Mutação da linguagem II – A obsolescência do conceito de dissuasão sobre fanáticos

Dissuadir : Desanimar, fazer cair os braços, arrefecer o entusiasmo, servir de freio, desengodar, entibiar, fazer frio a alguém, expulatório (Dicionário Analógico, Azevedo, F.F.S) 

Meus antepassados sempre temeram os eventos revolucionários e contra-revolucionários, em ambos eventos os judeus eram culpabilizados pelas políticas disruptivas da incompetência e das desmesuras dos governantes. E sempre funcionou. Como se sabe nazismo e comunismo repartiam, neste aspecto, as mesmas convicções, enquanto um se referia à “solução final” o outro o chamava de “problema judaico”. O que a guerra atual desvelou foi a falsa noção de estabilidade. E reativou fantasmas hibernados através da magia da iniciativa. Isto é, a decisão de agir para fazer o impensável.

As tropas russas romperam todas as linhas imagináveis ao promover a invasão da Ucrânia. Sob o mito do líder ousado e do heroísmo patriótico o presidente da Federação russa reabriu a a caixa de surpresas da história a qual, na verdade, nunca foi vedada. A ilusão de controle que o ocidente imaginava possuir foi subitamente desmantelada, e como em toda ameaça, a neurose trouxe uma resposta mais estoica do que efetiva. Do outro lado, o porta voz do exército que junto com aliados britânicos e americanos libertou a Europa de Adolf mostrou-se legítimo herdeiro do anedótico pacto de não agressão Stalin-Ribentropp que alinhavou o nacional socialismo alemão com o socialismo soviético. Enquanto continua anunciando que um dos objetivos é a desnazificação de um País cujo presidente é um ex comediante judeu que respondeu às múltiplas ofertas de exílio afirmando: “não preciso de carona, preciso de munição”. Aliás, a camiseta com a frase icônica está a venda na Amazon por U$ 18.

Minha hipótese diverge da maioria dos analistas.  Nunca houve “erro de cálculo“ de Putin ou “grosseira sub avaliação das inevitáveis represálias” já que a decisão do chefe maior das forças armadas nunca esteve baseado em “cálculos” mas sim em vontade de poder guiada por uma nostalgia fanática de um império que foi pulverizado por suas próprias vicissitudes. A ideia era acirrar o conflito latente. Traze-lo à vigência. Remontar uma nova cortina de ferro desta vez forrada com urânio enriquecido. Travar a batalha final. Acusar o “decadente inimigo ocidental” de ter feito das suas não ameniza o avanço infernal sobre milhões de vítimas civis.  As supostas ameaças que motivaram a invasão são álibis justificacionistas. Álibis que vem carreando o fio mitômano do regime pós-soviético. Eles nunca são desprovidos de racionalizações cujo suporte pode ser geopolítico ou simplesmente ideológico. E são estas justificativas que hoje os conduz com certa naturalidade à selvageria em Bucha, os dois mísseis balísticos que explodiram sobre civis na estação de trem de Kramatorsk, e sabe-se lá quantas outras indiscriminadas campanhas militares letais em larga escala.

A jogo do megalomaníaco com vasto poder é similar ao de um chantagista. Quando se tem ogivas em submarinos invisíveis a chantagem assume dimensões escatológicas. Por isso mesmo são sujeitos, ou grupo de pessoas, totalmente refratários ao argumento dissuasivo. Quiçá, imunes à qualquer argumentação. A pauta dissuasiva pode ou não funcionar para pessoas que tem no perigo da extinção individual ou coletiva uma clara linha demarcatória. Mas o que dizer das concepções pautadas em compreensões distorcidas?

Serão os tiranos — eleitos ou não através do voto popular — susceptíveis à ideia abstrata de que ao recorrer às técnicas de homicídio indiscriminado estarão adiante sujeitos à uma retaliação proporcional? Herbert Marcuse em seu célebre “Ideologia da Sociedade Industrial” escreveu que as armas nucleares poderiam paradoxalmente trazer a liberdade pelo saudável temor de extermínio mútuo. Bem, Marcuse estava equivocado. Não previu que uma casta de governantes delirantes, mesquinha, e sobretudo autocrática, sempre poderia chegar ao poder novamente. Sempre sob eleições inauditáveis, e, em alguns casos, sem o risco da concorrência já que em muitos regimes as urnas são curiosas e/ou a oposição não passa de um fantoche da situação. Para estes, jamais será possível compreender o refinado e subjetivo conceito de dissuasão.

Não, não é só o chefe da federação russa que sofre desses males, mas vários políticos de várias matizes. Porquanto, é incompreensível a parcimônia e a indulgência com crimes de guerra daqueles que identificam a atual diretoria do Kremlin com simpatia por ter um matiz “conservador”(sic) que estaria lutando “contra forças progressistas”(sic)  representadas por exemplo pela União Europeia. Que também apresenta dilemas morais. Na Alemanha, na hipótese de renúncia do gás e óleo russos, o PIB sofrerá uma queda de 6% e a recessão será inevitável em 2023. Vale dizer, melhor manter o fluxo do gasoduto do que interromper a máquina de guerra russa? É um cálculo dificílimo, mas o resultado seria evidente se a compaixão e a inteligência estivesse acima das razões econômicas. Portanto, nem uma coisa nem outra. A origem dos sonhos do revisionista Wladimir, é, em suas próprias palavras “restaurar a grandiosidade do império soviético” e suas ambições são “nobres” nesta guerra cuja missão é “libertar o povo ucraniano”. Não há blefe. Em seu sistema moral isso faz todo sentido, por isso mesmo o que ele representa é tão perigoso.

O ex-campeão mundial de xadrez, o dissidente russo exilado Garry Kasparov afirmou que, de fato, será preciso desnazificar a europa: começando pelos dirigentes russos. O fato desolador é que o nazismo e suas diversas vertentes que deveriam estar enterrados em valas sem identificação junto com seus fundadores via de regra reemergem, às vezes como ideia, vocábulo ou ideologia.

Para além da mutação da linguagem, os significados das palavras continuam em transe. Um transe que nos coloca diante de uma ruptura sem precedentes.

Não será apenas uma reedição de Babel, pode ser um longo caminho de terras devastadas.

Para variar, a história bem que poderia nos pregar uma peça favorável.

https://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/mutacao-da-linguagem-ii-a-obsolescencia-do-conceito-de-dissuasao/