O fim da democracia – este artigo só será lido aqui, não está na minha coluna do JB!

Paulo Rosenbaum

A história ensina que a democracia é o melhor sistema de governo já inventado, e encontrou o apogeu entre os gregos no século de Péricles. Só que seu aperfeiçoamento leva tanto tempo e tomamos tanto na cabeça que ninguém pode garantir que sobreviveremos para ver seu triunfo. Os direitos civis estão ameaçados pelos governos que se autoperpetuam no poder e pelos que gritam por aí que temos “excesso de direitos humanos”. Eles podem dar as mãos e valsar, porque ambos sonham com ditaduras. Poder autocrático e gente que tem nostalgia da ditadura militar fazem parte do mesmo saco.  O primeiro porque acredita tanto na própria capacidade que sonha com um país sem imprensa livre e sem oposição (desejos quase realizados na Argentina e na Venezuela) e os segundos, aqueles que espalham vídeos e bobagens com “saudades do golpe”, são movidos pela fantasia das coisas arrumadas, da ordem à base do…

Ver o post original 664 mais palavras

O midrash brasileiro “Céu subterrâneo”[1], o sefer de “A Verdade ao Solo” e o reino das diáforas de “A Pele que nos Divide”.(Blog Estadão)

 

Tive a honra de ser convidado para participar de um encontro do BRASA (XIV – Congresso Internacional da Associação de Estudos Brasileiros no tema “Textualidade Judaicas na Literatura Brasileira – O Ofício do Escritor) que se realizou na PUC-RJ de 26 a 29 de julho de 2018. A organização ficou ao encargo das Professoras Lysley Nascimento, Nancy Rosenchan e Regina Igel. Na mesa de depoimentos de escritores brasileiros da qual fiz parte, também participaram Luis Krausz, Leila Danziger, Fábio Weintraub, Lucius de Mello e Ronaldo Wrobel. A troca, como convém, foi rica e saimos todos com várias ideias para testes de hipóteses. Sem delimitar uma tese única as apresentações procuraram evidenciar o aspecto múltiplo de judeus e sua produção literária no Brasil, suas influências e desdobramentos. A reflexão sobre o Shoah (Holocausto), o aculturamento, a assimilação, o processo criativo e o papel da memória nos vários autores analisados foram os temas centrais desta e das demais mesas.

Aqui transcrevo em 3 partes o conteúdo relacionado à minha participação como uma contribuição para que o diálogo seja ampliado e prossiga vivo.

Congresso BRASA – PUC-RJ – 27 de JULHO 2018

O midrash brasileiro “Céu subterrâneo”[1], o sefer de “A Verdade ao Solo” e o reino das diáforas de “A Pele que nos Divide”.

Agradecimentos às Professoras Berta Waldmann, Lyslei Nascimento, Nancy Rozenchan e Regina Igel, Gita e Jaco Guiszburg

Berta Waldman que escreveu em sua apresentação do livro:

“Na tradição teológica judaica, especialmente na tradição talmúdica, a interpretação não pretende delimitar um sentido unívoco e definitivo; ao contrário, o respeito pela origem divina do texto impede sua cristalização e sua redução a um sentido único. Assim, o comentário tem antes por objetivo mostrar a profundidade ilimitada da palavra divina e preparar sua leitura infinita, para gerar sempre novas camadas de sentido até então ignoradas.”

Esta observação foi por mim empiricamente verificada. Só assim o autor consegue sentir o impacto na realidade dos leitores, os quais fizeram juízos muito distintos do texto. Aspecto que só enfatiza a recusa dos textos à fixação em uma única interpretação. Ao contrário, quanto mais o autor ouve mais ele enxerga a polissemia involuntária que provocou.

No caso do  livro “Céu Subterrâneo” este aspecto se refletiu em várias camadas do texto:

  1. A) Na fonética – quando cada leitor pronunciava com distintas sonoridades o nome de cada um dos personagens.
  2. B) Na leitura do sentido do que significa “revelação”: fotográfico, metafísico, transparência real e as inumeráveis outras interpretações para a representação da imagem;
  3. C) Na busca de identidade e de sentido: a luta entre a consciência e o ignorado e entre o ceticismo e a recuperação de algum lugar para uma religiosidade não canônica, segundo a etimologia religação;
  4. D) Na análise política: qual seria o impacto do consenso em uma origem comunal para todos os povos? Israel e seus habitantes em sua multiplicidade e diversidade?
  5. E) Na natureza do milagre, que se traduziria em uma realização da própria imanência ou símbolo da transcendência?
  6. F) No amor, em seus distintos planos de interferência nas relações;
  7. G) Na metáfora do Paraíso: do penitencial ao redentor.
  8. H) Na cronologia: os movimentos do tempo e a imposição de uma arqueologia que permita a investigação dos sentidos. As diferenças entre a cronologia e katastasis (a sequência) no analógico e no digital.
  9. I) No papel, complementar ou vital, da imaginação de quem interage com o texto;
  10. J) Na ideia de bloquear o excesso de protagonismo a fim de buscar originalidade, além do estranhamento, é preciso abandonar a identidade e deixar-se orientar pelo ocasional.

Solidão: processo criativo  

Viajar é enfrentar fechos e desfechos desconhecidos. A minha experiência em Israel quando fui contemplado com uma bolsa literária para lá escrever pode ser classificada de muitas maneiras: eclética, abrupta, estranha e milagrosa. Eclética porque foi feita por intermédio de um roteiro errático, quase impulsivo. Fora o roteiro mínimo, viajei ao sabor da vontade (e) dos eventos. A minha revelia experimentei o anti-terapêutico. Com o perdão dos psicanalistas, abandonei-me para, por um período, deixar de ser mais o sujeito da própria historia. É sempre preciso reafirmar que a solidão, a improvisação e a migração errática são fatores chaves, pode-se mesmo dizer condicionais para qualquer empreendimento literário.

O leitor tem um papel quase messiânico: e o único que pode assim preencher a incompletude do autor. Vale dizer, modelar as lacunas voluntárias e involuntárias que o escritor vai “perdendo” pelo trajeto. A professora Lyslei Nascimento enxergou em “Céu Subterrâneo” referências cruzadas com a obra de Walter Benjamin: escavar é escavar-se. Ou seja, Israel é um espaço do mundo que comporta vários extratos no plano cultural e arqueológico. Quem recentemente visitou as escavações ao largo do Kotel (o Muro Ocidental) em Jerusalém pode testemunhar que hoje Israel é um país com vasta exploração do subsolo, e o foco não é o petróleo. A auto-escavação que se organiza de dentro para fora, e também no sentido inverso, apresenta na região uma incidência incomum. O acaso é o outro tema importante. Dentro da axiologia judaica, ele é uma espécie de disfarce elegante para alcançar uma finalidade não aparente, pré-concebida e, às vezes, indecifrável, que nos impulsiona em direção à compreensão dos destinos individuais. A trama criada nesta segunda ficção tem no negativo de uma polaroide achada por Adam Mondale um de seus eixos. Um instantâneo que realça o momento e que, ao mesmo tempo, tem o poder de nos conduzir à uma outra realidade.

O registro da imagem também funciona como um indicio de que algo do inteligível subsiste somente no original e que, muito provavelmente, pode não estar presente nas cópias. Só os originais conteriam aquilo que os múltiplos e interpretações das interpretações recusam. Isso não significa desprezo pelos comentaristas, como se pode constatar na rica tradição das mischnaiots (inscrições como comentários) nos textos canônicos e suas anotações marginais. Mas como acessar o original?

Portanto, interpretar o interpretado tem um valor hermenêutico muito distinto de esmiuçar o texto inaugural.   Dependemos desse auto-esclarecimento para sentir que estamos nos completando ou identificando, já que, por natureza, somos seres que precisam evocar a memória que nunca passa e que nos compõe como seres históricos.

Aristóteles, em seu História dos animais, ao definir os seres humanos na notável distinção entre humanos e animais, escreveu que era esse o aspecto central daquilo que nos diferenciava dos assim chamados “animais irracionais”. Tratava-se, contudo, de um equivoco histórico, apenas parcialmente corrigido. E ele ocorreu em função de um incrível erro de tradução do copista. Foram necessários mais de dois milênios para que algum filólogo curioso se debruçasse sobre o texto e notificasse a humanidade do engano, vale dizer, a má acepção com que a palavra grega foi tomada. Na novíssima leitura, o que nos diferenciaria das outras espécies não seria a falta de racionalidade ou razão, mas a capacidade de evocar, à nossa vontade, todas as lembranças e ainda contar com a capacidade para verbalizá-las.

“Aristóteles atribuiu outro gênero de inteligência aos animais, muito diferente do consagrado ‘irracional’. A grande distinção entre animais e humanos era outra: “Muitos animais têm memória e são passíveis de instrução; mas nenhuma outra criatura, exceto o homem, pode evocar o passado através da vontade”3.

