remunerada. Até a Grécia, em sua luta anti austeridade entrou na frequência. Uma coalizão de articulistas pelo mundo tentou mostrar como a luta grega é justa (politicamente correto) contra terríveis agentes capitalistas selvagens (politicamente incorretos), quando qualquer aluno mediano do segundo semestre da graduação de um curso de economia poderia nos contar algo mais interessante. Nas políticas de Estado não existem mocinhos, tampouco algozes. Neste sentido, o que o politicamente correto faz é sequestrar a discussão por um punhado de convicções anacrônicas e sustentadas pela manipulação eleitoral.

O ambicioso conceito de cidadania, amplamente evocado mas efetivamente inexistente no mundo prático, exige cimento mais consistente do que campanhas motivacionais, academias ideologicamente comprometidas ou governos com aspirações totalitárias. Exige, bem ao contrario do politicamente correto, um exame escrupuloso dos conteúdos da linguagem e suas mensagens: superar a imobilidade dos tabus.