O domínio da memória e o tempo é que fundamentam a criação em um romance. O personagem Adam Mondale, não esqueçam, representa, segundo a cultura judaica o idish kait, o primeiro falante ou simplesmente o “falante” (medaber). E a ele é quem foi conferida a missão de nomear as coisas do mundo.

Para que(m) escrever?

Fedra, o senso comum versus a literatura

Como especulava o diplomata, botânico, astrônomo, filósofo e biologo Emmanuel Swedenborg, todo homem pode ser muitas coisas ao mesmo tempo. Na literatura é quase obrigatório ser. Por que tantos jornalistas entram na literatura? Talvez a facilidade inicial de acesso à linguagem tenha o papel preponderante nesta escolha (os médicos também entram certamente por alguma outra facilidade) mas fica evidente que a formulação da linguagem no caso dos jornalistas e críticos de literatura precisa incorporar uma multiplicidade de aportes se desejam arriscar-se na ousadia criativa. E o ensaio é a prova de que a literatura se opõe à filosofia, vale dizer, enquanto a memoria criativa dá o tônus da primeira, a reflexão epistemológica sobre a existência orienta a segunda. Não é infrequente que o critico e o jornalista se debrucem sobre a literatura muitas vezes sob o sistema de notação da filosofia. O resultado costumar ser binário: endosso ou recusa. E este julgamente será feito de acordo com valores mais axiológicos do que literários. Também pode ocorrer o reverso: quando o é o próprio romancista ou o poeta transformam a literatura em apologéticas narrativas politicas do quotidiano.

Hélène Cixous em “Do Retrato à Finnegans Wake” (in “Joyce e o Romance Moderno”, Coleção Documentos, s.d) desenvolve uma teoria. Em oposição ao texto Fedra de Platão, James Joyce enxerga a literatura de forma quase prescritiva (pharmakon). Sua oposição, segundo Cixous, pode se resumir à famosa objeção socrática de que tudo que não se atém à filosofia acaba sendo doxa. Se para Sócrates a literatura é a alienação à lógica que favorece a dispersão reflexiva, portanto politica, para Joyce é a linguagem, instrumentalizada pela imaginação, que permite impactar, sobressaltar, mudar, enfim elevar a tensão e o contraste, à harmonia e a um estado de exasperação ao sujeito. O processo de elaboração obriga – como efeito colateral — o escritor a ter mais tempo para se estudar. É possível que o leitor mimetize um movimento similar? E, enfim, a pergunta cientifica que vem perturbando a psicanálise: a literatura cura?

Talvez não, talvez nada. Mas, e se ela trouxesse elementos de cuidado? De cuidado que misturasse componentes e, ao aportar identificações artificiais, de narradores, criadores e criaturas — criasse percepções que escapassem do esmagamento promovido pelo senso comum? E se ela gerasse um painel tão diverso dos estados humanos que introduzisse interferências?

A escrita como estado idiossincrásico de consciência.

Existe no processo do autor uma vontade, uma espécie de predisposição subjetiva que faz com que se incorpore um modo muito particular ou idiossincrásico de interpretar o mundo. Porém, essa hermenêutica não está ajustada a nenhuma lógica particular, e, apesar de todos os esforços racionalizadores, muito menos à adesão as correntes teóricas. Antes, vincula-se a um momento de abstração, de transe, aquele que faz emergir uma peculiar forma de analisar o mundo.

Um jornaleiro inquieto em sua banca.

O som timpânico da terra descendo sobre o caixão num sepultamento.

Uma nuvem única que obstaculiza o sol.

E onde estaria afinal a genealogia do fluxo de consciência? Sobre o qual se sabe tão pouco? Concordando com Bergson, a potencia criativa não pode ser reduzida aos processos atuais de mapeamento das áreas neurofisiológicas. Para o filósofo, a unidade neurológica seria apenas o buffer acumulador, encarregado de exonerar os processos, jamais sua origem exclusiva.A escrita, quando aspira a originalidade recusa o mecanicismo e adota uma lógica vitalista.

A poesia, condutora da prosa

Há um aspecto do processo criativo que gostaria de explicitar. Para o poeta a criação de um poema emerge de um snapshot, “o primeiro ponto vivente” do qual falava Willian Harvey sobre o coração, quando descobriu a circulação do sangue, a totalidade síntese, o resumo do abismo, aquele instante com potencial para emular uma ficção.

A Verdade lançada ao solo

A prosa pode, assim, nascer de um verso. Vale dizer, em um poema podem aparecer aspectos embrionários para o futuro desenvolvimento da prosa. O momento de síntese faz emergir um conjunto de imagens que pode ou não dar vida a um texto mais longo, poesia, crônica, prosa (conto ou uma ficção extensa). A imagem, aliás, pode ser o ponto zero que antecede inclusive a confecção de um texto.

[1] Palestra sobre Céu subterrâneo, São Paulo, Editora Perspectiva, 2016.

 

 

 

 

Brasa – Pretextos e texturas da literatura 2 – Criatividade (Blog Estadão)

Crédito foto Lyslei Nascimento

Encontro do BRASA (XIV – Congresso Internacional da Associação de Estudos Brasileiros no tema “Textualidade Judaicas na Literatura Brasileira – O Ofício do Escritor) Evento que foi realizado na PUC-RJ de 26 a 29 de julho de 2018. A organização ficou ao encargo das Professoras Lyslei Nascimento, Nancy Rosenchan e Regina Igel. Na mesa de depoimentos de escritores brasileiros da qual fiz parte, também participaram Leila Danziger, Ronaldo Wrobel. Luis Krausz, Fábio Weintraub e Lucius de Mello (sequencia na foto da esquerda para direita) A reflexão sobre o Shoah (Holocausto), o aculturamento, a assimilação, o processo criativo e o papel da memória nos vários autores analisados foram os temas centrais desta e das demais mesas. Aqui transcrevo a segunda parte do conteúdo relacionado à minha participação como uma contribuição para que o diálogo seja ampliado e prossiga vivo. Comentários e compartilhamentos serão muito bem-vindos.

Parte 2

Criatividade

A Verdade Lançada ao solo

O que é um escritor?

Alguém que aspira a imortalidade e que, de antemão, sabe que a continuidade indefinida nunca esteve ao seu alcance. Um escritor é portanto um discriminador. Aquele que escolhe – ou está condenado a – viver discriminando palavras, impulsionado a sacrificar algumas em detrimento de outras através do filtro das idiossincrasias. Trata-se de um processo sôfrego. Não há glamour no processo, ainda que o produto final tenha lá alguma potencia para gerar prazer. Então o deleite é estético? Provavelmente narcísico. A vaidade de ter logrado a correta justaposição, o encaixe da palavra certa. O termo “verdade lançada ao solo” (Extraído de um passuk- passagem da Torah, o Pentatêuco, o conjunto dos cinco livros na tradição judaica) refere-se às elaborações e instruções que se hoje se encontram espalhadas pela Terra, e cuja tarefa humana é decodifica-las: qual é o significado das tradições? Como a morte, os mortos e suas memórias entram em nossas vidas? A experiência mística é um estado transmissível? O que é ser justo?

Para Paul Ricoeur “só há um jeito certo de dizer as coisas” mas o escritor não as elege por necessidade ou imposição. A eleição não passa de um capricho. O autor educa-se a duvidar de todas as identidades. Vale dizer, precisa reconstruir-se através de identidades emprestadas: ids alheios, egos em processos de diluição, e neutralização de superegos desfocados. Nem ousem pensar em harmonia. Por mais elaborado que seja seu constructo, todo reino de palavras encontra-se em potencia. Empilhadas.. Desequilibradas. Soldadas por um único pino. E a pilha, é, sempre, bem mais alta do que gostaríamos de admitir. Da potencia ao ato é uma longa distância.

Como reconstituir uma história?

Ninguém precisa ser erudito em letras ou ter pós graduação para executar um romance. Seria aconselhável ter sido um bom leitor, cinéfilo, colecionador ou simplesmente alguém que valorize um readymade. Na verdade, seria um grande aborrecimento aos leitores se, em algum momento, todos os escritores fossem grandes teóricos ou expertocratas em literatura. Precisa antes ser alguém que desmonte e monte a realidade em faixas dimensionais superpostas, porém distintas. Ainda que uma efeméride possa ser motivação para um poema, ela pode não ser suficiente para a construção ficcional. Alguns pensam em algo trivial, outros no arrebatador, eu só penso que o texto é quem nos guia na tarefa de construção das ideias.

A crise do narrador é, sobretudo, a confusão entre narrativa e a imaginação. A saber, uma narração está no contexto de uma saga descritiva, o romance no retorno à subjetividade, o sujeito no centro da história, a realidade subscrita pelo contexto dos processos imaginários, da memória a serviço da invenção, não o contrario.

Seria agora o momento propício para esclarecer a qual escola pertenço? Quando se sabe essa resposta o leitmotiv para criar pode já estar cindido. Sei, por experiência, que a cizânia que o autor comporta, foi/está erigida sobre dor. A dor de saber que jamais se reagrupará completamente, sob pena de perder sua liberdade criadora. A cura para a fragmentação, seria, paradoxalmente, também o fim dos atores em um romance. Em seu complexo de onipotência, o escritor, mesmo desconfiando, acaba dando fé e até incorporando a onisciência de seus personagens. O problema é que eles são critica e paradoxalmente incompletos. Desumanamente parciais. O contraste é evidente: o personagem protagonista de uma ficção deve fazer o leitor entender que não existe uma totalidade totalizante. Ao mesmo tempo deve inspirar compaixão, identidade, empatia ou aversão. O que se sabe é que até hoje nem um único átimo da vida de um sujeito foi jamais integralmente capturado pelas letras.

É neste sentido que o escritor que tem aspirações universais e se vê as voltas com os limites interpostos, sofre. Dos obstáculos na linguagem ao cerceamento de temas da pauta imposto por demandas externas que acabam enquadrando suas pretensões. O escritor deseja imortalidade pensando em obter eternidade. É deste blefe, desta impossibilidade auto-evidente, e desta natureza improvável que se alimenta a verve literária. Mas a casta que a atual safra produziu está mais concentrada em roteiros para TV do que em textos ou palavras. E os critérios de beleza estão em crise, encontram-se mesmo em ampla dissipação. Enquanto isso o vídeo (e o horário eleitoral subsidiado) substitui trágica e lentamente a tradição da escuta. Por isso, talvez, hoje, faria sentido que a literatura se aproximasse mais da música do que do cinema. Entretanto, apontar para tantas debilidades só fortalece a necessidade de que o escritor faça prevalecer seu mundo interior, e ali, obrigar-se à exercitar sua perplexidade e seu espanto.

O momento zero: estranhar-se

O primeiro momento de um escritor é estranhar-se. Não é só assumir o quanto ele oscila e hesita. Estranhar-se no sentido curioso do termo: de fato impressionar-se com o vasto do esconhecido do si mesmo. Entender, como na ciência, que o mais extenso em você mesmo é o quanto você se desconhece. O desconhecido que não é nem autoconsciente nem dominável. Isso significa que escrever exige expor-se às imprevisibilidades:”Pegar em armas contra o mar de calamidades” na boca de Hamlet. Não consentir resignadamente o absurdo quotidiano que nos embebe. Em oposição a tudo e todos é urgente recriar hipóteses contra-intuitivas.

Escrever é, sobretudo, um ato antissocial. E esta liturgia desnecessária só é possível num registro que se oponha a uma certa concepção de cultura e lógica social. Tanto faz no que o escritor acredita, na causa que milita, se apoia um conservador truculento ou é adepto de um autentico pseudo-altruísta, o que importa é o grau de compromisso que ele tem com o que escreve.

As concessões eventuais de qualquer escritor não estão no sistema de notação que ele adota, nem mesmo em sua filiação à uma escola de pensamento, mas na capacidade de levar o leitor a ter, sob o domínio do texto, a ter e recriar suas próprias experiências. Sempre será uma mistura de vidas. A hermenêutica filosófica define bem através dos conceitos de autoformação: entender o processo através do qual você conhece o mundo. A militância dos escritores é tão reducionista e desimportante quanto por exemplo, a sua preferência por isolamente e alienação.

Isaac Bashevis Singer escreveu que se houvesse uma síntese para a missão do escritor seria criar suspense através da hesitação”. Em seu ”Memórias do Exilio” afirma com insistência de que a mobilização do leitor se dá pela tensão, e, nas palavras de James Wood, Milan Kundera reforça a perspectiva do impasse. Quem consultar o significado analógico tanto de “suspense” como de “hesitação” perceberá que ambos recaem na palavra “curiosidade”. Primeira acepção do Etymological Oxford Dictionary – inquisitive – curious – busy – Do Latim Curious – careful – Francis Bacon usa curiosidade no sentido de “trabalho elaborado”. A arte de cativar o leitor, não mais para seduzi-lo à determinada visão de mundo, mas para coopta-lo para “uma clínica da trama”. Portanto toda hesitação responde por uma perplexidade induzida: despertar a curiosidade através do afastamento das repetitivas mensagens do senso comum. Para romper este código é preciso contar com a paciência, no sentido cronológico do termo. Muito provavelmente a maioria dos autores terá apenas reconhecimento póstumo.

A tão aspirada cumplicidade, porém, não poderia ser construída pelo estilo, fortuna crítica, prêmios angariados, ou simplicidade com que o autor se expressa, mas através da marca idiossincrásica presente no fluxo de consciência, esta manifestação muito particular, que faz migrar conteúdos do escritor diretamente para a mente do leitor.

Continua.

 

 

Jacques Lacan: Joyce era louco? (Blog Estadão)

Tags

, , , , , , , ,

 

James Joyce – Página Inicial de “Finnegans Wake” (1a edição 1939)

Encontro do BRASA (XIV – Congresso Internacional da Associação de Estudos Brasileiros no tema “Textualidades Judaicas na Literatura Brasileira – O Ofício do Escritor) Evento que foi realizado na PUC-RJ de 26 a 29 de julho de 2018. A organização ficou ao encargo das Professoras Lyslei Nascimento, Nancy Rosenchan e Regina Igel. Na mesa de depoimentos de escritores brasileiros da qual fiz parte, também participaram Leila Danziger, Ronaldo Wrobel. Luis Krausz, Fábio Weintraub e Lucius de Mello. A reflexão sobre o Shoah (Holocausto), o aculturamento, a assimilação, o processo criativo e o papel da memória nos vários autores analisados foram os temas centrais desta e das demais mesas. Agradecimento especial a Professora Berta Waldmann. Aqui transcrevo a terceira e última parte do conteúdo relacionado à minha participação como uma contribuição para que o diálogo seja ampliado e prossiga vivo.

Comentários e compartilhamentos serão muito bem-vindos.

Jacques Lacan: Joyce era louco?

O anti senso comum

Escrever também pressupõe o abandono das auto-evidencias. Isso é, romper com as expectativas emprestadas do senso comum. Tchekhov pregava como técnica para o conto deixar pontas abertas, pistas sem seguimento, indícios soltos sem perspectivas conclusivas. Isso significa mudar sistematicamente a perspectiva com o qual se constrói, por exemplo, a narrativa jornalística. Kundera em seu “Arte do Romance” explica “…a razão cartesiana corroía um após outro os valores herdados da Idade Média. Mas, no momento da vitória parcial da razão é o irracional puro (a força querendo apenas o seu querer) que se apossará do cenário do mundo, porque não haverá mais nenhum sistema de valores comumente admitido que possa lhes fazer obstáculo”

É neste vácuo e só neste nada hegemônico hiato que o criativo pode trazer uma contribuição inesperada.

Usar padrões de sua força criativa e imaginária (distintas, como veremos a seguir) é instrumentalizar recursos como a ansiedade e a angustia em uma direção. Se a literatura é um arte correlata da sublimação? Possivelmente sim. O texto é a garantia de que estamos atentos aos sinais do mundo, seus signos e significados, mas não submissos a ele. Essa distinção é vital para que o autor não se torna – ou seja reduzido – a ser um porta voz dos panfletos políticos de sua época.

O engajamento atual, que beira o ridículo, é um sinal de alerta para a literatura e suas jaulas ideológicas. Por mais que as pessoas que compõem a intelligentsia do momento desejem, elas não podem enquadrar toda oposição em categorias taxonômicas, geralmente desqualificadoras. Exemplo disso é a acima aludida hiper ideologização das ideias, a execração das tradições religiosas e até mesmo de qualquer tradição, o culto ao cotidiano como único tema digno de figurar na literatura. Isso exemplifica de certa forma a leva de autores que por mais oficinas literárias que façam e por mais apadrinhamentos políticos que tenham não conseguem produzir nada além de um conjunto de textos datados.

O Personagem

Apesar das críticas à ingenuidade dessa hipótese, sim, eles podem não ter vida autonomica, mas eis que os personagens exigem uma vida quase emancipada do autor, e isso está além de uma impressão vaga, trata-se de uma constatação empírica. Significa que o apartamento da literatura dela mesma exige que os escritores abandonem seus domicílios fixos e passem a migrar como ramblers. Neste sentido faria bem a todo personagem encarnar fragmentos do mito do “judeu errante”.

A força de um romance atual põe em evidencia portanto duas máximas: a história que corre paralela ao real, isso é a história que a história nunca pode registrar, pois é aquela que faz parte da chave inconsciente das micro histórias subjetivas individuais (e relacionais). Para esta não é suficiente fazer amplas varreduras enciclopédicas. A outra máxima, mas não menos importante, é a assunção de que os personagens – para adquirir uma existência fora do texto – precisam, de algum modo aniquilar/neutralizar as idiossincrasias do autor. Isso significa que há uma luta entre as características com o qual o autor tentar modelar seus personagens e a existência autodeterminada do personagem – que paradoxalmente não é externa – a qual exige uma vida independente, e de uma autoria única.

Despertar o senso de intriga é, necessariamente, atrair o leitor para uma armadilha benévola. Nem sempre o arrebatador é belo.  Sua raíz etimológica vem de arrepitare, roubar, resgatar, tomar à força. Ofertar a isca até o lugar mais apropriado para alcançar o destinatário final. Tomar de assalto o leitor. Isso pode – e frequentemente é – confundido com fazer concessões. Agradar o leitor, valha-me, é visto com desdém. Para além do valor estético da concessão, existem de fato aquelas lavras que rebaixam o nível do escritor ao invés de oferecer alguma ascese.

Insano Joyce

É sempre perturbadora a pergunta de Jacques Lacan: afinal “Joyce era louco?”

A depender de qual área psicológica se apropriasse da pergunta ela seria afirmativa. Mas, num sentido distinto daquele que o senso comum e a psiquiatria atribuem à loucura. Joyce emulava a loucura para escrever. Empresta sua pena à demanda errática (mas com rigoroso controle do timing) aos seus inquilinos provisórios. A transitória esquizofrenia auto-induzida de um escritor é a única razão para justificar sua liberdade. E, também, sua única motivação para a migração da energia psíquica à capacidade criativa, isto é, sua volição redirecionada à imaginação.

Usar padrões de sua força imaginária é também instrumentalizar recursos como a ansiedade e a angustia em uma direção. Seria a literatura uma arte correlata da sublimação? Para alguns possivelmente. O texto de ficção seria uma garantia de que estamos atentos aos sinais do mundo, seus signos e significados, mas não necessariamente submissos a ele. Essa distinção é vital para que o autor não seja reduzido a um porta voz dos panfletos políticos de sua época.

Exemplo claro disso é a execração das tradições religiosas, dos elementos místicos (que impregnam indiscriminadamente o dia a dia tanto do crente quanto do agnóstico), e até mesmo de qualquer tradição lato sensu. Eis que o culto ao cotidiano e dos problemas sociais tornaram-se os únicos temas dignos de figurar na literatura. Entretanto, só a hesitação produz conflito. E só a curiosidade intrusiva é capaz de construir a densidade que estrutura os enredos ficcionais. Tudo depende dela, mas não só dela, para tornar o romance um símbolo das ações do homem.

Um oficio que nesta já esgotada pós modernidade pede, implora, urge: o restabelecimento de sentidos, de preferencia, novíssimos.

https://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/

 

 

O SUS e as fronteiras epistemológicas (Blog Estadão)

O Sus e as Fronteiras epistemológicas

“Avistar uma fronteira, é, já, ultrapassa-la”

Gaston Bachelard

Paulo Rosenbaum, PhD. Doutor em Ciências (USP) Mestre e Pós doutor em Medicina Preventiva pela FMUSP

Em resposta ao artigo “O SUS contra a ciência” dia 17/07/18 publicado na seção “Espaço aberto” de autoria de Natalia Pasternak Taschner e Alicia Kowaltowski.

O artigo de hoje das duas autoras acima trata de um tema importante, mas é de tal forma reducionista e desinformador que pode ser ele mesmo considerado como duvidoso em termos de acurácia científica. A contradição começa com o título escolhido: “O Sus contra a ciência”. Ele evoca o que há de pior em termos de maniqueísmo científico e epistemológico e trata uma questão cara à saúde pública com desleixo e uma perturbadora despreocupação com a ética. O grande mérito do artigo poderia ser trazer para a discussão os graves problemas de saúde pública, mas adotou uma abordagem confrontadora, e infelizmente o mérito potencial do nobre espaço acabou desperdiçado como um grande equivoco. Superando os problemas deste libelo anacrônico, teço, a seguir alguns comentários baseados em um dos trabalhos que desenvolvi no trabalho academico na FMUSP.

A história da medicina tem sido contada apenas parcialmente, sempre privilegiando as concepções e práticas hegemonicamente sancionadas na atualidade. Existe mais de uma outra forma racional de responder aos desafios colocados à medicina em sua trajetória histórica. O resgate da tradição empírico-vitalista, da qual a homeopatia é a principal herdeira, redimensiona essa trajetória. Esta outra versão da história nos fala do fato homeopático e das suas possibilidades para viabilizar projetos de intervenção não restritos à funcionalidade mecânica do organismo.

Se isto vem ocorrendo na práxis da biomedicina, deve-se à consciência instintiva de seus protagonistas, uma vez que a formação acadêmica não capacita os médicos para esta modalidade de intervenção. Compreende-se, então, que seus protagonistas experimentem enormes dificuldades em readaptar essa visão não mecânica a seus curricula práticos, uma vez que a pedagogia dispensada ao médico ainda centra-se substancialmente nesta única dimensão. Ou seja, há, sim, um despertar para outras dimensões do adoecer, a percepção de que este não está circunscrito ao problema biológico. No entanto, este outro modo método de enxergar e avaliar a doença e seu tratamento ainda encontra poucas condições de viabilizar-se pela carência de agentes no campo operacional.

As medicinas tradicionais entre os quais encontram-se a homeopatia, a medicina oriental, a auryveda,já foram demasiadamente castigadas e perseguidas por ideologias médicas e sistemas racionais onipotentes, cujas repercussões fizeram-se sentir na maturação de seus programas. Não se trata, porém, de uma condição especial da homeopatia e da medicina oriental. Este é um problema inerente à competição, anteriormente referida, entre programas científicos. Numa época em que a pluralidade metodológica parece arrefecer a competição entre paradigmas, algo inusitado pode estar ocorrendo: as práticas integrativas correm o risco de tornarem-se algozes de si mesmas, caso não saibam trabalhar com suas próprias contradições e reorganizar a teoria a partir do que dela emana como produto. Fica clara a completa impossibilidade de continuar a esquivar-se de interagir com as outras disciplinas e repartir este legado, herdado dos sucessivos conflitos que as caracterizaram em suas órbitas históricas.

Para tanto não basta que uma epistemologia “emprestada” de outros saberes possa corrigir as insuficiências metodológico-conceituais, mesmo que seja baseada naquilo que emerge da prática ou através das discussões teóricas. Assim, não serão os os químicos, físicos, psicanalistas, historiadores da ciência ou a tradição biomédica aqueles que trarão a luz que falta. Essa luz deverá surgir do próprio incômodo e inquietude salutar que impõe-se aos que sentem a necessidade de produzir suas evidências: os médicos que praticam outras formas de medicina. Nota-se que isto já está acontecendo e ocupando certos nichos do conhecimento, ainda que de forma tímida e pouco produtiva.

Devemos insistir na interlocução, que será difícil, assimétrica, tortuosa. Mas não é mesmo a tensão que instiga e excita o ânimo do pesquisador? Com a mesma obstinação, contudo, deve-se cuidar para que o produto inicial da interlocução venha a partir do interior, neste caso, a partir do conjunto de vivências produzidas pela própria homeopatia.

Segundo Henri Bergson (1936: 15), a “pesquisa científica é um diálogo entre a mente e os fatos”, portanto, uma construção científica é, por excelência, um diálogo referido a uma interlocução entre uma realidade eleita e uma mente disposta a percebê-la.

As práticas integrativas (recomendadas pela OMS e a OPAS como uma forma inteligente de assistência médica na atenção primária) constituem-se como um saber com aplicatio, mas são bem mais do que isto. Por acaso as autoras se deram ao trabalho de pesquisar e informar isso aos leitores deste jornal? Decerto não. O fato é que as medicinas integrativas construiram um método, um acordo intersubjetivo que vigia sua própria execução. Trata-se de uma filosofia médica (uma iatrofilosofia particular) com tradição suficientemente forte para reivindicar que suas formas de conhecer o sujeito, seu adoencimento, cuidado e cura sejam recolocadas como uma das possibilidades de teoria do conhecimento em medicina.

Se o que hoje se discute dentro dos distintos modelos científicos, tais como a teoria da complexidade e a teoria do caos, obtém status epistemológico em biologia, comparáveis mesmo ao que a teoria da relatividade ou a teoria quântica obtiveram na física, existem percepções que compõem o saber integrativo que devem perceber o valor e fecundidade de sua efetiva e positiva colaboração.

A rigor a medicina não é ciência, segundo Canguilhén a medicina já foi classificada epistemologicamente como “ciencia operativa” pois nela repousa uma quantidade incomensurável de processos complexos que não terminam quando se confecciona a prescrição, ainda idealizada como o ato derradeiro da atividade médica. A rigor, a discussão está apenas começando, uma vez que deve-se considerar a imprevisibilidade das comunicações e a imensa variabilidade de resposta dos sujeitos em suas distintas reações e respectivas idiossincrasias. Isto vale especialmente para a medicina em sua dimensão arte, quando a cada nova consulta estas comunicações se processam de um sujeito ao outro.

As medicinas integrativas precisam começar a reaprender com sua própria construção teórica, que deverá emergir de uma prática cuidadosa, que saiba, como bem diz o aforismo hipocrático, considerar que “a arte é longa, a ocasião fugidia e a experiência enganadora, o juízo difícil” (Hipócrates, 1838).

A arte é longa, porquanto tanto os comentaristas ocidentais como Hahnemann, ao invés de facilitar o trabalho e montar um sistema no qual se poderia usar o antigo sistema das nosologias para prescrever, afirmaram o valor do particular sobre o geral. “Criaram”, assim, um desafio hermenêutico nas reduções propostas pelas generalizações a partir das classificações de doenças. O cogito hahnemanniano sugere, então, que deve existir também uma nosologia do particular, do incomum, forçosamente também do impreciso. Cria uma inversão de valores, um contrapensamento, que contém em si mesmo uma das peças-chave do seu método, um problema digno de investigação para qualquer epistemólogo contemporâneo. O fato adquire aqui estatuto de idéia fecunda. Isso hoje se reflete no crescimento de medicina baseada em narrativas, a slowmedecine, a rejeição aos hiperdiagnósticos e uma orientação cada vez mais cuidadosa para o desenvolvimento de uma medicina mais individualizada.

A ocasião é fugidia já que para aprender não basta uma série de experiências mesmo que metodologizadas e organizadas. Escapa, no domínio da subjetividade do paciente, uma série de elementos fundamentais, o que automaticamente transforma em quase quimera a busca de uma inapreensível essência do sujeito. Os pacientes, assim como as substâncias medicinais, “escapam-nos” por entre os dedos, porque não somos suficientemente aparelhados para detectar o que há ali de curável e de curativo, respectivamente. O sujeito que sofre procura ajuda, alívio para seu sofrimento, qualquer ajuda pode lhe dar um suporte positivo. Muitas vezes isto pode resultar em processos transferenciais adequados, medicamentos criteriosamente escolhidos a partir de diagnósticos individuais, mas deve-se admitir que nem sempre eles são suficientes.

Os médicos debruçam-se sobre representações de fragmentos (sintomas) para cuja interpretação buscam analogias em outros (experimentações) para capturar a natureza da afecção de tipos singulares. A unidade no indivíduo é fato, mas o que muitas vezes capturamos são apenas as intermitências (sintomas e queixas) desta unidade. Quando se vê um medicamento bem escolhido agir, enxerga-se ali somente uma maior coerência entre estas intermitências. Podemos passar a perceber uma retomada da ritmicidade do conjunto. E então, na evolução clínica, pode-se observar como, para que e para onde este sujeito em reconstrução está indo. Por isso trata-se de um disparate a defesa da tese de que há uma e somente única forma correta de exercer a medicina.

A experiência é enganadora porque jamais poderemos traduzir completamente uma vivência subjetiva, como é o caso da anamnese e relação médico-pacienite, de acordo com uma assepsia metodológica. Mas de fato, como professa o primeiro aforismo hipocrático, aquilo que se conhecia até experimentar torna-se uma retradução de fragmentos de vivências que obriga o médico a comparar com aqueles que se colhe em cada consulta. E em cada nova consulta de um mesmo paciente, enxerga-se outros fragmentos, com os quais muitas vezes, entre transferências e contratransferências, se misturam médico e paciente.

O juízo é difícil porque é necessário possuir potencial e instrumental éticos suficientemente amadurecidos. Assim, pode ser preciso retroceder diante de um juízo já feito. Devemos, como um magistrado diante de um caso de múltiplas possibilidades, instruir o processo, deixando o mínimo de vestígio de nossas mãos sobre a decisão, mas sabendo que sempre restará uma margem de interpretação, de liberdade no ato de julgar. O juízo é difícil porque nossa capacidade de perceber o “sujeito-tema” resvala nas nossas próprias metáforas.

“Mas é completamente diferente com o tratamento de objetivos, cuja natureza essencial consiste de operações vitais – o tratamento, a saber, da estrutura humana viva para levá-la de uma condição não saudável para uma saudável (que é a terapêutica) e a disciplina da mente humana para desenvolver e exaltá-la (que é a educação). Em ambos os casos, o tema sobre o qual trabalhamos não deve ser considerado e tratado de acordo com as leis físicas e químicas como os metais do metalúrgico, a madeira do lenhador ou o tecido e as cores do tintureiro. É impossível, portanto, que ambos, médico e professor, quando cuidando da mente ou do corpo, devam necessitar de um conhecimento antecipado de seu sujeito-tema, que possa conduzi-lo pela mão até o término do seu trabalho, assim como obter, talvez, um conhecimento das propriedades físicas e químicas dos materiais que ajude e conduza o metalúrgico, o curtidor e outros artesões até a perfeição dos seus. A vocação de ambos demanda outro tipo de conhecimento, assim como seu objeto, um indivíduo vivo, é completamente diferente.”

(Hahnemann, sobre o valor dos sistemas especulativos em medicina, 1984: 491-492).

É verdade que nem todas as praticas integrativas são válidas e que pode haver, entre elas, práticas pseudocientíficas. Algumas, sem o olhar atento de quem deve ter formação médica, podem ser, de fato, lesivas ao paciente. Destarte as medicnas integrativas exercidas com rigor e ética tem nas mãos, em síntese, uma possibilidade concreta de intervir no sujeito, desenvolveu uma semiologia generosa, podendo interferir na maior parte das enfermidades crônicas. É claro que encontram-se algumas lacunas: insuficiência teórica, já que uma reformulação de alguns pressupostos se faz necessária; restrições do arsenal terapêutico frente à diversidade humana e a assunção das atuais limitações e dificuldades para demonstrar a ação de sua eficácia terapêutica.

Na presente ausência de estruturas hospitalares adequadas (ou serviços que ao menos aceitem-na como uma possibilidade), como viabilizar todas as opções possíveis nos casos agudos e nas emergências? Como agir coerentemente e com responsabilidade clínica frente àquelas enfermidades que requerem suporte adicional, como reabilitação, cirurgias eletivas e até mesmo drogas convencionais? Estas todas são questões que, apesar de estarem aparentemente no âmbito da prática, merecem um melhor acolhimento nas futuras discussões epistemológicas.

Outro aspecto importante é o espaço e o tempo ocupados durante uma consulta. Este “tempo” pode ser visto como um obstáculo, quando se dimensiona em que tipo de sociedade vivemos. Ao mesmo tempo, representa um positivo resgate solidário no trato entre pessoas. Trata-se de um tempo absolutamente necessário para que o terapeuta possa reconstruir a história patográfica e biográfica do paciente. Tempo também precioso para que um “outro” possa ser traduzido por si mesmo para o terapeuta. Tempo para praticar a auto-observação, consiga ele se fazer entender ou não por nós, terapeutas, seus interlocutores. Suponhamos que possamos ensinar aos médicos que se deve equiparar a destreza com o cuidado, a perícia com a suavidade, e que tanto a acurácia como a efetividade devem ser pensadas, também, prospectivamente. Por que não ensinar aos médicos que se deve, sim, atender às doenças, mas ouvindo-se simultaneamente as metáforas daqueles que as apresentam que, de maneira uníssona, reclamam cuidados e escuta.

Este pode ser um sensível “termômetro” da potencial capacidade ética e compassiva do ato de cuidar. Também representa uma enorme economia aos contribuintes já que os procedimentos são em sua maioria ambulatoriais, portanto muito menos dispendiosos e o atendimento mais pessoal e artesanal possui enorme potencial para evitar intervenções desncessárias. Além de, quando for o caso, encaminhar e triar melhor os casos que precisam de atenção mais especializada e/ou hospitalar.

Talvez, aparentemente, as medicinas integrativas como medicina do sujeito não sejam a terapêutica mais adequada à lógica das sociedades atuais onde tempo representa apenas dinheiro e poder.

Mas, talvez, isso mesmo é que faça dela uma alternativa assistencial fundamental.

https://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/o-sus-e-as-fronteiras-epistemologicas/

Monocratismo e absolutismo esclarecido (Blog Estadão)

O fantasma de Santa Cândida mudou de espectro, agora ele é uma ideia com aparição onipresente. É básico ter isso em mente. Luis Ignacio é o termostato absoluto do reino da impunidade.  Estamos em uma Pátria passional. Guiada por instinto. Por isso, talvez, ninguém mais acerta os prognósticos. No País da gangorra emocional prevalece — parafraseando David Laing — fingir não ver o jogo que eles fingem não jogar. Cujas regras sabemos que eles não respeitam. O sobressalto pode vir durante um gol, em plena tristeza da eliminação da seleção na Copa, ou numa manhã melancólica de domingo sob a caneta de um magistrado de plantão.

Pedir intervenção militar, suspiros por ditadores autocratas, glamorização da truculência, é frequente, mas anacrônico e ridiculo. Destarte, muito mais perigoso e perturbador tem sido a irresponsabilidade das instituições. Ao contrário do que boa parte da midia tenta nos fazer crer, a opinião pública não está dividida. Inexiste, na prática, o “nós e eles”. A disputa em curso tem feito aproximações sucessivas para jogar sobre a mesa o risco de ruptura institucional. O ônus está nas costas do Poder cada vez mais isolado contra a esmagadora maioria da sociedade. A esquação seria algebricamente evidente, mas será preciso explicita-la: enquanto o condenado ex-presidente estiver detido ninguém está imune à justiça, se “cavam” sua liberdade — uma concessão monstruosa para quem praticou tantos crimes contra a Nação —  todos se tornam invulneráveis. É automático, é linear, auto-evidente.

E não é bem que a lava-jato tenha sido canonizada (o que seria sempre negativo), é que a premencia geral tem sido optar por exorcismos extremos contra aqueles que escarnecem da opinião pública, e porque não dizer, da própria jurisprudência por eles gerada.

Tivemos tanto trabalho para nos livrar da ditadura e do arbitrio para cair de monocratas ilegitimos que tratam de expulsar toda racionalidade do recinto dos colegiados para preenche-lo por paixões partidárias? Se era para cair nisso que tal voltarmos ao absolutismo esclarecido? Do déspota esclarecido poderiamos ao menos esperar um pensador do Estado. Ou alguém minimamente ilustrado que recolocasse na política algum sentido de coletividade e solidariedade. Sem duvida, melhor do que tribunais servicais e um parlamento movido a chantagens e comandado pelo medo dos dossies.

Vale lembrar que as jovens democracias não costumam sucumbir de morte subita. Elas vão sendo defenestradas pelo desgaste. Humilhadas por uma lenta e permamente indução voluntária de microcaos diário. Pelo envenenamento social regado a discursos que apresentam antidotos vencidos. Estamos testemunhando a história se desenrolar sobre as nossas cabeças e precisamos nos indagar: em qual posição ficaremos? Com quem contaremos a não ser com nós mesmos? Fala-se mal das redes. Com razão tenta-se coibir a propagação de falsas notícias, mas quem está se ocupando das fake news oficiais? Aquelas que emergem dos institutos de pesquisa que insistem em naturalizar a presença de gente inelegível. E daqueles que propagam estes resultados sem questiona-los. A falsificação intelectual emitida por candidados e analistas políticos também merecem atenção, aliás elas são potencialmente mais lesivas do que as falsas notícias, pois a contestação não está na checagem dos fatos, mas em desmontar sofismas bem articulados.

Na zona cinzenta entre o licito e o legal convém perguntar se a decisão dos monocratas de plantão, do Planalto ao Chuí, não visaria, ao fim e ao cabo, desmoralizar todo sistema juridico? Uma desqualificação indiscriminada viria a calhar para quem quer apenas usar os recursos postergacionistas para tumultuar e criar a cortina de fumaça necessária para vilipendiar a democracia. Entre outras vozes, o jurista Modesto Carvalhosa tem divulgado que a apuração secreta do pleito não é constitucional, muito menos democrática. Vale dizer, não basta que as urnas eletrônicas sejam confiáveis, elas precisam parecer fiéis guardiãs do pleito. O voto físico, pode representar para uma democracia, a mesma sacralidade que determinados objetos e rituais tem para as religiões. Afinal, negligenciar os simbolos é uma das mais falsas simplificações de nossos tempos.

A ideia genérica de que toda teoria que contesta as decisões que tem sido tomadas contra os interesses da sociedade é conspiratória serve apenas para desqualificar as denúncias. Mas eis que acabamos de testemunhar incontestáveis evidências: as conspirações existem e muitas delas estão em curso em sincronicidade com a ususrpação de funções de agentes públicos. Não seria bom nomear quem as patrocina para dar o aval para a anomia?

Pois desta vez o atingido não é uma pessoa, um segmento social, um grupo, partido ou minoria.

Desta vez o alvo é o País. A mira é clara, e a arma, posicionada. O risco é acertar na mosca. Quando falha, pode-se sempre continuar sabotando a democracia. Para a guerra de guerrilhas o desgaste do adversário é mais important do que a vitória.

A falsa hermenêutica do jornalismo instrumental (Blog Estadão)

Como se não bastasse o excesso de realidade nos empurrando ao beco, surgiram, nos últimos dias nas redes sociais e fora dela textos que se superaram em matéria distorção. É perturbadora o volume de desonestidade intelectual a serviço das causas. As peças mais recentes migraram às mídias jornalísticas com uma matéria publicada na FSP onde se traçava paralelos (sic) entre a política migratória norte americana e a estratégia nazista conhecida como “solução final”.

Esta e outras obras primas da política comparada tem aparecido com inédita abundância. Sob o generalizado pretexto de classificação falso  ou verdadeiro, empunhando a expressão “fake news”, os lados se acusam simultânemente. O resultado é a péssima qualidade da informação e o jornalismo a desserviço dos leitores. Se por um lado com esforço e honestidade é possível diagnósticar falsas notícias é muito mais complicado — mas a verdadeira tarefa do jornalismo imparcial e independente — detectar a falsa hermenêutica. Mais sutil, mais ardilosa e muito mais elaborada ela pode confundir e passar a impressão que é uma verdade sob a famosa expressão “contra fatos não há argumentos”. Porém eles existem e dependem como os fatos e as metáforas que se criam ao redor deles são expostas. Existem regras para interpretar realidade e texto e aboli-las não podem servir de álibi para afirmar o implausível. Tais regras existem desde a apreciação de uma obra de arte até um texto científico. A liberdade de expressão não pode contemplar a narrativa embuste sem contesta-la.

O problema, ainda sem um diagnóstico satisfatório deve estar bem em outro lugar: na pretensa aceitação da diversidade. No pseudo acolhimento do contraditório. Já descobrimos que o famoso adágio “contra-hegemonico” visaria, ao fim e ao cabo, execrar todo aquele que se recuse a fazer generalizações reducionistas para endossar o senso comum. Quem quebrar essa regra de ouro do jornalismo instrumental corre o risco de condenação pública. Fui obrigado a constatar em outro panfleto este gênero de insinuação. O redator afirmava que duvidar da estratégia de manipulação midiática — sobre como a mídia tratou o episódio dos abrigos infantis nos EUA — poderia merecer o titulo de “capo” (figura sinistra, relacionada aos outros presos que ajudavam/colaboravam com os nazistas nos campos de concentração). Acusar o outro de nazista, além de tese ignominiosa e uma analogia repugnante, é a inflexão grotesca que adota o discurso intolerante contra o qual pretensamente se insurgiu.

A comparação entre o holocausto e seus desdobramentos com o endurecimento da política imigratória dos países, por mais cruéis ou repugnantes que aparentem ser, enseja uma espécie de cinismo involuntário. O cinismo torna-se mais grave e menos involuntário na medida em que os argumentos evocam um moralismo supremacista. A comparação entre a política de exterminio nazista que criou o maior drama da civilização ocidental patrocinando 1.5 milhão de infanticídios com o grave problema dos shelters (abrigos) infantis de crianças separadas de seus pais nos EUA  não é só um exagero, não se trata apenas de um contraste hiperbólico, nao se limitou a lançar mão de superlativos inocentes: é uma fraude jornalística.

É, sobretudo, uma interpretação superficial, uma demonstração de distorção e imperícia para analisar os fatos históricos.
E quem será que a patrocina a distorção sistemática?

Fazer um paralelo moral destes requer a coragem de se expôr à estultice. Enxergo dois propósitos na divulgação desta pseudo tese: banalizar o holocausto como fazem sem igual a imprensa iraniana, os racistas do BDS, os jihadistas e terroristas palestinos e as Ongs ligadas aos financiadores da extrema esquerda, aos regimes judeofóbicos de extrema direita, ou a uma ingenuidade limítrofe que deve ser acolhida com piedade e condescendência, mas furiosamente combatida com mais informações. Uma pena que quem deveria fazer este trabalho é quem mais o impulsiona.

Quando a mídia deixa de ser analítica e torna-se jornalismo instrumental a favor ou contra uma causa, perde a função jornalística para tornar-se mero apêndice ideológico do regime ou proposta política/partidária defendida. Testemunhamos isso muito recentemente no discurso vitmizador do petismo e aliados.

Enquanto toda essa discussão se desenrola o músico racista Roger Waters — classificado pelo prefeito da cidade como persona non grata — faz show em Munique com projeções e incitamento à demonização dos judeus, e sob o manto do veto à islamofobia, os jihadistas europeus gozam de progressiva liberdade para oprimir as maiorias.

Eis uma época na qual precisavamos encontrar expressões fortes e sintéticas para expor nossa desolação: Céus. https://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/a-falsa-hermeneutica-do-jornalismo-instrumental/

Dicionário Eclético Universal (blog Estadão)

Dicionário Eclético Universal (últimos adendos)

Toga

Subs. Masc. Manto escuro e mágico muito utilizado para fazer desaparecer inconveniências políticas.

Capa mutante inventada em Brasília que transforma quem o usa em legislador monocrático.

Copa

Subs. Fem.

Empoderamento do topo das árvores.

Sin. Playground onde Putin vem exercitando czarismo ao ar livre.

Foro

Exemplos na literatura

“Querida, parece que deu cupim no forro privilegiado” in Peças anedóticas (San Bernardin)

Polarização

Estado de animo artificialmente exaltado, geralmente usado para simular oposição entre dois lados idênticos. Obs- pode apresentar variantes com sinais invertidos.

Ref. Não confundir “polarização” com respostas ao absurdo.

Ref.2 “Esquerda e direita unidas, jamais serão vencidas”(Nicanor Parra)

Oposição

Antiga, anacrônica e ultrapassada prática antes comum no sistema político chamado democracia, que consistia em fazer resistência à situação. Hoje desmoralizada e em completo desuso, especialmente na América Latina.

Fundo partidário

O oposto de raso tributário. Prática de legislar recursos marketologicos em causa própria emulando benefício coletivo.

Sin 1. Nomenclatura também usada como sinônimo de “fundo perdido” na linguagem popular.

Sin. 2 – 1.7 bilhão.

Recesso parlamentar

Cantinho escuso reservado para negócios de baixíssimo interesse republicano.

Militantes

Robôs com rebaixamento cognitivo comandados por controle remoto. (Obs- pilhas de fábrica duram muito pouco, recomenda-se reclamar com o produtor)

Fake news

Antônimo contemporâneo  de “eu sou a única verdade”

Transmissão obsessiva-paranóica ininterrupta da rede Cnn.

Ref. Não confundir com má interpretação de texto.

Concertação geral

Indução sistemática de amnésia coletiva.

Sin. Acordão para eleger representante ao cargo máximo com compromisso de conceder anistia ampla, geral e irrestrita aos criminosos institucionais.

Estadista

Espécie política sob risco de extinção. O registro do último espécime foi um avistamento numa floresta austral patagônica. Segundo relatos de testemunhas ele cobria a nudez com tanga de folhas avulsas descartadas de texto constitucional.

Desvio de função

Culto religioso ortodoxo praticado no Brasil por 13 anos.

Ref lit. “O Bessias está indo te entregar”

Constituição federal

Carta sem destinatário conhecido.

Sin. Objeto usado para idiossincrasias hermenêuticas. Rel. interpretações especializadas na arte da distorção.

CPI

Prática de investigação protelatória.

Ref. Simb. analogia na literatura “Para inglês ver”.

Condução coercitiva

Meio de transporte inevitável em grandes centros urbanos brasileiros.

Supremo Corte

Espécie de talho especial muito usado na alta costura.

Ref. Costuma expor decotes por muitos considerados indecorosos.

Acordo nuclear com o Irã

“Plutônio pode? ” Frase atribuída ao líder moderado da Guarda Revolucionária antes de ameaçar despejar material radioativo nos Países que ameaçaram não endossar o pacto.

Kim Jong

Conhecido golpe publicitário narcisista de corte de cabelo

Antissionismo

Doutrina que com pequenas ressalvas éticas prega a destruição dos judeus e de Israel

Antissemitismo

Doutrina que, sem ressalvas, prega a destruição dos judeus e de Israel

Petrobrás

Monopólio em permanente campanha por subsídios da sociedade.

Sin. O combustível mais caro do planeta.

Esquizocracia

Regime político baseado em acordos contraditórios, neologismos e governança baseada em slogans.

Sin. Estado de anomia gerenciado como se houvesse uma estratégia de Estado.

Homens públicos

Sujeitos com vaga noção de diplomacia, economia e estratégias para construir políticas públicas que postulam cargos legislativos com campanhas de marketing bilionárias.

Analog. Frequentemente são notórios iletrados, exímios locutores, ilustres atores amadores, rufiões nas horas vagas, imitadores de auditório, oportunistas fisiológicos que chegaram à linha sucessória, ex membros párias da hierarquia militar que pregam truculência ou eleitos que ocupam efemeramente o mandato alegando sacrifícios em busca de cargos mais altos.

Estado Policial

Movimento messiânico que pregava a solução política universal na suspensão das garantias individuais.

Segunda estância

Lugar onde alguns podem acabar gozando mais liberdade que outros graças às estâncias superiores.

 

 

 

 

 

 

 

Fisiopatologia da culpa e a elisão da linguagem (Blog Estadão)

Tags

, , , , , , , , , ,

É muito provável que quem viu o excelente filme “1945” (Hungria, 2017) ficou apreensivo nas poltronas e saiu com a sensação de ter vivenciado uma experiência única: acompanhar didaticamente as etapas de como opera a fisiopatologia da culpa. Sabe-se que cerca de 250.000 judeus foram mortos nos países do leste europeu depois que o nazismo já havia sido oficialmente derrotado. O filme — que se passa num pequeno vilarejo húngaro — mostra dois judeus vestidos em trajes tradicionais ortodoxos voltando de trem para o que seria sua cidade natal. Sua enigmática chegada agita a vila com apreensões e, mais uma vez, reacende-se — num conhecido e abjeto automatismo — o “problema judaico” como Marx gostava de se referir aquele que seria um elemento estranho e perturbador dentro de suas propostas ideológicas. É sempre assim com doutrinas e ideologias, quando alguém ou alguma coisa não cabe nela, classifique-a como “problema” e, quando ninguém estiver por perto, elimine-a.

Imagino que boa parte das pessoas gostaria de acreditar — por conforto ou omissão — que isso é passado e o antissemitismo é página virada. Pois não é. Não faltam exemplos atuais. Uma parte dos legisladores na Polônia resolveu aderir à estratégia revisionista em alta mundo afora. A novidade agora é abolir o passado ou renegá-lo (o que parece ser cada vez mais tentador quando se fundem caneta e poder) através da criminalização instrumental da linguagem. A partir de agora o uso de expressões como “polish death camps” ou “campos de extermínio poloneses” será rigorosamente punida.  Em recente sessão o parlamento polonês aprovou a resolução, que depois foi aprovada pelo senado, e agora apenas aguarda a sanção presidencial para entrar em vigor. O conteúdo poderia ser engraçado se não representasse um escárnio contra a história e um atentado à livre expressão. A lei em vias de ser aprovada: será crime passível de punição legal e pena que inclui a prisão por até 3 anos de detenção para quem, por exemplo, usar a expressão “campos de extermínio poloneses”. De fato, para sermos justos, os campos onde se naturalizou a chacina e a crueldade contra judeus e outras minorias, foram instalados pelos invasores alemães em território polonês. O que não se consegue explicar — e a justificação funcionaria como confissão — é por que 250.000 judeus encontraram a morte, a espoliação de bens e a expropriação de patrimônio bem depois que os nazistas foram derrotados. A solução imaginada aqui e acolá é apenas uma tentativa ineficiente de reverter a culpa pela conivência de uma parcela da população e governos à época da guerra. Mais eficaz seria mudar esta percepção expondo os horrores de toda forma de intolerância, mas as soluções fáceis e sinistras são as mais caras ao nosso tempo. Virou hábito retorcer os processos históricos, de fato é um dos vícios em nossa era.

O que vale notar é que fenômenos como este denotam — mais frequentes nas extremas esquerda e direita — algo para além do mero revisionismo. É a linguagem que entra em mutação para construir uma elisão instrumental da linguagem. E a armadilha não é só a proibição de narrativas incomodas. A legenda do clube associativo Psol-PT recém publicou uma nota que repudia a presença da comissão LGBT de Israel na parada Gay realizada em São Paulo, por sinal, o único País democrático do oriente médio e também o único que não discrimina esta comunidade. Enquanto isso, os arautos da probidade socialista exaltaram a delegação palestina onde os gays são rotineiramente esfolados vivos. Não é caso isolado, a estupidez política tomou proporções de pandemia e a desonestidade intelectual assumiu o comando naqueles que deveriam ser os grandes centros do saber.

O mesmo engano persistente na análise do acirramento atual entre Israel e as organizações que declararam abertamente em sua “carta”constitucional o desejos de exterminar aquele Estado. A estratégia adotada, e muito bem aplicada, por parte dos grupos terroristas, com destaque para o Hamás que oprime — diante dos olhos inertes do mundo — os cidadãos na faixa de Gaza. Usando táticas da chamada guerra assimétrica e financiado pelos aiatolás iranianos, monarquias árabes  e jihadistas mundiais eles buscam na imolação de sua população civil numa tática para fazer ressaltar a suposta “desproporção” de forças. Apesar de ser patente o desequilibro, nem de longe, ele tem sido transferido à ação. Existem vários relatórios — pouco divulgados por uma imprensa especializada na pré condenação do Estado judaico — que as forças de defesa de Israel têm um dos exércitos que mais se preocupa com a preservação da população civil.

Está acontecendo em tempo real, aqui e agora. Hoje mesmo que é o dia final do Ramadã, o mês de jejum dos islamistas, a população civil de Gaza está sendo “convocada” — a 100 dólares a cabeça — para ir até a cerca que separa os dois territórios para lançar pipas incendiárias, coquetéis molotovs e outros artefatos caseiros, porém mortais, contra a fronteira sul de Israel. A mídia tem se esmerado em cobrir o “lado mais fraco” esquecendo-se que Israel já devolveu Gaza aos palestinos há quase uma década além de fornecer água, combustível e energia aos seus habitantes, a despeito dos mísseis e morteiros que recebe em suas cidades, nos parques e nas escolas do sul do País. Enquanto isso boa parte da ajuda bilionária recebida é direcionada pelos dirigentes palestinos para táticas de guerrilha, compra de material bélico e construção de túneis para infiltrar terroristas Vale dizer, Israel pode cometer erros, mas entre eles nao está a despreocupação com o caráter e espírito humanista que fundou as bases sionista para o retorno dos judeus à sua terra ancestral.

O que se vê entretanto na linguagem escrita e falada — No Brasil e pelo mundo — sao as velhas e ressuscitadas acusações contra Israel e seus habitantes que sim, lembram a pregação sistemática contra os judeus durante o III Reich alemão. A testeira dos jornais e nas manchetes Israel figura como um vilão a priori, de qualquer forma, em todas as circunstâncias. É sob esta manipulação que vivemos, com o agravante de que isso é muito mais grave do que a mera adulteração das notícias: envolve um esgarçamento da linguagem. Um passo então, para tentar obter o monopólio do pensamento. Assim, a comunicação confessa, sob tortura, que a elisão linguística encontra-se de fato instalada no mainframe. Pois o que será que estes jornalistas e professores universitários aprenderam na graduação sobre o conflito israelo-palestino  senão uma doutrinação maniqueísta reiterada e nada reflexiva de que o Estado hebreu é o algoz e a eternas vítimas são os palestinos. Pois não é  que as “vítimas” escutaram as aulas magistrais e assimilaram a doutrina?

Hoje as lideranças terroristas perceberam que a propaganda de vitimização e falseamento de dados e imagens traz um saldo um pouco mais efetivo e é bem mais econômico do que providenciar a logística para os homens-bomba. A tática tem cobrado um alto preço para os judeus em Israel, mas também fora dele. O que o Ocidente ainda não detectou é o tamanho do arrastão que o aguarda. O preço impagável que essa mesma demonização gerará, como efeito-espelho — sobre as sociedades europeias como um todo. Se os refugiados merecem abrigo, o mesmo não se pode dizer dos jihadistas do Islã radical, que hoje gozam de tolerância excessiva dos países da União Europeia. No entanto, à portas fechadas,  já é possível perceber a insônia em Bruxelas e alguns começam a admitir o tamanho do equivoco em receber milhões sem criar uma estrutura econômica e social que os acolha. E principalmente a indulgência exagerada O excesso de civilidade com a barbárie pode ser um sintoma de falência da cultura, pois como escreveu Isaiah Berlin, “liberdade para os lobos significa morte para as ovelhas”.

Segundo a matéria publicada no NYT, a intenção dos legisladores é redirecionar a culpa que ainda pesa — justificadamente — sobre a Polônia durante a segunda guerra mundial e fazê-la recair, exclusivamente, sobre os nazistas alemães. Este escritor, descendente de judeus poloneses — cujo avô serviu o exército da Polônia  —  tem orgulho de ter ele mesmo uma parcela polonesa e sugere portanto que as autoridades locais abandonem ou reformulem o projeto.

A história já nos ensinou que a farsa, mesmo quando muito bem estruturada, acaba desmontada pela própria força dos eventos e, como um elástico super tensionado, quando não há mais nada artificial que o detenha, volta com violência à posição original, espirrando para longe toda impregnação manipulada. Há um bumerangue à deriva, e ele está vindo com força direto em nossa direção. Desta vez, não desviaremos.

https://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/fisiopatologia-da-culpa-e-a-elisao-na-linguagem/

 

 

O antônimo de político ou o ano no qual (quase) perdemos a paciência. (blog Estadão)

Não é fácil encontrar esperança sendo um leitor de jornais, dando uma volta no quarteirão do bairro, ou sentindo o clima que paira por ai. É preciso negar o que se vê, ou, como querem os psicanalistas, ressignificar a realidade. Isso significa que é altamente provável que o estoicismo seja uma virtude. Viver não contra, mas à revelia das vicissitudes. A reboque das adversidades. E imitando o famoso Príncipe da Dinamarca, Hamlet, pegar em armas contra o mar de calamidades. Ou como o Marques de Pombal diante da Lisboa arrasada pelo terremoto de 1755 quando exortou os seus para “enterrar os mortos e cuidar dos vivos”.  A extrema objetividade pode ser equivocadamente encarada como insensibilidade, mas muito provavelmente seja apenas um indício de alta resistência psíquica. Depois dos atropelos do País, e da inépcia política generalizada, o que nos resta senão sobreviver ao “mar de calamidades” usando as armas disponíveis.

Que ninguém pense que especulo tomado por otimismo, ingenuidade, ou faço uso de antidepressivos (mesmo porque a maioria deles só atua em depressão grave e não sobre a infelicidade reativa ou a depressão com nossa esquizocracia sem resultados). Sou provavelmente muito mais adepto dos preceitos de Schopenhauer do que a maioria dos meus conhecidos, mas a política deveria ser encaminhamento, não pathos.

Tampouco há fórmula pronta alguma, pois vivemos a atual fase de torneio para a cidadania olímpica com a prova de cem metros rasos com abismos consecutivos. Ainda assim, não deve nos impedir de enxergar a legião de pavios apagados no fim do túnel. Se houvesse uma generalização, seria viver sem prestar atenção ao excesso de contradições. Viver sem uma pauta. Viver sem ser tutorado. Abolir as bulas prescritivas, inclusive esta aqui. Sem encarar o político como elemento escravizador. A política não é tudo. Mas também, evitar abjura-la. Considerem que, no glossário subjetivo, não existe uma palavra que seja antônimo de política. Decerto não é antipolítica, nem apolítica. Estamos condenados a ela. É ontológico e constitutivo. Notem que mesmo a alienação está nela compreendida. Destarte, podemos vivencia-la sob uma compreensão mais elástica. Sem a ideologia como grade. A vida está sempre sob cerrado teste empírico. Quem abandona as experimentações estará se condenando a praticar inércia, não existência.

Por que será que somos obrigados a nos posicionar sobre tudo? A neutralidade seletiva pode ser higiênica para a saúde mental. Se ninguém é mesmo livre, precisamos assumir. Como Ernst Becker escancarou, somos negadores crônicos da morte. Se não há lugar, Estado ou condições de plena liberdade, e ao cabo, nosso fim terá o mesmíssimo destino, que tal exercer a micro história individual? Como se fosse um épico? Como se o último ato vigorasse a cada segundo? Trata-se de uma questão de proporção: a frequência de normalidade benéfica supera numa proporção de 10 para 1 as anomalias tétricas. O status quo é maçante? Muito melhor do que recusa-lo ou apostar em transformações inoperantes.

É preciso aceitar nossa neurose — mais até, usufrui-la — com a mesma resignação com que o vulcão decide fazer jorrar as perigosas ondas piroclásticas.  Quando se trata da natureza — e como somos parte dela  — mesmo com toda rede de sismógrafos integrados, ainda hoje não se pode prever a eclosão da lava com exatidão matemática. O essência do acaso é nao só a incognoscibilidade, mas o  incontrolável. Se a neurose é mesmo tão incurável como parece, que tal assimila-la?

Isso significa que o bem estar é uma escolha?  Provavelmente não. Quando descobrimos que a principal transcendência não é, nunca foi, exógena pode ser tarde. E se a tomássemos como somente um imenso efeito colateral das nossas posturas?

O mal estar na cultura denunciado por Freud é cíclico e pode nunca chegar ao fim. De qualquer forma, nós continuaremos aqui, de passagem. Somos mais do que teimosos: nunca nos renderemos.